A Filha

Agatha Christie · Capítulo 17 de 18

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A Filha

Capítulo V · — Ora, Sarah! — surpresa, Dame Laura…

 

— ORA, SARAH! — surpresa, Dame Laura levantou os olhos da mesa de trabalho.

Sarah estava sem fôlego, bastante perturbada.

— Eu não a via há séculos, afilhada! — continuou Laura.

— É verdade... Oh, Laura, estou numa embrulhada tão grande!

— Sente-se. — Laura Whitstable conduziu Sarah gentilmente até um sofá. — Agora, conte-me o que há.

— Pensei que talvez você pudesse ajudar. Será que a gente consegue... que a gente pode... é possível parar de tomar certas coisas?.,. Quero dizer... quando... quando se criou o hábito de tomá-las. Ah, meu Deus, acho que você nem sabe do que eu estou falando — acrescentou, precipitadamente.

— Oh, sei, sim. Você está falando de drogas.

— Sim... — Sarah sentiu um enorme alívio diante da maneira realista com que Laura reagira.

— Bem, a resposta vai depender de uma série de fatores. Não é fácil... nunca é fácil. E as mulheres parecem ter mais dificuldades do que os homens para se libertar desse tipo de vício. Depende muito do tempo que você vem tomando a droga, seu grau de dependência dela, seu estado de saúde, da sua coragem, determinação e força de vontade; sob que condições vai viver seu dia-a-dia, quais são suas perspectivas para o futuro e, se for mulher, se existe alguém para ajudá-la a lutar.

O rosto de Sarah se iluminou:

— Ótimo!... Então, acho... acho mesmo que tudo vai dar certo!

— Passar os dias sem ter nada para fazer não vai ajudar muito — preveniu Laura.

— Mas eu vou ter muito pouco tempo livre! Passarei o dia inteiro trabalhando feito louca. E terei alguém para... para ser duro comigo e me fazer andar na linha. E quanto a ter perspectivas para o futuro... eu tenho tudo para esperar do futuro... tudo!

— Bem, Sarah, acho que você tem uma boa chance. — Laura olhou para ela e acrescentou inesperadamente. — Você parece ter crescido, finalmente!

— Sim, e como custei... percebo isto. Eu chamava Gerry de fraco, mas na verdade eu é que sou fraca, sempre querendo ser protegida. — Seu rosto se anuviou. — Laura, fui horrível com Mamãe. Só hoje descobri que ela gostava realmente do Cauliflower. Agora sei que eu simplesmente não queria ouvir quando você me preveniu sobre os sacrifícios e as oferendas queimadas. Eu me sentia tão horrivelmente satisfeita comigo e com o meu plano para me livrar do pobre Richard... e agora vejo que durante todo o tempo estava sendo apenas ciumenta, infantil e despeitada. Fiz com que Mamãe desistisse dele, e naturalmente ela ficou com ódio de mim, só que nunca confessou; mas tudo começou a dar errado. Hoje tivemos uma discussão terrível, gritamos uma com a outra, eu lhe disse coisas horríveis, culpei-a por tudo que me aconteceu. Mas na verdade, durante todo o tempo eu me sentia mal pelo que tinha feito a ela.

— Entendo.

— E agora — Sarah parecia infeliz, — não sei o que fazer. Se ao menos eu pudesse compensá-la de algum modo... mas agora acho que já é tarde demais.

— Não há maior perda de tempo — disse Laura com ar didático, levantando-se resolutamente — do que dizer a coisa certa para a pessoa errada...