A Intrusa
Capítulo VIII
—São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha innocente, symbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e colloca-a tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe...
—Mas que tens tu? estás tremulo, com os olhos razos d'agua!
—Abraça-me, meu velho. Tambem eu tive saudades de Maria... Que queres?
—Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que foi casado com um anjo d'aquelles, póde jámais pensar em outra mulher?
—Póde; e pensarás e has de ser feliz. Quem sabe? talvez mais!
Argemiro olhava para o padre, com certo espanto.
—Agora fecha a caixa e apressa a tua toillete. Lembra-te que estou em jejum e com fome...
—Vae descendo... Eu irei ter comtigo num minuto.
Momentos depois sentavam-se á mesa. Alice armára uma cestinha de flôres e fructos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro apontou-as com o dedo:
—Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas... flôres...
Padre Assumpção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e começou:
—Um pouco de politica: ouvi dizer que o...
Um criado interrompeu a phrase, servindo os hors d'œuvre; mas logo depois a palestra enveredou afoitamente pelos labyrinthos da Camara e do Senado.
VIII
Provada a intriga do Feliciano, recomeçaram as visitas de Gloria ás Laranjeiras. A baroneza exigira segredo do que se passara, desejosa de que Argemiro conservasse em casa o criado, que já o fôra da filha. De resto, ella estava intimamente convencida de que o negro não mentira, mas se enganara. Convinha-lhe tel-o de guarda naquelle lar em ruinas, como se á sua voz de alarme ella pudesse correr e ainda salvar alguma coisa!
A verdade, que percebia sem a confessar, é que a neta lucrava muito na conveniencia de Alice. Ella perdia aos poucos aquelles modos aggressivos de criança malcriada, começava a interessar-se pela vida e a abrir os livros com mais frequencia. E já não lhe bastavam as visitas curtas, do sabbado para o domingo; desejava extendel-as agora até ás segundas-feiras, cujas manhãs aproveitaria em passeios com a governante do pae.
A Baroneza protestou indignada:
—Mais essa! andar uma menina de bôa familia, collada ás saias encardidas de uma mulher suspeita, por essas ruas da cidade! Não faltava mais nada...
Padre Assumpção interveio:
—Consinta na primeira experiencia. D. Alice parece-me severa e digna de toda a confiança. Confesso-lhe que sinto uma certa curiosidade pela direcção que ella vae dando aos gostos da nossa Maria... Prometto velar pela sua neta.
—Ah! Padre Assumpção, a Republica estragou nossa terra! Agora qualquer creatura parece digna de toda a confiança... Quem nos dirá quaes as tenções d'aquella creatura? Por mim tenho medo, apesar da sua vigilancia...
Gloria zangou-se e fugia, aos repellões, dos braços da avó. Não haveria remedio senão ceder á vontade da criança, e a Baroneza cedeu, molestada, enfraquecida.
Na primeira segunda-feira o padre Assumpção recebeu muito cedo uma cartinha da Baroneza:
«Gloria está nas Laranjeiras; é hoje o dia determinado para o seu passeio. Confio-a á sua guarda; olhe por ella.—Luiza».
Assumpção telegraphou a Alice. Esperal-a-ia no largo do Machado, ás tres horas.
Logo que Maria deparou com o seu grande amigo sentado sózinho em frente á estatua, correu alegremente para elle e afogueada, risonha, abraçou-o com força. Elle mal teve tempo de interrogal-a e já ella, revelando uma piedade até então occulta no mais fundo do seu peito, lhe contou o que vira, toda enthusiasmada. Vinha do Instituto dos Surdos-mudos.
—Ah, padre Assumpção, eu não sabia que havia gente assim, fechada dentro de si mesma, como me explicou D. Alice. Que desgraçados seriam se não houvesse aquella casa tão boa, e onde elles conseguem aprender tudo, como os homens perfeitos! Como a gente tem vontade de ser boa, quando vê coisas d'essas!
E tremula, loquaz, desatou a descrever as aulas, as officinas, os dormitorios do estabelecimento, e os grupos dos alumnos, risonhos, limpos, socegados...
Padre Assumpção voltou-se para Alice, que, sentada a seu lado, riscava a areia do jardim com a ponteira do chapeu de sol.
—A senhora já foi preceptora?
—Nunca...
—Não podias ter empregado melhor o teu dia, minha Gloria; agradece a D. Alice ter-te feito conhecer infelizes, cuja existencia, como disséste, desconhecias... e que te despertaram tão bons desejos... Agora, vamo-nos embora, que tua avó deve estar impaciente!
Maria beijou Alice na bocca, e ainda, depois, voltou-se da rua para lhe dizer adeus com a mão.
Que differença entre esta despedida e o seu primeiro encontro...
Padre Assumpção ia calado, meditativo. Que especie singular de mulher era aquella, que, com tão alto senso de moral, se sujeitava ao papel de governante da casa de um viuvo só? Humilhada em sua posição, maltratada por aquella menina orgulhosa, ella ia chamando habilidosamente a sua sympathia para os pobres e os infelizes. Seria por despeito ou por outro motivo mais maternal e em que a sua personalidade offendida não tomasse parte? Fosse qual fosse a razão, a verdade é que aquella simples visita a um instituto do seu bairro valera por todos os sermões com que elle procurara abrandar o coração altivo de Gloria. O tacto subtil d'aquella mulher começava a encantal-o; mas vinha-lhe medo de suggerir ao amigo essa impressão. Argemiro estava com o coração repousado, facil lhe seria o apaixonar-se e o padre não se esqueceria, cem annos que vivesse, das ultimas palavas trocadas por elle e a mulher moribunda:
—Jura que te não tornarás a casar!
—Juro.
—Jura por Deus!
—Juro pelo teu amor, juro por Deus!
Fragilidade do coração humano, porque has de ser agrilhoada por palavras de ferro que se não podem partir?!
Toda a scena da morte de Maria se reproduzia da memoria do padre, alli chamado para a ultima bençam. O som da voz d'ella ficara-lhe para sempre no ouvido, como nos olhos a sua imagem pallida... E não fôra elle só a testemunha d'aquella terrivel promessa: a mãe e o pae da moribunda ouviram com elle a voz de Argemiro, no inquebrantavel juramento!
As azas do tempo têem forte envergadura; não cançam de voar, mas levam ás vezes comsigo pennas que se não mudam, embora fiquem disfarçadas entre outras que vão nascendo...
Assumpção soffria por não encontrar remedio para os males futuros, que via proximos. O seu papel estava feito por si, tinha de acceital-o, fazendo, como religioso, cumprir-se um juramento dito em nome de Deus. Mas o amigo? mas o homem? mas aquella pobre mulher sózinha? Deveria consentir que a guerreassem como a uma inimiga?
Elle não era cego nem era surdo. A obra de Alice era de paz e de beneficio. Fôra ella que modificara as impetuosidades d'aquella criança, cuja vontade omnipotente dobrava tudo e todos a seu bel-prazer.
Seria isso um calculo, uma impostura? Especularia ella, servindo-se da filha para entrar no dominio do pae? Afinal, que se sabia d'ella? Que pertencia a uma boa familia decahida da fortuna e que passava por uma moça honesta...
Em boas familias quantos maus germens existem e quantas mulheres honestas maquinam tramas infernaes! O confissionario ensinara-lhe que o bem e o mal nascem da mesma fonte sempre inconstante e fertil...
A familia... Seria certo o que a Baroneza lhe insinuara? Dissera que uma récua de famintos ia tirar aos criados de Argemiro os pedaços que lhes competiam...
A que horas? Como? Deveria tambem indagar d'isso?! Por que não, se esse era um meio de conhecer a mulher com quem talvez tivesse de luctar?
E uma triste sympathia attrahia-o logo para a pobre governante, sempre bem arranjadinha nos seus vestidos surrados, sempre sorridente e sempre simples.
—O senhor tambem parece mudo! disse Maria, rindo.
—Estava pensando cá numas coisas...
—Eu tambem.
—Em que pensavas?
—Em D. Alice.
—Ah... e quaes eram as tuas conclusões?
—Que é muito boa moça.
—A razão deve estar comtigo.
—Eu queria que vovó gostasse d'ella...
—Ha de gostar.
—Hum...
—Mais tarde; dá tempo ao tempo.
—Por que é que papae não quer vêr D. Alice?
—Oh, filha, é... é porque teu pae... receia avivar as saudades de tua mãe...
Já me tardava esta pergunta, disse elle de si para si.
—Não entendo...
—Tua mãe não era a dona da casa?
—Era.
—D. Alice não está desempenhando o papel de dona da casa?
—Ah, mas não é mulher d'elle!
—Ah!...
—Nem come á mesa, nem apparece ás visitas... é, afinal, uma especie de criada!
—Não. Ella governa os criados. É differente...
—Tenho pena d'ella. Agora tenho pena d'ella...
—Agora?
—Antes não tinha... tinha raiva.
—Mas... porque? ella queixou-se?
—Não... não sei porque! mas acho aquillo exquisito! Mal sente os passos de papae, zás! foge! chega a ser engraçado!
Realmente é uma situação de comedia, pensou Assumpção, rindo involuntariamente com Maria.
E a situação prolongava-se. Argemiro, cada vez mais caseiro, não lobrigava nem a pontinha da saia de Alice, a quem, de resto, resolvera definitiva e absolutamente evitar, contente por sentir a influencia d'ella não só no seu lar como na sua filha. Maria aproveitava sempre as segundas-feiras em passeios, uma vez ao Jardim Botanico, outras aos asylos ou a novos bairros e differentes jardins, trazendo sempre impressões bem definidas e em que se percebia uma direcção cuidadosa e intelligente. A pouco e pouco a criança ia-se tornando mais observadora e mais piedosa. O padre Assumpção, que ia buscal-a sempre no ponto indicado por Alice, sentia arraigar-se-lhe a idéa de que esses passeios através da cidade desenvolviam melhor o espirito e o coração de Maria do que o mais volumoso livro de moral.
Se vinha de visitar um asylo de velhos, com que meiguice Gloria falava dos seus cabellos brancos, dos seus passos tremulos e do seu triste sorriso desdentado! Se vinha da Tijuca, quantas exclamações de enthusiasmo para as bellas arvores poderosas e as quédas de agua da cascata e as lindas flôres sylvestres! Se vinha do mar, que de indagações curiosas sobre os navios e lanchas, e quantos elogios para as largas paizagens azues, varridas de ar fresco! A vida dos marinheiros, com os seus perigos, a dos pescadores com os seus atrevimentos, attrahiam a sua sympathia e a sua piedade. Ia vendo que o numero dos sacrificados é muito maior no mundo do que o dos felizes e assim se tornava menos selvagem e mais humana.
Ora, o padre Assumpção sabia bem que tudo aquillo era reflexo e suggestão de Alice. Maria era intelligente, e as suas qualidades moraes, ainda informes, propendiam mais para a maldade que para o bem. Aquella metamorphose era, pois, toda, obra da moça, que parecia acolher a companhia da criança como um presente cahido do ceu... Realmente, ella estava tão só!
O ciume da baroneza augmentava a cada novo triumpho de Alice, que lhe disputava a neta com furor. Soffria calada, não ousando queixar-se nem ao marido nem ao padre Assumpção, que ambos glorificavam com enthusiasmo a obra da moça. Fechada na sua chacara, á sombra das mais lindas mangueiras dos suburbios, ella maldizia a hora em que o genro chamara para casa aquella aventureira, cujo proposito percebia ás leguas. O Feliciano não voltára, e ella tinha pena... só elle lhe poderia dizer toda a verdade, por não estar enfeitiçado pela bruxa e por conhecel-a melhor que os outros, visto estar sempre na sua convivencia...
Sua tenção estava feita. Havia de cumprir-se. Quando o negro, por acaso, apparecesse alli, ella puxar-lhe-hia pela lingua, de modo que ninguem mais o ouvisse senão ella... ah! e então, nada ficaria em meio!
Com as idas de Maria á cidade rareavam as visitas de Argemiro á chácara; esse desgosto vinculava as suspeitas da baroneza; mas quando o genro se lembrava de ir vêl-a, achava geito de falar na filha a todo o instante, numa obstinação dolorosa e impertinente.
—Você tem ido visitar o tumulo de Maria? Mandou reproduzir os retratos de Maria? e assim o nome da filha sahia-lhe constantemente da bocca, como a querer impôl-o á lembrança de todos.
Os retratos de Maria, desde o de collo, de quatro mezes, até ao ultimo, em que o seu perfil delicado se voltava para o ceu, como a interrogal-o, alinhavam-se sobre o guéridon, sobre o piano, na sala de visitas, na saleta de trabalho e na sala de jantar, repetindo-se por toda a casa, para que nunca os olhos maternos deixassem de o encontrar... Ella vivia assim perpetuamente arrastada pela saudade, nunca conformada, e creadora da illusão!
Argemiro identificara-se tanto com a sogra nesse sentimento, que para elle era como se Maria estivesse longe, muito longe, mas estivesse, e houvesse de voltar um dia. Era uma certeza tida pelo coração e não compartilhada pelo cerebro, mas que, sendo terrivel, não deixava de o consolar...