A Intrusa

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 19 de 22

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A Intrusa

Capítulo XIX

E nunca a sua chacara cheirosa, os verdes campos macios, cortados de mangueiras e aguas remançosas, lhe fizera tão fundas saudades. As suas flôres do horto, preparadas para a distilaria, estariam morrendo nos pés e o seu catalogo interrompido, amarellecendo no fundo inerte de uma gaveta. Olhando para as flôres do genro, elle via as outras, as suas: o absyntho, as marcellas medicinaes, o sabugueiro vaporoso, as malvas bemfazejas, o limonete perfumado e mil outras, confundindo-se nos tons azulados ou verdes das suas ramagens bem alimentadas.

Olhava para as rosas pensando nas papoilas, quando o Feliciano lhe disse atrás das costas, com uma vozinha ciciada:

—Sá Baroneza tá chamando o senhor...

O barão não quiz olhar para o negro e subiu para o quarto, abafando um suspiro.

Que mais?

 

XIX

 

—Assumpção!

—Argemiro...

—Fizeste bem em vir esperar-me; estou doido por conversar comtigo; disseram-te lá em casa que eu chegaria hoje?

—Naturalmente... eu não poderia adivinhar!... olha a tua mala... Pareces-me magro...

—Um pouco...

—Boa viagem?

—Regular... Como está a minha gente?

E tua mãe?

—Dá a mala ao carregador... Conversaremos em caminho.

—Tens razão; e eu estou com pressa de chegar a casa. Decididamente, abomino os hoteis. Que desconforto! que aborrecimento! que noites!

Ah! Assumpção, nunca o meu cantinho me pareceu tão delicioso como nesta ausencia. Isto deve ser velhice.,. os meus ossos não se afazem a outros colchões, nem a minha cabeça a almofadas que não sejam as costumadas. Has de acreditar que soffri de insomnias em S. Paulo?

Depois eu não tinha noticias! Gloria escreveu-me duas cartinhas; tu nenhuma... Nenhuma! inacreditavel o teu descuido! Meu sogro escreveu-me tambem, mas só fallava na mulher e na neta. É verdade, o Caldas tambem me escreveu... Referia-se a ti...

—Tiveste então cartas de todos!...

Sahiam da Central. Argemiro acenou para um carro.

—De todos... mas incompletas... Só tu me poderias dizer tudo; és intimo de minha casa, mais intimo do que eu! Comprehendes que eu fugi!

—Porque, homem?!

—Nem sei porque... medo do barulho, da intriga... de não poder conter o meu máo humor. Estava enervado, aborrecido... Depois arrependi-me. Não tinha que fazer; bocejava pelas ruas... o hotel indispunha-me commigo mesmo. Estou como o caracol,—não posso sahir da minha casa sem perder a vida... Acredita: até do cheiro da minha casa eu tinha saudades! Parece-me incrivel que um sujeito de vida bem organizada goste de viajar. Tu nunca viajaste. É uma maçada! Mas que diabo, tu não me dizes nada!

—Não me dás tempo...

—Tens razão; mas estou cheio até á raiz dos cabellos. Mal conversei durante a viagem; estava com a lingua entorpecida. Este cocheiro é um lorpa... não toca os animaes! De que te ris?! estou morto por beijar minha filha! Muito crescida? Tens ido lá todos os dias? Tens estado sempre com todos?...

—Todos os dias, não... mas quando vou estou com todos...

—Minha sogra ainda se demorará cá por baixo?... Isso é o que me interessa mais saber.

—Ignoro... Eu tenho frequentado menos a tua casa, receando que os barões achassem importuna a minha assiduidade...

—Estás doido! Sabes que te estimam muito! Bem... e... não houve por lá nenhuma questão...

—Tem paciencia, escuta.

—Mau!

—Hontem á noite recebi uma carta de teu sogro, pedindo-me para vir esperar-te hoje á Central, e prevenir-te de que a D. Alice só espera por ti para deixar a casa.

Argemiro não respondeu logo, e, arregalando os olhos, voltou-se para o amigo, muito desapontado.

—A noticia não é amavel e acredita, Argemiro, que a dou com pena. Mas já agora deixa-me dizer-te que mais uma vez andaste impensadamente... Não deverias ter sahido de casa nesta occasião, tanto mais que já temias qualquer incidente desagradavel...

—Não consinto! Ah, eu é que não consinto; e o dono da casa sou eu! Porque sae a D. Alice? Não sabes?... Eu imagino: picuinhas... alfinetadas... tanto a aborreceram, tanto a azedaram, tanto a mordiscaram, que ella não pôde mais! Era o que eu temia, lá longe! Parece que estava adivinhando. Um inferno.

Ora o que me esperava! E agora? Dize-me: e agora?!

—Arranja-se outra...

—Estás tolo! Outra! A facilidade com que se dizem asneiras... Nem tu pensas no que estás dizendo. Conheço-te bem; sei qual é a tua opinião a respeito d'ella... Eu é que fui um asno, um idiota; não devia ter consentido na vinda de minha sogra para casa. Foi ella que escangalhou a minha felicidade com as suas bobagens de velha tonta. Disseste bem, fiz mal em fugir. Fugi por pusilanimidade... pelo eterno prazer do socego e do bem-estar. Fresco bem-estar, o dos hoteis! E agora, hein?! arranja-se outra! ora, que resposta! Se ha outra como aquella!

—Tu nem a conheces...

—Nunca a vi, mas conheço-a, adivinhei-a; abstrae da personalidade. Ella é o meu conforto, a minha segurança, a minha felicidade. Agora explica-me tudo: que lhe fizeram?

—Não sei, filho; mas creio que nada.

Teu sogro, temendo a tua decepção, como se se tratasse de uma terrivel catastrophe, escreveu-me hontem o que eu já te disse. A minha surpreza foi quasi do tamanho da tua. Sómente, eu espero conciliar as coisas.

—Ah, eu não... Acabou-se. Volto á ignominia do Feliciano. Não. O Feliciano roda hoje mesmo a pontapés. Cachorro... Outra... outra... onde encontral-a? Pensas que ha muitas mulheres assim, por ahi, á espera das minhas ordens? Tu estás bem convencido do contrario...

Eu sei que a consideras muito... Já a tens defendido, á minha vista, quando a accusam. Por mim, declaro-te que acabei de conhecel-a nesta ausencia...

Por acaso, no dia da partida, juntei alguns livros avulsos pelas mesas e metti-os na mala. Em uma das minhas noites de insomnia, no hotel, abri um d'esses livros, e verifiquei com espanto que elle pertencia a D. Alice. Lá estava o seu nome, por signal com uma letra bem bonita... Era um livro inglez de poesias. A minha governante lê versos; e demais a mais em inglez! Folheei o livro com alguma curiosidade...

Havia versos sublinhados, notas feitas á margem... Sabes que do meu exame de inglez não me ficou patavina... o livro não me poderia divertir; entretanto, não sei por que, era o unico que me interessava! Comprei um diccionario e pude mais ou menos penetrar um pouco no mysterio... Comprehendes que isto não poderia deixar de impressionar-me...

—Ella é intelligente...

—Muito. Para ter certeza d'isso eu não precisava das poesias inglezas; bastava-me a mudança radical de minha filha. Negarás isso?!

—Não...

—Lembras-te? Gloria era terrivel, intratavel, brutinha! E agora? Está docil, risonha, delicada. A avó perdia-a com os seus mimos e a D. Alice salvou-a. Tens reparado na bôa pronuncia franceza de minha filha?

Na vespera da minha partida ella leu-me uns exercicios do methodo. Fiquei espantado. Um prodigio!... Logo, esta mulher que ensina francez, lê versos inglezes, faz aguarellas razoaveis e interpreta ao piano trechos classicos, como já eu ouvi, sem que ella o percebesse... é uma rapariga de fina educação e que não me resigno a perder por caprichos de terceiros! As minhas flôres! Porventura tive eu nunca, nem mesmo no tempo de Maria, rosas como tenho agora?!

É ou não é verdade que o meu jardim é um dos mais bellos do bairro?!

—É...

—E quem o transformou? Ella.

Ainda agora, lendo o livro do Shelley, sentindo-lhe o perfume peculiar e que em poucos dias ella espalhou por toda a minha casa, capacitei-me de que a alma d'essa mulher é rara e voltada para tudo que torna a vida agradavel. Ainda não lhe descobri defeitos...

—Ha de tel-os.

—É humana... e portanto, queres dizer que se fosse perfeita seria defeituosa... Talvez seja feia... Sabia-me agora bem o imaginal-a.

—Occupavas-te nisso?

—Ás vezes; é natural: quando eu pegava no livro, e sobretudo quando sentia o seu aroma... Qualquer outro faria o mesmo... não te parece?

—Talvez...

—Sou-lhe muito grato. Asseguro-te que nunca me vi tão lisonjeado, tão contente da vida, como agora nestes ultimos tempos. Era uma atmosphera amorosa a da minha casa.

—Não ha bem que sempre dure...

—Ora que noticia! E eu que vinha morto por sentil-a!

Assumpção sorriu.

—De que te ris?!

—Da tua expressão.

—É sincera.

—Sei. Mas não desesperes... Realmente, a tua governante governou de mais; mas estou de accordo em que deves procurar guardal-a junto de tua filha; e talvez isso não seja tão difficil como te parece!

—É impossivel.

—Tentemos...

—Como se teria dado o rompimento?

—Não sei. A carta do teu sogro é laconica e succinta. Deveria mostrar-t'a, mas esqueci-a em casa.

—Naturalmente, minha sogra espicaçou-a de tal forma, que a pobre perdeu a paciencia e despediu-se. Guerras de mulher. Conheces nada mais indigno? Picadas de alfinetes embebidos em veneno... Eu sei! Estou agora arrependido de ter vindo de carro... O bond daria mais tempo e conversariamos melhor. Foi uma cacetada! Conheces nada mais importuno que a velhice? Até cheira mal! E que vae ser de Gloria?... Pensará a avó que lhe entrego a neta? pois sim!

É minha, de casa não me torna a sahir. Afinal, a prejudicada será ella... coitada! Mas com que direito commetteram meus sogros semelhante vilania?! Tu não me explicas nada!

—Filho, já disse o que tinha a dizer-te! D'aqui a pouco estaremos nas Laranjeiras; será então tempo de averiguar o caso. Lembro-te que a baroneza anda adoentada... que é muito sensivel, e que toda a sua antipathia por D. Alice se funda no ciume...

—Tolices!

—Tolices ou não. Suppõe que trahiste o que prometteste a Maria...

—E que trahisse! não era razão!...

—São modos de pensar... Tua sogra arvorou-se em sentinella do teu coração, já o disseste. Ella não quer lá dentro senão a imagem da filha.

—E não existe outra. Está farta de saber que eu não conheço esta mulher. Já enfada dizer e ouvir isto: nunca a vi! Nunca!

—Mas gostas de sentil-a... ha pouco o disseste. Avisei-te do perigo, procurei afastar-te... conheço a tua imaginação; mas fui tão fraco que não consegui o que devera ter conseguido... Não faz mal.

—Em vez de imaginação dize: egoismo. Aterra-me a idéa de voltar á desordem antiga... aos roubos do negro... á negligencia da casa, ao desperdicio da despensa.

Era um inferno. É só isso que me incommoda... mais o abandono de minha filha... Não terei remedio senão pôl-a num collegio... Eu não tenho tempo de me occupar de tantas coisas e já tenho abusado muito da tua amizade. Estou atarantado... Vê se me salvas! Só tu!

—Antes de mais nada, logo que chegarmos sóbe ao teu quarto, com o pretexto do descanço, banho e mudança de roupa. Entretanto eu irei fallar a D. Alice. Ella me dirá a verdade... Prepararei o terreno.

—Contas com a sua sinceridade?

—Absolutamente. É uma mulher simples.

—Mais uma virtude... E depois? É natural que meus sogros desejem fallar primeiro... Emfim, o que fôr soará! Pessima recepção!... Maldita a hora em que sahi de casa!

—Estás tragico! Mal imaginavas que um annuncio do Jornal do Commercio te trouxesse tantas complicações! O que nós rimos da tua lembrança, naquella noite em que nos declaraste a tua resolução. Tudo podiamos prevêr, menos isto!

—Ainda vocês negam a força occulta que obriga o individuo a executar, ás vezes, as mais extravagantes resoluções! Quando eu me lembro do ridiculo que vocês me atiraram á cara por causa d'aquelle annuncio! Eu mesmo o escrevi sem esperança, numa hora de raiva contra o Feliciano. Tudo se me affigurava melhor. Quem poderia crêr, porém, que fosse tão bom? Parece-me agora que a minha mão, ao escrever aquelle pedido de governante, num annuncio, puxou o fio do destino d'esta mulher...

Lembras-te? Não appareceu mais ninguem!

Dar-se-á o caso de só ella o ter lido?

—Não. Eu tambem o li... o Caldas... tua sogra...

—Já me tardavam as caçoadas.

Não tens o direito de rir de um afflicto. Estou até com medo de parecer grosseiro e tratar mal os velhos!

—Elles nem terão culpa... sim, é possivel que a D. Alice já estivesse resolvida a isto mesmo. Quem nos dirá? Não fez um pacto para toda a vida...

Argemiro calou-se, olhando attonito para o amigo. Quem sabe?

E depois:

—É pena que não me possas dar informações completas... Ella... nunca te fez confidencias... não terá tenções?...

—De que?

—Casar, por exemplo! Que diabo!

—Deve ter. É moça... Não sei. Minha mãe gostou d'ella...

—Ah! D. Sophia viu-a?

—Levou a Gloria a visitar-nos uma tarde, e emquanto eu mostrava as flôres e a vista á tua filha, ella entreteve-se com minha mãe.

—E D. Sophia então disse-te?...

—Que aquella moça faria a felicidade do homem com quem se casasse. Sabes a mania casamenteira de minha mãe. Ella julga, como foi feliz, que a unica felicidade perfeita na terra é a da familia... Quantas vezes a surprehendo com os olhos nublados sobre a minha batina de celibatario! Então, para vel-a sorrir, sabes o que eu faço? Carrego ao collo os seus petizes, que estão lindos e nedios como leitõezinhos. E a verdade é que já os amo tambem, a ambos.

O Jorge adormece á noite nos meus braços; emquanto minha mãe cose, embalo-o na cadeira de balanço, até vel-o pegadinho no somno.

Ao principio eu fazia isso para dar satisfação á minha mãe; mas hoje já o faço por gosto proprio. É bonito o somno de uma criança...

E o brutinho não adormece sem que eu lhe cante a

«Senhora Sant'Anna

Passou por aqui... »

 

Minha mãe conseguiu atar-me a outros seres de mais longo futuro... não morrerá nella o meu interesse pela vida! Chegámos á tua porta. Lá está tua filha no jardim.

 

Depois de beijar Gloria e apertar a mão fina e molle do sogro, que desceu ao vestibulo a recebel-o, Argemiro subiu ao seu quarto. A baroneza descançava ainda: não a vira nem de passagem.

Argemiro subiu a escada do quarto, com as narinas dilatadas, farejando o aroma subtil e inconfundivel da sua casa. Na saleta, um ramo de La France e de resedá representou-lhe ao espirito a figura desconhecida de Alice, que elle sentia, emfim, naquella ordem e naquelle cheiro que lhe alegravam o lar.

O Feliciano fôra ao carro buscar a mala, e não merecera resposta ao cumprimento que fizera ao patrão.

—O homem vem zangado... pensou elle comsigo. Que dirá quando souber!

Pela primeira vez, Argemiro procurou, através das venezianas do seu quarto, vêr se descortinava o vulto ao menos da sua governante. Chegava-lhe a curiosidade pela sua pessoa. Um desejo de matar saudades de uma desconhecida! Voltou para o interior do quarto. Em cima da sua mesinha estava uma carta fechada, sobrescriptada por mulher.

—Quem sabe se será a sua despedida? pensou; e abriu-a com presteza. Leu:

«Meu amigo:

Fui pedida em casamento e desejo apresentar-lhe o meu

noivo. Estou radiante! Venha.

Sinhá.»