A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 6 de 22

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A Intrusa

Capítulo VI

Apoderou-se d'elle uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais! Nunca mais? Fôra tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra mulher tivesse jámais o poder do o emocionar?

Nenhuma! Ella perdurava no seu espirito como o conjunto de todas as perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabelleira aureolava de ouro pallido, plantara-se no seu coração como uma sentinella prompta a repellir á invasão de um sentimento amoroso, por mais leve e subtil que elle fosse.

O continuo voltou, annunciando novo constituinte.

Nas suas tócas os ratos faziam provisão de assumptos para os commentarios da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o novo consultor fornecer-lhe-ia materia para ironicas conclusões: era um velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro indicou um collega mais habil no assumpto. O outro sahiu, elle poz-se a ler, á espera do Caldas para um negocio de valor.

Razão tinham aquellas paredes para parecerem desgostosas e estarem enxovalhadas. Só a torpeza que rolava entre ellas!

 

VI

 

Desde que fôra entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Gloria dormia fóra de casa. A baroneza morria de impaciencia por vêl-a voltar; á tristeza da ausencia juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria succedido á sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilancia? Se ella chegasse com febre! Que idéa maldita a de tirarem a criança d'alli, para a metterem na cidade, por uma noite inteira!

Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pasteis.

A baroneza estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria.

—Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades!! Coitadinha...

—Coitadinha por que, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito!

—Ah, gostaste muito... Então não tiveste saudades minhas...

—Tive, mas gostei. Tome estes pasteis, são muito bons.

—Eu tambem tenho um doce guardado para ti.

—Onde está?

—Depois... escuta, conta-me o que fizeste.

—Passeei com papae, toquei, brinquei... Já disse: gostei muito!

—E...

—E... e o que?!

—A tal... a tal mulher, como a achaste?

—D. Alice? É tão boa! sabe? hontem ella me ensinou a fazer crochet, e deu-me depois a agulha e o novello de lã!

—Ora que prenda, crochet! Eu não aprecio isso. Ella é bonita ou feia?

—É bonita!

—Ah...

Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciume, com maldade.

—Tomaste banho hoje?...

—Tomei. Foi D. Alice quem me penteou. Sabbado voltarei para lá, sim, vovó?

—Já?! mal chegaste já pensas em voltar!

—D. Alice pediu...

—Ora, D. Alice!

A baroneza retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bella manga-rosa que ella trazia de olho havia dias...

—Socega, menina! Olha para mim!

—Estou com pressa...

—Deixa-me tirar a faixa... como este laço vem mal dado... não has de ir com este vestido para o quintal!

Que penteado! logo se vê que a tal mulher não tem geito para tratar de crianças!

—Como não tem?! É tão delicada...

—Dize-me cá: em que quarto está dormindo?

—No quarto azul...

—Da sala de jantar?!

—Não. Em cima, aquelle do terracinho.

—O gabinete de trabalho de Maria! Será possivel? Para uma empregada, um quarto tão bonito...

E tu, onde dormiste?

—Ao pé d'ella.

—Na mesma cama?!

—Não; mas no mesmo quarto...

A baroneza suspirou. Ella não pudera conciliar o somno, em frente á cama vasia da neta! e a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nella!

O trabalho da baroneza seria agora afastar Maria quanto possivel da idéa de voltar á cidade. Disputal-a-ia á outra, a ferro e a fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua sympathia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausencia da baroneza...

No meio d'essa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta á chacara dos velhos.

Gloria corria pela checara; o barão lia sob alpendre e a baroneza, a seu lado, serzia meias, socegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta á velha, que foi a mais prompta em estender a mão.

—Então, Feliciano, como vae tudo por lá?

O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se.

—Que temos? indagou o barão.

—Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sabbado!...

—Pois lá a levarei.

—Não póde ser. Vou no domingo com ella á Tijuca; já está isso decidido.

—Tijuca! que idéa é essa?

—É uma idéa como outra qualquer! Estou sempre como os caracoes mettida em casa, e quando fallo em sahir lá vem tudo a baixo!

—Estimo que saias; mas que diabo! vae noutro dia á Tijuca e deixa a pequena ir vêr o pae no sabbado, como se combinou.

—Ha muitos sabbados; neste ella não poderá ir. Elle que venha jantar comnosco no domingo.

Eu vou almoçar á Tijuca com a minha neta e voltarei ás quatro horas para casa. É uma promessa.

—O Argemiro póde ficar sentido...

—Que fique. Eu preciso mais da neta que elle da filha. Lá tem outras consolações...

O Feliciano sorriu e approvou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escriptorio responder ao genro. Antes mesmo que a baroneza perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou:

—Aquella casa já não parece a mesma... se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!... Pobre de quem morre!

A baroneza suffocou o desejo de indagar do criado aquillo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a offerecer:

—Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma chicara de café.

—Obrigado; tomei lunch lá em casa antes de sahir... apesar de que agora anda tudo muito contadinho...

—Isso é bom. O tempo não está para estragos...

—Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despezas talvez sejam maiores... D. Alice tem uma récua de parentes pobres... Para a gente ás vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ella não dê do bom e do melhor do armario. Até vinho.

—Até vinho! exclamou inconscientemente a baroneza; e logo, reprimindo se: a caridade é aconselhada por Deus...

—Mas deve começar por casa... A senhora não diga nada ao patrão, porque elle agora é só: D. Alice na terra e Deus no ceu!

—Ah...

—A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfações. Ella, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachóla! Eu não gosto de fallar, mas... ha certas coisas... hontem não affirmo, mas pareceu-me que D. Alice trazia no peito um alfinete...

A baroneza pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro.

—A senhora não se lembra de um alfinete que Yayá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras?

A velha corou até á raiz dos cabellos e abriu a bocca, como se lhe faltasse o ar.

—Não diga nada ao patrão, pelo amor de Deus! eu não affirmo... Póde ser outro alfinete... sómente...

—Cala-te!... É impossivel que as coisas chegassem até esse ponto!... Oh! minha filha!

—A senhora perdôe... mas acho do meu dever...

—Eu fallarei a Argemiro!

—Pelo amor de Deus! a senhora me perde! Deixe eu adquirir certeza e depois lhe direi toda a verdade... juro por quem está no céu! Lá vem seu barão... não diga nada a elle tambem!

—Por que não? estás doido! Se não mentes, não deves temer coisa nenhuma!

—É porque assim serei despedido e não poderei velar de perto pelo interesse de D. Gloria...

A baroneza já não ouviu as razões do preto e gritou para o marido, num desabafo:

—Sabes o que me disse o Feliciano?! Que a tal Alice se empavôa com as joias de nossa filha, joias que só podem ser usadas por Maria! Vê a que ponto chegou aquillo! E ainda querem levar a minha Gloria para lá! Nunca mais!

O barão voltou-se furioso para o negro, que repetia afflicto as suas palavras:—não affirmo... parece-me... não digam nada, pelo amor de Deus!

—Vá-se embora! E não me torne cá, seu patife! gritou-lhe o velho, fóra de si. Não queremos saber de nada, ouviu? De nada! Suma-se!

A baroneza interveio a favor do rapaz, aconselhando-o a calar-se; entregando-lhe a resposta escripta pelo marido, accrescentou:

—Gloria não iria, nem nesse domingo nem em nenhum outro! Passassem por lá sem ella! Era o que faltava!

Foi exactamente nesse instante que a menina, percebendo o criado do pae, correu para elle com um ramo de rosas na mão.

—Você já vae, Feliciano?

—Já, sim senhora...

—Bem; então leve estas rosas a D. Alice!

A baroneza fez um gesto para impedir tal incumbencia; mas o barão travou-lhe do braço:

—Deixa-a lá.

—Minha pobre filha, exclamou a baroneza olhando para o céu; não sei como hei de defender-te sózinha!

E os olhos encheram-se-lhe de pranto.

—Lagrimas, ahi temos lagrimas! Mas, querida, repara que a nossa Gloria não offendeu em nada a memoria da mãe e lembra-te tambem de que, se fôr verdade o que pensas, o Argemiro é rapaz, não póde guardar a castidade de uma menina... Que mais queres?

Amou a nossa filha, fêl-a feliz durante a vida e isso basta para lhe sermos muitissimo gratos.

—Que favor!

—Se ella vivesse, estou certo de que elle lhe seria fiel... mas d'ella já não resta senão a memoria. Os homens são vários, não exijas d'elles virtudes que não podem ter... Almas immaculadas só as das mães.

—Para mim, Maria existe, sinto-a tão viva na minha saudade, que trahil-a me parece uma profanação!

—Exactamente, porque és mãe.

—Não achas tambem indigno que elle dê as joias da mulher a uma rapariga de maus costumes e que metteu em casa, precisamente na casa onde viveu a outra e que está ainda toda cheia d'ella?

—Parece-te a ti. Elle, o viuvo, deve ter sentido o isolamento d'aquella casa, onde por nove annos viveu sózinho! Nove annos não são nove dias. Outro fosse elle... De mais a mais no Rio de Janeiro, que é a terra da tentação!

—Defendes o Argemiro!

—Tu havias de comprehendel-o e dar-lhe razão se...

—Se eu fosse homem...

—Ou se não fosses mãe de Maria...

—Maria! Acredita, ella renasce todos os dias, sinto muitas vezes o peso d'ella sobre os meus joelhos, ou nos meus braços, como quando a adormecia... Vejo-a desde pequenina, e de quando andava por ahi correndo com o seu bibe branco e o cabello solto, lembras-te? Tão linda! até depois, já mocinha... e sempre, sempre, tenho-a commigo, só commigo! Ás vezes sinto nos dedos a seda dos seus cabellos tão finos e no rosto a doçura dos seus beijos...

Sei que é illusão, mas quem nos diz que no mundo não seja tudo illusão?

A alma perfeita e amorosa de Maria não está longe de nós, mesmo que esteja no céu. É a minha convicção.

—Uma alma perfeita perdôa todas as offensas.

—Mas soffre. Imagina a dôr, se do outro mundo ella vê o marido pregar amorosamente as suas joias ao peito de outra mulher, e que mulher, uma mercenaria!

Maria foi ciumenta... Argemiro foi o seu unico amor!

—Está bem; mas não acredites que elle tenha dado as joias da mulher á outra...

—O Feliciano viu...

—O Feliciano é um despeitado.

—Quando te parece, és cego e és surdo!

—Todos devem sêl-o em certas occasiões!

—A tua opinião é talvez que me cale!

—Que te cales e que mandes a nossa Gloria todos os sabbados visitar o pae. Elle assim o quer e manda, faça-se a sua vontade.

—Isso nunca! Seria uma desmoralisação! O meu dever é velar por minha neta!

—Argemiro é um homem sério e muito amigo da filha.