A Filha

Agatha Christie · Capítulo 13 de 18

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A Filha

Capítulo IV · RICHARD entrou na sala com aquele ar…

 

RICHARD entrou na sala com aquele ar de segurança que assumia sempre que estava pouco à vontade. Não teria vindo se não fosse por Dóris. Mas ela tinha ficado curiosa, tinha insistido, falado, ficara amuada. Era muito jovem, bonita, e, tendo casado com um homem bem mais velho, pretendia fazer valer sempre a sua vontade.

Ann foi ao encontro deles com um sorriso encantador. Sentia-se como alguém desempenhando um papel no palco.

— Richard! Como é bom vê-lo! Esta é sua esposa?

Por trás das saudações educadas e dos comentários, os cérebros trabalhavam.

Richard pensava: “Como ela mudou... eu mal a teria conhecido”.

E sentiu um certo alívio ao pensar — “ela não teria servido para mim — realmente. É requintada demais... Elegante... Fútil. Não é o meu tipo.”

E sentiu renovada afeição pela esposa. Dóris o deixava meio tonto às vezes — era tão jovem. Havia ocasiões em que ele percebia, mesmo sem querer, que aquele seu jeito afetado de falar podia ser irritante e que a constante brejeirice era também um pouquinho cansativa. Não admitia a idéia de que se tivesse casado com alguém de classe inferior à sua. Conhecera Dóris num hotel de veraneio na costa sul. O pai dela era construtor aposentado e a família tinha bastante dinheiro, mas havia ocasiões em que os pais dela o desagradavam, embora isto acontecesse agora menos do que há um ano. E já começava a aceitar a idéia de que os amigos de Dóris seriam também os seus amigos. Não era o que tinha desejado antes, ele sabia; Dóris nunca poderia tomar o lugar da sua Aline, morta há tanto tempo. Mas conseguira fazer com que vivesse uma nova primavera dos sentidos e, por agora, isto lhe bastava.

Dóris, que tivera suas suspeitas sobre essa tal Sra. Prentice, e sentira até certo ciúme dela, ficou favoravelmente surpresa com a aparência de Ann.

“Ora, ela é bem velha” pensou, com a intolerância cruel da juventude.

Ficou impressionada com a sala e os móveis. A filha também era bastante elegante, parecia ter saído das páginas do Vogue. Saber que o seu Richard tinha sido noivo de uma senhora tão distinta a deixava bastante orgulhosa, fazia com que ele subisse no seu conceito .

Para Ann, rever Richard fora um choque. Este homem que lhe falava com tanta desenvoltura era um estranho. Tinham seguido caminhos diferentes e agora já não restava nenhum ponto comum entre eles. Sempre percebera a existência de duas tendências no caráter de Richard: um traço de arrogância, uma propensão à mediocridade.

Fora um homem comum com possibilidades interessantes. Agora uma porta se fechara sobre essas possibilidades, e o Richard que Ann amara estava aprisionado dentro deste típico marido inglês, bem-humorado e um tanto arrogante.

Tinha conhecido e casado com esta criança rapace e vulgar, destituída de bondade ou inteligência, tendo como única qualidade uma certa beleza rosada e um apelo sexual jovem e grosseiro.

Casara com esta moça porque ela, Ann, o mandara embora. Ferido, cheio de raiva e ressentimento, fora presa fácil para a primeira mulher decidida a con-quistá-lo. Bem, talvez tivesse sido melhor assim. Provavelmente ele era feliz...

Sarah trouxe bebidas e conversou educadamente. Seus pensamentos eram bastante simples e podiam ser resumidos numa frase: “Que gente maçante!” Não percebia nada além disso. Ainda sentia uma dor surda ao pensar em Gerry.

— Vejo que você redecorou tudo.

Richard olhava em volta:

— Ficou lindo, Sra. Prentice — disse Dóris. — O estilo Regência é a última moda, não? E como era antes?

— Coisas antigas e cor-de-rosa — respondeu Richard, vagamente. Tinha uma lembrança da luz suave da lareira, ele e Ann sentados no velho sofá que fora banido para ceder lugar ao divã estilo Império. — Gostava mais como era antes.

— Os homens têm mania de gostar de coisas velhas, não acha Sra. Prentice? — Dóris sorriu com afetação.

— Minha mulher está decidida a me manter atualizado — comentou Richard.

— É claro que sim, querido. Não vou deixar que você fique velho antes do tempo — disse Dóris afetuosamente. — A senhora não acha que ele parece muito mais moço agora do que quando o viu pela última vez, Sra. Prentice?

Ann evitou o olhar de Richard ao responder:

— Acho que ele está ótimo.

— Comecei a jogar golfe.

— Achamos uma casa perto de Basing Heath, não foi uma sorte? Tem um bom serviço de trens para que Richard possa ir e vir todos os dias. E o campo de golfe é tão bonito! Embora fique cheio demais nos fins de semana. . .

— Hoje em dia é mesmo uma sorte enorme quando se consegue a casa que se deseja — observou Ann.

— Sim. Tem um fogão Aga, uma boa instalação elétrica e foi construída dentro das linhas mais modernas. Richard suspirava por uma dessas casas de época, caindo aos pedaços. Mas eu bati pé!

Ann respondeu delicadamente:

— Estou certa que uma casa moderna elimina muitos problemas domésticos. Vocês têm jardim?

— Não de verdade — respondeu Richard, ao mesmo tempo em que Dóris exclamava:

— Oh, sim! — lançando-lhe um olhar reprovador. — Como pode dizer uma coisa dessas depois de todas as flores que plantamos?

— Temos uma pequena faixa de terra em torno da casa.

Por um instante seus olhos encontraram os de Ann. Tinham falado às vezes sobre o jardim que teriam se fossem viver no campo. Um pomar, um gramado com árvores...

Richard voltou-se rapidamente para Sarah:

— Bem, minha jovem, e o que tem feito? — A velha inquietação que sentia diante de Sarah reviveu e fez a voz dele soar odiosamente brincalhona. — Imagino que tem ido a muitas festas malucas.

Sarah riu animadamente, enquanto pensava:

“Tinha esquecido como Cauliflower é odioso. Foi ótimo para mamãe eu ter acabado com ele.”

— Oh, sim — falou. — Mas tenho por princípio não acabar bêbada mais de duas vezes por semana.

— As moças de hoje bebem demais. Faz mal à pele... embora eu deva dizer que a sua parece ótima.

— Você sempre se interessou por cosméticos, eu me lembro — disse Sarah, docemente.

Foi ter com Dóris, que conversava com Ann.

— Deixe-me oferecer-lhe outro drinque.

— Oh não, Srta. Prentice... eu não poderia. Este já me subiu à cabeça. Que lindo bar a senhora tem. É tudo elegantíssimo, não é mesmo?

— É bastante prático — respondeu Ann.

— Ainda não casou, Sarah? — indagou Richard.

— Oh, não, Mas ainda tenho esperanças.

— Imagino que você deve freqüentar Ascot e todos esses lugares — disse Dóris, invejosamente.

— A chuva deste ano arruinou meu melhor vestido — contou Sarah.

— Sabe, Sra. Prentice — Dóris voltou-se outra vez para Ann, — a senhora não parece nem um pouquinho com o que eu imaginava.

— E como você me imaginava?

— É que os homens são péssimos ao descrever as pessoas, não é mesmo?

— Como é que Richard disse que eu era?

— Ora, não sei. Não foi o que ele disse exatamente. Foi a impressão que eu guardei. Imaginava a senhora como uma dessas mulherezinhas quietas e apagadas — concluiu com uma risada estridente.

— Uma mulherzinha quieta e apagada! Isto parece horrível!

— Oh não, Richard tem uma admiração enorme pela senhora. Tem mesmo. Às vezes eu ficava bem enciumada, sabe?

— Que tolice!

— Oh, a senhora sabe como são essas coisas. As vezes, quando Richard fica muito quieto, de noite, e não quer falar, eu digo a ele que deve estar pensando na senhora. Só para implicar, sabe?

(Você pensa em mim, Richard? Pensa? Não creio. Você tenta não pensar em mim — como eu tento não pensar em você.)

— Se alguma vez for para os lados de Basing Heath, precisa ir nos visitar, Sra. Prentice.

— É muita bondade sua. Eu gostaria muito.

— É claro que o nosso maior problema é o problema doméstico, como aliás para todo mundo. Só se conseguem diaristas... e muitas vezes não se pode confiar nelas.

— Vejo que você ainda conserva a velha Edith — disse Richard, abandonando a conversa com Sarah.

— Sim. Estaríamos perdidas sem ela.

— Era uma ótima cozinheira. Lembro dos ótimos jantares que ela costumava fazer.

Houve um momento de embaraço.

Um dos jantarezinhos de Edith — a lareira acesa — os estofados de chintz com seus botões de rosas... A voz suave de Ann, seus cabelos castanhos, da cor das folhas... Falando — fazendo planos... um futuro feliz. Uma filha que voltaria da Suíça — mas ele nunca poderia imaginar que aquilo pudesse ter tanta importância...

Ann olhava para ele. Por um breve instante ela viu o verdadeiro Richard — o seu Richard — fitando-a com olhos tristes e cheios de lembranças.

O verdadeiro Richard? Mas o Richard de Dóris não era tão real quanto o seu?

Mas agora ele tinha partido outra vez. Era o Richard de Dóris que se despedia. Mais conversas, mais ofertas de hospitalidade — será que não iriam embora nunca? Aquela garota horrível e gananciosa com sua voz afetada. Pobre Richard. — Oh, pobre Richard. E a culpa era dela. Fora ela que o mandara para aquele saguão de hotel onde Dóris o esperava.

Mas seria mesmo “Pobre Richard?”. Ele tinha uma esposa jovem e bonita. Era provavelmente muito feliz.

Partiram! Finalmente! Sarah, que gentilmente os fora levar até a porta, voltou à sala:

— Ufa! — exclamou. — Felizmente acabou! Sabe Mamãe, você realmente teve sorte.

— É, creio que tive mesmo — Ann falou com ar vago, como se estivesse sonhando.

— Bem, fale a verdade: você casaria com ele agora?

— Não — respondeu Ann. — Não gostaria de casar com ele agora.

(Nós nos afastamos daquele ponto de encontro que houve em nossas vidas. Você seguiu um caminho, Richard, e eu o outro. Já não sou mais aquela mulher que caminhou com você pelo Parque St. James, e você não é o homem com quem eu queria envelhecer... Somos duas pessoas diferentes — dois estranhos. Você não gostou muito do meu jeito — e eu o achei enfadonho e arrogante...)

— Você morreria de tédio, sabe disso — disse a voz jovem e convicta de Sarah.

— Sim — disse Ann, lentamente. — É verdade, eu morreria de tédio.

(Eu agora já não poderia ficar parada, esperando a velhice chegar. Tenho necessidade de sair, divertir-me; é preciso que aconteçam coisas.)

Sarah pousou a mão carinhosamente no ombro da mãe.

— Não há dúvida, querida, você gosta mesmo é de movimento. Morreria de tédio presa num subúrbio, com um jardinzinho, sem ter nada para fazer a não ser esperar que Richard voltasse para casa no trem das 6:15, ou contasse para você as suas proezas no golfe! Não, realmente, esse tipo de vida Campestre não faz o seu gênero, de jeito nenhum.

— Eu teria gostado dela em outros tempos.

(Um velho jardim por trás do muro; um gramado com árvores, a casa pequena, estilo Rainha Ann, de tijolos vermelhos. E Richard não teria começado a jogar golfe, mas cuidaria das roseiras e plantaria lírios sob as árvores. Ou, se jogasse, ela teria ficado encantada em ouvir seus sucessos.)

Sarah beijou afetuosamente o rosto da mãe:

— Devia me agradecer por tê-la livrado disso, querida. Se não fosse por mim, você teria casado com ele.

Ann afastou-se um pouco. Seus olhos, de pupilas dilatadas, encararam Sarah:

“Se não fosse por você eu teria casado com ele. E agora — eu não quero. Ele já não significa nada para mim”.

Foi até a lareira e tocou o mármore com o dedo, os olhos sombrios de surpresa e dor. Disse baixinho:

— Nada... nada. . . A vida é mesmo uma brincadeira de mau gosto!

Sarah caminhou até o bar e serviu-se de outro drinque. Ficou um instante parada, um tanto inquieta, e finalmente falou, sem se voltar, numa voz que pretendia ser calma:

— Mamãe... acho que é melhor eu lhe contar... Larry quer que eu case com ele.

— Lawrence Steene?

— Sim.

Houve uma pausa. Ann ficou em silêncio durante algum tempo antes de perguntar:

— E o que pretende fazer?

Sarah voltou-se e lançou-lhe um rápido olhar de súplica, mas Ann não estava olhando para ela.

— Não sei. . . — disse.

Havia na sua voz um tom desamparado e medroso como o de uma criança. Olhou para a mãe, cheia de esperança, mas o rosto de Ann se manteve frio e distante.

— Bem, você é que deve decidir — disse finalmente .

— Eu sei.

Apanhou a carta de Gerry que estava sobre a mesa e sem tirar os olhos dela, começou a amassá-la lentamente com os dedos: Afinal falou, quase num grito:

— Eu não sei o que fazer!

— Não vejo como possa ajudá-la — disse Ann.

— Mas o que você acha, mamãe? Oh, por favor, diga alguma coisa!

— Já lhe disse que ele não tem boa reputação...

— Ora, isso! Isso não tem a menor importância. Eu morreria de tédio se casasse com o modelo de todas as virtudes.

— Ele tem muito dinheiro, é claro, e poderia proporcionar-lhe uma vida cheia de prazeres. Mas se eu fosse você, não me casaria se não gostasse dele.

— Eu gosto dele, de certa forma — disse Sarah lentamente.

Ann ergueu-se, olhando o relógio:

— Muito bem. Então — falou, vivamente, — qual é o problema? Meu Deus, esqueci que ia à casa dos Elliots, vou chegar horrivelmente atrasada.

— Mesmo assim, não estou bem certa — Sarah parou. — Entende...

— Há mais alguém? — perguntou Ann.

— Não, na verdade não há — respondeu Sarah, olhando outra vez para a carta que tinha nas mãos.

Ann falou, rápida:

— Se está pensando no Gerry, eu o tiraria da cabeça, Sarah. Gerry não vale nada, e quanto mais cedo você se convencer disso, melhor será.

— Acho que tem razão — disse Sarah, lentamente.

— Tenho certeza que sim — respondeu Ann, com energia. — Esqueça o Gerry. Se não gosta de Lawrence Steene, não case com ele. Você é muito jovem; há muito tempo ainda.

Sarah caminhou desalentadamente até a lareira.

— Acho que o melhor mesmo é casar com Lawrence... Afinal, ele é atraente. Oh, mamãe — exclamou de repente, — o que devo fazer?

— Francamente, Sarah — retrucou Ann, irritada. — Você está agindo como uma criancinha com dois anos de idade! Como é que eu posso decidir a sua vida por você? A responsabilidade é sua e de mais ninguém!

— Oh, eu sei disso...

— E então? — Ann estava impaciente.

— Pensei que você talvez pudesse. .. me ajudar, de alguma forma — Sarah falava como uma criança.

— Mas se já lhe disse que você não precisa casar com ninguém, a menos que o deseje!

Tendo ainda no rosto a mesma expressão infantil, Sarah fez uma pergunta surpreendente:

— Mas gostaria de se ver livre de mim, não é mesmo?

— Sarah! — exclamou Ann, asperamente. — Como pode pensar uma coisa dessas? É claro que eu não quero me livrar de você, que idéia!

— Sinto muito, mamãe. Falei por falar. Só que tudo está tão diferente! Quero dizer, nós costumávamos nos divertir tanto juntas, e agora parece que tudo que eu faço deixa você irritada.

— Realmente, acho que fico um pouco nervosa às vezes — disse Ann, com frieza. — Mas afinal, você também é meio temperamental, não é mesmo, Sarah?

— Oh, talvez a culpa seja toda minha — continuou Sarah, pensativa. — Quase todas as minhas amigas estão casadas: Pam, Betty, Susan. Joan ainda não casou mas só pensa em política. — Fez nova pausa antes de prosseguir. — Seria divertido casar com Lawrence, poder comprar tudo que eu quisesse: roupas, jóias, tudo.

Ann comentou secamente:

— Sim, acho mesmo que precisa casar com um homem que tenha dinheiro, Sarah. Seus gostos são decididamente caros. Veja a sua mesada, sempre adiantada!

— Eu detestaria ser pobre — concordou Sarah.

Ann respirou fundo: Sentia-se hipócrita, artificial, sem saber exatamente o que deveria falar:

— Querida, não sei realmente o que dizer. Na verdade, acho que este é um assunto que só você poderá resolver. Seria um erro tentar convencê-la a aceitar, ou aconselhá-la a recusar. Você é que deve decidir sozinha. Você entende, não é mesmo?

Sarah retrucou rapidamente:

— É claro, querida... será que não a estou amolando? Não quero deixá-la preocupada. Só queria que me dissesse uma coisa: o que acha de Lawrence?

— Para ser franca, não tenho opinião sobre ele, nem contra, nem a favor...

— Às vezes ele me assusta um pouco, sabe?

— Querida! — riu Ann. — Não acha que isto é uma bobagem?

— É, pode ser...

Sarah começou a rasgar a carta de Gerry, primeiro em tiras, logo em pedaços cada vez menores, que atirava para o ar. Ficou olhando, enquanto flutuavam e caíam como flocos de neve.

— Pobre Gerry — disse. — E lançando um rápido olhar para Ann, continuou: — Mamãe, você não se importa mesmo com o que me acontece, não é?

— Sarah! Francamente!

— Oh, lamento estar dizendo essas coisas, mas é que, não sei por que, ando me sentindo tão estranha ultimamente! É como se estivesse numa tempestade de neve, sem achar o caminho de casa... É uma sensação horrível. Tudo está tão diferente, as pessoas mudaram tanto!... você mudou, Mamãe...

— Ora, que idéia mais absurda! Meu bem, eu tenho que ir agora.

— É, acho que tem. Essa reunião é assim tão importante?

— Bem, é que tenho muita vontade de conhecer os novos murais que Kit Elliot mandou fazer...

— Ah, entendo — Sarah calou-se um momento e logo continuou. — Sabe, Mamãe, talvez eu goste mais do Lawrence do que imagino.

— Isso não me surpreenderia. Mas não tenha pressa. Adeus, meu bem. Tenho que voar!

A porta bateu atrás dela.

Logo Edith saiu da cozinha e entrou na sala para retirar os copos.

Sarah tinha colocado um disco na vitrola, e ouvia com melancólico prazer a voz de Paul Robeson cantando Sometimes I feel like a motherless child.

— De que músicas a senhorita gosta! — comentou Edith.— Essa então me dá arrepios!

— Pois eu acho linda.

— Gosto não se discute — resmungou Edith, zangada, enquanto observava: — Por que será que as pessoas não usam os cinzeiros, em vez de espalhar cinzas por todo lado?

— Dizem que é ótimo para o tapete...

— Esta desculpa é velha e continua sendo tão falsa hoje quanto sempre foi. E por que jogou esses pedacinhos de papel no chão, se há uma cesta de papéis lá perto da parede?

— Perdão, Edith, foi sem pensar. Estava rasgando o meu passado, foi um gesto...

— Rasgando o passado, ora veja. . . — resmungou Edith, mas ao olhar para Sarah perguntou delicadamente: — Alguma coisa errada, minha linda?

— Nada. Estou pensando em casar, Edith.

— Não há pressa. Por que não espera pelo Homem Certo?

— Acho que não faz muita diferença com quem a gente casa, Edith, não vai dar certo, seja com quem for...

— Ora, não diga essas bobagens! E por que tudo isso afinal?

— Quero ir embora daqui — respondeu Sarah, com veemência.

— E posso saber o que há de errado na sua casa? — quis saber Edith.

— Não sei. Parece que tudo mudou. Por que tudo está tão diferente, Edith?

— Acho que está crescendo, sabe? — respondeu Edith docemente.

— Talvez.

— Será que é isso?

Edith afastou-se com a bandeja cheia de copos, mas logo pousou-a sobre uma mesa e voltou para junto de Sarah. Passou a mão carinhosamente pelos cabe-los negros da moça, como há muitos anos, quando ela era ainda uma criança.

— Pronto, pronto, meu bem, vai passar...

Com súbita mudança de ânimo, Sarah ergueu-se de um salto, enlaçou Edith pela cintura e começou a dançar pela sala, cheia de energia.

— Vou casar, Edith! Não é ótimo? Vou casar com o Sr. Steene. Ele nada em dinheiro e é terrivelmente atraente! Não sou mesmo uma moça de sorte?

Edith soltou-se, resmungando:

— Primeiro uma coisa, depois outra. O que está acontecendo, Srta. Sarah?

— Acho que estou meio louca. Você irá ao casamento, Edith, vou comprar um vestido lindo para você... de veludo escarlate, se quiser!

— Pensa que um casamento é alguma cerimônia de coroação?

Sarah colocou a bandeja nas mãos de Edith e empurrou-a em direção à porta da cozinha.

— Vá embora, velhinha querida, não comece a resmungar.

Edith saiu, balançando a cabeça com ar de dúvida.

Sarah voltou lentamente para a sala. De repente, jogou-se sobre a grande poltrona e começou a chorar... e chorar...

O disco ia chegando ao fim — a voz melancólica e profunda repetia mais uma vez: 1 “Sometimes I feel like a motherless child — a long way from home...”

 

1 N. do T.: “Às vezes me sinto como uma criança sem mãe muito longe de casa...”