A Filha
Livro
UM
Capítulo I
1
ANN PRENTICE ficou acenando, parada na plataforma da Estação Vitória.
O trem pôs-se em marcha com uma série de arrancos decididos, a cabeça escura de Sarah desapareceu, e Ann voltou-se e caminhou vagarosamente pela plataforma em direção à saída.
Foi tomada por aquelas sensações estranhamente confusas que às vezes nos assaltam ao nos despedirmos de alguém muito querido.
Querida Sarah — como sentiria falta dela... É claro que seria apenas por três semanas... Mas o apartamento ia parecer tão vazio... Só ela e Edith, duas insípidas mulheres de meia-idade...
Sarah era animada, tão viva, tão positiva acerca de tudo... E, no entanto, ainda um bebê tão adorável de cabelos negros...
Que horror! Que maneira de pensar! Como isso deixaria Sarah tremendamente irritada! A única coisa que Sarah e todas as outras garotas da idade dela pareciam fazer questão era de uma atitude de displicente indiferença por parte dos pais. “Não exagere, Mamãe”, diziam insistentemente.
Aceitavam, é claro, tributos em espécie: que levassem suas roupas à lavanderia, fossem buscá-las e geralmente pagassem por elas; que dessem telefonemas difíceis (“Se você telefonar a Carol será tão mais fácil, Mamãe”); que limpassem a constante desordem (“Querida, eu tinha intenção de dar um jeito nas minhas coisas, mas tenho que sair simplesmente voando”).
“Agora, quando eu era moça”, refletiu Ann.
Seus pensamentos retrocederam. Sua casa fora antiquada. A mãe tinha mais de quarenta anos quando ela nasceu, o pai era ainda mais velho, tinha quinze ou dezesseis anos mais que a esposa. A casa era administrada da maneira que o pai gostava.
O carinho que existia fora sempre claramente demonstrado: “Essa é minha menininha querida”; “Mimosa do papai”; “Posso lhe ajudar em alguma coisa, Mamãe querida?”.
Arrumar a casa, levar pequenos recados, pagar contas, redigir convites e cuidar da correspondência social, tudo isso era tarefa de Ann, que ela aceitava como obrigação. As filhas existiam para servir aos pais — não o inverso.
Ao passar perto da banca de livros, Ann de repente perguntou a si mesma: “Qual será o melhor?”
Surpreendentemente, não parecia uma pergunta fácil de responder.
Passando os olhos pelas publicações expostas (alguma coisa para ler esta noite, diante do fogo), chegou à inesperada conclusão de que aquilo realmente não tinha importância. Era tudo convenção, nada mais que isso. Como usar gíria. Numa determinada época a gente dizia que as coisas eram “o máximo”, ou então que eram “divinas”, depois que eram “maravilhosas”, e que “não se podia estar mais de acordo”, e que se era “louco” por isto, aquilo e mais aquilo.
Os filhos serviam aos pais, ou os pais serviam aos filhos — isso não fazia diferença na relação básica vital entre as pessoas. Ann acreditava que entre ela e Sarah havia um amor profundo e verdadeiro. Entre ela e sua própria mãe? Recordando, pensou que sob a aparente ternura e afeição houvera, na verdade, aquela indiferença afável e displicente que era moda adotar hoje em dia.
Sorrindo consigo mesma, Ann comprou um livro de bolso, que lembrava ter lido e apreciado alguns anos antes. Talvez pudesse parecer um pouco sentimental agora, mas isso não tinha importância, uma vez que Sarah não estaria ali...
Ann pensou: “Vou sentir falta dela — claro que vou — mas vai ser um bocado tranqüilo...”
E pensou: “Será também um descanso para Edith. Ela se aborrece quando estão sempre mudando os planos e alterando o horário das refeições”.
Porque Sarah e seus amigos estavam permanentemente numa maré de ir e vir e telefonar, mudando de planos: “Mamãe querida, podemos comer mais cedo? Queremos ir ao cinema”. “É você, Mamãe? Telefonei para avisar que não vou estar em casa para o almoço, afinal”.
Para Edith, aquela fiel servidora há mais de vinte anos, trabalhando agora três vezes mais do que se esperara dela no início, tais interrupções da vida normal eram extremamente irritantes.
Como dizia Sarah, Edith seguidamente ficava azeda.
Não que Sarah não soubesse levar Edith, e sempre que quisesse. Edith podia rezingar e resmungar, mas adorava Sarah.
Seria tudo muito silencioso, sozinha com Edith. Tranqüilo — mas silencioso demais... Uma estranha sensação de frio fez Ann estremecer... Pensou: “Nada além do silêncio, agora”. Silêncio, avançando pelas veredas da velhice até chegar à morte. Nada mais a esperar.
“Mas o que quero, afinal?” perguntou a si mesma. “Tive tudo. Amor e felicidade com Patrick. Uma filha. Tive tudo que quis da vida. Agora... acabou. Agora Sarah vai continuar onde eu parei. Vai casar, ter filhos. Serei avó.”
Sorriu. Gostaria de ser avó. Imaginou crianças espertas e bonitas, filhos de Sarah. Garotinhos travessos, com o cabelo preto e rebelde da mãe, menininhas rechonchudas. Leria para eles... contaria histórias...
A idéia a fez sorrir — mas a sensação de frio persistia . Se ao menos Patrick ainda vivesse... A mágoa antiga e rebelde despertou. Fora há tanto tempo (Sarah tinha apenas três anos), tanto tempo, que a perda e a agonia tinham cicatrizado. Podia pensar em Patrick com ternura, sem angústia. O marido jovem e impetuoso que ela tanto amara, tão longe agora — longe, no passado.
Mas hoje a revolta despertou outra vez. Se Patrick ainda estivesse vivo, Sarah sairia de perto deles — para a Suíça, praticar esportes de inverno, para um marido e um lar no devido tempo — e ela e Patrick estariam ali juntos, mais velhos, mais tranqüilos, mas partilhando a vida, com seus altos e baixos. Não estaria sozinha...
Ann Prentice saiu para o pátio apinhado da estação. Pensou consigo: “Que sinistros parecem todos esses ônibus vermelhos — formados em linha como monstros à espera de comida”. Era fantástico como pareciam ter vida própria — uma vida que era, talvez, hostil ao seu criador, o Homem. Que mundo atarefado, barulhento, era esse — todos indo e vindo, correndo, apressando-se, falando, rindo, reclamando, um mundo de encontros e despedidas.
E de repente, mais uma vez, sentiu aquela dor aguda de solidão.
Pensou: “Era hora de Sarah se afastar; estou ficando por demais dependente dela. E talvez a esteja tornando dependente demais de mim. Não devo fazer isso. Não devemos agarrar-nos aos jovens, impedi-los de levar suas próprias vidas. Isso seria cruel — realmente cruel.”
Devia eclipsar-se, manter-se bem ao fundo, encorajar Sarah a fazer seus próprios planos, seus próprios amigos.
E então sorriu, porque na verdade não havia necessidade alguma de encorajar Sarah. Sarah tinha montes de amigos e estava sempre fazendo planos, correndo de um lugar para outro com a máxima segurança e alegria. Adorava a mãe, mas a tratava com amável condescendência, como alguém incapaz de compreender e participar devido à idade avançada.
Como quarenta e um anos pareciam a Sarah uma idade avançada — enquanto para Ann era um verdadeiro esforço pensar em si mesma como uma mulher de meia-idade. Não que ela tentasse fazer o tempo parar. Quase não usava pintura, e suas roupas ainda tinham o ar levemente provinciano de uma jovem senhora em visita à cidade: simples casacos e saias, e um fiozinho de pérolas verdadeiras. Ann suspirou.
—Não sei por que estou tão tola — disse a si mesma em voz alta. — Acho que foi a despedida de Sarah.
O que diziam os franceses? Partir, c’est mourir un peu...
Sim, era verdade... Sarah, arrebatada por aquele trem majestoso e arquejante, estava, no momento, morta para sua mãe. “E eu para ela”, pensou Ann. “Uma coisa curiosa, a distância. Separação no espaço...”
Sarah vivendo uma vida. Ela, Ann, vivendo outra... Sua própria vida.
Uma sensação ligeiramente agradável substituiu a angústia que sentira anteriormente. Agora poderia escolher quando levantar, o que fazer... poderia planejar seu dia. Poderia ir cedo para a cama, com o jantar numa bandeja, ou ir a um teatro, ou um cinema. Ou tomar um trem para o campo e sair a passear. .. ca-minhando pela mata sem folhas, com o céu azul aparecendo por entre o intrincado desenho dos galhos.
Naturalmente, ela podia fazer todas essas coisas a qualquer hora que quisesse. Mas quando duas pessoas vivem juntas, há uma tendência para que uma vida molde a outra. Ann divertira-se bastante, indiretamente, com as animadas idas e vindas de Sarah.
Sem dúvida era muito divertido ser mãe. Era como repetir a própria vida, sem muitas das agonias da juventude. Uma vez que se sabia como certas coisas tinham pouca importância, era possível sorrir com indulgência frente às crises que surgiam.
—Mas francamente, Mamãe — diria Sarah com veemência, — é tremendamente sério, não deve achar graça. Nádia acha que todo seu futuro está em jogo!
Mas, aos quarenta e um, a gente já aprendeu que muito raramente todo o futuro está em jogo. Que a vida é muito mais elástica e resiliente do que se pensara um dia.
Quando serviu numa ambulância, durante a guerra, Ann percebeu pela primeira vez como as pequenas coisas eram importantes. As pequenas invejas e ciúmes, os pequenos prazeres, a fricção de um colarinho, uma frieira dentro de um sapato apertado — tudo isso parecia muito mais importante no momento do que o fato iminente de que se podia ser morto a qualquer instante. Esse pensamento deveria ser grave e esmagador, mas na realidade as pessoas se acostumavam rapidamente a ele — e as pequenas coisas cresciam de importância, talvez exageradas só porque, no fundo, havia a idéia de restar muito pouco tempo. Apren-dera também alguma coisa sobre curiosas inconsistências da natureza humana, de como era difícil classificar as pessoas como “boas” ou “más”, como se vira inclinada a fazer nos seus dias de dogmatismo juvenil. Tinha visto pessoas demonstrarem inacreditável coragem ao socorrer uma vítima, e depois se rebaixarem a roubar uma ninharia daquele que acabavam de salvar. Na verdade, as pessoas tinham várias facetas.
Enquanto hesitava, de pé no meio-fio, a buzina estridente de um táxi trouxe Ann de volta a considerações mais práticas, fazendo-a abandonar as reflexões abstratas. O que deveria fazer agora, neste momento? Naquela manhã não pensara em nada além de assistir à partida de Sarah.
Hoje à noite sairia para jantar com James Grant. Querido James, sempre tão bom e atencioso. “Você vai se sentir um pouco deprimida com a ausência de Sarah. Vamos sair e festejar.” Realmente, era muita bondade de James. Bem o tipo de coisa que faria Sarah rir e chamá-lo de “O seu namorado pukka Sahib, querida”. James era uma ótima pessoa. Podia ser às vezes um pouco difícil manter a atenção quando contava uma de suas histórias muito compridas e confusas, mas ele tinha tanto prazer em contá-las, e afinal de contas, se a gente conhece alguém há vinte e cinco anos, o mínimo que se pode fazer é escutá-lo amavelmente.
Ann olhou o relógio. Poderia ir até às lojas Army and Navy. Edith estava querendo algumas coisas para a cozinha. Essa decisão resolveu seu problema imediato. Mas durante todo o tempo em que examinou caçarolas e perguntou preços (realmente fantásticos, agora!), esteve consciente daquele estranho pânico frio no fundo de sua mente.
Afinal, num impulso, entrou numa cabine telefônica e discou um número.
— 1 Posso falar com Dame Laura Whitstable, por favor?
1 Dame — titular feminina da Ordem do Império Britânico, correspondente a Knight (anteposto ao nome próprio, corresponde a Sir) (N. do T.)
— Quem fala?
— A Sra. Prentice.
— Só um momento, Sra. Prentice.
Houve uma pausa, e então uma voz profunda, ressonante, falou:
— Ann?
— Oh, Laura, sei que não devia telefonar a esta hora do dia, mas acabo de me despedir de Sarah, e pensei se você estaria terrivelmente ocupada hoje...
A voz disse, em tom decidido:
— É melhor almoçar comigo. Pão de centeio e coalhada. Serve?
— Qualquer coisa serve. Você é um anjo.
— Estarei esperando. A uma e um quarto.
2
Faltava um minuto para a uma e quinze quando Ann pagou o táxi, na Rua Harley, e tocou a campainha.
O eficiente Harknesse abriu a porta, acolheu-a com um sorriso, e disse:
— Queira subir, Sra. Prentice. Dame Laura talvez ainda demore alguns minutos.
Ann subiu agilmente as escadas. A sala de jantar da casa era agora uma sala de espera, e o andar de cima fora convertido num confortável apartamento. Na sala de estar havia uma mesinha, posta para uma refeição. A peça em si parecia muito mais pertencer a um homem do que a uma mulher: poltronas grandes e confortáveis, uma profusão de livros, alguns dos quais empilhados nas cadeiras, e coloridas cortinas de veludo de boa qualidade.
Ann não precisou esperar muito. Dame Laura, sua voz a precedê-la nas escadas como um fagote triunfante, entrou na sala e beijou afetuosamente a con-vidada .
Dame Laura Whitstable era uma mulher de sessenta e quatro anos. Tinha em torno dela a aura que envolve a realeza, ou conhecidas figuras públicas. Tudo nela era um pouco maior do que o normal: a voz, o busto firme como uma plataforma, as massas empilhadas de cabelo cinza escuro, o nariz que mais parecia um bico.
— Que prazer vê-la, minha querida criança — disse com estrondo. — Está muito bonita, Ann. Vejo que comprou um ramo de violetas. Soube escolher. É a flor com que você mais se parece.
— A tímida violeta? Francamente, Laura.
— Doçura de outono, bem escondida pelas folhas.
— Não parece coisa sua, Laura. Você é sempre tão rude.
— Descobri que compensa, mas às vezes é um esforço e tanto. Vamos comer logo. Basset, onde está Basset? Ah, cá está. Vai gostar de saber que há um filé de peixe para você, Ann. E um copo de vinho branco.
— Oh, Laura, você não devia. Coalhada e pão de centeio seriam mais que suficientes.
— Só há coalhada que chegue para mim. Vamos, sente. Então Sarah foi para a Suíça? Por quanto tempo?
— Três semanas.
— Que bom.
A angulosa Basset deixara a sala. Bebericando seu copo de coalhada com toda aparência de satisfação, Dame Laura disse judiciosamente:
— E você vai sentir falta dela. Mas não me telefonou nem veio aqui para me dizer isso. Vamos, Ann, diga-me. Não temos muito tempo. Sei que me aprecia, mas quando as pessoas telefonam e querem minha companhia dentro de um prazo mínimo, geralmente a atração é minha superior sabedoria.
— Sinto-me horrivelmente culpada — disse Ann em tom de desculpa.
— Bobagem, minha cara. Na verdade, é quase um elogio.
Ann disse apressadamente:
— Laura, sou uma perfeita idiota, sei disso! Mas fiquei numa espécie de pânico. Lá na Estação Vitória, com todos aqueles ônibus! Senti-me tão... senti-me tão terrivelmente só!
— Si. . . sim, eu entendo.
— Não era só que Sarah ia embora e eu ia sentir falta dela. Era mais que isso...
Laura Whitstable inclinou a cabeça, enquanto seus astutos olhos cinzentos observavam calmamente Ann.
Ann falou vagarosamente:
— Porque, afinal, na verdade a gente está sempre só...
— Ah, então descobriu isso? A gente descobre, mais cedo ou mais tarde. Curiosamente, é sempre um choque. Que idade você tem, Ann? Quarenta e um? Uma idade muito boa para fazer sua descoberta. Se a gente deixa para muito tarde, pode ser devastador. Se descobre cedo demais, precisa-se de um bocado de coragem para aceitar.
— Você alguma vez já se sentiu realmente sozinha, Laura? — perguntou Ann, curiosa.
— Oh, sim. Aconteceu quando eu tinha vinte e seis anos... foi até em meio a uma reunião familiar das mais cordiais. Fiquei surpresa e assustada... mas aceitei. Nunca negue a verdade. É preciso aceitar o fato de que temos apenas um companheiro neste mundo, um companheiro que nos segue do berço à sepultura: nós mesmos. Mantenha boas relações com esse companheiro... aprenda a viver consigo mesma. Essa é a resposta. Nem sempre é fácil.
Ann suspirou.
— A vida pareceu absolutamente sem sentido... estou lhe contando tudo, Laura... nada mais que anos vazios até perder de vista. Oh, acho que não passo de uma mulher tola e inútil...
— Ora, ora, conserve o bom-senso. Você fez um trabalho muito bom, eficiente e nada espetacular durante a guerra; educou Sarah, ensinando-lhe boas maneiras e como aproveitar a vida; e você mesma, a seu modo tranqüilo, goza a vida. Isso tudo é muito satisfatório. De fato, se você viesse ao meu consultório, eu a mandaria embora sem nem ao menos cobrar a consulta. . . e eu sou uma velha gananciosa.
— Laura, querida, você é muito animadora. Mas penso que, na verdade, eu me preocupo demais com Sarah.
— Bobagem!
— Tenho sempre tanto medo de me tornar uma dessas mães possessivas, que positivamente devoram os filhos!
Laura Whitstable disse secamente:
— Falam tanto em mães possessivas, que algumas mulheres têm medo de mostrar uma afeição normal pelos filhos!
— Mas ser possessiva é um mal!
— Claro que é. Eu encontro isso todos os dias. Mães que conservam os filhos amarrados às tiras do avental, pais que monopolizam as filhas. Mas nem sempre é inteiramente culpa deles. Certa vez tive um ninho de passarinhos em meu quarto, Ann. No devido tempo as avezinhas deixaram o ninho, mas havia uma que não queria ir. Queria ficar, queria ser alimentada, recusava-se a encarar o momento de se atirar da bordado ninho. Isso perturbava muito a mãe-pássaro. Ela mostrava ao filho, descia voando da borda várias vezes, gorjeava, batia as asas. Finalmente, deixou de alimentá-lo. Trazia comida no bico, mas ficava a chamá-lo do outro lado do quarto. Bem, há seres humanos assim. Crianças que não querem crescer, que não querem encarar as dificuldades da vida adulta. Não é pela educação. São elas mesmas.
Fez uma pausa antes de continuar:
— Há o desejo de ser possuído, assim como o desejo de possuir. É um caso de amadurecimento tardio? Ou alguma falta de elementos essenciais à maturidade? Ainda sabemos muito pouco sobre a personalidade humana.
— De qualquer modo — disse Ann, nem um pouco interessada em generalidades, — você não acha que sou uma mãe possessiva?
— Sempre pensei que você e Sarah tivessem um relacionamento muito satisfatório. Eu diria que há um profundo amor natural entre vocês duas. — Acrescentou pensativamente: — Claro que Sarah é infantil para a idade que tem.
— Sempre pensei que fosse madura para a idade.
— Eu não diria isso. Ela me parece ter mentalidade inferior a dezenove anos.
— Mas é muito positiva, muito segura. E bastante sofisticada. Cheia de idéias próprias.
— Cheia de idéias correntes, você quer dizer. Vai se passar muito tempo antes que tenha idéias realmente suas. E todas essas jovens criaturas hoje em dia parecem positivas. É porque precisam de reafirmação. Vivemos numa época de incertezas; tudo é instável, e os jovens sentem isso. É aí que começa metade do problema, hoje em dia. Falta de estabilidade; lares despedaçados; falta de padrões morais. Você sabe que uma planta nova precisa ser amarrada a uma estaca boa e firme.
Riu subitamente.
— Como todas as velhas, embora sendo ilustre, eu faço sermões. — Esvaziou o copo de coalhada. — Sabe por que eu bebo isto?
— Porque é saudável?
— Bah! Eu gosto. Sempre gostei, depois de passar férias numa fazenda. A outra razão é “para ser diferente”. A gente faz pose. Todos nós fazemos. Temos que fazê-lo. Eu, mais que a maioria. Mas, graças a Deus, sei que estou fazendo isso. Mas agora vamos ao seu caso, Ann. Não há nada de errado com você. Está só no seu segundo fôlego, nada mais que isso.
— O que quer dizer com segundo fôlego, Laura? Não se refere... — hesitou.
— Não me refiro a nada físico. Estou falando em termos mentais. As mulheres têm sorte, embora noventa e nove dentre cem não saibam disso. Com que idade Sta. Teresa se dispôs a reformar os conventos? Aos cinqüenta. E eu poderia citar inúmeros outros casos. Dos vinte aos quarenta anos as mulheres estão biologicamente absorvidas... e isso se justifica. Sua preocupação é com crianças, maridos, amantes... com relações pessoais. Ou sublimam essas coisas e se lançam a uma carreira, de maneira emocional e feminina. Mas a segunda florescência natural é a da mente e do espírito, e acontece na meia-idade. As mulheres se interessam mais por coisas impessoais quando ficam mais velhas. Os interesses dos homens se tornam cada vez mais limitados, os das mulheres cada vez mais amplos. Um homem de sessenta anos habitualmente se repete como um disco de gramofone. Uma mulher de sessenta anos, se tiver algum resquício que seja de individualidade, é uma pessoa interessante. .
Ann pensou em James Grant e sorriu.
— As mulheres buscam algo novo. Oh, também fazem tolices nessa idade. As vezes se voltam para o sexo. Mas a meia-idade é uma época de grandes possibilidades .
— Como você é animadora, Laura! Pensa que devo começar alguma coisa? Algum tipo de assistência social?
— Até que ponto você ama seus semelhantes? — perguntou Laura Whitstable gravemente. — A ação não tem valor sem o impulso interior. Não faça coisas que não quer fazer, para depois dar pancadinhas nas próprias costas por tê-las feito! Nada, se me é permitido dizer, produz resultados dos mais odiosos. Se você tem prazer em visitar as velhas doentes, ou em levar pirralhos antipáticos e sem modos para a praia, faça isso, pelo amor de Deus! Muita gente sente prazer nisso. Não, Ann, não se force a nenhuma atividade. Lembre-se de que todo solo precisa às vezes descansar. Até agora, a maternidade tem sido sua colheita. Não posso imaginá-la transformada numa reformadora, artista ou expoente do serviço social. Você é uma mulher bastante comum, Ann, mas muito agradável. Espere. Espere tranqüilamente, com fé e esperança, e verá que logo alguma coisa que valha a pena aparecerá para encher a sua vida.
Hesitou antes de continuar:
— Você nunca teve um caso, teve?
Ann enrubesceu.
— Não. — E, tomando coragem: — Você acha... acha que eu deveria?
Dame Laura soltou uma enorme risada, um som explosivo e agudo que fez tremer os copos na mesa.
— Esse modernismo! Na era vitoriana, tínhamos medo do sexo, chegávamos a cobrir até as pernas dos móveis. O sexo era algo que devia ser escondido, empurrado para longe do alcance dos olhos. Um erro, sem dúvida. Mas hoje em dia caímos no extremo oposto, e o sexo é tratado como algo que se pode pedir na farmácia. Uma coisa parecida com sulfa, ou penicilina. Sou procurada por mulheres jovens que me perguntam: “Não seria melhor que eu arranjasse um amante?” “A senhora acha que eu deveria ter um filho?” Como se ir para a cama com um homem fosse um dever sagrado e não um prazer! Você não é uma mulher ardente, Ann. Tem uma grande reserva de afeição e ternura, e embora isso também possa incluir o sexo, ele não é o mais importante para você. Se me pedir para prever seu futuro, eu lhe direi que você tornará a casar, no devido tempo.
— Oh, não! Não creio que pudesse fazer isso.
— Por que então comprou este ramo de violetas e o prendeu no casaco? Você costuma comprar flores para embelezar sua casa, não para se enfeitar. Essas violetas são um símbolo, Ann. Foram compradas por que, lá bem no fundo, você sente que a primavera... sua segunda primavera... está chegando.
— Você quer dizer um veranico de outono...
— Se quiser chamá-lo assim.
— Realmente uma bela idéia, Laura, mas acredite: só comprei as violetas porque a vendedora me pareceu uma mulher gelada e infeliz!
— Isso é o que você pensa, mas é apenas a razão superficial. Procure descobrir o verdadeiro motivo, Ann. Aprenda a conhecer a si mesma. Essa é a coisa mais importante da vida: tentar se conhecer. Céus... já passa das duas. Tenho que correr. O que vai fazer esta noite?
— Vou jantar com James Grant.
— O Coronel Grant? Sim, claro. Um bom sujeito — seus olhos brilharam. — Ele anda atrás de você há muito tempo, Ann.
Ann Prentice riu e corou.
— Oh, é só um hábito.
— Pediu-lhe várias vezes que casasse com ele, não foi?
— Sim, mas não é nada sério. Oh, Laura, acha que... talvez... eu devesse? Afinal, se nós dois somos solitários?
— Ninguém casa porque deve, Ann. E lembre-se de que um companheiro errado é pior do que nenhum. Pobre Coronel Grant... não que eu tenha realmente pena dele. Afinal, um homem que vive pedindo a uma mulher que se case com ele e não consegue convencê-la a dizer sim, é porque secretamente deve gostar de se dedicar a causas perdidas. Sem dúvida teria gostado de estar em Dunquerque... embora, na minha opinião, a Carga da Brigada Ligeira fosse ainda mais ao seu gosto. Como nós, ingleses, parecemos gostar de nossos erros e derrotas. . . e como parecemos sentir vergonha de nossas vitórias!