A Filha

Agatha Christie · Capítulo 4 de 18

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A Filha

Capítulo IV · — A Sra. Prentice Está? — perguntou Dame Laura Whitstable.

 

— Não, no momento não está. Mas acho que não deve demorar. Gostaria de entrar e esperar, madame? Sei que ela ia gostar de ver a senhora.

Edith afastou-se respeitosamente enquanto Dame Laura entrava, dizendo:

— Bem, vou esperar ao menos uns quinze minutos. Já faz algum tempo que não a vejo.

— Sim, senhora.

Edith conduziu-a até a sala e ajoelhou-se para acender o aquecedor elétrico. Dame Laura olhou em volta, e soltou uma exclamação:

— Vejo que mudaram os móveis de lugar. Aquela escrivaninha costumava ficar no canto. E o sofá está num lugar diferente.

— A Sra. Prentice achou que seria bom variar — disse Edith. — Um dia entrei aqui e dei com ela empurrando e arrastando coisas de um lado para o outro. “Oh, Edith”, ela me disse, “não acha que a sala fica muito melhor assim? Mais espaçosa?” Bem, eu não pude ver nenhuma melhora, mas naturalmente não quis dizer isso. As senhoras têm seus caprichos. A única coisa que eu disse foi: “Agora, não vá fazer muito esforço, madame. Não há nada pior para as entranhas do que ficar levantando peso; e depois que elas saem do lugar, não voltam assim tão fácil”. Eu sei o que digo. Aconteceu com minha própria cunhada. Foi levantar uma dessas janelas de guilhotina e passou o resto da vida deitada no sofá.

— Provavelmente sem a menor necessidade — comentou Dame Laura com energia. — Felizmente acabamos com essa mania de achar que ficar deitado num sofá é o remédio para todas as doenças.

— Agora nem deixam mais a pessoa ter seu mês de descanso depois do parto — disse Edith com ar de censura. — Veja a minha pobre sobrinha, fizeram a coitadinha caminhar no quinto dia.

— Somos hoje uma raça muito mais saudável do que jamais fomos.

— Espero que seja verdade — disse Edith sombriamente. — Fui uma criança muito fraquinha. Nunca pensaram que eu fosse me criar. Tinha desmaios e convulsões horríveis. E no inverno ficava azul... o frio me atacava o coração.

Indiferente aos males passados de Edith, Dame Laura examinava as modificações feitas na sala.

— Acho que mudou para melhor — comentou. — A Sra. Prentice tem razão. Não sei por que não fez isso antes.

— Está fazendo ninho — disse Edith, significativamente.

— O quê?

— Fazendo ninho. Já vi passarinhos fazerem a mesma coisa, voando para lá e para cá com gravetos no bico.

— Oh!

As duas mulheres trocaram um olhar; e embora não se notasse nenhuma mudança de expressão, uma informação parecia ter sido transmitida.

Dame Laura perguntou em tom casual:

— O Coronel Grant tem aparecido muito ultimamente?

Edith sacudiu a cabeça.

— Pobre senhor — disse. — Se quer saber, acho que ele se congeu. Isso é quebrar a cara, em francês — acrescentou, à guisa de explicação.

— Oh, congé, entendo...

— Era um cavalheiro muito bom — disse Edith, falando nele no passado, com o jeito fúnebre de quem pronuncia um epitáfio. — Oh, bem...

Enquanto deixava a sala, falou:

— Vou lhe dizer quem não vai gostar de ver a sala diferente: a Srta. Sarah. Ela não gosta de mudanças.

Laura Whitstable ergueu as sobrancelhas hirsutas. Depois retirou um livro da estante e folheou desinteressadamente as páginas.

Logo escutou o ruído da chave na fechadura, e a porta do apartamento se abriu. Ouviu no pequeno vestíbulo duas vozes animadas e alegres: a de Ann e a de um homem.

A voz de Ann disse:

— Oh, a correspondência. Veio carta de Sarah.

Entrou na sala com a carta na mão e parou de chofre, momentaneamente confusa:

— Ora, Laura, que bom vê-la — voltou-se para o homem que entrara na sala atrás dela. — Sr. Cauldfield, Dame Laura Whitstable.

Dame Laura avaliou-o rapidamente.

Tipo convencional. Podia ser teimoso. Honesto. Bom coração. Nenhum senso de humor. Provavelmente sensível. Muito apaixonado por Ann.

Pôs-se a conversar com ele, naquele seu jeito expansivo.

Ann murmurou:

— Vou dizer a Edith que traga o chá — e deixou a sala.

— Para mim não, querida — Dame Laura gritou para ela. — Já são quase seis horas.

— Bem, Richard e eu queremos chá, fomos a um concerto. O que você vai tomar?

— Brandy e soda.

— Muito bem.

Dame Laura perguntou:

— Gosta de música, Sr. Cauldfield?

— Sim. Especialmente Beethoven.

— Todos os ingleses gostam de Beethoven. Sinto dizer que ele me dá sono, mas a verdade é que não sou muito musical.

— Aceita um cigarro, Dame Laura? — Cauldfield abriu sua cigarreira.

— Não, obrigada. Só fumo charutos. — Acrescentou, olhando-o astutamente: — Então é do tipo de homem que prefere tomar chá às seis horas, em vez de um coquetel ou sherry?

— Não, acho que não. Não sou grande apreciador de chá. Mas ele parece combinar com Ann — ele se interrompeu. — Isso parece absurdo!

— De modo algum. O senhor demonstra ser perspicaz. Não estou querendo dizer que Ann não beba coquetéis ou sherry, ela bebe, mas é essencialmente o tipo de mulher que fica melhor atrás de uma bandeja de chá; uma bandeja com um belo serviço de prata georgiana, e xícaras e pires da mais fina porcelana.

Richard estava encantado:

— A senhora tem toda a razão!

— Conheço Ann há muitos anos. Gosto muito dela.

— Eu sei, ela me falou muito na senhora. E, é claro, eu a conheço de outras fontes.

Dame Laura sorriu jovialmente:

— Oh, sim, sou uma das mulheres mais conhecidas da Inglaterra. Sempre participando de comitês, ou divulgando minhas idéias pelo rádio, ou geralmente decretando o que é melhor para a humanidade. Entretanto, de uma coisa eu sei: seja o que for que se consiga realizar na vida, é realmente muito pouco e outra pessoa poderia tê-lo feito facilmente.

— Ora, vamos — protestou Richard. — Não acha que é uma conclusão um tanto deprimente?

— Não deveria ser. A humildade deveria estar por trás de todo esforço.

— Acho que não concordo com a senhora.

— Não?

— Não. Penso que a primeira condição para que um homem (ou uma mulher, naturalmente) chegue a realizar qualquer coisa válida é acreditar em si mesmo.

— E por que deveria?

— Ora, Dame Laura, certamente...

— Sou antiquada. Eu preferiria que um homem conhecesse a si mesmo, e acreditasse em Deus.

— Conhecimento, fé, não são a mesma coisa?

— Perdoe-me, mas não são, absolutamente, a mesma coisa. Uma de minhas teorias favoritas (totalmente irrealizável, é claro, e isso é o que as teorias têm de agradável) é que todos deveriam passar um mês por ano no meio do deserto. Acampados junto a um poço, é claro, e com um suprimento bem grande de tâmaras, ou seja lá o que for que se coma no deserto.

— Poderia ser bastante agradável — disse Richard, sorrindo. — Mas eu insistiria em levar alguns clássicos da literatura.

— Ah, mas aí é que está. Nenhum livro. Livros são uma droga que vicia. Com água e alimentos suficientes, e nada... absolutamente nada para fazer, teria, afinal, uma boa oportunidade de se conhecer.

Richard sorriu, descrente:

— Não acha que quase todos se conhecem bastante bem?

— É claro que não! Hoje em dia, não temos tempo de reconhecer nada além das nossas características mais agradáveis.

— Sobre o que os dois estão discutindo? — perguntou Ann, entrando com um copo na mão. — Aqui está seu brandy com soda, Laura. Edith já vai trazer o chá.

— Estou propondo minha teoria de meditação no deserto — respondeu Laura.

— É uma das idéias de Laura — disse Ann, rindo. — A gente fica sentado no deserto, sem fazer nada, e descobre que é realmente horrível.

— Mas será que todos têm que ser horríveis? — perguntou Richard secamente. — Sei que os psicólogos nos dizem isso; mas por que, afinal?

— Porque se só tivermos tempo para conhecer uma parte de nós mesmos, como acabei de dizer, escolheremos sempre a mais agradável — respondeu Dame Laura resolutamente.

— Está tudo muito bem, Laura — disse Ann, — mas depois de ficarmos sentados no deserto e descobrirmos como somos horríveis, de que nos adiantará isso? Seremos capazes de mudar?

— Acho bem pouco provável... mas pelo menos teremos uma indicação de como iremos reagir sob determinadas circunstâncias e (o que é ainda mais importante) por que o faremos.

— Mas será que não somos capazes de saber exatamente qual será nossa reação sob dadas circunstâncias? Quero dizer, basta a gente se imaginar nelas.

— Oh, Ann, Ann. Pense em qualquer homem que fica ensaiando o que vai dizer para o chefe, a namorada ou o vizinho. Tem tudo na ponta da língua, mas quando chega o momento de falar, ou fica mudo ou acaba dizendo algo completamente diferente. As pessoas que intimamente estão certas de poder enfrentar qualquer emergência são exatamente aquelas que perdem completamente a cabeça, enquanto aqueles que têm medo de não estar à altura se surpreendem ao dominar totalmente uma situação.

— Sim, mas você não está sendo muito justa. O que está querendo dizer agora é que as pessoas ensaiam diálogos ou ações imaginárias, como gostariam que acontecessem. Provavelmente sabem muito bem que nada vai ser como imaginam. Mas acho que fundamentalmente sempre sabemos qual vai ser nossa reação e como... bem, como é nosso caráter.

— Ah, minha querida criança — Dame Laura ergueu as mãos, — então você acha que conhece Ann Prentice? Eu me pergunto se isso é verdade...

Edith entrou com o chá.

— Não creio que seja particularmente boa — disse Ann, sorrindo.

— Aqui está a carta da Srta. Sarah, madame. A senhora a deixou no quarto.

— Oh, obrigada Edith.

Ann colocou a carta, ainda fechada, ao lado do prato. Dame Laura lançou-lhe um rápido olhar.

Richard bebeu, um tanto apressado, sua taça de chá, e retirou-se.

— Ele está sendo delicado — disse Ann. — Acha que nós duas queremos conversar.

Dame Laura olhou atentamente a amiga. Estava bastante surpresa com a transformação que se operara em Ann. Suas feições tranqüilas tinham florescido numa espécie de beleza. Laura Whitstable já vira isso acontecer antes, e sabia o motivo. Aquele ar radiante e feliz só poderia significar uma coisa: Ann estava apaixonada. Como é injusto, pensou Dame Laura, que as mulheres quando amam fiquem com seu melhor aspecto, enquanto os homens apaixonados parecem ovelhas atacadas de melancolia.

— O que tem feito ultimamente, Ann? — perguntou.

— Oh, não sei. Andado por aí. Nada de especial.

— Richard Cauldfield é um amigo novo, não é?

— Sim. Eu o conheço há apenas dez dias. Encontrei-o no jantar de James Grant.

Contou alguma coisa sobre Richard para Dame Laura, e acabou perguntando ingenuamente:

— Você gosta dele, não gosta?

Laura, que ainda não havia decidido se gostava ou não de Richard Cauldfield, apressou-se em responder:

— Sim, muito.

— Eu acho, sabe, é que teve uma vida muito triste.

Dame Laura já ouvira muitas vezes essa afirmação. Reprimiu um sorriso e perguntou:

— Tem tido notícias de Sarah?

O rosto de Ann se iluminou.

— Oh, Sarah está se divertindo loucamente. A neve está ótima, e parece que ninguém quebrou nada.

Dame Laura observou secamente que Edith ficaria desapontada. Ambas riram.

— Esta carta é dela. Importa-se que eu abra?

— É claro que não.

Ann rasgou o envelope e leu a cartinha; riu afetuosamente e passou-a para Dame Laura.

 

“Querida mamãe (escrevera Sarah).

A neve tem estado perfeita. Todos dizem que esta foi a melhor temporada até hoje. Lou fez o teste, mas infelizmente foi reprovada. Roger tem treinado bastante comigo, o que é muita bondade dele, uma vez que é tal figurão no mundo do esqui. Jane diz que ele está interessado em mim, mas realmente não acredito. Acho que sente um prazer sádico em me olhar enquanto me emaranho toda e caio de cabeça nos montes de neve. Lady Cronsham está aqui com aquele sul-americano horrível. Eles são mesmo blatant. Estou meio apaixonada por um dos guias (incrivelmente lindo), mas infelizmente ele não me dá a mínima confiança, pois está acostumado a despertar essas paixonites. Ao menos aprendi a dançar valsa no gelo.

E você como está, querida? Espero que esteia saindo bastante com todos os seus namorados. Mas não vá longe demais com o velho coronel — ele tem às vezes um brilho estranho no olhar! Como vai o professor? Tem lhe contado alguns ritos matrimoniais bem grosseiros ultimamente? Até breve. Com amor, Sarah.”

 

Dame Laura devolveu a carta.

— É, Sarah parece estar se divertindo. Suponho que o professor seja aquele seu amigo arqueólogo?

— Sim, Sarah sempre caçoa comigo por causa dele. Tinha intenção de convidá-lo para almoçar, mas tenho estado tão ocupada!

— Sim, parece ter estado mesmo...

Ann dobrava e desdobrava a carta de Sarah. Por fim, disse num meio suspiro:

— Ah, meu Deus...

— Por que o “Ah, meu Deus”?

— Ora, creio que é melhor eu lhe contar logo. De qualquer modo, provavelmente já adivinhou. Richard Cauldfield pediu que eu casasse com ele.

— Quando foi isso?

— Oh, só hoje.

— E você vai casar?

— Acho que sim... Por que estou dizendo isto? É claro que vou.

— Foi rápido, Ann.

— Você quer dizer que o conheço há pouco tempo. Ah, mas nós estamos bem certos.

— E você sabe muita coisa sobre ele, através do Coronel Grant. Estou contente por você, minha querida. Parece muito feliz.

— Suponho que vá achar uma bobagem, Laura, mas eu o amo muito.

— Por que pareceria bobagem? Sim, pode-se ver que gosta dele.

— E ele me ama.

— Isso também é evidente. Nunca vi um homem parecer tanto com um carneiro.

— Richard não parece um carneiro.

— Um homem apaixonado sempre se parece com um carneiro. Deve ser alguma lei da natureza.

— Mas você gosta dele, Laura? — insistiu Ann.

Desta vez, Laura Whitstable não respondeu tão depressa.

— Ele é um tipo de homem, muito simples, sabe Ann.

— Simples? Talvez. Mas isso não é bem agradável?

— Bem, pode ter as suas dificuldades. Ele é sensível, ultra-sensível.

— Você observou bem, Laura. Alguns não perceberiam.

— Eu não sou “alguns”. — Hesitou antes de continuar. — Já contou a Sarah?

— Não, é claro que não. Já lhe disse. Aconteceu hoje.

— O que eu quis perguntar, realmente, foi se você falou nele nas suas cartas... se preparou o caminho.

— Não... não, não, para falar a verdade. — Fez uma pausa e continuou: — Terei que escrever e contar a ela.

— Sim.

Novamente Ann hesitou antes de falar:

— Não creio que ela se importe muito; e você?

— É difícil dizer.

— Ela é sempre tão carinhosa comigo. Ninguém imagina como Sarah pode ser carinhosa... quero dizer, sem falar coisa alguma. É claro... suponho... — Ann olhou para a amiga com ar de súplica. — Talvez ela vá achar engraçado.

— É bem possível. Você se importa?

— Oh, eu não me importo. Mas Richard vai se importar.

— Sim... sim. Bem, Richard vai ter que engolir, não vai? Mas eu certamente contaria tudo a Sarah antes que ela voltasse. Daria tempo para que ela se acostumasse com a idéia. A propósito, quando pensa casar?

— Richard quer que seja o mais cedo possível. E não há mesmo nenhuma razão para esperar, não acha?

— Realmente. Eu diria que quanto mais cedo vocês casassem, melhor.

— Foi uma sorte... Richard acaba de conseguir um emprego, com Hellner Bros. Conheceu um dos sócios interessados em Burma, durante a guerra. É uma sorte, não é; mesmo?

— Minha querida, tudo parece muito bem. — Voltou a falar, suavemente: — Estou muito contente por você.

Levantando-se, Laura Whitstable aproximou-se de Ann e a beijou.

— Então... por que a testa franzida?

— É por causa de Sarah... esperando que ela não vá se importar.

— Minha querida Ann, qual vida você está vivendo. . . a sua ou a dela?

— A minha, é claro, mas...

— Se ela achar ruim, achou, ora! Acabará aceitando. Ela gosta muito de você, Ann.

— Oh, eu sei.

— Ê bastante incômodo ser amado. Quase todo mundo descobre isso mais cedo ou mais tarde. Quanto menos pessoas nos amarem, menos teremos que sofrer. Que sorte a minha, que a maioria das pessoas me deteste, e o resto sinta por mim apenas uma alegre indiferença.

— Laura, isso não é verdade. Eu...

— Adeus, Ann. E não obrigue o seu Richard a dizer que gosta de mim. Na verdade ele me detestou, mas isso não tem a menor importância.

Naquela noite, durante um jantar oficial, o erudito sentado junto a Dame Laura ficou desapontado quando, ao terminar de expor uma inovação revolu-cionária no tratamento por eletrochoques, descobriu que ela o olhava totalmente distraída.

— Você não estava ouvindo — exclamou, em tom de censura.

— Sinto muito, David. Estava pensando numa mãe e numa filha.

— Ah, sim, um caso — disse ele, interessado. — Não, não um caso. Amigas.

— Uma dessas mães possessivas?

— Não — respondeu ela. — Neste caso, trata-se de uma filha possessiva.