A Filha
Capítulo VII · — Gerry?
1
— GERRY?
— Sim, Sarah?
— Não quero ver esse filme. Podemos ir conversar em algum lugar?
— Claro. Vamos comer alguma coisa?
— Oh, eu não poderia. Edith simplesmente me empanturrou.
— Bem, então vamos beber alguma coisa num lugar qualquer. — Olhou-a de relance, pensando no que a teria aborrecido.
Sarah só falou depois que estavam acomodados, diante dos copos. Então irrompeu abruptamente:
— Gerry, Mamãe vai casar de novo.
— Opa! — Gerry estava verdadeiramente surpreso. Perguntou: — Você não suspeitava?
— Como poderia? Ela só o conheceu depois que viajei.
— Trabalho rápido.
— Rápido demais. Para algumas coisas Mamãe simplesmente não tem juízo.
— Quem é ele?
— Aquele homem que estava lá esta tarde. O nome dele é Cauliflower, ou coisa parecida.
— Ah, aquele homem.
— Sim. Não concorda que ele é um tanto impossível?
— Bem, não prestei muita atenção nele — disse Gerry, refletindo. — Parecia um sujeito bastante comum.
— Ele é absolutamente a pessoa errada para Mamãe.
— Acho que ela é quem pode julgar isso melhor — falou Gerry, em tom conciliador.
— Não, não pode. O problema de Mamãe é que ela é fraca. Fica com pena das pessoas. Mamãe precisa de alguém que cuide dela.
— Ela aparentemente pensa o mesmo — disse Gerry com um sorriso.
— Não ria, Gerry; isto é sério. Cauliflower é o tipo errado para Mamãe.
— Bem, isso é assunto dela.
— Eu tenho que cuidar dela. Sempre senti isso. Conheço mais a vida, e sou duas vezes mais resistente.
Gerry não discutiu a afirmação. De um modo geral, concordava. Ainda assim, estava preocupado. Disse lentamente:
— De qualquer modo, Sarah, se ela quer casar novamente...
Sarah não o deixou terminar:
— Ah, eu concordo com isso. Mamãe deve casar de novo. Eu disse isso a ela. Ela está precisando de mais de uma vida sexual normal. Mas definitivamente não com o Cauliflower.
— Você não acha... — Gerry parou, em dúvida.
— Não acha o quê?
— Que talvez possa... bem, sentir o mesmo por alguém? — Estava um pouco nervoso, mas deixou escapar as palavras. — Afinal, não pode realmente saber se Cauliflower não serve para ela. Você não trocou duas palavras com ele. Não acha que talvez na verdade esteja — precisou de coragem para dizer a última palavra, mas conseguiu — aaa... com ciúmes?
Sarah imediatamente saltou:
— Com ciúmes? Eu? Quer dizer, essa história de padrasto? Gerry querido! Não lhe disse há muito tempo... antes de ir para a Suíça... que Mamãe precisava voltar a casar?
— Sim. Mas há uma diferença — disse Gerry num lampejo de percepção — entre só dizer as coisas e vê-las acontecer de verdade.
— Não sou ciumenta — disse Sarah. — Só estou pensando na felicidade de Mamãe — acrescentou virtuosamente.
— Se eu fosse você, não andaria brincando com a vida dos outros.
— Mas é minha própria Mãe.
— Bem, ela provavelmente sabe melhor da sua vida.
— Estou lhe dizendo que Mamãe é fraca.
— De qualquer modo — disse Gerry — não há nada que você possa fazer.
Pensou que Sarah estava fazendo muito barulho por nada. Estava cansado de Ann e seus problemas, e queria falar de si mesmo.
Disse abruptamente:
— Estou pensando em dar o fora.
— Dar o fora do escritório do seu tio? Ah, Gerry...
— Não posso mesmo agüentar mais. Fazem um barulho dos diabos cada vez que me atraso quinze minutos.
— Bem, a gente tem de ser pontual em escritórios, não?
— Bando miserável de indolentes. Sempre às voltas com aqueles livros de contabilidade, pensando só em dinheiro, da manhã à noite.
— Mas Gerry, se mandar o emprego às favas, o que irá fazer?
— Ora, encontrarei alguma coisa — disse Gerry serenamente.
— Você já tentou muitas coisas — falou Sarah em tom de dúvida.
— Está querendo dizer que sempre me põem na rua? Bem, não vou esperar que me despeçam desta vez.
— Mas Gerry, francamente, acha que está sendo inteligente? — Sarah olhou para ele com uma solicitude preocupada, quase maternal. — Quer dizer, ele é seu tio, e quase o único parente que tem, e você disse que ele estava nadando em dinheiro.
— E se eu me portasse bem ele poderia me deixar todo seu dinheiro? Suponho que é o que quer dizer.
— Bem, você já se queixa o suficiente daquele tio-avô — como é o nome dele? — por não ter deixado o dinheiro para seu pai.
— Se ele tivesse tido qualquer sentimento familiar decente, eu não precisaria me humilhar para esses magnatas da City. Acho que todo este país está podre até a medula. Pretendo ir embora definitivamente.
— Ir para algum outro lugar, no estrangeiro?
— Sim. Ir para algum lugar onde se tenha perspectivas.
Ficaram ambos em silêncio, imaginando uma vida nebulosa que tivesse perspectiva.
Sarah, que sempre teve os pés mais firmes na terra do que Gerry, disse sutilmente:
— Pode fazer alguma coisa que valha a pena sem capital? Você não tem capital nenhum, tem?
— Sabe que não tenho. Ora, imagino que haja muitas coisas que se possa fazer.
— Bem, o que pode fazer... realmente?
— Precisa ser tão abominavelmente desanimadora, Sarah?
— Desculpe. O que quero dizer é que você não tem preparo específico de espécie alguma.
— Tenho jeito para dirigir homens, e viver ao ar livre. Não encerrado num escritório.
— Oh, Gerry — disse Sarah; e suspirou.
— O que há?
— Não sei. A vida parece mesmo difícil. Todas essas guerras transtornaram tanto as coisas.
Ficaram ambos olhando o nada, com ar sombrio.
Dentro em pouco Gerry, magnanimamente, disse que daria outra oportunidade ao tio. Sarah aplaudiu essa decisão.
— É melhor eu ir para casa agora — falou ela. — Mamãe já deve ter voltado da conferência.
— Sobre o que era?
— Não sei. “Para onde vamos, e por quê?”, esse tipo de coisa. — Levantou. — Obrigada, Gerry. Você ajudou muito.
— Tente não ser parcial, Sarah. Se sua mãe gosta desse sujeito e vai ser feliz com ele, é isso que interessa.
— Se Mamãe vai ser feliz com ele, então está tudo bem.
— Afinal, você mesma vai acabar casando... eu acho... um desses dias. . . — Disse isso sem olhar para ela. Sarah ficou absorta, encarando a bolsa.
— Algum dia, com certeza — ela murmurou. — Não estou particularmente ansiosa...
Pairou no ar, entre eles, um agradável constrangimento.
2
No dia seguinte, durante o almoço, Ann sentiu-se aliviada. Sarah estava se portando muito bem. Recebeu Richard com amabilidade e conversou educadamente com ele durante a refeição. Ann sentiu-se orgulhosa da filha, jovem, com seu rosto vivo e suas boas maneiras. Devia ter sabido que podia contar com Sarah — ela nunca a desapontaria.
O que ela gostaria é que Richard pudesse mostrar-se sob um ângulo mais favorável. Percebeu que ele estava nervoso. Ansiava por causar boa impressão e, como seguidamente acontece, sua própria ansiedade trabalhava contra ele. Estava sendo pedante, quase pretensioso. Ansioso por parecer à vontade, dava a impressão de dominar a reunião. A própria deferência que Sarah lhe demonstrava agravava essa impressão. Era positivo demais nas suas afirmações e parecia indicar que seria impossível outra opinião que não a sua. Isso afligia Ann, que conhecia até muito bem o quanto ele era retraído.
Mas como Sarah poderia perceber? Ela estava vendo o lado pior de Richard, e era tão importante que visse o melhor! Isso deixou a própria Ann nervosa e pouco à vontade, o que, ela logo viu, aborrecia Richard.
Depois que a refeição terminou e foi trazido o café, ela os deixou, com a desculpa de que precisava passar um telefonema. Havia uma extensão em seu quarto. Esperava que, deixados juntos, Richard pudesse sentir-se mais à vontade e mostrar mais de sua verdadeira personalidade. Era ela realmente a causa da irritação. Uma vez que se retirasse, podia ser que as coisas se acomodassem.
Depois que Sarah serviu café a Richard, ela comentou educadamente alguns lugares-comuns, e a conversa então esgotou-se.
Richard tomou coragem. Ele julgava que a franqueza era seu melhor trunfo. De um modo geral, Sarah lhe causara uma impressão favorável. Ela não mostrara hostilidade. A grande coisa seria mostrar como entendia a posição dela. Antes de vir, ensaiara o que pretendia dizer. Como a maioria das coisas ensaiadas com antecedência, soaram insípidas e artificiais. Para se pôr à vontade adotou uma cordialidade presunçosa que era totalmente diferente da sua verdadeira e dolorosa timidez.
— Olhe aqui, jovem, há uma ou duas coisas que gostaria de lhe dizer.
— Ah, é? — Sarah voltou para ele um rosto atraente, mas de momento bastante inexpressivo. Esperou educadamente, e Richard ficou ainda mais nervoso.
— Só quero dizer que entendo muito bem seus sentimentos. Tudo isto deve ter sido um choque para você. Você e sua mãe sempre foram muito unidas. É perfeitamente natural que se ressinta por outra pessoa entrar na vida dela. Não pode deixar de estar um pouco magoada e ciumenta por isso.
Sarah disse rapidamente, em tom amável e formal:
— De maneira alguma, posso lhe assegurar.
Incauto, Richard não deu atenção ao que era, na verdade, um aviso. Continuou, às cegas:
— Como eu digo, é tudo muito normal. Não vou apressá-la. Seja tão fria comigo quanto quiser. Quando decidir que está pronta a ser minha amiga, estarei pronto a fazer minha parte. Tem que pensar é na felicidade de sua mãe.
— Eu penso nisso — disse Sarah.
— Até aqui, ela tem feito tudo por você. Agora é a vez dela ser levada em consideração. Estou certo de que quer vê-la feliz. E tem que lembrar disto; você tem sua própria vida a levar... está toda à sua frente. Tem seus próprios amigos e suas próprias esperanças e ambições. Se casasse, ou arranjasse algum em prego, sua mãe seria deixada completamente só. Isso significaria para ela grande solidão. É este o momento em que precisa pô-la em primeiro lugar, e deixar a si mesma por último. — Fez uma pausa. Pensou ter-se expressado bastante bem.
A voz de Sarah, educada mas com uma subcorrente quase imperceptível de impertinência, interrompeu sua satisfação:
— Faz discursos em público seguidamente?
Surpreso, ele perguntou:
— Por quê?
— Acho que deve ser muito bom nisso — murmurou Sarah.
Ela estava agora recostada na poltrona, admirando as unhas. O fato destas serem vermelho carmesim, uma moda que ele desgostava intensamente, aumentou a irritação de Richard. Ele reconhecia agora que estava encontrando hostilidade.
Com um esforço, conservou a calma. Como resultado, falou num tom quase condescendente:
— Talvez eu estivesse lhe passando um pequeno sermão, minha filha. Mas queria chamar sua atenção para algumas coisas que poderia não ter considerado. E posso assegurá-la de uma coisa: sua mãe não vai gostar menos de você porque gosta de mim, sabe?
— É mesmo? Que bondade sua, me dizer isso.
Agora não havia dúvida quanto à hostilidade.
Se Richard tivesse abandonado suas defesas, se tivesse dito simplesmente — “Estou fazendo uma terrível confusão disso tudo, Sarah. Estou acanhado e infeliz, e isso me faz dizer todas as coisas erradas, mas gosto demais de Ann e quero que, se possível, você goste de mim” — isso talvez tivesse enfraquecido as resistências de Sarah, uma vez que ela era, no fundo, uma criatura generosa.
Mas, ao invés disso, sua voz endureceu:
— Os jovens — disse ele — tendem a ser egoístas. Não costumam pensar em ninguém além de si mesmos. Mas você tem que pensar na felicidade de sua mãe. Ela tem direito a uma vida própria, e direito a agarrar a felicidade quando a encontrar. Ela precisa de alguém que cuide dela e a proteja.
Sarah levantou os olhos e encarou-o de frente. A expressão do seu olhar o deixou intrigado. Era duro, e tinha um quê de calculista.
— Não poderia estar mais de acordo — disse ela, inesperadamente.
Ann voltou para a sala um tanto nervosa. Perguntou:
— Sobrou algum café?
Sarah serviu uma xícara, cuidadosamente. Levantou-se e passou a xícara à mãe.
— Aqui está, Mamãe — disse ela. — Voltou no momento exato. Tivemos nossa conversinha. — Saiu da sala.
Ann lançou a Richard um olhar indagador. Ele tinha o rosto um pouco vermelho.
— Sua filha já decidiu não gostar de mim.
— Seja paciente com ela, Richard, por favor. Seja paciente.
— Não se preocupe, Ann, estou perfeitamente preparado para ser paciente.
— Você vê, para ela foi um choque.
— Realmente.
— Sarah é na verdade muito amorosa. É uma criança tão querida!
Richard não replicou. Considerava Sarah uma jovem odiosa, mas era impossível dizer isso a sua mãe.
— Tudo vai dar certo — disse, tranqüilizadoramente.
— Estou certa de que sim. É uma questão de tempo.
Estavam ambos infelizes, e não sabiam bem o que dizer depois.
3
Sarah tinha ido para o quarto. Com olhos cegos, tirou roupas do armário e espalhou-as pela cama.
Edith entrou.
— O que está fazendo, Srta. Sarah?
— Oh, dando uma olhada nas minhas coisas. Talvez precisem ser lavadas, ou consertadas, ou qualquer coisa.
— Já providenciei tudo isso. Não precisa se incomodar.
Sarah não respondeu. Edith olhou-a de relance, e viu os olhos dela se encherem de lágrimas.
— Ora, ora, vamos, não fique assim.
— Ele é detestável, Edith, positivamente detestável. Como é que Mamãe pôde? Oh, está tudo arruinado, estragado... nada vai ser como antes.
— Ora, ora, Srta. Sarah. Não adianta ficar nervosa. Quanto menos se fala, mais depressa se conserta. O que não tem remédio remediado está.
Sarah riu freneticamente.
— “Um passo dado a tempo vale por nove”, e “Pedras que rolam não juntam musgo”. Vá embora, Edith. Por favor, vá!
Edith balançou compassivamente a cabeça e saiu, fechando a porta.
Sarah chorou arrebatadamente, como uma criança. Estava dilacerada pela dor. Como uma criança, ela via escuridão em toda parte, uma escuridão que nada poderia aliviar.
Soluçava baixinho:
— Oh, Mamãe, Mamãe, Mamãe...
Capítulo VIII
1
— OH, LAURA, que prazer vê-la!
Laura Whitstable sentou-se numa cadeira de espaldar alto. Ela nunca se recostava indolentemente.
— Bem, Ann, como vão as coisas?
Ann suspirou.
— Temo que Sarah esteja sendo um tanto difícil.
— Bem, isso era de se esperar, não?
Laura Whitstable falou com animada despreocupação. Mas olhava para Ann com certa ansiedade.
— Não está com boa aparência, minha cara.
— Eu sei. Não tenho dormido bem, e sinto dor de cabeça.
— Não leve as coisas tão a sério.
— É fácil dizer isso, Laura. Você não tem idéia de como as coisas estão. — Ann falava com impaciência. — Assim que Sarah e Richard são deixados juntos por um momento, eles discutem.
— Sarah está com ciúmes, é claro.
— Acho que sim.
— Bem, como eu disse, já era de se esperar. Sarah ainda é muito infantil. Todas as crianças se ressentem quando as mães dão tempo e atenção a outra pessoa. Certamente você estava preparada para isso, Ann?
— Sim, de uma certa maneira. Embora Sarah sempre parecesse tão independente e adulta. Ainda assim, como você diz, eu estava preparada. O que eu não podia esperar é que Richard tivesse ciúmes de Sarah.
— Esperava que Sarah agisse como uma tola, mas pensou que Richard tivesse mais juízo?
— Sim.
— Ele é um homem fundamentalmente inseguro. Um homem com mais segurança limitar-se-ia a rir e mandar Sarah para o inferno.
Ann esfregou a testa num gesto exasperado.
— Realmente, Laura, não tem idéia de como estão as coisas! Eles se desentendem pelos motivos mais bobos, e então me olham para ver de que lado vou ficar.
— Muito interessante.
— Muito interessante para você... mas para mim não tem graça nenhuma.
— De que lado você fica?
— De nenhum, quando posso. Mas às vezes...
— Sim, Ann?
Ann ficou um momento em silêncio, e então falou:
— Entende, Laura, Sarah é mais esperta do que Richard em tudo.
— Como assim?
— Bem, os modos de Sarah são sempre corretos... exteriormente. Educada, entende, e tudo isso. Mas ela sabe como irritar Richard. Ela.... ela o atormenta. E então ele estoura e se torna bastante irracional. Oh, por que não podem gostar um do outro?
— Porque há uma verdadeira antipatia natural entre eles, eu diria. Concorda com isso? Ou pensa que é só ciúme de você?
— Receio que esteja certa, Laura.
— Sobre que tipo de coisa eles discutem?
— As coisas mais bobas. Por exemplo, você lembra que eu troquei os móveis de lugar, mudei a escrivaninha e o sofá... e então Sarah os pôs de volta nos lugares, porque detesta mudanças... Bem, Richard disse um dia, de repente: “Pensei que você gostasse da escrivaninha ali, Ann”. Eu disse que gostava, que achava que dava mais espaço. Aí Sarah falou: “Bem, eu gosto do jeito que ficava sempre”. E imediatamente Richard disse, naquele tom dominador que adota às vezes: “Não é uma questão do que você gosta, Sarah, mas do que sua mãe gosta. Vamos arrumar do modo que ela prefere, agora mesmo”. E mudou a escrivaninha de lugar naquele momento, e me disse: “É assim que você quer, não é?” Então eu mais ou menos fui obrigada a dizer “Sim”, e ele virou-se para Sarah e falou: “Alguma objeção, mocinha?” E Sarah olhou para ele e disse, muito suave e educadamente: “Oh, não, Mamãe é que sabe. Eu não conto”. E sabe, Laura, embora eu estivesse apoiando Richard, na verdade estava do lado de Sarah. Ela adora sua casa e todas as coisas dentro dela... e Richard não tem idéia de como ela se sente. Oh, meu Deus, não sei o que fazer.
— Sim, deve ser difícil para você.
— Posso esperar que vá passar?
Ann olhou esperançosamente para a amiga.
— Eu não contaria com isso.
— Devo dizer que você não é muito animadora, Laura!
— Não adianta a gente contar a si mesma histórias de fadas.
— Francamente é muita maldade deles. Deviam perceber como estão me fazendo infeliz. Eu me sinto mesmo doente.
— Autocomiseração não vai ajudá-la, Ann. Nunca ajuda ninguém.
— Mas estou tão infeliz!
— Eles também, minha querida. Tenha pena deles. Sarah, pobre criança, está desesperadamente infeliz... e também, imagino eu, Richard.
— Oh, céus, e éramos tão felizes juntos antes de Sarah voltar para casa.
Dame Laura ergueu levemente as sobrancelhas. Ficou um ou dois momentos em silêncio. Então disse:
— Você vai casar... quando?
— Dia treze de março.
— Quase duas semanas ainda. Você adiou. Por quê?
— Sarah pediu-me que o fizesse. Disse que teria mais tempo para se acostumar à idéia. Insistiu e insistiu até que concordei.
— Sarah... compreendo. E Richard se aborreceu?
— Claro que se aborreceu. Ficou muito brabo mesmo. Fica dizendo que eu sempre mimei Sarah. Laura, você acha que isso é verdade?
— Não, não acho. Apesar de todo seu amor por Sarah, você nunca foi excessivamente indulgente. E até agora Sarah tem demonstrado sempre uma razoável consideração por você... tanto, é claro, quanto pode qualquer jovem egoísta.
— Laura, acha que devo... — parou.
— Acho que deve fazer o quê?
— Oh, nada. Mas às vezes eu sinto que não posso agüentar isso por muito mais tempo.
Interrompeu-se, enquanto se ouvia o ruído da porta da frente do apartamento, que se abria. Sarah entrou na sala e pareceu contente ao ver Laura Whitstable .
— Oh, Laura, não sabia que estava aqui.
— Como vai minha afilhada?
Sarah aproximou-se e beijou-a. Seu rosto estava frio do ar da rua.
— Muito bem.
Murmurando alguma coisa, Ann deixou a sala. Os olhos de Sarah a seguiram. Ao voltarem e encontrarem os de Dame Laura, Sarah enrubesceu com ar culpado.
Laura Whitstable sacudiu vigorosamente a cabeça.
— Sim, sua mãe estava chorando.
Sarah pareceu surpresa e indignada.
— Bem, não é minha culpa.
— Não? Você gosta muito de sua mãe, não é?
— Adoro Mamãe. Você sabe disso.
— Então por que fazê-la infeliz?
— Mas não faço. Não faço coisa alguma.
— Você discute com Richard, não?
— Oh, isso! Isso ninguém pode evitar! Ele é impossível. Se ao menos Mamãe pudesse perceber como ele é impossível! Na verdade, acho que verá um dia.
Laura Whitstable disse:
— Você precisa tentar organizar a vida dos outros, Sarah? Quando eu era jovem, eram os pais os acusados de fazer isso com os filhos. Hoje, ao que parece, acontece o inverso.
Sarah sentou-se no braço da poltrona de Laura Whitstable. Falou em tom confidencial:
— Mas estou muito preocupada. Ela não vai ser feliz com ele, sabe.
— Isso não é da sua conta, Sarah.
— Mas não posso deixar de me preocupar. Por que não quero que Mamãe seja infeliz. E ela vai ser... Mamãe é tão... tão indefesa. Precisa ser cuidada.
Laura Whitstable prendeu as mãos bronzeadas de Sarah entre as suas. Falou com um vigor que alarmou Sarah:
— Agora escute, Sarah. Escute. Tenha cuidado. Tenha muito cuidado.
— O que quer dizer?
Laura voltou a falar com ênfase:
— Tenha muito cuidado para não deixar sua mãe fazer alguma coisa de que se arrependerá toda a vida.
— É exatamente o que eu. . .
Laura continuou, empolgada:
— Estou lhe avisando. Ninguém mais o fará. — Fungou súbita e longamente. — Sinto o cheiro de alguma coisa no ar, Sarah, e vou lhe dizer o que é. É o cheiro de oferendas queimadas... e não gosto de sacrifícios.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Edith abriu a porta e anunciou:
— O Sr. Lloyd.
Sarah levantou-se de um salto.
— Olá, Gerry — voltou-se para Laura Whitstable: — Este é Gerry Lloyd. Minha madrinha, Dame Laura Whitstable.
Gerry apertou-lhe a mão e disse:
— Acredito tê-la ouvido no rádio, ontem à noite.
— Fico satisfeita.
— Fazendo a segunda palestra da série “Como estar vivo hoje”. Fiquei muito impressionado.
— Nada de impertinências — disse Dame Laura, olhando-o com uma súbita piscadela.
— Não, mas fiquei mesmo. A senhora parecia saber todas as respostas.
— Ah! — disse Dame Laura. — Sempre é mais fácil ensinar alguém a fazer um bolo do que o fazer mos nós mesmos. E também muito mais divertido. Mau para o caráter, no entanto. Estou bem consciente de estar ficando a cada dia mais detestável.
— Ora, não está não — protestou Sarah.
— Estou sim, filha. Estou quase chegando ao ponto de dar conselhos às pessoas... um pecado imperdoável. Agora vou ao encontro de sua mãe, Sarah.
2
Assim que Laura Whitstable saiu da sala, Gerry falou:
— Vou deixar a Inglaterra, Sarah.
A moça, aflita, olhou-o espantada.
— Oh, Gerry... quando?
— Praticamente logo. Quinta-feira que vem.
— Onde?
— África do Sul.
— Mas é muito longe — exclamou Sarah.
— Bastante.
— Não vai voltar por anos e anos!
— Provavelmente não.
— O que vai fazer lá?
— Cultivar laranjas. Vou me associar a dois outros camaradas. Deve ser bem divertido.
— Oh, Gerry, você tem de ir?
— Bem, estou saturado deste país. É insípido e presunçoso demais. Não serve para mim, e eu não sirvo para ele.
— E o seu tio?
— Oh, não estamos mais nos falando; Tia Lena, no entanto, tem sido muito boa. Deu-me um cheque e um remédio para mordidas de cobras. — Ele sorriu.
— Mas você sabe alguma coisa sobre laranjas, Gerry?
— Absolutamente nada, mas imagino que se aprenda logo.
Sarah suspirou.
— Vou sentir sua falta...
— Acho que não... não por muito tempo — Gerry falou um tanto asperamente, evitando olhar para ela, — Se a gente está longe, do outro lado do mundo, as pessoas logo nos esquecem.
— Não, não esquecem...
Ele olhou-a rapidamente.
— Não?
Sarah sacudiu a cabeça.
Perturbados, evitaram olhar um para o outro.
— Tem sido divertido... andando juntos por aí — disse Gerry.
— É . . .
— Às vezes as pessoas conseguem prosperar cultivando laranjas.
— Imagino que sim.
Gerry falou, escolhendo cuidadosamente as palavras:
— Acredito que seja uma vida bastante alegre... quer dizer, para uma mulher. Bom clima... e muitos criados... tudo isso.
— É.
— Mas acho que você vai casar com algum sujeito. ..
— Oh, não — Sarah sacudiu a cabeça. — É um grande erro casar muito cedo. Não pretendo casar por séculos.
— Você acha isso... mas algum porco ou outro vai fazer você mudar de idéia — disse Gerry, com ar lúgubre.
— Sou muito fria por natureza — disse Sarah tranqüilizadoramente.
Permaneceram de pé, desajeitados, sem olhar um para o outro.
Então Gerry disse, em voz embargada, o rosto muito pálido:
— Sarah querida... sou louco por você. Sabe disso, não é?
— É mesmo?
Vagarosamente, como se contra a vontade, eles se aproximaram mais. Os braços de Gerry a envolveram. Beijaram-se, tímidos e maravilhados.
Estranho, pensou Gerry, que ele pudesse ser tão desajeitado. Tinha sido um jovem alegre, e tivera muitas experiências com garotas. Mas esta não era uma “garota”, esta era sua querida Sarah...
— Gerry...
— Sarah. . .
Beijou-a de novo.
— Não vai esquecer, querida, vai? Todos os momentos felizes que vivemos... e tudo mais?
— Claro que não esqueço.
— Você me escreve?
— Não gosto muito de escrever cartas.
— Mas vai escrever para mim. Por favor, querida. Estarei tão sozinho...
Sarah afastou-se dele e deu uma risadinha trêmula.
— Não ficará sozinho. Haverá um monte de garotas.
— Se houver, será um monte horrível. Mas prefiro imaginar que não vai haver nada além de laranjas.
— É melhor me mandar uma caixa, de vez em quando.
— Mando mesmo. Oh, Sarah, eu faria qualquer coisa por você.
— Bem, então trabalhe muito. Faça de sua fazenda de laranjas um sucesso.
— Farei. Juro que farei.
Sarah suspirou.
— Gostaria que você não tivesse que ir justamente agora — disse ela. — Tem sido tão confortador poder falar com você.
— Como vai Cauliflower? Está gostando um pouco mais dele?
— Não, não estou. Nunca paramos de brigar. Mas — sua voz era de triunfo — acho que estou vencendo, Gerry!
Gerry olhou-a, inquieto.
— Quer dizer que sua mãe...
— Acho que ela começa a ver como ele é insuportável.
Sarah sacudiu a cabeça, triunfante. Gerry mostrou-se ainda mais inquieto.
— Sarah, seja como for, gostaria que você não...
— Não combatesse Cauliflower? Vou lutar contra ele com unhas e dentes! Não vou desistir. Mamãe tem que ser salva.
— Gostaria que você não interferisse, Sarah. Sua mãe deve saber o que quer.
— Já lhe disse antes, Mamãe é fraca. Fica com pena das pessoas, e perde o discernimento. Estou salvando-a de fazer um casamento infeliz.
Gerry criou coragem.
— Bem, ainda penso que você está só com ciúmes.
Sarah lançou-lhe um olhar furioso.
— Muito bem! Se é isso que pensa, é melhor ir agora.
— Ora vamos, não fique zangada comigo. Provavelmente sabe o que está fazendo.
— Claro que sei — disse Sarah,
3
Ann estava em seu quarto, sentada frente à penteadeira, quando Laura Whitstable entrou.
— Sente-se melhor agora, minha cara?
— Sim. Foi mesmo muita estupidez minha. Não devo deixar essas coisas me atacarem os nervos.
— Um rapaz acaba de chegar. Gerald Lloyd. É esse o...
— Sim. O que achou dele?
— Sarah o ama, naturalmente.
Ann pareceu perturbada.
— Oh, Deus, espero que não.
— Não adianta esperar.
— Não pode dar em nada, compreende?
— Ele é totalmente insatisfatório, é?
Ann suspirou.
— Parece que sim. Nunca leva nada até o fim. É atraente. Não se pode deixar de gostar dele. Mas...
— Sem estabilidade?
— A gente sente que nunca vai dar certo em lugar algum. Sarah está sempre falando na má sorte que ele teve, mas não acho que seja só isso. — Ela continuou: — Além disso, Sarah conhece tantos rapazes bons de verdade.
— E os acha sem graça, suponho. Garotas bem dotadas e capazes... e Sarah é mesmo muito capaz... são sempre atraídas por rapazes que não prestam. Parece uma lei da natureza. Devo confessar que até eu achei o rapaz atraente.
— Até você, Laura?
— Tenho minhas fraquezas femininas, Ann. Boa noite, minha cara. Boa sorte.