A Filha

Agatha Christie · Capítulo 15 de 18

Páginas do PDF

A Filha

Capítulo II · O Mordomo que abriu a porta do…

 

1

 

O MORDOMO que abriu a porta do n.° 18 da Pauncefoot Square olhou desdenhosamente o grosseiro terno de confecção que Gerry usava.

Mas quando seus olhos encontraram os do visitante, mudou de atitude. Veria se a Sra. Steene estava em casa, falou.

Pouco depois Gerry foi conduzido a uma sala grande e escura, cheia de flores exóticas e brocados claros onde, passados alguns minutos, Sarah Steene entrou com um sorriso de boas-vindas.

— Gerry! Que bom ter vindo! Na outra noite acabamos nos separando. Quer beber alguma coisa?

Preparou-lhe uma bebida e serviu-se também, antes de sentar num pufe baixo, junto à lareira. A luz difusa da sala mal deixava ver o seu rosto, e usava um perfume caro, que ele não lembrava ter sentido nela antes.

— E então, Gerry? — falou, sorrindo.

Ele retribuiu o sorriso.

— E então, Sarah? — e tocando com o dedo o ombro dela. — Você está praticamente usando o zoológico inteiro, não é mesmo?

Ela vestia um caríssimo trapinho de gaze debruado com fartas peles, macias e claras.

— É ótimo — assegurou ela.

— Imagino. Você está com uma aparência maravilhosamente cara.

— Oh, e sou mesmo. Mas conte-me as suas novidades, Gerry. Você saiu da África do Sul e foi para o Quênia. Desde então, não soube mais nenhuma no-tícia sua.

— Oh, bem. Não tive muita sorte.

— Naturalmente.

A observação foi rápida e Gerry quis saber:

— Naturalmente? O que quer dizer?

— Bem, seu problema foi sempre a falta de sorte, não é mesmo?

Por um breve instante ele viu a antiga Sarah, provocante, mordaz. Desaparecera a bela mulher de expressão dura, a estranha exótica: era Sarah, a sua Sarah, que o atacava sem piedade. E, respondendo à maneira antiga, ele se queixou:

— Foi uma coisa atrás da outra: primeiro as colheitas fracassaram... não por minha culpa. Depois, o gado pegou uma doença...

— Sei... A mesma velha e triste história de sempre.

— E além disso, eu não tinha capital. Se ao menos tivesse o capital...

— Eu sei. . . eu sei. . .

— Bem, que diabo, Sarah, não fui o culpado de tudo o que me aconteceu.

— Você... você nunca é culpado. E por que voltou à Inglaterra?

— Minha tia morreu...

— Tia Lena? — perguntou Sarah, que conhecia bem todos os parentes de Gerry.

— Ela mesma. Tio Luke morreu há dois anos sem me deixar um centavo, o velho sovina...

— Sábio tio Luke...

— Mas tia Lena. . .

— Tia Lena lhe deixou alguma coisa?

— Sim. Dez mil libras.

— Hum — ponderou Sarah. — Nada mau, mesmo nos dias de hoje...

— Vou entrar num negócio com um sujeito que tem uma fazenda no Canadá.

— Que tipo de sujeito? Essa foi sempre a questão. E a garagem que você montou com outro sujeito de pois que saiu da África do Sul?

— Oh, aquilo deu em nada. Fomos muito bem no início, mas depois que aumentamos um pouco o negócio veio uma baixa de preços e logo o movimento caiu.

— Não precisa me contar os detalhes. Como essa história é conhecida! É a sua história...

— Sim — disse Gerry; e acrescentou, com simplicidade: — Você tem razão, creio que não sou muito bom mesmo. Ainda acho que tive azar... mas provavelmente também banquei o bobo. Só que desta vez vai ser diferente...

Sarah foi mordaz:

— Não sei. . .

— Ora vamos, Sarah! Não acha que aprendi a lição?

— Não creio — disse Sarah. — Ninguém aprende; nunca. Vivemos repetindo sempre os mesmos erros. Acho que você precisaria ter um agente... como as estrelas de cinema, as atrizes. Alguém que fosse prático e que não o deixasse ficar otimista demais na hora errada.

— Talvez você tenha razão nesse ponto. Mas realmente, desta vez tudo vai dar certo, Sarah. Vou ser cuidadoso como o diabo.

Houve uma pausa, e logo Gerry continuou:

— Fui visitar sua mãe ontem.

— Foi? Que gentileza a sua! Como estava ela? Correndo sem parar, como sempre?

Gerry respondeu lentamente.

— Sua mãe mudou muito.

— Acha?

— Sim, acho.

— Em que ela mudou?

— Não sei bem como explicar — hesitou. — Está terrivelmente nervosa, por exemplo.

— Quem não está, hoje em dia? — perguntou Sarah, despreocupadamente.

— Mas ela não era assim. Foi sempre tão tranqüila, tão. . . tão doce...

— Isso parece até letra de hino!

— Você sabe muito bem o que estou querendo dizer... e ela mudou mesmo. Os cabelos, as roupas, tudo...

— Está mais animada, apenas. E por que não havia de estar, pobre querida? Afinal, deve ser horrível envelhecer. E de qualquer forma, as pessoas mudam. — Parou um minuto antes de acrescentar, com um toque de desafio na voz: — Espero que eu também tenha mudado. . .

— Não de verdade.

Sarah corou.

— Apesar das peles — continuou Gerry deliberadamente, tocando outra vez a pele branca e cara — e da coleção de jóias de Wolwoorth — acrescentou pondo as mãos no chuveiro de diamantes no ombro dela... — e do cenário luxuoso, você continua quase a mesma Sarah. A minha Sarah.

Sarah afastou-se, inquieta, e disse num tom alegre:

— E você continua o mesmo Gerry de sempre. Quando vai para o Canadá?

— Breve, logo que resolva meus assuntos com o advogado. — Ergueu-se. — Bem, tenho que ir. Não quer sair comigo um dia desses, Sarah?

— Não, venha você jantar conosco. Ou faremos uma festa. Você tem que conhecer Larry.

— Eu o conheci na outra noite, lembra?

— Só por um momento.

— Não creio que tenha tempo para festas. Venha dar um passeio comigo qualquer manhã destas, Sarah.

— Querido, para ser franca sou incapaz de fazer qualquer coisa de manhã: é a pior hora do dia.

— Ótima para quem quer raciocinar friamente.

— E quem quer raciocinar friamente?

— Acho que nós dois queremos. Venha, Sarah... duas voltas pelo Regent Park, amanhã de manhã. Encontro você no Hanover Gate.

— Você tem mesmo idéias incríveis, Gerry. E que roupa medonha está usando!

— É uma boa roupa, resistente.

— Pode ser que seja, mas o corte é horrível!

— Sempre a mesma preocupação esnobe com roupas! Amanhã, meio-dia, Hanover Gate. E não beba muito hoje à noite para não estar de ressaca amanhã.

— Estarei enganada, ou você está querendo insinuar que eu bebi demais ontem?

— E não bebeu?

— Era uma festa horrível. E uma bebida ajuda a gente a ir até o fim.

— Amanhã. Meio-dia. Hanover Gate.

 

2

 

— Bem, aqui estou — disse Sarah, num tom de desafio.

Gerry olhou-a de alto a baixo. Estava linda — muito mais bela agora do que tinha sido quando garota. Notou a cara simplicidade das roupas que vestia, o grande cabuchão de esmeraldas no seu dedo e pensou: “Devo estar louco” — mas mesmo assim, não recuou. — Venha — disse — vamos caminhar.

E caminharam. Contornaram o lago, atravessaram o jardim das rosas e finalmente pararam para sentar, num lugar pouco freqüentado do parque. Fazia demasiado frio para que houvesse muita gente sentada por perto.

Gerry respirou fundo:

— Agora — falou, — vamos ao que interessa. Sarah, quer vir comigo para o Canadá?

Sarah encarou-o, surpresa:

— O que está querendo dizer?

— Exatamente o que disse.

— Quer dizer... uma viagem? — perguntou Sarah, hesitante.

Gerry sorriu:

— Quero dizer para sempre. Deixe seu marido e venha comigo.

Sarah deu uma risada.

— Gerry, você enlouqueceu? Ora, nós não nos vemos há quase quatro anos e . . .

— Isso tem alguma importância?

— Não — ela hesitou. — Não, creio que não...

— Quatro anos, cinco, dez, vinte, não creio que fizesse nenhuma diferença. Nós pertencemos um ao outro. Eu sempre senti isso. Ainda sinto. Você não sente também?

— Sim, de certo modo — admitiu Sarah. — Mesmo assim, o que sugere é absolutamente impossível.

— Não vejo nada de tão impossível no que falei. Se você estivesse casada com um sujeito decente e vivesse feliz com ele, eu nem sonharia em me intrometer. Mas você não é feliz, é, Sarah? — completou baixinho.

— Acho que sou tão feliz quanto a maior parte das pessoas — respondeu Sarah corajosamente.

— Pois eu acho que você é horrivelmente infeliz.

— Se eu sou... a culpa é toda minha. Afinal, quando cometemos um erro, devemos aceitar as conseqüências.

— Mas Lawrence Steene não se destaca especialmente por aceitar as conseqüências dos seus próprios erros, não é?

— Isto é uma maldade!

— Não, não é. É a verdade.

— De qualquer modo, Gerry, o que sugere é uma loucura. Uma idéia maluca!

— Porque eu não fiquei rondando à sua volta, tentando convencê-la aos pouquinhos? Não há necessidade disso. Como eu já disse, eu e você pertencemos um ao outro... e você sabe disso, Sarah.

Ela suspirou:

— Admito que em outros tempos gostei muito de você.

— É muito mais que isso, mocinha.

Ela voltou-se para olhá-lo e deixou de fingir:

— É mesmo? Você tem certeza?

— Tenho.

Ambos ficaram em silêncio, até que Gerry falou baixinho:

— Virá comigo, Sarah?

Ela suspirou outra vez e sentou-se, aconchegando as peles ao seu redor. Uma aragem fria agitava as árvores.

— Sinto muito, Gerry, mas a resposta é não.

— Por quê?

— Porque não posso... só isso.

— Todos os dias há gente abandonando os maridos.

— Não eu.

— Você está querendo me dizer que ama Lawrence Steene?

Sarah balançou a cabeça.

— Não, eu não o amo. Nunca amei. Mas ele me atraía. Ele tem... bem, ele sabe como conquistar uma mulher. — Estremeceu levemente, com repugnância. — É muito raro a gente pensar que alguém seja realmente... bem... perverso. Mas se eu tivesse que pensar isso de alguém, seria de Lawrence. Porque ele não faz as coisas num impulso, por ser incapaz de se conter. Não: ele apenas gosta de fazer experiências com as coisas e as pessoas.

— E você acha que precisa ter qualquer escrúpulo de abandonar um homem desses?

Sarah ficou um instante em silêncio antes de continuar baixinho:

— Não é por escrúpulo... Oh! — ela se interrompeu, impaciente — é horrível ver como sempre preferimos apresentar primeiro as nossas razões mais nobres. Muito bem, Gerry, é melhor ficar sabendo como eu realmente sou. Vivendo com Lawrence, eu me habituei a certas coisas e não quero desistir delas: roupas, peles, dinheiro, restaurantes caros, festas, criados, carros, um iate... Tudo fácil e cheio de luxo. Estou mergulhada nele e você quer que eu largue tudo para dar duro numa fazenda perdida no fim do mundo! Não posso... e não irei. Eu perdi a coragem, Gerry. O dinheiro e o luxo me corromperam.

— Então já é tempo de mudar de vida — falou Gerry, com frieza.

— Oh, Gerry — ela não sabia se devia rir ou chorar. — Você é tão positivo!

— Tenho os pés na terra, é verdade.

— Sim, mas não pode compreender nem a metade da história.

— Não?

— Não é só o dinheiro. Há outras coisas. Oh, será que não entende? Eu me tornei uma pessoa horrível, Gerry. As festas que oferecemos... os lugares que freqüentamos...

Parou, vermelha.

— Muito bem — disse Gerry, calmamente. — Você é uma depravada. Mais alguma coisa?

— Sim: há certas coisas... com as quais eu me habituei e não poderia viver sem elas.

— Coisas? — segurou bruscamente o queixo de Sarah, e voltou o rosto dela para o seu. — Ouvi boatos. Você quer dizer... drogas?

Sarah concordou com a cabeça:

— Elas provocam sensações maravilhosas.

— Ouça — a voz de Gerry era dura, incisiva. — Você vai vir comigo e vai parar de tomar essas coisas.

— E se eu não puder?

— Deixe comigo — disse Gerry sombriamente.

Os ombros de Sarah relaxaram e ela suspirou, inclinando-se para ele. Mas Gerry afastou-se.

— Não — disse ele, — não vou beijar você.

— Entendo. Tenho que decidir... a sangue-frio?

— Isso mesmo.

— Como você é engraçado, Gerry!

Permaneceram em silêncio durante alguns mo mentos, até que Gerry falou, com esforço:

— Sei muito bem que não sou grande coisa, que tive fracassos demais para que possa ter muita... muita confiança em mim. Mas acredito realmente, juro que acredito, que tudo poderia dar certo se eu tivesse você a meu lado. Você é tão inteligente, Sarah, e sabe como animar um sujeito quando ele começa a perder o entusiasmo.

— Pareço ser uma criatura adorável!

Gerry insistiu, teimoso:

— Sei que posso vencer! Vai ser uma vida horrível para você, com muito trabalho e nenhum conforto. Nem sei como tenho a ousadia de convencê-la a vir. Mas será real, Sarah... Será... bem... será viver...

— Viver... real... — Sarah repetiu baixinho para si mesma.

— Você virá, Sarah?

— Não sei.

— Sarah... querida. . .

— Não, Gerry... não diga mais nada. Você já disse tudo... tudo o que precisava ser dito. Agora é comigo: tenho que pensar. Eu o avisarei.

— Quando?

— Breve...

Capítulo III

 

ORA, que bela surpresa!

Edith franziu o rosto azedo num sorriso, enquanto abria a porta do apartamento para Sarah.

— Alô Edith, minha jóia! Mamãe está?

— Deve estar chegando. Alegra-me que tenha vindo, vai animá-la um pouco.

— E ela precisa ser animada? Parece estar sempre tão alegre!

— Há qualquer coisa muito errada com sua mãe. Estou preocupada com ela — Edith seguiu Sarah até a sala. — Não consegue ficar nem dois minutos parada, e se eu falo qualquer coisa, só falta me cortar a cabeça. Não duvido que seja orgânico.

— Não seja agourenta, Edith. Para você, todo mundo está sempre às portas da morte...

— Pois eu não diria isso da senhora: está linda... Tch... e continua a mesma, jogando suas lindas peles pelo chão. São lindas, devem ter custado rios de dinheiro.

— Custaram mesmo uma fortuna.

— Mais bonitas do que qualquer uma das que a patroa já teve. A senhora tem mesmo um monte de coisas lindas!

— E mereço. Quando se vende a alma, deve-se ao menos vendê-la por bom preço.

— Não diga uma coisa dessas — censurou Edith. — O seu mal é que, ou está lá em cima, ou cá em baixo. Eu me lembro como se fosse ontem, quando me contou que estava querendo casar com o Sr. Steene e rodopiou comigo pela sala, dançando feito louca. “Eu vou me casar... vou me casar”, dizia.

— Não... pare, Edith. Não suporto ouvi-la — disse Sarah, vivamente.

Imediatamente o rosto de Edith assumiu uma expressão atenta e sagaz.

— Pronto, pronto, queridinha — disse suavemente. — Dizem que os dois primeiros anos são sempre os piores. Se puder agüentá-los, estará salva.

— Não se pode dizer que seja uma visão otimista do casamento.

Edith continuou, com ar de censura:

— Mesmo o melhor casamento é um mau negócio, mas acho que o mundo não poderia continuar sem eles. Perdoe-me a liberdade: será que não há novidades a caminho?

— Não, não há, Edith.

— Creia que eu sinto muito. Mas parece estar meio nervosa e eu fiquei pensando se não seria esse o motivo. As moças recém-casadas se comportam às vezes de um jeito tão estranho! A minha irmã mais velha, quando estava esperando, foi um dia ao armazém e de repente lhe veio o desejo de comer uma pêra grande e suculenta, como as que viu numa caixa. Apanhou uma delas e deu uma dentada ali mesmo, na hora. “Ei, o que está fazendo?” falou o moço que aten dia. Mas o dono do armazém, que era pai de família e entendia bem como eram essas coisas, foi logo dizen do: “Pode deixar que eu atendo esta senhora, meu filho” — e nem quis cobrar a pêra. Foi muito compreensivo; e, com treze filhos, tinha que ser mesmo!

— Que falta de sorte, ter treze filhos — comentou Sarah. — Que família maravilhosa você tem, Edith. Desde criança ouço falar nela.

— É verdade, quantas histórias da minha família eu já lhe contei. Também, a senhora era uma coisinha tão séria e prestava tanta atenção a tudo. E isto me faz lembrar: aquele seu namorado esteve aqui outro dia. O Sr. Lloyd. Já o viu?

— Sim, já estive com ele.

— Parece muito mais velho, mas com um bronzeado lindo. Deve ser por ter vivido nesses lugares estrangeiros. Ele teve sorte?

— Não muita.

— Ah, que pena. O mal dele é que não tem persistência.

— Acho que é isso mesmo. Será que Mamãe vai chegar logo?

— Oh, sim, Srta. Sarah. Ela vai jantar fora e terá que vir em casa para trocar de roupa. E se quer saber a minha opinião, é uma pena que ela não fique mais noites sossegada em casa. Ela sai demais.

— Acho que deve gostar disso.

— Essa correria toda não lhe faz bem — fungou Edith. — E depois, sempre foi uma senhora tranqüila.

Sarah voltou o rosto abruptamente, como se as palavras de Edith a tivessem feito lembrar alguma coisa.

— Uma senhora tranqüila — repetiu, pensativa. — Sim, mamãe era tranqüila, Gerry também disse a mesma coisa. Engraçado como ela mudou completamente nestes três últimos anos. Você não acha que ela mudou, Edith?

— Às vezes chego a pensar que nem é a mesma pessoa...

— Ela não era assim... Era. . . — Sarah parou, pensativa, depois continuou: — Você acha que as mães continuam a gostar sempre dos filhos, Edith?

— É claro que sim, Srta. Sarah! Não seria normal que não gostassem!

— Mas será que é mesmo normal continuar a se importar com os filhos, mesmo depois que eles crescem e saem pelo mundo? Os animais não se importam.

Edith estava escandalizada, e falou rispidamente:

— Orar animais! Somos homens e mulheres cristãos. Deixe de dizer bobagens, Srta. Sarah, e lembre-se do ditado: “Um filho é um filho até arranjar uma companheira, mas uma filha é uma filha pela vida inteira.”

Sarah riu:

— Conheço milhões de mães que odeiam as filhas como se elas fossem veneno, e filhas que não querem saber das mães.

— Bem, só posso dizer que não acho isso nada bonito.

— Mas muito, muito mais saudável, Edith... ou pelo menos é o que dizem os psicólogos.

— Pois eles devem ter umas mentes muito sujas.

Sarah continuou, pensativa:

— Sempre gostei muito de mamãe... como pessoa, não só como mãe.

— E sua mãe também a ama muito, Srta. Sarah.

Sarah não respondeu durante alguns segundos e então falou:

— Não sei. ..

— Se visse como ela ficou quando a senhora teve pneumonia, aos quatorze anos...

— Ah, sim, naquele tempo. Mas agora...

Ouviram o ruído da chave na fechadura:

— Aí está ela — disse Edith.

Ann chegou sem fôlego, arrancando da cabeça um alegre chapeuzinho de penas multicores.

— Sarah? Que surpresa agradável! Oh meu Deus, essa coisa estava machucando a minha cabeça. Que horas são? Estou horrivelmente atrasada. Vou encontrar os Ladesburys às oito no Chaliano’s. Venha até o meu quarto enquanto eu troco de roupa.

Obediente, Sarah seguiu-a pelo corredor, até o quarto.

— Como vai Lawrence? — perguntou Ann.

— Muito bem.

— Ótimo. Eu não o vejo há séculos... e você também. Precisamos nos reunir qualquer dia desses. Dizem que a nova revista no Coronation é bastante boa...

— Mamãe, eu quero falar com você.

— Sim, querida?

— Será que não pode parar de mexer no rosto e me escutar?

Ann pareceu surpresa.

— Você parece estar muito nervosa, Sarah.

— Eu quero falar com você sobre um assunto sério: é Gerry...

— Ah — Ann baixou as mãos e pareceu refletir. — Gerry?

— Ele quer que eu deixe Lawrence e vá para o Canadá com ele — disse Sarah, com simplicidade.

— Que absurdo! Pobre Gerry, ele é realmente muito estúpido.

Sarah retrucou vivamente.

— Não há nada de errado com Gerry!

— Sei que sempre o defendeu, querida — disse Ann. — Mas falando sério, agora que tornou a vê-lo, não acha que já o deixou para trás?

— Você não está me ajudando muito, mamãe. — A voz de Sarah tremia. — Quero falar a sério.

Ann foi ríspida:

— Não me diga que está levando a sério essa tolice ridícula!

— Estou sim.

— Então também está sendo estúpida, Sarah — falou Ann, raivosa.

— Sempre gostei de Gerry e ele sempre gostou de mim.

— Minha criança querida! — disse Ann, sorrindo.

— Eu nunca devia ter casado com Lawrence. Foi o maior erro da minha vida.

— Vocês vão se acomodar — disse Ann, em tom consolador.

Sarah levantou-se e começou a caminhar de um lado para outro, inquieta.

— Não, nunca. Minha vida é um verdadeiro inferno.

— Não exagere, Sarah — a voz de Ann era amarga.

— Ele é um monstro, um monstro desumano!

— Ele gosta de você, Sarah — censurou Ann.

— Por que fui casar com ele? Por quê? Na verdade eu nunca quis casar com ele — de repente voltou-se contra Ann. — Se não fosse por você, eu não teria casado.

— Por mim?

Ann ficou vermelha de raiva.

— Eu não tive nada a ver com isso!

— Teve sim! Teve!

— Naquela ocasião eu lhe disse que você devia decidir sozinha.

— Você me convenceu de que tudo iria dar certo.

— Que acusação maldosa, Sarah! Eu até avisei que ele tinha péssima reputação e que você estava correndo um risco...

— Eu sei. Mas foi o seu jeito de dizer tudo isso, como se não tivesse importância. Oh, foi toda a nossa conversa! Não interessa, saber o que você disse; as palavras podiam ser apropriadas, mas no fundo você queria que eu casasse com ele. Queria, mamãe! Sei que era isso o que queria. Por quê? Para se ver livre de mim?

Ann encarou a filha, furiosa:

— Francamente Sarah, não entendo estas suas acusações!

Sarah aproximou-se da mãe. Seus olhos, enormes e negros, no rosto pálido, olhavam fixamente o rosto de Ann, como se esperassem encontrar nele a verdade.

— Sei que o que estou dizendo é verdade. Você queria que eu casasse com ele. E agora que nada deu certo, agora que eu sou horrivelmente infeliz, você nem liga. Às vezes cheguei a pensar que ficava contente...

— Sarah!

— Sim, contente! — Ann mexia-se inquieta sob aquele olhar que ainda a procurava. — Você está contente. .. Quer que eu seja infeliz...

Ann afastou-se bruscamente, trêmula, e caminhou até a porta. Sarah foi atrás dela.

— Por quê? Por que, Mamãe?

— Você não sabe o que está dizendo — respondeu Ann, forçando as palavras através dos lábios crispados.

— Quero saber por que desejava que eu fosse infeliz — insistiu Sarah.

— Nunca desejei isso. Não seja ridícula!

— Mamãe... — timidamente, como uma criança, Sarah tocou o braço da mãe. — Mamãe, eu sou sua filha... você devia gostar de mim.

— Mas é claro que gosto. O que mais?

— Não, não creio que goste. Acho que há muito tempo não gosta mais de mim, Mamãe. Você se afastou de mim, foi para longe... para algum lugar onde eu não consigo alcançá-la.

Ann fez um esforço para controlar-se antes de dizer, num tom de voz desapaixonado:

— Por mais que gostemos dos filhos, chega um momento em que eles devem aprender a ser independentes. As mães não podem ser possessivas.

— Não, é claro que não. Mas deviam estar prontas a ajudar nos momentos difíceis.

— Mas o que quer que eu faça, Sarah?

— Quero que me diga se devo partir com Gerald ou ficar com Lawrence.

— Fique com seu marido, é claro.

— Você parece muito certa do que diz.

— Minha querida, que outra resposta se poderia esperar de uma mulher da minha geração? Fui educada para respeitar certas normas de comportamento.

— É moralmente certo ficar com o marido e moralmente errado partir com o amante... é isso?

— Exatamente. É claro que os seus amigos moderninhos provavelmente teriam opinião bem diferente, mas foi a mim que você perguntou.

Sarah suspirou e sacudiu a cabeça:

— Não é assim tão fácil como você faz parecer. É tudo muito confuso. Na verdade é o meu eu mais sórdido que gostaria de ficar com Lawrence. É aquela parte de mim que tem medo de enfrentar a pobreza, as dificuldades; que gosta da vida fácil, tem gostos depravados, é uma escrava das sensações. O meu outro eu, que quer partir com Gerry, não é apenas uma mulherzinha devassa e apaixonada. . . é a parte de mim que acredita em Gerry e quer ajudá-lo. Entenda, Mamãe: eu tenho exatamente aquilo que falta ao Gerry. Chega um momento em que ele perde o ânimo e só é capaz de parar e ter pena de si mesmo; é exatamente neste momento que precisa de mim para lhe dar um empurrão. Gerry poderia ser uma pessoa realmente formidável... tem tudo para ser. Precisa ape nas de alguém que ria dele, e o incentive e... oh. . . ele precisa de mim..

Parou e lançou à mãe um olhar de súplica, mas o rosto de Ann manteve-se duro como pedra.

— Não vou fingir que conseguiu me impressionar, Sarah. Você quis casar com Lawrence, não importa o que diga agora, e devia ficar com ele.

— Talvez...

Ann fez valer sua ascendência sobre Sarah:

— E sabe, querida — continuou, num tom carinhoso. — Não creio que tenha sido feita para levar uma vida dura. Dizer é fácil, mas tenho certeza de que você iria odiar quando tivesse que enfrentá-la, principalmente se — e aqui pensou que tivesse um forte argumento a seu favor — principalmente se percebes se que estava apenas criando mais dificuldades para Gerry, em vez de ajudá-lo.

Mas percebeu logo que dera um passo em falso. O rosto de Sarah tornou-se duro. Ela caminhou até a penteadeira, apanhou um cigarro e acendeu-o, antes de dizer despreocupadamente:

— Você é o próprio advogado do diabo, não é, Mamãe?

— O que quer dizer? — perguntou Ann surpresa.

Sarah postou-se diante da mãe, o rosto duro e cheio de suspeita:

— Qual é a verdadeira razão de não querer que eu vá embora com Gerry, Mamãe?

— Já lhe disse...

— A verdadeira razão. . . — insistiu Sarah, os olhos mergulhados nos de Ann. — Você tem medo de que eu possa ser feliz com ele, é isso?

— O meu medo é que possa ser muito infeliz!

— Não, não é — Sarah lançou as palavras, cheias de amargura. — Se eu fosse infeliz, você não se importaria. É a minha felicidade que você não deseja. Você não gosta de mim. É mais do que isso: por alguma razão qualquer que eu desconheço, você me odeia... Não é verdade? Você me odeia, me odeia como o diabo.

— Sarah! Você enlouqueceu?

— Não, Mamãe, não estou louca. Finalmente começo a descobrir a verdade: há muito tempo você me odeia. . . há anos. Por quê?

— Não é verdade!

— É verdade sim. Mas por quê? Não é ciúme de mim, da minha mocidade... sei que algumas mães têm esse problema com as filhas, mas você não, você sempre foi boa para mim. Por que me odeia, Mamãe? Eu preciso saber!

— Mas eu não a odeio!

— Oh, por favor! Pare de mentir! — gritou Sarah. — Fale a verdade! O que foi que eu fiz para que me odiasse assim? Eu sempre a adorei, sempre tentei ser boa para você, fazer coisas...

Ann voltou-se e respondeu, com uma voz cheia de amargura:

— Você fala como se só você tivesse feito sacrifícios!

Sarah encarou-a, confusa:

— Sacrifícios? Que sacrifícios?

A voz de Ann tremia; ela apertou as mãos, tentando controlar-se.

— Eu sacrifiquei a minha vida por você. . . desisti de tudo que amava por sua causa, e você nem ao menos se lembra!

Ainda surpresa, Sarah insistiu:

— Nem ao menos sei do que está falando.

— Não, é claro que não sabe. Nem sequer lembrava o nome dele. “Richard Cauldfield” — você perguntou — “quem é?”

Os olhos de Sarah deixaram transparecer que começava a entender o que ouvia, e sentiu-se tomada de leve desalento:

— Richard Cauldfield?

— Sim, Richard Cauldfield — Ann agora era francamente acusadora. — Você não gostava dele: mas eu o amava! Queria casar com ele! E, por sua causa, tive que desistir de tudo.

— Mamãe. . . — Sarah estava horrorizada.

— Eu tinha direito à felicidade — continuou Ann, num desafio.

— Eu não sabia o quanto você gostava dele — gaguejou Sarah.

— Não sabia, nem queria saber: fechava os olhos para não ver e fez tudo o que pôde para impedir o casamento. É ou não é verdade?

— Sim, é verdade... — Sarah voltou ao passado. Sentia-se quase doente ao lembrar a sua petulância infantil. — Eu. . . eu pensava que ele não seria capaz de fazê-la feliz.

— E que direito tinha de pensar por outra pessoa? — indagou Ann arrebatadamente.

Gerry também dissera isto: tinha ficado preocupado ao ver o que ela estava tentando fazer. E ela só fora capaz de sentir-se satisfeita consigo mesma, triunfante com a vitória sobre o odiado Cauliflower. Tudo aquilo fora apenas ciúme, ciúme grosseiro e infantil, podia ver agora.

E por causa dele, sua mãe tinha sofrido, tinha se transformado aos poucos nesta mulher nervosa e infeliz que a confrontava agora com acusações contra as quais ela não tinha resposta.

Podia apenas dizer baixinho:

— Eu não sabia... Oh, Mamãe, eu não sabia...

Ann estava outra vez revivendo o passado:

— Nós dois podíamos ter sido felizes juntos. Ele era um homem solitário. A primeira mulher tinha morrido junto com o bebê; isto causou-lhe um grande choque. Sei que tinha defeito, uma certa tendência para se tornar arrogante e dominador... o tipo da coisa que os jovens não deixam passar... mas no fundo era um homem bondoso e simples. Nós teríamos envelhecido juntos, felizes. E em vez disso eu o magoei muito: mandei-o embora. Mandei-o para um hotel na praia, onde ele conheceu aquela harpiazinha cretina que nem ao menos gosta dele.

Sarah afastou-se, ferida por cada uma das palavras que ouvira, mas recuperou as forças para defender-se :

— Mas por que não casou com ele, se o queria tanto?

Ann atacou-a, asperamente:

— E não lembra as eternas cenas, as discussões? Vocês dois eram como cão e gato. Você o provocava deliberadamente, como parte do seu plano.

(Sim, era verdade, aquelas brigas eram mesmo parte do plano.)

— Eu não podia mais suportar aquilo, dia após dia. Então fui obrigada a enfrentar uma opção: tive que escolher; foi assim que Richard colocou o problema... escolher entre você e ele. Você era minha filha, minha própria carne e sangue. Escolhi você.

— E desde então, me odiou — disse Sarah, entendendo afinal.

Tudo estava bem claro agora. Juntou suas peles e afastou-se em direção à porta:

— Bem, pelo menos agora sabemos onde estamos.

A voz dela era fria e calma. Vendo as ruínas da vida de Ann, passara a entender a ruína que era a sua própria vida.

Voltou-se e falou para a mulher de rosto devastado, que não negara a sua última acusação:

— Você me odeia por ter estragado a sua vida, Mamãe. Pois bem, eu a odeio por ter destruído a minha.

Ann retrucou vivamente.

— Não tive nada a ver com a sua vida: foi você que escolheu.

— Oh, não, não fui eu que escolhi... não seja hipócrita, Mamãe. Eu a procurei desejando que me ajudasse a não casar com Lawrence. Você sabia muito bem como eu me sentia atraída por ele, e como desejava me libertar daquela atração. E foi muito esperta, soube exatamente o que devia dizer e fazer.

— Tolice! Para que haveria de querer que casasse com Lawrence?

— Creio que... porque sabia que eu não seria feliz. Você era infeliz e queria que eu também fosse. Vamos, Mamãe, ponha as cartas na mesa. Confesse: não sente um certo prazer ao saber que o meu casamento é um fracasso?

Num súbito impulso de paixão Ann exclamou:

— Sim, às vezes penso que você merece!

Mãe e filha se olharam, implacáveis. Logo Sarah riu, um riso áspero e desagradável.

— Bem, agora sabemos! Adeus Mamãe, querida Mamãe. ..

Saiu pelo corredor e Ann ouviu a porta do apartamento batendo com uma pancada forte e definitiva. Estava só.

Ainda trêmula, jogou-se sobre a cama. As lágrimas encheram seus olhos e correram pelo rosto. Logo foi sacudida por uma crise de choro, como há muitos anos não experimentava.

Chorou e chorou...

Não sabia por quanto tempo tinha chorado, mas quando, enfim, os soluços começaram a diminuir, ouviu o tilintar da louça; Edith entrava com a bandeja do chá, que pousou na mesinha junto à cama, antes de sentar-se perto dela, batendo gentilmente no seu ombro.

— Pronto, pronto meu anjo... Trouxe uma boa xícara de chá, e vai beber, queira ou não queira.

— Oh Edith, Edith. . . — Ann abraçou-se à fiel criada e amiga.

— Ora, ora, não fique tão aflita. Tudo vai acabar bem.

— As coisas que eu disse. . . as coisas que eu disse...

— Não pense nisso. Agora vamos sentar, e eu sirvo o seu chá e a senhora vai beber tudo.

Obedientemente, Ann sentou-se e engoliu o chá.

— Assim! Daqui a um minuto já estará se sentindo melhor.

— Sarah... como é que eu pude?

— Não se preocupe com isso...

— Como é que eu pude dizer aquelas coisas para ela?

— Pois se quer saber a minha opinião, é melhor dizer do que só ficar pensando. As coisas que a gente pensa mas não fala vão ficando azedas como bílis dentro da gente... pode ter certeza.

— Mas eu fui tão cruel... tão cruel...

— Pois eu diria que o seu erro foi ficar tanto tempo com essas coisas guardadas dentro de si. É muito melhor pôr tudo para fora numa boa briga do que fingir que não há nada errado. Todos nós temos maus pensamentos, mas nem sempre gostamos de reconhecer.

— Será que eu realmente odiei Sarah durante todo este tempo? Minha pequena Sarah... como ela era engraçadinha... e tão meiga. E eu a odiei?

— É claro que não... respondeu Edith vigorosamente.

— Mas é verdade. Eu queria que ela sofresse... que fosse ferida... como eu tinha sido.

— Agora não vá começar a imaginar um monte de asneiras. A Senhora gosta da Srta. Sarah, e sempre gostou.

Ann continuava a falar:

— Durante todo esse tempo... todo o tempo... o ódio corria como uma corrente subterrânea... ódio ...ódio...

— Foi uma pena que vocês não tivessem resolvido esse assunto antes. Uma boa briga sempre ajuda a clarear o ar.

Ann recostou-se fracamente nos travesseiros:

— Mas já não a odeio mais — falou, surpresa. — Está tudo acabado, sim... acabado...

Edith levantou-se e deu uma palmadinha no ombro de Ann.

— Não se aflija, meu bem; tudo vai dar certo!

Ann sacudiu a cabeça.

— Não, nunca mais. Nós duas dissemos coisas que nunca mais poderemos esquecer.

— Não, não vá atrás disso. Palavras duras não quebram ossos, é um ditado muito certo.

— Há certas coisas, coisas essenciais, que nunca são esquecidas.

— Nunca é uma palavra grande demais — disse Edith, apanhando a bandeja.