A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 17 de 22

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A Intrusa

Capítulo XVII

 

A praia de Botafogo regorgitava: era dia de regatas. Por todo o cáes o povo apinhado olhava para o mar, coalhado de barcas, palpitante de luz. Nas archibancadas, á beira d'agua, as toilettes claras das moças despertavam a idéa de grandes flôres variegadas, desabrochadas ao sol, e, na rua, carros e bonds arrastavam-se cheios, vagarosos, por entre a multidão. Mas a belleza era o mar, cuja superficie apenas enrugada e de um azul violento, toda se paletava de escaminhas de ouro. Andavam pelo terceiro pareo. Baleeiras velozes, bem remadas, demandavam as balisas na ancia da victoria; outras, em repouso, deixavam-se balouçar pela agua, mollemente, emquanto lá no alto as gaivotas espalmavam as azas, tranquillamente.

—Bellos rapazes! observou Adolpho Caldas, olhando com enthusiasmo para a tripulação das baleeiras.

Arlindo Telles accenou com a cabeça que sim, e chupou com mais força e maior satisfação o seu havana.

Caldas continuava a meia voz:

—Contempla áquelles biceps e córa! Homem da cidade, da manhosa politica e das sobrecasacas bem feitas, não te envergonhas dos teus braços deante d'áquelles?...

—Se eu discutisse a murros...

—Quanto mais vigoroso é o braço, mais franca é a lingua!... Digo-te por mim, que as minhas banhas sentem-se humilhadas, offendidas, por áquelles musculos. A nossa raça salva-se. Ainda bem para os paes de familia... Vê o modo energico e bem rythmado por que os remos d'esta baleeira vêm golpeando a agua...

Telles soprou a baforada do seu charuto aromatico, e respondeu:

—Prefiro olhar para o pavilhão e as archibancadas... Se os rapazes são fortes, as mulheres são bonitas, e eu guardo para ellas, em todos os tempos e logares, a minha predilecção. Hum! isto hoje está chic... Se as galerias da Camara tivessem esta sociedade... eu falaria todos os dias!...

—Vês que as mulheres dão mais apreço ao musculo que ao verbo... Empresta-me o binoculo. Dança-se nas barcas...

—D. Maria Helena está no pavilhão... tambem lá estão as Tavares... a Chiquita Maia... A Pedrosa e a filha. Precisamos cumprimental-as.

—Depois... Deixa-me beber saude pelos olhos. Faze outro tanto, que precisamos ambos de lavar a alma...

—Chegou agora a Joanninha Mendes...

—E ella? indagou Adolpho sem desassestar o binoculo da barca, onde se dançava.

—Ainda a não vi... mas ha de vir!

—Lá passam os vermelhos a deanteira!

—Não... por emquanto ainda são os azues...

—Os demonios têm força... Agora!

—Bravo!

—Viva!

—Bravo! gritaram muitas vozes a um tempo, numa explosão de enthusiasmo. Ao lado d'elles um moço gordo berrava, agitando o chapeu. Telles sacudiu a cinza do charuto da lapella da sua sobrecasaca avelã, onde sorria a graça de uma orchidea lilaz, e voltou-se todo para o pavilhão.

Sinhá debruçava-se no pavilhão do jury, com as faces afogueadas e o olhar chamejante. A seu lado, a mãe lambiscava bonbons e as Moreiras, do Cattete, sacudiam os lenços com frenesi:

—É o Boqueirão!

—É o Flamengo!

—Não...

—É!

—Bravo!

—Bravo!

Os nomes dos clubs andavam no ar, como as gaivotas. Afinal, um d'elles ganhou o pareo. Rompeu a musica e a baleeira victoriosa veio receber as saudações, que rebentavam em palmas por todo o cáes, como uma onda. Ao passar pelo pavilhão, Sinhá, toda debruçada, vermelha como uma rosa, atirou-lhe o seu ramo de violetas. Aparou-o no ar um rapaz loiro, batido de sol, de rija musculatura e olhos brilhantes. Trocaram um sorriso luminoso.

—A mocidade!... a mocidade! É isto... um aroma que atravessa o espaço... um relampago que illumina a vida, para deixar saudades... Este sim! commentava Caldas comsigo, lembrando-se do Argemiro; e concluiu: Agora a Sinhá escolheu bem... isto é, não escolheu, achou. Aquillo é amor! E dirigindo-se ao Telles:—Vamos agora cumprimentar as senhoras, com escala pelo «buffet». Estou com sede.

O deputado acariciava o queixo nú com a mão gorducha, em que rutilava um rubi. Seus olhos vivos, de pestanas curtas, furavam por entre cabeças e hombros, á busca de alguem.

Á roda commentavam o pareo. Havia descontentes; moças indignadas, outras quasi chorosas, rapazes amuados. Tinham perdido. Mas outros e outras gesticulavam com alegria por aquelle triumpho, que dava mais uma medalha ao club da sua sympathia.

Falava-se alto nas archibancadas. Os sons da banda de marinheiros no Toureiro da Carmen, não permittiam segredos.

Em toda a linha do cáes os guarda-sóes de côres differentes, lembravam uma vegetação movediça de cogumelos fantasticos, desde os pequeninos, das crianças que assistiam á festa sentadas no paredão, com o olhar estúpido para o quadro polichromo, até aos grandes, protectores de velhos prudentes e amigos da sombra.

Corria uma aragem forte. Agitavam-se no ar os galhardetes vistosos e as bambinellas do pavilhão central, como a acenar a toda gente que fosse para alli, gosar aquelle quadro de luz!

O deputado impacientava-se. Adolpho parecia grudado ao «buffet», comendo sandwiches e bebericando cerveja, no meio de um grupo de remadores muito adulados pela admiração dos outros. Trocavam-se brindes apressados; e na alegria, até um velhote pallido e encartolado trauteava a Carmen, acompanhando as sonoridades da banda.

O intervallo acabava-se. Ouviu-se o estampido do signal de partida.

Voltaram-se para o mar.

—Lá vem ella! Exclamou Telles a meia voz, sobresaltado.

—Um ibisco! observou Adolpho, olhando para uma lancha que se approximava do cáes.

O ibisco era a madame Senra, toda de escarlate, com os bandós doirados rebrilhando sob as papoilas do chapeu. Ella agitava a sombrinha vermelha, rindo-se para o Telles, que se precipitou alvoroçado e inconveniente para a receber no desembarque, sem attenção aos bigodes retorcidos do Senra e á escolta de moças que a acompanhavam.

Caldas imaginou:

«O patife do Telles vae passar uma hora feliz, uma hora ligeira, d'essas que suspendem a vida! Porque será que as mulheres bonitas dão geralmente preferencia aos banaes? Esta é linda. Uma flôr!... Sempre que a vejo sinto os meus pensamentos transformarem-se em abelhas... ella mesma deve sentir-se como que nimbada por um adejo de azas... volupia dos olhos, tentados pela sua graça... Não se me dava!... Que lhe dirá o idiota do Telles? Sua Excellencia alcançará alli o que não alcança na Camara: chegar ao fim?... Pois é bem boa esta cerveja, e vou tomar mais um copo... Talvez chegue... sim... ella não é rigida... uma flôr»!

A Pedrosa vira-o agora. Cumprimentava-o de longe. Que maçada! era preciso ir dizer adeuzinho á Pedrosa!

«O amor faz falta, continuava a meditar Adolpho; desinteressa a gente de tudo... É um abandono, uma estupidez!»

Acotevelando o povo, elle sahiu do «buffet» e entrou no pavilhão central, ao mesmo tempo que uma cesta de flôres e uma bandeija de bonbons.

—Entrei num momento sympathico... concluiu elle para si. E foi cumprimentar as senhoras. Lá fóra renovava-se a scena:

—Bravo!

—Viva Icarahy!

—Viva... Vasco da Gama!

—Viva... a!

Voavam as flamulas e os galhardetes; outra baleeira veio passear o seu triumpho, beirando o cáes, onde a multidão estrondeava em palmas.

Na lindeza do ceu, de um azul carregado e limpido, resaltavam as côres maravilhosamente. Os perfis dos morros, rochosos uns, verdejantes outros, destacavam-se em todas as suas linhas, com surprehendentes minucias. Nas archibancadas as linhas das mulheres eram como orlas de flôres de matiz viçoso que as ondas tivessem deposto na terra maravilhada.

—O sport é a alma do Rio, affirmava a Pedrosa a uma amiga, no momento da approximação de Adolpho. Veja que enthusiasmo!

Decididamente, elle veio substituir os bailes... hoje dança-se pouco.

O remo e o foot-ball roubam os pares ás moças... não é verdade, dr. Caldas?

—Protestando contra o titulo, confirmo, como não podia deixar de confirmar...

—Protesta por modestia?...

—Por consciencia...

—Outros o usam com menos justiça... eu teimarei em chamal-o doutor... Porque não nos tem apparecido?

Elle desculpou-se, e, como se tivessem aconchegado mais as pessoas do grupo, deixou-se ficar, envolvido nos perfumes dos vestidos bonitos que o cercavam. Sinhá, sempre voltada para o mar, não perdia de vista uma baleeira onde um rapaz loiro se condecorára com um ramo de violetas... A mãe fallava, fallava sempre, semeando sentenças, no seu palavreado animado e imperativo.

O marido não a acompanhara. Lá tinha tempo para se divertir!

Os altos negocios do Estado suffocavam-n'o; vivia numa rêde de conferencias, projectos e estudos de responsabilidade. Se todos tivessem a sua sinceridade!

—Faziam-lhe justiça... observaram.

—Qual! os sacrificios eram de tal ordem, que não transpareciam completamente cá fóra... Um verdadeiro escravo das suas idéas, o marido! A politica é despotica... o que lhe valia era não ter ciumes... De resto, concluia ella, para dizer algo em ar de sentença: no amor, quando o ciume entra pela porta, a confiança salta pela janella! Em todo o sentido,—e sublinhava com o olhar a phrase—nunca deixára de confiar no marido.

Cultivava a illusão, se é que era illusão, como quem cultiva uma plantinha rara, de flôres miraculosas. E assegurava:—Está nisso o segredo da felicidade feminina!

As moças nem a ouviam, inclinadas sobre os peitoris, á espera!

Era agora o pareo do Campeonato. Crescia o enthusiasmo. Quem ganharia a taça de ouro?

Soou o tiro, signal da partida.

Arfavam as bambinellas de renda do pavilhão e as tiras garrulas das bandeirolas ao sopro salitrado da aragem. Um rosario de marrequinhas desfiou-se no ar com o susto. Nas archibancadas os leques e as fitas multicores agitavam-se numa palpitação violenta.