Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 29 de 33

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Um General na Biblioteca

O espelho, o alvo

 

N A M IN H A JUV EN TUD E, eu passava horas e horas diante do espelho fazendo caretas. Não que meu rosto me parecesse tão bonito a ponto de eu jamais me cansar de olhá-lo; pelo contrário, não o suportava, meu rosto, e fazer caretas me dava a possibilidade de tentar rostos diferentes, rostos que apareciam e eram logo substituídos por outros rostos, de modo que eu podia acreditar que era outra pessoa, muitas pessoas, de todo tipo, uma multidão de indivíduos que em rodízio se tornavam eu, isto é, eu me tornava eles, isto é, cada um deles se tornava um outro deles, e enquanto isso era como se eu não estivesse ali.

Às vezes, depois de ter tentado três ou quatro rostos diferentes, ou até dez ou doze, eu me convencia de que um entre todos era o meu preferido, e procurava fazê-lo reaparecer, mexer de novo minhas feições de maneira a moldá-las na fisionomia que me caía tão bem. Pois sim! Uma careta, quando desaparecia, não havia mais jeito de apanhá-la, de fazê-la coincidir de novo com o meu rosto. Ao persegui-la, eu assumia rostos sempre diferentes, rostos desconhecidos, estranhos, hostis, que pareciam me afastar cada vez mais daquele rosto perdido. Eu parava de fazer caretas, apavorado, e reaparecia o meu rosto de sempre, que para mim era mais insípido do que nunca.

Mas esses meus exercícios nunca duravam muito. Sempre acontecia de surgir uma voz e me trazer à realidade.

Fulgenzio! Fulgenzio! Onde Fulgenzio se meteu? Sempre a mesma coisa! Sei muito bem como ele passa os dias, esse imbecil! Fulgenzio! De novo pegamos você diante do espelho fazendo caretas!

Freneticamente eu improvisava caretas de culpado pego em flagrante, de soldado que fica em posição de sentido, de bom menino obediente, de idiota congênito, de gângster, de anjinho, de monstro, uma careta depois da outra.

Fulgenzio, quantas vezes precisamos lhe dizer para não se fechar em si mesmo! Olhe para fora das janelas! Veja como a natureza é luxuriante, como verdeja, sussurra, esvoaça, desabrocha! Veja como a cidade laboriosa ferve, palpita, freme, forja, produz! E cada um de meus familiares, de braço levantado, me indicava alguma coisa lá na paisagem, alguma coisa que segundo eles teria o poder de me atrair, entusiasmar, comunicar-me a energia que — ainda segundo eles — me faltava. Eu olhava, olhava, seguia com os olhos os indicadores deles, apontados, me esforçava para me interessar ao que me propunham pai mãe tias tios avós avôs irmãos mais velhos irmãs mais velhas irmãs e irmãos menores primos de primeiro segundo terceiro grau professores bedéis substitutos colegas de escola colegas de férias. Mas, realmente, não conseguia achar nada de extraordinário nas coisas tal como eram.

Em compensação, atrás das coisas talvez se escondessem outras coisas, e estas, estas, sim, podiam me interessar, e até me enchiam de curiosidade. De vez em quando eu via aparecer e desaparecer alguma coisa, ou um homem, ou uma mulher, não dava tempo de identificar essas aparições, e de repente eu me lançava e ia persegui-las. Era o avesso de cada coisa que despertava a minha curiosidade, o avesso das casas, o avesso dos jardins, o avesso das ruas, o avesso das cidades, o avesso dos televisores, o avesso das lava-louças, o avesso do mar, o avesso da lua. Mas, quando eu conseguia alcançar o avesso, compreendia que o que eu buscava era o avesso do avesso, e até o avesso do avesso do avesso, não; o avesso do avesso do avesso...

Fulgenzio, o que você está fazendo? Fulgenzio, o que está procurando? Está procurando alguém, Fulgenzio? Eu não sabia o que responder.

Às vezes, no fundo do espelho, atrás de minha imagem, eu tinha a impressão de ver uma presença que não me dava tempo de identificar e que de repente se escondia. Eu procurava observar no espelho, não eu mesmo, mas o mundo atrás de mim: nada chamava a minha atenção. Eu estava quase desviando o olhar e eis que, então, a via à espreita, do outro lado do espelho. Flagrava-a sempre de rabo do olho, ali onde eu menos esperava, mas, assim que tentava fixá-la, ela desaparecia. Apesar da rapidez de seus movimentos, essa criatura era flutuante e macia como se nadasse debaixo da água.

Eu largava o espelho e começava a procurar o ponto onde a vira desaparecer. — Ottilia! Ottilia! — eu chamava, pois gostava desse nome e pensava que uma moça que me agradasse não podia ter outro nome. — Ottilia! Onde você se esconde? — Eu sempre tinha a impressão de que ela estava bem perto, ali na frente, não: ali atrás; não, ali no canto, mas eu sempre chegava um segundo depois que ela se deslocara. — Ottilia! Ottilia! — Mas se me tivessem perguntado: quem é Ottilia?, não saberia o que dizer.

Fulgenzio, a gente tem de saber o que quer! Fulgenzio, não se pode ser sempre tão vago em seus propósitos! Fulgenzio, você tem de se propor um objetivo a alcançar — uma finalidade — um intento — um alvo — tem de avançar até a sua meta — deve aprender a lição, deve ser aprovado no concurso, deve ganhar tanto e poupar tanto!

Eu mirava o ponto de chegada, concentrava minhas forças, tendia minha vontade, mas o ponto de chegada era de saída, minhas forças eram centrífugas, minha vontade só tendia a se distender. Eu fazia todo o possível, me empenhava em estudar japonês, conseguir o diploma de astronauta, vencer o campeonato de levantamento de peso, juntar um bilhão em moedas de cem liras.

Siga reto o seu caminho, Fulgenzio! E eu tropeçava. Fulgenzio, não se desvie da linha que se traçou! E eu me embrenhava num zigue-zague, para lá e para cá. Pule por cima dos obstáculos, meu filho! E os obstáculos caíam em cima de mim.

Acabei perdendo a coragem, a tal ponto que nem mais as caretas no espelho vinham me ajudar. O espelho não refletia mais o meu rosto e nem sequer a sombra de Ottilia, mas só uma área de pedras dispersas como na superfície da lua.

Para fortalecer minha personalidade, comecei a me exercitar no tiro ao alvo. Meus pensamentos e minhas ações deviam se transformar em dardos arremessados no ar, percorrendo a linha invisível que termina num ponto exato, no centro de todos os centros. Mas eu não tinha pontaria. Meus dardos nunca atingiam o alvo.

O alvo me parecia tão longe como um outro mundo, um mundo todo de linhas precisas, cores nítidas, regular, geométrico, harmonioso. Os habitantes desse mundo só deviam fazer gestos exatos, percucientes, sem vacilações; para eles só deviam existir as linhas retas, os círculos traçados a compasso, os ângulos feitos com esquadro...

Quando vi Corinna pela primeira vez, compreendi que aquele mundo perfeito era feito para ela, e dele eu ainda estava excluído.

Corinna puxava o arco e zvlann! zvlann! zvlann!, uma flecha após outra se cravava no meio.

— Você é uma campeã?

— Mundial.

— Sabe esticar o arco de tantas maneiras diferentes, e toda vez a trajetória da flecha atinge o alvo. Como você faz?

— Você acha que eu estou aqui e o alvo ali. Não: eu estou aqui e ali, sou quem atira e sou o alvo que atrai a flecha, e sou a flecha que voa e o arco que dispara a flecha.

— Não entendo.

— Se um dia você também se tornar um de nós, entenderá.

— Eu também posso aprender?

— Posso lhe ensinar.

Na primeira aula Corinna me disse:

— Para dar ao seu olhar a firmeza que falta a você, olhe o alvo longa, intensamente. Olhá-lo apenas, fixo, até se perder ali dentro, convencer-se de que no mundo só existe o alvo, e que no centro do centro está você.

Eu contemplava o alvo. A visão dele sempre me comunicara um sentimento de certeza; mas agora, quanto mais o contemplava, mais essa certeza cedia lugar às dúvidas. Por instantes as zonas vermelhas me pareciam em relevo sobre as zonas verdes, em outros momentos via os verdes sobrelevados enquanto os vermelhos pareciam mais profundos. Abriam-se desníveis entre as linhas, precipícios, abismos, o centro estava no fundo de um sorvedouro ou na ponta de uma agulha, os círculos abriam perspectivas vertiginosas. Parecia que do meio das linhas do desenho iria sair a mão de alguém, um braço, uma pessoa... Ottilia!, eu logo pensava. Mas me apressava em afastar da mente esse pensamento. Era Corinna que eu tinha de seguir, não Ottilia, cuja imagem bastava para que o alvo desaparecesse, como uma bolha de sabão.

Na segunda aula Corinna me disse:

— O arco dispara a flecha quando relaxa, mas para isso ele tem primeiro de estar bem esticado. Se você quiser ser tão exato quanto um arco, tem de aprender duas coisas: concentrar-se em si mesmo e deixar toda a tensão fora de você.

Eu me contraía e relaxava como uma corda de arco. Fazia zvlann!, mas depois fazia zvlinn! e zvlunn!, vibrava como uma harpa, as vibrações se propagavam no ar, abriam parênteses de vazio, de onde os ventos tomavam impulso. Entre os zvlinn! e os zvlunn!, uma rede se balançava. Eu subia em espiral, ficava preso no espaço, e era Ottilia que eu via embalar-se na rede entre os arpejos. Mas as vibrações se extinguiam. E eu despencava.

Na terceira aula Corinna me disse:

— Imagine que você é uma flecha e corra para o alvo.

Eu corria, fendia o ar, me convencia de ser parecido com uma flecha. Mas as flechas com as quais eu me parecia eram flechas que se perdiam em todas as direções menos na direção certa. Eu corria para apanhar as flechas caídas. Penetrava em áreas desoladas e pedregosas. Era a minha imagem refletida por um espelho? Era a lua?

Entre as pedras eu reencontrava minhas flechas rombudas, cravadas na areia, tortas, despenadas. E ali no meio estava Ottilia. Passeava tranquila como se estivesse num jardim, colhendo flores e caçando borboletas.

Eu — Por que você está aqui, Ottilia? Onde estamos? Na lua?

Ottilia — Estamos no avesso do alvo.

Eu — E todos os tiros perdidos terminam aqui?

Ottilia — Perdidos? Nenhum tiro é perdido.

Eu — Mas aqui as flechas não têm nada para atingir.

Ottilia — Aqui as flechas criam raízes e se transformam em florestas.

Eu — Só vejo cacos, gravetos, caliças.

Ottilia — Muitas caliças, umas em cima das outras, fazem um arranha-céu. Muitos arranha-céus, uns em cima dos outros, fazem uma caliça.

Corinna — Fulgenzio! Onde você foi parar? O alvo!

Eu — Tenho de ir embora, Ottilia. Não posso ficar aqui com você. Tenho de fazer pontaria na outra face do alvo...

Ottilia — Por quê?

Eu — Aqui tudo é irregular, opaco, disforme...

Ottilia — Olhe bem. Pertinho, bem pertinho. O que está vendo?

Eu — Uma superfície granulosa, mosqueada, calombenta.

Ottilia — Passe entre um calombo e outro, entre um grão e outro, entre uma veia e outra. Encontrará o portão de um jardim, com canteiros verdes e piscinas límpidas. Eu estou lá no fundo.

Eu — Tudo o que toco é áspero, árido, frio.

Ottilia — Passe lentamente a mão pela superfície. É uma nuvem macia como chantilly...

Eu — Tudo é uniforme, surdo, compacto...

Ottilia — Abra bem os olhos e os ouvidos. Ouça o fervilhar e o clarão da cidade, janelas e vitrines iluminadas, e as buzinas e o carrilhão, e as pessoas brancas e amarelas e pretas e vermelhas, vestidas de verde e azul e laranja e açafrão.

Corinna — Fulgenzio! Onde você está?!

Agora eu já não podia me separar do mundo de Ottilia, da cidade que também era nuvem e jardim. As flechas, aqui, em vez de irem retas faziam muitas reviravoltas, longas linhas invisíveis que se emaranhavam e se desembaraçavam, se enovelavam e enrolavam, mas no final sempre atingiam o alvo, talvez um alvo diferente daquele que se esperava.

O fato estranho era o seguinte: quanto mais eu me dava conta de que o mundo era complicado, acidentado, inextricável, mais me parecia que as coisas que deviam realmente ser entendidas eram poucas e simples, e se eu as entendesse tudo ficaria claro como as linhas de um desenho. Gostaria de dizer isso a Corinna, ou a Ottilia, mas já fazia algum tempo que não as encontrava, nem uma nem outra, e, mais um fato estranho, em meus pensamentos volta e meia eu confundia uma com a outra.

Por muito tempo não me olhei mais no espelho. Um dia, por acaso, passando diante de um espelho, vi o alvo, com todas as suas lindas cores. Tentei me pôr de perfil, de três quartos: via sempre o alvo. — Corinna! — exclamei. — Estou aqui, Corinna! Olhe: sou como você gostaria que eu fosse! — Mas depois pensei que o que eu via no espelho não era só eu, mas também o mundo, portanto, Corinna, eu devia procurá-la ali, entre aquelas linhas coloridas. E Ottilia? Talvez Ottilia também estivesse ali, aparecendo e desaparecendo. Era Corinna ou Ottilia que, se fixasse o alvo-espelho por muito tempo, eu via aparecer entre os círculos concêntricos?

Às vezes tenho a impressão de encontrá-la, uma ou outra, no vaivém da cidade, e a impressão de que ela quer me dizer alguma coisa, mas isso acontece quando dois trens do metrô se cruzam correndo em direções opostas, e a imagem de Ottilia — ou de Corinna? — vem ao meu encontro e escapa e é seguida por uma série de rostos rapidíssimos, enquadrados pelas janelas como as caretas que eu fazia antigamente no meu espelho.