A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 2 de 22

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A Intrusa

Capítulo II

Só o padre Assumpção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglez. Elle alli estava para defender a afilhada de um mau contacto... previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudéra Argemiro cahir naquelle ridiculo...

Sahiram os tres, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestibulo, desejou a todos—muito boas noites—e fechou a porta.

 

II

 

Era meio-dia quando um bond das Aguas Ferreas parou á entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bond continuou o seu caminho; ella consultou uma notasinha da carteira e entrou num predio côr de milho secco, ladeado por um jardim em meio abandono.

Um rapazinho lavava o vestibulo; a moça olhou para elle ainda embaraçada e perguntou:

—O dono da casa...?

Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior:

—Ó seu Feliciano, venha cá! E voltando-se para a recem-chegada:—A senhora entre.

Ella levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão enxarcado, e atravessou o vestibulo em bicos de pés.

O rapazinho olhou e viu que ella levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os artelhos finos. Mal ella chegava á porta do fundo, quando appareceu um negro, muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dolman branco de impeccavel alvura.

Ella repetiu a mesma phrase e elle fez-lhe um gesto para que o acompanhasse.

Seguiram por um corredor até ao escriptorio do dr. Argemiro, que escrevia á secretária, no meio de um montão de papeis, muito atarefado, já prompto para sahir.

Feliciano avisou da porta:

—Uma pessoa que vem pelo annuncio!

O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um hombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.

—Tenha a bondade de sentar-se... permitta-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a attenção...

Ella fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Elle, bem illuminado pela claridade de fóra, apressou as ultimas notas, fazendo ranger a penna no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamal-as na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo:

—Antes de mais nada, como estes annuncios reclamando senhoras para casas de viuvos são ambiguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governante de minha casa, de uma senhora séria, uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze annos. Ella móra fóra, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia...

Sendo essa a condição essencial, não extranhará por certo que lhe peça algumas informações...

Argemiro esperou um instante, a vêr se ella se decidia a falar sem ser interrogada; mas a coitada encolheu-se na cadeira e elle foi forçado a perguntar:

—A senhora é viuva?

—...Não senhor... sou solteira...

—Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?...

—Sim... senhor...

—Bem... Desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe?

Ella pareceu não entender; depois disse baixo:

—Na minha... na de meu pae...

—Ah!... O nome de seu pae é...

—Meu pae morreu... e é por isso que eu...

Houve uma pausa. Argemiro consultou o relogio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?!

—Que edade tem?

—Vinte e cinco annos...

—É saudavel? A saude é tambem uma das condições que eu exijo.

—Sou.

—Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; pesso-lhe que me escute com a maior attenção e que me responda com absoluta franqueza.

Como lhe disse, quero uma governante para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ella vier vêr-me. Para isso é preciso que essa governante seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruida, mas que emfim não seja analphabeta e que tenha habitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique á impetuosidade das minhas despezas domesticas. Eu não posso tratar d'isso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularisar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Ha uma clausula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensavel na nossa situação, caso a senhora acceite as condições que estipulo...

Elle parou, com ar interrogativo.

Ella respondeu com um fio de voz tremula:

—Perfeitamente...

—É esta: não nos vermos senão quando isso fôr absolutamente indispensavel, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão d'esta exquisitice, ou d'esta mania, não póde ser explicada por inteiro em poucas palavras; supponha, porém, que repouza só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar á noite. Na minha ausencia toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possivel?

—Acho...

—Concorda em que seja assim?

—Concordo.

—Pense na responsabilidade que vae assumir.

—Já pensei...

—Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influencia de uma pessoa moça, saudavel e ordenada. Não quero vêr essa pessoa, por motivos que expuz e por outros particulares e que não vêem ao caso, como tambem já disse. Aviso-a de que sou commodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei?

—Julgo-me.

—Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que a senhora me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama?

—Alice Galba.

—Galba... tenho idéa de ter conhecido na minha infancia um velho com esse nome... um botanico, se me não engano...

—Era meu avô...

—Então seu pae...

—Meu pae morreu ha dez annos...

Argemiro puxou o relogio. Era a hora do bond; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapeu.

—A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado?

A moça levantou-se com timidez.

—O senhor dará o que entender...

—Ora essa! Eu não sei.

—Eu tambem não... É a primeira vez que me emprego...

Argemiro presentiu sinceridade naquella confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, atravéz do véo, um rosto magro e pallido.

«Parece-me feia...» pensou elle comsigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto:

—Onde poderei mandar prevenil-a?

—Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.

—Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Sómente, peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.

Elle já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedil-a. Ella fez uma reverencia timida e sahiu.

Quando Argemiro chegou á rua, com a sua pasta pejada de papeis, viu Alice subir para o bond e notou, como o seu criado, que ella levava as botinas rotas e tinha os artelhos delicados.

O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? talvez apparecesse outra mais geitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os hombros encolhidos até ás botas esfoladas...

 

Quando Argemiro voltou á casa para jantar, encontrou o padre Assumpção, que vinha trazer-lhe noticias de Maria da Gloria.

—Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver?

—Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquillo, e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar commigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?

—Magnifica, muito córada, forte! A avó exasperada porque ella não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ella encarapitada no muro, apanhando as amoras do visinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descozida. A avó mostrou-me aquillo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!

Riram-se ambos, Argemiro e o padre.

—A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aquelles modos de rapaz...

—É uma criança... deixa-a.

—Mas afinal, de quem é a culpa? Dos avós. Se ella morasse commigo seria muito outra.

—Não estaria tão bem.

—É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe lêr, rabisca umas letras em pessima calligraphia... e toca sem compasso umas intoleraveis lições do methodo! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?

—Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se córa roupa e se deitam gallinhas. É uma sciencia rara hoje em dia e muito util. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o cathecismo, para a primeira communhão.

—E tu...

—Eu disse-lhe que deixasse a menina por emquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chacara ella repartia fructas com a criançada pobre da vizinhança.

—É brutinha, mas tem bons sentimentos...

—É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.

—Não basta o tempo; estás convencido de que ella precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrifical-a ao egoismo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroções a minha negligencia; esta é a verdade. Se eu pudesse organisar a minha vida de outro modo... A proposito: veio hoje uma rapariga, pelo annuncio do jornal, offerecer-se para governante. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem varias, poderiamos escolher. D'esta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.

—Corcunda?

—Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ella voltará quinta-feira á tarde; conversa tu com ella e decide tudo. Não quero tornar a vêl-a, mas desde já te digo que seja como fôr, direita ou torta, será preferivel a coisa nenhuma.

—Vaes crear uma situação embaraçosa e insustentavel. Já não estás em edade de fantasias.

—Fala para ahi. Que disse tua mãe?

—Contra a minha espectativa, aprova a tua resolução...

—Por força.

—Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo tecto com uma creatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.

—Com esta, coitadinha, parece-me que isso ha de ser facil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governante bonita, ou pelo menos graciosa. A belleza suggestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegancia. Imagina, se ella effectivamente fôr aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade á nossa situação!

—Preferes o perigo...

—Para pôr á prova a minha impassibilidade e dar-me ares de heroe—respondeu, rindo, Argemiro. Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue-frio.

—Tolices!

—Mas que queres que eu te diga, a ti que me conheces de cór e salteado?! Vens com uns ares exquisitos assustar-me com um futuro que não promette coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo d'esta imposição está nisto: ser-me-ia penoso vêr agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viuva, que só vivo para sentil-a. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridiculo. Tu me comprehenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher atravéz do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ella preside á minha vida, soberanamente.

Expliquei á outra, que ahi veio, que só uma razão me obrigava a impôr-lhe esta clausula extravagante: não querer dar azo á maledicencia e aos commentarios dos criados... Como se isso me importasse!

—E ella?

—Acceitou.

—Emfim... acho que fazes mal. Mas isso é comtigo. Preferiria que te casasses, apezar...

—Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...

—A não ser...

—Para essa especie de amores que só tem um sabor—o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente á minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma d'ella não sae d'esta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fóra sou um viuvo como outro qualquer, não me abstenho nem da côrte á mulher de salão, nem do abraço á mulher do peccado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquella sua phrase ciumenta e que era como que o seu estribilho:—ama-me, a mim só! a mim só!

Houve uma pausa. Padre Assumpção observou:

—A nossa Maria não se parece com a mãe...

—Nada.

—Sahiu a ti.

—Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lyrico.

Á mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu á direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um nickel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assumpção.

—Naturalmente, uma dona de casa faz falta... observou este.

Jantaram sem alegria; á sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de christofle mostrou ao padre que o garfo tinha signaes de fogo na extremidade dos dentes, e que as laminas das facas começavam a bailar nos cabos.

E tudo aquillo era novo!

Padre Assumpção sorriu:

—Agora reparas em tudo!

Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com attenção para o criado, viu que elle ostentava cynicamente uma das suas camisas bordadas; tambem não estava certo de lhe haver dado já aquella bonita gravata roixa de bolinhas pardas. Como o padre Assumpção era considerado de casa, Feliciano, mesmo á vista d'elle, apresentou ao amo as contas da semana.

—A ode do desperdicio!

Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almasso abaixo, atropellando-se no seu exaggero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das fructas finas, até á serzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através a multiplicação do negro.

—Vês, Assumpção? quasi um conto de réis numa quinzena, isto numa casa propria, onde ha adega e que a chacara do sogro enche de perús, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastavase muito menos.

—Ainda tens um recurso...

—Qual?

—Uma pensão...

—Deus me livre! A casa de pensão é a valla commum da vida. Repugna-me! e voltando-se para o negro:

—Olha cá, explica-me: porque, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ella deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que especie de costureira é essa?

O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.

—É uma especie de velha...

—Ah! uma especie abominavel! Despede-a.

Acabado o jantar, padre Assumpção sahiu para a sua caminhada até ao largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espectaculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:

—Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.

—O teu bolso não tem fundo, nunca se póde encher! Que conta é essa?

—Uma conta antiga, de um carro...

Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E sahiu pensando:— acabou-se o teu reinado, ladrão!

O salão do Lyrico estava repleto.

O primeiro acto ia quasi no fim.

Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esguelavam-se em protestos de amor. O publico via aquillo com respeito e certa solemnidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exactamente para elle nesse momento. No primeiro intervallo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ella estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com dominio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou se para o corredor, em conversa com o Conselheiro Isaias e o dr. Sebrão.

O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na occasião ostentando pelos jornaes grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a seccura sábia da phraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicencia de outros, que os attribuiam ao Benedicto Lemos, um bohemio intelligente como o diabo e bebedo como uma gambá.

Elle, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o Conselheiro Isaias, ambos commensaes e amigos do Presidente da Republica.

Era um homem arguto.

A esposa, baixa, trefega, de um moreno pallido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições apparatosas da alta politica.

Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta annos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impôr a sua auctoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que elle trabalhava por penetrar-lhe as intenções.

Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo tezo no seu alto collarinho, com uma camelia branca na lapella e o cabello achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se deante d'ella numa reverencia. E depois de sentado:

—Magnifico este primeiro acto. Não gostou?

A Pedrosa respondeu quasi seccamente:

—Muito.

Benjamim olhou para o Argemiro, que poz o binoculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, comprehendeu que chegára inopportunamente e acabou binoculando tambem a Vieirinha!

Depois de um curto silencio ouviu-se a voz da dona do camarote num commentario de enfado:

—Não é feia aquella senhora, mas veste-se muito mal...

Benjamim, confirmando:

—Realmente, não tem gosto... usa umas côres muito espantadas...

Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um peccado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhára no ar quando vinha atirada ás mãos do Pedrosa!

Argemiro, sem retirar o binoculo:

—Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro acto?

—Absolutamente!

—Homem feliz...

—Porque?!

—Porque póde gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restricções...

—Pois olhe, acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; pela sua insistencia em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ella, ao menos para o senhor, não tem restricções.

A Pedrosa tinha geito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se tambem e o advogado respondeu com um suspiro:

—É que aquella senhora não permitte com facilidade que a gente a veja de perto...

—Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A proposito, minha filha deixa ámanhã definitivamente o collegio das Irmãs de Sião. Vou buscal-a a Petropolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sabbado quero apresental-a aos meus amigos. Ella tem grande predilecção pelo sr. dr. Argemiro!

Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão differente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...

Intrigava-o aquillo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...

Ao sahir do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaias e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demosthenes brasileiro.

Argemiro ouvira já o collega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.

O conselheiro Isaias approvou o cognome de Demosthenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Athenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a politica como uma das artes superiores... tambem elles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que elle escrevia actualmente um livro juridico de extraordinario interesse...

Pedrosa, ufano da amizade dos tres, resplandecia de orgulho.

Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo d'essa manhã. Bons argumentos; excellentes demonstrações!

Pedrosa esfregou as mãos: sim, elle era sincero e estudara a questão a fundo. Fôra impelido á publicidade por uma serie de circumstancias muito especiaes; do contrario nunca sahiria do seu retiro, onde queimava as pestanas a lêr os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do paiz...

O conselheiro Isaias affirmou:

—Ainda não pude lêr o seu artigo; mas o Presidente leu-o e ficou bem impressionado.

Pedrosa deu um saltinho involuntario:

—O Presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Elle ha de forçosamente vêr que eu não aponto alli senão erros da administração passada e que lhe tem acarretado a elle enormes embaraços...

—Difficeis de vencer...

—Facilimos, senhor, facilimos!

—A verdade é que o Presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objectou Sebrão.

—Isso! approvou Pedrosa, estendendo a mão em fórma de juramento.

Os outros olhavam para elle com certa admiração. Pedrosa continuou, um tanto confidencial:

—Eu é que não quero dizer a ultima palavra...

Nesse instante rompeu a musica e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo acto da Tosca, do que a ultima palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os á pressa e caminhou para a escada.