A Filha

Agatha Christie · Capítulo 6 de 18

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A Filha

Capítulo VI · SARAH voltou à sala, fechando um robe de brocado.

 

— Eu tinha que tirar aquela roupa de esquiar. Quero mesmo um banho. Como os trens são sujos! Tem um drinque para mim, Gerry?

— Cá está.

Sarah apanhou o copo.

— Obrigada. Aquele homem já foi? Bom trabalho.

— Quem era ele?

— Nunca o vi na minha vida — disse Sarah. Riu: — Deve ser um desses que Mamãe pega na rua.

Edith entrou na sala para puxar as cortinas, e Sarah perguntou:

— Quem era ele, Edith?

— Um amigo de sua mãe, Srta. Sarah. — Edith deu um puxão nas cortinas e rumou para a segunda janela.

Sarah disse animadamente:

— Já era tempo de voltar para casa e escolher os amigos dela.

Edith disse “Ah”, e puxou a segunda cortina. Então, olhando fixamente para Sarah, ela falou:

— Não gostou dele?

— Não, não gostei.

Edith resmungou alguma coisa e saiu da sala.

— O que foi que ela disse, Gerry?

— Acho que falou que era uma pena.

— Que engraçado.

— Parecia misteriosa.

— Ora, você sabe como ela é. Por que Mamãe não chega? Por que tem que ser tão confusa?

— Ela não costuma ser muito confusa. Eu, pelo menos, não diria isso.

— Foi delicadeza sua vir me receber, Gerry. Sinto nunca ter escrito, mas você sabe como é a vida. Como conseguiu sair do escritório a tempo de ir à Vitória?

Houve uma ligeira pausa, antes que Gerry dissesse:

— Oh, não foi particularmente difícil, face às circunstâncias.

Sarah sentou-se, muito atenta, e olhou para ele.

— Então, Gerry, conte logo. O que há de errado?

— Nada. Só que as coisas não saíram muito bem.

Sarah falou em tom acusador:

— Você disse que ia ser paciente e manter a calma.

Gerry franziu as sobrancelhas.

— Sei de tudo isso, querida, mas você não tem idéia do que tem sido. Bom Deus, voltar para casa depois de um lugar como a Coréia, onde tudo é infernal mas ao menos a maioria dos caras é decente, e se ver preso num escritório ganancioso da City. Você não imagina como é o Tio Luke. Gordo e ofegante, com olhinhos vivos como os de um porco. “Contente em vê-lo em casa, meu filho”. — Gerry era um bom mímico. Ele arquejava a cada palavra, num jeito asmático e untuoso. — “Er... ah... espero que, agora que essa agitação acabou, você venha para o escritório e aa... aa. . . e se esforce mesmo de verdade. Nós estamos... aa... com falta de pessoal... acho que posso dizer que há... excelentes perspectivas se você levar mesmo a sério o trabalho. Naturalmente começará de baixo. Nada... aa... de favores, é o meu lema. Você já teve um longo período de folga... agora veremos se pode começar a trabalhar seriamente”.

Levantou-se, e começou a caminhar.

— Folga, é assim que aquela coisa gorda chama o serviço ativo no exército. Por Deus, eu gostaria de vê-lo tocaiado por um daqueles comunistas amarelos. Esses ricaços ficam de traseiro sentado nos escritórios, sem pensar em nada a não ser dinheiro...

— Ora cale-se, Gerry — disse Sarah, impaciente. — Seu tio simplesmente não tem imaginação. Afinal, você mesmo disse que precisava ter um emprego e ganhar algum dinheiro. Não nego que seja tudo muito desagradável, mas qual é a alternativa? Na verdade você tem sorte em ter um tio rico na City. A maioria das pessoas daria os olhos para ter um!

— E por que ele é rico? — perguntou Gerry. — Porque está nadando no dinheiro que devia ter vindo para mim. Por que meu tio-avô Harry deixou para ele, ao invés de deixar para meu pai, que era o irmão mais velho...

— Tudo isso não importa — disse Sarah. — De qualquer jeito, provavelmente quando o dinheiro chegasse às suas mãos já não restaria mais nada. Teria ido tudo no imposto de transmissão causa mortis.

— Mas foi injusto. Você admite isso?

— Tudo é sempre injusto — retorquiu Sarah. — Mas não adianta continuar se queixando. Para começar, isso deixa você extremamente maçante. A gente fica tão cansada de só ouvir falar na falta de sorte das pessoas.

— Devo dizer que você não está sendo muito compreensiva.

— Não. Sabe, no que eu acredito é em franqueza absoluta. Acho que devia ou tomar uma atitude e sair desse emprego, ou parar de se queixar dele e apenas agradecer aos céus por ter um tio rico na City, com olhos de porco e asma. Olá, parece que Mamãe chegou finalmente.

Ann mal abrira a porta. Entrou correndo na sala.

— Sarah querida!

— Mamãe... finalmente — Sarah envolveu a mãe num grande abraço. — O que houve?

— É o meu relógio. Tinha parado.

— Bem, Gerry me encontrou, o que já foi alguma coisa.

— Oh, olá Gerry, não o tinha visto. — Ann saudou-o animadamente, embora no íntimo se sentisse irritada. Desejava tanto que essa história de Gerry acabasse!

— Deixe-me olhá-la, querida — disse Sarah. — Você está muito elegante. Esse chapéu é novo, não? Está com ótimo aspecto, Mamãe.

— Você também. E tão bronzeada!

— Sol na neve. Edith está terrivelmente desapontada por eu não ter chegado em casa envolta em ataduras. Você gostaria que eu tivesse quebrado alguns ossos, não é Edith?

Edith, que estava trazendo a bandeja do chá, não replicou diretamente:

— Trouxe três xícaras — disse ela, — embora pense que a Srta. Sarah e o Sr. Lloyd não vão querer, uma vez que estão tomando gim.

— Como você faz isso soar dissoluto, Edith — observou Sarah. — Em todo caso, nós oferecemos àquele fulano. Quem é ele, Mamãe? Um nome como Cauliflower.

Edith disse a Ann:

— O Sr. Cauldfield disse que não podia esperar, madame. Vai vir amanhã, como tinha ficado combinado.

— Quem é Cauldfield, Mamãe, e por que ele tem que vir amanhã? Tenho certeza de que não o queremos.

Ann disse rapidamente:

— Você toma mais um, não Gerry?

— Não, obrigado, Sra. Prentice. Preciso mesmo ir agora. Adeus, Sarah.

Sarah foi com ele até o vestíbulo. O rapaz perguntou :

— Que tal um cinema esta noite? Há um bom filme francês no Academy.

— Oh, que bom. Não... talvez seja melhor não ir. Afinal, é minha primeira noite em casa. Penso que devia passá-la com Mamãe. A pobrezinha pode ficar desapontada se eu sair logo.

— Eu acho, Sarah, que você é uma filha incrivelmente boa.

— Bem, Mamãe é mesmo muito querida.

— Oh, sei que é.

— Faz um monte incrível de perguntas, é claro. Você sabe, quem a gente encontrou e o que fez. Mas de um modo geral, para uma mãe ela é bastante sensata. Vamos fazer uma coisa, Gerry, se eu achar que não tem problema telefono mais tarde.

Sarah voltou à sala e começou a mordiscar bolinhos.

— Esses são a especialidade de Edith — observou. — Loucamente engordantes. Não sei onde ela consegue arranjar os ingredientes. Agora, Mamãe, conte-me tudo o que tem feito. Tem saído com o Coronel Grant e o resto dos amigos, e se divertido bastante?

— Não... só que... sim, de um certo modo...

Ann parou. Sarah encarou-a.

— Aconteceu alguma coisa, Mamãe?

— Acontecer? Não. Por quê?

— Você está tão estranha!

— Eu?

— Mamãe, alguma coisa há. Você realmente parece muito esquisita. Vamos, conte. Nunca vi uma expressão tão culpada. Vamos, Mamãe, o que andou fazendo?

— Nada... nada de mais. Oh, Sarah, querida. Precisa crer que não fará nenhuma diferença. Tudo será o mesmo, só que... — A voz de Ann vacilou e morreu. “Como sou covarde”, pensou consigo. “Por que uma filha deixa a gente tão acanhada, ao falar nessas coisas?”

Enquanto isso Sarah continuava a encará-la. Subitamente começou a sorrir da maneira mais amável possível.

— Eu acho... Vamos, Mamãe, confesse. Está tentando me contar, com jeito, que vou ter um padrasto?

— Oh, Sarah — Ann deu um suspiro de alívio.

— Como adivinhou?

— Não foi tão difícil assim. Nunca vi alguém tremer de maneira tão horrível. Pensou que eu fosse me importar?

— Acho que pensei. E não se importa? Mesmo?

— Não — respondeu Sarah em tom sério. — Acho até que está certa. Afinal, Papai morreu há dezesseis anos. Você deve ter alguma vida sexual antes que seja tarde demais. Está exatamente no que chamam de idade perigosa. E é antiquada demais para apenas ter um caso.

Ann olhou um tanto desamparada para a filha. Pensou em como tudo estava acontecendo de modo diferente do que pensara.

— Sim — disse Sarah, balançando a cabeça. — Com você tem que ser casamento.

Ann pensou: “Esse querido bebê absurdo”, mas teve cuidado em não dizer coisa alguma desse tipo.

— Você ainda é bem bonita — continuou Sarah, com a devastadora franqueza da juventude. — É por que tem pele boa. Mas ficaria muito mais bonita se depilasse as sobrancelhas.

— Gosto das minhas sobrancelhas — disse Ann, obstinadamente.

— Você é mesmo tremendamente atraente, querida — disse Sarah. — Fico mesmo surpresa por não ter escapado antes. Quem é, por falar nisso? Tenho três palpites: um, o Coronel Grant, dois o Professor Fane, três aquele polonês melancólico de nome impronunciável. Mas estou quase certa de que é o Coronel Grant. Ele anda atrás de você há anos.

Ann disse quase sem fôlego:

— Não é James Grant. É... é Richard Cauldfield.

— Quem é Richard Cauld... Mamãe, aquele homem que estava aqui ainda agora?

Ann assentiu com a cabeça.

— Mas não pode, Mamãe. Ele é todo arrogante e horrível.

— Não é nem um pouco horrível — disse Ann, asperamente.

— Francamente, Mamãe, você podia conseguir coisa melhor.

— Sarah, não sabe do que está falando. Eu. . . eu gosto muito dele.

— Quer dizer que o ama? — Sarah estava francamente incrédula. — Quer dizer que está realmente apaixonada por ele?

Ann voltou a sacudir a cabeça.

— Sabe — disse Sarah, — eu não consigo mesmo entender tudo isso.

Ann endireitou os ombros.

— Você viu Richard apenas por um ou dois momentos — disse ela. — Quando o conhecer melhor, estou certa de que gostará muito dele.

— Parece tão agressivo!

— É porque estava acanhado.

— Bem — disse Sarah lentamente. — O enterro é seu, é claro.

Mãe e filha permaneceram silenciosas por alguns momentos. Estavam ambas constrangidas.

— Sabe, Mamãe — falou Sarah, rompendo o silêncio. — Precisa mesmo de alguém para cuidar de você. Só porque me afasto por algumas semanas, faz uma bobagem.

— Sarah! — Ann encolerizou-se. — Você está sendo muito cruel.

— Sinto muito, querida, mas acredito em franqueza total.

— Bem, acho que eu não.

— Há quanto tempo isso vem acontecendo? — perguntou Sarah.

A despeito de si mesma, Ann deu uma risada.

— Francamente, Sarah, você parece um pai tirano nalgum drama vitoriano. Conheci Richard há três semanas.

— Onde?

— Com James Grant. James o conhece há anos. Ele voltou recentemente de Burma.

— Ele tem dinheiro?

Ann estava tão irritada quanto comovida. Como aquela criança era ridícula! Tão resoluta nas suas perguntas. Controlando a irritação, disse numa voz seca e irônica:

— Tem uma renda independente e é perfeitamente capaz de me sustentar. Trabalha na Hellner Brothers, uma grande firma da City. Francamente, Sarah, qualquer um pensaria que eu sou sua filha, e não sua mãe.

Sarah disse seriamente:

— Bem, alguém tem que tomar conta de você, querida. É positivamente incapaz de cuidar de si mesma. Gosto muito de você, e não quero que faça uma bobagem. Ele é solteiro, divorciado ou viúvo?

— Perdeu a mulher há muitos anos. Ela morreu ao ter o primeiro filho, e o bebê morreu também.

Sarah suspirou e balançou a cabeça.

— Estou entendendo tudo agora. Foi assim que ele conseguiu prendê-la. Você sempre teve um fraco por essas histórias sentimentalóides.

— Deixe de ser absurda, Sarah!

— Ele tem mãe e irmãs... todo esse tipo de coisas?

— Acho que não tem parentes próximos.

— Isso é uma bênção, pelo menos. Ele tem casa? Onde vocês vão morar?

— Aqui, acho eu. Há montes de lugar, e ele trabalha em Londres. Você não se importa, não é Sarah?

— Oh, eu não me importo. Estou pensando apenas em você.

— Querida, isso é muito gentil de sua parte, mas eu realmente sei melhor da minha vida. Estou certa de que Richard e eu seremos felizes juntos.

— Quando estão pensando em casar?

— Dentro de três semanas.

— Três semanas? Oh, não pode casar com ele tão cedo!

— Não parece haver razão para esperar.

— Oh, por favor, querida. Adie um pouco. Dê-me algum tempo para... para me acostumar à idéia. Por favor, Mamãe.

— Não sei... vamos ver...

— Seis semanas. Deixe para seis semanas.

— Nada foi decidido ainda, na verdade. Richard vem almoçar amanhã. Você... Sarah... você será boazinha com ele, não?

— Claro que serei boazinha. O que está pensando?

— Obrigada, querida.

— Anime-se, Mamãe, não há razão para se preocupar.

— Estou certa de que vão gostar muito um do outro — disse Ann, um tanto sem convicção.

Sarah ficou em silêncio.

Ann falou novamente num repente de raiva:

— Pode ao menos tentar...

— Já lhe disse que não precisa se preocupar — acrescentou Sarah, depois de alguns momentos. — Prefere que eu fique em casa hoje à noite?

— Por quê? Está com vontade de sair?

— Pensei que talvez saísse... mas não quero deixá-la sozinha, Mamãe.

Ann sorriu para a filha, e o antigo relacionamento se restabeleceu.

— Oh, não ficarei sozinha. Para falar a verdade, Laura convidou-me para uma conferência.

— Como está a velha guerreira? Incansável como sempre?

— Oh, sim, como sempre. Eu disse não à conferência, mas posso facilmente telefonar a ela.

Podia, com a mesma facilidade, telefonar a Richard... Mas recuou. Seria melhor conservar-se longe de Richard até que ele e Sarah se tivessem encontrado, no dia seguinte.

— Então muito bem — disse Sarah. — Vou telefonar a Gerry.

— Ah, é com Gerry que vai sair?

Sarah falou, num desafio:

— Sim. Por que não?

Mas Ann não aceitou a provocação. Disse suavemente :

— Estava só pensando...