A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 20 de 22

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A Intrusa

Capítulo XX

Sinhá!... o pavilhão japonez... Fechava-se o panno sobre essa fantasia, cujo interesse se deixara todo para o fim. Estimava a felicidade da moça. Levar-lhe-ia uma prenda que o lembrasse no seu lar, eternamente. Era feliz, essa. Começava. E elle? Estava no fim. Sem destino, aborrecido, cançado... e ancioso!

 

XX

 

—Feliciano! diga á Sr.a D. Alice que eu desejo fallar-lhe...

—Ella está na sala de jantar, com D. Maria da Gloria...

—Bem, então não á incommode; eu vou lá.

O barão sumira-se atrás do genro, pela escada acima, e o padre Assumpção seguiu pelo corredor.

Gloria enfeitava uma cesta de flôres e fructas, dirigida pela governante. Era para o centro da mesa do almoço. Assumpção parou entre portas, ouvindo-as sem ser presentido:

«...tenha o cuidado, Gloria, de combinar as côres, de modo que umas façam resaltar as outras... por exemplo, sempre que tiver flôres escuras, como estas rôxas, ponha-as ao lado de brancas ou de amarellas... Refresque o musgo com agua todos os dias... não consinta na mesa de seu pae nenhuma falta... você já está uma mocinha... Hoje, por exemplo, offereça-se para lhe descascar uma laranja, e assim procure servil-o todos os dias... Não... essa maçã não fica bem ahi... repare que é da mesma côr do pecego... ponha-a antes aqui, entre esta camada de musgo...

Assumpção interrompeu-as:

—D. Alice...

Alice voltou-se. Estava pallida, com os olhos pizados de choro.

Gloria exclamou:

—Ah! padre Assumpção! estou muito triste.

—Já sei; vae brincar um pouco, minha filha, preciso fallar com a tua mestra...

—Eu não sou mestra...

—Assisti ainda a um trecho de lição!...

—Conselhos... só...

Gloria, entretanto, sussurrava ao ouvido do padrinho:

—Faça com que ella fique cá em casa, sim?!

E sahiu correndo.

—Sabe o que a Gloria me pediu?

—Adivinho...

—Recebi hontem uma carta do barão, dizendo-me que a senhora quer deixar esta casa...

—Despediram-me.

—Hein?!

—Despediram-me.

Assumpção quedou-se attonito deante da moça.

—Não se admire; os meus serviços deixaram de ser precisos, já sou de mais aqui.

—Mas...

—Presenti no senhor um amigo, e sei que me defenderá mais tarde. Isto já é uma compensação! D'aqui a duas horas sahirei d'esta casa...

A voz tremeu-lhe, um rubor cobriu-lhe as faces, e concluiu:

—Logo que tenha feito as contas com o Dr. Argemiro...

—Suppuz que a resolução tivesse sido sua, e por isso procurei-a em primeiro logar, desejando convencêl-a a mudar de idéa...

—Enganou-se... Fui posta na rua, e se não fosse corajosa teria abandonado hontem mesmo o meu posto. Não quero que saiba pela minha bocca do que se passou. Outros lh'o dirão. Só lhe peço uma coisa: affirmar que eu sou uma rapariga absolutamente honesta, se acaso ouvir qualquer allusão desairosa...

—Não ouvirei; todos a consideram aqui e eu sei bem quem a senhora é. Estive em sua casa.

—O senhor!

—Mas não o disse a ninguem. Descance. Permitta que a deixe, para ir fallar á baroneza. Vejo que era a ella que eu me deveria dirigir primeiro... Em todo caso, prometta-me não sahir sem fallar com o Argemiro.

—É só por isso que eu espero...

Assumpção contemplou-a. Ella fizera-se de novo como um lacre.

—Que tenciona dizer-lhe?

—Prestar-lhe as minhas contas. Tenho tudo em ordem. É questão para uns vinte minutos...

Dizem-se num minuto mais de cem palavras... pensou o padre comsigo; terão tempo de conversar!...

O Feliciano entrava e sahia, remexendo nos talheres, abrindo e fechando gavetas, maciamente.

Sentindo passos na escada, Alice fugiu para o interior. O padre voltou-se. Era o barão.

O velho approximou-se.

—Então... como recebeu o homem a noticia?

—Mal...

—Hum... foi o diabo!...

—A senhora baroneza?...

—Oh, você sabe, minha mulher não póde tolerar a outra. Aquillo é uma doença. Doença que nem os medicos nem os padres curam... Esgotei todos os argumentos a favor d'esta pobre rapariga; afinal, comprehendi que o melhor seria deixar correr a agua ao sabor da corrente. Os factos brutaes resolvem ás vezes questões delicadas melhormente do que palavras doces. Depois, esta situação é intoleravel e não podia ser prolongada, sob pena de ver a minha mulher no hospicio ou na sepultura... Sacrificio por sacrificio, mais vale o da moça... lá terá na propria mocidade consolação para os seus desgostos... se esse nome merece o dissabor do desemprego. Afinal, não devemos exaggerar os factos. Casas não faltam para essa especie de serviço. Mais lamento eu o Argemiro, que vae voltar aos embaraços antigos logo que tornemos para a chacara... Veja você se conhece alguem nas condições de substituir esta moça... D. Sophia talvez possa indicar...

—D. Alice é insubstituivel.

—Ora, ora! tambem você!

—Eu, mais do que ninguem, posso affirmal-o. Como sabe, Argemiro pediu-me que tomasse informações da governante, logo que se decidiu a confiar-lhe a filha... A mim bastava-me vêl-a e ouvil-a para perceber que a nossa Gloria estava bem entregue... mas a missão era tão delicada, que insisti em leval-a até o fim, mais com o proposito de defender a pobre moça d'estes ataques, previstos, do que por desconfiar d'ella. O acaso ajudou-me.

Um amigo de meu pae, o coronel Barredo, que tem a especialidade de saber a chronica de meio mundo, veio ao meu encontro, e por me ter visto a conversar com ella, desandou a fallar a seu respeito, poupando-me o trabalho de uma inquirição, para que me faltava o geito...

—Isso seria vago...

—Era positivo. O Barredo estava ao facto de tudo, conhecia até a fórmula do contracto entre Argemiro e D. Alice! Ha d'esses homens extraordinarios, cujas vistas perfuram paredes e desvendam mysterios... Ainda nós não sabemos do que se passa em nosso interior e já elles estão senhores do nosso segredo!

—As informações que elle deu foram então...

—Magnificas. Terei occasião de repetil-as agora deante da Sr.a baroneza.

—Pelo amor de Deus, não tente uma reconciliação! Seria recomeçar!

—Não se tractará senão de uma reparação. Mas sempre os conheci justos e amigos de fazer bem.

—Caridade bem entendida por nós mesmos é começada...

—Não se falla agora de caridade, mas de justiça!

—Dir-se-ia discutir-se a sahida de um ministro de Estado!...

—Esta é mais sensivel e merece maior ponderação.

—Emfim, o que está feito está feito. Parece-me que não vou agora pedir á menina que fique, pelo amor de Deus! Eu fiz muito dirigindo-me a ella e pedindo-lhe desculpa pela fórma por que minha mulher a despediu...

—Ah! e ella o que disse?

—Gaguejou umas coisas, fez-se vermelha, eu creio que o estava tambem, e voltei para o meu quarto mandando ao diabo as mulheres! Ah! Assumpção, estou morto pelas minhas mangueiras e o socego da minha casa. Passou-me a edade das fantasias, mas não me posso cohibir de lamentar minha mulher.

Ella está doente, levanta-se de noite, não dorme sem o retrato de Maria em baixo do travesseiro... É o seu fanatismo. A sua religião! O amor de mãe desvaira-a... Que soffrimento!

A mim, já me quer mal por eu defender o Argemiro, quando allude á probabilidade de outros amores!

Veja só...

Assumpção não respondeu; olhava machinalmente para o jardim bem relvado, fresco das regas e illuminado pelo fulgor dos ibiscos vermelhos e os cachos rôxos das viuvinhas. Aqui e alli, roseiras de qualidade vergavam as hastes molles ao peso de grandes rosas perfumadas. Em baixo da janella, num heliothropo florido, palpitavam borboletinhas brancas...

O barão interrogou o padre sobre o ultimo facto politico. Assumpção respondeu apenas. Mal entendia d'isso, apezar dos esforços da mãe com o sentido de o interessar pela vida... A ambição pessoal dos homens fazia-lhe mal aos nervos...

Feliciano passou assobiando pela porta do quarto de Alice. Fôra um desafogo á alegria que lhe alvoroçava a alma; mas conteve-se antes de entrar na sala, onde o esperava um olhar de censura do padre.

Pouco lhe importou. Alma de negro não é alma de cão. Senão, veriam d'ahi por deante quem mandaria alli!

 

Quando Argemiro desceu para o almoço, foi avisado de que a sogra o esperava na sala de visitas. A conversa precisava discreção,—imaginou logo do que se tratava. Ia ser bonita, a historia! Onde se teria mettido a Alice? Vinha-lhe agora uma curiosidade doida de a vêr!

Na sala encontrou os sogros e Assumpção, com um ar de solemnidade que o desorientou.

A baroneza derramava pelo sofá as dobras da sua saia, em frente ao retrato da filha, suspenso sobre um guéridon, entre dois grandes jarrões cheios de rosas brancas. Só faltam as velas!... pensou comsigo Argemiro, dando com a vista naquella especie de oratorio.

A sogra, emmagrecida e pallida, chamou-o para seu lado, e antes mesmo de qualquer cumprimento, foi-lhe dizendo:

—Meu filho, de accôrdo com a ultima vontade d'aquella que está alli, despedi hontem a sua governante. Sei que lhe dou um desgosto com isto e lamento-o; mas a minha consciencia impunha-me este acto de salvação para a sua alma e de paz para o espirito amoroso da nossa pobre Maria!

—Eu não a comprehendo... mamãe!

—Argemiro! a minha convivencia nesta casa com essa mulher provou-me que as minhas suspeitas tinham fundamento. Ella ama-o.

Argemiro não conteve um movimento de surpreza:

—É impossivel!

—Antes eu tinha a intuição d'isso; tive depois as provas, toda a certeza. Encontrei-a muitas vezes aqui, olhando para o seu retrato; vejo a ternura com que ella aperta nos braços sua filha, o desvello exaggerado com que trata tudo que diz respeito á sua pessoa e como enrubece ao pronunciar o seu nome. Affirmo-lhe que o ama. Eu nunca me enganei. Certa d'esta verdade, deliberei despedil-a antes da sua chegada, do que não me arrependo, por que era tempo de acabar a comedia, que não podia ser presenceada por minha neta.

—Minha senhora!

—Ah! já não diz minha mãe!... Era ainda... Emfim! peço-lhe desculpa se o offendi.

—Fallemos com calma. Não sei em que lingua hei de dizer, para fazer-me entendido: que nem sequer sei a côr dos olhos d'essa senhora, cujas feições ignoro e cuja voz mal tenho ouvido a distancia! É bonita? é feia? Que me importa! Nunca a vi. Não quero vêl-a. Para mim ella não é uma mulher, é uma alma apenas, que me enche a casa de perfumes, de conforto, de doçura, como nunca tive em minha vida.

—Nem no tempo de Maria?! Era o que faltava ouvir?

—Mas não fallemos do passado, pelo amor de Deus!

—Como não, se a elle está você preso por um juramento?! Nega ter jurado á minha filha, na hora da morte, fidelidade eterna?!

—Não deixei ainda de cumprir tal promessa; mas não teria escrupulo em fazel-o se as condições da minha vida o exigissem. Esse juramento foi sincero, mas mesmo sem sinceridade eu o faria naquelle transe, para adoçar o passamento de minha mulher...

—Quer você dizer com isso que romperá tal juramento...?!

—Sem escrupulo, já disse.

—A religião prohibe-o que o faça!

—Eu não sou religioso.

—Ah! vêem?! elle tambem a ama! Minha pobre filha! Minha pobre filha!

A baroneza estava tremula, ameaçadora. Crescera de estatura, passavam-lhe pelos olhos fulgores de mocidade e de odio.

—Se a religião não lhe impõe o cumprimento do dever, appello ao menos para a sua honra.

Não a terá tambem?!

—A minha honra obriga-me antes a defender essa pobre moça calumniada, do que a manter um voto que já produziu o seu effeito e de que nesta hora me liberto.

A baroneza recuara espavorida, com olhos de assombro. O marido sumia-se, encolhendo-se todo para dentro de si mesmo. A velha voltou-se afflicta para Assumpção, como a pedir soccorro. Seria possivel que elle, padre, testemunha de tudo, não viesse em seu auxilio?!

Elle comprehendeu-a e encheu-se de dó, ao mesmo tempo que dizia:

—Argemiro tem razão; a sua honra obriga-o a defender essa moça, muito mais digna de consideração que de desconfiança.

Foi ainda influenciada por paixões terrenas que sua filha exigiu do marido essa promessa. Desprendida do mundo, a sua alma tornou-se toda tolerancia e doçura, e seria offendel-a imaginar que os sacrificios d'aquelles a quem amou lhe sejam caros...

—Sacrificios!

—Ao contrario; no ceu, só será completo o seu goso se na terra vir felizes aquelles que a choraram. Creia, minha amiga, a pessoa que a senhora condemna com tamanha injustiça é de uma perfeição moral difficil de attingir.

Eu respondo por ella como se fôra minha irmã.

—Detesto-a!

—Ha de estimal-a um dia.

—Nunca!

—Bastará que eu lhe conte isto:

A baroneza abandonava-se, com desanimo, sentindo-se muito só. Os outros esperavam, voltados para Assumpção. Elle começou:

—Esta moça, que toda a gente recebeu com certa malignidade, de que eu não fui isento, exerce o encargo de governante d'esta casa para manter uma velha paralytica e um velho cego, verdadeiros cacos humanos, que ella visita todas as quarta-feiras piedosamente e de quem é o amparo. Filha unica de um advogado brasileiro, Constantino Galba e neta materna do General Vitalino Ortiz, logo que perdeu a mãe, foi mandada a educar num dos melhores collegios da França, onde viveu até que, por morte do pae, ficando quasi reduzida á miseria, voltou ao Brasil.

Aqui, por toda familia viu-se entre dois criados, uma velha que já fôra ama do pae, e o marido, antigo camarada do avô. Bens, só tinha uma casinhola velha em que se accommodou com o casal dos derradeiros amigos. Encararam os tres a vida com animo. O homem trabalhava ainda e viveram quasi sete annos dos recursos d'esse trabalho e de outros, incertos, de D. Alice: costuras... pinturas... bordados... Afinal lá chegou um dia em que o velho teve de sahir de scena. Cegou. Trabalhara demais. Com o desgosto e outras fadigas da edade, fica-lhe a mulher paralytica; e eis a nossa D. Alice entre esses dois seres de redobrado peso. Redobrou tambem ella de actividade nos trabalhos manuaes... propoz-se a dar lições... mas não lhe appareciam discipulos; os trabalhos, mal remunerados, não matavam a fome aos seus velhos...

Foi por essa occasião que appareceu no Jornal do Commercio um annuncio offerecendo um bom ordenado a uma senhora para governar a casa de um viuvo. Ella não hesitou. Os seus velhos teriam pão, ella um pouco mais de descanso... A filha do advogado, a neta do general, sujeitou-se a esse emprego para matar a fome aos seus criados.

A baroneza olhava para Assumpção, interrogativamente. Seria verdade tudo aquillo?...

Elle continuava:

—A pobreza apura os dotes naturaes da creatura; ella trouxe para aqui a experiencia do sacrificio... Ouçam agora: quando leva dinheiro para casa, o velho, zeloso, apalpa-lhe o pescoço, os pulsos, os dedos, a vêr se ella tem joias... A velha acha tudo pouco! Elle préga-lhe moral... desconfia... a outra queixa-se de necessidades... Ella socega a um, promette á outra e volta para os sarcasmos d'esta situação e para as pirracinhas do Feliciano. Senhora baroneza! Isto que eu lhe digo é a verdade. Eu vi.

A baroneza nem pestanejava. Sumira-se-lhe a côr dos beiços. Estava livida.

Argemiro curvou-se todo para o amigo:

—Viste?

—Vi! Um dia fui chamado a levar soccorros espirituaes a um doente. Era a paralytica. Foi junto á sua cadeira de rodas, que o marido me contou toda a historia de D. Alice. Conheciam-me de nome e preferiram-me a outro padre qualquer, exactamente para me fallarem d'ella, e pediram-me que a protegesse! O velho tinha medo; conhecia as tentações do mundo e a fraqueza das mulheres... queria ouvir da minha bocca palavras que o socegassem. Soceguei-o. No dia seguinte voltei, a saber da paralytica; tinha melhorado. Estava eu lá, quando, percebendo os passos de D. Alice, os velhos supplicaram-me que me occultasse. Ella ficaria vexada se me visse alli; occultei-me. Foi do meu esconderijo que assisti á scena de humilhações a que me referi. Não tinham bastado as minhas affirmações; o cego apalpou nervosamente os dedos, os pulsos, as orelhas da moça, á procura da joia compromettedora... A paralytica pediu-lhe goloseimas. Enjoara tudo. Morria de fraqueza...

Agora, senhora baroneza, creio que não preciso dizer mais nada...