A Intrusa
Capítulo V
—Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar... comprehende?
Maria arrancou-lhe a agulha e o novello das mãos com impaciencia, morta por fazer ella mesma o trabalho. O padre reprehendeu-a; Alice sorriu.
—Deixe... são todas assim!
Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar, pensava de si para si Assumpção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre, de lã barata, uma elegancia reservada e distincta. O cabello, sem frizados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara, enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas, longas e pallidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa disfarçada. As feições vulgares não lhe offereciam nenhum traço caracteristico, e o padre Assumpção impoz-se penitencias, para castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivencia de duas horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de sympathisar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde acções imprescindiveis para a salvação do amigo e de Maria...
Conversaram os tres durante todo o serão. E afinal, qual foi o resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o lucro correra todo para Gloria, que aprendera a fazer crochet e ainda ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã.
V
Argemiro ouvia um constituinte no seu escriptorio da rua da Quitanda. A causa era chôcha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o fallar, olhando silencioso para os raminhos azues do papel reles, como se pedisse ás paredes encardidas a paciencia de que deviam estar impregnadas.
Effectivamente, toda aquella casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os medicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malicia.
Á noite, fechados os escriptorios e cubiculos, os ratos, passeando por aquelles corredores e alcovas desertas, commentariam as chicanas, as mentiras e os segredos, com que a sciencia transfigura a verdade e uns homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque ás vezes, mesmo á plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um d'esses roedores mais curioso, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua murrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma.
O constituinte de Argemiro voltava ao principio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa.
—A mulher do Ministro!
Argemiro abotoou o collete de fustão e prometteu ao homenzinho que faria tudo por elle, mas que se fosse embora!...
O outro atropellou as ultimas perguntas e marcou nova entrevista.
Atravez a meia parede de tabique ouvia-se na sala proxima o frou-frou das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fôra cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria alli?
O aroma do Bouton d'or introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente.
Argemiro considerou aquelle aroma como muito indiscreto, mas gostou.
A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escriptorio a mulher do Ministro!... elle ageitou o nó da gravata e foi recebel-a á porta. Ella entrou logo, com o olhar reprehensivo, o busto impertigado e um sorriso amigo na bocca descorada. Atrás d'ella vinha a filha, muito espigada, mais alta do que a mãe, com um arzinho petulante no rosto claro, de feições miudas.
—Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?!
—Oh, minha senhora...
—Não se desculpe, nem me agradeça a visita.
D'ahi rompeu a fallar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanço que lhe permittisse tratar dos seus negocios particulares, vendo-se ella na contingencia de intervir, como fazia agora, a contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo...
Argemiro agradeceu.
Emquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima d'elle, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.
—Diabo! pensou elle comsigo.
A consulta representava um pretexto. O negocio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estupida: repetia as perguntas com uma difficuldade de comprehensão que dava tempo á filha de espichar a alma pelos olhos fóra.
Mas o coração do viuvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escriptorio, riu, fallou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto do Argemiro, deixando-lhe cahir de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas.
Como o assumpto da consulta já não désse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as ultimas récitas do Lyrico, o jantar do Presidente, o casamento do Angelo Barros... aquelle Angelo que dizia ter feito tambem o juramento de ficar solteirão!
E a proposito a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu...
—Eu já me casei, minha senhora...
—Sabemos; mas ser viuvo é como ser solteiro...
—Estou velho...
—Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.
Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:
—É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem felicidade...
—Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo occupado pela minha morta...
Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de Bouton d'or adejou pela feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?
Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára pela do amor.
Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do marido...
—Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.
Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada...
Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava galante.
—Recebemos ás sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam conhecel-o... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive o homem... é preciso distrahir-se e ser amigo dos seus amigos! Até sexta-feira?
—Até sexta-feira.
Sahiram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosphera o aroma d'ellas. Argemiro poz-se a remexer nos seus papeis, pensando:
—E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o desde a primeira vez que o viu; o senhor convem-me para genro; quer casar com ella?
Elle mesmo se riu da idéa. Essa innocencia de costumes só passaria pela cabeça de um doido; e de mais pol-o-ia em embaraços. Que responderia elle á coitadinha?
D'ahi, talvez que tudo fosse velleidade sua. Os seus cabellos começavam a estriar-se de branco e Sinhá deveria ter ideaes moços... Fôra com certeza illusão... Não lhe faltariam a ella, bonitinha e moça, bons partidos. Todavia...