A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 11 de 22

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A Intrusa

Capítulo XI

—Não quero mais nada, filho, estou enthusiasmado! Basta-me o espanto, que é dos maiores que tenho tido em minha vida. É adoravel.

Gloria, já risonha, veio puxal-os para a mesa, que o avô enfeitara toda de margaridas brancas. Dr. Telles discutia politica com o barão. A baroneza, affastando-se do padre, com quem conversava, designou o logar a cada um dos convivas e sentou-se á cabeceira.

 

XI

 

A casa do dr. Pedrosa era uma das mais antigas da rua do Senador Vergueiro. Á sua fachada, de velho estylo portuguez, a vaidade do dono mandara addicionar uma cimalha, que encobria as telhas aldeãs com os seus floreados medalhões de estuque e dois torreões lateraes, ligados ao corpo central por passadiços envidraçados, de caixilhos miudos. Dentro de um vasto jardim, fechado por gradil prateado, essa residencia ficava meio encoberta da rua por dois misericordiosos tamarineiros, altos e frondosissimos.

Num dos torreões fazia o senhor ministro o seu gabinete de trabalho. O outro, todo esteirado e guarnecido de kakimonos, era chamado em casa o «pavilhão japonez», e destinado a Sinhá, que ahi recebia as amigas e pintava as suas timidas aquarellas.

Era noite de recepção e a Pedrosa embarafustou pelo quarto da filha.

—Estás prompta?

—Sim, mamãe.

—Que! de azul?! Não! muda de vestido. Branco, branco! Trouxe-te os meus brincos de perolas. Toda de branco, só com estas duas perolas nas orelhas, ficarás melhor. Como uma noiva...

O olhar da mãe acariciava a filha, que sorriu com tristeza.

A Pedrosa tornou a sahir, recommendando pressa; ella ia para a sala esperar os amigos; antes de abrir a porta puxou a filha a si e beijou-a com ternura.

A moça começou passivamente a desenlaçar o seu vestido azul, pensando no ar mysterioso com que a mãe a attrahira naquelle beijo.

Sem poder obedecer ás ordens maternas, que lhe haviam imposto pressa, ella, mal enfiou o seu vestido branco, deixou-se cahir sentada na beira do leito e alli ficou um largo espaço de tempo, com os olhos fixos no vacuo e os dedos embaraçados nas fitas desatadas do cinto.

Tinha pensado muito desde aquelle passeio ao Corcovado e começava a comprehender o seu papel... A mãe offferecia-a ao Argemiro... era por causa d'elle que lhe puzera nas orelhas aquellas perolas, que pareciam queimal-a... Porque? Porque elle era rico e occupava na sociedade um logar brilhante... Amava-a elle? não!... amava-o ella? talvez...

Na verdade, a imagem de Argemiro nunca se lhe apresentara senão levada pela mão da mãe... lembrava-se mesmo de que a primeira vez que o vira achara-o velho e triste... depois, a pouco e pouco, habituara-se a imaginar-se noiva d'aquelle homem sério, que todo o mundo dizia votado inteiramente á sua viuvez... e agora eil-a enciumada de uma mulher de cuja existencia até ás vesperas nem suspeitara e que occupava já o logar que a mãe lhe destinava a ella!

A figura de Alice desenhava-se inteira deante dos olhos pasmados da moça. Revia-lhe o rosto de um moreno pallido, de feições irregulares; o talhe esbelto do corpo, as mãos longas, o vestido cinzento, alegrado por uma gravatinha azul...

Que idéa faria d'ella o Argemiro? Um leve rubor subiu-lhe ás faces e ella escondeu o rosto entre as mãos geladas.

A criada veio apressal-a. Sinhá levantou-se resolutamente e concluiu a sua toilette sem hesitação.

Quando entrou na sala, a mãe, entre um grupo de amigas, conversava com um homem gordo, de longos bigodes côr de vinhatico. Apresentou-a; era o encarregado de negocios de Inglaterra no Rio de Janeiro!

Sinhá cumprimentou-o, admirada da habilidade da mãe; ella conseguira o seu desejo!

Alli estava na sua sala o homem por quem ella subira inutilmente ao Corcovado. Bem o dissera ella: realizo todos os meus emprehendimentos!

Attendendo ás visitas que rodeavam a mãe, Sinhá prestava attenção, a vêr se distinguia a voz de Argemiro entre as vozes dos homens que palestravam no gabinete do pae.

Ahi, entre os livros de direito e de economia politica, arrumados em estantes de canella ou espalhados sobre a secretária e a mesa, conversavam animadamente Adolpho Caldas, Argemiro, dr. Sebrão, o Conselheiro Isaias e o dono da casa.

—Fallem-me de tudo! exclamava o Pedrosa supplice, menos da politica! Vocês não imaginam! não lhes direi que estou farto d'ella até aos cabellos, por que sou careca; mas ultrapassa a minha força atural-a até nos cavacos entre camaradas.

Conselheiro Isaias, lembrando-se lá comsigo do empenho de Pedrosa para alcançar a pasta, commentou do canto onde acolhera o seu corpinho murcho:

—Percebe-se o sacrificio...

Caldas levantou-se com estrondo, disfarçando a malicia do outro, e foi ao lampeão reaccender o charuto, emquanto Pedrosa continuava:

—É muito grande, e só mesmo a patria poderia exigir tanto de mim. A acção de governar vae-se tornando cada vez mais difficil e mais perigosa nesta terra... Nós temos maus auxiliares e o povo tem má fé... A opposição agora serve-se de todos os meios para impedir-nos os passos, usando das armas mais perfidas, que são as do ridiculo e as da calumnia...

—Essa senhora é velha como Socrates... não faça caso... disse o conselheiro.

—Não faço caso, mas no fundo, francamente, desgosta-me. Trabalho sem interrupção e a final...

—Não faz nada! disse o conselheiro rindo.

—Não seja perverso, amigo! ou declare-se já contra mim! Quem sabe se é você o auctor d'aquelles versinhos que andam por ahi carpindo a minha falta de eloquencia e de desinteresse, que julgam as qualidades primordiaes para um homem de Estado!

—E são...

—Nego. Um politico, do que precisa, sobretudo, é de tenacidade, sangue-frio, patriotismo, sinceridade e um grande dominio sobre as suas paixões... além das qualidades superiores, que lhe são indispensaveis, de intelligencia e de illustração...

—É por isso que o seu collega Marcondes está fazendo tão bonita figura!... Disse ainda o conselheiro, com um fundo suspiro. Riram-se todos, que bem conheciam os dotes fraquissimos do Marcondes.

Pedrosa continuou, com um sorrizinho magnanimo:

—Elle é bem intencionado, e trabalha!

Ha dias em que nem tenho tempo de beijar minha filha... O homem publico é um galé, principalmente neste nosso paiz, em que os mais puros devotamentos são sempre interpretados ás avessas!

—Muito bem! Apoiado! exclamou o conselheiro, levantando-se.

—Eu sei que você é um homem corajoso, desde aquella celebre caçada que fizemos juntos em Theresopolis... lembra-se? perguntou, sorrindo, o dr. Sebrão ao Pedrosa.

—E com bastantes saudades!

—Quem tem edade e competencia para arcar com o peso de uma pasta é alli o amigo Argemiro... disse o conselheiro Isaias.

Argemiro protestou; era um homem sem maleabilidade; não podia servir bem á politica. Ao mesmo tempo o dr. Sebrão, voltado para Adolpho Caldas, começou a descrever a caçada feita com o Pedrosa e outro amigo nas florestas da serra.

—Tinham-nos fallado em javalis. Uma madrugada partimos da Varzea, montados nuns velhos cavallos de aluguel, nós e mais um velhote de Theresopolis, que se inculcara como excellente guia. Levavamos boas armas, bom farnel para o almoço, estando combinado voltarmos a jantar com a familia. Trotámos para o alto, o velhote na frente, nós muito esperançosos, atrás. Chegados a um certo ponto amarrámos os animaes e mettemo-nos a pé pelo matto. Imaginem que entrar nas florestas da serra é como entrar na treva. Alli, para se ser bom caçador é preciso ter affeito a vista á escuridão do hervaçal e ter creado sobre a epiderme uma segunda pelle, ou melhormente uma especie de couro, onde os espinhos se quebrem sem lograr ferir. Cada vez que os nossos pés se afundavam no colchão de folhas mortas, a idéa de ser mordido pelas cobras juntava-se ao prazer de conseguir matar algum porco do matto. O guia assegurava ter encontrado signaes: galhos quebrados, rastro de animaes em fuga. Seguimol-o com fé. Era prudente almoçar cedo. Comemos á beira do Paquequer, entre touceiras cheirosas de lirios côr de marfim. As aguas convidavam. Quiz banhar-me, mas o Pedrosa ponderou que a fresquidão da lympha applacaria o meu humor sanguinario, que antes deveria ser exacerbado por um golfinho de paraty... Tropeçando em troncos, enrodilhando-nos em cipós, alagando-nos até ao queixo em vallas, passámos o dia inteiro á espera da porcada glorificadora! Mas os diabos dos porcos, zombando dos caçadores sem cães, deram-nos ao desprezo. Escureceu. Quer dizer: o negrume ainda se fez mais negro. O guia, desnorteado, levava-nos para um lado, para outro, sem achar sahida...

Tiritando de frio, rodeados pelo fragor da agua e do vento, alli passámos uma noite pavorosa; eu gemendo com dôres nas articulações, Pedrosa febril e impressionado com a idéa do susto que havia de estar curtindo a nossa boa D. Petronilha... Só no outro dia, ás dez horas, esfomeados, lanhados e rotos, conseguimos sahir da mata. Correu todo o mundo a vêr-nos. As familias choravam. Tinham andado pelas estradas, á noite, com archotes, gritando por nós... Tivemos de passar cabisbaixos e envergonhadissimos por entre os curiosos... explicar aventuras... imaginarias... E querem vocês saber? Passaramos a noite a pequena distancia de um hotel! O barulho da agua e do vento abafou os outros rumores que nos denunciariam essa salvação. Foi uma tragedia comica!

—A evocação não foi das mais felizes para consolar o amigo Pedrosa das suas attribulações! disse ainda o murcho conselheiro Isaias, levantando-se do seu canto. E depois, para o Argemiro:

—É tempo de irmos prestar as nossas homenagens ás senhoras; não lhe parece?

Levantaram-se todos e iam para a sala, quando o dr. Telles, entrando pela porta do jardim, reteve o Pedrosa, que deixou sahir os outros e se ficou com o deputado confabulando sobre politica.

Caldas, antes de entrar na sala, puxou Argemiro de parte e, com o pretexto de acabar o charuto, encostado ao gradil do passadiço, espalhando baforadas para o jardim, foi avisando:

—Olha que a Pedrosa já teve uma conferencia commigo a teu respeito, esta tarde!

—Hein?!

—Não me faças repetir palavras: aviso-te de que já se sabe por aqui que tens uma ménagère moça, bonita... e que os conceitos são naturaes. Quero dizer: maldosos.

—Ora!

—Ora! mais nada?

—Então? que lhe respondeste?

—Fiquei meio burro... disse-lhe que effectivamente tu tinhas uma ménagère, mas que a não conhecias!

—E ella?

—Riu-se.

—Riu-se?!

—Escandalosamente. Eu tambem me ri.

—Tu?!

—Que querias que eu fizesse? Crias uma situação de comedia e impões seriedades de melodrama?

—Mas que tem ella com a minha vida? Já se viu uma tal indiscreção? É boa!

—Cubiça-te para genro. Sabes perfeitamente disso! Estás farto, fartissimo de o saber, e ainda te admiras? Ora, meu velho!

—Mas essa senhora já deve estar convencida de que não lhe acceito a filha. Não quero casar! Aposto em como não aproveitaste a occasião para lhe dizer isto?!

—Certamente que não! mas afinal aquella rapariga que lá tens em casa, é séria ou não é séria?

—Eu presumo que sim.

—Se é séria, manda-a embora, porque a comprometes; se não é... não deves ter escrupulos em fazel-a passar como tal!

—E minha filha? Lembra-te que tenho uma mulher em casa, não tanto pela boa ordem de minha vida como para poder recebel-a e guardal-a de vez emquando commigo... E depois, sabes que mais?! pouco me importo com a opinião dos outros! Deita fora o charuto. Vou despedir-me lá dentro. Estou enojado. Lá te espero quarta-feira. Não te esqueças...

—Ó egoista! lá irei com um baralho novo!

Argemiro entrou na sala a tempo de applaudir a Sinhá, que acabava de tocar uma rêverie ao piano. Vendo-o, a Pedrosa foi ao seu encontro:

—Pensei que fosse hoje todo do meu marido! Chego a ter ciumes da politica, acredite!

Elle sorriu.

—Foi pena que não tivesse ouvido Sinhá desde o principio... ella toca com muito sentimento... anime-a... diga-lhe, embora mentindo... que a apreciou... as suas palavras são o melhor incentivo para ella...

A Pedrosa procurou a filha com a vista, para approximal-a de Argemiro, mas já a moça desapparecera da sala.

Argemiro percebeu-lhe a contrariedade no olhar e apressou-se em dizer meia duzia de banalidades, á espera do momento de se despedir. Mas a Pedrosa tinha que dividir a sua attenção. Estava com a casa cheia, e as moças mostravam desejos de dançar...

Por fortuna, as sobrinhas, as tres filhas do dr. Adão, ajudavam-n'a a armar as quadras para os lanceiros, tirando pares e influindo os moços, que se deixavam arrastar, por complacencia, para o meio da casa...

Como faltasse o pianista, foi mesmo a Pedrosa para o piano, rompendo com força os primeiros compassos da quadrilha. Argemiro aproveitou aquelle instante de alegria, para ir buscar o chapeu e o sobretudo ao pavilhão japonez e sahir para a rua sem ser visto.

O pavilhão estava a meia luz, para que toda a força do gaz convergisse para a sala. Nas paredes forradas de esteirinha as japonezas dos kakimonos requebravam-se entre os setins das suas kobaias e o ouro das borboletas e dos crysanthemos dos seus penteados... Carinhas de marfim, graciosamente pendidas sobre os hombrinhos estreitos, pareciam offerecer as cerejas das boquinhas para a guloseima de um beijo. Aves e insectos delicados, de azinhas transparentes, voejavam entre os galhos de pecegueiro em flôr, nos pannos cinzentos dos biombos. No meio do pavilhão, um enorme vaso bojudo, fabricado em Kioto, sustinha um profuso ramo de camelias brancas, grandes e silenciosas...

Os passos de Argemiro morreram ao entrar no pavilhão, abafados na esteirinha, e elle dirigira-se para o fundo, onde deixára o agasalho, quando Sinhá sahiu de tráz do biombo e veio ao seu encontro, trazendo-lhe ella mesma nas mãos a capa e o chapeu.

Argemiro não pôde conter um movimento de surpreza. Ella, muito séria, com uma gravidade que a tornava linda, estendeu para elle o agasalho e disse com um fio de voz suave e triste: