A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 1 de 22

Páginas do PDF

A Intrusa

Capítulo I

CAPITULO III

CAPITULO IV

CAPITULO V

CAPITULO VI

CAPITULO VII

CAPITULO VIII

CAPITULO IX

CAPITULO X

CAPITULO XI

CAPITULO XII

CAPITULO XIII

CAPITULO XIV

CAPITULO XV

CAPITULO XVI

CAPITULO XVII

CAPITULO XVIII

CAPITULO XIX

CAPITULO XX

CAPITULO XXI

 

A INTRUSA

 

I

 

—Que temporal!

—E um friosinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho forte da chuva quando se está agazalhado? Eu estou-me regalando!

—Sempre o mesmo egoista! Como estás em tua casa!... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quasi horas de me ir recolhendo aos meus penates. E alli o padre Assumpção, caso não fique pelo caminho, terá tambem que marchar um bom pedaço a pé. Ao Telles, esse o bond leva-o até ao quarto de dormir! Nasceu impellicado.

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Claudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assumpção, o deputado Armindo Telles e o Adolpho Caldas, homem de quarenta annos, sem profissão determinada, mas muito bem acceito nas rodas politicas e litterarias, que frequentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na bibliotheca de Argemiro, sentados á mesa do poker.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assumpção não quizera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o panno da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma côr pallida; e nas suas feições accentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolpho Caldas costumava dizer:

—O riso do Assumpção cheira a rosas brancas.

O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diarios do Rio— dos mais distinctos do nosso fôro—jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos á sua casa de viuvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...

«Ah! uma casa sem mulher, afirmava elle, é um tumulo com janellas: toda a vida está lá fóra...» E lembrar-se que aquillo havia de ser para sempre!

O dr. Argemiro Claudio de Menezes, descendente directo dos Iglesias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brazonado existe ainda, bem que arruinado, naquelle reino, em terras limitrophes da Hespanha, á beira de um rio espelhento e de pinheiraes perdidos,—era um homem ainda moço, robusto, de carnes solidas e uns olhos negros, em que talvez a raça arabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta, talhada rente ao rosto pallido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabello muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a attitude preguiçosa, em contradicção á energia do typo. Viuvo ha sete annos de uma formosa senhora, cujo retrato apparecia em todos os cantos da casa, elle protestára não tornar a casar-se.

A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida.

Do primeiro anno do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Gloria. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chacara dos suburbios, e andava agora pelos seus onze annos e os rudimentos de portuguez e de musica. Tanto como o pae e os avós, por ella se interessava o padrinho, padre Assumpção.

Sem interromper a partida, o deputado Armindo Telles gabou-se:

—Foi hoje um dos dias mais bellos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrificios que a deputação me tem custado... rios de dinheiro, noites de insomnia, descomposturas de outros partidos... de tudo colhi hoje o premio. Imaginem vocês que tive de luctar renhidamente com o proprio governo, molestar collegas, ir de encontro mesmo a principios que prezo de gratidão pessoal e de conveniencia propria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha victoria. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma victoria politica, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.

—Chartrier?... perguntou com curiosidade o padre Assumpção.

Armindo Telles pareceu não ouvil-o e continuou:

—Infelizmente, temos agora na camara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... A indifferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais enthusiasta... Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da camara e feri-os a todos sem piedade. Creei inimigos; pouco importa, mas triumphei!

Adolpho Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo:

—Por que feito illustre glorificaste a patria?

—Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu collega Simão da Cunha, que a camara em peso guerreava!

Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolpho Caldas impregnou de candida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:

—Cunha?...

E depois:

—Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem.

—Não é aguia, affirmou Telles; mas é o que se chama—uma mediocridade operosa—e é, sobretudo, um homem de bem!

—Isso em politica não tem valor... commentou o dono da casa. Mas que faz você ahi, padre Assumpção, remexendo nas estantes?!

—Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier...

—Olha, o catalogo dos livros deve estar naquella gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho...

—O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! disse malignamente Armindo Telles.

—Não preciso; sei-os de cór.

—Impinge-os como seus?

—Impingil-os-ia se os deputados fossem á igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam!

Riram-se todos. Telles retrucou:

—Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!

—Talvez. Os cilicios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...?

—Simão da Cunha.

—Por esse senhor?

—Eu mesmo.

—Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço—o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.

—Qual é?

—Vida de D. Frei Bertolameu dos Martyres.

Adolpho Caldas commentou:

—Solemnissimo! que bella lingua, reverendo!

—Formosa! Frei Luiz de Souza tinha a quem sahir...

Padre Assumpção ficou de pé, junto á alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito attento.

O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.

—A sabedoria dos proverbios está sendo compromettida... declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compativel com a do jogo!

Adolpho Caldas accrescentou:

—Leito, tribuna e mesa. Ahi está um lema conveniente aos teus triumphos, Armindo!

Telles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:

—Leito e tribuna... vá; mas mesa, não sei porque!

Caldas, baralhando as cartas, concluiu:

—Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um diccionario. Referi-me á mesa do orçamento, á mesa do baccarat e mesmo á do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de suppôr que te alimentas a leite e a agua de Vichy... Começas a ter pança; não te pódes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças d'essa circumstancia; jantaste como um homem de boa consciencia e magnifico estomago! Fiquei-te considerando mais, depois que te vi comer.

Argemiro observou, rindo:

—É o exercicio da profissão!

Armindo Telles respondeu:

—Vocês confundem-me com o Araujo Braga... que trouxe da pasta a pratica da mastigação e leva mesmo a impudencia a ponto de dizer, como disse hontem á porta do Watson, á minha vista:—eu hoje só rôo subsidios e clientes.

—Esse tem, ao menos, o merito da franqueza. A mim então só me apparecem causas pessimas, clientes já esfolados, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina declarou Argemiro.

O jogo chegára a um ponto que requeria a attenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a bocca para a passagem das expressões obrigadas do poker.

Padre Assumpção continuava a sua leitura, de pé, com o hombro encostado ao angulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente á moldura do movel, confundindo-se com elle na sombra do aposento.

Os tres jogadores eram de bem differente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Telles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escoceza picada por um rubi fulgurante.

Representante do Paraná, que o tinha como um politico habil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a familia carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleavel, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes politicas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e dest'arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, elle apparentava menos edade do que a que tinha realmente. Falava com socego, num agradavel timbre de voz. Ás vezes mesmo Caldas caçoava:

—Na camara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C'est la voix d'or, do Congresso!

Assim como a voz elle tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se applicára nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anneis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos correctissimos.

Em frente d'elle, Adolpho Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se á vontade no seu veston de panno preto, com um bom ar de despretenciosa superioridade.

O Adolpho Caldas dizia-se rio-grandense, mas affirmavam alguns que elle era nascido em Montevidéo, de familia brasileira. Vivia desde os vinte annos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda, de financeiros illustres e ministros afamados, chegando-se para as arvores de substanciosos fructos e boa sombra. Solteirão, intermediario de bons negocios, permittia se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cór.

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portuguezes, classicos sobretudo. Era com elle que o padre Assumpção conversava ás vezes sobre litteratura antiga, certo de que os bons livros espirituaes, como os profanos, tinham a mesma admiração no juizo competente d'aquelle homem de tão experta sagacidade.

Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os calices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.

—Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos annos, esgrouviado e bem vestido.

—Na familia de minha sogra... é filho da ama de minha mulher.

—Se não fôsse reliquia de familia, pedia-t'o para mim.

Feliciano serviu a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sahir, silenciosamente.

—Se me não engano, observou o Armindo Telles, vi-o outro dia em casa da Lolóta...

—Ah! tambem você?...

—Que! ir á casa da Lolóta? Mas toda a gente vae á casa da Lolóta!

—Até o Feliciano... murmurou Caldas.

—Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.

—Por isso ella discutiu leis com tanto apuro! Parabens. É uma mulher estonteadora...

—Não sei, a minha carta era ácêrca de negocios; ella é minha cliente.

—Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me peccador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para vêr se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assumpção!

O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.

—Peccar ainda é e será a coisa melhor da vida, continuou o Armindo; peccado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguem foge á tentação! Você conhece o dr. Aguiar?

—O da Caieira?

—Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da camara ou dos ministerios, manda a mulher ás secretarias ou á casa dos deputados. A mim procurou-me ella um dia no hotel, e, como o negocio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!

—E?...

—O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás a pretensão era justa; todavia, se a mulher fôsse feia, não digo isto por minha parte, creio que elle não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem «mais caso faz da formosura alheia»!

Armindo interrompeu o assumpto para sorver um gole de Chartreuse.

O padre Assumpção, talvez para desviar o assumpto mal encaminhado, por achar a proposito o trecho ou para fazel-o notar a Adolpho Caldas, leu alto uma phrase:

«...um peccado chama outro peccado, e este outro vem logo acompanhado até crear devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remedio. Miseravelissimo estado que abre as portas de par em par a todo o genero de vicio e apaga toda a memoria do Céo e da Eternidade».

Padre Assumpção fechou o volumesinho de Frei Luiz de Sousa, pôl-o na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.

Estava á espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva cahia em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de furia. Assumpção confessou:

—Estou com medo que o temporal d'esta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...

Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. D'ahi a pedaço, já desinteressado do poker e prestando attenção á bulha das aguas, Argemiro propoz que ficassem todos com elle: a casa tinha quartos para hospedes. Nenhum acceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e padre Assumpção affirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o vêr entrar.

A partida prolongou-se até ás onze horas, em que deixaram os baralhos, e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua atravez dos vidros das janellas.

—Chove ainda! E deve estar frio lá fóra! Parece-me que estou em Curitiba!

Padre Assumpção, voltando-se para o dono da casa, disse:

—Amanhã terei de ir á casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

Nossa Maria era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem baptisára e adorava.

—Nada... eu irei vel-a no domingo.

Quero ver se para a semana ella vem passar uns dois dias commigo.

—Aqui?

—De que te espantas?

—Ora essa! com quem a deixarás, quando tiveres de sahir?

—Vaes rir... Botei hoje um annuncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viuvo só.

—Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa.

—Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguem que me ajude a supportal-o. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia á sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mez.

—E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!

—Gloria não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho...

Caldas preveniu:

—Olha que essas madamas trazem anzóes nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominavel, a das governantes... Verás ámanhã que afluencia de francezas velhas á tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar socegadinho nos braços do Feliciano!

—Que lembrança, por annuncio! repetia o padre. Ainda se não tivesses tua filha...

—Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu logar. Nem quero vêl-a, mas sentir-lhe apenas a influencia na casa. É a minha primeira condição.

—Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse officio mulheres aposentadas, pela força da edade, de outros serviços! Feias mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cahirás doente, ella será uma enfermeira carinhosa e a comedia acabará quasi sem se sentir. É o costume. O Assumpção reprova-te. Eu aviso-te.

—Consultaste ao menos tua sogra? perguntou o padre.

—Não. Ella, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

—Não tires de lá a nossa Gloria. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por annuncio para tratarem da casa de um viuvo só, devem trazer intenções muito exquisitas. Será preferivel uma velha.

—Não! as velhas cheiram a gallinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que metti por experiencia em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha bôa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciaes, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

Armindo Telles, enfiando o sobretudo, de que levantou a golla até ás orelhas, offereceu-se para vir esperal-a no dia seguinte...

Adolpho Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta annos e não se resignaria a não conhecer monsieur... E concluiu:—cá estou para espectador da scena. Vamos rir.