A Filha

Agatha Christie · Capítulo 12 de 18

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A Filha

Capítulo III · ANN tinha voltado para casa uns quarenta…

 

ANN tinha voltado para casa uns quarenta minutos antes de Sarah. Ao abrir a porta, ficou aborrecida ao ver a cabeça de Edith, ouriçada com antiquados grampos, espiando para fora do quarto.

Ultimamente, vinha achando Edith cada vez mais irritante.

A criada disse logo:

— A Srta. Sarah ainda não chegou.

A censura implícita na observação de Edith enfureceu Ann, que retrucou bruscamente:

— E por que deveria ter chegado?

— Namorando na rua até estas horas. . . e é só uma menina.

— Não seja ridícula, Edith. As coisas não são mais como eram quando eu era mocinha. Agora, as moças são educadas para saberem cuidar de si mesmas.

— Tanto pior — disse Edith. — Provavelmente é por isso que acabam mal.

— Também acabavam, quando eu era moça — retrucou Ann secamente. — Eram demasiado confiantes e ignorantes, e toda a vigilância do mundo não as impedia de fazer papel de bobas, se fossem desse tipo de moça. Hoje em dia as moças lêem tudo, fazem qualquer coisa e vão a qualquer lugar.

— Ah — disse Edith em tom soturno. — Um grama de experiência vale por um quilo de conhecimento. Bem, se a senhora está satisfeita, não tenho nada a ver com isso... mas existem cavalheiros e cavalheiros, se é que me entende... e não simpatizo muito com o que ela saiu esta noite. Foi um tipo desses que deixou a segunda filha da minha irmã Nora em dificuldades. E não adianta gastar os olhos de tanto chorar depois que o mal foi feito.

Apesar de irritada, Ann não pôde deixar de sorrir. Edith e seus parentes! Além disso, a imagem de Sarah, tão segura de si, no papel de uma seduzida donzela de aldeia estimulava seu senso de humor.

— Bem, pare de se preocupar — falou — e vá para a cama. Mandou fazer aquela receita de pílulas para dormir?

— Estão junto da sua cama — resmungou Edith. — Mas não vai adiantar nada a senhora começar a tomar essas coisas para dormir... Quando se der conta, não consegue mais dormir sem elas. Sem falar que vão deixar a senhora mais nervosa ainda do que está.

Ann voltou-se contra ela, furiosa:

— Nervosa? Não estou nervosa!

Edith não replicou, simplesmente deixou cair os cantos da boca e retirou-se para o quarto, com um profundo suspiro.

Francamente — pensou Ann, indo para o seu quarto, ainda furiosa — Edith fica mais impossível a cada dia que passa. Não sei por que agüento.

Nervosa? Claro que não estava nervosa. Ultimamente contraíra o hábito de ficar deitada, acordada — só isso. Todo mundo sofre de insônia de vez em quando. Era muito mais razoável tomar alguma coisa e ter uma boa noite de sono do que ficar acordada, ouvindo as batidas dos relógios, enquanto o pensamento dá voltas e mais voltas — como esquilos numa gaiola. O Dr. McQueen fora muito compreensivo e lhe dera uma receita, algo muito leve e inofensivo — brometo, ao que parecia. Algo para acalmar e não deixar pensar...

Oh Deus, como todos eram cansativos. Edith e Sarah — até mesmo a querida Laura. Sentia-se um pouco culpada em relação a Laura. Naturalmente de-veria ter-lhe telefonado há uma semana. Laura era uma de suas amigas mais antigas. Só que por qualquer razão, por enquanto ainda não quisera preocupar-se com ela — Laura podia ser um tanto difícil às vezes...

Sarah e Lawrence Steene? Haveria mesmo qualquer coisa? As moças sempre gostaram de andar com homens de má reputação... Provavelmente não era nada sério. E mesmo que fosse...

Tranqüilizada pelo brometo, Ann adormeceu, mas mesmo dormindo ela se agitava, revolvendo-se na cama.

Estava sentada, tomando café, quando o telefone junto à cama tocou na manhã seguinte. Levantando o fone do gancho, ficou irritada ao escutar a voz de Dame Laura, que perguntava num tom áspero:

— Ann, Sarah sai muito com Lawrence Steene?

— Santo Deus, Laura, precisa telefonar a esta hora da manhã para perguntar isso? Como vou saber?

— Bem, você é a mãe dela, não é?

— Sim, mas não se pode interrogar os filhos todo tempo, perguntar aonde vão, e com quem. Para começo de conversa, eles não tolerariam isso.

— Ora vamos, Ann, não tente fugir da minha pergunta. Ele anda atrás dela, não anda?

— Oh, acho que não. O divórcio dele ainda não foi assinado... pelo que eu sei.

— O divórcio foi concedido ontem, vi no jornal. O que você sabe dele?

— É o único filho do velho Harry Steene. Tem rios de dinheiro.

— E uma péssima reputação.

— Oh, isso! As jovens sempre sentem atração por um homem que tenha má fama... sempre foi assim, desde o tempo de Lorde Byron; mas na verdade isso não quer dizer nada.

— Gostaria de conversar com você, Ann. Vai estar em casa hoje à noite?

Ann retrucou rapidamente:

— Não, vou sair.

— Lá pelas seis, então.

— Sinto muito, Laura, vou a um coquetel...

— Muito bem, então irei às cinco. Ou prefere — a voz de Laura denotava inflexível determinação — que eu vá agora?

Ann capitulou graciosamente.

— Cinco da tarde... será ótimo.

Recolocou o fone no gancho com um suspiro de exasperação. Francamente, Laura era impossível! Todas essas Comissões, e Unescos e Unos — isso virava a cabeça das mulheres.

Não quero que Laura fique vindo aqui a toda hora — disse para si mesma, com impaciência.

Apesar disso, recebeu a amiga com todas as demonstrações de prazer quando esta apareceu. Conversou, alegre e nervosamente, enquanto Edith trazia o chá. Laura Whitstable estava excepcionalmente contida. Escutava e respondia, mas isso era tudo.

Então, quando a conversa morreu, Dame Laura pousou a xícara e disse com a costumeira franqueza:

— Sinto preocupá-la, Ann, mas acontece que, ao voltar dos Estados Unidos, ouvi quando dois homens falavam sobre Larry Steene... e o que disseram não foi particularmente agradável de escutar.

Ann encolheu ligeiramente os ombros:

— Ora, as coisas que a gente ouve por acaso...

— São muitas vezes interessantes — disse Dame Laura. — Eram homens muito decentes... e a opinião que tinham de Steene era bastante comprometedora. Além disso, há Moira Denham, que foi a segunda esposa dele. Eu a conheci antes que casasse com ele, e voltei a vê-la depois que tudo acabou. Era uma ruína total, com os nervos em frangalhos.

— Está sugerindo que Sarah...

— Não estou sugerindo que Sarah seria reduzida a uma ruína se casasse com Lawrence Steene. Ela tem um temperamento mais exuberante. Sarah não é uma borboletinha indefesa.

— Bem, então...

— Mas acho realmente que ela poderá ser muito infeliz. E há ainda um terceiro ponto. Leu algo nos jornais sobre uma jovem chamada Sheila Vaugham Wright?

— Alguma coisa sobre ser viciada em drogas?

— Sim. É a segunda vez que vai a julgamento. Durante algum tempo foi amiga de Lawrence Steene. Tudo que estou lhe dizendo, Ann, é que Lawrence Steene é uma pessoa particularmente sórdida. . . no caso de você ainda não saber. Mas talvez saiba?

— Sei que falam muito dele, é claro — disse Ann, um tanto relutante. — Mas o que espera que eu faça? Não posso proibir Sarah de sair com ele. Se proibisse, ela provavelmente continuaria saindo. As jovens não suportam ser mandadas, como você deve saber muito bem. Isso simplesmente daria ao caso uma importância maior. Não creio que haja algo de sério nisso tudo, no momento. Ele a admira e ela se sente lisonjeada porque ele é considerado um cafajeste. Mas você parece estar pressupondo que ele quer casar com ela. . .

— Sim, acho que quer. Ele é o que eu chamaria de colecionador.

— O que quer dizer?

— É um tipo... e não é o melhor dos tipos que existem. Supondo que ela queira casar com ele. . . o que você acharia disso?

— De que adiantaria eu achar alguma coisa? — respondeu Ann, com amargura. — As moças fazem exatamente o que querem; e casam com quem querem.

— Mas você tem muita influência sobre Sarah.

— Oh, não, Laura. Aí você se engana. Sarah é inteiramente independente. Eu não interfiro.

Laura Whitstable encarou-a.

— Sabe Ann, não consigo entendê-la. Não ficaria contrariada se ela casasse com esse homem?

— É tudo tão difícil! Muitos homens de má reputação revelam-se ótimos maridos, uma vez passados os desvarios da mocidade. Encarando do ponto de vista puramente mundano, Lawrence Steene é um ótimo partido.

— Isso não a influenciaria, Ann. É a felicidade de Sarah que você deseja, não suas propriedades materiais.

— Ora, é claro. Mas, caso você ainda não tenha percebido, Sarah gosta muito de coisas bonitas, de viver luxuosamente... muito mais do que eu.

— Mas ela não casaria unicamente por isso?

— Acho que não — Ann parecia em dúvida. — Na verdade, penso que ela se sente mesmo atraída por Lawrence.

— E acha que o dinheiro poderá equilibrar os pratos da balança...

— Não sei, estou lhe dizendo! Penso que Sarah iria... bem... hesitar antes de casar com um homem

— Gostaria de saber — disse Dame Laura, pensativa.

— As moças de hoje parecem não pensar nem falar em outra coisa além do dinheiro.

— Ora, falar! Ouvi Sarah falar, abençoada seja! Tudo muito razoável, frio e sem sentimentalismos. Mas a linguagem serve tanto para expressar os pensamentos como para escondê-los. Seja em qual for a geração, as jovens falam segundo um padrão estabelecido. A questão é saber o que Sarah deseja, realmente.

— Não tenho idéia — disse Ann. — Imagino que deseje apenas... se divertir.

Dame Laura lançou-lhe um rápido olhar,

— Acha que ela é feliz?

— Oh, sim. Realmente, Laura, ela se diverte muito.

— Não me pareceu assim tão feliz — comentou Laura, pensativa.

Ann retrucou vivamente:

— Todas as moças têm um ar descontente: é uma atitude que assumem.

— Talvez. Então acha que não pode fazer nada com relação a Lawrence Steene?

— Não vejo o que possa fazer. Por que você não fala com ela?

— Não farei isso. Sou apenas a madrinha. Conheço minhas obrigações.

Ann ficou vermelha de raiva.

— Suponho que considera minha obrigação falar com ela?

— De modo algum. Como você diz, falar não adianta muito.

— Mas acha que devo fazer alguma coisa?

— Não necessariamente.

— Então o que quer dizer?

Laura Whitstable olhou pensativamente para o lado oposto da sala.

— Estava me perguntando em que você estaria pensando...

— E u ?

— Sim.

— Não estou pensando em nada. Absolutamente nada.

Laura tirou os olhos do outro extremo da sala e lançou a Ann um rápido olhar, como o de um pássaro.

— Não — disse ela. — E é disso que eu tinha medo.

— Não entendo nada do que você está dizendo.

Laura Whitstable falou:

— O que está acontecendo não se passa na sua mente. Ê muito mais profundo.

— Oh, não me venha com tolices sobre o inconsciente! Realmente, Laura, você... você parece estar me acusando...

— Não sou eu quem a está acusando.

Ann levantou-se e começou a caminhar pela sala:

— Não sei o que está querendo dizer. Eu amo Sarah... Você bem sabe como ela sempre foi importante para mim. Eu... eu sacrifiquei tudo por ela!...

— Sei que há dois anos você fez um grande sacrifício por ela — disse Laura gravemente.

— Então — perguntou Ann. — Isso não prova alguma coisa?

— O quê?

— O quanto eu gosto dela!

— Mas minha querida, não fui eu que disse que você não gostava! Você está se defendendo... mas não de qualquer acusação que eu tenha feito — Laura levantou-se. — Tenho que ir agora. Talvez fosse melhor eu não ter vindo.

Ann foi com ela até a porta:

— Entenda, é tudo tão vago... nada em que se possa deitar as mãos...

— Sei, sei. — Laura fez uma pausa e logo continuou, com repentina e surpreendente energia: — O problema dos sacrifícios é que eles nunca terminam, nem são esquecidos, depois que acontecem... mas continuam...

Ann encarou-a, surpresa:

— O que quer dizer, Laura?

— Nada. Deus a abençoe, minha querida, e aceite um conselho meu, em caráter profissional: não viva num ritmo tão intenso que não lhe deixe tempo para pensar.

Ann riu, outra vez bem-humorada.

— Só vou sentar e pensar quando for velha de mais para fazer qualquer outra coisa — disse alegremente.

Edith entrou para levar os copos. Ann olhou o relógio, soltou uma exclamação e foi para o quarto.

Pintou-se com especial cuidado, examinando-se atentamente no espelho. O novo corte de cabelo fora um sucesso, pensou. Parecia muitos anos mais moça. Ouvindo uma batida na porta da frente, gritou para Edith:

— Alguma carta?

Houve um silêncio enquanto Edith examinava a correspondência, antes de responder.

— Nenhuma, apenas contas, madame... e uma vinda da África da Sul para a Srta. Sarah.

Edith deu leve ênfase às três últimas palavras, mas Ann não percebeu. Voltou à sala no instante em que Sarah entrava.

— O que eu detesto nos crisântemos é esse cheiro horrível que eles têm — resmungou Sarah. — Acho que vou largar Noreen e arranjar um emprego de manequim. Sandra está doida para que eu vá trabalhar com ela. E o salário é melhor. Olá, recebeu visitas para o chá? — perguntou, enquanto Edith entrava para apanhar uma xícara esquecida.

— Laura esteve aqui.

— Laura? Outra vez? Ela esteve aqui ontem.

— Eu sei — Ann hesitou um instante antes de continuar. — Ela veio para me dizer que eu não devia permitir que você saísse com Larry Steene.

— Laura disse isso? Quanto cuidado! Está com medo de que eu seja devorada pelo lobo mau?

— Parece — disse Ann, cautelosamente. — Dizem que ele tem uma péssima reputação.

— Ora, isso não é novidade! Aquilo que eu vi na entrada eram cartas? — Sarah foi até o vestíbulo e voltou trazendo na mão uma carta com selo da África do Sul.

— Laura parece pensar que eu devia impedir este seu namoro com Lawrence — falou Ann.

Olhando para a carta, Sarah perguntou com ar ausente:

— O quê?

— Laura acha que eu devia pôr um ponto final nos seus passeios com Lawrence.

— Querida, e como você faria isto? — indagou Sarah alegremente.

— Foi o que eu disse a ela — retrucou Ann, triunfante. — Não há muito que as mães possam fazer hoje em dia.

Sarah sentou-se no braço de uma poltrona e abriu a carta. Desdobrou as duas folhas e começou a ler.

— A gente chega a esquecer que Laura tem a idade que tem! — continuou Ann. — Está ficando tão velha que perdeu totalmente o contato com as idéias modernas. É claro que, para ser franca, eu também fiquei bastante preocupada ao vê-la sair tanto com Larry Steene... mas depois decidi que seria pior, se eu falasse alguma coisa. Sei que posso ter certeza de que você não vai fazer nenhuma tolice.

Parou. Sarah, a atenção voltada para a carta, murmurou:

— Claro, querida.

— Mas você deve ter a liberdade de escolher seus amigos. Creio mesmo que muitas vezes surgem atritos justamente porque...

O telefone tocou.

— Oh meu Deus, o telefone! — exclamou Ann. Inclinou-se alegremente para atender, cheia de expectativa.

— Alô... Sim, é a Sra. Prentice. Sim... Quem? Não consigo entender o nome. Cornford? Oh, C-A-U-L-D-... Oh!... Oh ! . . . Que estupidez a minha! É você, Richard? Sim, faz tanto tempo... Bem, é muita gentileza sua. Não, é claro que não... Não, estou encantada ... Sinceramente, palavra... Pensei em você muitas vezes. . . O que tem feito?. . . O quê?... É mesmo?... Fico tão contente! Meus cumprimentos... Estou certa de que ela é encantadora... É muita bondade sua... gostaria muito de conhecê-la...

Sarah levantou-se do braço da cadeira onde estivera sentada. Caminhou lentamente até a porta, os olhos perdidos, vazios. A carta estava amarrotada na sua mão.

Ann continuou:

— Não, amanhã não posso... não... espere um minuto, vou apanhar meu caderninho... — chamou com urgência: — Sarah!

Sarah voltou-se da porta:

— Sim?

— Onde está meu caderninho?

— Seu caderninho? Não tenho a menor idéia... Sarah estava a quilômetros de distância. Ann continuou, irritada:

— Bem, procure. Deve estar em algum lugar. Ao lado da minha cama, talvez. Depressa, querida!

Sarah saiu e voltou um momento depois com a agenda de compromissos:

— Aqui está, mamãe.

Ann folheou rapidamente:

— Ainda está aí, Richard? Não, almoço é impossível. Você talvez pudesse vir tomar um drinque na terça-feira?... Oh, entendo... Sinto muito. E almoçar, também é impossível? Bem... você tem mesmo que viajar no trem da manhã? Onde está hospedado? Ah, mas é aqui perto. Sei... e não poderiam vir agora para um drinque rápido? Não, eu ia sair... mas tenho ainda muito tempo. Será ótimo. Venham logo.

Colocou o fone no gancho e ficou distraída, os olhos perdidos no espaço.

Sarah perguntou, sem muito interesse:

— Quem era? — e logo acrescentou, com esforço: — Mamãe, soube notícias de Gerry...

Ann levantou-se subitamente.

— Diga a Edith para trazer os copos melhores e um pouco de gelo. Depressa! Eles vêm até aqui para tomar um drinque.

Sarah moveu-se obedientemente:

— Quem? — perguntou, ainda sem grande curiosidade.

— Richard — respondeu Ann. — Richard Cauldfield!

— Quem é ele? — indagou Sarah.

Ann olhou-a vivamente, mas o rosto de Sarah não tinha qualquer expressão. Ela saiu para chamar Edith e quando voltou, Ann disse com ênfase:

— Era Richard Cauldfield.

— E quem é Richard Cauldfield? — Sarah parecia intrigada.

Ann apertou as mãos. Sua fúria era tão intensa que teve que ficar calada durante um minuto para controlar a voz que tremia.

— Então... você nem ao menos lembra o nome dele...

Os olhos de Sarah estavam novamente pousados sobre a carta que tinha nas mãos. Respondeu com naturalidade:

— Eu o conheci? Fale alguma coisa sobre ele.

Ann tinha a voz rouca, quando repetiu, desta vez, com ênfase cortante que não podia ser ignorada:

— Richard Cauldfield!

Sarah ergueu os olhos, espantada. De repente, entendeu:

— Quê! Não é o Cauliflower?!

— Ele mesmo.

Para Sarah aquilo era uma grande piada.

— Engraçado ele aparecer de novo — disse, animada. — Ainda está atrás de você, mamãe?

— Não, ele casou — Ann respondeu secamente.

— Muito bem! Como será ela?

— Ele vai trazê-la até aqui. Vão chegar logo, estão hospedados no Langport. Dê um jeito nestes livros, Sarah. Guarde suas coisas no vestíbulo. Não esqueça as luvas.

Abrindo a bolsa, Ann examinou ansiosamente o rosto no espelhinho.

— Estou bem? — perguntou a Sarah, que voltava.

— Sim, ótima — respondeu ela, distraidamente.

Tinha o cenho franzido. Ann fechou a bolsa e andou, inquieta, pela sala, mudando a posição de uma cadeira, arranjando melhor uma almofada.

— Mamãe, recebi notícias do Gerry.

— Recebeu?

O vaso com crisântemos dourados ficaria melhor naquela mesa do canto.

— Ele teve um azar horrível.

— Teve?

A cigarreira e os fósforos aqui.

— Sim. As laranjas pegaram uma doença qualquer, ele e o sócio ficaram cheios de dívidas, e agora... agora tiveram que vender. Foi um fracasso.

— Que pena. Mas não posso dizer que seja uma surpresa.

— Por quê?

— Coisas desse tipo parecem acontecer sempre com Gerry — disse Ann vagamente.

— Sim... sim, é verdade — Sarah parecia abatida. A generosa indignação com que defendera Gerry não era agora tão espontânea. Continuou sem muita convicção: — A culpa não é dele... — Mas já não estava tão convencida quanto teria estado no passado.

— Talvez não — falou Ann, distraidamente. — Mas tenho medo de que ele acabe sempre estragando as coisas.

— Você acha? — Sarah voltou a sentar no braço da cadeira, e falou ansiosamente: — Mamãe, você acha... realmente acha,.. que Gerry nunca vai acertar?

— Não vejo muito jeito.

— E no entanto eu sei... tenho certeza... de que ele tem muito valor.

— É um rapaz encantador — disse Ann — mas creio que é uma dessas pessoas que nunca se encontram.

— Talvez — suspirou Ann.

— Onde está o sherry? Richard sempre preferia tomar sherry. Oh, lá está ele.

— Gerry diz que vai para o Quênia — continuou Sarah — . . . ele e um outro amigo. Vão vender carros. . . e dirigir uma garagem.

— É incrível a quantidade de gente incompetente que acaba dirigindo garagens — comentou Ann.

— Mas Gerry sempre teve jeito para lidar com carros. Conseguiu fazer com que aquele que comprou por uma ninharia funcionasse maravilhosamente, lembra-se? E sabe, mamãe, não é que ele seja preguiçoso ou não queira trabalhar. Ele trabalha. . . e às vezes se esforça muitíssimo. Mas acho que não tem muito discernimento.

Pela primeira vez Ann concentrou a atenção em Sarah. Falou então bondosamente, mas num tom decidido:

— Sabe, Sarah, se eu fosse você, e u . . . bem, eu trataria de esquecer Gerry...

— Você faria isso? — Sarah pareceu abalada. Seus lábios tremeram e ela falou sem convicção.

A campainha tocou, com chamadas surdas e insistentes .

— Chegaram — disse Ann.

Levantou-se e ficou parada diante da lareira, numa pose um tanto artificial.