A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 18 de 22

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A Intrusa

Capítulo XVIII

—Acceita este raminho de violetas, Sinhá? Disse Caldas com malicia.

O seu cahiu ao mar...

—Acceito, com a condição de poder dar a este o mesmo destino que dei ao outro...

Para tomar as flôres da mão de Adolpho, Sinhá voltou-se e relanceou depois o olhar em torno do pavilhão.

—Olhe quem está alli!... disse ella á mãe, baixinho, apontando com os olhos um certo ponto do cáes.

A mãe seguiu-lhe a direcção e tambem Adolpho, que lhe não perdera os movimentos.

Padre Assumpção estava de pé, e unida á sua murcha batina preta, Gloria esticava o pescoço para vêr bem o mar.

A Pedrosa trocou um olhar com a filha e voltou as costas ao padre. Sinhá demorou-se um pouco a contemplar com sympathia o perfil incorrecto de Gloria e o seu vestidinho de fustão branco sem laços. Depois, voltou-se para a bahia: calara-se a musica, e as baleeiras cortavam a agua céleres, vigiadas pelas barcas e por escaleres admiravelmente tripulados.

«A mãe não se esqueceu... mas a filha é já indifferente ao Argemiro... Amores novos...»

E já as lanchas guinchavam atordoadoramente, quando Adolpho metteu os hombros por entre a multidão.

 

XVIII

A pouco e pouco, autorizada pela ausencia do genro, a baroneza tomara posse da casa.

O marido intervinha ás vezes, aconselhando que deixasse á outra todas as determinações, ao que ella respondia—se valêra a pena ter sahido da chacara para se pôr á tutela da inimiga!

—Não, meu velho, tem paciencia, eu estou de sentinella á ultima vontade de minha filha. Elle jurou: terá de cumprir o juramento. Esta mulher é mais perigosa do que eu pensei, porque é tambem hypocrita e sabe conquistar pelo geito toda a gente. Menos a mim! Gloria pertence-lhe. Já me tem feito chorar, a filha da minha filha, por quem tanto me desvelei sempre! Até parece que já lhe vou perdendo o amor...

Não percebes o calculo?

—Não percebo nada. A rapariga trata como pode de ganhar a sua vida. O que tu fazes, filha, não é digno de ti. Inventaste uma paixão, onde talvez não exista nem sympathia, e vives a debater-te deante de fantasmas. A moça é fina; não é do estofo commum das governantes, isso é certo... Mas sabes lá, tu que tens vivido sem necessidades, a que sacrificios obriga a pobreza?

—Não faltam officios!

—Mas sobejam concorrentes... Eu sei o que vae por ahi! Olha: vou apontar-te um exemplo: o Dr. Theobaldo Ribas. Lembras-te? Um engenheiro distinto! Está com um emprego secundario numa companhia de empreitadas; a familia habita numa casinhola de porta e janella na Cidade Nova e póde-se adivinhar o que se passa lá dentro, entre oito crianças fracas e o casal sem recursos... Eu, francamente, não sei mesmo como esta pobre moça ainda te atura. Pelas desfeitas que lhe tens feito, se fosse outra...

—Ter-se-ia ido embora. É o que eu digo. Não tem brio. Mas o meu partido está tomado: custe o que custar e seja como fôr, hei de pol-a fóra d'aqui.

—Não faças isso!

—Ora essa! por que não?

—Não estás em tua casa!

—Estou na casa de minha filha.

—Para o que te deu! Tua filha só existe na tua imaginação. Capacita-te d'isso, pelo amor de Deus! É um caso de obstinação incomprehensivel, em ti, que foste sempre tão criteriosa. Acalma-te... e voltemos para a nossa chacara. Eu estou farto de cidade até aqui! E apontava para a calva.

—Voltaremos... deixa estar... eu tambem já não posso mais... A minha vida é um inferno... Todos esquecem, todos gosam, só eu vivo acorrentada ao passado, e revendo a todos os instantes a scena horrivel da morte de Maria! Está aqui tudo, tudo, estampado em meus olhos, enterrado no meu peito. A minha vida parou naquella hora! Não vejo, não ouço, não sei de mais nada. Os annos e os mezes têm corrido para mim ignorados. A minha existencia é a existencia da minha filha. O coração d'ella ficou dentro do meu. É o que eu sinto! Hei de defendel-o até ao ultimo extremo! Ás vezes, tambem eu acredito na loucura... Ao principio, emquanto Gloria era só minha, sentia até certa suavidade em conviver assim com a minha morta... Nota que já não digo: a nossa! mas agora, agora que a inimiga, a intrusa, me rouba tambem o amor da minha neta, sinto dentro de mim um clamor de choro que não posso suffocar, por mais que me esforce! Sou uma abandonada.

—Gloria adora-te, como sempre...

—Foge-me... esquiva-se... acha a minha companhia monotona... A outra conta-lhe historias, mostra-lhe gravuras, saracoteia-se com ella pelas ruas, até já a surprendi pulando na corda com a menina, como se fossem duas collegas, da mesma edade! As crianças gostam de alegria. É natural que a minha Gloria a prefira a mim! Tenho ciumes d'ella, sim, tenho muitos ciumes... E inda queres que a poupe e que me deixe roubar sem um protesto. Nunca!

—Consulta um medico... a tua excitação é doentia...

—Já me tardava! Um medico, e agua de flôr de laranjeira! A outra tambem te conquistou, a ti. Se te mandar dançar sobre a sepultura de Maria... tu dançarás?

—Talvez!

—Ainda o confessas!

—Mas, filha, que queres que eu faça?! Tenho pena de ti, mas não te posso dar razão. Quizeste vir, vim. Consumme-se o sacrificio. Faze o que entenderes, comtanto que voltemos depressa para a chacara. Consente, porém, que eu lamente a outra, como tu lhe chamas, e que a ache digna de maiores considerações. Agora deixa-me prevenir-te de que o Argemiro se cançou do desterro e volta ámanhã.

—Escreveu-te?

—Telegraphou a D. Alice, pedindo-lhe que mandasse o Feliciano esperal-o á Central.

—Ora, vê tu! telegraphou á outra, em vez de o fazer a ti, como era natural. Queres mais claro?!

—Eu sou hospede. É ella quem põe e dispõe aqui.

—É a dona da casa!

—Tal qual.

—E achas isso toleravel?

—Perfeitamente. É paga para isso.

—Elle deve chegar?...

—Ámanhã, ás oito da manhã.

—São?...

—Tres horas da tarde.

—Tão pouco tempo!

—Achas pouco?! repara que ha um mez e dois dias que elle partiu; e para quem conhece os hábitos do Argemiro, faz espantar tamanha demora...

—Fugiu de nós...

—Já pensei nisso...

—E eu que o amava como filho!

—E ainda lhe queres muito bem.

—Não...

—Lembras-te de ser sogra, quando já não o és...

—Sou.

—Em vida de Maria o teu genro era para ti um deus!

—Porque fazia a sua felicidade. Mas agora trahiu-a... Vamos lá para baixo. Onde estará Gloria mettida! Ámanhã... elle volta ámanhã... e eu tenho sido tão cobarde... não sei o que me dá, quando vejo aquella mulher! Delambida. E em baixo d'aquella pelle macia ella tem uma alma de ferro. É dura.

—O Argemiro não ha de gostar quando souber que nunca a admittimos á nossa mesa...

—Ella ia á d'elle, porventura?

—É differente.

—Ora...

—Tambem não lhe agradará a confiança exaggerada que dás ao Feliciano...

—É cria de casa...

—É um velhaco.

—Tambem te desagrada?

—Completamente.

—Pobre rapaz... Prouvera a Deus que a outra fosse tão sincera...

O barão limitou-se a sorrir, com escarneo e tristeza.

Desceram.

A baroneza gritou:

—Feliciano! onde está minha neta?

—No quarto de D. Alice...

—Vá chamal-a.

E depois, como para si: a casa não é tão pequenina assim; o diabinho da menina mette-se naquelle quarto maldito... para que?!

O barão desceu ao jardim, calado, sem disfarçar o seu aborrecimento e um certo pavor. Começava a scena...

Feliciano batia com os nós dos dedos na porta da governante.

—D. Gloria?

—Que é? respondeu ella de dentro.

—Sua avó está chamando a senhora...

—Diga a vovó que já vou. Estou desenhando!

A baroneza exasperava-se, passeando na sala de jantar. E como a menina não apparecesse logo, ella gritou:

—Feliciano!

—Senhora?...

—Então?

O negro sorriu malevolamente:

—Estão conversando...

—Bata outra vez! Diga que venha já! Desaforo!

Feliciano voltou a bater, maciamente, sem impaciencia.

—D. Gloria?

—Já vou! Diga a vovó que espere só um bocadinho...

Era demais! aquillo precisava ter um fim. Até a neta lhe desobedecia! Sim, senhores! A obra da outra estava completa! A não ser o negro, todos conspiravam contra ella. Até o marido... até a filha da sua filha!

Pela porta aberta da saleta ella via na parede fronteira o retrato da filha, muito desbotado, esvaindo-se, cercado por uma moldura de ébano.

«Emquanto eu viver, meu amor, será lembrada a tua ultima vontade... não me esqueci; eu vivo só para a tua memorial...» Pensou ella. E depois, por entre dentes:

—Parece que ella está fazendo de proposito... mas commigo não se brinca!

Feliciano rondava a scena, disfarçadamente, polindo com um trapo de camurça os trastes já polidos. Fôra por manha que entreabrira a porta da sala, quasi sempre fechada, bem em frente ao retrato da morta e, sem parecer olhar, elle vigiava todos os movimentos da baroneza. Ella tremia de raiva por não vêr chegar a menina.

—Ora já se viu uma coisa assim! Querem maior provocação! E apontando para o relogio: ha mais de cinco minutos! Isto não póde continuar... Está bonito!

E imperativamente, furiosamente:

—Feliciano?!

—Senhora?

Apezar da sua mascara de seriedade, percebia-se, que o negro estava por dentro contentissimo.

—Diga a D. Gloria, uma vez por todas, que venha já ou que eu vou buscal-a pelas orelhas!

Feliciano quiz prolongar aquelle desespero e arrastou os movimentos, calculando o tempo para maior accumulação de odio; mas a baroneza, impaciente, passou-lhe á dianteira e caminhou pelo corredor para o quarto da governante.

—É agora! pensou o negro, encostando-se a um humbral, para vêr.

Gloria, já de pé, punha em ordem a sua pasta de desenhos, e Alice cosia perto da janella, quando a baroneza, empurrando com força a porta do quarto, apenas encostada, entrou, livida de raiva, no aposento.

—Vovó!

Alice levantou-se, perplexa.

—Já, lá para dentro! não ouviu? Ha que tempos a mandei chamar e a senhora é assim que obedece ás minhas ordens?! Quem manda aqui? Sou eu, ou é aquella mulher? Diga!

—Vovó... eu...

—Nem uma desculpa! Não quero ouvir mais nada! Tudo é mentira! Já; lá para dentro! e não me torne a pôr os pés neste quarto.

—Vovó...

—Cale a bocca! ande!... ande!

E, pela primeira vez em sua vida, a baroneza empurrou com as mãos fechadas, brutalmente, o corpo da neta.

—Saia d'aqui! já disse! Rode depressa, antes que eu perca a cabeça! Fuja! que está-me ficando perdida pelas más companhias!

E, sem interromper o tom de furia, com os olhos vermelhos, a papada tremula, voltou-se para Alice:

—Quanto á senhora, não é precisa para nada aqui. Se fosse outra teria comprehendido que já é demais. Eu sou sufficiente para tomar conta da casa de minha filha. Veja quanto se lhe deve e retire-se hoje mesmo.

Alice, com os olhos engrandecidos pelo espanto e pela lividez nervosa das faces, respondeu, forçando a calma:

—Não conheço a senhora sua filha.

—É demais!

—Considero a casa como do seu genro e só elle poderá dispensar os meus serviços.

—Isso é um atrevimento!

—É uma resposta.

—Bem me diziam que a senhora não era apenas uma criada, mas tambem a amante de Argemiro!

—Enganaram-na. Nem uma, nem outra coisa.

—Se fosse outra, eu não precisaria dizer tanto, para que já estivesse lá fóra! Capacito-me de que realmente a sua companhia é prejudicial á minha neta e não hesito em pôl-a na rua. Saia!

Alice não respondeu, fixando os olhos no rosto transtornado da baroneza. E depois, com raiva subjugada:

—E se eu não quizer?...

—Sahirá á força. De mais a mais, é cynica!

—Sou honesta. Estou de guarda a um logar que me confiaram e que deffenderei até á morte. Seu genro chega ámanhã. Partirei depois d'elle ter entrado nesta casa. Antes, não! não, não e não!

—Ah, a amaldiçoada! Imagina talvez que Argemiro a prefira a mim! Exclamou a baroneza com uma gargalhada insultuosa.

Alice mordeu os beiços para não responder: todo o corpo lhe tremia, como num accesso de febre.

Gloria corrêra para o quintal. E era como se a casa se desmoronasse sobre a sua cabeça. Que razão teria a avó para querer tanto mal á D. Alice? Que iria succeder?! A quem gritar por socorro?

A voz da baroneza perseguia-a. Sentia nos hombros o peso das suas mãos irritadas. Quem lhe diria!... A loucura?! Seria a loucura?! Deveria chorar pela avó, pela sua razão perdida, ou salvar a moça, que ficara sózinha em sua frente? mas salvar como, se ella tinha medo? Gloria atirou-se chorando para o jardim, na ancia da liberdade e do silencio. O avô ao vêl-a comprehendeu tudo e correu a amparal-a.

—Que tens, meu amor?!

Animada pela presença do velho, a menina agarrou-o com força.

—Venha, vovô... corra... vovó é injusta... é má... está dizendo coisas terriveis á D. Alice... não sei o que é... Vovó me bateu!... pelo amor de Deus... ande depressa!

O avô resistia; mas, ao ouvir-lhe as palavras—vovó me bateu— endireitou-se num espanto e olhou de perto para os olhos da neta.

Não! ella não mentia. Os alegres olhos da sua Maria da Gloria estavam cheios de lagrimas, em que boiavam uma grande decepção e uma terrivel dôr.

—Ah, se papae estivesse aqui!

O barão apressou-se, agarrado á neta; mas ao approximar-se do quarto estacou. Não devia entrar. Não queria entrar. Em vão a neta o impellia, supplicando-lhe que interviesse.

Elle sabia. A mulher não cederia por nada d'esta vida. O mal estava feito; para que recomeçal-o?

Não conseguindo abalar o avô, Gloria avançava sózinha para o quarto, affrontando tudo, quando a baroneza sahiu, hirta, com os labios afinados e pallidos, os olhos circulados de rôxo. A menina recuou espantada. Nunca a avó lhe parecera tão alta.

—Que estás fazendo aqui? Eu não te disse que não tomasses a pôr os pés neste quarto?!—Rugiu ella ao topar com a menina.

—Vovó...

Mas a avó não quiz ouvil-a, e agarrando-a por um braço foi-a levando, numa furia.

O marido, mettido num vão de janella, não a interrompeu, temendo exacerbal-a com as suas ponderações. Passado o offêgo do desabafo ella se explicaria.

Apiedava-se de um rumorzinho de chôro que lhe parecia perceber agora no quarto da D. Alice. As mulheres são terriveis, pensava elle, devoram-se umas ás outras, como animaes de especie differente... Até a minha, que foi sempre incapaz de torcer o pescoço a uma gallinha, dá-se agora, depois de velha, ao prazer de torturar uma creatura sua semelhante... E, afinal, coitada, quem soffre mais é ella... que não encontra remedio para a sua doença. Aquillo já é doença... E ora aqui chegámos, ao desfecho que ella tanto ambicionava e eu tanto temia... E agora? Que se teriam dito?...