A Intrusa
Capítulo XII
—Agradeço a sua resolução... vá-se embora e peço-lhe que não volte, senão quando souber que eu já não estou aqui... Para o senhor isso não será um sacrificio; e quanto a nós... a saudade que nos deixar será attenuada pela certeza do seu respeito e da sua estima...
Toda de branco, naquella meia luz em que bailavam insectos e sorriam japonezas, a figura grave da moça resuscitava uma visão de sonho, que perturbava o espirito de Argemiro. Elle curvou-se, beijou-lhe as pontas dos dedos gelados e com a voz engasgada pela commoção, affirmou:
—Eu não a tinha comprehendido, distanciado como estou da sua edade e da sua perfeição... Consinta que eu volte no dia em que o seu coração de menina tiver encontrado um outro coração, moço e digno d'elle! Bastará então uma palavra sua: venha!
Sinhá não respondeu. Argemiro acceitou o agasalho das mãos d'ella e sahiu, commovido, tonto. Fóra, as estrellas palpitavam luminosamente no fundo avelludado do ceu. O ar cheirava a flôres. E o viuvo caminhava a pé, sózinho, pensando nas surprezas d'esta vida de civilisação, e revendo a pallidez da moça, o seu olhar sincero e transparente. Não teria elle repellido a felicidade?
Entretanto, vendo-o sahir, Sinhá recolheu-se para tráz do biombo, chorando devagarinho, devagarinho, em segredo.
XII
«Bem dizem os romancistas, que os romances se fazem por si. Creada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ella caminhará por seus pés até ao ponto final do ultimo capitulo.
Acontece por isso que o auctor tem ás vezes verdadeiras surprezas, como se todos os actos dos seus heróes não fossem obra sua! Concebida a idéa fundamental do livro, está creado o sopro de vida que o animará. A difficuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Thadeu, pallido, passeando agitadissimo pelo escriptorio, com um verdadeiro ar de furia.
—Que tens tu?! perguntei-lhe assustado, de entre portas.
Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade commovedora:
—Tenho que o patife do Braz apaixonou-se por tal fórma pela Delfina, que não sei como hei de casal-o com a Lucinda! E apontava com o dedo colerico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duello fantastico de um romancista com a sua personagem revoltada.
Por fim aventurei timidamente, querendo valer áquella afflicção:
—Por que não casas essa tal Lucinda com outro... que diabo!
—Com outro?! estás doido! Ella adora o Braz e não póde absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Braz é que ella ha de casar, quer elle queira, quer não queira!
O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance... O Braz não casou com a Lucinda. Porque não quiz, está claro!
Adolpho, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou:
—Está-se bem aqui!
—Não achas? Pois essa poltrona amavel estava encerrada no quarto dos badulaques por imprestavel! Foi ella que a arrancou de lá, mandou-a ao estofador e pôl-a aqui. E guerreiam uma mulher que me presta taes serviços!
—Deixa guerrear... Na vida como nos folhetins, os romances fazem-se por si... Vê tu o trabalho e os manejos da Pedrosa em que deram! Surprendeu-me tanto o que me disseste da filha, que estou quasi apaixonado por ella... Palavra! nunca a suppuz capaz de uma scena tão fina. Parece do Thadeu.
—E estava linda!
—Demais a mais!... E depois de uma pausa: A tua governante é bonita? Disse-me a Pedrosa que não. Por isso infiro que sim.
—Não sei...
—Deixa-te de asneiras: sê franco.
—Já te disse.
—Ella leva o seu rigor até aos teus amigos?
—Parece. A não ser o Assumpção...
—Teria graça se o nosso Assumpção atirava a batina ás urtigas por amor da tua...
—Cala-te, impio!
—Estou calado! Mas é cada vez mais adoravel, o Assumpção! Para mim, elle tem lá dentro coisa occulta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pôde adivinhar... Não te parece?
—Não. Nelle ha só o amor do ceu... mais nada...
—Estás seraphico! Pois tu acreditas que hoje em dia, um homem valido se faça padre só por amor do ceu? Qual, historias! Elles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra qualquer acommodada ao seu egoismo e á sua habilidade... Os intelligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos... Tenho um medo d'elles que me pélo... O nosso Assumpção é um exemplar unico, faz-me lembrar um d'esses sacerdotes virtuosos dos romances anti-clericaes, com que o auctor adula o sentimento dos leitores piegas... O que me agrada sobretudo no Assumpção é que elle é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns... Não vês o recato em que elle envolve as suas acções e as suas idéas? Annulla a sua personalidade, como para dar vulto ao facto e pôr em toda a evidencia a personalidade alheia... A palavra eu parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar á bocca, e todavia elle é intelligente. Já me tenho servido da sua bibliotheca; é opulenta em obras classicas portuguezas. Se fosse escriptor, seria um defensor da lingua!
—O valor do Assumpção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Elle é bom. Ás vezes penso que elle estaria melhor num logarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a supportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Elle não é luctador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. Se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assumpção nunca me confiou o seu segredo, que elle guardou sempre com tamanho recato que tive escrupulo em interrogal-o. Por que não havemos de acreditar na vocação? Elle sempre foi um mystico. A mãe, uma senhora adoravel, fez tudo para desvial-o do sacerdocio; batalhou como uma heroina; mas elle dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Elle vivia com a sua illusão, eu com o meu peccado; e com tão oppostas idéas nunca offendemos a nossa amisade. É verdade que elle me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmitti nem uma sombra da minha personalidade...
—Não lhe conheceste nem uma paixão?
—A dos livros, de que fallaste ha pouco; e essa mesma ha alguns annos é que me dá a impressão de ser a taboa fluctuante do seu naufragio!
—E tua filha?
—Sim, elle adora minha filha!
—Ora pois, já tem com que se entreter. Dá-me outro charuto. São magnificos os teus charutos... Realmente, está-se bem aqui. Estou vae não vae a raptar-te a tua Alice!
—Psiu! falla baixo...
—Receias que ella esteja atráz da porta?
—Quem sabe?...
—Não duvides! uma governante de casa de um viuvo só, vinda por annuncio de jornal... deve ter ao menos um defeitozinho, e olha que o da curiosidade é quasi virtuoso... Antes do que me disse a Pedrosa, eu suppuz que vocês estivessem a mangar commigo, e que a tua mulherzinha fosse por ahi uma matrona gorda, de cabellos pintados e verruga no queixo. Mas a Pedrosa, mais afortunada do que eu, esbarrou de cara com ella, e pela raiva com que lhe ficou, deduzi que a rapariga deve ser bonita...
—A Pedrosa disse-te isso?
—Disse que era feia.
—Então!
—Por isso mesmo fiquei sabendo que o não é. As mulheres nesse assumpto são sempre contradictorias. Para experimental-a, exclamei com ar de desgosto:
—Oh, minha senhora, uma velha! E ella logo, muito indignada:
—Velha?! moça! e toda presumpçosa, com a sua gravatinha azul!
—Pensou, talvez, que a gravata fosse minha!
—E d'ahi!... Ó diabo, corre aquelle reposteiro!
—Falla á vontade. Ninguem nos ouve.
—Que confiança!
—Absoluta.
—É extraordinario!
—É extraordinario. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranquillo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas sinto-a; a sua alma de moça como que enche estas salas vasias, de juventude e de alegria. Sózinho com os criados, eu abandonava-me. Ia ás vezes para o almoço de chambre e de chinellos; passava pelo jardim sem olhar para os canteiros; e no escrupulo de alterar as coisas da antiga ordem em que as dispuzera minha mulher, deixava-as envelhecer monotonamente, sem uma reforma que as alegrasse. Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Botava pontas de cigarros pela casa... estava, emfim, de um desmazelo torpe! Depois, sentindo a influencia d'ella, percebendo-lhe os gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim habitos mais cortezes e a tratar a minha pessoa com mais consideração e maior carinho. A idéa de que ella poderia ver-me por uma fresta de veneziana, quando eu ia para a rua, fazia-me prestar attenção ao meu jardim e observar o seu progresso e melhor tratamento... Almoçando, eu via na cadeira vasia em frente ao meu logar, a minha governante a observar por que maneira eu levava o garfo á bocca ou enchia o copo de vinho. Retomei insensivelmente os meus habitos de elegancia, prejudicados com o abandono em que por tantos annos vivi nesta casa, dirigida por um preto ladino. Entrando da rua, nunca surprendi a minha governante, como aconteceu á Pedrosa; mas ella vinha e vem ao meu encontro num aroma fresco de pomar florido, e que eu nunca sentira antes da sua estada nesta casa. Tu o disseste ha bocado:—Está-se bem aqui!—A pouco e pouco as coisas mudas que me rodeavam, e que só suggeriam idéas saudosas e melancholicas, foram-se despindo d'esse aspecto doentio e talvez tolo e animando-se em novos polimentos ou côres risonhas, que me davam saude. Cadeiras velhas, esgarçadas no estofo, atiradas para uma alcova do porão, subiram lustradas e estofadas de novo para os cantos desguarnecidos das salas, onde o conforto é muito maior do que foi sempre! Repara para o assoalho: um espelho! Vê as cortinas: resplandecentes! Em um meio que se asseava cada vez com maior primor, eu tive de corrigir-me dos defeitos que ia adquirindo na solidão e no desmazelo... Estou só, sentindo que sou o alvo da attenção e da magnanimidade de alguem... Esta caricia sem mãos sabe-me bem; tanto mais que me dispensa o trabalho do agradecimento! Se não a queria ver antes, por prudencia, não a quero ver agora, por egoismo,—para não desfazer esta illusão agradavel e exquisita, mas bem sincera.
Uma noite, entrando inesperadamente em casa, senti que alguem fugia precipitadamente da sala. Não pude vencer a minha curiosidade; entrei. Junto á janella do jardim, perto de uma cadeira de balanço, encontrei um livro aberto. Ergui-o. Cheirava a flôr de fructa. Era um romance inglez. A minha governante lia inglez! foi a sua primeira revelação. Depuz o livro fechado sobre a mesa e vi o nome d'ella escripto na capa.
Para sympathizar com ella bastaria talvez isso; para respeital-a, o modo porque tem sabido corrigir Gloria das suas brutalidades de menina malcriada...
—Como terminará tudo isto!
—Não terminará. Emquanto ella se sujeitar a este papel, eu ficarei muito bem naquelle em que estou. Se não... ir-se-á embora e tratarei de arranjar outra pelo mesmo processo escandaloso, mas commodo.
—Hum!...
—Afinal, talvez seja facil...
—É impossivel, digo-lo eu! Essa mulher deve ter vindo acossada por uma grande miseria! Lembra-me uma garça maritima que vi caçar na floresta do alto da Serra! Tinha fugido á tempestade sózinha, branca, até áquellas paragens desconhecidas e inhospitas. Pobre ave do mar!
—Mataram-na?
—E empalharam-na.
—Esperemos que esta não tenha a mesma sorte.
—Pelos desejos da tua sogra!
—Que ciumenta! como se pudesse haver alguem neste mundo que me fizesse esquecer Maria!
—Ha...
—O tempo?
Caldas não respondeu, e sorriu.
E depois:
—Dizem que fama sem proveito faz mal ao peito. A tua governante morrerá tisica!
—Coitada... defende a quando se te offerecer ensejo. Eu sou tão mau que a sacrifico ao meu bem-estar. É á minha imperfeição! Ignominioso! não achas?
—Humano. Ella veio ao encontro d'esse desastre. Tinha obrigação de prevêl-o. Talvez o desejasse... Que somos nós todos? Poços de mysterio! Que póde esperar uma mulher que se aluga— por mais que te repugne a expressão, ella é corrente aqui—para tomar conta e governar a casa de um homem só? O teu egoismo explica-se; tu pagas esse direito; agora a sua sujeição, meu Argemiro, é que não tem duas faces por onde possa ser encarada. Para mim, ella é, unica e simplesmente, uma especuladora.
—Não digas isso!
—Por que te indignas?
—Não...
—Acaba...
—Sem ter posto os olhos nunca em cima d'esta pobre moça, eu parece que a conheço já ha muito... Ella fiava-se naturalmente na sua altivez para defender-se de qualquer assalto. Porque não acreditar que tenha, como tu disseste, vindo acossada pela miseria, estonteadamente, até á minha porta? A unica impressão que tenho d'ella, no dia em que a contratei, foi a de lhe ver as botinas esfoladas... Não lhe vi o rosto, que o trazia velado; mas vi-lhe os pés. Caprichosa como revela ser em tudo, bem vês que só por grande necessidade se sujeitaria a andar assim...
—Porque só uma pobre se sujeita a tal posição, naturalmente; mas as pobres honestas têm outros meios de ganhar o pão, menos suspeitos e sobretudo menos arriscados... Tua sogra tem uma certa pontinha de razão na insensatez do seu ciume... De fóra ninguem póde acreditar que esta situação não seja senão uma fantasia.
—Mas que têm com isso?
—Nós outros, nada; mas tua sogra talvez tenha alguma coisa, por causa da tua filha!
—Não é por causa de Maria... é por mim! Minha sogra é uma sentinella sempre álerta na defesa do meu coração. Ella não se importa que me roubem os haveres ou que eu esbanje a minha fortuna; que eu tenha ou não tenha amigos, que eu trabalhe ou que descançe, que eu soffra ou que eu me divirta; o que ella não quer, absolutamente, é que eu ame! Maria ha de viver eternamente deante dos meus olhos, como vive deante dos seus, e hei de manter até ao meu ultimo alento a promessa que lhe fiz de não tornar a casar-me...
—Tolice...
—Que queres!
—Maria era um anjo... mas hoje é um phantasma; e um homem não póde viver abraçado a uma sombra...
—Dize-lhe isso...
—Na primeira occasião.
—Não a mortifiques. Eu, bem o sabes, estou perfeitamente de accordo com ella.
—É o que te parece. Em todo caso, dou-te um conselho: despede a tua governante, ou dá um piparote nestas convenções romanticas em que te embaraças e trata-a como toda a gente trata as governantes... Parece-me que nos temos occupado demais com uma creatura que talvez não mereça tanto...
—Ou talvez mais...
—É o que eu digo!
—Não te entendo.
—Não admira, visto que nem te entendes a ti! Só te direi outra coisa, para concluir: a imaginação é uma amiga perigosa, e tu estás abusando d'ella.
—Estás tolo e sybilino. Na tua, queres dizer que acabarei apaixonado por uma mulher que vivo em minha casa e que me obstino em não conhecer, julgando, talvez, que me occupo em pensar nisso! Mas, nada! Eu penso tanto na minha governante, que talvez seja picada de bexigas, ou desdentada, como penso na Sinhá, que tem os olhos que sabes e a pelle lindissima. Fiel á minha morta, não por virtude, mas porque não encontro no mundo mulher que se lhe compare, eu deleito-me no sacrificio de viver abraçado a sombras... É a minha exquisitice...
—Faze-te espirita.
—Nunca.
—Como espectador, eu estou gostando do caso. O que te peço é licença para conquistar a menina...
—Tens toda....
—E se ella acceitar a côrte?
—Tanto melhor para ti...
—Não impões condições?
—De não ser em minha casa...
—Sabes onde é a d'ella?
—Não sei de onde veio, nem presumo para onde irá!
—Como num sonho!
—Tal qual!
O relogio do escriptorio marcava seis horas quando o dr. Telles e o padre Assumpção entraram em casa de Argemiro. Telles resplandecia. Tinha falado nessa quarta-feira na Camara. Via-se-lhe na cara, núa de pêllos, a vaidade, e todo o corpo emproado num terno de sobrecasaca côr de avelã, parecia impertigar-se com mais satisfação. De vez em quando elle olhava com um sorrizinho para as unhas reluzentes, como se relesse nellas o seu discurso famoso e sensacional...
Assumpção vinha triste, com um ar fatigado, que mal dissimulava, dizendo-se amollecido por uma grande caminhada a pé. Emquanto os outros, com o calix de vermouth na mão, discutiam o ultimo escandalo da camara, elle, recostado no divan, levantou o olhar para o retrato de Maria, suspenso na parede em frente, com o seu doce perfil de loira a esvair-se já no embranquecimento das tintas.
A belleza... a bondade... a juventude... tudo com o tempo se esvae, como o fumo delevel. Na curta passagem da vida, confundem-se á distancia todos os traços, os que marcam os caminhos da alegria, como os que vêm da tristeza... A saudade do passado é o nevoeiro que envolve tudo na mesma claridade enganadora e opaca...