A Filha

Agatha Christie · Capítulo 9 de 18

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A Filha

Capítulo IX · Por Dois Dias houve uma paz bem-vinda…

 

1

 

POR DOIS DIAS houve uma paz bem-vinda e inesperada. Isso animou Ann. Afinal, as coisas não eram tão más. Como havia dito, com o tempo tudo se ajeitaria. O apelo que fizera a Richard dera resultado. Dentro de uma semana estariam casados... e depois disso, parecia-lhe que a vida seria mais normal. Sarah certamente deixaria de hostilizar tanto Richard, e acharia mais interesse em outros assuntos.

— Sinto-me realmente muito melhor hoje — comentou com Edith.

Ocorreu-lhe que um dia sem dor de cabeça era agora um verdadeiro fenômeno.

— Quase como uma calmaria na tempestade, pode-se dizer — concordou Edith. — São como cão e gato, a Srta. Sarah e o Sr. Cauldfield. Tomaram o que se pode chamar de uma genuína aversão um pelo outro.

— Mas acho que Sarah está superando um pouco, não acha?

— Se eu fosse a senhora, não me encheria de falsas esperanças, madame — disse Edith sombriamente.

— Mas não pode continuar sempre assim.

— Eu não apostaria nisso.

Edith era sempre tão lúgubre, pensou Ann! Divertia-se em predizer desastres.

— Tem sido melhor ultimamente — insistiu.

— Ah, porque o Sr. Cauldfield tem vindo aqui quase sempre de dia, quando a Srta. Sarah está na loja de flores, e ela tem ficado com a senhora só para ela de noite. Além disso, ela está absorvida pela ida daquele Sr. Gerry para o estrangeiro. Mas depois que a senhora estiver casada, vai ter os dois aqui juntos. Vão reduzir a senhora a pedaços, isso é que vão!

— Oh, Edith — o desalento se apoderou de Ann. Era uma comparação horrível.

E exprimia tão bem o que vinha sentindo!

Disse desesperadamente:

— Não agüento isso. Detesto cenas e brigas, e sempre detestei.

— É verdade. Sempre viveu quieta e protegida, e é isso que lhe convém.

— Mas o que posso fazer? O que você faria, Edith?

Edith disse com gosto:

— Não adianta se lamentar. Me ensinaram quando criança: “Esta vida não é mais que um vale de lágrimas”.

— Se é tudo que pode sugerir para me consolar!

— Essas coisas são mandadas para nos pôr à prova — disse Edith solenemente. — Agora, se ao menos a senhora fosse uma dessas que gostam de brigas! Há muitas que gostam. A segunda mulher do meu tio, por exemplo. Não há nada que goste mais do que de bater boca. Tem uma língua ferina... mas quando termina, não guarda ressentimentos e não torna a pensar naquilo. Já desabafou. Acho que é o sangue irlandês. A mãe dela veio de Limerick. Não são rancorosos, mas adoram uma briga. A Srta. Sarah tem um pouco disso. Lembro da senhora ter falado que o Sr. Prentice era meio irlandês. Tem seus repentes, a Srta. Sarah, mas nunca houve uma moça de coração tão bom. Se quer saber, é muito bom que o Sr. Gerry esteja indo para o outro lado do mar. Ele nunca vai se acomodar e ficar numa coisa só. A Srta. Sarah pode conseguir coisa melhor que ele.

— Acho que ela gosta muito dele, Edith.

— Eu não me preocuparia. Dizem que “A ausência aumenta o amor”, mas minha tia Jane costumava acrescentar “por outro”. “Longe da vista, longe do coração” é um provérbio mais verdadeiro. Agora não se preocupe com ela nem com mais ninguém. Está aqui aquele livro que a senhora tanto queria ler, e vou trazer uma boa xícara de café e um ou dois biscoitos. Distraia-se enquanto pode.

Ann ignorou a sugestão levemente sinistra das três últimas palavras. Falou:

— Você é um grande consolo, Edith.

Na quinta-feira Gerry Lloyd viajou e Sarah, naquela noite, voltou para casa e teve a pior das discussões com Richard.

Ann os deixou e procurou refúgio em seu próprio quarto. Ficou lá, deitada no escuro, cobrindo os olhos com as mãos. os dedos apertando a testa dolorida. Lágrimas lhe rolaram dos olhos.

Disse a si mesma várias vezes, num murmúrio: — não posso agüentar... não posso agüentar...

Daí a pouco escutou o fim de uma frase dita por Richard, quase gritada, enquanto ele saía tempestuosamente da sala:

— ... e sua mãe não pode escapar sempre, fugindo com uma das eternas dores de cabeça!

Ouviu-se então a batida da porta da frente.

Os passos de Sarah soaram no corredor, vindo hesitante e vagarosamente para seu próprio quarto. Ann chamou:

— Sarah.

A porta se abriu. A voz de Sarah, levemente culpada, disse:

— No escuro?

— Minha cabeça dói. Acenda a lampadazinha do canto.

Sarah fez isso. Veio devagar até a cama, os olhos baixos. Havia nela algo desamparado e infantil que tocou o coração de Ann, embora apenas minutos antes tivesse ficado violentamente zangada com ela.

— Sarah — disse Ann. — Você precisa?

— Preciso o quê?

— Brigar com Richard todo o tempo? Não sente coisa alguma por mim? Percebe como está me fazendo infeliz? Não quer que eu seja feliz?

— Claro que quero. É por isso mesmo.

— Não a entendo. Você me faz perfeitamente infeliz. Penso às vezes que não posso continuar... Tudo é tão diferente.

— Sim, tudo é diferente. Ele estragou tudo. Quer me tirar daqui. Não vai deixar ele fazer você me mandar embora, vai?

Ann ficou zangada.

— Claro que não. Quem sugeriu uma coisa dessas?

— Ele. Agora mesmo. Mas você não vai, vai? É tudo como um pesadelo. — Subitamente as lágrimas de Sarah começaram a correr. — Tudo saiu errado. Tudo. Desde que voltei da Suíça. Gerry foi embora. Provavelmente nunca voltarei a vê-lo. E você se voltou contra mim...

— Não me voltei contra você! Não diga uma coisa dessas.

— Oh, Mamãe... Mamãe...

A moça se atirou de joelhos junto à cama e soluçou incontrolavelmente. Repetia de quando em quando aquela palavra: “Mamãe”,,.

 

2

 

Na bandeja do desjejum de Ann, na manhã seguinte, havia um bilhete de Richard.

 

QUERIDA ANN:

Positivamente, as coisas não podem continuar assim. Precisamos achar alguma solução. Acredito que encontrará Sarah mais acessível do que pensa.

Sempre seu,

RICHARD

 

Ann franziu as sobrancelhas. Estaria Richard se iludindo deliberadamente? Ou será que a crise de Sarah na noite anterior fora, em grande parte, histérica? Isso era bem possível: Ann tinha certeza de que Sarah estava sofrendo toda a angústia do amor de adolescente, e seu primeiro adeus ao bem-amado. Afinal, já que antipatizava tanto com Richard, pode ser que fosse realmente mais feliz longe de casa...

Num impulso, Ann estendeu a mão para o telefone e discou o número de Laura Whitstable.

— Laura? É Ann.

— Bom dia. Está chamando muito cedo.

— Oh, não sei mais o que fazer. Minha cabeça não pára de doer, e sinto-me realmente doente. As coisas não podem continuar assim. Queria pedir um conselho.

— Não dou conselhos. É uma coisa perigosíssima.

Ann não deu atenção.

— Escute, Laura, você acha... poderia. . . ser uma boa coisa... se... se Sarah fosse morar sozinha... quer dizer, se dividisse um apartamento com uma amiga. . . ou coisa assim?

Houve uma pequena pausa e então Dame Laura perguntou:

— É o que ela quer?

— Bem... não... não exatamente. Quer dizer, foi apenas uma idéia.

— Quem sugeriu? Richard?

— Bem... foi.

— Muito razoável.

— Você acha mesmo? — perguntou Ann ansiosamente.

— Quero dizer que foi muito razoável do ponto de vista de Richard. Ele sabe o que quer... e faz tudo para consegui-lo.

— Mas o que você acha?

— Já lhe disse, Ann, eu não dou conselhos. O que diz Sarah?

Ann hesitou:

— Não cheguei a discutir o assunto com ela. . . ainda.

— Mas você provavelmente tem alguma idéia?

Ann disse um tanto relutante:

— Não creio que ela vá gostar, de jeito nenhum.

— Ah!

— Mas eu talvez devesse insistir?

— Para quê? Para curar suas dores de cabeça?

— Não, não! — exclamou Ann horrorizada. — Unicamente para a felicidade dela.

— Isso parece magnífico! Sempre desconfio de sentimentos nobres. Não quer ser mais clara?

— Bem, tenho me perguntado se eu não serei mesmo um tipo de mãe demasiado apegada, se não seria melhor para Sarah sair de perto de mim. Para que possa desenvolver sua própria personalidade.

— Sei, sei, muito moderno.

— É mesmo, sabe, penso que ela talvez venha a gostar da idéia. Não pensava no início, mas agora... Oh, por favor, diga o que pensa.

— Minha pobre Ann.

— Por que diz “minha pobre Ann”?

— Você me perguntou o que eu pensava.

— Não está me ajudando muito, Laura.

— E nem quero ajudar, não do jeito que você pretende .

— Richard está ficando cada vez mais difícil, sabe. Escreveu-me uma espécie de ultimato esta manhã... Logo estará pedindo que eu escolha entre ele e Sarah.

— E qual você escolheria?

— Oh, Laura, não diga isso. Não quis dizer que as coisas já chegaram a esse ponto, não realmente.

— Mas talvez cheguem.

— Laura, você é de enlouquecer! Nem sequer tenta ajudar.

E Ann bateu o telefone, furiosa.

 

3

 

Naquela tarde, às seis horas, Richard Cauldfield telefonou.

Edith atendeu:

— A Sra. Prentice está?

— Não, senhor. Foi a uma daquelas reuniões onde sempre vai, um Lar de Velhos, ou coisa parecida. Não deve voltar antes das sete.

— E a Srta. Sarah?

— Acabou de chegar. Quer falar com ela?

— Não, eu vou até aí.

Richard cobriu a distância entre o escritório e o bloco de apartamentos de Ann em passadas firmes e uniformes. Passara a noite em claro e tinha finalmente chegado a uma resolução. Embora fosse um homem que levava algum tempo para decidir, uma vez que o fizesse atinha-se obstinadamente à sua decisão.

As coisas não podiam continuar como estavam. Primeiro Sarah, e depois Ann, teriam que ser forçadas a ver isso. Aquela garota estava consumindo a mãe com suas crises de mau humor e sua obstinação! A pobre e doce Ann... Mas seus pensamentos não eram inteiramente amorosos. Sentia contra Ann um certo ressentimento, quase imperceptível. Ela fugia constantemente da luta, lançando mão de artifícios femininos — dores de cabeça, prostrações... Ann tinha que encarar os fatos!

Essas duas mulheres... todas aquelas tolices femininas precisavam acabar.

Tocou a campainha, foi recebido por Edith e entrou na sala. Sarah voltou-se da lareira onde estava. Tinha um copo na mão.

— Boa noite, Richard.

— Boa noite, Sarah.

Sarah disse com certo esforço:

— Sinto muito sobre ontem à noite, Richard. Receio ter sido muito grosseira.

— Não tem importância. — Richard fez com a mão um gesto magnânimo. — Não vamos falar mais nisso.

— Quer beber alguma coisa?

— Não, obrigado.

— Acho que Mamãe ainda demora a chegar. Ela foi a . . .

Ele a interrompeu:

— Não tem importância. Eu vim ver você.

— Eu?

Os olhos de Sarah se estreitaram e escureceram. Ela deu um passo à frente e sentou-se, observando-o com desconfiança.

— Quero discutir as coisas com você. Parece-me perfeitamente claro que não podemos continuar como estamos, com todas essas brigas e discussões. Não é justo para sua mãe, em primeiro lugar. Estou certo de que gosta dela.

— Naturalmente — disse Sarah, com frieza.

— Então, entre nós, temos que lhe dar uma folga. Ela e eu estaremos casados dentro de uma semana. Quando voltarmos da lua-de-mel, que tipo de vida pensa que teremos, vivendo os três neste apartamento?

— Bastante infernal, creio.

— Vê? Você mesma reconhece. Agora, quero lhe dizer que não lhe atribuo toda a culpa.

— Muito magnânimo de sua parte, Richard. — O tom de voz dela era sério e educado. Ele ainda não conhecia Sarah o suficiente para reconhecer um sinal de perigo.

— É uma pena não nos entendermos. Falando francamente, você não gosta de mim.

— Já que insiste, sim, é verdade.

— Não importa. Eu, de minha parte, também não simpatizo particularmente com você.

— Você me detesta — disse Sarah.

— Ora, vamos — retrucou Richard, — eu não chegaria a tanto.

— Eu sim.

— Bem, vamos pôr as coisas assim: não gostamos um do outro. Não me importa muito se você gosta ou não de mim. É com sua mãe que vou casar, não com você. Tentei ser seu amigo, mas você não quer... Então precisamos achar uma solução. Estou disposto a fazer o que puder de outras maneiras.

Sarah perguntou, desconfiada:

— Que outras maneiras?

— Já que não pode suportar a vida em casa, farei o que puder para ajudá-la a levar sua própria vida em algum outro lugar, onde possa ser mais feliz. As sim que Ann for minha esposa, estou preparado para prover totalmente pelo seu sustento. Haverá dinheiro de sobra para você. Um apartamentozinho simpático nalgum lugar, que você possa partilhar com uma amiga. Mobiliá-lo e tudo mais... exatamente como quiser.

Os olhos dela se estreitaram ainda mais e ela falou:

— Que homem maravilhosamente generoso você é, Richard.

Ele não pressentiu o sarcasmo. No íntimo, estava se congratulando. Afinal a coisa fora bastante simples. A garota sabia perfeitamente bem o que mais lhe con-vinha. Tudo se resolveria de modo bastante amistoso.

Sorriu para ela, bem-humorado.

— Bem, não gosto de ver as pessoas infelizes. E compreendo (coisa que sua mãe não faz) que vocês, jovens, anseiam por seguir seus próprios caminhos e ser independentes. Será muito mais feliz sendo independente do que vivendo aqui como cão e gato.

— Então é essa a sua sugestão?

— É uma ótima idéia, todos ficam satisfeitos.

A risada de Sarah fez Richard voltar abruptamente a cabeça:

— Não vai se livrar de mim assim tão facilmente — disse ela.

— Mas...

— Não irei, estou lhe dizendo. Não irei!!

Nenhum dos dois ouviu a chave de Ann na porta da frente. Ela abriu a porta e os encontrou olhando-se com ar feroz. Sarah tremia dos pés à cabeça e repetia histericamente:

— Eu não vou... não vou... não vou...

— Sarah...

Ambos se voltaram de chofre. Sarah correu para a mãe.

— Querida, querida, você não vai deixar que ele me mande embora, vai? Viver num apartamento com uma amiga — eu detesto amigas. Não quero ser independente. Quero ficar com você. Não me mande embora, Mamãe. Não... não.

Ann respondeu prontamente, num tom apaziguador.

— É claro que não. Está tudo bem, querida. — Para Richard, ela perguntou rispidamente: — O que estava dizendo a ela?

— Fazia uma sugestão perfeitamente sensata.

— Ele me odeia e vai fazer você me odiar. — Sarah soluçava agora como uma criança histérica.

— Não, não, Sarah, não seja absurda — o tom de Ann era conciliador. — Fez um sinal a Richard. — Vamos falar sobre isso em outra ocasião.

— Não, não vamos — Richard foi taxativo. — Falaremos nisso aqui e agora. Temos que esclarecer as coisas.

— Oh, por favor — Ann caminhou com a mão na testa. Sentou-se no sofá.

— Não adianta ter uma dor de cabeça para se livrar, Ann! A questão é quem vem em primeiro lugar para você, eu ou Sarah?

— Não é essa a questão.

— Claro que é! Tudo isto tem que ser esclarecido de uma vez por todas. Não posso agüentar muito mais.

Os tons altos da voz de Richard atravessavam a cabeça de Ann, fazendo cada nervo retesar-se num paroxismo de dor. Ela tivera uma reunião difícil no comitê, viera cansada para casa, e sentia agora que sua vida, como vivida no presente, era positivamente insuportável!

Disse debilmente:

— Não posso falar com você agora, Richard. Realmente não posso. Simplesmente não agüento mais.

— Pois eu lhe digo que isso precisa ser esclarecido. Ou Sarah sai de casa, ou saio eu.

Um ligeiro tremor percorreu o corpo de Sarah. Ela levantou o rosto, encarando Richard.

— Meu plano é perfeitamente razoável — disse ele. — Eu o descrevi a Sarah em linhas gerais e ela não parecia ter nada contra, até você aparecer.

— Eu não vou — repetiu Sarah.

— Minha menina, você pode ver sua mãe sempre que quiser, não pode?

Sarah voltou-se impulsivamente para Ann, jogando-se no chão ao lado dela.

— Mamãe, Mamãe, você não vai me expulsar, vai? Você é minha mãe!

O rosto de Ann ficou vermelho. Ela falou com súbita firmeza:

— Não pedirei que minha única filha saia de sua casa, a menos que ela queira fazê-lo.

Richard gritou:

— Ela quereria... se não fosse para me contrariar.

— É o tipo da coisa que você pensaria — disse Sarah com veemência.

— Cale a boca! — gritou Richard.

Ann levou as mãos à cabeça.

— Não posso suportar isso — disse ela. — Estou avisando vocês, não posso suportar isso...

Sarah gritou em tom de súplica:

— Mamãe!...

Richard voltou-se, furioso, para Ann.

— Não adianta, Ann. Você e suas dores de cabeça! Você precisa escolher, que diabo!

— Mamãe — Sarah estava realmente fora de si agora. Apegava-se a Ann como uma criança assustada. — Não deixe que ele a ponha contra mim, Mamãe... não deixe...

Ann, com as mãos ainda a apertar a cabeça, disse:

— Não posso agüentar mais. É melhor você ir, Richard.

— O quê? — ele a olhou fixamente.

— Vá, por favor. Esqueça-me. É inútil...

Novamente a fúria o dominou e ele perguntou com ar sombrio:

— Você percebe o que está dizendo?

— Preciso de paz... não posso continuar — falou Ann, aturdida.

Sarah sussurrou novamente:

— Mamãe...

— Ann... — a voz de Richard estava cheia de sofrimento incrédulo.

Ann gritou desesperada:

— Não adianta... não adianta, Richard.

Sarah voltou-se contra ele, furiosa e infantilmente:

— Vá embora. Não o queremos, está ouvindo? Nós não o queremos! — Havia um ar de triunfo em seu rosto que seria feio, se não fosse tão infantil.

Ele não lhe deu atenção. Estava olhando para Ann.

— É isso mesmo que você quer? — falou gravemente. — Não... voltarei mais.

Ann disse, exausta:

— Eu sei. . . simplesmente... não pode ser, Richard. Adeus...

Ele caminhou lentamente para fora da sala.

Sarah gritou: “Querida!” e mergulhou a cabeça no colo da mãe.

Com gestos mecânicos Ann acariciou a cabeça da filha; mas seus olhos estavam fixos na porta pela qual Richard acabara de sair.

Um instante depois ouviu o som da porta da frente que se fechava com uma pancada decidida.

Sentiu a mesma sensação de vazio que sentira naquele dia na Estação Vitória, e uma grande desolação...

Richard descia as escadas agora, saía no saguão e descia a rua.

Caminhando para fora da sua vida...