Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 23 de 33

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Um General na Biblioteca

A bomba de gasolina

 

EU D EV ER IA TER PEN SAD O AN TES, agora é tarde. Passou do meio-dia e meia e não me lembrei de pôr gasolina; os postos estão fechados até as três. Todo ano dois milhões de toneladas de petróleo bruto são extraídos da crosta terrestre, que as conservava por milhões de séculos nas dobras das rochas soterradas entre estratos de areia e argila. Se eu sair agora corro o risco de ficar enguiçado no caminho; já há algum tempo o ponteiro do nível do combustível me avisa que estou na reserva. Já há algum tempo me avisaram que as reservas mundiais do subsolo só poderão durar uns vinte anos. Tive todo o tempo para pensar nisso, sou o típico irresponsável: quando a luzinha vermelha no painel começa a piscar, não dou bola, ou fico protelando, penso que ainda há toda a reserva para ser usada, e depois isso me sai da cabeça. Não, talvez fosse em outros tempos que isso me acontecia, não dar bola, esquecer: quando a gasolina ainda parecia um bem ilimitado como o ar. Agora, o aviso luminoso me comunica uma sensação de alerta, de ameaça, indefinida, iminente; é essa a mensagem que recebo, que registro entre os tantos sinais de angústia que se depositam nas dobras de minha consciência e se diluem num estado de espírito que continuo a carregar comigo, sem dele tirar nenhuma consequência prática precisa, como seria encher o tanque na primeira bomba que encontro. Ou então é um instinto de poupar que me invade, um reflexo de avareza: como sei que o meu tanque está quase vazio, sinto então que diminuem as reservas nas refinarias, o fluxo dos oleodutos, a carga dos petroleiros que sulcam os mares; as sondas exploram as profundezas da terra e extraem apenas água suja; o meu pé no acelerador se conscientiza de que à mais leve pressão os últimos jorros da energia acumulada por nosso planeta vão sendo queimados; minha atenção se concentra em saborear as ondas subsistentes de combustível; aperto o pedal como se o reservatório fosse um limão a ser espremido sem desperdiçar uma gota; diminuo a marcha; não: acelero, a reação instintiva é que, quanto mais eu correr, mais economizarei quilômetros nesse impulso que poderia ser o último.

Não tenho confiança em sair da cidade sem ter enchido o tanque. Terei de encontrar um posto aberto. Começo a explorar as avenidas, ao longo das calçadas e dos canteiros centrais, onde florescem as tabuletas coloridas das marcas de gasolina, agora menos agressivas que antes, nos tempos em que tigres e outros animais míticos sopravam chamas nos motores. Toda vez deixo-me iludir com o cartaz “Aberto”, que serve apenas para avisar que aquele posto hoje está aberto nas horas de serviço e que, consequentemente, está fechado nas horas de fechamento. Às vezes há um empregado do posto sentado numa cadeira dobrável, comendo um sanduíche ou cochilando: ele abre os braços, o regulamento é igual para todos, meus gestos interrogativos são inúteis, eu já sabia disso antes. Foi-se o tempo em que tudo parecia fácil, o tempo em que se podia acreditar que as energias humanas estavam a nosso serviço de forma ilimitada, assim como as energias naturais: quando os postos de gasolina desabrochavam em nosso caminho, convidativos, um atrás do outro, em fila, com o homem de uniforme verde ou azul ou listrado, com a esponja pingando pronta para purificar o vidro contaminado pelo massacre dos enxames de mosquitos.

Ou, melhor dizendo: entre o fim dos tempos em que em certas profissões se trabalhava sem horário e o fim dos tempos em que se tinha a ilusão de que certos produtos de consumo nunca se consumiriam, há, bem no meio, uma era histórica inteira cuja duração varia de acordo com os países e as experiências individuais. Direi então que estou vivendo neste exato momento, simultaneamente, a ascensão, o apogeu, o declínio das sociedades ditas opulentas, assim como uma sonda rotativa passa através de milênios, de um instante a outro, ao perfurar as rochas sedimentares do Plioceno, do Cretáceo, do Triássico.

Vou fazendo um balanço de minha situação no espaço e no tempo, para confirmar os dados que me comunicam o marcador de quilometragem, zerado há pouco, o indicador do combustível, parado no zero, o relógio com o ponteiro mais curto ainda alto no primeiro quarto do mostrador. Nas horas meridianas, quando a Trégua da Água aproxima o tigre e o cervo sedentos do mesmo espelho de água barrenta, meu carro tenta em vão abeberar-se, e a Trégua da Nafta o expulsa de bomba em bomba. Nas horas meridianas do Cretáceo, os seres vivos boiavam na superfície do mar, enxames de algas minúsculas e conchas fininhas de plâncton, esponjas macias e corais cortantes, aquecendo-se ao calor solar, o qual continuará agindo através deles no longo périplo que a vida enfrenta mais além da morte, quando, reduzidos a uma leve chuva de detritos vegetais e animais, eles se depositam nos baixos fundos e se grudam no lodo, e com a passagem dos cataclismos são mastigados pelos maxilares das rochas calcárias, digeridos nas dobras anticlinais e sinclinais, liquefeitos em óleos espessos que remontam as obscuras porosidades subterrâneas, e ei-los jorrando no meio do deserto e se inflamando, trazendo à superfície da terra uma labareda do meio-dia primordial.

Eis que no meio do deserto do meio-dia urbano avistei um posto de gasolina aberto: paira em torno dele um enxame de automóveis. Não há empregados; é um desses postos que funcionam no sistema self-service. Os motoristas se movimentam, desembainhando os tubos cromados das bombas, param no meio de um gesto para ler as instruções, mãos meio inseguras apertam botões, serpentes de borracha arqueiam suas espirais retráteis. Minhas mãos manobram em torno de uma bomba, minhas mãos crescidas numa época de transição, habituadas a esperar de outras mãos a execução dos gestos mais indispensáveis à minha sobrevivência. Que esse estado de coisas não era definitivo eu sempre soube, em teoria; em teoria minhas mãos não esperam outra coisa além de reconquistarem suas aptidões para executar todos os trabalhos manuais do homem, tal como quando a natureza inclemente cercava o homem armado somente das próprias mãos, tal como hoje nos cerca o mundo mecânico, decerto mais fácil de ser manipulado do que a natureza bruta: o mundo onde, de agora em diante, as mãos de cada um de nós deverão de novo se virar sozinhas, não mais podendo solicitar de mãos alheias o trabalho mecânico de que depende a vida de todo dia.

Na prática, minhas mãos estão um pouco decepcionadas: o funcionamento da bomba é tão mais simples que a gente fica pensando por que, afinal, o uso do self-service não se difundiu há mais tempo. Mas a satisfação de fazer algo por si mesmo não é muito maior do que aquela que resulta de um distribuidor automático de balas ou de outra engenhoca caça-níqueis. As operações que exigem certa atenção referem-se apenas ao pagamento: basta enfiar uma nota de mil liras numa gavetinha, na posição certa, de modo que um olho fotoelétrico reconheça a efígie de Giuseppe Verdi ou talvez apenas o fino fio metálico que cruza cada nota de dinheiro. O valor das mil liras parece que se concentra totalmente naquele fio; quando a nota é engolida uma lampadazinha acende, e devo me apressar para inserir a tromba da bomba na boca do tanque, fazendo irromper o jato que vibra compacto em sua transparência irisada, me apressar para gozar desse dom nada apetitoso para os meus sentidos, mas avidamente cobiçado por essa parte de mim mesmo que é o meu meio de locomoção. Mal tenho tempo de pensar em tudo isso e eis que, num estalo seco, o fluxo se interrompe, as lampadazinhas se apagam, o complicado dispositivo posto em movimento poucos segundos antes já está parado e inerte, o despertar das forças telúricas que meus ritos tinham conseguido evocar durou um instante. Para as minhas mil liras reduzidas a um fio a bomba concede apenas um fio de gasolina. Onze dólares o barril, é o preço do óleo bruto.

Devo recomeçar a operação desde o início, enfiar outra nota, depois mais outras, mil liras de cada vez. O dinheiro e o mundo subterrâneo mantêm um velho laço de parentesco; a história deles se desenrola ao longo de cataclismos ora lentíssimos ora inesperados; enquanto estou me abastecendo no self-service, uma bolha de gás incha num lago negro submerso no fundo do Golfo Pérsico, um emir leva ao peito, em silêncio, as mãos escondidas nas largas mangas brancas, um computador da Exxon devora números num arranha-céu, uma frota de cargueiros em alto-mar recebe a ordem de mudar de rota, eu remexo meus bolsos, o poder filiforme do papel-moeda se desvanece.

Olho ao redor: fiquei sozinho no posto deserto. Terminou inesperadamente o vaivém dos automóveis em torno do único posto de abastecimento da cidade aberto a essa hora, como se justamente nessa hora tivesse se produzido, partindo da convergência dos lentos cataclismos, o repentino cataclismo final, talvez o esgotamento simultâneo de poços oleodutos cisternas bombas carburadores cárteres de óleo. O progresso tem seus riscos, o importante é poder dizer que os previmos. Já há tempos me acostumei a imaginar o futuro sem franzir o cenho, já vejo filas de automóveis abandonados invadidos por teias de aranha, a cidade reduzida a detritos de plástico, gente que corre levando sacos nas costas, perseguida pelos ratos.

De repente me dá uma vontade alucinante de escapar; e ir para onde? Não sei, não importa; talvez só para queimar esse pouco de energia que nos resta e concluir o ciclo. Desencavei uma última nota de mil liras para extrair mais uma dose de combustível.

Um carro esporte para no posto. A motorista, enrolada na espiral de seus cabelos caídos nos ombros, da echarpe, da gola grande de lã, levanta desse novelo um narizinho e diz: “Encha o tanque, da aditivada”.

Fico ali com o tubo no ar; já que é assim, os últimos octanos vou dedicar a ela, para que queimem deixando atrás de si pelo menos uma recordação de cores agradáveis à vista, num mundo em que tudo é tão pouco atraente: operações que executo, materiais que utilizo, salvações que posso esperar. Desenrosco a tampa do reservatório do carro esporte, meto ali o bico oblíquo da bomba, aperto o botão e, ao sentir o jato que finalmente penetra, sou tomado como pela recordação de um prazer distante, uma espécie de força vital graças à qual uma relação se instaura, agora uma corrente fluida passa entre mim e a desconhecida ao volante.

Ela se virou para me olhar, levanta os grandes óculos que usa, tem olhos verdes de uma transparência irisada. “Mas o senhor não é um empregado do posto... Mas o que está fazendo... Mas por quê...” Gostaria que ela entendesse que meu gesto é um ato extremo de amor, gostaria de envolvê-la no último jato de labaredas que o gênero humano ainda pode dizer que é seu, um ato de amor que é também um ato de violência, um estupro, um abraço mortal das forças subterrâneas.

Faço-lhe sinal para se calar e aponto para baixo, com a mão suspensa, como para avisar que o milagre poderia se interromper a qualquer momento, depois faço um gesto circular como para dizer que não há diferença, e pretendo dizer que por meu intermédio um Plutão negro se joga dos Infernos para raptar por intermédio dela uma flamejante Prosérpina, e assim a Terra, devoradora cruel de substâncias vivas, renova o seu ciclo.

Ela ri. Mostra dois jovens incisivos pontudos. Não sabe. Na prospecção de uma jazida na Califórnia emergiram esqueletos de animais de espécies extintas há cinquenta mil anos, entre eles um tigre de dentes de sabre, sem dúvida atraído por um espelho de água que se estendia pela superfície do negro lago de pez onde ele ficou preso e foi engolido.

Mas terminou o curto tempo que me foi concedido: a corrente se bloqueia, a bomba fica inerte, o abraço é interrompido. Faz-se um grande silêncio, como se todos os motores tivessem suspendido suas explosões, e a vida rolante do gênero humano houvesse parado. No dia em que a crosta terrestre reabsorver as cidades, o sedimento de plâncton que foi o gênero humano será coberto por estratos geológicos de asfalto e cimento, e daqui a milhões de anos se adensará em jazidas oleosas, não sabemos em proveito de quem.

Olho-a nos olhos: não entende, talvez só agora comece a ter medo. Agora, conto até cem: se esse silêncio continuar, vou pegá-la pela mão e começaremos a correr.