A Filha

Agatha Christie · Capítulo 16 de 18

Páginas do PDF

A Filha

Capítulo IV · Ao Chegar em Casa, Sarah dirigiu-se à…

 

AO CHEGAR EM CASA, Sarah dirigiu-se à grande sala dos fundos, que Lawrence chamava o seu estúdio.

Ele estava lá, desembrulhando uma estatueta que comprara há pouco, obra de um jovem artista francês.

— O que acha, Sarah? Bonita, não é mesmo?

Os seus dedos acariciaram as linhas contorcidas do corpo nu.

Sarah teve um pequeno estremecimento, como se tivesse lembrando alguma coisa.

— É bonita, sim — disse, — mas obscena.

— Ora, vamos... é surpreendente que você ainda conserve traços de puritanismo, Sarah. Interessante como isso ainda persiste.

— Esta figura é obscena.

— Um tanto ou quanto decadente, talvez... Mas muito bem feita e cheia de imaginação. Paulo toma haxixe, é claro... isto provavelmente explica o espírito da coisa.

Largou a estatueta e voltou-se para Sarah.

— Você está en beauté, minha encantadora esposa. .. e aborrecida com alguma coisa. A aflição sempre lhe vai bem.

— Acabo de ter uma discussão terrível com Mamãe — disse Sarah.

— É mesmo? — Lawrence ergueu o cenho, divertido. — Que estranho! Mal posso imaginar a meiga Ann discutindo com alguém.

— Pois ela não estava nada meiga hoje. Mas devo admitir que eu disse coisas horríveis também...

— Brigas domésticas são muito desinteressantes, Sarah. Não falemos nelas.

— Não ia falar; Mamãe e eu estamos definitivamente afastadas. . . só isso.

Não, é sobre outra coisa que eu queria lhe falar. Creio que vou deixá-lo, Lawrence.

Sem demonstrar qualquer reação especial, Steene apenas murmurou, erguendo o cenho:

— Acho que não seria nada inteligente da sua parte.

— Você faz isso soar como uma ameaça.

— Oh, não! Uma delicada advertência, apenas. E por que vai me deixar Sarah? Outras já fizeram isso antes, mas não creio que você possa alegar os mesmos motivos: eu não parti seu coração, por exemplo. Seu coração não é muito sensível à minha pessoa. . . e você ainda é...

— A favorita reinante? — perguntou Sarah.

— Se quiser pôr as coisas nestes termos orientais. Sim, Sarah, acho você perfeita... mesmo este seu toque puritano dá um tempero especial a essa nossa... como direi... essa nossa maneira um tanto pagã de viver. E a propósito, não pode ter sido pela mesma razão que levou minha primeira esposa a me deixar: incompatibilidade moral não poderia ser o seu argumento mais forte, se levarmos em conta...

— Será que tem tanta importância saber por que vou deixá-lo? Não finja que vai se importar mesmo!

— Mas eu vou me importar, e muito! No momento você é o meu bem mais precioso... mais do que tudo isto.

Sua mão fez um gesto largo, que abrangia toda a sala.

— O que eu quis dizer foi. . . você não me ama,não é?

— Como já lhe disse uma vez, o amor romântico nunca me interessou: nem para dar, nem para receber.

— A verdade é que... existe alguém — disse Sarah — e eu vou partir com ele.

— Ah!. . . e deixar todos os seus pecados para trás...

— Você quer dizer que...

— Não sei se isto será tão fácil quanto imagina. Você tem sido uma boa discípula, Sarah: sua ânsia de viver é muito grande. Será que pode abandonar todas essas sensações... esses prazeres... essas aventuras dos sentidos? Pense naquela noite no Mariana...lembre-se de Charcot e suas Diversões... Essas coisas não podem ser abandonadas assim tão facilmente.

Sarah olhou para ele, e por um momento seus olhos deixaram transparecer medo:

— Eu sei disso... sei... mas a gente pode desistir!

— Será que pode mesmo? Você está tão mergulhada nisto, Sarah!

— Mas eu conseguirei sair. Eu quero sair!

Voltando-se, ela deixou apressadamente a sala.

Lawrence largou a estatueta sobre a mesa, num movimento brusco.

Sentia-se seriamente perturbado. Ainda não tinha cansado de Sarah. Duvidava que algum dia chegasse a cansar daquela criatura de extraordinária beleza, daquela mulher de caráter forte, capaz de reagir, de lutar. Uma peça de coleção extremamente rara.