A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 4 de 22

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A Intrusa

Capítulo IV

Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo suavemente!

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio! Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres...

Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!...

 

IV

 

Num bello sabbado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta á cidade e foi depôl-a no escriptorio do pae, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror ás ruas abafadas e ás feias salas dos escriptorios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbencia, temendo ser cumplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que sahia da sua chacara. Ainda assim, não se pôde conter e recommendou ao genro:

—Dizem que por ahi ha muitas febres... é preciso ter prudencia! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer dôces na confeitaria. Ella póde abusar, é gulosa...

—Vá descansado; e obrigado!

Emquanto Argemiro despachava uns papeis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escriptorio do pae.

Mas Argemiro tinha pressa tambem de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Sahiram; e as recommendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas...

Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito.

Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.

Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria!

E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete. Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.

Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:

—Quero vêr o meu quarto.

Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:

—Siga-me...

Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas camas brancas.

—É aqui?!

—É aqui.

—De quem é esta cama?

—Sua.

—E aquella?

—Minha.

—Eu quero dormir sózinha; não sou medrosa. Arrange outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapeu!

Gloria sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapeu e endireitou-lhe o cabello. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciencia concordou que jámais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se, contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou:

—Quantos annos tem?

—Vinte e tres.

—Parece mais velha.

Alice sorriu.

—Eu tenho doze...

—Parece mais criança...

—Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É myope?

—Parece criança no juizo, minha amiguinha, e é por eu vêr muito bem que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pae espera-a para jantar; não está ouvindo o tympano? É o signal...

Gloria tremia, sem atinar com a resposta para semelhante affronta. Depois, num desabafo:

—Você é muito grosseira!

Alice apoiou-se ás costas da cama e fechou os olhos.

—Bem diz vovó: sempre é mulher de annuncio!

—Quê?!

Gloria não respondeu, e correu, rindo ás gargalhadas, para a mesa do jantar.

Argemiro esperava-a de braços abertos.

—Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto?

—Por nada... átoa!

—Átoa! como é bom rir átoa!

Como eu preciso da tua innocencia ao pé de mim! Ri sempre, meu amôr!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pae... que te parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto?

—Eu não quero sôpa.

—Estás sem apettite?

—Eu não gosto de sôpa.

—Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa:—eu não gosto d'isto, eu não gosto d'aquillo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D. Alice?

—Horrenda.

Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscreção, que Argemiro reprehendeu-o com um olhar.

—Seja boa e é o que se quer... precisas tratal-a com delicadeza e amizade; ouviste? é, graças a ella que te tenho hoje aqui... Queres vinho? muito pouco... com agua... assim... Ora, a minha Gloria! Tomára já ver-te moça e tomando conta definitivamente d'isto tudo, para ter-te sempre aqui... sempre!

Gloria, que recusára a sôpa, comia agora com satisfação. O pae revia-se nella, todo contente.

A mesa estava bem posta; desde que Alice entrára não deixára de haver flôres e fructas ao jantar.

Gloria, confundindo a elegancia com o luxo, exclamou:

—Que mesa rica, papae!

—Se viesses jantar commigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcellanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão ás coisas mais simples uma apparencia de conforto e de alegria muito agradaveis á vida. A minha mesa era triste... agora é assim!

Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Gloria confessou:

—Lá em casa só se botam flôres na mesa em dia de visitas...

—Porque tua avó é uma senhora velha e cansada. Compete agora a ti esse trabalho. Informa-te com a D. Alice a esse respeito. Ella parece perita na arte de fazer bouquets. Repara para aquelle...

—Quem não sabe!

—Pensas que é facil?

—Tenho certeza.

—Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de teu avô...

—Está dito.

Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo, muito sollicito em servil-a, provocando-lhe as expansões, com uma alegria de moço. Ella percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava.

Entre as peças da baixella figurava nesse dia na mesa do jantar um candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com difficuldade, tal era o tempo em que esse objecto vivêra segregado no fundo escuro de um armario. Na verdade, Alice caprichára em adornar a mesa! Seria uma homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem quasi velho, e uma menina quasi moça?

Quando o Feliciano offerecia a Gloria uma fatia de coelho assado, ella exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa:

—D. Fuas morreu, papae!

Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da expressão de seriedade quasi comica da filha.

—O teu gato?

—O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois com terra, e acabou-se!

—Choraste?

—...Chorei... mas vovô prometteu-me outro!

—Á saude do outro que ha de vir e que te consolará!

Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha!

Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado.

Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos.

Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas á noite!...

—És medrosa?

Ella fez notar ao pae, com um olhar, o Feliciano.

—Que mulherzinha! pensou Argemiro; e riu-se. Embora quizesse, elle não pôde prolongar a demora na mesa; Gloria ardia de impaciencia; comêra muito depressa, com a idéa de andar pela casa toda, a sua casa, que ella dentro de poucos annos governaria... E relanceou um olhar de dominio em redor de si.

—Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia á D. Alice...

Feliciano informou:

—Ella está jantando.

—Ella janta na cozinha? perguntou Gloria no tom mais natural do mundo.

—Não, filha; ella tem a sua mesa.

—Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa...

Feliciano riu-se. Argemiro atalhou:

—Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona da casa.

—Tal qual como se fosse mamãe?

Feliciano olhou de esguelha para o patrão.

—Tal qual, não; basta dizer que á D. Alice eu não a vejo nunca, e que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e dirigil-a, é como se fosse.

O ciume da avó relampejava agora nos olhos da neta. Gloria olhava para o pae numa attitude de desafio.

Toda ella crescera em um instante, como se a raiva a insuflára; e no momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a articular, o padre Assumpção entrou na sala, dando risonhamente as bôas noites.

Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo.

—Que tens tu?! perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no hombro a mão espalmada depois de ter abraçado a menina.

—Nada... Chegas a proposito; vem ao meu escriptorio. Gloria, vai tocar um pouco; experimenta o teu piano, emquanto D. Alice acaba de jantar.

—Eu não preciso d'ella!... resmungou a menina, dirigindo-se para a sala.

—Ouviste? Eu não preciso d'ella! A prevenção da minha sogra imbuiu no espirito de minha filha uma antipathia medonha por esta pobre moça que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece! Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exactamente para poder chamar minha filha a mim, e gosar, embora fortuitamente, a sua companhia; e vêm-me a criança cheia de azedumes e idéas preconcebidas contra a unica pessoa a quem posso confial-a! Como ha de ser?

—Fazer com que se estimem.

—Mas como?! Sem convivencia, e com más insinuações... não ha amisade possivel. A minha filha tem ciumes! Herdou o tormento da mãe, que tão bem conheceste, e o unico defeito da avó... isto é, herdaram ambas, d'ella, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim! Minha sogra confessa nunca ter tido ciumes do marido, e, entretanto, não dou um passo em que não sinta a sua vigilancia!

A alma da filha parece ter-se incarnado nella, e é essa talvez a attracção poderosa que me chama a si... mas esse excesso de zelos vae estragar-me á pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ella fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a governante! E agora?!

—Agora vaes sahir por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a nossa Maria e a tal senhora.

Quero vel-as a ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua filha, muito selvagem mas muito innocente, para os braços de uma creatura que tu não conheces... Convem estudal-a...

—Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores informações d'essa tal senhora?

—Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa familia... pobre... saude de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará? Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que por poucas horas, com ella... não!

—Neste caso voltamos á mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais tornarei a ter a minha filha aqui, commigo, só commigo, livre um bocadinho d'aquella atmosphera da chacara, que a faz tão malcriada... tão aborrecida e até antipathica. Acabou-se.

—Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua impaciencia, homem! é tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que ha bonitas coisas ahi pelos theatros... resigna-te a perder um pouco do teu tempo indo ver qualquer d'ellas... Ahi tens o jornal, escolhe.

—Não tenho pachorra...

—Eu iria a uma magica. Contam maravilhas d'esta—Fada Azul...

—És um homem innocente!

—Sou padre... mas se te não diverte a magica, vae a outra parte, mas vae! Que diabo! lembro-te tão bom alvitre e ainda vacillas!

—Vaes aborrecer-te...

—Menos do que tu...

—É possivel...

—É certo. O teu chapeu está alli... queres que te procure a bengala?!

—Parece-te que estou á espera que me dês com ella no lombo para então sahir?

—Já me lembrei d'isso...

—Se não fosses padre...

—Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse...

—Por que?!

—Porque seria provavel que estivesse velando pela minha...

Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica amargura.

—Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se elle vale a solidão a que te condemnaste!...

O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de primavera.

Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora...

Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura.

—O senhor está tremulo... Onde está papae?

—Teu pae sahiu. Manda accender o gaz da saleta e convida D. Alice para vir passar o serão comnosco.

—Não gosto d'ella...

—Por que?

—Não sei... e o senhor?

—Eu gosto de toda a gente, minha filha... de uns mais... de outros menos, mas não quero mal a ninguem. Vae pedir á D. Alice, com muito bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas...

—Papae foi ao theatro?

—Não.

—Onde foi?

—Não sei... d'ahi, talvez tivesse ido ao theatro...

—Sem mim?!

—Sem ti.

—Que desaforo!

—Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de genio... Não te quero assim... faze o que te disse, anda.

—Vamos antes para a janella.

—Não. Vae chamar D. Alice.

—Ella é muito enjoada! muito feia!

—Seja como fôr; quero conhecel-a.

—Ah! se é só para isso! Que bicha!

Maria percebeu de relance que havia uma intenção occulta naquella insistencia e movida pela curiosidade acabou por ceder á ordem do padre.

E o serão correu tranquillamente. Alice trouxera a sua cestinha de trabalho e um livro de historias, confiando pouco nos seus meritos de conversadora.

Vendo que Maria se impacientava, propoz-lhe ensinar-lhe um ponto facil de crochet, com a lã do seu agrado, Maria repelliu o offerecimento; mas, aconselhada pelo padre, acceitou-o por fim. Ella detestava os trabalhos de agulha, que achava difficeis de comprehender. Alice tinha o condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a intelligencia mais rebelde se esclarecia ás suas palavras limpidas e teimosas. Maria interessou-se, por fim, tentada por uma meada de lã vermelha; e, ora vendo ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes e ageis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais complicado.

—A senhora é paciente... Gosta de crianças?

—Muito!

—Tem irmãs pequenas?

Alice olhou para o padre Assumpção com ar de queixa. Para que interrogal-a, naquella hora distrahida, acordando-lhe a saudade da familia ausente ou perdida?

Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça.

Entretanto, ella disse:

—Tive... uma...

Como Gloria se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos, adiantando-o um pouco, para influir a menina.