Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 13 de 33

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Um General na Biblioteca

Olhos inimigos

 

PIETR O AN D AV A PELA R UA naquela manhã, quando teve uma sensação incômoda. Já fazia algum tempo que a sentia, sem se dar muito bem conta: era a sensação de ter alguém atrás de si, alguém que o estivesse olhando, sem ser visto.

Virou a cabeça de repente; estava numa rua meio afastada, com cercas nos muros e estacas de madeira cobertas de cartazes rasgados. Não passava quase ninguém; Pietro ficou aborrecido por ter cedido àquele impulso bobo de se virar; e prosseguiu, decidido a retomar o fio interrompido de seus pensamentos.

Era uma manhã de outono com um pouco de sol; o clima não estava muito propício a alegrias, e tampouco a apertos no coração. Mas, inconscientemente, o mal-estar continuava a pesar sobre ele; às vezes parecia concentrado em sua nuca, nas costas, como um olho que não o perdesse de vista, como uma presença de certa forma hostil que se aproximasse.

Para combater o nervosismo, sentiu necessidade de ficar no meio de gente: andou até uma rua mais movimentada, mas de novo, na esquina, parou para olhar para trás. Passou um ciclista, uma mulher atravessou a rua, mas ele não conseguia descobrir nenhuma ligação entre as pessoas, as coisas ao redor e a aflição que o corroía. Quando se virou, seu olhar encontrou o de outro passante, que também estava virando a cabeça para trás naquele momento. Juntos, logo tiraram os olhos um do outro, como se ambos estivessem procurando outra coisa. Pietro pensou: “Talvez aquele homem tenha se sentido olhado por mim. Talvez esta manhã eu não seja o único a ter essa irritante sensibilidade aguçada; talvez seja o tempo, o dia, que nos deixa nervosos”.

Era uma rua de movimento, e com essa ideia na cabeça ele observava as pessoas, e percebia certos pulinhos que davam, mãos que se levantavam quase até o rosto em gestos de enfaro, testas que se franziam como que tomadas por uma preocupação inesperada ou uma recordação desagradável. “Que dia desgraçado!”, Pietro repetia, “que dia desgraçado!”, e no ponto do bonde, batendo os pés, percebia que os outros que também esperavam com ele batiam os pés, reliam a placa das linhas de bonde como procurando algo que não estava escrito.

No bonde, o trocador errava ao dar o troco e se irritava; o motorneiro tocava a campainha contra os pedestres e as bicicletas, furioso e aflito; e os passageiros apertavam os dedos nas barras como náufragos no mar.

Pietro reconheceu a figura gorda de Corrado, que, sentado, não o estava vendo; olhava absorto para fora, pelo vidro, e escarafunchava uma bochecha com a unha.

— Corrado! — chamou-o por cima de sua cabeça.

O amigo se assustou. — Ah, é você! Não o tinha visto. Estava distraído.

— Estou achando-o nervoso — disse Pietro, e, dando-se conta de que tudo o que queria era identificar nos outros seu próprio estado, acrescentou: — Eu também estou meio nervoso hoje.

— E quem não está? — disse Corrado, e em seu rosto largo passou aquele sorriso paciente e irônico que convencia a todos a lhe darem ouvidos e confiança.

— Sabe qual é a minha impressão? — disse Pietro. — É de sentir uns olhos fixos em cima de mim.

— Olhos como?

— Olhos de alguém que já vi, mas que não lembro. Olhos frios, hostis...

— Olhos que praticamente não o observam, mas que você não consegue ignorar?

— É... olhos como...

— Como os alemães? — disse Corrado.

— Isso, como os olhos de um alemão.

— É, compreendo — disse Corrado, e abriu os jornais que segurava na mão —, com essas notícias... — Apontou as manchetes: “Kesselring anistiado...”, “Assembleias de ss...”, “Financiamentos americanos para o neonazismo...” — É por isso que estamos sentindo que eles vêm de novo para cima da gente...

— Ah, isso... Você acha que é isso... E por que sentimos só agora?... Kesselring, os ss também já havia antes, há um ano também, há dois anos... Talvez ainda estivessem na prisão, mas nós sabíamos muito bem que eles existiam, nunca nos esquecemos deles...

— O olhar — disse Corrado. — Você me dizia que sentia como um olhar. Até agora, eles não tinham esse olhar: ainda estavam de olhos baixos, e perdemos o hábito... Já eram ex-inimigos, odiávamos o que tinham sido, não o que eram agora. Inversamente, agora voltaram a ter o olhar de antes... o olhar de oito anos atrás, na nossa frente... Nós nos lembramos dele, recomeçamos a senti-lo diante de nós.

Tinham muitas recordações em comum, Pietro e Corrado, daqueles tempos. E em geral não eram recordações alegres.

O irmão de Pietro tinha morrido num lager. Pietro vivia com a mãe, na velha casa. Chegou em casa à noitinha. O portão fez o chiado de sempre, o cascalho rangeu sob os seus sapatos como na época em que se apurava o ouvido ao rumor do menor passo.

Por onde caminhava nesse momento o alemão que viera naquela noite? Talvez atravessasse uma ponte, costeasse um canal, uma fila de casas baixas iluminadas, lá na Alemanha cheia de carvão e ruínas; estava vestido à paisana, com um sobretudo preto abotoado até o pescoço, um chapéu verde, os óculos, e olhava, olhava para ele, Pietro.

Abriu a porta. — É você! — disse a voz da mãe. — Ah, até que enfim!

— Você sabia que eu voltaria a essa hora — disse Pietro.

— É, mas não via a hora — disse —, tive palpitação o dia inteiro... Não sei por quê... Essas notícias... Esses generais que voltam a comandar... a dizer que eles é que tinham razão...

— Você também! — disse Pietro. — Sabe o que Corrado diz? Que todos nós sentimos os olhos daqueles alemães em cima de nós... Por isso estamos todos nervosos... — e riu, como se fossem ideias só de Corrado.

Mas sua mãe estava passando a mão no rosto. — Diga, Pietro, vai haver guerra? Eles voltarão?

— Pois é — pensou Pietro —, até ontem, quando ouvíamos falar do perigo de uma nova guerra, não conseguíamos imaginar nada de específico, pois a velha guerra teve a cara deles, mas esta, sabe-se lá como seria. Agora, ao contrário, sabemos: a guerra reencontrou uma cara: e é de novo a deles.

Depois do jantar Pietro saiu; chovia.

— E então, Pietro — perguntou a mãe.

— O quê?

— Sair com este tempo...

— E daí?

— Nada... Não demore...

— Já faz tempo que eu sou adulto, mamãe...

— Está bem... Até logo...

A mãe fechou a porta, ficou escutando os passos no cascalho, o portão batendo. Ficou ouvindo a chuva que caía. A Alemanha era longe, atrás de todos os Alpes. Lá também chovia, talvez. Kesselring passeava de automóvel salpicando lama; o ss que levara seu filho ia a uma assembleia, com um impermeável preto brilhante, o velho impermeável dos militares. É verdade que naquela noite era bobagem ficar aflita; na noite seguinte também; talvez dali a um ano também. Mas não sabia até quando poderia não ficar aflita; na época da guerra também havia noites em que era possível não se sentir aflita, mas já se sentia aflição na noite seguinte.

Estava sozinha, lá fora havia o barulho da chuva. Através de uma Europa de chuva, os olhos dos antigos inimigos cortavam a noite, até ela.

— Eu vejo os olhos deles — pensou a mãe —, mas eles também verão os nossos. — E ficou parada, olhando fixo no escuro.