A Filha

Agatha Christie · Capítulo 2 de 18

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A Filha

Capítulo II · Ao Voltar ao Apartamento, Ann foi recebida…

 

1

 

AO VOLTAR AO APARTAMENTO, Ann foi recebida com uma certa frieza pela fiel Edith.

— Tinha um lindo pedaço de linguado para o seu almoço — falou ela, aparecendo na porta da cozinha. — E um pudim de caramelo.

— Sinto muito. Almocei com Dame Laura. Mas telefonei a tempo, avisando que não viria, não telefonei?

— Ainda não tinha cozinhado o linguado — admitiu Edith, relutante. Era uma mulher alta e delgada, com o porte ereto de um granadeiro e uma boca franzida e desaprovadora. — Mas essas mudanças de planos não são coisa que se espere da senhora. Agora, se fosse a Srta. Sarah, eu não me surpreenderia. Depois que ela se foi, encontrei as luvas enfeitadas que ela andava procurando; mas aí já era tarde demais. Estavam enfiadas atrás do sofá.

— Que pena! — disse Ann, pegando as coloridas luvas de tricô. — Ela partiu sem problemas.

— E bem feliz, com certeza.

— Sim, todo o grupo estava muito alegre.

— Talvez não estejam tão alegres na volta. É bem possível que apareçam de muletas.

— Oh, não Edith, não diga isso!

— Esses lugares suíços são perigosos. Quebram os braços e as pernas das pessoas e depois não arrumam direito. A gangrena começa por baixo do gesso, e... acabou-se.

— Bem, esperemos que isso não aconteça a Sarah — disse Ann, já habituada às sombrias previsões de Edith, ditas sempre com considerável deleite.

— Isto aqui não vai ser o mesmo sem a Srta. Sarah — continuou Edith. — Vamos ficar tão quietas que nem vamos nos reconhecer.

— Você vai poder descansar um pouco, Edith.

— Descansar? Para que vou querer descansar? É melhor a gente se gastar trabalhando do que enferrujando, é o que minha mãe sempre me dizia... e eu sempre segui esse conselho. Agora que a Srta. Sarah está fora, e ela e os amigos não vão ficar entrando e saindo daqui a cada minuto, posso fazer uma boa faxina. A casa bem que está precisando.

— Tenho certeza de que o apartamento está limpíssimo, Edith.

— Isso é o que a senhora pensa. Mas eu sei que não. As cortinas precisam de uma boa sacudida, e uma boa lavada nos lustres e nas lâmpadas não ia fazer mal nenhum. Oh, há mil e uma coisas que precisam ser feitas. — Os olhos de Edith brilhavam de agradável expectativa.

— Arranje alguém para ajudá-la.

— Quem, eu? De jeito nenhum! Gosto das coisas bem feitas, e hoje em dia não há muitas dessas mulheres capazes de trabalhar decentemente. A senhora tem muita coisa bonita aqui, e essas coisas devem continuar bonitas. Com a cozinha, e uma coisa e outra, não posso fazer meu trabalho tão bem quanto deveria.

— Mas você cozinha muito bem, Edith. Sabe disso.

Um leve sorriso de gratidão transformou a costumeira expressão de profunda censura do rosto de Edith.

— Ora, cozinhar — disse ela com jeito brusco. — Isso não é nada, não é o que eu chamo trabalhar de verdade.

Voltando à cozinha, perguntou:

— A que horas vai querer seu chá?

— Agora não. Lá pelas quatro e meia.

— Se eu fosse a senhora, deitava e dormia um pouco. Assim, ficava novinha em folha para esta noite. É melhor aproveitar a calma enquanto durar.

Ann riu. Entrou na sala e deixou que Edith a acomodasse confortavelmente no sofá.

— Você cuida de mim como se eu fosse uma meninazinha, Edith.

— Bem, a senhora não era muito mais que uma criança quando fui trabalhar com sua mãe, e não mudou muito desde então. O Coronel Grant telefonou. Disse para não esquecer que o encontro é às oito horas, no Restaurante Mogador. Falei que a senhora sabia, mas isso é bem coisa de homem... ficam o tempo todo se preocupando com bobagens. E os militares são os piores.

— Foi muita gentileza dele lembrar que eu poderia me sentir sozinha hoje à noite, e me convidar para sair.

Edith falou judiciosamente:

— Não tenho nada contra o Coronel. Pode ser um pouco maçante, mas é um cavalheiro da melhor espécie. — Fez uma pausa, e acrescentou: — Pensando bem, a senhora poderia arranjar alguém bem pior que o Coronel Grant.

— O que disse, Edith?

Edith encarou-a sem pestanejar.

— Falei que há cavalheiros bem piores... Bem, acho que já não veremos tanto o Sr. Gerry, agora que a Srta. Sarah partiu.

— Você não gosta dele, não é mesmo Edith?

— Ora, gosto e não gosto, se é que me entende. Ele tem um certo encanto, isso não se pode negar. Mas não é do tipo perseverante. A minha sobrinha Marlene casou com um desses. Nunca fica mais de seis meses num emprego. E, aconteça o que acontecer, a culpa nunca é dele.

Edith deixou a sala, e Ann recostou a cabeça nas almofadas e fechou os olhos. Os sons do tráfego chegavam distantes e amortecidos através da janela fechada, num agradável zumbido, como de abelhas distantes. Na mesa perto dela, um vaso de junquilhos amarelos desprendia no ar o seu cheiro doce.

Sentia-se em paz, e feliz. Sentiria falta de Sarah, mas era bastante repousante ficar só por algum tempo. Que sensação esquisita de pânico tivera de manhã...

Indagou-se quem seriam os convidados de James Grant esta noite.

 

2

 

O Mogador era um restaurante pequeno e um tanto antiquado, com boa comida, bons vinhos e ambiente tranqüilo. Ann foi a primeira a chegar, e encontrou o Coronel Grant sentado no bar da entrada, abrindo e fechando o relógio de bolso.

— Ah, Ann — saltou para saudá-la — você chegou. — Seus olhos examinaram com ar de aprovação o vestido preto e o cordão de pérolas.

— É ótimo quando uma mulher bonita consegue ser pontual.

— Estou apenas três minutos atrasada — disse Ann, sorrindo para ele.

James Grant era um homem alto, de porte rígido e marcial, cabelos grisalhos cortados rente e um queixo obstinado.

Tornou a consultar o relógio.

— Por que os outros não chegam? A mesa estará pronta para nós às oito e quinze, e vamos beber alguma coisa antes. Sherry para você? Prefere sherry a um coquetel, não é mesmo?

— Sim, por favor. Quem são os outros?

— Os Massinghams. Você os conhece?

— Naturalmente.

— E Jennifer Graham. É minha prima, mas não sei se você alguma vez...

— Acho que já a encontrei uma vez, com você.

— E o outro homem é Richard Cauldfield. Eu não o via há muitos anos, e o encontrei outro dia. Passou a maior parte da vida em Burma, e agora ao voltar sente-se um pouco desambientado.

— Sim, imagino.

— É um bom sujeito. Uma história bastante triste. A mulher morreu ao nascer o primeiro filho. Ele era extremamente dedicado a ela. Ficou inconsolável durante muito tempo e achou que devia afastar-se... por isso foi para Burma.

— E a criança?

— Também morreu.

— Que tristeza!

— Ah, lá vêm os Massinghams.

A Sra. Massingham, que Sarah sempre chamava a Mem Sahib, lançou-se sobre eles com uma grande exibição de dentes. Era uma mulher magra e comprida, com a pele descorada e seca pelos anos passados na Índia. O marido, um homem baixo e corpulento, que falava em stacatto.

— Como é bom tornar a vê-la — disse a Sra. Massingham, apertando calorosamente a mão de Ann. — E que delícia poder jantar com roupas apropriadas. Positivamente, parece que eu nunca consigo pôr um vestido de noite. Todos estão sempre me dizendo: “Não precisa trocar de roupa”! Na verdade, acho a vida bem insípida hoje em dia. E as coisas que a gente é obrigada a fazer sozinha! Tenho a impressão de estar eternamente junto à pia da cozinha. Realmente não creio que possamos continuar neste país. Estamos pensando em ir para o Quênia.

— Muita gente indo embora — disse o marido. — Fartos. É este governo omisso.

— Aqui está Jennifer — exclamou o Coronel Grant. — E Cauldfield.

Jennifer Graham era uma mulher de trinta e cinco anos, alta e com cara de cavalo, que relinchava quando ria; e Richard Cauldfield, um homem de meia-idade, de rosto queimado de sol.

Sentou-se junto a Ann, e esta começou a conversar. Estava há muito tempo na Inglaterra? Qual era sua impressão?

Não era fácil acostumar-se, disse ele. Tudo agora era tão diferente do que costumava ser antes da guerra. Estava à procura de trabalho, mas não havia muitos empregos para um homem da sua idade.

— Não, creio que não. E isso me parece tão injusto!

— Sim, pois afinal eu ainda não cheguei aos cinqüenta — sorriu ele, um sorriso um pouco infantil, desconcertante. — Disponho de um pequeno capital. Estou pensando em comprar um lugarzinho no campo e me dedicar à floricultura, ou à criação de galinhas.

— Galinhas não! — protestou Ann. — Tenho muitos amigos que tentaram... e elas sempre apanham alguma doença.

— Não, talvez a floricultura fosse melhor. Provavelmente não daria muito lucro, mas seria uma vida agradável. — Suspirou. — Tudo parece tão confuso! Talvez que uma mudança de governo. . .

Ann concordou, hesitante. Era o remédio de sempre.

— Deve ser difícil saber exatamente o que fazer — falou. — Isso deve preocupá-lo bastante.

— Ah, eu não me preocupo. Acho que não vale a pena. Se um homem tem fé em si mesmo, e bastante determinação, todas as dificuldades podem ser vencidas.

Era uma afirmação muito dogmática, e Ann não pareceu muito convencida.

— Não tenho muita certeza.

— Posso garantir-lhe que é assim. Não tenho nenhuma paciência com gente que anda sempre se queixando da falta de sorte.

— Ah, nesse ponto concordo com você — exclamou Ann, com tanto fervor que ele arqueou as sobrancelhas, numa interrogação:

— Parece que você conhece alguém assim.

— E conheço mesmo. Um dos namorados da minha filha vem sempre contar a sua última desgraça. Eu costumava sentir pena dele, mas agora só consegue me deixar insensível e aborrecida.

Do outro lado da mesa, a Sra. Massingham interveio:

— Histórias de azar são mesmo aborrecidas.

O Coronel Grant perguntou:

— De quem está falando? Do jovem Gerald Lloyd? Ele nunca será grande coisa na vida.

Richard Cauldfield disse baixinho para Ann:

— Então tem uma filha? E com idade bastante para ter um namorado?

— Oh, sim, Sarah tem dezenove anos.

— E você gosta muito dela?

— É claro!

Percebeu no rosto dele uma fugaz expressão de dor, e lembrou a história que o Coronel Grant tinha contado. Richard Cauldfield era um homem solitário, pensou.

Ele falou baixinho:

— Você parece jovem demais para ter uma filha já crescida.

— Isso é o que se costuma dizer a uma mulher da minha idade — respondeu Ann, com uma risada.

— Talvez seja, mas estou sendo sincero. Seu marido... morreu?

— Sim, há muito tempo.

— E por que não voltou a casar?

Poderia ter sido uma pergunta impertinente, mas o interesse sincero da voz dele o eximia de qualquer acusação desse tipo. Mais uma vez Ann pensou que Richard Cauldfield era um homem simples. Ele realmente queria saber.

— Ah... porque... — parou. Então falou a verdade, francamente: — Eu amava muito meu marido. Depois que ele morreu, não voltei a amar ninguém. E havia Sarah, é claro.

— Sim — disse Cauldfield. — Sim... as coisas teriam que acontecer exatamente assim com você.

Grant levantou e sugeriu que passassem ao restaurante. Na mesa redonda, Ann sentou-se entre o anfitrião e o Major Massingham. Não teve mais oportunidade de continuar seu tête-à-tête com Cauldfield, que agora conversava, com certo esforço, com a Srta. Graham.

— Será que vão se dar bem? — murmurou o coronel no ouvido de Ann. — Ele precisa casar, sabe?

Por alguma razão a sugestão a desagradou. Logo Jennifer Graham, com aquela voz aguda e enérgica, o riso relinchado! Jamais o tipo de mulher que servia para casar com um homem como Cauldfield.

As ostras foram servidas, e o grupo dedicou-se a comer e conversar.

— Sarah partiu esta manhã?

— Sim, James. Espero que encontrem bastante neve.

— Sim, embora seja de duvidar, nesta época do ano. De qualquer forma, creio que ela vai se divertir. Sarah é uma bela moça. Por falar nisso, espero que o jovem Lloyd não faça parte do grupo.

— Ah, não, ele começou a trabalhar há pouco tempo na firma do tio. Não poderia ausentar-se.

— Ótimo. Você tem que cortar essa história pela raiz.

— Hoje em dia isso não é tão fácil, James.

— Hummm, creio que não deve ser. Mesmo assim, você conseguiu afastá-la por algum tempo.

— Sim, achei que seria uma boa idéia, eu... Realmente achei...

— Ah, você achou? Não é nada tola, Ann. Esperemos que ela encontre algum outro rapaz por lá.

— Sarah ainda é muito jovem, James. Não creio que aquela história com Gerald Lloyd devesse ser levada a sério.

— Talvez não, mas da última vez que a vi ela parecia muito preocupada com ele.

— Preocupar-se com os outros é um traço característico de Sarah. Ela sabe exatamente o que cada um deve fazer, e não descansa enquanto não fazem. É muito leal aos seus amigos.

— Ê uma criança muito querida. E atraente. Mas nunca será tão atraente quanto você, Ann. Ela é um tipo mais duro... como se diz hoje em dia... mais durona.

Ann sorriu.

— Não creio que seja assim tão dura. É o jeito da geração dela.

— Talvez seja... Mas algumas dessas moças poderiam ter aulas de charme com as mães.

Ele a olhava com carinho, e Ann pensou, com repentino e raro calor: “Querido James. — Como ele é bom para mim. Para ele, eu sou perfeita. Não estarei sendo tola ao recusar o que me oferece? Ser amada, querida...”

Infelizmente, naquele exato momento o Coronel Grant começou a contar uma história sobre um dos seus subalternos e a mulher de um major, na Índia. Era uma história comprida, e ela já a ouvira três vezes antes.

O afetuoso calor desapareceu. Olhou Richard Cauldfield, do outro lado da mesa, avaliando-o. Um pouquinho confiante demais em si mesmo, excessivamente dogmático — não, corrigiu-se, não de verdade... Tudo devia ser apenas uma armadura que ele usava para se defender de um mundo estranho e provavelmente hostil.

Era na verdade um rosto triste. Um rosto solitário...

Tinha muitas qualidades, pensou. Devia ser bom, honesto, e totalmente justo. Teimoso, provavelmente, e preconceituoso algumas vezes. Um homem que não estava acostumado a achar graça nas coisas, nem a que achassem graça nele. O tipo do homem que floresceria ao sentir-se realmente amado.

— ...e você acredita — o coronel chegava ao ponto culminante da história — que Sayce sabia de tudo, todo o tempo?

Com um choque, Ann retornou aos seus deveres imediatos, e riu com o esperado entusiasmo.