A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 7 de 13 · parte 3/5

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A Montanha Mágica

Capitulo VI

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

– Fico-lhe muito grato pelos esclarecimentos que me deu e folgo em ver que a bênção do trabalho se impõe até contra a vontade do homem.

– Sim, senhor, contra a intenção dele. Nesse ponto, descobrimos nada menos que a diferença entre o útil e o humano.

– Descubro antes de tudo, e com indignação, que o senhor volta a dividir o mundo em dois princípios.

– Lastimo ter incorrido no seu desagrado, mas é preciso separar e classificar as coisas e manter a idéia do Homo Dei livre de elementos impuros. Os bancos e o ofício dos cambistas são uma invenção de vocês, os italianos; que Deus lhes perdoe! Mas os ingleses inventaram a sociologia econômica, e isso o gênio do homem nunca lhes poderá perdoar.

– Ora, o gênio da humanidade inspirou também os grandes economistas daquelas ilhas...

O senhor queria dizer alguma coisa, engenheiro?

Hans Castorp afirmou que não, mas pôs-se a falar, sem embargo, e tanto Naphta como Settembrini escutaram-no com certa curiosidade.

– Acho, Sr. Naphta, que o senhor deve simpatizar com a profissão do meu primo e aprovar a pressa que ele tem de exercê-la novamente... Quanto a mim, sou civil cem por cento, e meu primo censura-me isso freqüentemente. Nem sequer fiz o serviço militar e sou inteiramente adepto da paz. De vez em quando tenho até chegado a pensar que eu poderia facilmente tornar-me sacerdote. Pergunte a meu primo se não lhe falei às vezes nesse sentido. Mas, abstraindo minhas inclinações pessoais – talvez nem seja precisamente necessário abstrai-las por completo –, tenho muita compreensão e simpatia pela classe militar. Esse ofício tem de fato um lado barbaramente sério, um lado “ascético”, com a sua licença – o senhor empregou esse termo há poucos instantes –, e o soldado deve sempre estar preparado para entrar em contato com a morte... com a qual, em última análise, também o sacerdócio tem que lidar; de que mais se ocupariam senão disso? Daí provém a bienséance da classe militar, e a hierarquia, a obediência, e o pundonor espanhol, se me permitem essa .expressão. Nesse caso é indiferente se alguém usa o colarinho engomado da farda ou uma golilha. Isso vem a dar no mesmo, no “ascetismo”, como o senhor o definiu com tanta precisão... Não sei se consegui formular as idéias que...

– Como não – confirmou Naphta, lançando um olhar em direção a Settembrini, que fazia girar a bengala e contemplava o céu.

– E por isso penso eu – continuou Hans Castorp – que as inclinações de meu primo Ziemssen deveriam ser simpáticas ao senhor, segundo tudo quanto acaba de dizer. Não me refiro

“ao trono e ao altar” e a outros binômios desse gênero, por meio dos quais certa gente, pessoas exclusivamente ordeiras, bem-intencionadas e nada mais, costumam justificar a solidariedade.

Mas quero dizer que o trabalho da classe militar, isto é, o serviço – “serviço” é bem o termo adequado nesse caso –, é realizado sem nenhum interesse em vantagens comerciais e não tem nenhuma relação com a “sociologia econômica”, da qual falou o senhor. Por isso, os ingleses têm muito poucos soldados, alguns para a Índia, alguns em casa, para os desfiles...

– Não adianta continuar, engenheiro – interrompeu-o Settembrini. – A existência militar

– digo isto sem a mínima intenção de contrariar o nosso amigo, o tenente – é insustentável do ponto de vista espiritual, por ser meramente formal, sem conteúdo próprio. O protótipo do soldado é o lansquenete, o mercenário que se alista tanto por esta como por aquela causa. Numa palavra, houve os soldados da Contra-Reforma espanhola, os soldados dos exércitos da Grande Revolução, os napoleônicos, os garibaldinos, os prussianos. Vamos falar novamente no soldado quando eu souber por que causa ele se bate.

– Mas o fato de que se bate – replicou Naphta – permanece uma peculiaridade evidente da sua classe. Nisso temos que concordar. É possível que ela não seja suficiente para tornar essa classe “sustentável do ponto de vista espiritual”, no sentido que o senhor dá a essas palavras, mas coloca-a numa esfera que escapa por completo à concepção positiva que o burguês tem da vida.

– Aquilo que o senhor acha por bem qualificar de “concepção positiva do burguês” –

retrucou o Sr. Settembrini, da borda dos lábios, entesando as comissuras da boca sob o bigode ondulante, enquanto o pescoço fazia um estranho movimento de parafuso, como para escapar oblíqua e bruscamente do colarinho –, o que o senhor assim qualifica estará sempre disposto a defender de todas as formas possíveis as idéias da razão e da moral e a sua influência legítima sobre as almas jovens e vacilantes.

Fez-se silêncio. Os jovens olhavam diante de si, perplexos. Depois de ter dado alguns passos, disse Settembrini, cuja cabeça e pescoço tinham voltado à posição normal:

– Não se admirem. Esse senhor e eu temos freqüentes discussões, mas tudo se passa amigavelmente e sobre o fundamento de muitas idéias comuns.

Fazia bem ouvir isso. Era um modo de falar cavalheiresco e humano, da parte do Sr.

Settembrini. Mas Joachim, igualmente cheio de boas intenções e empenhado em dar à conversa um cunho inofensivo, disse como que coagido por alguma coisa mais forte do que a sua vontade:

– Falávamos casualmente da guerra, meu primo e eu, enquanto íamos atrás dos senhores.

– Foi o que ouvi – respondeu Naphta. – Apanhei essa palavra e me voltei. Estavam tratando de política? Examinavam a situação mundial?

– Qual nada! – riu-se Hans Castorp. – Como chegaríamos a fazer isso? A profissão de meu primo impede-o de se preocupar com a política, e eu renuncio espontaneamente a discuti-la, porque nada entendo dela. Desde que estou aqui não abri um único jornal...

Settembrini, como já fizera em outra ocasião, achou censurável essa indiferença.

Demonstrou imediatamente estar a par dos acontecimentos importantes, que julgou com otimismo, uma vez que as coisas estavam tomando um rumo favorável para a civilização. A atmosfera geral da Europa estava cheia de pensamentos pacíficos e de planos de desarmamento.

A idéia democrática achava-se em marcha. O italiano assegurou ter recebido informações confidenciais, segundo as quais os Jovens Turcos acabavam de ultimar os preparativos para uma empresa revolucionária. A Turquia como Estado nacional e constitucional – que triunfo do espírito humano!

– A liberalização do Islã! – escarneceu Naphta. – Essa é boa! O fanatismo esclarecido; ótimo! A propósito, esse assunto interessa ao senhor – acrescentou, dirigindo-se a Joachim. – Se Abdul Hamid cair, terminará a influência alemã na Turquia, e a Inglaterra vai arvorar-se em protetora... Convém que os senhores tomem muito a sério as relações e as informações do nosso Settembrini – prosseguiu, e também isso soava um tanto impertinente, uma vez que ele próprio parecia julgá-los inclinados a não prezar devidamente o italiano. – Ele anda muito bem informado sobre as questões nacionais-revolucionárias. Na terra dele há pessoas que mantêm muito boas

relações com a comissão inglesa dos Bálcãs. Mas que será dos convênios de Reval, Sr. Lodovico, se os seus turcos progressistas levarem a melhor? Eduardo VII já não poderá conceder aos russos a abertura dos Dardanelos e se a Áustria, apesar de tudo, se decidir a fazer uma política balcânica ativa...

– Sempre as suas profecias sinistras! – ripostou Settembrini. – Nicolau ama a paz. A ele se devem as conferências de Haia, que representam feitos morais de primeira ordem.

– Ora, a Rússia precisava obter algum descanso, depois do seu pequeno desastre no Oriente.

– Acho muito feio, da sua parte, zombar do desejo de aperfeiçoamento social que sente a humanidade. O povo que contrariasse um esforço desse gênero indubitavelmente cairia no ostracismo moral.

– De que serviria a política se não desse a uns e outros uma oportunidade para se comprometer moralmente?

– O senhor está adotando a causa do pangermanismo?

Naphta encolheu os ombros, cujo nível era um tanto desigual. Além da sua fealdade parecia mesmo um pouco torto. Não se dignou responder. Settembrini concluiu:

– Em todo caso é cínico o que acaba de dizer. No generoso empenho que faz a democracia para impor-se internacionalmente, o senhor quer ver um mero ardil político...

– E o senhor deseja que eu encontre em tudo isso idealismo ou até religiosidade? Trata-se dos derradeiros e muito débeis arrancos de um restinho de instinto de auto-conservação, que ainda sobra a um já condenado sistema do mundo. A catástrofe virá e deve vir; está avançando por todos os caminhos e de todos os modos. Considere, por exemplo, a política britânica. A necessidade que sente a Inglaterra de garantir a esplanada da fortaleza indiana é legítima. Mas quais são as conseqüências? Eduardo sabe tão bem como o senhor e eu que os governantes de Petersburgo têm de desforrar-se do revés sofrido na Manchúria e precisam urgentemente desviar o perigo da revolução. Mesmo assim orienta – e não tem outra escolha – o expansionismo russo em direção à Europa, desperta rivalidades adormecidas entre Petersburgo e Viena...

– Ora, Viena! O senhor se preocupa com esse obstáculo ao progresso do mundo provavelmente por reconhecer, no império caduco de que ela é a capital, a múmia do Santo Império Romano-Germânico.

– E eu acho que o senhor é russófilo, provavelmente devido a uma simpatia humanística pelo césaro-papismo.

– Senhor, até mesmo do Kremlin a democracia pode esperar mais do que da corte de Viena, e é vergonhoso para o país de Lutero e de Gutenberg que...

– Talvez não seja somente vergonhoso, mas também estúpido. No entanto, tal estupidez é igualmente um instrumento da fatalidade...

– Ah, deixe-me em paz com a fatalidade! Basta que a razão humana queira ser mais forte do que ela, e logo o consegue.

– Não se pode querer senão o destino. A Europa capitalista quer o seu.

– Quem não abomina a guerra com suficiente intensidade acredita na sua vinda.

– A sua abominação é logicamente abrupta, enquanto não tomar o próprio Estado como ponto de partida.

– O Estado nacional é o princípio deste mundo, que o senhor gostaria de atribuir ao Diabo. Mas torne as nações livres e iguais, proteja as pequenas e fracas contra a opressão, faça justiça, crie fronteiras nacionais...

– A fronteira do Brenner, já sei. A liquidação da Áustria! Se eu ao menos soubesse como o senhor pretende realizar isso sem uma guerra...

– E eu gostaria de saber quando e onde condenei a guerra nacional.

– Mas parece-me que ouvi...

– Não, senhor, posso confirmar as palavras do Sr. Settembrini – interveio Hans Castorp, que acompanhara a discussão, caminhando com a cabeça inclinada para o lado e deixando o olhar

atento passar de um a outro interlocutor. – Meu primo e eu tivemos diversas vezes o prazer de conversar com ele sobre esse assunto e outros semelhantes; isto é, em realidade limitamo-nos a escutar, enquanto ele desenvolvia e formulava as suas opiniões. E assim sou capaz de confirmar, e também meu primo deve ainda lembrar-se, que o Sr. Settembrini mais de uma vez nos falou com grande entusiasmo do princípio do movimento, da rebelião e do aperfeiçoamento do mundo, que, por natureza, não é um princípio muito pacífico, segundo me parece. E ele afirmava que esse princípio teria ainda de vencer grandes obstáculos antes de triunfar em toda parte e antes de se realizar a república universal, grande e feliz. Eram essas as suas palavras, embora, naturalmente, se expressasse de uma forma muito mais plástica e mais literária do que eu; isso se entende. Mas uma coisa eu sei com absoluta certeza e até gravei textualmente na minha memória, porque me assustei na minha qualidade de fanático civil; foi quando disse que esse dia havia de chegar, se não pelos pés das pombas, sobre as asas das águias. O que me causava espanto eram as asas das águias; disso me recordo ainda. Acrescentou que era preciso aniquilar a Áustria, para abrir caminho à felicidade. Não se pode, portanto, dizer que o Sr. Settembrini reprove a guerra em si. Tenho razão, Sr. Settembrini?

– Mais ou menos – disse o italiano, laconicamente, desviando o rosto e brandindo a bengala.

– Que lástima! – sorriu Naphta, malicioso. – O seu próprio discípulo apresenta as provas das tendências bélicas do senhor. Assument pennas ut aquilae...

– Até Voltaire admitiu a guerra civilizadora e recomendou a Frederico II a guerra contra os turcos.

– Em vez de fazê-la, este se aliou a eles, ah, ah! E depois, a república universal! Não me atrevo a perguntar o que será dos princípios do movimento e da rebelião uma vez alcançadas a felicidade e a união. Nesse instante, a rebelião se tornaria um crime...

– O senhor sabe perfeitamente, e também esses jovens sabem, que se trata de um progresso da humanidade, concebido como infinito.

– Mas todo movimento é circular – objetou Hans Castorp. – No espaço e no tempo; é isso o que nos ensinam as leis da conservação da massa e da periodicidade. Recentemente, meu primo e eu conversamos a esse respeito. Será que se pode, em presença de um movimento fechado, sem rumo constante, ainda falar de um progresso? Quando fico deitado, à noite, e contemplo o Zodíaco, isto é, a metade que é visível, e penso naqueles povos antigos, cheios de sabedoria...

– Engenheiro, ao senhor não convém cismar e devanear – interrompeu-o Settembrini. –

Cumpre-lhe confiar-se decididamente aos instintos dos seus anos e da sua raça, que devem obrigá-lo à atividade. Também a sua formação científica deve associá-lo à idéia do progresso. O

senhor vê como em períodos indeterminados a vida perfez uma evolução que a elevou desde o infusório até o homem. Diante disso não pode duvidar de que haja ainda infinitas possibilidades de aperfeiçoamento a se abrirem ao homem. Mas, se o senhor insistir na matemática, conduza a sua marcha circular de perfeição em perfeição e conforte-se com o conceito do século XVIII, segundo o qual o homem, originalmente bom, feliz e perfeito, foi depravado e corrompido somente pelos erros sociais e, graças a um trabalho crítico na estrutura da sociedade, voltará a ser bom, feliz e perfeito...

– O Sr. Settembrini deixa de acrescentar – aparteou Naphta – que o idílio de Rousseau é uma trivialização racionalista da doutrina eclesiástica da fase primitiva em que o homem era livre do Estado e do pecado, a fase inicial da proximidade de Deus e da relação filial com Ele, que nos incumbe reencontrar. O restabelecimento da Cidade de Deus, porém, após a dissolução de todas as formas terrenas, acha-se situado no ponto em que se tocam a terra e o céu, o que é acessível aos sentidos e o que os ultrapassa. A salvação é transcendental, e quanto à sua república universal capitalista, meu caro doutor, é bastante estranho ouvir o senhor falar de “instinto”, referindo-se a ela. A tendência instintiva toma inteiramente o partido do nacionalismo, e o próprio Deus

implantou nos homens o instinto natural que induz os povos a se separarem uns dos outros, formando Estados diferentes. A guerra... – A guerra – gritou Settembrini. – Até a guerra, meu caro, já teve que servir ao progresso, como o senhor não pode deixar de admitir, ao lembrar-se de certos acontecimentos da sua época preferida; falo das Cruzadas. Essas guerras civilizadoras favoreceram de modo sumamente feliz as relações entre os povos, no que diz respeito ao intercâmbio econômico e político-comercial.

Reuniram a humanidade ocidental sob o signo de uma idéia.

– O senhor mostra-se bem tolerante para com a idéia. Em compensação, empregarei muita cortesia numa pequena retificação: as Cruzadas, assim como a intensificação comercial que produziram, absolutamente não exerceram uma influência internacionalista. Pelo contrário, ensinaram os povos a se distinguirem entre si e estimularam fortemente o desenvolvimento da idéia do Estado nacional.

– É exato no que se refere à relação entre os povos e o clero. Sim, senhor, naqueles tempos começou a firmar-se a consciência do Estado nacional, contra a presunção hierárquica...

– E, todavia, isso que o senhor chama de presunção hierárquica é apenas a idéia da união dos homens sob o signo do espírito.

– Já conhecemos esse espírito. Não precisamos dele, obrigado.

– É lógico que o senhor, com a sua mania nacionalista, abomine o cosmopolitismo da Igreja que triunfa sobre o mundo. Eu gostaria apenas de saber como tenciona conciliar isso com o horror que sente com relação à guerra. O seu culto do Estado, à maneira antiga, deve fazer do senhor um paladino da concepção positiva do direito, e como tal...

– Chegamos a falar do direito? No direito dos povos, meu caro senhor, continua viva a idéia do direito natural e da razão universalmente humana...

– Qual! O seu direito dos povos é outra trivialização rousseauniana do jus divinum, que nada tem que ver com a natureza nem com a razão, mas se baseia na revelação...

– Deixemos de discutir a terminologia, professor! Continue o senhor tranqüilamente a chamar de jus divinum o que eu reverencio sob os nomes de direito natural e direito dos povos. O

essencial é que acima dos direitos positivos dos Estados nacionais se eleva um outro direito, superior e geral, permitindo resolver, mediante arbitragem, as questões de interesses em litígio.

– Arbitragens! Ora! Um tribunal de árbitros burgueses, que decide acerca das questões da vida, descobre a vontade de Deus e determina o curso da história! Bem, aí temos os pés das pombas. E onde ficam as asas das águias?

– A moralidade burguesa...

– Olhe, a moralidade burguesa não sabe o que quer. De um lado gritam pelo combate à diminuição da natalidade e exigem que se reduzam as despesas necessárias para a educação dos filhos e para o seu preparo profissional. E do outro lado, estamos sufocando no meio da multidão; todas as profissões estão de tal modo abarrotadas, que a luta pelo pão de cada dia ofusca os horrores de todas as guerras passadas. Praças arborizadas e cidades ajardinadas!

Fortalecimento da raça! Mas para que o fortalecimento, quando a civilização e o progresso desejam que não haja mais guerras? A guerra seria o remédio contra tudo e para tudo. Para o fortalecimento e mesmo contra a diminuição da natalidade.

– O senhor está brincando. Isso já deixa de ser sério. A nossa discussão está se desintegrando, e o faz no momento oportuno. Chegamos! – disse Settembrini, e com a sua bengala mostrou aos primos a casinha, diante de cuja cancela acabavam de parar. Estava situada perto da entrada da “aldeia”, à beira da estrada, da qual a separava apenas um estreito jardim. Era de aparência modesta. Uma parreira silvestre, brotando de raízes desnudas, rodeava o portão da casa e estendia um braço retorcido ao longo do muro, na direção da janelinha do rés– do– chão, à direita, onde se achava a vitrine de um pequeno armarinho. O rés-do-chão pertencia ao

“merceeiro”, como explicou Settembrini. A habitação de Naphta ficava no primeiro andar, ao lado da oficina do alfaiate, e ele, Settembrini, estava domiciliado na água-furtada, onde tinha um estúdio quieto.

Com uma amabilidade surpreendente e acentuada, Naphta expressou a esperança de que esse encontro fosse seguido por muitos outros. – Não deixem de visitar-nos – pediu. – Eu diria: venham visitar-me, não tivesse o Dr. Settembrini direitos mais antigos à amizade dos senhores.

Apareçam quando quiserem, cada vez que tiverem vontade de palestrar um pouco. Aprecio muito o intercâmbio com a juventude, e também não me falta por completo a tradição pedagógica... Se o nosso grão-mestre adjunto – e apontou para Settembrini – pretende conferir ao humanismo burguês o monopólio da capacidade e da vocação pedagógica... é preciso desmenti-lo. Até breve!

O italiano fez algumas objeções. Havia certas dificuldades, segundo disse. Os dias que o tenente ainda passaria ali em cima estavam contados, e o engenheiro, sem dúvida, redobraria o seu zelo na observação do regime, para que pudesse segui-lo o mais depressa possível e partir para a planície.

Os jovens concordaram com ambos, primeiro com um e depois com o outro. Acabavam de aceitar, com uma mesura, o convite de Naphta, e reconheceram, momentos após, a inteira razão dos argumentos de Settembrini. Dessa forma, tudo ficou no ar.

– Como é que ele o chamou? – perguntou Joachim, enquanto subiam pela curva da estrada que conduzia ao Berghof.

– Eu entendi “grão-mestre adjunto” – respondeu Hans Castorp. – Estou justamente pensando a respeito disso. Deve tratar-se de algum gracejo. Eles usam entre si uns títulos esquisitos. Settembrini intitulou Naphta de princeps scholasticorum, o que também não está mal.

Acho que os escolásticos eram os sábios teólogos da Idade Média, filósofos dogmáticos, se me lembro bem. De fato mencionaram diversas vezes a Idade Média, e com isso me recordei de uma observação que Settembrini fez logo no primeiro dia: que havia aqui em cima muita coisa que lhe parecia medieval. Viemos a falar nisso por causa do nome de Adriática von Mylendonk... E lhe agradou o homem?

– O baixinho? Não muito. Ele disse certas coisas de que gostei. Claro que as arbitragens não passam de poltronaria. Mas o próprio homem não é do meu gosto; que me adianta que alguém diga coisas bem ditas, se ele mesmo é um sujeito duvidoso? E você não pode negar que esse Naphta é um tipo suspeito. Aquela história do lugar da coabitação é indubitavelmente escabrosa. Além disso, ele tem um nariz de judeu; você não viu? Só os semitas têm esses corpos minguados. Será que você pretende seriamente visitar esse indivíduo?

– Naturalmente vamos visitá-lo – declarou Hans Castorp. – Quanto ao físico minguado, você julga como militar. Olhe, os caldeus tinham o mesmo tipo de nariz e todavia sabiam muito bem a quantas andavam, não somente em matéria de ciências ocultas. O Naphta também tem qualquer coisa de ocultista. Ele me interessa bastante. Não quero afirmar que já possa formar uma opinião a seu respeito, mas se a gente se encontrar mais amiúde com ele, talvez chegue a entendê-lo, e não acho impossível que a nossa inteligência em geral saia lucrando com isso.

– Ora, rapaz, você torna-se cada vez mais inteligente aqui em cima, com a sua biologia e botânica e com os seus pontos de inflexão inevitáveis. E desde o primeiro dia se preocupou com o “tempo”. Mas me parece que estamos aqui para ficar mais sadios e não mais sábios; mais sadios e completamente sãos, até que enfim nos devolvam a liberdade e nos enviem à planície como curados.

– “Nas montanhas vive a liberdade” – cantarolou Hans Castorp frivolamente. – Diga-me primeiro o que significa a liberdade! – acrescentou, falando. – Naphta e Settembrini também discutiram isso e não chegaram a um acordo. “A liberdade é a lei do amor aos homens”, diz Settembrini, e isso me lembra o seu avô, o carbonário. Mas, por mais corajoso que fosse o carbonário e por mais corajoso que seja o nosso amigo Settembrini...

– Pois é, ele ficou furioso quando se falou da coragem pessoal...

– ...creio contudo que ele tem medo de certas coisas que o pequeno Naphta não teme; compreende? Na liberdade e na coragem dele acho que há muita bobagem. Você acredita que Settembrini teria bastante valor de se perdre ou même de se laisser dépérir?

– Por que se mete a falar francês?

– Porque... Bem, a atmosfera aqui é tão internacional... Não sei qual dos dois deve gostar mais dela, se Settembrini, por causa da república universal burguesa, ou se Naphta, com sua cosmópole hierárquica. Prestei muita atenção, como vê, mas não consegui me esclarecer sobre isso. Pelo contrário, tive a impressão de que aquela discussão virou uma bruta mixórdia.

– É sempre assim. Você pode ter certeza de que dos bate-bocas e das trocas de opiniões sai somente confusão. Eu já lhe disse: o que importa não são as opiniões que um homem tem, mas sim a questão de saber se é ou não é um tipo decente. O melhor é não ter opinião e cumprir o dever.

– Pois sim, você pode falar desse modo porque é um lansquenete e leva uma existência puramente formal. Mas comigo é diferente: sou civil e me sinto, por assim dizer, responsável. E me irrita ver tamanha confusão quando um prega a república universal, internacional, e abomina a guerra por princípio, mas ao mesmo tempo é tão patriota que reclama a todo custo a fronteira do Brenner, ao passo que o outro considera o Estado uma obra do Diabo e decanta a união geral que surge no horizonte, mas no próximo instante defende o direito do instinto natural e zomba das conferências de paz. Temos de visitá-los para formar uma opinião. Você diz, na verdade, que estamos aqui não para nos tornar mais inteligentes, mas para melhorar nossa saúde. Mas, meu caro, acho que deve ser possível combinar essas duas coisas. Caso contrário, você chegaria a dividir o mundo, e isso não pode dar certo.

Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal

No seu compartimento da sacada, Hans Castorp classificava uma planta, que se achava vegetando em numerosos lugares desde que começara o verão astronômico e os dias se tornavam mais curtos. Tratava-se da aqüilégia, espécie de ranunculácea que cresce em forma de arbusto, de longo caule, com flores azuis ou violetas, mas também castanho-avermelhadas, e com folhas bastante amplas, de aspecto herbáceo. A planta encontrava-se aqui e ali, mas abundava especialmente naquele sítio tranqüilo onde Hans Castorp a vira pela primeira vez, fazia quase um ano: o remoto desfiladeiro no meio do bosque atravessado pelo torrentoso e murmurante regato, com a pequena ponte e o banquinho onde terminara o seu passeio prematuro, arriscado e prejudicial, e ao qual voltava de vez em quando.

Não ficava longe para quem se encaminhasse ali com um espírito menos empreendedor do que revelara Hans Castorp naquele dia. Partia-se da meta final das corridas de trenó, na

“aldeia”, e subia-se parte da encosta trilhando a vereda através do bosque, cujas pontes de madeira transpunham a pista de trenó, que descia da Schatzalp. Sem perda de tempo devido a desvios, cantigas e descansos, era possível alcançar o recanto pitoresco em aproximadamente vinte minutos. Quando Joachim se via forçado a ficar em casa, em virtude de certas obrigações do serviço – exames, radiografias, análises de sangue, injeções ou pesagens – Hans Castorp aproveitava dias de bom tempo para caminhar até lá, depois do segundo café da manhã, e às vezes já depois do primeiro; acontecia também que ele ocupasse as horas entre o chá da tarde e o jantar numa visita ao seu lugar predileto, a fim de passar algum tempo sentado no banco onde outrora o acometera a violenta hemorragia. Com a cabeça inclinada, escutava então o marulhar da torrente e contemplava a paisagem a rodeá-lo, com a multidão de aquilégias azuis que novamente floresciam no fundo do vale.

Era só para isso que ia lá? Não! Deixava-se ficar no banco, para estar sozinho, para entregar-se às suas recordações, para recapitular as impressões e as aventuras e para refletir sobre todas essas coisas. Eram numerosas, variadas e ao mesmo tempo difíceis de coordenar, pois afiguravam-se-lhe multiplamente entrelaçadas e confundiam-se a tal ponto que mal se podia distinguir a realidade dos meros pensamentos, devaneios e produtos da imaginação. Mas todas eram de natureza aventurosa, tanto que a sua lembrança fazia parar ou martelar o coração do jovem, que continuava emocionável como sempre, desde o primeiro dia que passara ali em cima.

Ou provinha, porventura, a estranha agitação do seu coração impulsivo do simples raciocínio de

que, nesse mesmo lugar onde, num instante de vitalidade reduzida, lhe aparecera Pribislav Hippe em carne e osso, a aqüilégia estava em flor, não “ainda”, mas “novamente” e que as projetadas

“três semanas” dentro em breve se transformariam num ano inteiro?

Por outro lado, já não lhe sangrava o nariz ao sentar-se no banco, ao lado do regato torrentoso; essa fase já passara. Sua aclimatação, cujas dificuldades Joachim lhe predissera logo no começo, e que realmente se mostrara um tanto penosa, realizara progressos; depois de onze meses podia ser considerada completa, e nada mais se devia esperar nessa direção. As reações químicas do seu estômago tinham-se regularizado e adaptado. O Maria Mancini recuperara o antigo sabor, e os nervos das ressequidas mucosas de Hans Castorp havia muito se regozijavam novamente com o aroma dessa marca pouco dispendiosa, que o jovem, por uma espécie de lealdade, ainda mandava vir de Bremen, cada vez que as suas provisões se iam esgotando, embora produtos tentadores se oferecessem nas vitrines de Davos. Não formava o Maria um certo elo entre ele, o arrebatado, e a sua velha pátria, na planície? O charuto não estabelecia e conservava essas relações de um modo mais eficaz do que faziam, por exemplo, os cartões-postais que Hans Castorp de vez em quando dirigia aos tios lá de baixo, a intervalos que se tornavam cada vez maiores, na mesma proporção em que ele próprio, acomodando-se aos conceitos ali vigentes, assumia em face do tempo uma atitude mais generosa? Eram de preferência cartões com vistas bonitas do vale, ora coberto de neve, ora no seu aspecto estival; só ofereciam ao remetente o espaço justo para relatar o último boletim médico, o resultado de um exame mensal ou geral, na forma adequada aos conhecimentos dos parentes; isto é, para participar-lhes, por exemplo, que as observações óticas e acústicas acabavam de registrar uma incontestável melhora, mas que ele ainda não estava desintoxicado, e que a temperatura levemente elevada que o termômetro continuava mostrando tinha a sua origem em alguns pequenos lugares que persistiam, mas seguramente desapareceriam de todo, contanto que se tivesse paciência; dessa forma evitava-se o desgosto de ter de voltar a Davos algum tempo depois. Hans Castorp podia ter certeza de que ninguém esperava dele trabalhos epistolares mais extensos; suas missivas não se endereçavam a nenhuma esfera humanista e eloqüente. As respostas que recebia tampouco eram muito expansivas. Costumavam acompanhar as ordens de pagamento que vinham de casa, os juros da sua herança paterna, tão imponentes, na moeda suíça, que nunca conseguia gastá-los por completo, antes da chegada de uma nova remessa. As respostas consistiam em algumas linhas escritas à máquina, assinadas por James Tienappel, com lembranças e votos de restabelecimento da parte do tio-avô e às vezes também do navegante Peter. Segundo Hans Castorp comunicou aos seus, o conselheiro deixara, havia pouco, de ministrar-lhe aquelas injeções. O enfermo não se dera bem com elas, que lhe causavam dores de cabeça, falta de apetite, perda de peso e grande cansaço; tinham começado por fazer subir-lhe a temperatura, e mais tarde não haviam conseguido acabar com ela. A febre continuava ardendo-lhe sob a face rosada, e o calor seco que ele sentia subjetivamente recordava-lhe que a aclimatação para um filho da planície, com o seu clima úmido, consistia antes de tudo na aquisição do hábito de não se habituar; nem o próprio Radamanto chegava a consegui-la, como evidenciava a sua tez azulada. “Há muitos que nunca se acostumam”, dissera Joachim, e parecia que era esse o caso de Hans Castorp. Pois os tremores da nuca, que haviam começado a molestá-lo pouco depois da sua chegada, não davam mostras de cessar, senão que se reproduziam inevitavelmente durante os passeios tanto como no meio das conversas, e mesmo naquele refúgio inundado de flores azuis, aonde o jovem se retirava para refletir sobre o complexo das suas aventuras. Assim, aquele jeito com que Hans Lorenz Castorp gravemente apoiara o queixo no nó da gravata, quase se tornara um vezo do neto, que, ao imitar o avô, não deixava de lembrar-se do colarinho alto do velho, essa forma interina de golilha de gala, bem como do fundo de ouro pálido da pia batismal, dos sons obscuros de “bis, tris, tetra” e de outras coisas afins, que o levavam a novas reflexões acerca do curso da sua vida.

Pribislav Hippe não mais lhe aparecia em carne e osso, como fizera onze meses atrás. A aclimatação de Hans Castorp estava terminada; as visões tinham cessado; o jovem já não jazia

estendido no banco, com o corpo posto fora de ação, enquanto o seu eu se detinha num presente longínquo. Tais incidentes haviam deixado de ocorrer. A nitidez e a viveza dessa reminiscência, quando a evocava, mantinham-se nos limites normais e saudáveis. Pode ser que Hans Castorp se sentisse inspirado por ela, ao tirar do bolso a lembrança de vidro que ali guardava num envelope forrado, dentro da sua carteira. Era uma pequena chapa que, mantida horizontalmente, paralela ao chão, parecia preta, espelhante e opaca, mas, elevada contra a luz, aclarava-se e exibia coisas humanísticas: a imagem transparente do corpo humano, o arcabouço das costelas, os contornos do coração, o arco do diafragma e as bolsas do pulmão, bem como os ossos da clavícula e do braço, e tudo isso rodeado por um invólucro pálido e vaporoso, a carne que Hans Castorp insensatamente desfrutara na semana do carnaval. Não era de admirar que o seu coração emocionável parasse ou se precipitasse cada vez que o jovem contemplava esse presente e depois prosseguia fazendo o balanço ou refletindo acerca de “tudo”, encostado no espaldar tosco do banco, com os braços cruzados, a cabeça inclinada para o ombro, ao som dos murmúrios da torrente e à vista das flores azuis de aqüilégia.

A forma sublime da vida orgânica, a figura humana, pairava diante dele, como em certa noite gélida e estrelada, no decorrer de estudos eruditos. Seu aspecto íntimo relacionava-se, para o jovem Hans Castorp, com numerosos problemas e discrimes, dos quais o bom Joachim talvez não tivesse nenhuma obrigação de ocupar-se, mas que nele, como civil, despertavam uma sensação de responsabilidade; verdade é que na planície nunca reparara neles, e provavelmente jamais teria chegado a descobri-los, mas aqui o fazia, nesse isolamento contemplativo, onde as pessoas olhavam de cinco mil pés de altura sobre o mundo e as criaturas e tinham as suas próprias idéias a respeito de todas as coisas, quiçá devido a uma superexcitação do corpo, originada por venenos solúveis, e cujo calor seco lhes abrasava o rosto. Esse pensamento o fazia lembrar-se de Settembrini, o pedagogo-tocador de realejo, cujo pai nascera na Hélade, e que explanava o amor àquela forma sublime sob os aspectos da política, da rebelião e da eloqüência, consagrando a lança do cidadão sobre o altar da humanidade. Também pensava no camarada Krokowski e nas práticas a que, fazia algum tempo, se entregava em companhia do assistente, no gabinete tenebroso; cismava com respeito à natureza dupla da análise, procurando descobrir até que ponto ela era favorável à ação e ao progresso, e onde começava a ser afim do túmulo e da sua anatomia mal-afamada. Evocava as imagens dos dois avôs, o rebelde e o conservador, que se vestiam de preto por motivos diferentes; ponderava o valor de um e de outro. Refletia acerca de complexos tão vastos como são a forma e a liberdade, o espírito e o corpo, a honra e a vergonha, o tempo e a eternidade. E certa vez experimentou uma breve mas violenta vertigem ao recordar-se de que a aqüilégia estava novamente em flor e o ano se fechava sobre si mesmo.

Hans Castorp usava um termo estranho para designar essa ocupação séria do seu intelecto, à qual se dedicava no pitoresco retiro. Chamava-a “reinar”; servia-se dessa denominação de uma brincadeira pueril, palavra da sua infância, para aplicá-la a uma distração que lhe era cara, ainda que viesse acompanhada de terror, de vertigens, de toda espécie de tumultos do seu coração e aumentasse o calor que lhe abrasava o rosto. Mas não lhe parecia inconveniente que o esforço exigido por essa atividade o obrigasse a apoiar o queixo no nó da gravata; pois essa atitude estava em harmonia com a dignidade que lhe conferia o ato de “reinar”, em face da forma sublime que lhe pairava ante os olhos.

“Homo Dei” – assim chamara o feioso Naphta aquela forma sublime, enquanto a defendia contra a sociologia inglesa. Seria então de admirar que Hans Castorp, devido à sua responsabilidade civil e no interesse do seu “reino”, se julgasse na obrigação de fazer, em companhia de Joachim, uma visita ao homenzinho? Settembrini não gostava disso; Hans Castorp tinha bastante inteligência e sensibilidade para percebê-lo com toda a clareza. Já aquele primeiro encontro não agradara ao humanista, que abertamente procurara evitá-lo e por razões pedagógicas quisera proteger os jovens, particularmente Hans Castorp, contra o contato com Naphta, embora o próprio Settembrini se desse e discutisse com ele. Assim são os educadores. A si mesmos concedem as coisas mais interessantes, alegando já “ter idade” para elas; à juventude,

porém, proíbem-nas, pretendendo fazê-la sentir que ainda não “tem idade”. Ainda bem que ao tocador de realejo não cabia de forma alguma proibir a Hans Castorp o que quer que fosse; nem sequer fizera uma tentativa nesse sentido. Era suficiente que o “discípulo enfermiço” escondesse a sua sensibilidade e fingisse alguma ingenuidade para que nada mais o impedisse de corresponder amavelmente ao convite do pequeno Naphta. Foi o que fez, junto com Joachim, que o acompanhou malgrado seu. Encaminharam-se à habitação de Naphta, poucos dias depois do primeiro encontro, numa tarde de domingo, logo após o repouso principal.

Do Berghof até a casinha do portão rodeado com a parreira eram apenas poucos minutos de descida. Os primos entraram, deixando à direita a porta do armarinho, e galgaram a estreita escada parda que os conduzia à porta do primeiro andar. Ao lado da campainha via-se uma placa com o nome do alfaiate Lukacek. Abriu-lhes a porta um garoto vestido com uma espécie de libré

– jaqueta listrada, e polainas –, um criadinho de cabelos aparados rente e de faces coradas.

Perguntaram pelo Sr. Prof. Naphta, e como não tivessem levado cartões de visita, deram os seus nomes, que ele prometeu repetir ao Sr. Naphta (não mencionou o título). A porta do quarto oposta à entrada achava-se aberta e permitia um olhar à oficina, onde Lukacek, apesar do domingo, estava costurando, sentado sobre a mesa, à moda turca. Era um homem pálido e calvo.

Sob o nariz adunco, desmedidamente grande, pendia o bigode negro com uma expressão azeda, cobrindo as comissuras da boca.

– Bom dia! – disse Hans Castorp.

– Grütsi! – respondeu o alfaiate no dialeto suíço, se bem que este não combinasse nem com seu nome nem com o seu aspecto, e tivesse um som artificial e esquisito.

– Trabalhando firme? – prosseguiu Hans Castorp, sacudindo a cabeça. – Mas é domingo.

– Trabalho urgente – explicou Lukacek, lacônico, e continuou cosendo.

– É coisa fina, então? – opinou Hans Castorp. – Será para uma festa ou coisa que o valha?

O alfaiate deixou a pergunta por algum tempo sem resposta. Cortou o fio com os dentes e voltou a enfiar a agulha. Depois fez que sim.

– Vai ficar bonito? – indagou Hans Castorp novamente. – É com mangas?

– Sim, com mangas, é para uma velha – replicou Lukacek com nítido sotaque tcheco. A volta do criadinho interrompeu essa conversa entabulada no umbral da porta. O Sr. Naphta convidava os senhores a entrar, anunciou o rapaz, abrindo aos jovens uma porta situada a dois ou três passos para a direita e levantando um reposteiro. Os visitantes foram recebidos por Naphta, que os esperava de pé sobre um tapete verde-musgo, calçando chinelos enfeitados de galões.

Ambos os primos ficaram surpreendidos diante do luxo do gabinete de trabalho, arejado por duas janelas; chegaram a sentir-se deslumbrados, pois a pobreza da casinha, de sua escada e do mísero corredor não deixava nem de longe prever aquilo, e o contraste dava à elegância do aposento de Naphta um cunho de conto de fadas, que ele em realidade não tinha e tampouco teria aos olhos de Hans Castorp e de Joachim Ziemssen. Inegavelmente, a mobília era distinta e até suntuosa, a tal ponto que, apesar da escrivaninha e das estantes de livros, não estava de acordo com o caráter de um gabinete de trabalho. Havia demasiada seda – seda cor de vinho, seda purpúrea: os reposteiros que escondiam as toscas portas constavam desse material, bem como as sanefas das janelas e os forros de um terno de móveis agrupados num dos lados mais estreitos da peça, em frente à segunda porta e diante de um gobelino que cobria a parede na quase totalidade da sua extensão. Eram poltronas de estilo barroco, com um leve estofamento nos braços, dispostas em torno de uma mesa redonda, incrustada de metal, atrás da qual se achava um sofá do mesmo estilo, guarnecido de almofadas de veludo de seda. As estantes de livros ocupavam as partes das paredes situadas entre as duas portas. Elas, tanto como a escrivaninha, ou melhor, a secretária provida de uma tampa de correr, e que tinha o seu lugar entre as janelas, eram de acaju lavrado, com portas envidraçadas e revestidas de seda verde. Mas, no canto à esquerda do sofá, via-se uma obra de arte, uma grande escultura de madeira pintada, posta sobre um pedestal recoberto de pano vermelho; uma Pietà cujo aspecto ingênuo e expressivo até as raias do grotesco

causava profundo espanto. A Virgem era representada com uma touca, de cenho carregado, retorcendo de tanta mágoa a boca semi-aberta; tinha sobre os joelhos, o Salvador, uma figura de erros primários nas proporções, e cuja anatomia crassamente exagerada documentava a ignorância do artista; a cabeça caída estava crivada de espinhos; o rosto e os membros, manchados e mesmo inundados de sangue; grossas gotas de sangue coagulado brotavam da ferida lateral e dos sinais que os pregos haviam deixado nas mãos e nos pés. Inegavelmente, essa obra assombrosa dava um acento particular ao aposento abundante de seda. Também o papel de parede, que aparecia acima das estantes e ao lado das janelas, fora evidentemente escolhido pelo sub-locador: o verde das listras verticais era o mesmo do tapete macio estendido por cima de um revestimento vermelho. Somente para o teto baixo não houvera remédio; continuava frio e cheio de fendas. No entanto, pendia dele um pequeno lustre veneziano. As janelas achavam-se veladas por cortinas de cor creme que chegavam até o chão.

– Viemos ter um colóquio com o senhor – disse Hans Castorp, enquanto os seus olhares se fixavam na piedosa e horripilante escultura, lá no canto, antes do que no dono do excêntrico gabinete. Este notava com satisfação que os primos haviam cumprido a sua palavra. Com um gesto convidativo da mãozinha direita, Naphta quis conduzi-los até as poltronas forradas de seda.

Mas Hans Castorp, como que magnetizado, foi diretamente à Pietà de madeira e plantou-se diante dela, com os braços fincados nos quadris e a cabeça inclinada para o lado.

– Que é isso que o senhor tem aqui? – perguntou em voz baixa. – É formidável. Onde já se viu tamanho sofrimento? É coisa antiga, naturalmente?

– Século XIV – respondeu Naphta. – Com toda a probabilidade de origem renana.

Impressiona o senhor?

– Enormemente – disse Hans Castorp. – Quem olha isso simplesmente não pode deixar de ficar impressionado. Eu nunca teria pensado que uma coisa pudesse ao mesmo tempo ser tão feia – perdão! – e tão bela.

– Produtos de um mundo da alma e da expressão – replicou Naphta – são sempre feios de tanta beleza e belos de tanta fealdade. Essa é a regra. Trata-se da beleza espiritual, não da beleza da carne, que é absolutamente estúpida. E não só isso, ela é também abstrata –

acrescentou. – A beleza do corpo é abstrata. Unicamente a beleza interior, a da expressão religiosa, tem realidade.

– Fico-lhe grato pela precisão com que o senhor discerniu e classificou isso – disse Hans Castorp. – Século XIV? – repetiu, para certificar-se. – Mil trezentos e tantos? Sim, isto é a encarnação da Idade Média. Reconheço, por assim dizer, a idéia que fiz dela nos últimos tempos.

No fundo não sabia nada a seu respeito. Sou um homem do progresso técnico, se é que me cabe mencionar a minha pessoa. Mas aqui em cima tive diversas ocasiões para entrar em contato com os conceitos da Idade Média. A sociologia econômica ainda não existia naqueles tempos, é escusado dizer. Qual é o nome do artista?

Naphta deu de ombros.

– Que importa? – replicou. – Nós não deveríamos fazer essa pergunta, desde que na época em que a obra nasceu ninguém se preocupou com ela. Isso aí não é da autoria de um cavalheiro de marcada individualidade; é anônimo e coletivo. Provém, aliás, de uma Idade Média muito avançada, do gótico, signum mortificationis. Nessa escultura, o senhor nada mais encontrará daquela tendência de suavizar e de embelezar que ainda a época românica julgava indispensável para a representação do Crucificado. Nada de coroa real, nada de majestoso triunfo sobre o mundo e o martírio da morte. Tudo aqui revela da forma mais radical o sofrimento e a debilidade da carne. É com a estética gótica que na realidade começam o ascetismo e o pessimismo. O

senhor talvez não conheça o tratado de Inocêncio III: De miseria humanae conditionis, uma pecinha literária sumamente engraçada, que data de fins do século XII. Mas somente esta arte pode servir para ilustrá-la.

– Sr. Naphta – disse Hans Castorp, depois de ter dado um profundo suspiro –, tudo o que o senhor acaba de explanar interessa-me muito. Signum mortificationis, foi o que disse? Gravarei

isso na memória. E antes o senhor usou os termos “anônimo” e “coletivo”; parece-me que vale a pena refletir sobre eles. Infelizmente o senhor supõe com razão que eu não conheço o livro daquele papa – acho que Inocêncio III foi um papa. Se bem compreendi o senhor, é uma obra ascética e engraçada, não é? Devo confessar que nunca teria imaginado que essas duas coisas pudessem andar juntas. Mas, pensando bem, compreendo. Claro, um tratado sobre a miséria humana oferece muitas oportunidades para gracejos à custa da carne. Pode-se obter essa obra?

Recorrendo aos restos do meu latim, talvez seja capaz de entendê-la.

– Tenho este livro – respondeu Naphta, indicando com a cabeça uma das estantes. – Fica à sua disposição. Mas, por que não nos sentamos? O senhor pode ver a Pietà também do sofá.

Está justamente chegando um pequeno lanche...

Era o criadinho que trazia o chá acompanhado de uma bonita cesta guarnecida de prata na qual havia um bolo cortado em fatias. Atrás dele, porém, pela porta aberta – quem é que entrava a passo alado, com um sorriso fino, e dizendo “Sapristi” e “Accidenti”? Era o Sr.

Settembrini, domiciliado no andar superior e que descera na intenção de fazer companhia aos visitantes. Contou que pela sua pequena janela vira os primos chegar. Terminara depressa uma página da enciclopédia, que estava redigindo naquele momento, para, então, convidar-se a si mesmo. Era absolutamente natural que ele descesse. Sua familiaridade antiga com os habitantes do Berghof autorizava-o a isso, e havia ainda as suas relações e o seu intercâmbio intelectual com Naphta, que, apesar das profundas divergências de opinião, eram muito intensas. Assim, o anfitrião cumprimentou-o com um simples aceno, sem mostrar a mínima surpresa. Isso não impediu que a sua entrada deixasse em Hans Castorp, e bem nitidamente, uma dupla impressão.

De um lado sentiu que o Sr. Settembrini acabava de comparecer para evitar que eles – Joachim e sobretudo ele, Hans Castorp – ficassem a sós com o pequeno e feioso Naphta, e para criar, pela sua presença, um contrapeso pedagógico; do outro, era manifesto que o italiano absolutamente não desprezava, senão aproveitava com muito gosto a oportunidade para abandonar por algum tempo a sua água-furtada e deixar-se estar no distinto aposento, forrado de seda, de Naphta, tomando um chá elegantemente oferecido. Antes de se servir, esfregou as mãos amareladas, por cujas costas se estendiam pêlos negros, a partir dos dedos mindinhos; a seguir, saboreou com evidente e não dissimulado prazer as fatias do bolo entremeado de veias de chocolate.

A conversa continuou a ocupar-se da Pietà, porque Hans Castorp, com olhares e palavras, se agarrava ao assunto, dirigindo-se ao Sr. Settembrini e procurando, por assim dizer, pô-lo em contato crítico com aquela obra de arte. Entretanto, a fisionomia do humanista denotava com toda a clareza o horror que lhe causava esse adorno do quarto, quando se voltou para olhá-lo; pois ao sentar-se dera as costas ao canto onde se achava a escultura. Por demais cortês para dizer tudo o que pensava, limitou-se a criticar os erros nas proporções e na anatomia do grupo, infidelidades à verdade natural, que estavam longe de comovê-lo, por não terem a sua origem na incapacidade de um artista primitivo, senão que documentavam a má vontade, um princípio fundamentalmente hostil. Nesse ponto, Naphta concordou com ele maliciosamente. Sem dúvida não se podia falar de inabilidade técnica. Tratava-se, sim, de um consciente ato do espírito que se emancipava da natureza, cuja desprezibilidade era proclamada, no sentido religioso, pela enérgica negação do menor respeito a ela. Mas Settembrini declarou que o menosprezo da natureza e de seu estudo era incompatível com a humanidade e, em oposição à absurda falta de forma, cultivada pela Idade Média e pelas épocas que a imitavam, pos-se a encomiar em palavras eloqüentes a herança greco-romana, o Classicismo, a forma, a beleza, a razão e a alegria piedosamente fundada na natureza, que eram os únicos chamados a melhorar a causa do homem.

Continuar: parte 4 de 5