A Filha

Agatha Christie · Capítulo 18 de 18

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A Filha

Capítulo VI · EDITH levantou o fone do gancho com…

 

1

 

EDITH levantou o fone do gancho com ar de alguém que está lidando com dinamite, suspirou fundo e discou. Ao ouvir o telefone tocar no outro extremo da linha, virou a cabeça e olhou por cima do ombro. Tudo bem, estava sozinha no apartamento. A voz enérgica e profissional que lhe chegou através do fio deu-lhe um susto que a fez estremecer.

— Welbeck 97438.

— Oh... é Dame Laura Whitstable?

— Ela mesma.

Edith engoliu duas vezes em seco, nervosa.

— É Edith, madame. A Edith da Sra. Prentice.

— Boa noite, Edith.

Edith tornou a engolir em seco e falou obscuramente:

— Telefones são coisas detestáveis.

— Sim, entendo. Queria me falar sobre alguma coisa?

— É sobre a Sra. Prentice, madame. Estou preocupada com ela, estou mesmo.

— Mas já faz muito tempo que você está preocupada com ela, não é Edith?

— Agora é diferente, madame. Bem diferente. Ela não quer comer e fica sentada, sem fazer nada. E muitas vezes eu a encontro chorando. Está mais calma, entende, sem aquela agitação que tinha antes. E já não fica irritada comigo, voltou a ser delicada e atenciosa como antigamente... mas não tem mais ânimo... nenhum entusiasmo. É horrível, madame, horrível.

O telefone comentou “Interessante” de um modo profissional e desapaixonado que não era absolutamente o que Edith desejava ouvir.

— Seu coração ia sangrar se visse, madame; palavra que ia.

— Não use expressões ridículas, Edith. Corações não costumam sangrar, a menos que estejam feridos.

Edith continuou:

— É alguma coisa relacionada com a Srta. Sarah, madame. Tiveram uma briga danada e agora faz quase um mês que a Srta. Sarah não vem aqui.

— Não, ela esteve fora de Londres... — no campo.

— Eu escrevi para ela.

— Nenhuma carta lhe foi entregue.

Edith animou-se um pouco:

— Oh, bem, então quando ela voltar a Londres...

Dame Laura interrompeu:

— Acho que é melhor preparar-se para um choque, Edith: Sarah vai partir para o Canadá com o Sr. Gerald Lloyd.

Edith fez um ruído desaprovador, como de um sifão de soda.

— Mas isto é positivamente imoral! Abandonar o marido!

— Não seja santarrona, Edith. Quem é você para julgar a conduta dos outros? Lá ela vai ter uma vida dura... sem nenhum dos luxos a que está acostumada.

— É, isto parece tornar a coisa menos pecaminosa — suspirou Edith. — E se me permite dizer, madame, o Sr. Steene sempre me deu arrepios. É o tipo do cavalheiro que a gente pode imaginar vendendo a alma ao diabo.

— Levando em conta a inevitável diferença na nossa linguagem, estou inclinada a concordar com você.

— A Srta. Sarah não virá aqui para se despedir?

— Parece que não.

— Pois eu acho que isto é pura maldade dela — disse Edith, indignada.

— Você não é capaz de entender.

— Eu sou muito capaz de entender como é que uma filha deve agir com sua mãe. Nunca esperei isso da Srta. Sarah! Não há nada que a senhora possa fazer?

— Eu jamais interfiro.

Edith respirou fundo antes de falar:

— Bem, a senhora vai me desculpar... sei que é uma senhora muito famosa e muito sabida, e eu sou apenas uma criada... mas acho que este é um momento em que devia interferir!

 

2

 

Foi preciso que Edith repetisse duas vezes o que dissera, antes que Ann despertasse do seu torpor e desse sinal de ter escutado, perguntando:

— O que foi que você falou, Edith?

— Falei que o seu cabelo está esquisito, aí perto da raiz. A senhora devia retocar a pintura.

— Não vou me incomodar mais com isso, ficará melhor grisalho.

— Vai ficar com um ar mais distinto, concordo, mas assim misturado como está, tem um jeito engraçado.

— Não importa.

Nada importava. O que poderia ter qualquer importância na sucessão monótona dos dias que passavam? Ann pensou, como já pensara tantas vezes: “Sarah não me perdoará nunca. E ela tem razão.” O telefone tocou e ela levantou-se para atender. Disse “alô” num tom desanimado e teve um pequeno sobressalto ao ouvir a voz incisiva de Dame Laura.

— Ann?

— Sim.

— Não gosto de me intrometer na vida dos outros, mas... creio que talvez você deva saber que Sarah e Gerald Lloyd vão viajar para o Canadá esta noite, no avião das oito.

— O quê? — gaguejou Ann. — Eu... faz semanas que não vejo Sarah.

— Não. Ela esteve internada numa clínica, no interior. Foi para lá voluntariamente e submeteu-se a um tratamento para curar-se do vício das drogas.

— Oh, Laura! — as palavras jorravam pela boca de Ann. — Você se lembra de quando me perguntou se eu conhecia Ann Prentice? Pois conheço agora. Eu arruinei a vida de Sarah por ressentimento e despeito e ela nunca me perdoará!

— Tolice. Ninguém é capaz de arruinar a vida de outra pessoa, não de verdade. Não seja melodramática e não rasteje.

— Mas é verdade. Eu sei exatamente quem sou e o que fiz.

— Isto é ótimo... mas já faz algum tempo que sabe essas coisas, não é? Não seria melhor pensar no que vem depois?

— Você não entende, Laura. Eu sinto um tal peso na consciência... tanto remorso...

— Ouça Ann: há duas coisas que eu não admito. Alguém que vem me contar como é bom e quais as razões morais que o levaram a fazer as coisas que fez. E quem não pára de se lamentar e falar nas maldades que praticou. Ambos podem ter razão: devemos reconhecer a verdade das nossas ações, é claro, mas uma vez isto feito, passemos adiante! Você não pode fazer o tempo voltar atrás, e geralmente é impossível desfazer o que já está feito. Continue a viver!

— Laura, o que acha que devo fazer?

— Posso ter interferido, mas não vou descer ao ponto de dar conselhos — respondeu Laura, antes de desligar, com firmeza.

Movendo-se como num sonho, Ann atravessou a sala e foi até o sofá, onde ficou sentada, os olhos perdidos no espaço.

Sarah-Gerry... será que daria certo? Será que a sua menina, a sua menina tão amada, encontraria afinal a felicidade? Gerry era basicamente um homem fraco. Será que a sua história de fracassos iria continuar e ele acabaria decepcionando Sarah, tomando-a desiludida e infeliz? Se ao menos Gerry fosse diferente do que era! Mas Gerry era o homem que Sarah amava.

O tempo passava e Ann continuava sentada, imóvel.

Ela já não podia fazer nada, um abismo intransponível a separava de Sarah.

Edith veio espiar a patroa e afastou-se silenciosamente. Mas logo voltou para atender a campainha da porta.

— O Sr. Mowbray veio buscá-la, senhora.

— O que foi que disse?

— O Sr. Mowbray está esperando lá embaixo. Ann levantou-se de um salto: os olhos buscaram o relógio. Em que estivera pensando para ficar assim sentada, semiparalisada?

Sarah ia partir esta noite... para o outro lado do mundo...

Agarrou o casaco de pele e correu para fora do apartamento.

— Basil — falou, sem fôlego. — Por favor, leve-me para o aeroporto, o mais depressa que puder.

— Mas o que está acontecendo, Ann querida?

— É Sarah. Ela vai viajar para o Canadá e eu ainda não me despedi.

— Mas querida, não acha que deixou para fazer isso um pouco tarde?

— É claro que deixei! Fui uma idiota. Mas espero que não seja tarde demais. Oh, vamos Basil, depressa!

Basil Mowbray suspirou e ligou o motor:

— E eu que sempre pensei que você fosse uma mulher sensata, Ann — falou, em tom de censura. — Dou graças ao pensar que nunca vou ser pai. Isso parece fazer com que as pessoas se comportem de um modo tão esquisito!

— Ande depressa, Basil!

Basil suspirou.

Foram pelas ruas de Kensington, evitando os engarrafamentos de Hammersmith por uma série de ruazinhas complicadas, seguindo por Chiswick, onde o tráfego era pesado, até chegar finalmente à Great West Road, passando pelas altas fábricas e edifícios iluminados — depois pelas casas enfeitadas, onde vi-viam pessoas: mães e filhas, pais e filhos, maridos e mulheres, todos com seus problemas, suas brigas e reconciliações. “Exatamente como eu” — pensou Ann. Sentiu um súbito parentesco, um repentino impulso de amor e compreensão por toda a raça humana. Não estava sozinha, nem nunca estaria, pois vivia num mundo povoado por seus semelhantes...

 

3

 

No saguão do aeroporto os passageiros aguardavam a chamada para o embarque.

— Não está arrependida? — perguntou Gerry.

Sarah lançou-lhe um rápido olhar tranqüilizador. Estava mais magra, e o seu rosto trazia as marcas que o sofrimento costuma deixar. Era um rosto mais velho, não menos belo, mas agora totalmente amadurecido.

Gerry queria que eu fosse me despedir de Mamãe, ela pensava. Ele não

Ela não podia fazer com que Richard Cauldfield voltasse.

Não, o que fizera à mãe estava além de qualquer perdão.

Sentia-se feliz ao lado de Gerry, partindo para uma nova vida junto dele, mas alguma coisa nela gritava desconsoladamente: — Estou indo embora, Mamãe, indo embora...

Se ao menos...

A voz estridente do alto-falante fê-la estremecer:

“Passageiros do Vôo 00346, com destino a Prestwick, Gander e Montreal, queiram seguir a luz verde até a Alfândega e Imigração”.

Os passageiros apanharam suas bagagens de mão e caminharam em direção à porta do fundo. Sarah seguia Gerry, deixando-se ficar um pouquinho para trás.

— Sarah!

Ann entrou pela porta principal, o casaco de pele escorregando-lhe dos ombros, e correu para a filha. Sarah foi ao seu encontro, deixando cair a pequena maleta de viagem.

— Mamãe!

Abraçaram-se com força, e logo se afastaram para se olharem melhor.

Todas as coisas que Ann pensara dizer, que tinha ensaiado durante a vinda para o aeroporto, lhe morreram nos lábios. Não havia necessidade delas. E Sarah também sentiu que não era preciso falar. Dizer “Perdão, Mamãe” não teria nenhum sentido.

E naquele momento Sarah se desfez dos últimos vestígios da dependência infantil que ainda a prendiam a Ann. Era agora uma mulher independente, capaz de tomar suas próprias decisões.

Com um curioso impulso para tranqüilizá-la, Sarah falou depressa:

— Tudo vai dar certo, Mamãe.

— Eu cuidarei dela, Sra. Prentice — disse Gerry, sorrindo.

Um funcionário do aeroporto aproximou-se deles para mostrar-lhes o caminho.

Falando na mesma linguagem inadequada, Sarah continuou:

— Você vai ficar bem, não é Mamãe?

E Ann respondeu:

— Sim, querida. Muito bem. Adeus. . . e Deus a abençoe!

Gerry e Sarah afastaram-se, em direção à sua nova vida, e Ann voltou para o carro, onde Basil a esperava.

— Essas máquinas aterrorizantes — comentou Basil, enquanto um jato rugia pela pista. — Parecem enormes insetos malignos! Eles me matam de medo!

Seguiu até a estrada e tomou a direção de Londres.

— Se não se importa, Basil, não vou sair com você; prefiro passar uma noite tranqüila, em casa.

— Muito bem, querida, eu a levarei até lá.

Ann sempre pensara que Basil Mowbray era “tão divertido e maldoso”. Percebeu de repente que ele também era um homenzinho bom e um tanto solitário.

Meu Deus, pensou Ann, que confusão ridícula eu andei fazendo!

Basil estava dizendo, ansioso:

— Mas Ann, querida, não acha que devia comer alguma coisa? Não haverá nada pronto no apartamento.

Ann sorriu e sacudiu a cabeça. Diante dos seus olhos surgiu uma cena agradável.

— Não se preocupe — ela disse. Edith vai me trazer uma bandeja com ovos mexidos, e se Deus quiser, servir em frente à lareira uma gostosa xícara de chá bem quente!

Enquanto entrava, Edith lançou um olhar feroz para a patroa, mas tudo o que disse foi:

— Entrem e sentem-se perto da lareira. Vou só tirar essa roupa e vestir algo mais confortável.

— Ponha aquele penhoar de flanela azul que você me deu há quatro anos. É muito mais confortável do que esse tal de negligê, como você chama. Eu nunca usei. Está esquecido na última gaveta, esperando para eu ser enterrada com ele.

Deitada no sofá da sala, o penhoar azul envolvendo-lhe gostosamente o corpo, Ann olhava fixamente o fogo.

Nesse momento Edith entrou com a bandeja e pousou-a numa mesinha baixa, bem ao lado de Ann.

— Mais tarde vou escovar seu cabelo — disse ela.

Ann sorriu:

— Edith, por que você hoje está me tratando como se eu fosse uma menininha?

Edith resmungou:

— É isto que você sempre foi para mim.

— Edith — Ann olhou para ela e falou com certo esforço: — Edith, estive com Sarah. Está... está tudo bem.

— É claro que está tudo bem! Sempre esteve! Eu lhe disse!

Por um momento ela ficou em pé olhando para a patroa, sua velha fisionomia carrancuda, agora doce e desanuviada.

“Essa paz maravilhosa”... pensou Ann. Velhas palavras lhe voltaram à memória. “A paz de Deus que ultrapassa toda e qualquer compreensão ...”

 

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