A Filha

Agatha Christie · Capítulo 11 de 18

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A Filha

Capítulo II · Passaram-Se Algumas Horas antes que Sarah repetisse a pergunta.

 

Estavam sentados na atmosfera atordoante de um dos mais caros clubes noturnos de Londres. Era um lugar demasiado cheio, mal ventilado e, pelo que se podia ver, sem nada que o distinguisse de qualquer outro night club, mas apesar disso o lugar da moda no momento.

Uma ou duas vezes tentara abordar o assunto dos motivos da comemoração, mas Steene conseguira desconversar. Ele sabia como criar uma atmosfera de crescente interesse.

Enquanto fumava e olhava ao seu redor, Sarah comentou:

— Muitos dos amigos mais conservadores da Mamãe acham horrível que eu tenha permissão para vir aqui.

— E ainda pior que venha aqui comigo?

Sarah riu:

— Por que acham você tão perigoso, Larry? Você costuma andar por aí, seduzindo mocinhas inocentes?

Lawrence estremeceu afetadamente, e disse:

— Nada tão grosseiro.

— O que, então?

— Pensam que eu participo daquilo que os jornais chamam “orgias inomináveis”.

— Tenho ouvido dizer que você oferece mesmo umas festas um tanto excêntricas — disse Sarah, com franqueza.

— Algumas pessoas as chamariam assim. Mas a verdade pura e simples é que não sou uma pessoa convencional. Há tantas coisas para fazer na vida, desde que se tenha ao menos a coragem de experimentar.

— É exatamente o que eu penso — exclamou Sarah, com entusiasmo.

Steene continuou:

— Não ligo muito para garotas. São umas coisinhas fofas e tolas. Mas você é diferente, Sarah. Você é corajosa, tem calor... calor de verdade. — Seus olhos a examinaram significativamente, numa lenta carícia. — Tem um lindo corpo, também. Um corpo capaz de experimentar sensações... provar... sentir. Você ainda mal conhece suas próprias potencialidades.

Esforçando-se para esconder sua reação interior, Sarah disse, despreocupadamente:

— Tem uma boa conversa, Larry. Estou certa de que sempre funciona.

— Minha querida, a maioria das garotas me cansa. Você não... Daí — ergueu a taça para ela — a nossa comemoração.

— Sim. Mas o que estamos comemorando? Por que todo o mistério?

Sorrindo, ele respondeu:

— Não há mistério. É muito simples. Meu divórcio foi assinado hoje.

— Ah. . . — Sarah parecia surpresa. Steene a observava.

— Sim, isto abre o caminho. Bem. . . o que me diz, Sarah?

— Sobre o quê? — indagou a moça.

Steene falou, com súbita e reveladora selvageria:

— Não banque a inocente comigo, Sarah. Você sabe muito bem que eu a desejo. Sabe disto há bastante tempo.

Sarah evitou o olhar dele. Seu coração batia agradavelmente. Havia em Larry algo muito excitante.

— Você acha quase todas as mulheres atraentes, não? — perguntou em tom despreocupado.

— Poucas, hoje em dia. No momento, só você. — Fez uma pausa e continuou, falando num tom calmo e quase indiferente: — Você vai casar comigo, Sarah.

— Não quero casar. Além disso, acho que você deveria ficar contente por estar livre outra vez, sem pensar em se prender imediatamente.

— A liberdade é uma ilusão.

— Você não é muito boa propaganda para o matrimônio. Sua última mulher foi bem infeliz, não foi?

Lawrence respondeu calmamente:

— Chorou quase sem parar nos dois últimos meses que vivemos juntos.

— Porque gostava de você?

— Assim parecia. Ela sempre foi uma mulher incrivelmente burra.

— Por que casou com ela?

— Porque se parecia demais com uma das Madonas Primitivas, meu período artístico favorito. Mas é o tipo da coisa que acaba perdendo a graça.

— Você é um demônio cruel, não Larry? — falou Sarah, entre revoltada e fascinada.

— E é exatamente isso que você gosta em mim. Se eu fosse o tipo de homem que pudesse vir a ser um bom marido, estável e fiel, não pensaria em mim duas vezes.

— Bem, pelo menos você é franco.

— Você quer viver insípida ou perigosamente, Sarah?

Ela não respondeu. Empurrava um pedacinho de pão pelo pratinho:

— E sua segunda mulher... Moira Denham... aquela que Dame Laura conheceu... o que... o que houve com ela?

— É melhor perguntar a Dame Laura — ele sorriu. — Ela lhe contará tudo nos mínimos detalhes: Uma jovem meiga e tão simples, e como eu lhe parti o coração... para colocar as coisas numa linguagem romântica.

— Devo dizer que você parece ser uma ameaça e tanto às esposas.

— Posso garantir-lhe que não parti o coração da minha primeira mulher. Incompatibilidade moral foi a razão que alegou para deixar-me. Uma mulher com altos padrões morais. A verdade, Sarah, é que as mulheres nunca se contentam em casar conosco pelo que somos. Querem que sejamos diferentes. Mas ao menos você tem que admitir que não lhe escondo meu verdadeiro caráter. Gosto de viver perigosamente, gosto de experimentar prazeres proibidos. Não tenho altos padrões morais e não finjo ser o que não sou.

Baixou a voz:

— Posso lhe dar muitas coisas, Sarah. Não estou falando apenas nas coisas que o dinheiro pode comprar: peles para envolver o seu corpo adorável, jóias para contrastar com a brancura da sua pele. O que eu quero dizer é que posso lhe oferecer toda a gama de sensações. Posso fazê-la viver, Sarah... posso fazê-la sentir. Toda a vida é experiência, lembre-se.

— Eu... sim, acho que é...

Sarah o olhava, num misto de repulsa e fascínio.

— O que você conhece da vida, Sarah? Menos que nada! Posso levá-la a lugares, lugares horríveis e sórdidos, onde você verá a vida correr ardente e misteriosa, onde poderá sentir... sentir... até que o fato de estar viva se transformará num êxtase desconhecido.

Apertou os olhos, observando o efeito de suas palavras. Então, deliberadamente, rompeu o encantamento.

— Bem — disse animadamente, — é melhor sairmos daqui.

Fez um sinal ao garçom para que trouxesse a conta. Sorriu para Sarah, com ar de desinteresse.

— Agora vou levá-la para casa.

Na escuridão luxuosa do carro, Sarah manteve-se tensa e na defensiva, mas Lawrence nem ao menos tentou tocá-la. No íntimo, ela sabia que aquilo a desapontava, e Lawrence percebia esse desapontamento. Ele conhecia bem as mulheres.

Subiu com ela até o apartamento. Sarah abriu a porta com a chave, entrou na sala e acendeu a luz.

— Uma bebida, Larry?

— Não, obrigado. Boa noite, Sarah.

Ela foi impelida a chamá-lo de volta, e ele contava com isso.

— Larry...

— Sim?

Ficou parado na porta, olhando por sobre o ombro.

Seus olhos deslizaram pelo corpo dela com a aprovação de um connaisseur. Perfeita — absolutamente perfeita. Sim, precisava tê-la. Seu pulso apressou um pouco, mas o rosto permaneceu impassível.

— Sabe... acho...

— Sim?

Voltou para junto dela. Os dois falavam baixinho, atentos ao fato de que a mãe de Sarah e Edith estavam presumivelmente adormecidas ali perto.

Sarah falou depressa:

— Entende Larry, acontece que não estou apaixonada por você.

— Não está?

Alguma coisa no tom da voz dele fez com que ela continuasse rapidamente, gaguejando um pouco:

— Não... não realmente. Não como devia ser. O que eu quero dizer é que se perdesse todo o seu dinheiro e... oh, tivesse que cuidar de alguma plantação de laranjas ou coisa parecida em algum lugar, eu não tornaria a pensar em você.

— O que seria bastante sensato.

— Mas mostra que eu não o amo.

— Nada me aborreceria mais do que uma devoção romântica. Não é isso o que quero de você, Sarah.

— Mas então. . . o que você quer?

Fora uma pergunta insensata — mas ela quisera fazê-la. Queria ir adiante. Queria ver o que...

Ele estava bem junto dela. Então, de repente, curvou-se e beijou-lhe a nuca. Suas mãos a enlaçaram, cobrindo-lhe os seios.

Ela começou a se afastar — e então se rendeu. Sua respiração tornou-se mais rápida.

Após um momento, ele a soltou.

— Quando diz que não sente nada por mim, Sarah — disse ternamente, — está mentindo.

E com isso a deixou.