A Intrusa
Capítulo XIV
A baroneza não recebera ainda a carta annunciada pela cartomante e andava inquieta, doente. Gloria voltava radiante todas as segundas-feiras das visitas paternas e não tinha na boca senão o nome de D. Alice.
Aquillo fazia recrudescer o desespero da pobre senhora.
—D. Alice! D. Alice! não falas senão da tal D. Alice! que personagem!
—Eu gosto d'ella...
Prendendo as mãos da neta, puxando-a para si, a avó perguntava entre supplicante e imperativa:
—Mas que te faz essa mulher para lhe quereres assim?
—Nada... passeia commigo... conversa...
—Tenho medo d'essas conversas... É a tal historia dos sapatinhos de ferro!
—Da vaquinha Victoria?
—Sim... Que te diz ella?
—Tantas coisas... Hontem fomos ao Jardim Zoologico. Vovó ha-de crer? Ella contou-me a vida d'aquelles bichos todos!
—Mentiras... Que póde ella saber!
—Eu contei a papae e elle affirmou que era verdade!
—Ah! tu contas a teu pae tudo que ella te diz? Bem disse eu! é a tal historia dos sapatinhos de ferro... Um dia ha-de enterrar-te coma a madrasta fez á outra.
—Mas se ella não é minha madrasta! Nem diz nada de mal... Vovó pergunte só ao padre Assumpção. Elle tambem gosta de conversar com ella. Hontem estavam muito tristes...
—Ambos?!
—Ambos.
A baroneza riu-se.
—De que se ri, vovó?
—De nada... achei graça! Ia bem vestida a tua D. Alice?
—Assim... assim... ella anda quasi sempre com o mesmo vestido, quando sae. É pobre...
—Ella usa anneis?... tem alguma joia?...
A neta admirou-se de ver a avó tão córada de repente; e, antes de responder á pergunta, exclamou:
—Nunca vi vovó tão vermelha! E depois, naturalmente:—Não usa anneis... tambem não usa joias.
—Nunca te falou da familia?...
—Nunca... Papae me recommendou que eu nunca lhe perguntasse por isso!
—Ah! teu pae recommendou!...
—Por que seria, vovó?
—Por que geralmente mulheres assim não têm familia.
—Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras!
—Talvez mais bonita...
—Não... Hontem então ella estava com os olhos tão pisados!
—Pobre infeliz!
—Eu queria que vovó gostasse d'ella!
—Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar!
—Já tenho aprendido muita coisa com ella...
—Deus queira que não aprendas tudo!
—Papae gosta que ella me ensine!
—Ah...
—Padre Assumpção tambem... Elle hontem assistiu á minha primeira lição de desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em quando dar-me outra lição?
—Nunca!
Gloria recuou espantada; a velha conteve-se, e depois:
—Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos logares?
—Estão... um em cima do piano... outro no escriptorio... outro no quarto de papae...
—Já tiraram o do quarto de toilette?!
—Ah! é verdade! e outro no quarto de toilette! Como vovó se lembra!
—Minha pobre filha!
—O do quarto de papae está ficando branco...
—Até desapparecer! É que a imagem de Maria está-se sumindo ao mesmo tempo da memoria e do papel! disse a Baroneza abafando um suspiro.
—Da memoria de quem?
—Vai brincar, minha Gloria; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero ouvir os teus gritos, as tuas risadas .. Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso d'ella!
—Como não?! D. Alice até me prometteu uma colleira para ella!
—Já me tardava...
As mãos da avó affrouxaram. Gloria fugiu para o quintal.
—Está tudo acabado! venceu e domina todos. Gloria, a filha da minha filha, talvez já ame a outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não ha quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assumpção... ninguem!...
A Baroneza revia a scena, que não lhe sahia deante dos olhos: Maria, recostada nos almofadões da cama, muito diaphana, com os cabellos loiros espalhados sobre os hombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... Á sua cabeceira, em pé, o padre Assumpção, livido, com os olhos velados por uma expressão de agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ella aos pés da cama, de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre!
Na sua alma echoava ainda a vózinha da filha:
—Jura, Argemiro, que não te tornarás a casar...
—Juro!
—Jura que viverei sempre no teu coração!
—Juro!
A voz d'ella era como um sopro; a d'elle, formidavel!
Maria morreu sorrindo, com os dedos embaraçados nos cabellos do esposo... Não falara na filha... não olhara para a mãe. Fôra toda d'elle... e elle repellia aquella imagem angelical, para substituil-a pela de uma mercenaria!
Aquella amaldiçoada.
Como expulsal-a d'alli?! Não estaria perdendo muito tempo?...
Uma tarde, o Feliciano procurou-a; e ao relatar-lhe a sua espionagem ella mandou-o calar-se. Não queria saber de nada por esse modo. Que se fosse embora!
O negro não pôde reprimir um movimento de espanto. Não fôra ella que o impellira áquillo?
Fôra, mas em um momento de desanimo e de fraqueza. Envergonhara-se. Readquiria a calma; estava feito o seu plano. O negro foi despedido sem explicações e com a prohibição de acompanhar a moça.
Feliciano sahiu murcho, maldizendo as mulheres.
A baroneza dirigiu os seus passos pesados de mulher gorda para o escriptorio do marido, que se entretinha na collecção do seu herbario.
—325... murmurava o barão, olhando para as suas listas; e depois:
—Que temos? perguntou elle, sem levantar a cabeça, mas percebendo no ar qualquer novidade.
—Que tomei uma deliberação.
—Qual?...
—Ir morar com Argemiro.
—Hein?
—Ir morar com Argemiro.
—Ora essa!
O barão tirou os oculos e olhava agora de face para a mulher.
—Que idéa!
—Como outra qualquer... meu velho...
—Qual! nós lá podemos viver na cidade!
—Por que não?
—Por que?... por tudo! Tu gostas d'esta liberdade... ha trinta annos que te enterraste aqui e que d'aqui não tens querido sahir para nada... Eu, ao principio, confesso, fazia sacrificio; hoje não. Olha para esta mesa: Vês? estou catalogando as minhas plantas... plantadas aqui na minha chacara e tratadas só por mim!...
—Virás á chacara de vez em quando.
—Estás doida!
—Nunca o estive menos!
—No tempo em que Maria era viva nunca pensaste nisso, e então agora.... Ora adeus!
—No tempo de Maria eu não era lá precisa para nada; e agora sou.
—Precisa? Em casa do Argemiro?! Para que? Estás sonhando...
—Bem acordada. Vocês é que estão dormindo...
—Hum... já sei... deixa lá a rapariga em paz, minha velha ciumenta; exclamou o barão, rindo e cavalgando de novo a luneta no nariz.
—Tambem tu!...
—Tambem eu...
Que diabo! tu imaginas um mundo ao teu feitio e queres governal-o a teu bel-prazer? Guerrear a moça? por que? Porque é limpa, economica, dirige bem a casa do teu genro e ainda por cima dá lições uteis á tua neta? mas isso é uma insensatez!
—Para que te servem os olhos? para que te serve o entendimento e a moral? Já te esqueceste das ultimas palavras da nossa Maria? Não as ouviste tão de perto e tão bem como eu?
—A nossa Maria... morreu...
—Para ti e para os ingratos; não para mim, sua mãe, que a adoro e a vejo sempre deante dos meus olhos! Como é triste a morte, que até faz esquecidas as filhas aos proprios paes!
O barão retirou de novo os oculos, collocou um peso sobre os papeis em que catalogava as suas plantas e contemplou a mulher demoradamente, com tristeza. Ella estava abatida, com os olhos empapuçados, as faces emaciadas, o pescoço mais molle e pellancoso.
—Minha pobre velha! tem paciencia e resigna-te. Comprehendo a tua magoa, mas é preciso esforçares-te por comprehender tambem o mundo tal como elle é. Imagina que a tua neta é ella, a nossa Maria, e concentra nella todo o teu carinho e todo o teu amor... já não peço nada para mim... bem vês! Gloria é a filha da tua filha, vive para ella aqui, no meio das tuas arvores e não penses no que vae lá por baixo, pela casa dos outros.
—Casa de minha filha.
—De teu genro. Tua filha já não existe.
—Para mim existe! E depois, tu não vês que já me vão tambem roubando a neta? D'aqui a pouco estaremos sós!
—Não... não é tanto assim!
—Desde que o Argemiro tem aquella peste em casa...
—Que está satisfeito e tem o seu lar em ordem. Se em vez de ser sogra fosses mãe d'elle, tu bemdirias essa pobre rapariga... Tem juizo, minha filha, não vivas com os olhos fixos num fantasma e pensa na realidade das coisas.
—Seria bom... se o Argemiro não violasse o juramento que fez... ao fantasma... como tu lhe chamas!
—Escuta; quando elle jurou fez bem em jurar. Acreditava então poder cumprir tal juramento, e caso mesmo não acreditasse juraria do mesmo modo, porque essa era a vontade de uma moribunda. Nossa filha morreu sorrindo, graças a essa promessa. Não me interrompas! O Argemiro foi um marido raro, amoroso, serio e deu á mulher a mais ampla e perfeita felicidade. Ella acabou. Elle foi (se ainda o não é) fiel á sua memoria por muitos annos. Se agora tivesse alguma paixão, nada terias que dizer. Elle ainda é moço, e essa circumstancia basta para explicar tudo. Somos-lhe muito obrigados.
—Achas então muito natural e muito bonito que elle ponha a filha em contacto com a...
—Não acabes!
—Tambem tu a defendes!
—Tambem eu!
—Mas não a conheces!
—Conheço o Argemiro. Basta-me. Elle já nos expoz mais de uma vez em que condições tinha essa moça em casa. Se elle lhe entrega a filha é porque a julga digna de a receber—e não pódes negar a influencia moral que ella tem exercido sobre tua neta! Gloria repete palavras e pratica acções que reflectem um grande senso moral. É ou não é verdade isso?
—Quem nos diz que não seja essa uma obra de hypocrisia?
—Ora, adeus!
—Vocês estão cegos!
—Só tu vês!
—Só eu.
—Pois antes fosses cega, que a tua clarividencia só te faz mal. De que te serve perceber ao longe tanta coisa que ninguem mais vê?
—Serve-me para defender quem não tem mais ninguem por si!
—Se tua filha do ceu te escutasse, choraria!
—Fazes bem em dizer: tua filha. Ella é só minha, agora!
—Bom... acalma-te...
—Estou calma.
—Nesse caso dir-te-ei ainda que o Argemiro é senhor do seu nariz e que nós não temos autoridade, absolutamente, para mettermos o bedelho na sua vida. Fará o que muito bem quizer. De mais, que jurou elle a Maria? Não se tornar a casar. Casou? Não. Logo...
—Mas vive como tal...
—Sabes que mais?! Deixa-me trabalhar... lamento-te muito, mas não posso argumentar comtigo. 325... parece-me que era este o numero...
—Como és frio...
—Sou velho; e tenho juizo.
—Tambem eu sou velha...
—Mas és mulher, e vives mais do sentimento que da razão... Alimentas a idéa de que tua filha sente, soffre, existe, e exiges que ella occupe um lugar que infelizmente está bem vasio... Deleitas-te em revolver saudades; fixas-te em pensamentos de que devêras fugir; a morte assusta-te; a idéa do nada apavora-te e crêas então um mundo á parte para tua filha, que, se continúa a viver, é só no teu cerebro, mais ainda do que no teu coração! Reage contra essa tortura...
—É a minha consolação...
—É o teu desespero!
—Não é... talvez deva ser como dizes... mas eu agarro-me a esta illusão, para poder supportar a saudade...
—Não chores...
—Sinto-me tão sózinha!
—E eu?
—Fugiste-me...
—Não, minha velha, estou e estarei comtigo até á morte. O que te fiz soffrer na mocidade, quero redimir na velhice... Tua mãe, sim, teria razão de queixa contra mim; tu não a tens contra o Argemiro! Nossa filha, repara o que eu digo—nossa filha—gosou emquanto viveu; já foi uma felicidade! Tu esperaste por mim algumas vezes até alta noite... lembra-te! Ella nunca esperou... Fiz-te chorar, do que me arrependo; o Argemiro só a fez sorrir.. Foi por causa do teu ciume de esposa, muito justificado, que escolheste este ermo para viver... Sujeitei-me. Venceste. Hoje, arrependido, vivo cosido ao agasalho das tuas saias e acredita que, se morreres antes de mim... creio que me fecharei vivo no teu caixão...
O Barão dizia estas coisas rindo, mas com os olhos afogados em pranto; a mulher, chorando francamente, approximou-se e uniu os seus labios tremulos aos labios murchos do marido.
—Vai descançar! disse-lhe elle, afagando-a.
Ella sahiu; elle limpou os olhos, esteve algum tempo a pensar em coisas distantes; depois, com um suspiro, voltou ao seu catalogo:
—325...
Os dias passavam lentamente para os dois velhos.
A baroneza não dormia; tinha ao levantar-se o rosto pallido e os olhos vermelhos.
O barão entristecia-se por não lhe saber dar remedio. Que fazer? Deixal-a finar-se... e penar com ella. Á proporção que as visitas da filha se prolongavam nas Laranjeiras, Argemiro, occupadissimo em novas causas, deixava de apparecer na chacara.
Esse afastamento era tambem motivo de censura e tristeza.
O tempo leva tudo comsigo, menos a saudade das mães pelos filhos mortos; pensava a baroneza em silencio, junto á janella, olhando vagamente para o campo pallido, cortado pelas linhas negras das altas e ramalhudas mangueiras, sob cuja sombra Maria correra em menina, entre a polvilhação d'oiro da cabelleira desatada, ou scismara, em mulher, aquellas doces scismas que a idealisavam tanto.
Parecia-lhe que, se procurasse bem, encontraria na terra as pegadas mimosas da filha e que seria ingratidão abandonar aquelle lugar em que ella vivera a doce vida da criança e da moça... Em vão o materialismo do marido lhe affirmava que o corpo branco da pobrezinha apodrecêra como um lirio cortado, no fundo negro da cova, e que já d'elle não existia senão um feixe de ossos, tão pequeno, que caberiam todos no seu cofre de lembranças!
Em vão o padre Assumpção lhe dizia que a alma bondosa da sua santa estava no ceu, longe de tudo e de todos, voltada como uma açucena para os pés do Senhor! O que ella sentia é que sob a roupagem fluidica, a sua Maria estava a seu lado, ora sentada sobre os seus joelhos, como quando tinha dez annos, ora seguindo com o olhar ciumento o Argemiro, como nos tempos de casada; e que existia, que tinha o seu lugar na terra!
O sol desmaiava; as mangueiras com a tarde faziam-se mais negras. Um sabiá cantava, outro mais longe respondia, e a baroneza, dorida, persuadia-se de que a melancolia mais amarga é a dos velhos, porque não tem a suavisal-a nem o mais tenue raio de esperança!
Ás vezes Gloria, entrando bruscamente na sala, quebrava-lhe o devaneio. Morena, forte, com os cabellos pretos cobrindo-lhe as orelhas em ondas accentuadas, ella afastava a imagem loira e fidalga da mãe para o fundo esfumado do sonho; e, palpitante de vida e de força, vinha lembrar á velha que só se devia consumir por ella.
—De onde vens? Como te sujaste... trazes palhas no cabello... Olha o vestido rasgado!
—Quando pulei a cerca...
—Pulaste a cerca! muito bonito! Então uma menina pula cercas?!
—Foi para entrar na horta...
—Vem cá... deixa-me abotoar-te... ora... ora ..
Os dedos da baroneza prolongavam de proposito a operação, só pelo prazer de estarem em contacto com o corpo adorado da neta.
A menina debatia-se por fim, morta por correr para o pomar ou para o jardim.
—Fica quieta...
—Vovó! ande depressa...
—Para que?
—Ainda não dei couve aos coelhos e quero engordal-os para levar um a D. Alice. Ella disse que...
—Bom. Vae-te embora!
A neta, percebendo tudo, cahia-lhe aos beijos nas faces e nos cabellos, rindo, apertando-a nos braços vigorosos.
—Vovósinha do meu coração! Como eu amo esta avó! Como eu adoro esta avó!
Então sentava-se e contava as historias lá de fóra:
O vovô ainda não percebera que as formigas estavam-lhe dando no pé de absintho... A mangueira grande do pasto estava com herva de passarinho. Ella já avisára o João... A gallinha pedrez apparecêra com dez pintinhos nascidos no matto e havia um ninho de pintasilgos na limeira da horta...
A avó sorria, ella incitava-a a sahir com ella pela avenida das mangueiras, até lá abaixo ao portão, para ver uma paineira da estrada toda coberta de flôres! Completamente rosada!
A avó, puxada pela neta, arrastava os passos pesados pela aléa deserta e só nesses curtos momentos o seu pensamento tinha repouso.
Segurando na mãozinha da neta, dizia comsigo:
—Deixa-me aproveitar bem a companhia d'ella, antes que ma levem!
Mas lá chegava o sabbado, em que a levavam, ou o avô, ou o padre Assumpção, que ia ás vezes cedo almoçar com os amigos e buscar a pequena. Sem ser annunciado, elle, bom andarilho, vinha a pé desde a estação, uns bons dois kilometros, até á chacara.
Quando ás vezes o percebiam, elle já estava dando os bons dias na sala da entrada; outras occasiões os olhos anciosos de Gloria descortinavam-lhe ao longe a batina negra, destacando-se no fundo luminoso do portão aberto.
A menina corria para elle; e a avó, encostada á janella, via-o approximar-se, com tristeza...
O padre parecia-lhe então um carrasco, connivente com os projectos criminosos da outra e os actos hypocritas do genro. Não o via sempre prompto a defender a outra e a elogiar a moral severa de Argemiro?
Tambem elle esquecia essa pobre Maria, tambem elle trahia o cumprimento da sua ultima vontade! É bem verdade que os mortos vão depressa!...
Num sabbado, depois de ter visto Gloria entrar no carro com o avô, a caminho da cidade, a baroneza dirigiu-se para a sua saleta de costura, e tentou acabar um avental da neta; mas os dedos preguiçosos paravam no ar e o aventalzinho escarlate cahiu-lhe sobre os joelhos tão incompleto, depois de meia hora de manuseado, como estava antes.
Arguia em mente a sua fraqueza e indolencia.
Via irem as coisas por agua abaixo e não fazia nem sequer um aceno para prendel-as! Não era tempo de tomar uma resolução?
A culpabilidade dos outros atemorizava-a?
O dever das mães não é defender os filhos até á morte?
A sua passividade não era, portanto, um crime, e não seria tempo de pôr em acção o seu desejo, até agora suffocado pelas mãos dos outros, de rehaver para a sua Maria o coração de Argemiro e guardal-a lá dentro, como santa unica em devoto oratorio?!
Á força de pensar nisso, materializava as imagens, dava corpo e sangue ás suas idéas, prompta a bater-se por ellas até ao ultimo alento.
Recriminava-se agora da sua altivez, mandando calar-se o negro quando este lhe ia relatar o resultado da sua espionagem... Que tola generosidade fôra a sua, e de que desencontrados sentimentos são victimas as criaturas humanas... Repellira tambem o alvitre da cartomante, cançada de esperar pela carta annunciada...
Vinham-lhe agora tentações de voltar lá, a vêr se ao menos encontrava alguem a seu favor! Que falta lhe fazia um braço em que se apoiar!... Certamente que a cartomante não lhe devia merecer absoluta fé... mas não acertara ella em muitos pontos com a verdade? A Inimiga e as suas machinações não lhe tinham saltado aos olhos logo no principio da consulta?
Dever-lhe-ia negar o poder da adivinhação? E em vez de negar, não seria prudente recomeçar?
Uma elucidação...
O aventalzinho escarlate cahira para o assoalho, e nos resedás da janella um beija-flôr destemido batia as azas delirantemente.
Eram tres horas da tarde quando a baroneza, muito afogueada, subiu a escadinha ingreme da D. Alexandrina. Como na primeira vez, teve de esperal-a longamente na sala de jantar, entre chromos pregados a gomma na parede e aniagens sujas de cortinas. Um cãozinho rateiro rosnava a um canto, de focinho desconfiado erguido para as sedas pretas da velha bem tratada. Depois de uns minutos que se afiguraram longuissimos á consultante, a portinha do quarto abriu-se e D. Alexandrina appareceu, com o queixinho sumido em um riso largo de boas-vindas.
A baroneza, em tom queixoso:
—Não recebi a tal carta annunciada pela senhora...
—Ha-de recebel-a .. as cartas não mentem! Ainda não é tarde... Entre...
Nessa segunda-feira o passeio fôra ao Instituto dos Cegos.
Gloria voltava cora a alma cheia de espanto. Divizando no banco do jardim o padre Assumpção, pontual na espera, correu para elle com enthusiasmo. Alice acompanhava-a a distancia, com ura sorriso placido.
—Adivinhe onde eu fui, padre Assumpção!
—A algum lugar muito bonito, porque os teus olhos reflectem maravilhas!
—Acertou. Fui ao Instituto dos Cegos!...
—Ah! mas... pareceste-me tão alegre!
—Pois então! eu imaginava que todos os ceguinhos vivessem amargurados... zangados... que no escuro em que vivem não se entretivessem com coisa nenhuma, nem pudessem lêr, nem tocar, nem nada... Quando D. Alice me disse: vamos ao Instituto dos Cegos... eu não respondi nada, por vergonha, mas fiquei com medo...
—Os cegos nunca fizeram mal a ninguem...
—Não sei... mas eu tive medo de ficar com pena!
Alice chegava nesse momento; o padre cuprimentou-a e recebendo a menina, despediu-se d'ella.
Gloria abraçou a moça com frenesi e partiu, em companhia do padre, para o escriptorio do pae.
No bond recomeçou a conversa:
—Então hoje gostaste do passeio...
—Muito! Quando chegamos eu estava aborrecida; mas logo que passei pela primeira sala fiquei interessada. D. Alice ia-me mostrando todas as coisas com tanta paciencia... tudo muito limpo e as cegas tão risonhas! Havia lá uma menina chamada Rosinha, da minha edade... e mais adeantada do que eu!
—Porque é estudiosa.
—Mas eu vejo!
—É que não basta vêr...
—D. Alice levou uns biscoitos para as crianças... Se o senhor visse a algazarra que ellas fizeram! São conhecidas de D. Alice... Uma tocou piano e um mocinho, violino... Fiquei admirada... nunca imaginei que os cegos pudessem ser felizes.
—São, alli, porque não tem tempo de pensar na sua desgraça, tão occupadas têm todas as horas. Assististe ás aulas?
—Assisti... leram... deram geographia...
—Foste ás officinas?
—Fui. Vi empalhar cadeiras, fazer escovas...
—Ahi está: lendo, tocando, enramando vassouras ou fazendo outro qualquer trabalho, elles estão sempre entretidos. É uma casa santa, aquella em que puzeste hoje os teus pés. Guarda na memoria a lembrança d'esse passeio, que te servirá de conforto quando ouvires mais tarde falar mal dos homens... Se não houvesse bondade, ninguem iria ao encontro da miseria, nem protegeria os fracos...
—Foram as palavras de D. Alice, quando sahimos de lá...
—Ah, ella disse isto mesmo?
—Tal e qual...
—É extraordinario!... que mais te disse?
—Que todos nós devemos conhecer as casas em que se pratica o bem na nossa terra, para as bemdizermos e conduzir até á sua porta os necessitados de seu soccorro... Disse que o Rio de Janeiro é uma cidade generosa e que nós todos devemos fortifical-a no empenho de agasalhar os infelizes.
—Ella tem razão!
—Quando eu lhe disse que os cegos já não me pareciam desgraçados, ella mostrou-me o mar... o ceu... os morros... os barquinhos de vela... e perguntou-me depois se eu não teria pena de não ver tudo aquillo.
É o exemplo vivo, a commoção aproveitada para o exemplo moral... pensou o padre. Quem teria inoculado naquella mulher esta delicadeza, este tacto de educadora, tão raro? Ella conhece as plantas dos jardins e ensina os nomes das nossas arvores; sabe de cór as casas de caridade e chama para ellas a sympathia das crianças, interessando-as ao mesmo tempo pela grande familia dos infelizes... sujeita-se a exercer um lugar suspeito, aceitando todas as condições que lhe impõem e revela uma sensibilidade rara em todos os actos em que a podemos apreciar...
Será ella na verdade a mulher perigosa, não pelo que calcula e inventa, mas pelo que merece? Não será prudente encobrir, tanto quanto possivel, essa feição singular do seu caracter ao Argemiro?... Gloria não repetirá ao pae as palavras que me disse, fica-lhe no coração o sentido, mas a memoria não as guardará com a mesma fidelidade... Eu serei mudo... Convém ser mudo. Elle quer guardar a sua independencia... e nem percebe que já está captivo! Diz que não. É sincero quando o diz... pensa que não. Nunca a vê... Mal lhe ouviu a voz um dia... Entretanto, só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governante sae, estando elle em casa, logo se aborrece.
É exquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a! Como acabará tudo, se ella não fôr o que parece?... Ha almas tão complicadas, tão indecifraveis! A d'esta mulher assusta-me... preciso defender o Argemiro... sou o unico amigo em contacto com ambos...
Ella é difficil... eu desageitado. Se eu fosse mais corajoso e ella mais franca... Mentirosa?... não me parece... mas é possivel. Minha mãe gostou d'ella. Mas o coração de minha mãe é propenso á sympathia. O melhor coração da Terra!... Argemiro mudou. Está illuminado... Ella envolve-o com um cuidado excessivo... é isso que me faz scismar... Emfim, seja como fôr, a verdade é que a minha Gloria tem aproveitado. Cá em baixo parece outra. Deixa a casca selvagem com a avó, e fica de setim! Teremos isso de lucro! Porque, afinal, para tudo o mais o remedio é a inercia.
Gloria era esperada pelo avô no escriptorio do pae e, como o velho tivesse pressa, as despedidas foram precipitadas. Só depois d'elles sahirem Assumpção reparou na expressão aborrecida do amigo.
—Que novidades temos? Estás com uma cara!
—Imagina: minha sogra vem morar commigo!
—Felicito-te. Terás assim tua filha sempre a teu lado. Parece-me que já lhe pediste isso mesmo ha tempos.
—Quando enviuvei. Então não quiz. E agora...
—Quer. É natural.
—Mentes; não achas natural. Tu percebes tudo tão bem como eu.
—Direi mais: acho que faz bem.
—Em espionar-me?!
—Defender-te.
—Quem me ameaça?
—A tua imaginação.
—Vocês são todos uns imbecis!
—Talvez...
—Metteu-se-lhes uma asneira em cabeça e é alli! Eu sempre quero saber que mal fez a pobre moça á minha sogra! E a vocês todos, que a guerream... mas guerream porque? porque traz a minha casa alegre, cheirosa, bonita, limpa; porque economisa o meu dinheiro, fazendo-me passar bem como nunca, e ainda corrige a minha filha de feios vicios de educação! A eterna malicia faz d'isto um enredo e mette-se-me no caminho para me perturbar. Tu sabes que eu quero muito á minha sogra; depois da morte de Maria redobrou por ella o meu affecto e a minha consideração... Sabes que tenho um grande prazer em vel-a, em estar a seu lado, em chamal-a mamãe... como uma criança... como minha mulher fazia... Sabes que sou fiel ao passado e ao juramento que fiz; sabes tudo isso e sabes tambem que sou profundamente egoista, que amo a ordem, o silencio, o socego, o conforto e a liberdade! A liberdade, sobretudo! Aquella creatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que me não constrange absolutamente em nada. Levanto-me, deito-me, saio, entro, janto, converso, ralho ou rio, sem ter que dar por isso a minima satisfação a ninguem. Vaes vêr agora! Minha sogra e ella são incompativeis...
—Talvez não...
—Sim, com certeza! Abre-se a guerra. A moça sae. O Feliciano readquire o perdido prestigio. Começa o desbarato dos charutos, das camisas engommadas e das gravatas. A mobilia ficará com pó; a comida será atirada para os pratos como para os cães. Minha sogra, velha e pesada, não poderá subir e descer as escadas na fiscalização dos quartos. Os retratos de Maria apparecerão rodeados de perpetuas e sempre-vivas, flôres da minha especial embirração; aquelle perfume suave que me entrou em casa com esta rapariga, desapparecerá com ella; abrirão a porta do gallinheiro para o jardim e seccarão roupas no gradil do terraço do fundo... Verás! Á noite não poderei passear no meu quarto, como costumo fazer, com receio de incommodar a mamãe, que tem somno leve e soffre de enxaquecas; e terei mesmo, para socegal-a, de apagar a vela muito antes de adormecer, porque tem medo de incendios!...
Assumpção sorriu.
—Que pretexto dá para essa resolução?
—Doença. Está doente e precisa de vir morar ao pé dos medicos!...
—Effectivamente, achei-a abatida outro dia...
—A doença d'ella, sabes qual é? ciumes!
Vem vigiar-me... pôr obstaculos... fazer scenas... Como se eu me sujeitasse!
—Não...
—Não?! És innocente! Mas eu fujo, invento uma viagem. Parto!
—Para onde?
—Não sei... para o inferno.
—Pobre senhora...
—Eu adoro-a, Assumpção! adoro-a, lá, á sombra das suas mangueiras, afundada na sua cadeira de balanço, cheirando a alecrim e dizendo as coisas maternaes que sabe dizer. Mas em minha casa atrapalha-me... desarranja-me a vida... altera-me o socego. Pensa commigo: minha sogra pôde viver em companhia da Alice?
—Pôde...
—Como?!
—Pedindo-lhe para não se immiscuir em nada na direcção da casa...
—Seria bom se ella não viesse já com o proposito de supprimir a outra. Engole-a. Verás que a engole logo na primeira entrevista.
—Exaggeras...
—Estás convencido d'isto, tão bem como eu. Não a defendas, nem disfarces!
—Quem te deu essa noticia, o barão?
—Sim. Quando vocês entraram elle acabava justamente de pedir-me que lhe dispensasse um quarto em minha casa. Outra coisa: o meu quarto eu não o dou; e a não ser o meu, o unico quarto nas condições de servir-lhes é o que dei á governante... terei de a desalojar... é desagradavel isso não te parece? Será necessaria a tua intervenção. Agora levo em capricho, não quero vêr nem falar com aquella moça. Uma sacrificada á brutalidade dos outros.
—De que me incumbes?
—De ir communicar isso mesmo á coitada e combinar com ella os arranjos do quarto...
—Tua sogra descerá?...
—Amanhã. Ella entra por uma porta e a Alice sahirá pela outra; é o que vae acontecer.
—Talvez não...
—Vê se com o teu prestigio de padre e a tua diplomacia consegues conciliar as coisas...
—A baroneza desconfia de mim...
—Ah, já notaste!
—Todavia, procurarei ellucidal-a. Ninguem acredita, a não serem os amigos intimos, que mantenhas no segredo da casa a situação que fazes transparecer cá fóra... Não censures tua sogra, pela mesma persuasão, que...
—Persuada-se do que quizer; mas não lhe assiste o direito de impedir a minha vontade e a minha liberdade de homem, de fazer o que eu muito bem entender. Nem minha mãe seria capaz d'isso, nesta situação...
—Não te exaltes...
—Meu sogro notou com certeza o meu sorriso amarello...
—Pobres velhos!
—Só os lamentas a elles! E a mim?...
Assumpção. não quiz dizer a quem mais lamentava, mas a figura pallida de Alice atravessou-lhe o espirito numa aureola de piedade. A sua commissão era muito delicada, e nem sabia por onde começar.
Argemiro passeava agitado pelo escriptorio, falando entrecortadamente:
—Exactamente agora, que tenho tanto trabalho... aquelle doce socego... ainda hontem escrevi até ás duas horas...
Qual!... E aquella mania da comida sem sal?!... E eu que aprecio os salgados... Outra coisa que eu abomino... o cheiro do tal matte queimado! E o senhor meu sogro não dispensa o matte!... Logo de manhã cedo é cada chicara!
O Feliciano vae rejubilar-se! Se me apparecer com a cara alegre, mato-o!... Se não fossem certas considerações... Ah! os meus livros, tão bem arrumadinhos... Has de crêr? Depois que ella está lá em casa nunca achei uma falta e nem uma traça na minha bibliotheca! Antes, era um desespero! O Feliciano tinha aquillo em uma desordem... Eu estava agora tão bem... tão bem!... Que castigo!
—Tranquillisa-te... tudo se ha de arranjar.
Por quanto tempo vêm os teus velhos?
—Tempo indeterminado. Quer dizer: toda a vida!
—Se elles soubessem d'este acolhimento...
—Sabem. Presumem! Minha sogra com que fim vem cá para baixo? Com o fim de escangalhar a minha felicidade. Pensa que eu amo, que sou correspondido e vem pôr-se entre os meus beijos e os da pobre rapariga... O que conseguem com isso tudo? Despertar-me a curiosidade e obrigarem-me talvez a apaixonar-me de verdade. E ainda se hão de queixar... de mim, quando eu confessar isso! Verás.
Assumpção sorriu, dando razão ao amigo, sem se entretanto manifestar.
—Envergonho-me antecipadamente do que se vae passar lá em casa...
—Tua sogra é delicadissima...
—É ciumenta! e os ciumentos chegam a praticar desatinos! Lembras-te de Maria? Um anjo; mas quando lhe dava para ter zelos... perdia a cabeça!
—Tal qual a mãe... Decididamente, eu vou-me embora!...
—Parece-me prudente conversares hoje com D. Alice.
—Nunca... já agora, não quero! Tem paciencia, meu velho, fala-lhe tu... és tão bom, tens-te interessado tanto pela minha vida, que não sei já dar um passo sem ti... e quando o dou não sou feliz.
Estou a falar-te e a reparar numa coisa: vocês nunca alludem ao nome da minha governante sem o acompanharem do dom... vejo que ella inspira respeito a toda a gente... deve effectivamente ser uma mulher fina e educada... D. Alice!... pois a D. Alice vae soffrer vexames.
—Não sejas tolo.
—Verás.
—Espera-me hoje para o jantar. Conversarei depois com a... D. Alice. Ella é cordata e conhece o seu logar. Dás-lhe demasiada importancia. Afinal, ella é uma empregada... uma subalterna. Não exaggeres os melindres e tranquillisa-te. Que mais ordena meu principe ao seu mordomo?