A Filha
Livro
DOIS
Capítulo I
1
LAURA WHITSTABLE olhou com carinho para as conhecidas ruas de Londres, pelas janelas do ônibus que a trazia do aeroporto. Estivera muito tempo fora, servindo numa Delegação Real que incluíra uma interessante e prolongada volta ao mundo. As sessões finais nos Estados Unidos tinham sido cansativas. Dame Laura fizera conferências, presidira, almoçara e jantara e tivera dificuldade em encontrar tempo para ver seus amigos pessoais.
Bem, agora tinha terminado. Estava novamente em casa, com uma mala cheia de anotações, estatísticas e papéis importantes, e com a perspectiva de mais um bocado de trabalho pela frente, preparando o material para publicação.
Era uma mulher de grande vitalidade e enorme resistência física. A perspectiva do trabalho lhe fora sempre mais atraente do que a do lazer, mas, ao con-trário de muita gente, ela não se vangloriava disso e às vezes candidamente admitia que a preferência poderia ser encarada mais como uma fraqueza do que como uma virtude. Porque o trabalho, dizia ela, é uma das principais vias pelas quais fugimos de nós mesmos. E viver consigo mesmo, sem subterfúgios e em humildade e contentamento, é alcançar a única e verdadeira harmonia da vida.
Laura Whitstable era uma mulher que se concentrava numa coisa de cada vez. Nunca fora dada a escrever cartas longas e noticiosas aos amigos. Quando estava ausente, estava ausente — tanto em pensamento quanto em físico.
Escrupulosamente enviava cartões-postais bem coloridos para o quadro de auxiliares domésticos, que se sentiriam ofendidos se ela não o fizesse. Mas amigos e familiares sabiam que a primeira coisa que ouviriam de Dame Laura seria uma voz profunda e áspera ao telefone, anunciando que estava de volta.
Era bom estar em casa, pensou Laura um pouco mais tarde, enquanto passava os olhos pela sala confortável e masculina e ouvia distraída o melancólico catálogo de pequenos desastres domésticos que, segundo Basset, haviam ocorrido em sua ausência.
Dispensou Basset com um “fez bem em me contar” final, e afundou na grande e velha poltrona de couro. Cartas e jornais estavam empilhados numa mesa lateral, mas não se preocupou com eles. Todos os assuntos urgentes tinham sido tratados pela sua eficiente secretária.
Acendeu um charuto e recostou-se na poltrona, com os olhos semicerrados.
Era o fim de um período, o início de outro...
Relaxou, deixando que a engrenagem do cérebro diminuísse a velocidade e mudasse para o novo ritmo. Seus companheiros de delegação. . . os problemas que haviam surgido... teorias... pontos de vista... personalidades americanas. . . os amigos americanos... lenta e inexoravelmente todos eles recuaram, tornaram-se vagos...
Londres, as pessoas que precisava ver, os figurões que iria tiranizar, os Ministérios que se propunha a incomodar, as medidas práticas que pretendia tomar, os relatórios que precisava escrever... tudo lhe veio à mente com clareza. A futura campanha, as extenuantes tarefas diárias...
Mas antes disso haveria um intervalo, uma nova aclimatação. Relações pessoais e prazeres. Os amigos para ver... um interesse renovado por seus problemas e alegrias. Um revisitar dos lugares favoritos — todos os mil e um prazeres de sua vida privada. Presentes que trouxera para dar... O rosto severo suavizou-se, e ela sorriu. Nomes flutuavam-lhe na mente. Charlotte... o jovem David... Geraldine e os filhos... o velho Walter Emlyn... Ann e Sarah. . . o Professor Parker...
O que acontecera a eles desde que partira?
Iria a Sussex para ver Geraldine depois de amanhã, se fosse conveniente. Pegou o telefone, conseguiu ligação, marcou dia e hora. Então ligou para o Pro-fessor Parker. Cego e quase totalmente surdo, ele ainda assim parecia estar ótimo de saúde e de espírito, e ansioso por um debate realmente violento com a velha amiga Laura.
O número que ligou a seguir foi o de Ann Prentice.
Foi Edith quem atendeu.
— Ora, isto é uma surpresa, madame. Faz um tempão. Li um artigo sobre a senhora no jornal, um ou dois meses atrás. Não, sinto muito, a Sra. Prentice não está. Agora quase sempre sai à noite. Sim, a Srta. Sarah também saiu. Sim, madame, vou dizer à Sra. Prentice que telefonou e está de volta.
Reprimindo o desejo de observar que lhe teria sido mais difícil telefonar se não tivesse voltado, Laura Whitstable desligou e passou a ligar outro número.
Durante as conversas que se seguiram e os compromissos que assumiu, Laura relegou ao fundo da mente algum pontinho que prometeu a si mesma examinar mais tarde.
Foi só depois de estar na cama que sua mente analítica perguntou por que uma coisa dita por Edith a surpreendera. Levou algum tempo até lembrar, mas finalmente conseguiu.
Edith dissera que Ann tinha saído, e que agora quase sempre saía à noite.
Laura franziu as sobrancelhas, pois parecia que Ann devia ter modificado muito seus hábitos. Naturalmente, seria de esperar que Sarah andasse na folia todas as noites de sua vida. As moças faziam isso. Mas Ann era do tipo quieto — uma saída ocasional para jantar... um cinema de vez em quando... ou uma peça de teatro... mas não um hábito de todas as noites.
Deitada na cama, Laura Whitstable pensou por algum tempo em Ann Prentice...
2
Foi duas semanas mais tarde que Dame Laura tocou a campainha do apartamento de Ann Prentice.
Edith abriu a porta, e sua expressão azeda teve uma quase imperceptível mudança, indicando que estava satisfeita. Afastou-se para que Dame Laura entrasse.
— A Sra. Prentice está se arrumando para sair — disse ela. — Mas estou certa de que vai querer ver a senhora.
Conduziu Dame Laura até a sala, e seus passos pesados soaram pelo corredor em direção ao quarto de Ann.
Laura passou os olhos pela sala, um tanto surpresa. Estava completamente transformada — ela dificilmente saberia que era a mesma peça, e só por um instante brincou com a idéia absurda de ter vindo ao apartamento errado.
Algumas peças da mobília original ainda restavam, mas a um canto havia um grande bar. O novo décor era uma versão atualizada do estilo Império francês, com elegantes cortinas de cetim listrado e muitos bronzes e dourados. Os poucos quadros nas paredes eram modernos. Parecia menos uma peça da casa de alguém do que o cenário de uma produção teatral.
A cabeça de Edith assomou à porta:
— A Sra. Prentice estará com a senhora num momento, madame — avisou.
— Houve uma transformação total por aqui — observou Dame Laura.
— Custou rios de dinheiro — disse Edith desaprovadoramente. — E um ou dois moços muito esquisitos têm andado por aqui supervisionando. A senhora nem pode imaginar.
— Ora, imagino sim — respondeu Dame Laura. — Bem, parece que fizeram um ótimo trabalho.
— Bugigangas — disse Edith com desprezo.
— A gente precisa acompanhar os tempos, Edith. Com certeza a Srta. Sarah gosta.
— Oh, não é o gosto dela. Tem horror a mudanças. Sempre teve. Ora, a senhora lembra, madame, ela não queria nem o sofá virado para o outro lado! Não, é a Sra. Prentice que é doida por tudo isso.
Dame Laura levantou levemente as sobrancelhas. Parecia-lhe novamente que Ann Prentice devia ter mudado muito. Mas naquele momento passos vieram correndo pelo corredor e a própria Ann entrou precipitadamente, com as mãos estendidas.
— Laura, querida, que maravilha! Estava ansiosa por vê-la!
Deu em Laura um beijo rápido e distraído. Esta olhou-a com surpresa.
Sim, Ann Prentice mudara. Seu cabelo castanho claro, com um ou dois fios entremeados de cinza, fora pintado num tom avermelhado e cortado num estilo exageradamente moderno.
Depilara as sobrancelhas, e tinha o rosto dispendiosamente maquiado. Usava um vestido curto de coquetel, adornado com grande quantidade de bijuterias. Seus movimentos eram agitados e artificiais — e isso, para Laura, era a mudança mais significativa de todas, pois a característica principal da Ann Prentice que conhecera era uma tranqüilidade meiga e serena.
— E o que me diz do jovem Gerald Lloyd... aquele rapaz que a preocupava tanto?
— Oh, foi para a América do Sul, ou um lugar qualquer. Aquilo acabou, felizmente. Engraçado você lembrar.
— Eu lembro de coisas que dizem respeito a Sarah. Gosto muito dela.
— Você é um amor, Laura. Sarah está muito bem. Muito egoísta e irritante em vários sentidos... mas suponho que isso é normal, na idade dela. Chegará daqui a pouco, e então...
O telefone tocou, e Ann interrompeu-se para atender.
— Alô?... Oh, é você, querido... Ora, é claro, eu adoraria... Sim, mas tenho de olhar na minha agenda... oh, que inferno, não sei onde está... sim, estou certa de que está bem... Quinta, então. . . o Petit Chat... sim, não foi?... Engraçado como Johnnie se apagou completamente... Sim, é claro, estávamos todos um pouco altos... Sim, também acho...
Recolocou o fone no gancho, comentando com uma nota de satisfação na voz que desmentia as palavras:
— Esse telefone! Toca o dia inteiro.
— Eles têm esse hábito — concordou Laura secamente. Acrescentou: — Você parece estar levando uma vida muito divertida, não Ann?
— Não se pode vegetar, querida. . . oh, parece que é Sarah.
Ouviram a voz de Sarah no vestíbulo:
— Quem, Dame Laura? Ótimo!
Abriu violentamente a porta da sala e entrou. Sua beleza surpreendeu Laura Whitstable. Desaparecera o toque desajeitado de potrinho, e ela agora era uma jovem excepcionalmente atraente, com rosto e corpo de beleza bastante incomum.
Pareceu radiante ao ver a madrinha, e beijou-a afetuosamente.
— Laura querida, que bom! Você fica ótima com esse chapéu. Ele lhe dá um ar quase Real, com um toquezinho tirolês.
— Criança impertinente — disse Laura, sorrindo para ela.
— Não, mas é verdade. Você é mesmo uma personalidade, não é, minha jóia?
— E você, uma jovem muito bonita!
— Oh, é só a minha maquiagem cara.
O telefone tocou, e Sarah atendeu.
— Alô? Quem está falando? Sim, ela está aqui. É para você, Mamãe... como sempre.
Quando Ann tomou o fone das mãos dela, Sarah sentou-se no braço da poltrona de Laura.
— O telefone toca para Mamãe o dia inteirinho — disse ela rindo.
Ann interrompeu asperamente:
— Fique quieta, Sarah, não consigo escutar. Sim... bem, acho que sim... mas estou ocupadíssima na semana que vem... Vou olhar na agenda. — Voltou-se e pediu: — Sarah, encontre a minha agenda. Deve estar junto à minha cama.
Sarah saiu da sala. Ann continuou falando:
Bem, naturalmente sei o que quer dizer... sim, esse tipo de coisa é uma obrigação horrível... Verdade, querido?... Bem, no que me diz respeito, cansei de Edward... Eu. . . Oh, cá está a agenda — tomou-a de Sarah, virando as folhas. — Não, sexta não dá... Sim, eu poderia ir depois... Muito bem, então, nos encontraremos nos Lumley Smith... Oh, sim, concordo. Ela é terrivelmente sem graça.
Recolocou o fone no gancho e exclamou:
— Esse telefone! Vai acabar me deixando maluca...
— Você adora isso, Mamãe. E adora flanar por aí, sabe disso. — Sarah voltou-se para Dame Laura e perguntou: — Não acha que Mamãe está muito elegante com esse novo penteado? Anos mais moça?
— Sarah não me deixa mergulhar graciosamente na meia-idade — disse Ann, com uma risada levemente artificial.
— Ora, Mamãe, você sabe que gosta de se divertir. Ela tem muito mais namorados do que eu, Laura, e raras vezes chega em casa antes do amanhecer.
— Não seja absurda, Sarah — disse Ann.
— Quem é hoje à noite, Mamãe? Johnnie?
— Não, Basil.
— Oh, antes você do que eu. Acho Basil o fim.
— Bobagem — falou Ann, asperamente. — Ele é muito divertido. E você, Sarah? Vai sair, suponho?
— Sim, Lawrence vem me buscar. Tenho que correr e mudar de roupa.
— Vá, então. E, Sarah... Sarah... não deixe suas coisas espalhadas por todo lado. Sua pele. . . e suas luvas. E apanhe aquele copo. Vai acabar quebrando.
— Ah, está bem, Mamãe. Não reclame tanto.
— Alguém tem que reclamar. Você nunca arruma nada. Para falar a verdade, às vezes não sei como agüento! Não... leve-as com você.
Ann deu um suspiro de exasperação enquanto Sarah saía.
— Francamente, garotas são absolutamente enlouquecedoras. Você não tem idéia de como Sarah é exasperante!
Laura lançou-lhe um rápido olhar. Houvera uma nota de verdadeiro mau humor e irritação na voz de Ann.
— Você não se cansa de toda essa correria. Ann?
— Claro que sim. Fico morta de cansaço. Mas a gente precisa fazer alguma coisa para se divertir.
— Você não costumava ter dificuldade em se divertir.
— Ficar sentada em casa com um bom livro e uma refeição numa bandeja? A gente passa por essa fase de retraimento. Mas estou no meu segundo fôlego agora. Por falar nisso, Laura, foi você que usou essa expressão pela primeira vez. Não está contente ao ver que aconteceu?
— Eu não quis dizer exatamente essa roda-viva social.
— Claro que não, querida. Você se referia a algum objetivo mais nobre. Mas não podemos todas ser figuras públicas como você, tremendamente científicas e sérias. Gosto de me divertir.
— E Sarah, do que ela gosta? Também gosta de se divertir? Como está a criança? Feliz?
— Claro. Ela se diverte muito.
Ann falou num tom despreocupado e indiferente, mas Laura Whitstable franziu as sobrancelhas. Quando Sarah deixou a sala, Laura tinha ficado perturbada por ver uma momentânea expressão de profundo cansaço no rosto da moça. Era como se por um momento a máscara sorridente tivesse escorregado — e por baixo dela Laura pensou ter visto incerteza e algo como sofrimento.
Sarah era feliz? Ann evidentemente pensava que sim. E Ann devia saber.
Não fique imaginando coisas, mulher — disse para si, severamente.
Mas a despeito de si mesma, sentia-se inquieta e perturbada. Havia alguma coisa errada na atmosfera do apartamento. Ann, Sarah, até mesmo Edith, todas percebiam isso. Todas elas, pensou, tinham algo a esconder. O olhar sombrio de desaprovação de Edith, a inquietude de Ann, suas maneiras nervosas e artificiais, a atitude insegura de Sarah... Havia algo errado em algum lugar.
A campainha da frente tocou e Edith, com o rosto mais lúgubre do que nunca, anunciou o Sr. Mowbray.
O Sr. Mowbray arremessou-se para dentro da sala. Não havia outro termo para aquilo. Eram os movimentos saltitantes de algum inseto alegre. Dame Laura pensou que ele poderia desempenhar bem o papel de Osric. Era jovem e de modos afetados.
— Ann! — exclamou ele. — Você está usando, afinal! Minha querida é o maior sucesso!
Ele se manteve a distância, a cabeça inclinada para um lado, examinando o vestido de Ann, enquanto esta o apresentava a Dame Laura.
Avançou para ela, exclamando excitado:
— Um broche de camafeu! Que coisa absolutamente adorável! Adoro camafeus. Tenho uma coisa por camafeus!
— Basil tem uma coisa por qualquer jóia vitoriana — disse Ann.
— Minha querida, eles tinham imaginação. Aqueles medalhões divinos, divinos. Fios de cabelos de duas pessoas entrelaçados num cacho em forma de salgueiro ou de vaso. Não fazem mais aquele tipo de trabalho com cabelos, hoje em dia. É uma arte perdida. E flores de cera... sou louco por flores de cera... e mesinhas de papier mâché. Ann, tem que deixar que a leve para ver uma mesa realmente divina.Tem até as taças malaias originais. Repulsivamente cara, mas vale cada centavo.
— Preciso ir — falou Laura Whitstable. — Não se prendam por minha causa.
— Fique e converse com Sarah — disse Ann. — Mal chegou a vê-la. E Lawrence Steene ainda demora um pouco a chegar.
— Steene? Lawrence Steene? — perguntou Dame Laura bruscamente.
— Sim, o filho de Sir Harry Steene. Muito atraente.
— Oh, você acha, querida? — comentou Basil. — Ele sempre me parece um tanto melodramático... como um mau filme. Mas todas as mulheres parecem ficar loucas por ele.
— Ele é revoltantemente rico — disse Ann.
— Sim, há isso também. A maioria dos ricos é de uma falta de charme mortal. Quase não parece justo que alguém devesse ter dinheiro e charme.
— Bem. acho melhor irmos — disse Ann. — Eu lhe telefono, Laura, e vamos marcar uma conversa demorada e adorável uma hora destas.
Beijou Laura de maneira ligeiramente artificial e saiu com Basil Mowbray.
Dame Laura ouviu Basil comentar no vestíbulo: Que maravilhosa peça de museu ela é... tão divinamente lúgubre. Por que nunca a encontrei antes?
Alguns minutos depois Sarah entrou precipitadamente.
— Não fui rápida? Corri e quase não me pintei.
— É um bonito vestido, Sarah.
Sarah rodopiou. Usava um vestido de cetim azul claro que se ajustava às linhas adoráveis de seu corpo.
— Gosta? Foi horrivelmente caro. Onde está Mamãe? Saiu com Basil? Ele é horrível, não? Mas muito divertido e maldoso, e faz uma espécie de culto a mulheres mais velhas.
— Provavelmente descobriu que isso compensa — disse Dame Laura, em tom sombrio.
— Como você é cínica... e como está certa, também. Mas afinal, Mamãe precisa de alguma diversão. Está se divertindo loucamente, pobrezinha. E é mesmo atraente, não acha? Meu Deus, deve ser horrível envelhecer!
— Posso lhe assegurar que é bastante confortável — disse Dame Laura.
— Está tudo muito bem para você... mas nem todos podem ser figuras importantes! O que tem feito nesses anos todos em que não a vimos?
— De um modo geral, abusado da minha autoridade, interferindo na vida dos outros e dizendo-lhes como ficarão alegres e felizes se fizerem exatamente o que lhes digo. Na verdade, incomodando todo mundo de maneira tirânica.
Sarah riu afetuosamente.
— Não quer me dizer como dirigir minha vida?
— Você precisa que lhe digam?
— Bem, não sei se estou sendo muito inteligente.
— Alguma coisa errada?
— Não exatamente... Divirto-me bastante e tudo isso... Acho que devia mesmo fazer alguma coisa.
— Que tipo de coisa?
— Oh, não sei — disse Sarah, vagamente. — Dedicar-me a alguma coisa. Preparar-me para alguma coisa. Arqueologia, ou taquigrafia e datilografia, ou massagem, ou arquitetura.
— Que campo vasto... Nenhuma queda em especial?
— Não... não, acho que não... Esse trabalho com as flores é bom, mas estou um pouco enjoada dele. Não sei o que quero realmente...
Sarah perambulou a esmo pela sala.
— Não está pensando em casar?
— Oh, casamento! — Sarah fez uma careta expressiva. — Casamentos sempre parecem não dar certo.
— Nem sempre.
— Bem — disse Sarah, — a maior parte dos meus amigos parece ter-se separado. Vai tudo bem por um ou dois anos, e depois desanda. Naturalmente não deve ser tão ruim se a gente casa com alguém que tem montes de dinheiro.
— Então é essa a sua opinião?
— Bem, na verdade é a única opinião razoável. O amor não deixa de ser uma boa coisa — continuou com desembaraço — mas afinal de contas ele se baseia na atração sexual, e isso não pode durar.
— Você parece tão informada quanto um livro-texto — comentou Dame Laura secamente.
— Bem, é verdade, não é?
— Absolutamente verdadeiro — replicou Laura prontamente.
Sarah pareceu um pouco desapontada.
— Por conseguinte, a única coisa sensata a fazer é casar com alguém realmente bem de vida.
Um leve sorriso crispou os lábios de Laura Whitstable.
— Isso também pode não durar — disse ela.
— É, acho que o dinheiro é um pouco incerto hoje em dia.
— Não foi isso que eu quis dizer — continuou Dame Laura. — O que quis dizer foi que o prazer de ter dinheiro para gastar é como a atração sexual. A gente acaba acostumando. Desaparece, como todo o resto.
— Comigo isso não aconteceria — afirmou Sarah. — Roupas bonitas... peles... jóias... e um iate...
— Como você ainda é criança, Sarah.
— Oh, mas não sou, Laura. Às vezes eu me sinto muito velha e desiludida.
— Verdade? — Dame Laura não podia deixar de sorrir diante da expressão grave do rosto jovem e bonito de Sarah.
— Na verdade, acho que eu deveria dar um jeito de sair daqui — falou Sarah, inesperadamente. — Arranjar um emprego, ou casar, ou alguma coisa. Eu deixo Mamãe horrivelmente nervosa. Tento ser boa, mas isso não parece adiantar. É claro que eu devo ser mesmo difícil. A vida é estranha, não é mesmo, Laura? Num momento tudo é alegria e a gente está se divertindo, e logo nada parece dar certo, e a gente não sabe onde está, nem o que quer fazer. E não há ninguém com quem se possa falar. Às vezes tenho uma sensação esquisita de medo. Não sei por que, nem de que... Medo, apenas. Talvez eu devesse me analisar, ou coisa parecida.
A campainha tocou e Sarah estremeceu.
— Acho que deve ser Lawrence!
— Lawrence Steene? — perguntou bruscamente Laura.
— Sim. Conhece?
— Ouvi falar nele — disse Laura, num tom sombrio.
Sarah deu uma risada.
— Nada de bom, garanto — disse ela, enquanto Edith abria a porta e anunciava:
— O Sr. Steene.
Lawrence Steene era alto e moreno. Tinha uns quarenta anos, e aparentava isso mesmo. Olhos um tanto velados pelos cílios. Movia-se com a elegância indolente de um felino. Era o tipo de homem que as mulheres notam imediatamente.
— Olá, Lawrence — disse Sarah. — Este é Lawrence Steene. Minha madrinha, Dame Laura Whitstable.
Lawrence Steene aproximou-se e tomou a mão de Dame Laura, curvando-se de um modo ligeiramente teatral e que quase poderia ser impertinente.
— É realmente uma honra — disse ele.
— Vê, querida? — exclamou Sarah. — Você é mesmo Nobre! Deve ser muito divertido ser uma Dame. Acha que algum dia serei uma?
— Não me parece nada provável — disse Lawrence.
— Oh, por quê?
— Você tem outros talentos. — Voltou-se para Dame Laura. — Li ontem um artigo seu. No Commentator.
— Oh, sim — disse Dame Laura. — Sobre a estabilidade do casamento.
— A senhora parece não ter dúvidas de que seria desejável a estabilidade no casamento. Mas no meu entender é a impermanência do casamento nos dias de hoje o que constitui seu maior encanto.
— Lawrence tem bastante experiência no assunto — acrescentou Sarah maldosamente.
— Só três vezes, Sarah.
— Meu Deus, espero que não tenha sido um daqueles casos em que as noivas desaparecem na banheira? — perguntou Dame Laura.
— Ele se desfaz delas na corte de divórcios — disse Sarah. — Bem mais simples que a morte.
— Mas lamentavelmente mais dispendioso — observou Lawrence.
— Creio ter conhecido sua segunda esposa, quando menina... Moira Denham, não é verdade?
— Exatamente.
— Uma moça encantadora.
— Concordo com a senhora, ela era realmente encantadora. Tão sem sofisticação.
— Um atributo pelo qual se paga caro às vezes — observou Laura. Levantou-se:
— Preciso ir.
— Podemos deixá-la em casa — ofereceu Sarah.
— Não, obrigada, estou com vontade de dar uma boa caminhada. Boa noite, minha querida.
A porta se fechou energicamente atrás dela.
— A desaprovação — disse Lawrence — foi marcante. Sou uma má influência na sua vida, Sarah. O dragão Edith positivamente lança fogo pelas ventas toda vez que me deixa entrar.
— Psiu, ou ela vai ouvir — pediu Sarah.
— É o que há de pior nos apartamentos — observou Lawrence. — Não se pode ter segredos.
Tinha chegado muito perto de Sarah, que se afastou um pouco, retrucando, petulante:
— Não, nada é secreto num apartamento, nem mesmo o encanamento.
— Onde está sua mãe esta noite?
— Saiu para jantar.
— Sua mãe é uma das mulheres mais sábias que conheço.
— Em que sentido?
— Ela nunca interfere, não é?
— Não... oh, não...
— Como eu disse, uma mulher sábia... Bem, vamos. — Afastou-se, olhando para ela. — Você está linda hoje, Sarah. Exatamente como deveria ser.
— Por que toda essa preocupação com esta noite? É alguma ocasião especial?
— É uma comemoração. Eu lhe direi mais tarde o que estamos comemorando.