A Filha

Agatha Christie · Capítulo 3 de 18

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A Filha

Capítulo III · ANN acordou na manhã seguinte, e por…

 

1

 

ANN acordou na manhã seguinte, e por um momento se indagou onde estaria. Certamente a silhueta mal delineada da janela deveria estar à sua direita, e não à esquerda. . . A porta. . . O guarda-roupa...

Então percebeu que estivera sonhando; sonhando que era outra vez uma menina, de volta à velha casa em Applestream. Tinha chegado lá cheia de alegria, fora recebida pela mãe e por uma Edith mais jovem. Correra pelo jardim, admirando Uma coisa e outra, e finalmente entrara na casa. Tudo estava exatamente como tinha sido: o vestíbulo um pouco escuro, a sala de estar coberta de chintz que se abria para ele. E então, surpreendentemente, sua mãe dissera: “Vamos tomar o chá aqui”, e a conduzira para uma sala nova e desconhecida. Uma sala agradável, com os móveis cobertos de alegre chintz estampado, flores, sol. E alguém tinha dito: “Você não sabia que estas salas estavam aqui, sabia? Nós as descobrimos no ano passado!” Havia mais salas novas, uma escadinha e mais quartos lá em cima. Era tudo muito excitante, emocionante.

Agora, acordada, sentia-se ainda parcialmente dentro do sonho. Era Ann, a menina, para quem a vida apenas começava.

Aqueles quartos nunca vistos. Estranho, ter passado tantos anos sem saber que existiam. Quando tinham sido descobertos? Há pouco tempo? Há muitos anos?

A realidade infiltrou-se vagarosamente através da confusa e agradável lembrança do sonho. Fora tudo um sonho, um sonho bom. Entremeado agora por uma ligeira dor, a dor da saudade. Porque não se pode voltar atrás. E como era estranho que sonhar com a descoberta de alguns quartos a mais em uma casa pudesse provocar um prazer tão singular e arrebatador. Sentiu-se triste quando pensou que esses quartos nunca tinham existido.

Ann permaneceu deitada, olhando os contornos da janela, cada vez mais nítidos. Já devia ser bem tarde, pelo menos nove horas. As manhãs eram tão escuras, agora. A esta hora, Sarah estaria acordando para o sol e a neve, na Suíça.

Mas, de uma certa maneira, Sarah parecia não existir naquele momento. Estava distante, remota, apagada. O que era real era a casa de Cumberland, os chintz, o sol, as flores... sua mãe. E Edith, respeitosamente parada em posição de sentido, parecendo tão desaprovadora como de costume, apesar do rosto jovem, macio e sem rugas.

Ann sorriu e chamou:

— Edith!

Edith entrou, e abriu as cortinas.

— Bem — falou aprovadoramente, — dormiu bastante. Não quis acordá-la, o dia não está lá essas coisas. Acho que vamos ter nevoeiro.

Visto pela janela, o céu era amarelo escuro.

Não era uma perspectiva atraente, mas não abalou a sensação de bem-estar que Ann sentia. Continuou deitada, sorrindo para si mesma.

— Seu café está pronto, já vou trazê-lo. — Edith parou antes de deixar o quarto, e olhou a patroa com curiosidade.

— Parece contente esta manhã. Deve ter-se divertido ontem.

— Ontem? — por um momento Ann ficou no ar. — Oh, sim, foi bom. Edith, sonhei que tinha voltado para casa. Você estava lá, era verão, e a casa tinha quartos novos que nós não conhecíamos.

— E foi melhor não conhecer, é o que lhe digo. Aquele casarão velho já tinha quartos demais. E a cozinha! Quando penso na quantidade de carvão que aquele fogão devia gastar! Por sorte o carvão era barato naquele tempo.

— Você era bem moça outra vez, Edith, e eu também.

— Ah, não se pode fazer o tempo voltar, não é mesmo? Por mais que a gente queira, aqueles tempos estão mortos e enterrados para sempre.

— Mortos e enterrados para sempre — Ann repetiu baixinho.

— Não que eu não esteja satisfeita. Tenho força e saúde, embora digam que a meia-idade é a melhor época para se arranjar um desses tumores internos. Tenho pensado muito nisso, ultimamente.

— Estou certa de que você não tem nada disso, Edith.

— Ah, mas nunca se pode ter certeza. Só se fica sabendo quando carregam a gente para o hospital, abrem e descobrem que já é tarde demais.

E Edith saiu do quarto com ar soturno. Voltou pouco depois, trazendo numa bandeja o café e a torrada de Ann.

— Aqui está, senhora. Sente-se, e eu ajeito o travesseiro nas suas costas.

Ann olhou-a, e falou num impulso:

—Como você é boa para mim, Edith.

Edith ficou vermelha.

— Sei como as coisas devem ser feitas, só isso. E, de qualquer jeito, alguém tem de cuidar da senhora. A senhora não é uma dessas mulheres de espírito forte. Se fosse aquela Dame Laura... nem o Papa de Roma pode com ela.

— Dame Laura é uma grande personalidade, Edith.

— Eu sei, já a ouvi falando no rádio. Ora, só pela cara já se pode saber que ela é alguém. E conseguiu casar, pelo que ouvi dizer. Foi divórcio ou morte que os separou?

— Oh, ele morreu.

— Provavelmente a melhor coisa que lhe poderia acontecer. Ela não é o tipo de mulher com quem um cavalheiro goste de viver... embora eu não possa negar que alguns homens preferem que a mulher use as calças. — Caminhou em direção à porta, observando: — Agora não precisa ter pressa, minha querida. Descanse bastante, fique deitadinha pensando seus belos pensamentos e aproveitando as férias.

“Férias”, pensou Ann, divertida. “É esse o nome que ela dá?”

E, no entanto, não deixava de ser verdade. Aqueles dias seriam um intervalo no ritmo sempre igual de sua vida. No fundo há sempre uma certa ansiedade, quando se vive com uma filha que se ama. Ela é feliz? Será que A ou B são boas amizades para ela? Deve ter acontecido alguma coisa na festa de ontem à noite. O que poderia ter sido?

Ela nunca tinha interferido, nem feito perguntas. Compreendia que Sarah devia sentir-se livre para falar ou calar — devia aprender sozinha as lições da vida, escolher seus próprios amigos. E no entanto, como amava a filha, era impossível ignorar seus problemas. Ann poderia ser necessária a qualquer momento, e se Sarah a procurasse, em busca de apoio ou ajuda prática, tinha que estar ali, a postos. As vezes Ann pensava: “Devo estar preparada para ver Sarah infeliz algum dia, e mesmo então não falar nada, a menos que ela o deseje.”

O que a vinha preocupando ultimamente era o crescente interesse de Sarah por Gerald Lloyd, um rapaz amargo e sempre cheio de queixas. Daí seu alívio ao pensar que Sarah ficaria pelo menos três semanas longe dele, e conheceria muitos outros rapazes durante esse tempo.

Sim, com Sarah na Suíça ela poderia tirá-la despreocupadamente da cabeça e descansar, deitada em sua cama confortável, pensando no que poderia fazer hoje. Divertira-se no jantar da noite anterior. Querido James — tão bom, e no entanto tão maçante também, pobre querido! As histórias intermináveis que contava! Realmente, ao chegar aos quarenta e cinco os homens deviam fazer o voto de não contar mais histórias ou anedotas. Se pudessem imaginar o desânimo que dominava os amigos assim que começavam: “Não sei se já contei, mas uma vez aconteceu uma coisa curiosa com o...”, e assim por diante. É claro que sempre se poderia interromper, dizendo: “Sim, James, já me contou três vezes”. Mas o pobrezinho ficaria tão magoado! Não, era impossível fazer uma coisa dessas com James.

E aquele outro, Richard Cauldfield. Naturalmente era muito mais moço, mas provavelmente ele também um dia começaria a repetir as mesmas histórias compridas e sem graça.

Talvez... pensou... mas não acreditava que pudesse acontecer. Não. Era mais provável que se tornasse prepotente, didático, cheio de preconceitos e idéias preconcebidas. Precisaria de alguém que caçoasse dele, delicadamente. Poderia ser um pouco ridículo, às vezes, mas era um bom homem — um homem solitário, muito solitário... Teve pena dele. Sentia-se perdido na frustrada vida moderna de Londres. Pensou em qual o tipo de trabalho que ele iria conseguir. Isso não era tão fácil hoje em dia. Provavelmente compraria sua fazendola, ou floricultura, e se instalaria no campo.

Pensou se voltaria a encontrá-lo. Qualquer noite dessas convidaria James para jantar, e poderia sugerir que ele trouxesse Richard Cauldfield. Seria uma gen-tileza — ele era obviamente um homem muito sozinho. E convidaria outra mulher. Poderiam ir ao teatro...

Que algazarra Edith estava fazendo! Ela estava na sala ao lado, e, pelo barulho, parecia haver lá um exército de homens fazendo a mudança. Baques, batidas, de vez em quando o zumbido alto do aspirador de pó. Edith devia estar se divertindo.

Logo ela apareceu na porta, a cabeça envolta num pano de pó e o olhar sublime e extasiado de uma sacerdotisa celebrando alguma orgia ritual.

— A senhora não vai almoçar fora, por acaso? Eu estava enganada, vai ser um belo dia, sem névoa. Não é que eu tenha esquecido o linguado, não esqueci. Mas se não estragou até agora, não vai estragar até o jantar. Não se pode negar que essas geladeiras conservam mesmo as coisas... mas tiram o gosto de tudo, é o que eu digo.

Ann olhou para ela e riu.

— Está bem, está bem, eu almoço fora.

— Para mim não faz diferença, é claro. Eu não me importo.

— Sim, Edith. Mas não se mate. Por que não traz a Sra. Hopper para ajudá-la, já que quer limpar a casa de alto a baixo?

— Sra. Hopper, Sra. Hopper. Pois sim! Na última vez que ela veio eu deixei que limpasse aquela grade da lareira de latão bonita que foi da sua mãe. Ficou toda manchada. Essas mulheres só sabem mesmo é lavar o assoalho, e isso qualquer um pode fazer. Lembra-se da grelha de ferro trabalhado que nós tínhamos em Applestream? Aquilo, sim, dava trabalho. Tinha orgulho dela, palavra. Ah, bem... a senhora tem móveis bem bonitos, e eles ficam lindos quando bem lustrados. Pena que haja tanta coisa embutida.

— Facilita o trabalho.

— Fica muito parecido com hotel, para o meu gosto. Então a senhora vai sair? Ótimo. Posso tirar todos os tapetes.

— Posso voltar hoje à noite? Ou prefere que eu durma num hotel?

— Ora, Sra. Ann, não me venha com essas brincadeiras. Por falar nisso, aquela panela dupla que a senhora comprou não vale nada. É grande demais, e tem um formato ruim para se mexer com a colher lá dentro. Quero uma igual à minha antiga.

— Sinto muito, mas acho que aquelas não existem mais.

— Esse governo — falou Edith com desagrado. — E os pratos de porcelana tiara suflê que eu lhe pedi? A Srta. Sarah gosta de suflê servido naqueles pratos.

— Esqueci que você tinha pedido, mas acho que poderia encontrá-los facilmente.

— Então! Já tem alguma coisa para fazer!

— Francamente, Edith! — exclamou Ann, irritada. — Parece até que sou uma meninazinha que você tem que mandar brincar lá fora.

— Confesso que com a Srta. Sarah longe a senhora parece mais moça. Mas eu estava apenas fazendo uma sugestão, madame — Edith empertigou-se e falou com azeda cerimônia, — que se por acaso passasse perto das Lojas Army and Navy, ou talvez John Barker’s...

— Muito bem, Edith. Agora vá você brincar na sala.

— Ora, francamente — disse Edith, ofendida; e bateu em retirada.

Recomeçaram os baques e as batidas, e logo veio juntar-se a eles um novo som, o da voz fraca e desafinada de Edith, elevando-se num hino particularmente lúgubre:

“Este mundo é só dor e mágoa,

Não há sol, nem alegria, nem luz.

Oh, lava-nos, lava-nos no teu sangue,

Para que possamos chorar-te, ó Jesus!”

 

2

 

Ann divertiu-se na seção de louças das Lojas Army and Navy. Pensou que nos dias que correm, com tantos artigos inferiores e mal feitos, era um consolo ver que boa louça, cristais e cerâmica o país ainda podia produzir.

Nem os avisos proibitivos “Somente para exportação” estragaram sua admiração pelos artigos expostos em brilhantes fileiras. Chegou até às mesas onde estavam em exibição as mercadorias rejeitadas para exportação, onde havia sempre compradoras rondando, de olhos ávidos, prontas a saltar sobre alguma peça mais atraente.

Hoje fora Ann a felizarda. Havia até um jogo de café quase completo, com lindas xícaras arredondadas de cerâmica vitrificada marrom decorada. O preço não era excessivo, e ela comprou bem a tempo. No instante em que anotavam seu endereço apareceu uma mulher, e disse nervosamente:

— Fico com este.

— Lamento, senhora. Já está vendido.

Ann falou hipocritamente “Sinto muito”, e afastou-se, animada pelo prazer de uma boa compra. Tinha encontrado também alguns pratos para suflê bastante bonitos e de bom tamanho, e embora fossem de vidro e não de louça, esperava que Edith os aceitasse sem muitos resmungos.

Saindo da seção de louças, atravessou a rua e entrou no departamento de plantas e jardins. A jardineira da janela do apartamento estava em ruínas, e ela queria substituí-la.

Falava a respeito disso com o vendedor, quando ouviu uma voz atrás dela:

— Ora, bom dia, Sra. Prentice.

Voltou-se e viu Richard Cauldfield. Era tão evidente o prazer que ele sentia ao vê-la, que Ann não pôde deixar de sentir-se lisonjeada.

— Imagine, encontrá-la aqui! É realmente uma maravilhosa coincidência. Na verdade, eu estava mesmo pensando em você. Sabe, ontem à noite eu quis perguntar seu endereço, e se poderia talvez visitá-la. Mas depois temi que me julgasse impertinente. Deve ter tantos amigos, e...

Ann interrompeu:

— É claro que deve me visitar. Para ser franca, eu estava pensando em convidar o Coronel Grant para jantar em minha casa, e sugerir que o levasse também.

— Estava mesmo? De verdade? — Sua ansiedade e prazer eram tão óbvios, que Ann teve pena. Pobre homem, como devia se sentir sozinho! Aquele sorriso feliz parecia o sorriso de um menino.

— Estava encomendando uma jardineira nova para minha janela. É a coisa mais parecida com um jardim que se pode ter num apartamento.

— Sim, imagino que seja.

— O que faz aqui?

— Estava examinando as incubadoras.

— Ainda pensando em criar galinhas?

— De certa forma. Estive examinando os equipamentos mais modernos para a avicultura. Pelo que sei, esta chocadeira elétrica é a última novidade.

Caminharam juntos para a saída. Richard Cauldfield disse, num arranco:

— Será que... naturalmente já tinha outro compromisso... será que gostaria de almoçar comigo... se não tem mais nada para fazer?

— Obrigada, eu gostaria muito. Na verdade Edith, minha criada, lançou-se numa orgia de limpeza de primavera, e me disse, com muita firmeza, que eu não fosse almoçar em casa.

Richard Cauldfield não achou graça nenhuma, e pareceu até um tanto chocado com as palavras dela.

— Isso é muito arbitrário, não é?

— Edith tem seus privilégios.

— Ainda assim, não convém mimar os criados. —

Ele está me reprovando, pensou Ann, divertida. E disse, delicadamente:

— Já não restam muitos para mimar. E, de qualquer forma, Edith é mais amiga do que criada. Está comigo há muitos anos.

— Oh, entendo. — Percebeu que fora gentilmente censurado, mas a impressão permaneceu. Esta bela e delicada senhora estava sendo governada por uma criada despótica, e era demasiado dócil e submissa para enfrentá-la.

— Limpeza de primavera? — perguntou, confuso. — Deve ser feita nesta época?

— Não, na verdade não deve. Deve ser feita em março, mas minha filha foi passar algumas semanas na Suíça e aproveitamos a oportunidade. Quando ela está aqui há sempre muito movimento.

— Imagino que deve sentir falta dela.

— Sim, muita.

— Parece que as moças quase não gostam de ficar em casa, hoje em dia. Creio que preferem viver suas próprias vidas.

— Não tanto quanto até pouco tempo atrás; acho que a novidade já perdeu um pouco o encanto.

— Ah! Bonito dia, não? Gostaria de caminhar pelo parque, ou isso iria cansá-la?

— Não, é claro que não. Ia mesmo sugerir.

Atravessaram a Rua Vitória e desceram por uma estreita passagem, chegando afinal ao lado da estação do Parque Saint James. Cauldfield ergueu os olhos para as esculturas de Epstein.

— Vê alguma coisa nisso? Como é possível chamar essas coisas de arte?

— Oh, creio que é possível, sim. Bem possível.

— Você certamente não gosta delas?

— Não, eu pessoalmente não. Sou antiquada, e continuo a gostar da escultura clássica, e de todas as coisas que me ensinaram a gostar. Mas não significa que o meu gosto seja o certo. Acho que é necessário aprender a apreciar novas formas de arte. E acontece o mesmo com a música.

— Música! Não se pode chamar isso de música!

— Não acha que está sendo um pouco reacionário, Cauldfield?

Ele voltou rapidamente a cabeça para olhá-la. Ela estava afogueada, um pouquinho nervosa, mas seus olhos o encararam sem pestanejar.

— Estou? Talvez. Sim, quando se esteve longe durante tanto tempo, tem-se a tendência de não gostar de tudo que não é mais exatamente como a gente lembrava. — De repente sorriu. — Deve ter paciência comigo.

Ann disse depressa:

— Oh, eu também sou terrivelmente antiquada. Sarah muitas vezes ri de mim. Mas sinceramente, acho terrível que a gente... como posso explicar... que a gente vá perdendo o interesse pelas coisas novas à medida que... bem, à medida que vai envelhecendo. Porque, em primeiro lugar, isso nos torna terrivelmente enfadonhos, e, além disso, também podemos estar perdendo alguma coisa importante.

Richard caminhou em silêncio por alguns momentos, antes de falar:

— Parece-me tão absurdo ouvi-la falar em envelhecer! Você é a pessoa mais jovem que conheci nestes últimos tempos. Muito mais jovem do que algumas dessas garotas assustadoras. Elas realmente me dão medo.

— Sim, a mim também assustam um pouco. Mas sempre descubro que são ótimas pessoas.

Tinham chegado ao Parque Saint James. O sol estava forte agora, e o dia quase quente.

— Aonde vamos?

— Vamos olhar os pelicanos.

Olharam os pássaros, satisfeitos, e conversaram sobre as várias espécies de aves aquáticas. Completamente tranqüilo e à vontade, Richard era um companheiro encantador, jovial e espontâneo. Falaram e riram juntos, e sentiram-se extremamente felizes na companhia um do outro.

Logo Richard disse:

— Que tal sentarmos um pouco ao sol? Não está sentindo frio?

— Não, estou bem aquecida.

Sentaram-se e ficaram olhando a água. Com suas cores desmaiadas, a paisagem parecia uma gravura japonesa.

Ann falou baixinho:

— Como Londres pode ser bonita. Nem sempre a gente percebe isso.

— Não, é quase uma revelação.

Ficaram em silêncio durante um ou dois minutos, e Richard continuou:

— Minha mulher sempre dizia que Londres é o único lugar para se estar na chegada da primavera. Dizia que os brotos verdes, as amendoeiras e, a seu tempo, os lilases, realçavam contra o fundo de tijolos e argamassa. Achava que no campo era tudo muito vasto, e acontecia de modo demasiado confuso para que pudesse ser devidamente apreciado; mas que num jardim suburbano a primavera chegava da noite para o dia.

— Creio que ela tinha razão.

Richard falou com esforço, e sem olhar para Ann:

— Ela morreu. . . há muito tempo.

— Eu sei, o Coronel Grant me contou.

Richard voltou-se e olhou para ela.

— Contou como ela morreu?

— Sim.

— É algo que jamais poderei esquecer. Terei sempre a impressão de tê-la matado.

Ann hesitou um momento, antes de falar.

— Posso entender o que sente, no seu lugar eu sentiria o mesmo. Mas não é verdade, sabe.

— Sim, é verdade.

— Não. Não do ponto de vista dela. . . de uma mulher. A responsabilidade de aceitar esse risco é da mulher. Está implícita no seu. . . no seu amor. Lembre-se de que ela quer a criança. Sua esposa desejava. .. o filho?

— Ah, sim. Aline estava muito feliz. Eu também. Era uma jovem forte, saudável. Parecia não haver qualquer motivo para as coisas não correrem bem.

Houve um silêncio, e então Ann falou:

— Sinto muito... muito, mesmo.

— Já faz muito tempo.

— O bebê também morreu?

— Sim. E de certa forma eu me alegro que isso tenha acontecido, sabe. Acho que iria culpar o pobrezinho. Nunca esqueceria o preço que fora preciso pagar pela vida dele.

— Fale-me sobre sua esposa.

E ali, com os dois sentados sob o pálido sol de inverno, ele lhe falou sobre Aline. Como tinha sido bonita e alegre. E das vezes em que ficava quieta de repente e ele se perguntava em que estaria pensando e por que estaria tão longe.

Uma vez ele se interrompeu para dizer, admirado:

— Há muitos anos eu não falava nela com ninguém.

E Ann incitou-o suavemente:

— Continue.

Tudo fora tão breve — breve demais. Três meses de noivado, o casamento — “o exagero de sempre, nós não queríamos mas a mãe dela insistiu”. Tinham passado a lua-de-mel viajando de carro pela França, visitando os castelos do Loire.

— Ela ficava nervosa quando andava de carro — acrescentou despropositadamente. — Costumava pôr a mão no meu joelho. Isso parecia acalmá-la, mas não sei por que ficava tão nervosa, ela nunca sofreu um acidente. — Fez uma pausa, antes de continuar: — As vezes, quando eu corria no meu carro, lá em Burma, depois de tudo já ter acontecido, eu parecia sentir a mão dela. Imaginava, entende?... Parecia incrível que ela pudesse ter desaparecido assim, que não vivesse mais.

Sim, pensou Ann, é isso que a gente sente — parece incrível. Sentira o mesmo com relação a Patrick. Ele tinha que estar em algum lugar. Precisava fazê-la sentir sua presença. Não era possível que tivesse partido assim, sem deixar nada atrás de si. O terrível abismo que separa os vivos dos mortos!

Richard continuava. Contava da casinha que eles tinham descoberto numa rua sem saída, com uma touceira de lilases e uma pereira. Então, quando a voz brusca e áspera deixou de falar as frases vacilantes, ele repetiu, surpreso:

— Não sei por que lhe contei tudo isto.

Mas ele sabia. Quando perguntara, um tanto nervoso, se ela gostaria de almoçar no seu clube — “Acho que eles têm um Anexo para Senhoras — ou prefere ir a um restaurante?”, e ela respondera que preferia o clube, e eles tinham levantado e começado a caminhar em direção a Pall Mall, soube no seu íntimo o que estava acontecendo, embora não o quisesse reconhecer.

Este fora seu adeus a Aline, ali em meio à beleza fria e extraterrena do parque no inverno.

Ele a deixaria ali, junto ao lago, onde os galhos nus das árvores mostravam seus rendilhados arabescos contra o céu.

Pela última vez ele a fez reviver na sua juventude, na sua força, na tristeza do seu destino. Foi um lamento, um canto fúnebre, um hino de louvor — talvez um pouco de cada um.

Mas foi também um funeral.

Deixou Aline ali no parque, e caminhou com Ann para as ruas de Londres.