A Filha

Agatha Christie · Capítulo 14 de 18

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A Filha

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TRÊS

Capítulo I

 

EDITH movia-se com dificuldade pela cozinha. Ultimamente vinha sentindo cada vez mais os seus “reaumatismos”, como ela os chamava, e isto não lhe melhorava o ânimo. Ainda se recusava obstinadamente a delegar qualquer das suas tarefas domésticas. Permitia apenas que uma mulher — a quem chamava, torcendo o nariz, de “aquela tal Sra. Hopper” — viesse uma vez por semana realizar certos trabalhos sob o seu olhar ciumento, mas qualquer outra ajuda era rejeitada com uma violência que anunciava desgraças a qualquer faxineira que ousasse tentar.

— Sempre me arranjei sozinha, não foi? — era o slogan de Edith.

E assim, continuava a se arranjar sozinha, com um ar de mártir e uma expressão cada vez mais azeda. Adquirira também o hábito de passar a maior parte do dia resmungando baixinho. Era o que fazia agora:

— Trazer o leite na hora do almoço... que idéia. Leite tem que ser entregue antes do café da manhã, esta é que é a hora certa. Esses rapazinhos atrevidos, assobiando, metidos naqueles casacos brancos... Quem eles pensam que são? Para mim parecem pirralhos fantasiados de dentista...

Parou de resmungar ao ouvir o som da chave na porta da frente.

— Lá vem confusão! — murmurou, e enxaguou uma tigela com movimentos enérgicos e furiosos.

Ouviu a voz de Ann chamando:

— Edith!

Tirou as mãos da água e enxugou-as cuidadosamente na toalha.

— Edith! Edith!

— Já estou indo, madame.

— Edith!

Erguendo as sobrancelhas e deixando cair os cantos da boca, Edith saiu da cozinha, atravessou o vestíbulo e entrou na sala onde Ann Prentice examinava a correspondência. Voltou-se quando Edith entrou:

— Telefonou para Dame Laura?

— Sim, é claro.

— Disse que era urgente... que eu preciso vê-la? Ela disse que viria?

— Falou que logo estaria aqui.

— Bem, e por que não chegou ainda? — perguntou Ann, irritada.

— Faz só uns vinte minutos que eu telefonei, logo depois que a senhora saiu.

— Parece que já faz uma hora. Por que ela não vem?

— Não adianta ficar nervosa, nem tudo acontece na hora que a gente quer — falou Edith, num tom conciliador.

— Você disse que eu estava doente?

— Contei que a senhora estava muito atacada.

— O que quer dizer atacada? — retrucou Ann, furiosa. — São os meus nervos que estão em frangalhos,

— Tem razão, estão mesmo.

Ann lançou um olhar furioso à fiel servidora e começou a caminhar pela sala, impaciente, indo até a janela e dali até a lareira. Edith permaneceu de pé, ob-servando-a, enquanto alisava o avental com as mãos nodosas, grandes, desajeitadas e marcadas por anos de trabalho.

— Não consigo ficar parada um minuto — queixou-se Ann. — Não dormi nada ontem à noite. Sinto-me horrível... horrível... — Sentou-se, as mãos nas têmporas. — Não sei o que há comigo.

— Pois eu sei — disse Edith. — É de tanto ficar zanzando por aí; isso não pode fazer bem na sua idade.

— Edith! — gritou Ann. — Você é muito impertinente! E está ficando cada vez pior. Está comigo há muito tempo e aprecio seus serviços, mas se vai começar a ficar atrevida, terá que ir embora.

Edith ergueu os olhos para o céu e assumiu sua expressão de mártir antes de responder:

— Eu não vou embora. E acabou-se.

— Irá, se eu mandar — disse Ann.

— Pois se fizesse uma coisa dessas a senhora seria ainda mais tola do que eu supunha. Eu acharia uma colocação num abrir e fechar de olhos, essas agências iam correr atrás de mim. Mas, e a senhora? Provavelmente só conseguiria uma dessas diaristas, ou então uma estrangeira que só sabe cozinhar tudo no azeite e deixar seu estômago embrulhado, sem falar no cheiro que ia ficar pelo apartamento. E essas estrangeiras nem sabem atender o telefone direito... iam entender mal todos os nomes. Ou quem sabe talvez arranjasse uma mulher limpa, de fala agradável, boa demais para ser de verdade: e um dia, ao voltar para casa, ia descobrir que ela tinha sumido com todas as suas peles e jóias. Ouvi contar um caso desses que aconteceu outro dia aqui perto, em Playne Court. Não, a senhora é daquelas que gostam que as coisas sejam feitas como devem... à maneira antiga. Eu faço comidinhas gostosas, não ando quebrando suas coisas bonitas cada vez que lavo, como fazem algumas dessas sirigaitas. E, o que é mais importante, conheço os seus hábitos. A senhora não pode viver sem mim, sei muito bem disso e não vou embora. A senhora pode ser difícil, mas afinal todos temos uma cruz, é o que está escrito no Livro Sagrado. Pois eu sou uma mulher cristã e a senhora é a minha cruz.

Ann fechou os olhos e inclinou-se para a frente e para trás, com um gemido.

— Oh, minha cabeça... minha cabeça...

A expressão dura do rosto de Edith suavizou-se, seus olhos tornaram-se ternos:

— Calma. Vou lhe trazer um chá bem quentinho.

— Não quero chá — exclamou Ann, birrenta. — Era a última coisa que eu quereria agora!

Edith suspirou e ergueu mais uma vez os olhos para o alto.

— Faça como quiser — disse. E deixou a sala.

Ann estendeu a mão para a cigarreira, tirou um cigarro, acendeu-o, fumou-o por um ou dois minutos e amassou-o no cinzeiro. Levantou-se e recomeçou a caminhar pela sala. Um instante depois foi até o telefone e discou:

— Alô... alô... poderia falar com Lady Ladscombe? Oh, é você, Márcia querida? — a voz assumiu um tom de fingida alegria. — Como vai?... Oh, nada... Lembrei apenas de ligar... Não sei, querida... é que me sentia horrivelmente deprimida... sabe como a gente fica às vezes. Tem algum compromisso para o almoço, amanhã? Ah, sei, entendo... terça à noite? Sim, não tenho nada marcado, seria ótimo. Falarei com Lee, ou outra pessoa qualquer, e organizaremos um grupo. Será maravilhoso. Eu telefono amanhã de manhã.

Desligou. A momentânea animação desaparecera. Mais uma vez recomeçou a caminhada, até que ouviu a campainha e ficou imóvel, na expectativa, enquanto Edith dizia:

— Ela está esperando a senhora lá na sala.

— E logo Laura Whitstable entrou. Alta, feia, desagradável, mas com a confortável firmeza de um rochedo em meio ao mar revolto.

Ann correu para ela, exclamando frases incoerentes, numa histeria crescente:

— Oh, Laura... Laura... estou tão contente que tenha vindo...

Dame Laura ergueu as sobrancelhas, o olhar firme e atento. Pousou as mãos nos ombros de Ann e conduziu-a delicadamente até o sofá, onde sentou ao lado dela enquanto dizia:

— Bem, bem, o que está acontecendo?

Ann ainda parecia histérica:

— Oh, fico tão feliz por vê-la aqui! Acho que estou ficando louca.

— Bobagem — disse Dame Laura, rudemente. — Qual é o problema?

— Nenhum. Nenhum mesmo. Só os meus nervos. E é isso que me assusta: não consigo ficar parada. Não sei o que está acontecendo comigo.

— Hmm — Laura lançou-lhe um olhar atento e profissional. — Você não parece nada bem, mesmo.

Secretamente estava assustada com a aparência de Ann. Sob a pesada maquiagem o rosto dela estava devastado. Parecia muito mais velha agora do que quando Laura a vira pela última vez, há alguns meses.

Ann falou, impaciente:

— Estou perfeitamente bem. É só que... não sei bem o que é... Não consigo dormir. . . a menos que tome coisas. E estou tão irritada, tão mal-humorada.

— Já foi ao médico?

— Não nestes últimos tempos. Eles só receitam brometo e dizem para a gente não se cansar demais.

— Um ótimo conselho.

— Pode ser, mas é tudo tão absurdo! Nunca fui uma mulher nervosa, Laura, você sabe disso. Nunca soube o que fossem nervos.

Laura Whitstable ficou um instante em silêncio, lembrando a Ann Prentice de apenas três anos atrás. Sua delicada serenidade, sua calma, seu gosto pela vida, sua doçura, seu gênio estável. Sentiu uma profunda pena. Falou:

— O fato de nunca ter sido nervosa não quer dizer nada. Afinal, quando um homem quebra uma perna ele também provavelmente nunca tinha que brado uma perna antes!

— Mas por que eu haveria de ficar nervosa?

Laura Whitstable foi cuidadosa na resposta:

— Seu médico tem razão. Você provavelmente se movimenta demais.

Ann respondeu vivamente:

— Não posso ficar me aborrecendo em casa o dia inteiro.

— Mas é possível ficar em casa sem se aborrecer.

— Não — as mãos de Ann se agitaram nervosamente. — Eu... eu não posso ficar sentada sem fazer nada.

— E por que não? — a pergunta veio incisiva, como num inquérito.

— Eu não sei... — a agitação aumentou. — Não posso ficar sozinha. Não posso... — Lançou um olhar de desalento para Laura. — Acho que iria pensar que eu estou completamente doida, se dissesse que tenho medo de ficar só?

— É a coisa mais sensata que você já disse hoje — respondeu prontamente Dame Laura.

— Sensata? — espantou-se Ann.

— Sim, porque é verdade.

— Verdade? — Ann fechou os olhos. — Não sei o que quer dizer com isso.

— Quero dizer que não conseguiremos nada sem conhecer a verdade.

— Oh, mas você não poderá entender; nunca teve medo de ficar sozinha, teve?

— Não.

— Então simplesmente não pode entender.

— Oh, sim, posso — Laura continuou, delicadamente. — Por que me chamou, minha cara?

— Eu precisava falar com alguém... precisava... e pensei que talvez você pudesse fazer alguma coisa.

Olhou para a amiga, cheia de esperança.

Laura sacudiu a cabeça e suspirou:

— Entendo. Você quer que eu faça uma mágica exorcizante?

— Será que não podia fazei uma para mim? Psicanálise, hipnotismo, qualquer coisa.

— Em uma palavra, qualquer uma dessas pantomimas modernas? — Laura sacudiu a cabeça. — Não posso tirar os coelhos da cartola para você, Ann. Você deve fazer isso sozinha. E precisa descobrir, primeiro, o que há dentro da cartola.

— O que quer dizer?

Laura Whitstable esperou um minuto antes de falar:

— Você não é feliz, Ann — a. frase, mais que uma pergunta, era uma constatação.

Ann replicou rapidamente, talvez rapidamente demais:

— Oh, mas sou, pelo menos em parte. Eu me divirto bastante.

— Você não é feliz — insistiu Dame Laura, impiedosa.

Ann fez um gesto com os ombros e as mãos:

— E será que alguém é feliz? — insinuou.

— Muita gente, graças a Deus — falou Dame Laura, com entusiasmo. — Por que não você?

— Não sei.

— Só a verdade poderá ajudá-la, Ann. E você sabe muito bem qual é a resposta.

Ann ficou um instante em silêncio e logo, como se tomasse coragem, desabafou:

— Bem, já que é preciso ser honesta, acho que é porque estou envelhecendo. Sou uma mulher de meia-idade, que vai perdendo a aparência jovem e não espera mais nada da vida.

— Oh, minha querida! Acha que não tem mais nada a esperar da vida? Tem uma saúde perfeita, é inteligente, e há tantas coisas na vida que só conseguimos apreciar depois que passamos da idade madura! Eu já lhe disse isso uma vez: livros, flores, música, pintura, gente, o sol. . . todo esse desenho entre laçado e inextricável a que chamamos Vida.

Ann ficou quieta e replicou depois, num desafio:

— Oh, provavelmente é um problema de sexo. Acho que tudo perde a graça depois que os homens deixam de nos achar atraentes.

— Talvez isso seja verdade para algumas mulheres, mas não para você, Ann. Já deve ter visto A Hora Imortal. . . ou talvez tenha lido o livro? E lembra esta frase: “Há uma hora em que um homem poderia encontrar a felicidade, se ao menos soubesse descobri-la.” Você esteve muito perto de encontrá-la uma vez, não foi?

A expressão do rosto de Ann tornou-se mais suave. Parecia, de repente, muito mais moça.

— Sim — murmurou, — houve essa hora. Eu poderia tê-la encontrado com Richard. Eu teria envelhecido feliz, junto dele.

— Sim, eu sei — disse Laura, com profunda compaixão.

— E agora — continuou Ann, — nem sequer consigo lamentar a sua perda! Voltei a vê-lo, sabe... oh, há quase um ano... e ele já não significava mais na da para mim... nada. Isto é que é mais trágico, mais absurdo. Estava tudo terminado, já não tínhamos nada para dizer um ao outro. Ele era apenas um homem de meia-idade, igual a tantos outros: um pouquinho arrogante, um tanto insípido e com certa tendência a mostrar-se vaidoso da nova esposa, uma jovenzinha de cabeça vazia, bonitinha e vistosa. Bastante simpático, entende? mas decididamente um chato. E no entanto. . . se. . . se nos tivéssemos casado... creio que teríamos sido felizes. Sei que teríamos sido.

— Sim — falou Laura, pensativa, — creio que teriam sido mesmo.

— Estive tão perto da felicidade... tão perto — a voz de Ann tremia de pena de si mesma — então... tive que abandonar tudo.

— Teve mesmo?

Ann não deu atenção à pergunta:

— Desisti de tudo... por Sarah!

— Exatamente — disse Dame Laura. — E nunca a perdoou por isso, não é mesmo?

Ann despertou do devaneio, surpresa:

— O que quer dizer?

Laura Whitstable deixou escapar um riso desdenhoso:

— Sacrifícios! Pense só por um momento no que eles realmente significam: o sacrifício não é apenas aquele momento heróico em que nos sentimos generosos, sensíveis e prontos a imolar-nos. O tipo de sacrifício em que você apenas oferece o peito ao punhal é fácil, pois termina ali mesmo, no momento em que você excede a si mesma. O problema é que na maior parte das vezes é preciso viver com eles depois que são feitos. . . todo o dia e todos os dias... e isto não é assim tão fácil. É preciso ser muito nobre para consegui-lo... e você, Ann, não foi suficientemente nobre...

Ann ficou vermelha de raiva:

— Eu abri mão da minha vida inteira, da minha chance de felicidade, pelo bem de Sarah... e você vem me dizer que isso não foi o bastante...

— Não foi isso o que eu disse.

— Imagino que a culpa seja toda minha, então! — Ann ainda estava com raiva.

Dame Laura falou com convicção:

— A metade dos problemas que temos na vida vêm de fingirmos para nós mesmos que somos melhores e mais nobres do que realmente somos.

Mas Ann não estava ouvindo. Seu ressentimento continuava:

— Sarah é exatamente igual a todas essas moças modernas, só pensa em si mesma, não se interessa por mais ninguém! Imagine que, quando Richard telefo-nou, um ano atrás, ela nem sequer lembrava quem ele era! O nome não lhe dizia nada... nada.

Laura Whitstable sacudiu a cabeça gravemente, com o ar de alguém que vê confirmado o seu diagnóstico.

— Entendo — disse. — Entendo.

— O que mais eu poderia ter feito? — continuou Ann. — Eles não paravam de brigar, aquilo era um suplício para os meus nervos. Se eu tivesse insistido, não teria nunca um minuto de paz.

Laura Whitstable foi firme, falando inesperadamente:

— Se eu fosse você, Ann, trataria de decidir se desistiu de Richard Cauldfield pelo bem de Sarah ou pela sua própria tranqüilidade.

Ann olhou-a, ressentida:

— Eu amava Richard — disse — mas amava Sarah ainda mais...

— Não, Ann, não é assim tão simples. Creio que houve realmente um momento em que você chegou a amar Richard mais do que amava Sarah. Creio que a profunda infelicidade e o ressentimento que vem sentindo surgiram desse momento. Se tivesse desistido de Richard porque gostava mais de Sarah do que dele, não estaria do jeito que está hoje. Mas se desistiu dele por fraqueza, porque Sarah a obrigou, porque você queria fugir das brigas, das discussões... se foi uma derrota e não uma renúncia... bem, eis uma coisa que ninguém gosta de admitir para si mesmo. Mas você realmente gostava de Richard. Ann falou com amargura:

— E agora ele já não significa mais nada para mim...

— E quanto a Sarah?

— Sarah?

— Sim. O que ela significa para você?

Ann deu de ombros.

— Eu quase não a vejo mais, desde que casou. Acho que tem uma vida alegre e movimentada. Mas, como disse, quase não a vejo.

— Pois eu a vi, ontem à noite. . . — Laura fez uma pausa e continuou — num restaurante, com um grupo. — Nova pausa e depois, abruptamente: — Ela estava bêbada.

— Bêbada?! — Por um instante Ann pareceu surpresa, depois riu. — Ora, Laura querida, não seja tão antiquada! Os moços bebem muito agora, e parece que nenhuma festa pode ser um sucesso se todos convidados não estiverem meio alegres, ou “altos”, ou seja lá como quiser chamá-los.

Laura não se alterou:

— Pode ser... E admito que sou suficientemente antiquada para não gostar de ver uma jovem, que eu conheço, bêbada num lugar público. Mas é mais do que isso, Ann: falei com Sarah e notei que tinha as pupilas dilatadas.

— E o que isso poderia significar?

— Entre outras coisas, cocaína.

— Drogas?!

— Sim. Uma vez eu lhe falei nas minhas suspeitas de que Lawrence Steene estivesse envolvido no tráfico de tóxicos. Não pelo dinheiro, é claro, apenas pela emoção da aventura.

— Mas ele sempre me pareceu uma pessoa normal!

— Oh, as drogas não lhe fariam mal... conheço o tipo. É dos que gostam de experimentar tudo, gente assim não se vicia. Mas com uma mulher é diferente: quando uma mulher é infeliz, essas coisas podem dominá-la sem que ela consiga se libertar.

— Infeliz? Sarah? — Ann parecia incrédula.

Olhando-a, Laura disse secamente:

— Você deveria saber. Afinal, é a mãe dela.

— Ah, isso não quer dizer nada; Sarah não confia em mim.

— Por que não?

Ann levantou-se e caminhou até a janela, e então voltou lentamente até a lareira. Dame Laura permaneceu sentada, imóvel, olhando para ela. Enquanto Ann acendia um cigarro, perguntou com simplicidade:

— O que é que você sente, ao saber que Sarah pode ser muito infeliz?

— Como pode fazer uma pergunta dessas? É claro que isso me deixa terrivelmente perturbada.

— É mesmo? — Laura ergueu-se. — Bem, preciso ir. Tenho uma reunião do conselho daqui a dez minutos, mal terei tempo de chegar lá.

Caminhou em direção à porta. Ann foi atrás dela, perguntando:

— O que estava querendo dizer com aquele “É mesmo”, Laura?

— Eu andava com as minhas luvas, onde as terei deixado?

A campainha da porta da frente tocou e Edith saiu da cozinha, sem fazer ruído, para atendê-la. Ann insistia:

— Você estava querendo dizer alguma coisa?

— Oh, aqui estão elas!

— Francamente Laura, você está sendo horrível comigo, horrível mesmo!

Edith entrou, anunciando com algo que quase poderia ser um sorriso:

— Veja só quem está aqui: é o Sr. Lloyd, madame.

Ann olhou para Gerry Lloyd como se mal pudesse acreditar no que via:

Há mais de três anos que não punha os olhos nele, e o rapaz parecia ter envelhecido muito mais do que isso: tinha um ar maltratado, o rosto marcado dos que fracassaram. Usava um terno de tweed grosso, de corte provinciano, obviamente herdado de alguém, e sapatos velhos e gastos. Era evidente que não tinha enriquecido. Saudou-a com um sorriso grave, e toda a sua atitude era séria e quase constrangida.

— Gerry! Isto é mesmo uma surpresa!

— Que bom ver que a senhora ainda se lembra de mim. Três anos e meio é muito tempo.

— Eu também me lembro de você, meu jovem, mas não creio que saiba quem eu sou — disse Dame Laura.

— Oh, mas é claro que lembro, Dame Laura! Ninguém poderia esquecer a senhora.

— É muita bondade sua... ou não? Bem, preciso ir andando. Adeus, Ann. Adeus, Sr. Lloyd.

Quando ela saiu, Gerry seguiu Ann até a lareira, sentou-se e acendeu o cigarro que ela lhe ofereceu. Ann começou a conversar com entusiasmo.

— Bem, Gerry, conte-me tudo a seu respeito, e o que tem feito. Vai ficar muito tempo na Inglaterra?

— Não sei ainda.

Aquele olhar franco pousado nela fazia Ann sentir-se levemente perturbada. Ela se perguntava em que ele estaria pensando. Era um olhar de alguém muito diferente daquele Gerry de quem se lembrava.

— Beba alguma coisa. O que vai ser? Suco de laranja com gim, ou prefere um pink-gin?

— Não, obrigado. Não quero nada. Eu vim apenas... para falar com a senhora.

— Quanta gentileza sua! Já viu Sarah? Ela casou, sabia? Com um homem chamado Lawrence Steene.

— Sabia, ela escreveu contando. E eu a vi, ontem à noite. É por isso que estou aqui. — Fez uma pausa antes de perguntar: — Sra. Prentice, por que permitiu que ela casasse com aquele homem?

— Gerry, meu caro, francamente! — Ann estava surpresa.

Seu protesto não conseguiu arrefecer o ardor de Gerry, que continuou, num tom sério, a falar com simplicidade :

— Ela não é feliz. A senhora sabe disso, não sabe? Ela não é feliz.

— Sarah disse isso?

— Não, é claro que não, Sarah jamais faria uma coisa dessas; nem era necessário... eu percebi imediatamente. Ela estava com um grupo, quase não pude mos conversar. Mas era evidente. Por que permitiu que isso acontecesse?

Ann sentiu a raiva crescer:

— Meu caro Gerry, não acha que está sendo um tanto ridículo?

— Não, não acho — ficou um instante pensativo, e quando continuou sua sinceridade era desconcertante. — Entenda, Sarah é muito importante para mim, sempre foi, mais do que qualquer outra coisa no mundo. Portanto, naturalmente tenho interesse em saber se ela é feliz ou infeliz. Sabe, a senhora nunca devia ter permitido que ela casasse com Steene.

— Francamente, Gerry — irrompeu Ann, com raiva. — Você fala como um... como um vitoriano. Nunca se cogitou em permitir ou não permitir que Sarah casasse com Lawrence Steene. As moças casam com quem bem entendem, e não há nada que os pais possam fazer para impedi-las. Sarah quis casar com Lawrence Steene e casou com ele, só isso.

Gerry falou com tranqüila convicção:

— Mas a senhora poderia ter impedido.

— Meu caro rapaz, não sabe que sempre que tentamos impedir que as pessoas façam o que querem, só conseguimos torná-las mais obstinadas, mais teimosas?

Ele ergueu os olhos, encarando-a:

— E a senhora tentou?

Por alguma razão sentiu-se confusa diante daquele olhar francamente inquiridor, e gaguejou:

— Eu. . . eu. . . ele era muito mais velho do que ela, é claro... e tinha péssima reputação. Mostrei isso a ela, mas...

— Ele é um porco da pior espécie...

— Você não pode saber nada sobre ele, Gerry... esteve tantos anos fora da Inglaterra.

— Mas isso é público e notório. Todo mundo sabe. Pode ser que a senhora não conheça todos os detalhes sórdidos... mas será que não sentiu que ele era um animal?

— Comigo sempre foi encantador e amável — defendeu-se Ann. — E nem sempre o homem que tem um passado dá um mau marido. Não se deve acreditar em todas as coisas mesquinhas que as pessoas contam. Sarah sentiu-se atraída por ele... na verdade, estava decidida a casar com ele. Lawrence é extremamente rico...

Gerry interrompeu-a:

— Sim, ele é rico. Mas, Sra. Prentice, a senhora não é dessas mulheres que só querem que a filha case por dinheiro. Nunca foi o que eu chamaria de... bem... frívola. Seu desejo seria ver Sarah feliz... ou pelo menos era o que eu pensava.

Olhou-a com uma curiosidade intrigada.

— É claro que eu desejava que a minha única filha fosse feliz. Isto nem era preciso dizer. Mas acontece que não se pode interferir, Gerry. — Tentou explicar. — Mesmo quando achamos que alguém está agindo de forma totalmente errada, não podemos interferir.

Olhou-o, num desafio, e ele retribuiu o olhar, ainda com a mesma expressão pensativa e cortês.

— Sarah queria mesmo casar com ele?

— Ela estava muito apaixonada — respondeu Ann num tom de desafio. E diante do silêncio dele, continuou: — Não creio que você possa perceber, mas as mulheres consideram Lawrence um homem extremamente atraente.

— Oh, sim, posso perceber isso muito bem.

Ann cobrou ânimo:

— Sabe Gerry, acho que está sendo totalmente irracional: só porque uma vez houve entre você e Sarah um romancezinho juvenil, se acha no direito de vir até aqui e me acusar... como se eu tivesse culpa de Sarah ter casado com outro homem.

Ele a interrompeu:

— Mas eu acho mesmo que a senhora é a culpada.

Olharam-se. Gerry ficou vermelho, Ann empalideceu, a tensão entre os dois atingiu um nível intolerável.

Ann ergueu-se e disse secamente:

— Isso é demais!

Gerry levantou-se também. Por trás do seu modo tranqüilo e cortês, ela percebeu qualquer coisa de impiedoso e cruel.

— Perdoe-me se fui grosseiro.

— É imperdoável.

— Talvez seja. Mas entenda, eu estou realmente preocupado com Sarah. É a única coisa que me importa, e não posso deixar de sentir que a senhora permitiu que ela fizesse um casamento infeliz.

— Francamente!

— E vou livrá-la dele.

— O quê?

— Vou convencê-la a abandonar aquele animal.

— Mas que coisa mais absurda! Só porque vocês tiveram um namorinho de criança...

— Eu entendo Sarah... e ela me entende.

Ann deixou escapar uma risada áspera e inesperada:

— Meu caro Gerry, vai descobrir que Sarah já não se parece mais com aquela moça que conheceu.

— Sei que ela mudou — respondeu Gerry, baixinho. — Pude notar. . . — hesitou, antes de concluir, murmurando: — Lamento se me achou impertinente, Sra. Prentice. Quero que entenda, para mim Sarah estará sempre em primeiro lugar. — E saiu da sala.

Ann serviu-se um copo de gim. Enquanto bebia, murmurava para si mesma:

— Como se atreve... como se atreve... E Laura... ela também está contra mim. Estão todos contra mim. Não é justo. . . O que foi que eu fiz?... Nada...