A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 9 de 22

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A Intrusa

Capítulo IX

Por seu lado, a baroneza temia vêl-o fugir para outras adorações, e não cessava de lhe lembrar a triste supplica da filha.

Agora, porém, não se tratava de juramento; Argemiro não o violaria por amar Alice, dando lhe um lugar deixado vasio a seu lado. Esta solução, que ella não previra, enchia-a de dôr. Afinal elle não tinha outra esposa, mas tinha outra mulher!

Por mais que dissessem, a baroneza não acreditava que dois entes moços, vivendo sempre na mesma casa, não se vissem nunca; e desesperava-a a idéa de atirar Maria todas as semanas para aquelle poço de hypocrisia e de immoralidade!

 

IX

 

A Pedrosa empenhava-se na conquista de Argemiro. Não contente de o convidar com insistencia, arrebanhava-lhe os amigos para os seus jantares das sextas-feiras, em que a sedução rescendia até nos molhos do peixe. Adolpho Caldas, que se gabava aos intimos de fazer os relatorios do ministro, traduzindo para portuguez castiço a linguagem quebradiça do homem de Estado, não faltava nunca a essas reuniões; e o deputado Telles, governista, assistia aos banquetes com o desassombro de quem concorria poderosamente para a felicidade e o prestigio d'aquella casa.

Argemiro, o mais solicitado, era incerto. Só o padre Assumpção se esquivava sempre a essas honrarias, allegando que o seu sacerdocio o afastava de todos os gosos profanos. Para se aproximar tambem d'este amigo, a Pedrosa não lhe faltava ás suas missas das quartas-feiras, allegando devoção particular a S. José, patrono do marido e offerecendo pela mão da filha esmolas gordas para os seus pobres.

A esmola vinda d'aqui, d'alli ou d'acolá, mata da mesma maneira a fome. É dinheiro. Padre Assumpção agradecia sinceramente. S. José que valesse áquellas almas interesseiras, que outras menos dignas iam á sombra do seu manto peccar na egreja, sem que do seu peccado resultasse algum bem para os necessitados...

Que ambicionava afinal a Pedrosa? casar a filha com um homem de bem. Expôr a menina áquelle desfrute, não era por certo acção digna de uma mulher criteriosa; mas a boa justiça encontraria para ella certa indulgencia... Desgostavam-n'o mais as outras, que á sombra dos altares iam falar de amor, alli no interior sagrado da sua querida Matriz da Gloria!

Pensaria por exemplo a Eugenia Duarte, que elle, padre, via com bons olhos a sua assiduidade na egreja? Fôra sua confessada, sabia-a casada, com filhos, um lar precisado da sua presença e do seu carinho...

E lamentava os filhos d'essa mãe, abandonados todos os dias, á hora exactamente de saltar do leito e da bençam maternal... Outra, cuja presença o inquietava alli, era a Joaquininha Lobo, sempre com os pulsos cheios de rosarios, sempre a dobrar-se em profundas reverencias deante das imagens dos santos. Tambem essa fôra sua confessada, e debandara como as outras, affligidas pelos seus conselhos e pelas suas admoestações... O marido d'esta vivia em viagens, como official de marinha; ella rabeava pelas egrejas, dando entrevistas entre padre-nossos, sempre envolvida em grandes obras de beneficencia.

Numa quarta-feira, sahia o padre Assumpção de dizer a sua missa, quando foi abordado no adro pela Pedrosa e a Sinhá, que o aguardavam com a competente esmola. Em baixo, junto aos degráus, esperava-as o coupé. O dia estava magnifico.

—Reverendissimo!

—Minhas senhoras...

—Acabamos de receber a sua bençam e viemos esperal-o para darmos esta esmolinha aos seus pobres...

—Meus ou dos outros, todos os pobres me merecem a mesma consideração. VV. Ex. as devem têl-os tambem...

—Repelle então o nosso offerecimento?!—perguntou a Pedrosa desapontada.

—Não tenho esse direito. Sómente, se me permittirem... eu ensinarei a uma das minhas velhinhas o caminho da sua porta, e a esmola será então, dada directamente, mais agradavel a ambas...

—Isso não obsta... darei outra esmola á sua velhinha!...

A Pedrosa continuava de mão estendida; e como o padre não a acceitasse logo, ella disse com a sua costumada vivacidade:

—O sr. padre Assumpção desconfia de nós!... não crê por certo na sinceridade da nossa sympathia. Tem sempre reluctancia em acceitar as nossas esmolas!

—Engana-se, minha senhora, engana-se! Não posso recusar o que não é para mim!... Todavia, desculpem-me a teimosia, a pessoa a quem eu destinaria esse dinheiro procural-as-á amanhã. Posso morrer de um momento para o outro... é bom que ella conheça as suas bemfeitoras...

—Morrer! Quem fala nisso, ainda tão moço!

Elle sorriu com ironia, sem responder.

—Diga-me, que fim levou o nosso amigo Argemiro? Não ha quem o veja!... Não sei quem me disse têl-o visto ha dias com a filha... ella ainda mora com a avó?

—Sim, minha senhora...

—Então elle vive sózinho... absolutamente sózinho?...

—Sózinho.

—Que barbaridade!... Aquella ovelha está tresmalhada do seu rebanho... não lhe parece, padre Assumpção?

—Ao contrario, Argemiro consagrando-se á saudade da sua mulher, está bem escudado contra os perigos do mundo... Mas, minhas senhoras, perdôem-me VV. Ex. as estar a entretel-as aqui, com este sol!

—Ao contrario, eu...

Mas o padre apressou-se no cumprimento e as duas senhoras não insistiram na conversa, percebendo que elle tinha uma preoccupação qualquer.

Ficaram as duas ainda alguns segundos no alto da escada, vendo a longa figura secca e angulosa do padre atravessando, a grandes pernadas, o jardim.

—É um homem difficil de conquistar... já não sei quantas esmolas lhe temos dado, não sei quantos convites lhe temos feito... parece antipathisar comnosco...

—Se eu fosse a senhora não lhe dava mais nada, nem o tornaria a convidar para ir lá a casa. Por ser padre não deve ser grosseiro...

—É o melhor amigo do Argemiro... Comprehendes que o não convido só pelos seus bellos olhos.

—Ah...

A Pedrosa olhou para a filha com certo espanto.

—Mamãe espera mais alguem?!

A Pedrosa, por unica resposta, começou a descer a escada, e ao entrar no coupé gritou para o cocheiro:

—Estação do Corcovado!

Sinhá, sentando-se a seu lado, indagou curiosamente:

—Vamos ao Corcovado! a esta hora! fazer o que?

—Almoçar...

—Sózinhas? E papae?

—Teu pae não almoça hoje em casa.

—Mas elle sabe?

—Ha de saber, quando eu lhe disser.

—E se elle não gostar?...

—Tolinha... vejo que não tenho outro remedio senão ir-te dizendo já o que adiava para mais tarde. Não sahiste a mim na perspicacia...

Sinhá olhava para a mãe com uma linda expressão de estupidez.

—A razão por que vamos almoçar ás Paineiras não pôde ser desagradavel a teu pae. É esta:

Está lá em cima no hotel o encarregado dos negocios da Inglaterra. Fui-lhe apresentada ha dias rapidamente: convém fazer-me lembrada... Aquelle homem póde ser muito util a teu pae. Apparecendo lá, como por acaso, elle forçosamente virá cumprimentar-nos. Almoçaremos talvez á mesma mesa e terei ensejo de lhe repetir o offerecimento de nossa casa. É uma relação util. A vida, minha filha, é como uma caixa vasia que os soffregos e os tolos enchem com tudo que topam, e os atilados só com coisas escolhidas.

Se não fosse a minha tactica, pensas que teu pae teria alcançado as posições que tem tido?!

—Julguei que fossem só os seus merecimentos que...

—Tontinha! Só pelos merecimentos, sem um pouco de manha, ninguem faz nada neste mundo!...

—Mas, sendo papae ministro a utilidade das relações é toda para o tal inglez!

—Não, filha; o homem é consideradissimo no alto commercio e só por iniciativa d'elle podem advir para teu pae grandes sympathias... e choverem-lhe manifestações de apreço, que são sempre de um optimo effeito. Um banquete, por exemplo, offerecido pelo alto commercio a um ministro, pensas que não lhe accrescenta a importancia? É preciso ter faro para se perceber bem isso.... Catando-se seixinhos podem-se fazer castellos... Este é um proverbio inventado por mim e de que te não deves esquecer...

—Mamãe não receia...

—Quem tem medo não vae á guerra. E depois, medo de que?

—Que percebam...

—Faço tudo com muita diplomacia; sei disfarçar a minha vontade, fazel-a triumphar sem que ninguem a perceba. É um dom peculiar e que eu desejo transmittir-te. Mas acho-te muito frouxa; és ainda muito innocente, muito ingenua. Lá para deante, quando tiveres os teus trinta annos, me comprehenderás. Apesar de que eu, desde que me conheço sou assim... atilada e corajosa. Quando me casei, teu pae não passava de um advogado pobre... Quem o lançou na politica? Fui eu. Quem trabalhou para a sua eleição de deputado e que maior numero de votos alcançou? Fui eu. Quem o levou pela primeira vez ao paço de Suas Magestades? Fui eu, e tinha apenas vinte e dois annos!... Quem, depois de proclamada a Republica, o persuadiu de adherir e lhe arranjou uma cadeira no Senado? Eu. Quem o fez ministro agora? Eu. Eu sempre, servindo-me d'estas estrategias, aproveitando todas as occasiões e todas as sympathias, obsequiando um dia para insinuar no outro uma protecção que parecesse vir espontaneamente; realçando os méritos de teu pae, quer de espirito quer de coração, seguindo-o como um cão de caça segue o caçador, através de todos os perigos, corajosamente.

—Se papae não tivesse qualidades extraordinarias, a senhora, por mais que fizesse, nada alcançaria!... interrompeu Sinhá, defendendo os brios paternos.

—Ah! eu não havia de ser tão tola que me casasse com um insignificante. Casei por amor, mas tambem por vêr em teu pae um homem de altas tendencias. As mulheres são mais ambiciosas e mais activas. Homem que casar com mulher accommodada, está perdido. É outra maxima das minhas. Toma nota.

—Homem que se casar com mulher accommodada... repetia Sinhá, quando a mãe continuou:

—Já minha avó era assim. Casou todas as filhas com quem muito bem quiz. Os homens com herdeiras ricas, as filhas com senadores e conselheiros...

—Com homens velhos...

—Homens de posição. Que vale a mocidade sem dinheiro e sem brilho?

—Oh! mamãe...

—Não vale nada!

—Papae era moço...

—Nem tanto... Em todo o caso, maridos querem-se como os fructos: maduros. Teu pae era de familia distincta, excellentemente relacionado; percebi logo muito bem que seria feliz. E effectivamente elle tem sabido deixar-se levar.

—Por quem?!

—Que pergunta! Pelas circumstancias... e por mim! Olha que saber levar alguem a um destino desejado, sem que nem mesmo esse alguem perceba que vae sendo impellido por mãos alheias... é uma grande arte! É a minha. Mas, credo! em que disparada nos leva o João!... isto cança os animaes!

—Leva-nos sem arte... disse a Sinhá, sorrindo.

Ella tinha agora a fronte velada por uma sombra de tristeza. O vestido escuro, abotoado até ao queixo, fazia-lhe resaltar a pallidez do rosto emoldurado por dois ondeados bandós pretos.

—A casa do Argemiro não deve estar longe... Ahi está o Argemiro! já não é muito moço... os cabellos começam a pintar. Entretanto, conheces algum rapaz mais distincto?!

Sinhá não respondeu. A mãe, depois de ter esperado um pouco, continuou:

—Elle fará a tua felicidade. É dos taes que precisam de ser estimulados... Tendo tantos recursos, não se serve de nenhum! Nem deputado é.

—A eterna mania da politica...

—Não ha nenhuma mais patriotica. Mas advirto-te que não deves alcunhar de manias as minhas opiniões...

—Mamãe desculpe...

—Olha! a casa d'elle é aquella... é bonita... é própria... repara! Será tua...

—Já reparei, mamãe!...

—O unico inconveniente é a filha...

—E elle não gostar de mim! accrescentou Sinhá.

—Queiras tu! Para mim isso seria até um estimulo. Sempre gostei de vencer difficuldades...

—Eu sou muito mais fraca...

—Deixa isso por minha conta...

—Mamãe!...

Sinhá fez-se vermelha e não conseguiu dizer mais nada. Aquella palavra dita em tom de supplica parecia tel-a engasgado. Estava com os olhos cheios de agua.

A Pedrosa continuou:

—Trabalharei para a tua felicidade, como tenho trabalhado para a felicidade de teu pae. Digo-te isto só a ti e exijo que o não repitas a ninguem! É uma lição de experiencia, que te deve aproveitar. Infelizmente, no mundo só os expertos alcançam bom logar. Quem não tiver cotovellos não se metta nas multidões...

—Outro adagio, mamãe?

—Não é, mas póde servir... O padre Assumpção ainda ha de fazer o vosso casamento; e quero-lhe então ver a cara! Acha o pateta tão justo que o amigo exgote a mocidade a choramingar pela mulher defunta!

—Deve ser bom, ser chorada assim!

—Qual o que! nem a outra vê nada! Ella já em vida parece que não via grande coisa... Era tão vaga... tão vaporosa!

—Bonita?

—Hum... Delicada... Precisamos arrancal-a do coração de Argemiro.

—Deixe-a... Não devemos guerrear os mortos!

—Nem nos deixar vencer por elles. Endireita o teu chapeu... repara para o meu... está bem?

—Está bem...

O carro rodou ainda alguns minutos. Quando chegaram á estação, a Pedrosa recommendou ao cocheiro que as viesse esperar ás quatro horas, e subiram para o trem que estava a partir.

Sinhá, perturbada pelas theorias da mãe e procurando uma das extremidades do banco, voltou o rosto para fóra e fez toda a viagem olhando para o matto. A Pedrosa não interrompeu o silencio; tambem ella precisava recolher-se, arregimentar as idéas, preparar a sua scena...

Ás onze horas no jardim do hotel das Paineiras, não havia ninguem.

A sombra das arvores derramava-se silenciosa sobre mezinhas núas. Só numa estavam restos de apperitivo em dois copos. A Pedrosa calculou logo que aquelle vermouth tivesse sido ingerido pelo encarregado dos negocios da Inglaterra—e olhou com sympathia para os calices sujos...

Sinhá seguira até a extremidade do jardim e olhava para deante, para o valle despido de neblinas, resplandecendo no azul do dia. Entretanto, a Pedrosa encommendava o seu almoço alli mesmo, no ponto mais visivel do jardim, inquirindo ao mesmo tempo com a vista se o inglez estaria almoçando na sala de jantar...

Não estava; e o criado, geitosamente interrogado, declarou ter Sua Excellencia descido no primeiro trem, para ir buscar um amigo a bordo do Magdalena.

A Pedrosa olhou com raiva para os dois copos de vermouth e apressou o almoço!

Sinhá contemplava a paizagem magnifica, afastada da mãe, perturbada por um sentimento que não saberia explicar. Era como se meia despertada de um sonho extravagante a sua consciência não pudesse determinar ainda bem a realidade da vida, presentindo-a apenas...

Um dia de setim, macio, vasava sobre montes e mares uma luz clara, destacando as copas das arvores e os pedregulhos das praias, escorregando pelas encostas acolchoadas de matto, de onde irrompiam pios de aves e manchas alvinitentes das umbaúbas. Duas grandes borboletas de um azul doirado intensissimo, perseguiam-se, indo e vindo, ora ao pé, ora longe da moça, que as acompanhava com o olhar deslumbrado. Para onde ia uma, partia logo a outra, para voltarem juntas, pousarem no mesmo galho, beijarem a mesma flôr.

Amam-se, e o amor deve ser aquillo, o não poder estar uma sem a outra, na ancia do beijo definitivo, do laço que as prende até á morte!... Felizes as borboletas, que procuram sózinhas os seus casaes...

—O homem foi-se! exclamou a Pedrosa, approximando-se da filha. E logo depois:

—Estás com os olhos chorosos!

—É de olhar para a luz...

—Bem, vamos almoçar. Ora que contrariedade! O bebado não podia escolher outro dia para ir buscar o amigo! Diz que foi buscar um amigo a bordo. Emfim, é um passeio... ha de fazer-nos bem... ficará para outra occasião...

—A senhora não desiste?

—Não. Nunca desisto do que emprehendo.

Senta-te. Mas elles estão pondo alli outra mezinha... Tens fome? Eu perdi o appetite. Isto aqui sem companhia é insipido... E eu que dei ordem ao João para me esperar ás 4 horas.

A outra mezinha era para um casal, a mulher morena e robusta, o marido já grisalho e magrinho.

A Pedrosa reconheceu-os logo que os viu e disse á filha:

—É a Marianninha Serpa, do Rio Grande... foi minha collega nas Irmãs. Deus queira que não me reconheça!...

—Porque?!

—Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos evitar outras... esta senhora é casada com um medico e tem d'elle não sei quantos filhos... abandonou a familia e participou agora a toda a gente o seu casamento com este...

—O outro morreu de desgosto?

—Não; em primeiro logar, porque o desgosto não mata; depois, porque elle tambem se casou com outra!

Sinhá arregalou os olhos, espantada.

A manhã era de revelações! Ella cuidára sempre que os laços do matrimonio eram indissoluveis... A grande poesia do casamento parecia-lhe estar na perpetuidade do amor e na perpetuidade do voto. Que era o casamento, então? um contracto quebradiço, sujeito a ser violado logo ao primeiro amúo?

As idéas embaralhavam-se-lhe na cabeça. Ainda na vespera discutira-se á mesa, era sua casa, a lei do divorcio. E o proprio pae affirmára que ella jámais seria decretada no Brazil... Interrogou a respeito a mãe, que respondeu quasi em segredo:

—Elles estão olhando para nós... disfarça... não convem falar nisso agora... A Marianninha já me conheceu... não fosse eu a mulher do ministro... verás como me abraça!

Assim aconteceu.

Pelos fins do almoço a Marianninha atirou o guardanapo para a mesa e arrastando o marido correu a falar á Pedrosa.

—Petronilha! exclamou ella num arranco enternecido.

A Pedrosa levantou-se com um sorriso cerimonioso e um ar de quem não atinava com o nome da outra...

—Não se lembra da Marianninha Serpa! das irmãs? O diabrete azul, como me chamavam?

—Ah! sim!... o diabrete azul... lembro-me!... Desculpe-me... mas estava tão longe!...

—Mesmo depois d'isso encontrámo-nos varias vezes em casa do...

Mas a Marianninha interrompeu-se para apresentar o marido.

Pedrosa apresentou, por sua vez, a filha e os outros voltaram para o seu logar; faltava-lhes o café.

—A vida é uma comedia... commentou a ministra. Vá a gente fiar-se... Eu não te disse? Viu que tinhamos acabado e não quiz deixar-nos sahir sem se apresentar. E agora teremos de ir cumprimental-as. Mas vão esperando que lhes offereça a casa... não por mim, que afinal não desgosto d'ella... A Marianninha é pianista, entretem; mas por causa da sociedade!

Reuniram-se depois, passeando ao longo do aqueducto; era preciso fazer horas para descer. Marianninha tinha vivacidade, falava muito. O marido colhia avenças que Sinhá deixava cahir dos dedos distrahidos. Á hora da partida, o casal, obsequioso, offereceu a Sinhá uma caixa de passas de pecego do Rio Grande, lembrança acabadinha de chegar da sua terra.

Logo que o trem se poz em movimento, a Pedrosa suspirou de allivio. Que dia!

E, abrindo a caixa de pecegos, contemplou-os com approvação e disse:

—A unica coisa boa do dia! Vê como estão bem arranjadinhos e como são bonitos. O fabricante tem arte... estes lacinhos de fita estão bem dados...

E ella antes de fechar a caixa cheirou os pecegos.

—Esta gente agora, seja onde fôr que nos encontre, ha de se atravessar deante de nós... Entendem lá comsigo que já nos obsequiaram. É o que se chama vir buscar lã...

 

—Pare no n.° 273, disse a Pedrosa ao João, ao entrar no carro.

—Na casa do dr. Argemiro? Para que, mamãe? Eu não entro!

—É só por curiosidade... a esta hora elle não está em casa... deixo-lhe um cartão e a caixa dos pecegos... dir-lhe-ei depois que ia passar-lhe tambem um bilhete de caridade...

—Mamãe, os pecegos são meus!

—Não sejas gulosa. Aquillo fez-se só para presentes. E, afinal, para quem quero eu o Argemiro? Les petits cadeaux entretiennent l'amitié, dizem os francezes. Elle irá agradecer-m'os a casa e tu o receberás...

—Mamãe!

—A mamãe só quer a tua felicidade, descança!

Quando o carro parou, a Pedrosa desceu e ordenou á filha que a acompanhasse. Sinhá hesitou antes de obedecer.

O vestibulo da casa de Argemiro, resguardado da rua por um largo paravento de vidros lavrados, tinha uma porta lateral abrindo sobre o jardim e outra ao fundo, dando para uma saleta de espera. A Pedrosa dirigiu-se com a filha para a porta do fundo e ia tocar a campainha quando ouviu uma voz de mulher dando uma ordem. Depois, a porta abriu-se e a figura de Alice appareceu entre os humbraes.

A Pedrosa arregalou os olhos, espantada:

—Vejo que me enganei... não mora aqui o dr. Argemiro?!

Alice acenou que sim, com a cabeça e um leve sorriso.

—A familia... a filha... está?

—A filha não mora aqui...

A Pedrosa, percebendo que não falava a uma criada, observou Alice com extranheza, da cabeça aos pés. Sinhá murmurou:

—Vamos, mamãe...

Adivinhando a confusão das senhoras, Alice, despeitada, voltou-se para o Feliciano, que se approximava, e disse:

—Feliciano, receba as ordens d'estas senhoras!

Depois, cumprimentando-as, atravessou o vestibulo e sahiu pela porta do jardim.

A Pedrosa acompanhou-a com a vista.

Feliciano esperava impertigado, com um arzinho malicioso na fisionomia experta. A Pedrosa escreveu a lapis num bilhete de visita:

«Dr. Argemiro.—Passando pela sua porta quiz deixar estes pecegos para a sua Gloria. Tinham-me informado que ella estava aqui. Cumprimentos.»

Feliciano recebeu a caixa e o cartão e apressou-se em ir adiante abrir o guardavento e a portinhola do coupé.

No carro a Pedrosa explodiu:

—Que tal o viuvinho, hein?! E o bandido do padre, que ainda hoje affirmou que o hypocrita vive só com a sua saudade! Será o nome d'ella?! Deixa-a estar... vamos a vêr quem vence!...

—Mamãe!

—Mamãe! Mamãe! lá estás tu a balir como uma ovelhinha assustada! Ora o ladrão do Argemiro!... Este Rio de Janeiro está perdido! É por isso que ficam tantas moças solteiras... O ménage! já é com um descôco que falam na sua ménagère!... Se as mães não tomam sentido, ficam-lhes as filhas em casa... havemos de defendêl-as, custe o que custar... Ladrões!

—Mas não pense mais no Argemiro... mamãe...

—Hein?! que idéa, não pense no Argemiro! mas se elle é o marido que te convem! Julgas que é muito facil encontrar um homem que reuna tantos predicados? Só por ter uma ménagère? Desistir de um marido por causa de uma ménagère! Tolinha... isto até prova em seu favor... já não cheira á defunta... Depois, essa especie de mulheres só embaraçam os tolos. Acredita que muitas vezes é a amante quem atira, inconscientemente, um homem para os braços da esposa... Tu... bem! mas por emquanto não te posso dizer mais nada. Já falei demais.