A Filha
Capítulo 4
Richard chegou ao apartamento um pouco antes das oito. Devia jantar com Ann. Sarah ia sair para jantar e dançar. Ela estava na sala, pintando as unhas, quando ele chegou. Havia no ar um cheiro de esmalte.
Ela levantou os olhos e disse: “Olá, Richard”, e depois retomou a operação. Richard observou-a irritado. Ele mesmo estava bastante assustado com a crescente antipatia que sentia por Sarah. Tivera tão boa intenção, vira-se no papel de padrasto bondoso, amável e indulgente... quase carinhoso. Estivera preparado para uma desconfiança inicial, mas vira-se facilmente superando preconceitos infantis.
Ao invés disso, parecia que Sarah, e não ele, estava no comando da situação. Seu frio desprezo e sua antipatia atravessavam-lhe a pele fina, ferindo-o e humilhando-o. Richard nunca se julgara grande coisa, e o modo pelo qual Sarah o tratava aviltava ainda mais seu amor próprio. Todos seus esforços, a princípio para aplacá-la e depois para dominá-la, tinham sido desastrosos. Ele sempre parecia dizer e fazer a coisa errada. Por trás de sua antipatia por Sarah estava surgindo também uma crescente irritação com Ann. Ann devia apoiá-lo. Ann devia voltar-se contra Sarah e pô-la no seu lugar, Ann devia ficar do lado dele; os esforços que ela fazia para agir como mediadora, para se conservar num meio-termo, o irritavam. Aquele tipo de coisa não adiantava nada, e Ann precisava compreender isso!
Sarah estendeu uma das mãos para secar as unhas, virando-a para cá e para lá.
Consciente de que teria sido melhor não dizer coisa alguma, Richard não pôde deixar de observar:
— Parece que mergulhou as unhas em sangue. Não posso entender por que vocês meninas têm que usar esse negócio nas unhas.
— Não pode?
Procurando um assunto mais seguro, Richard continuou:
— Encontrei seu amigo Lloyd esta noite. Ele me contou que vai embora para a África do Sul.
— Vai na quinta-feira.
— Ele vai ter que trabalhar de verdade, se quiser ter sucesso lá. Não é lugar para um homem que não gosta de trabalhar.
— Acho que sabe tudo sobre a África do Sul, não?
— Todos esses lugares são muito parecidos. Precisam de homens de tutano.
— Gerry tem tutano de sobra — disse Sarah, acrescentando: — se precisa usar essa expressão.
— O que há de errado nela?
Sarah levantou a cabeça e olhou-o friamente.
— Eu só acho que é bastante desagradável, nada mais — disse ela.
Richard ficou vermelho.
— É uma pena que sua mãe não a tenha educado melhor.
— Fui rude? — Seus olhos se abriram numa expressão inocente. — Sinto muito.
Suas desculpas exageradas não conseguiram acalmá-lo. Perguntou bruscamente:
— Onde está sua mãe?
— Mudando de roupa. Estará aqui num minuto.
Sarah abriu a bolsa e examinou cuidadosamente o rosto. Começou a retocar a pintura, repintando os lábios, aplicando lápis de sobrancelhas. Ela na verdade já se pintara pouco antes. Suas ações agora eram calculadas para irritar Richard. Sabia que ele tinha uma estranha e antiquada aversão por ver uma mulher se maquiar em público.
Tentando falar em tom brincalhão, Richard disse:
— Ora vamos, Sarah, não exagere.
Ela baixou o espelho que segurava e perguntou:
— O que quer dizer?
— Quero dizer o ruge, o pó. Na verdade os homens não gostam de tanta pintura, posso lhe assegurar. Você simplesmente fica parecendo...
— Parecendo uma rameira, acho que quer dizer!
Richard falou furioso:
— Não foi isso que eu disse.
— Mas quis dizer. — Sarah arremessou os apetrechos de maquiagem para dentro da bolsa. — Afinal, por que, diabos, isso seria da sua conta?
— Olhe aqui, Sarah...
— O que eu ponho no rosto é só da minha conta. Não é da sua, seu metido.
Sarah estava tremendo de fúria, meio chorando. Richard perdeu completamente a calma. Gritou para ela:
— Mocinha insuportável e mal-educada! Você é absolutamente impossível!
Naquele momento Ann entrou. Parou na porta e disse com ar cansado:
— Oh, Deus, o que há agora?
Sarah passou correndo por ela. Ann olhou para Richard.
— Eu estava só dizendo que ela põe pintura de mais no rosto.
Ann deu um suspiro agudo, exasperado.
— Francamente, Richard, acho que você devia ter um pouco mais de juízo. O que tem a ver com isso?
Richard caminhou de um lado para o outro, furioso.
— Ora, muito bem. Se gosta que sua filha saia parecendo uma rameira...
— Sarah não parece uma rameira — retrucou Ann vivamente. — Que coisa horrível para dizer! Todas as moças usam maquiagem, hoje em dia. Você tem idéias tão antiquadas, Richard!
— Antiquado! Fora de moda! Você não me tem em alta conta, não Ann?
— Oh, Richard, precisamos discutir? Não percebe que ao dizer o que disse de Sarah está na verdade me criticando?
— Não posso dizer que a considere uma mãe particularmente criteriosa. Não se Sarah é uma amostra de sua maneira de educar.
— É uma coisa cruel para dizer, e não é verdade. Não há nada errado com Sarah.
Richard atirou-se num sofá.
— Deus ajude o homem que casa com a mãe de uma filha única! — disse ele.
Os olhos de Ann se encheram de lágrimas.
— Você sabia de Sarah quando me pediu em casamento. Eu lhe disse quanto a amava e tudo que ela significava para mim.
— Eu não sabia que você era absolutamente bestificada por ela! Para você é Sarah, Sarah da manhã à noite!
— Oh, Deus! — disse Ann. Ela caminhou para ele e sentou-se ao seu lado. — Richard, tente ser razoável. Eu pensei que Sarah poderia ter ciúmes de você... mas não pensei que você fosse ter ciúmes dela.
— Não tenho ciúmes de Sarah — disse Richard, amuado.
— Mas querido, você tem.
— Você sempre põe Sarah em primeiro lugar.
— Oh, céus — Ann recostou-se, desanimada, e fechou os olhos. — Francamente não sei o que fazer.
— Onde fico eu? Em lugar nenhum! Eu simplesmente não conto, para você. Adiou nosso casamento... simplesmente porque Sarah lhe pediu que o fizesse...
— Eu queria dar a ela um pouco mais de tempo para se acostumar à idéia.
— E ela está mais acostumada agora? Passa todo o tempo fazendo tudo que pode para me irritar.
— Sei que ela tem sido difícil... mas na verdade, Richard, acho mesmo que você exagera. A pobre Sarah mal pode dizer uma palavra sem que você tenha um acesso de fúria.
— Pobre Sarah. Pobre Sarah. Está vendo? É isso que você pensa!
— Afinal de contas, Richard, Sarah é pouco mais que uma criança. Devemos ser tolerantes com ela. Mas você é um homem... um ser humano adulto.
Richard disse de súbito, candidamente:
— É porque a amo tanto, Ann.
— Oh, querido.
— Éramos tão felizes juntos... antes de Sarah voltar.
— Eu sei. . .
— E agora... pareço estar todo o tempo perdendo você.
— Mas não está me perdendo, Richard.
— Ann, minha adorada... você ainda me ama?
Ann disse com súbita paixão:
— Mais do que nunca, Richard. Mais do que nunca.
5
O jantar foi um sucesso. Edith tinha se esmerado e o apartamento, removida a tempestuosa influência de Sarah, era novamente o cenário calmo que fora antes.
Richard e Ann conversaram, riram, lembraram um ao outro incidentes passados, e para ambos foi uma calma bem-vinda e serena.
Foi depois de terem voltado à sala e terminado o café e o Beneditino que Richard falou:
— Foi uma noite maravilhosa. Tão calma. Ann, minha querida, se pudesse ser sempre assim!
— Mas vai ser, Richard.
— Não está sendo sincera, Ann. Sabe, tenho pensado muito. A verdade é uma coisa desagradável, mas tem que ser encarada. Para ser bem franco, acho que Sarah e eu nunca vamos nos dar bem. Se nós três tentarmos morar juntos, a vida será insuportável. Na verdade, só há uma coisa a fazer.
— O que está querendo dizer?
— Para falar com franqueza, Sarah precisa sair daqui.
— Não, Richard. Isso é impossível.
— Quando as moças não estão felizes em casa, vão viver sozinhas.
— Sarah só tem dezenove anos, Richard.
— Há lugares em que moças podem morar. Pensionatos. Ou como hóspedes de uma família.
Ann sacudiu a cabeça com decisão.
— Acho que não se dá conta do que está sugerindo. Sugere que, por querer casar de novo, eu expulse minha filha... enxote-a para fora de sua casa.
— Moças gostam de ser independentes e de morar sozinhas.
— Sarah não. Não é uma questão de ela querer morar sozinha. Esta é a casa dela, Richard. Ela nem sequer é de maior idade.
— Bem, eu penso que é um bom plano. Podemos dar-lhe uma boa mesada. . . eu contribuirei. Ela não precisará sentir-se restringida. Será feliz sozinha, e nós seremos felizes sozinhos. Não posso ver nada de errado nisso.
— Você está pressupondo que Sarah vai ser feliz sozinha?
— Ela vai gostar. Eu lhe digo que as moças gostam de ser independentes.
— Você não sabe coisa alguma sobre moças, Richard. Tudo que está pensando é no que você quer.
— Estou sugerindo o que penso ser uma solução perfeitamente razoável.
Ann falou lentamente:
— Antes do jantar, você disse que ponho Sarah em primeiro lugar. De um certo modo, Richard, isso é verdade... Não é uma questão de qual de vocês eu amo mais. Mas quando penso em ambos. . . sei que são os interesses de Sarah que devem vir antes dos seus. Porque você vê, Richard, Sarah é minha respon-sabilidade. Não estou livre dessa responsabilidade até que Sarah seja uma mulher feita. . . e ela ainda não é uma mulher feita.
— As mães nunca querem que os filhos cresçam.
— Isso às vezes é verdade, mas honestamente não penso que seja verdade no nosso caso. Vejo algo que você não pode ver: que Sarah é ainda muito jovem e indefesa.
Richard riu com desdém.
— Indefesa!
— Sim, foi exatamente o que quis dizer. E insegura sobre si mesma, sobre a vida. Quando estiver pronta a sair para o mundo, ela quererá ir... e então estarei mais do que pronta a ajudá-la. Mas ela não está pronta.
Richard suspirou, e disse:
— Acho que simplesmente não se pode discutir com mães.
Ann retorquiu com insuspeitada firmeza:
— Não vou expulsar minha filha da casa dela. Fazer isso, quando ela não quer ir, seria uma crueldade.
— Bem, se você está tão decidida.
— Oh, certamente. Mas Richard, querido, se você ao menos for paciente. Não vê que não é você o intruso, mas Sarah? E ela sente isso. Mas sei que, com o tempo, ela aprenderá a ser sua amiga. Porque ela realmente me ama, Richard. E no fim não quererá que eu seja infeliz.
Richard olhou para ela com um sorriso levemente irônico.
— Minha doce Ann, que otimista incurável você é.
Ela entrou no círculo dos braços dele.
— Richard querido... eu o amo... Oh, Deus, gostaria de não ter tanta dor de cabeça...
— Vou buscar uma aspirina...
Ocorreu-lhe que, agora, toda conversa que tinha com Ann acabava sempre em aspirina.