A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 13 de 22

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A Intrusa

Capítulo XIII

 

A noite estava escura. Alice levantou a golla do casaco e, puxando o véuzinho até ao queixo, desatou a andar em direcção ao largo do Machado, sem paciencia de esperar o bond á porta de casa.

Atrás d'ella, a curta distancia, Feliciano não lhe tirava os olhos de cima, cosendo ás paredes o seu corpo esguio. A sombra, protectora de segredos, confundia-se com a côr do seu rosto, esvaindo-lhe a imagem. Os tacões da moça batiam na calçada em pancadinhas miúdas e sonoras; os delle dir-se-iam forrados de velludo.

A espionagem tem azas de morcego, teme a luz, mas espalma-se na treva sem rumor nem receio. Seu elemento é o mysterio. O desejo do mal é silencioso. Oh, se elle pudesse estender as unhas afiadas e fazer sangrar na escuridão a carne branca d'aquella mulher!

Não fôra ella quem o desprestigiara diante dos outros que elle dominara antigamente como senhor? Todas as suas fraquezas, os seus crimesinhos de infidelidade não tinham sido farejados e descobertos por essa creatura imperativa e doce a um tempo? Nem uma palavra lhe sahira dos labios, mas a verdade salta pelos olhos quando a não deixam sahir pela boca.

Ella sabia tudo. Tratava-o como um inferior, uma machina de serviço, sempre necessitada de direcção. Não fôra para isso que elle aprendera a ler na mesma cartilha da sua antiga Yayá!

Revoltado contra a natureza que o fizera negro, odiava o branco com o odio da inveja, que é o mais perenne. Criminava Deus pela differença das raças. Um ente misericordioso não deveria ter feito de dois homens iguaes dois seres dissemelhantes!

Ah, se elle pudesse despir-se daquella pelle abominavel, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se d'ella com alegria. Mas a abominação era irremediavel. O interminavel cilicio duraria até que no fundo da cova o verme puzesse a nú a sua ossada branca...

Branca! Era a mulher branca que elle preferia, desprezando com asco as da sua raça.

A superioridade d'aquella que ia toc-toc na sua frente, exasperava-o. O seu humor inalteravel, os seus habitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo para a intriguinha facil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a affronta d'aquella branca intromettida, que elle odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a compromettesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano...

Mas d'esse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com os da sua intelligencia e malignidade.

Tinha ainda na memoria uma sentença materna: «quem faz feitiço morre de feitiço» e essa idéa affligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... Aquella branca pobre e presumpçosa, que era mais do que elle na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do hombro, com um arzinho superior de patrôa fidalga?

—Ella ha de me pagar!

O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.

Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora.

Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.

O arrependimento entraria então no coração de Argemiro.

O bond tardava e Alice não diminuia o rythmo dos passos. Antes assim; elle gostava de ir andando a pé, atrás d'aquella figurinha nervosa e fugidia.

Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o passo é tardo. Pensava o negro: ella vai para alguma entrevista de amor...

Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéa a raiva pela usurpadora dos seus regalados descanços e da sua autoridade de chefe!

Ella matara o seu prestigio. Viesse quem viesse depois d'ella, encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fôra um dia o Feliciano, que lia jornaes nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços!

Um bond! E o bond parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos bancos da frente, conchegando com um arrepio o casaco côr de mel ao corpo friorento.

Feliciano, em pé na platafórma, não a perdia de vista.

No largo do Machado ella desceu e passando pela frente da igreja tomou a direcção da rua Bento Lisboa.

O negro, a pequena distancia, ia atrás d'ella, dando graças ao vento que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice accelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a afflicto, numa anciedade!

A sua admiração era não vêr apparecer um homem, a quem ella désse o braço, que a compromettesse e o ajudasse na intriga... De resto, elle não queria crêr, queria denunciar!

—De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga, meio arruinada.

Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor escuro, procurou vêr se estaria alguem a quem pudesse fazer qualquer pergunta na vizinhança, encostou-se a um humbral fronteiro e esperou, indignado, contra aquellas paredes, que um murro de homem deitaria abaixo e que lhe escondiam o mysterio desejado!

O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar á reclusão. As janellas fechadas entristeciam a rua, ordinariamente animada. Que se passaria lá dentro?

Feliciano esteve uma ou duas horas á espera, como um vigia cuidadoso, firme no seu posto. Nem uma restea, um tenue fio de luz vinha cortar a treva d'aquella fachada muda!

O negro tinha impetos de ir encostar o ouvido ás janellas ou penetrar no corredor, cançado de esperar, numa impaciência que o adoecia.

Eram quasi dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de Alice. Depois a moça reappareceu, puxando a porta sobre si.

A casa, impenetravel, guardava o seu segredo. Alice deslisava na sombra com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao ponto de onde partira tres horas antes!

Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguem que por ventura sahisse d'aquella casa. Alice nunca entrava nas suas quartas-feiras depois das dez horas; logo, ella marchava para o Cosme Velho. Interessava-o agora quem ficava alli. Começaram a cahir grossos pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampeões de gaz. Já sem receio de ser surprehendido, Feliciano verificou o numero da porta por onde Alice sahira, mas só se afastou quando ouviu que a ferrolhavam de dentro.

«Quem estava, fica... logo, vou-me embora». E elle voltou, intrigado, aborrecido, com maior odio ainda por aquella mulher que se lhe escapava de entre os dedos fracos quando julgava prendel-a para toda a vida!

Emfim já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da tóca, onde ella vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados...

Quem se fia em mulheres está bem servido!... pensava comsigo o negro, desandando no seu caminho. Esta inda é peor do que as outras, porque é fingida. Fingida como Judas!

—Ella ha de me pagar...

Alice deu volta á casa pelo jardim e entrou por uma porta do fundo, evitando um encontro provavel com Argemiro, que falava alto no escriptorio, junto á saleta da frente.

Cançada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o seu quarto, vigiando a porta do escriptorio, prompta a fugir num relance, caso elle apparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos, sorria com amargura ás palavras de Argemiro, que lhe chegavam nitidamente aos ouvidos. Elle arengava contra as mulheres. Os outros davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escandalos, riam-se alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada.

A uma phrase atrevida de Argemiro, respondeu Adolpho Caldas maliciosamente:

—Emquanto pelo annuncio do Jornal acudirem governantes moças para as casas de viuvos sós... Mas é que nem todos são viuvos, meu caro!

Telles riu alto; a voz de Assumpção disse qualquer coisa que a palestra dos outros suffocou.

Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo para o seu quarto, onde se fechou por dentro.

Quem falava agora na sala era o padre Assumpção:

—Ainda ha mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos. Tenho ouvido muitas Ruths no confessionario, e conhecido almas adoraveis de innocencia e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu pelos sacrificios,—que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes abnegações, sempre por parte das mulheres...

—Porque os homens não se confessam!...

—Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre, porque nunca a pobreza deixou de ser affrontada, nem a mulher deprimida...

—Meu evangelico Assumpção, parece-me que a tua psychologia está errada! Nós sacrificamo-nos muito mais...

—Nós sacrificamo-nos pelas idéas; ellas sacrificam-se por nós, que somos menos compensadores e mais ingratos...

—Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e revolta, é que ainda haja paes e maridos que consintam nessa abominação do confessionario. A religião não poderia ter inventado coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora.

—Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma peccadora, disse Telles, ao mesmo tempo que Adolpho continuava:

—A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo telegrapho para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei um assalto á tua bibliotheca. Preciso de Rodrigues Lobo... D'aquelle—Pastor Peregrino.

Assumpção, procurando o chapeu, exclamou:

 

«Cabellos que na côr formosa e pura

Estaes ao mesmo sol fazendo inveja,

Que confiança em vós será segura...»

 

Mas o Telles interrompeu:

—Olhem que o Argemiro está com somno e eu morto por me ver na pensão!...

Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma phrase do classico:

—Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco, na ventura senão, o que a meu desterro sem esperança e á minha vida desesperada convém.

—Sinto cheiro a bafio quando ouço classicos, commentou o deputado.

Adolpho accendia um charuto. Assumpção adiantou-se para mandar parar o bond.