A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 3 de 22

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A Intrusa

Capítulo III

 

O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.

—A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestigio!

Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.

—Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.

—Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é este horror! E perco um tempo!

Caldas rogou uma praga.

—Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...

—Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos marrons de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha.

—Não tenho tempo. Entra.

Entraram ambos para um carro.

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.

Argemiro continuou, depois de sentado:

—Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico; tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão. Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...

—E comtigo não se conta?

—Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Gloria em minha companhia.

—E se te casares?

—Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar...

—Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

—Sinto-me bem assim.

—Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?

—Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da republica...

—Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica...

—Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então, para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o mau rapaz...

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha.

—Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio!

—Talvez faça falta...

Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:

—Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios... e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe resultado?

—Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar suissos?!

—Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem!

—Sempre arranjas uns negocios!

—Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...

—Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes?

—O burro do Pedrosa vae ser ministro.

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias interrompidas.

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.

Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.

—Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.

—E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto, veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas...

—Condição essencial!

—E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...

—Aprecio pouco o typo e detesto a raça...

Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que, abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club. Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz gritava aos outros:

—Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de esbofetear o Andrade, alli mesmo no club!

Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em Madureira.

Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os esperava.

—Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro.

—Todos bons.

—Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama...

A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por uma extensa rua de mangueiras bellissimas.

—Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas sombras.

—O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via, ainda que de longe, a filha.

Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as mangueiras atirou-se para o carro alegremente:

—Papae! papae!

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca de beijos.

—Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo.

Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.

No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem abraçou.

—Mamãe?

—Espera-os na sala do meio. Entrem.

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe; percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha, continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas amadas.

A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabellos completamente brancos.

Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de crysantemos pallidos.

—Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto.

Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda os seus cabellos brancos e encaracolados.

—Então, meu filho, como acha sua filha?

—Forte... muito alta!

—Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito voluntariosa...

—Tem a quem sahir...

—A mãe era um cordeirinho...

—Mas a avó é energica. E eu...

—Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!...

—Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos?

—Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...

—Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria.

—Ora, papae... depois... eu...

—O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias... eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro.

—Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um collegio?

Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse:

—Se quizerem matal-a...

O barão protestou:

—Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O que temos a fazer é interessal-a pelo estudo.

—Mas como?

—Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição, anda. A professora de musica não está descontente...

Gloria amuou.

—Eu não sei nada!

—Como não sabes?! Vae tocar!

—Não...

—Gloria!

—Não...

—Esta menina!

Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio:

—Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás...

Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.

O pae informou-se, voltando-se para o sogro:

—Como vae ella na leitura?

O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas:

—Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem! aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance!

—Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo.

—Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Gloria é uma analphabeta!

—Quasi.

—Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto...

—Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.

—Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...

—Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:

—Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão geniosa; hein?

—Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!

—Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois ás ortigas?

Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a baroneza reagiu, sorrindo:

—Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando trabalhar para viver... que coisa horrivel!

—O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!

—Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria... ora adeus! os homens gostam d'isso.

Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:

—Eu queria-a mais meiga...

—Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor, fallando com a bocca cheia.

—Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que ella é um diabinho e que é assim que eu a amo!

Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a miude. Assim dividiriam o trabalho.

A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu dia mais livre.

A sogra parecia aterrada.

—Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a sua má impressão.

—Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio.

A baroneza pulou na cadeira.

—Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu!

—Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã...

—Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na mesa:—é velha, ao menos, essa creatura?

—É moça...

—Hein!?

—Tem vinte e poucos annos.

—Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa!

—Porque?!

—Não é conveniente...

—Pois já lá está. Entrou esta manhã.

—Poderá sahir esta noite...

—Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano: veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito por favor... Além disso, eu quero ter minha filha á minha mesa, uma vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens, e que homens! Concordem que não é exigir muito!

—Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel, mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo á baroneza e ella concluiu suffocadamente:

—Pobre da minha filha!

Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o:

—Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o pae. É muito justo...

—A moça é bonita, papae? perguntou Gloria.

A baroneza olhou para o genro com curiosidade.

—Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.

—Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco... não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha filha...

—Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso... O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel e acceital-a, ao menos, por algum tempo...

Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto, e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora dos lacticinios.

A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a filha.

—Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida.

Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço.

—Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me respondes?

—Eu não sei!...

—Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados?

—Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae?

—Ainda é cedo... terás tempo...

—Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!...

—Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.

—Não gosto de estudar; não gosto e não quero.

—Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?!

—É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!

—Oh!

—Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar vagens...

—É muito divertido apanhar vagens?

—É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então, desesperada, rasguei o livro...

—O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto ainda maior...

—Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante.

—O que me vale é que tens bom coração...

 

Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que Argemiro desabafou:

—Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para mim...

—Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns complicados...

—Talvez tenhas razão...

—Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes.

Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto. Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira, que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa...