A Montanha Mágica
Capitulo VI
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
E Joachim? Como se achava ele? Sentia-se aliviado e livre desde aquele dia, ou sofria a sua alma severas privações em face dos lugares vazios à mesa? Sua impaciência insólita e insubmissa, sua ameaça de partir sem autorização, caso continuassem a lográ-lo – tinham elas, porventura, a sua origem na ausência de Marusja? Ou explicava-se, pelo contrário, o fato de ele, por enquanto, não se ir embora e aquiescer aos elogios do degelo que o conselheiro lhe prodigalizava –
explicava-se esse fato pelo outro, de que Marusja, a moça dos seios opulentos, não partira seriamente, mas sim para fazer uma simples viagenzinha, da qual estaria de regresso dentro de cinco das menores unidades de tempo que se conheciam ali em cima? Ai dele! Havia na sua conduta um pouco de tudo isso, e todas essas razões influíam igualmente sobre ela. Hans Castorp percebia-o, sem que jamais falasse com Joachim a esse respeito. Abstinha-se estritamente de mencionar o assunto, assim como Joachim evitava pronunciar o nome de outra pessoa que também se ausentara numa viagenzinha.
Nesse meio-tempo, fora ocupado o lugar de Settembrini à mesa. Quem era que ali se encontrava, ao lado de uns pensionistas holandeses de apetite tão estupendo que cada um deles costumava pedir três ovos fritos, ainda antes da sopa que formava o início dos cinco pratos do jantar normal? Era Anton Karlovitch Ferge, aquele que experimentara a infernal aventura do choque pleural. Sim, o Sr. Ferge abandonara o leito; mesmo sem o pneumotórax, seu estado melhorara de tal maneira que lhe permitia passar levantado a maior parte do dia e participar das refeições, com seu bigode hirsuto e bonachão, e o grande pomo-de-adão, de aspecto igualmente jovial. De vez em quando, os primos conversavam com ele na sala ou no vestíbulo, e faziam também alguns dos passeios regulamentares em sua companhia, quando o acaso os associava.
Sentiam uma certa simpatia por esse sofredor ingênuo, que declarava nada entender de assuntos sublimes, mas, feita essa confissão, sabia contar agradavelmente histórias relativas à fabricação de galochas e falar de regiões longínquas do Império Russo, de Samara e da Geórgia, enquanto chafurdavam, no meio da cerração, através da massa aguda de neve derretida.
A essa época, os caminhos eram realmente impraticáveis; achavam-se em plena dissolução, e a bruma pairava por cima deles. Verdade é que o conselheiro afirmava não se tratar de neblina, senão de nuvens; mas isso era simples questão de palavras, segundo a opinião de Hans Castorp. A primavera ia travando uma violenta luta, que, com inúmeras recaídas no rigor do inverno, se prolongou através de meses inteiros até meados de junho. Já em março, quando brilhava o sol, mal se podia suportar o calor na sacada e na espreguiçadeira, apesar das roupas ligeiríssimas e do guarda-sol. Certas senhoras acreditavam na chegada do verão e apareciam ao café da manhã com vestidos de musselina. O seu procedimento era até perdoável em face das peculiaridades do clima alpino, que favorecia o equívoco pela confusão meteorológica das estações. Mas também havia na sua precipitação uma boa parte de visão curta e de falta de imaginação, próprias da estupidez de seres que só vivem do momento para o momento, incapazes de pensar em mudanças da situação atual; além do mais expressava-se nisso a avidez de variação e a impaciência com que devoravam o tempo. O calendário dizia: março, o que significava primavera e equivalia a verão. Por isso, os vestidos de musselina eram tirados da mala,
para serem exibidos antes da entrada do outono. E de fato sobreveio uma espécie de outono. O
mês de abril trouxe consigo dias sombrios, de um frio úmido, cuja chuva incessante se transformou aos poucos em neve que caía turbilhonando. Os dedos enregelavam-se na loggia; os dois cobertores de lã de camelo voltaram a prestar serviços, e pouco faltou para que se recorresse novamente ao saco de peles. A “administração” decidiu-se a reacender a calefação, e todos se queixavam de se ver esbulhados da primavera. Pelo fim do mês tudo estava oculto sob uma espessa camada de neve, mas logo surgiu o Föhn6, previsto, pressagiado pelos pensionistas mais experientes e mais sensíveis. A Srª. Stöhr, bem como a Srta. Levi, a da pele de marfim, e também a viúva Hessenfeld eram unânimes em afirmar que já o tinham pressentido, antes que se mostrasse a menor nuvem por cima dos cumes da formação de granito, lá ao sul. Em seguida, a Srª. Hessenfeld começou a demonstrar uma propensão para crises de choro, a Levi acamou-se, e a Srª. Stöhr, exibindo obstinadamente a dentadura de lebre, exteriorizava de hora em hora o supersticioso receio de uma hemoptise, em vista da crença de que o Föhn causava ou favorecia tais acidentes. Reinava um calor incrível. Desligaram a calefação. Durante a noite deixava-se aberta a porta da sacada, e, não obstante, o termômetro marcava pela manhã 11 graus no interior do quarto. Derretiam-se enormes quantidades de neve, que ia assumindo uma cor de gelo e se tornava porosa e esburacada. Os montões desfaziam-se, como se quisessem esconder-se debaixo do sol. Tudo ressumbrava, gotejava, marulhava; nos bosques se ouvia o ruído de pingos que caíam e de massas de neve que deslizavam dos galhos; as barreiras acumuladas ao longo dos trilhos, os pálidos tapetes que cobriam os prados, sumiam-se, ainda que a neve fosse por demais abundante para desaparecer depressa. Produziram-se fenômenos maravilhosos, surpresas primaveris durante os passeios obrigatórios pelo vale, espetáculos deslumbrantes, nunca vistos.
Desdobrava-se um campo plano; o fundo era formado pelo cume cônico do Schwarzhorn, ainda envolto em neve, e a cuja direita se erguia, bem próxima, a geleira de Scaletta, também coberta de neve profunda. A pradaria, com um monte de feno no meio, igualmente se achava sob a neve, embora a camada já aparecesse mais fininha e mais rala, interrompida, aqui e ali, por elevações escuras de terra e perfurada em toda parte pela grama seca. Mas os andarilhos notaram a natureza irregular da camada de neve que revestia esse prado: ao longe, em direção, às encostas arborizadas, era mais espessa; à sua frente, porém, diante dos seus olhos, o capim desbotado, ressequido pelo inverno, estava apenas salpicado, pintalgado, floreado de manchas brancas...
Olharam-nas mais de perto; pasmados, inclinaram-se por cima delas e verificaram que não era neve, mas flores, flores de neve, neve de flores, pequenos cálices sobre curtas hastes, alvos ou de um azul esbranquiçado; eram crocos, deveras, que haviam brotado aos milhões do solo do campo encharcado, em tal quantidade que facilmente podiam ser tomados por neve, com a qual de fato se confundiam a alguma distância.
Os passeantes riam-se do seu equívoco, exultavam de alegria diante desse milagre que se realizava à vista deles, dessa adaptação imitadora, desse mimetismo graciosamente tímido por meio do qual a vida orgânica se atrevia a ressurgir. Colhiam flores, contemplavam e examinavam as delicadas formas dos cálices, enfeitavam as lapelas, levavam um ramalhete para casa e colocavam-no num copo d'água, nos seus quartos. Pois a rigidez inorgânica do vale durara muito tempo – muito tempo, embora parecesse pouco.
Mas a neve de flores foi recoberta por neve autêntica, e as soldanelas azuis bem como as prímulas amarelas e vermelhas, que a substituíam, não tinham melhor sorte. Como era difícil para a primavera abrir caminho e triunfar do inverno! Dez vezes vira-se obrigada a recuar antes que se pudesse firmar nessas alturas – até a próxima irrupção do inverno, com o torvelinho branco, o vento glacial e a calefação acesa. Em princípios de maio – enquanto falávamos das flores de neve, chegou o mês de maio – era uma verdadeira tortura escrever na sacada um simples cartão-postal destinado à planície, pois os dedos ressentiam-se da umidade própria de um novembro rigoroso.
As cinco ou seis árvores frondosas que existiam na região estavam despidas como as da planície 6 Vento do sul. (N. do E.)
em janeiro. Chovia dias a fio; durante uma semana inteira abatiam-se as águas, e sem as qualidades reconfortantes das espreguiçadeiras do tipo usado ali em cima, teria sido extremamente duro passar numerosas horas de repouso ao ar livre, em meio ao vapor das nuvens, e com o rosto molhado, enrijecido. No fundo, porém, tratava-se de uma chuva de primavera, e quanto mais durava mais se dava a conhecer como tal. Quase toda a neve fundia-se sob o seu efeito. Já não se via branco, só aqui e ali um cinzento gelado de aspecto sujo. E agora, finalmente, os campos começavam a reverdecer.
Que bênção para os olhos esse verde dos prados, após o branco sem fim! Havia, além disso, ainda um outro verde cuja delicadeza e suavidade graciosa ultrapassavam de longe as da grama fresca. Eram os feixes de agulhas novas dos lariços. Hans Castorp, nos seus passeios regulamentares, raramente deixava de acariciá-los com a mão ou de roçar a face de encontro a eles, tão irresistível era o encanto da sua maciez e da sua frescura. – Sinto vontade de me tornar botânico – disse o jovem a seu companheiro. – Realmente, essa ciência me tenta, só pelo prazer que experimento diante desse despertar da natureza, depois do inverno que passamos aqui em cima. Olhe aí, rapaz, há gencianas na encosta, e isto aqui é uma espécie de violeta amarela que eu não conhecia. E vejo também ranúnculos do mesmo tipo que cresce lá embaixo. São duplos e pertencem à família das ranunculáceas. É uma planta especialmente bonita e híbrida, sabe? Veja como ela dispõe de uma porção de estames e de grande número de ovários, um androceu e um gineceu, se me lembro bem. Acho que acabarei comprando uma ou outra obra botânica, para me instruir um pouco melhor nesse campo da vida e da ciência. Como o mundo se torna colorido, agora!
– Em junho haverá mais cores ainda – disse Joachim. – A floração destes prados é célebre. Mas creio que não esperarei até lá... Será que o seu desejo de estudar botânica se deve à influência de Krokowski?
De Krokowski? Que significava isso? Ah sim, era porque o Dr. Krokowski, numa das suas últimas conferências, entrara na botânica. Estaria redondamente enganado quem supusesse que as transformações acarretadas pelo tempo pudessem fazer o Dr. Krokowski desistir das suas conferências. Continuava a realizá-las de quinze em quinze dias, de sobrecasaca, embora não de sandálias, que só calçava durante o verão e portanto voltaria a calçar em breve. Discorria ainda uma segunda-feira sim, outra não, na sala de refeições, como naquele dia em que o novato Hans Castorp, manchado de sangue, chegara atrasado. Durante nove meses, o analista tratara do amor e da doença, nunca em demasia, mas em doses pequenas, palestras de meia hora e quarenta e cinco minutos; assim desdobrara ante o seu público os tesouros da sua sabedoria e das suas idéias. Todos tinham a impressão de que nunca se veria obrigado a parar com essas conferências e que isso continuaria assim interminavelmente. Era uma espécie de Mil e uma noites bimensal, prolongando-se à vontade, de preleção em preleção, e sumamente apropriada a satisfazer, à maneira dos contos de Xerazade, a curiosidade de um príncipe e a dissuadi-lo de atos violentos.
Na sua abundância ilimitada, o tema do Dr. Krokowski fazia pensar na empresa em que colaborava Settembrini, a Enciclopédia dos males. Podia-se julgar a variabilidade do assunto pelo fato de que o conferencista recentemente até se ocupara da botânica, ou mais precisamente: de cogumelos... Por outro lado, parecia ter dado um novo rumo às suas palestras: falava de preferência do amor e da morte, o que dava lugar a numerosas observações de cunho ora delicadamente poético, ora inexoravelmente científico. Nessa urdem de idéias, o sábio, com o seu sotaque arrastado à maneira oriental e com o seu “r” carregado, chegara a tratar da botânica, isto é, dos cogumelos, essas criaturas da sombra, luxuriantes e fantásticas, oriundas da vida orgânica, de natureza carnal, e muito afins com o reino dos animais. Na sua estrutura entravam produtos do metabolismo animal, albumina e glicogênio. E o Dr. Krokowski citara certo cogumelo famoso desde a Antigüidade clássica, devido à sua forma e às capacidades que se lhe atribuíam, um fungo cujo nome latino continha o epíteto impudicus, e cujo aspecto recordava o amor, ao passo que o odor relembrava a morte. Era evidentemente um cheiro cadavérico, o que se desprendia do impudicus, quando destilava da sua cabeça campanular aquele muco viscoso, esverdeado, que a recobria e era o portador dos espórios. Entre as pessoas ignorantes esse cogumelo continuava sendo considerado um afrodisíaco.
Ora, essa palestra não deixara de ser um tanto forte para as senhoras, conforme opinou o Promotor Paravant, que, graças ao apoio moral da propaganda do conselheiro, perseverara firme no sanatório, apesar do degelo. E também a Srª. Stöhr, que igualmente demonstrava bastante força de caráter para não arredar pé e resistia à sedução de uma partida “em falso”, observou à mesa que o Dr. Krokowski fora um pouco “obscuro” ao referir-se àquele cogumelo clássico.
“Obscuro”, disse a desgraçada, profanando a sua doença por esse lapso inominável. Mas Hans Castorp estranhou, antes de tudo, o fato de ter Joachim aludido ao Dr. Krokowski e à sua botânica, porque em outras ocasiões nunca haviam falado do analista, como tampouco das pessoas de Clávdia Chauchat ou de Marusja. Não o mencionavam; preferiam passar em silêncio a sua existência e atividade. Dessa vez, porém, Joachim se referira ao assistente num tom mal-humorado, como, aliás, a observação de não querer aguardar a floração dos prados revelara o mesmo mau humor. O bom Joachim parecia perder aos poucos o equilíbrio. Sua voz vibrava de irritação, e ele já não se mostrava tão brando e tão comedido como antes. Fazia-lhe falta o perfume de flor de laranjeira? Levavam-no ao desespero as peças que lhe pregava a escala de Gaffky? Sentia-se ele incapaz de resolver se era melhor esperar o outono ali em cima ou arriscar uma partida não autorizada?
Na realidade existia ainda outra coisa à qual se devia a vibração agastada da voz de Joachim, e que o fazia mencionar num tom quase sarcástico a conferência botânica de poucos dias atrás. Era esse um fato que Hans Castorp ignorava, ou melhor: ele não sabia que Joachim o notara. Pois ele próprio, o espírito propenso a aventuras, o filho enfermiço da vida e da pedagogia, estava muito bem a par do assunto. Numa palavra, Joachim descobrira certas façanhas do primo, surpreendera-o, de inopino, numa traição semelhante àquela que Hans Castorp cometera na terça-feira de carnaval. Tratava-se de uma nova deslealdade, agravada pela circunstância indubitável de ter chegado a ser um hábito.
O ritmo constante e monótono do curso do tempo, a organização minuciosa e prefixada do dia normal, que era sempre o mesmo, idêntico a si próprio, repetindo-se a ponto de criar confusão, a eternidade parada que tornava difícil compreender por que tinha a faculdade de acarretar transformações – essa ordem inabalável do programa diário incluía, como todos se recordam, a ronda do Dr. Krokowski entre três e meia e quatro horas da tarde. A essa hora, o assistente passava por todos os quartos, de sacada em sacada, de uma espreguiçadeira à outra.
Quantas vezes já se repetira o dia normal do Berghof, desde aquele momento em que Hans Castorp, na sua posição horizontal, se melindrara ao perceber que o assistente dava uma volta em torno dele e não o levava em conta! Desde muito tempo o visitante de outrora convertera-se num
“camarada”. Freqüentemente o Dr. Krokowski servia-se mesmo dessa palavra, quando se dirigia a ele; e essa palavra um tanto militar, cujo “r” o médico pronunciava de modo exótico mediante um só estalo da língua na região anterior do palato, soava horrivelmente na sua boca, como Hans Castorp fizera notar a Joachim. Sem embargo, estava até certo ponto em harmonia com o seu jeito enérgico, alegre e jovial, que parecia convidar à confiança alegre, mas era em parte desmentido pela palidez e pela negrura do médico – o que causava aquela aura de equívoco que sempre pairava em volta dele.
– Pois então, camarada, como vai a coisa? – dizia o Dr. Krokowski, cada vez que, vindo do casal de bárbaros russos, se aproximava da cabeceira da cadeira de Hans Castorp. E sempre que ouvia essa alocução animada, o enfermo, com as mãos sobre o peito, esboçava o mesmo sorriso forçado e amável, contemplando os dentes amarelos do assistente, que apontavam no meio da barba preta. – Descansou bem? – costumava prosseguir o Dr. Krokowski.
– Sua curva desceu? Ah, subiu hoje? Não faz mal. Isso se arranja até o dia do casamento. Bom proveito! – E
com essas palavras de som igualmente horroroso, devido ao “r” carregado, já continuava o seu caminho, passando para o compartimento de Joachim. Afinal de contas, só se tratava de uma ronda destinada a verificar se tudo estava em ordem.
Às vezes, porém, o Dr. Krokowski demorava-se um pouco mais ao lado de Hans Castorp. Então o homem espadaúdo, com o infalível sorriso másculo, conversava com o camarada sobre isto e aquilo. Falava do clima, de partidas e chegadas, da disposição do paciente, do seu bom ou mau humor, e também da sua situação pessoal, da sua origem e do seu futuro, antes de dizer “Bom proveito” e de prosseguir na ronda. E Hans Castorp que, para variar, tinha as mãos entrelaçadas na nuca, respondia-lhe, igualmente sorrindo, a todas as perguntas – com uma sensação penetrante de repulsa, sim, mas, não obstante, respondia. Abafavam a voz. Se bem que a divisão de vidro separasse os compartimentos apenas incompletamente, Joachim não podia escutar a conversa do outro lado, para o que, de resto, não fazia a menor tentativa. Ouvia até como o primo se levantava da cadeira e entrava no quarto, acompanhado do Dr. Krokowski, provavelmente para lhe mostrar a papeleta de temperatura. E ali continuava o colóquio por algum tempo ainda, a julgar pelo atraso com que o assistente, vindo do corredor, entrava no aposento de Joachim.
De que falavam os camaradas? Joachim não perguntava, mas se um dentre os leitores não lhe seguisse o exemplo e ventilasse a questão, faríamos notar, de forma generalizada, que existem muitos assuntos e muitas razões para o intercâmbio espiritual entre homens e camaradas, cujos conceitos fundamentais têm o cunho do idealismo, e dos quais um foi levado, pelo seu caminho formativo, a considerar a matéria como o pecado original do espírito, ou como uma perigosa excrescência dele, ao passo que o outro, o médico, se acostumou a ensinar o caráter secundário da enfermidade orgânica. Somos da opinião que eles terão que discutir e trocar numerosas idéias com respeito à matéria como degeneração desonrosa do imaterial, à vida como impudicícia da matéria, e à doença como forma depravada da vida. Talvez palestrassem, baseados no tema de conferências em curso, sobre o amor como fator patogênico, sobre a natureza metafísica dos indícios, sobre focos “antigos” e “recentes”, sobre venenos solúveis e filtros de amor, sobre a iluminação – do inconsciente, a bênção da análise das almas e a reversão dos sintomas. Que sabemos nós dos assuntos por eles tratados, uma vez que tudo isso não passa de conjetura e suposições feitas em resposta à hipotética pergunta: “De que falavam o Dr. Krokowski e o jovem Hans Castorp?”
Por outro lado, agora já não conversavam mais. Aquelas palestras pertenciam ao passado, tinham-se estendido por poucas semanas apenas. Presentemente, o Dr. Krokowski não se demorava com esse doente mais do que com qualquer outro. “Pois então, camarada?” e “Bom proveito!” – a isso as suas visitas haviam voltado a limitar-se, na maioria das vezes. Em compensação, porém, fizera Joachim outra descoberta, justamente a que ele julgava uma traição da parte de Hans Castorp. Fizera-a totalmente sem querer, sem se ter dado o trabalho de espionar o primo, o que se afastaria da sua retidão militar. Sucedeu simplesmente, numa quarta-feira, que lhe interromperam o repouso e o chamaram ao subsolo, para que o massagista o pesasse. Foi então que recebeu a surpresa. Descia pela escada, a escada limpinha, coberta de linóleo, donde se abria a vista sobre a porta da sala de consultas, a cujos lados havia os dois gabinetes de
“radioscopia”, à direita o do organismo, e à esquerda, dobrando o corredor, o da alma, sito um degrau mais abaixo, com o cartão do Dr. Krokowski pregado à porta. A meia altura da escada, Joachim estacou, pois Hans Castorp, que vinha da injeção, acabava de sair da sala de consultas.
Com ambas as mãos fechou a porta que atravessara depressa e, sem olhar em torno de si, voltou-se para a direita, rumo à outra, na qual o cartão se achava fixo por meio de percevejos. Alcançou-a com poucos passos silenciosos e cadenciados. Bateu nela, inclinando-se e avizinhando o ouvido do dedo que batia. E quando ressoou do calabouço o barítono do dono do gabinete, dizendo
“Entre!”, com um estalo exótico do “r” e com um som desfigurado das vogais, Joachim viu como o primo desaparecia na penumbra da caverna analítica do Dr. Krokowski.
Mais alguém
Dias longos – os mais longos, objetivamente falando, com referência ao número das suas horas de sol; pois a extensão astronômica era incapaz de influir sobre a pouca duração do dia avulso tanto como dos dias em geral, na sua fuga monótona. O equinócio da primavera já se passara havia três meses. Chegara o solstício de verão. Mas o ano natural ali em cima seguia o calendário com certa relutância. Somente nesses dias a primavera começara a impor-se definitivamente, uma primavera ainda livre de todo o peso do verão, aromática, transparente e leve, com um azul de esplendor argentino e com uma abundância infantil de cores na floração dos prados.
Nas encostas, Hans Castorp encontrava as mesmas flores das quais Joachim, na sua amabilidade, lhe pusera no quarto alguns exemplares, então os últimos, para lhe dar as boas-vindas: aquilégias e campânulas. Isto significava que o ciclo do ano estava a ponto de se fechar sobre si. Mas quantas variedades da vida orgânica não tinha brotado do solo, por entre a nova esmeraldina das vertentes e das pradarias: estrelas, cálices, campanas e outras formas menos regulares, enchendo com o seu perfume seco o ar abrasado pelo sol! Assomavam lícnides alpinas e amores-perfeitos selvagens em enormes quantidades, bem-me-queres, margaridas, prímulas amarelas e vermelhas – tudo muito maior e mais lindo do que Hans Castorp conhecia da planície, se é que ali prestara atenção à flora. Também se viam soldanelas balouçando as campanazinhas providas de pestanas, soldanelas azuis, purpúreas e rosadas, especialidade da região.
O jovem ia colhendo essas flores graciosas; levava ramalhetes ao sanatório, e isso numa intenção muito séria; não o fazia apenas para adornar o quarto, senão para se dedicar, como se propusera, a estudos rigorosamente científicos. Adquirira alguns apetrechos florísticos, um manual de botânica geral, uma pazinha de tamanho adequado para desenterrar as plantas, um herbário e uma lupa forte. Com isso se punha a trabalhar na sacada, já em trajes de verão, num dos ternos que trouxera consigo quando da sua chegada, o que também evidenciava que o ano em breve completaria o giro.
Havia flores frescas em diversos jarros sobre tudo que era mesa no interior do quarto, bem como na mesinha com a lâmpada, que se achava ao lado da excelente espreguiçadeira. Flores meio murchas, já um tanto débeis, mas ainda cheias de seiva, encontravam-se espalhadas pelo parapeito e pelo chão da sacada, enquanto outras, cuidadosamente desdobradas, iam sendo comprimidas por grandes pedras colocadas sobre duas folhas de mata-borrão, que lhes absorviam a umidade, para que Hans Castorp pudesse classificar os preparados ressequidos e achatados no seu álbum, onde os fixava com tiras de papel gomado. O jovem estava deitado, com os joelhos erguidos, uma perna sobre a outra, enquanto o manual aberto lhe repousava sobre o peito, com o dorso para cima, formando uma espécie de cumeeira. Mantinha o vidro espesso e polido da lupa entre os ingênuos olhos azuis e uma flor, cuja corola removera parcialmente com o canivete, a fim de poder melhor examinar o tálamo. Grandemente aumentado pela lente, o objeto parecia intumescer, assumindo extravagantes formas carnosas. Ali estavam as anteras a derramar da extremidade dos filamentos o pólen amarelo! Sobre o ovário eriçava-se o estilete canelado, e por meio de um corte longitudinal era possível ver o canalzinho por onde os grãos e os utrículos do pólen, boiando numa secreção açucarada, eram arrastados até a cavidade do gineceu. Hans Castorp contava, conferia e comparava; fazia estudos a respeito da estrutura e da posição das pétalas do cálice e da corola, tanto dos órgãos masculinos como femininos; confrontava aquilo que via com gravuras científicas e esquemáticas; verificava com satisfação a exatidão científica na estrutura das plantas que conhecia; passava, então, a determinar, com a ajuda de Lineu, aquelas cujos nomes ignorava, quanto à seção, ao grupo, à ordem, à série, à família e à espécie. Como dispusesse de muito tempo, conseguiu realizar alguns progressos na sistemática botânica, à base da morfologia comparativa. Abaixo da planta seca colada na página do herbário, escrevia numa bela caligrafia o nome latino que a ciência humanística galantemente lhe outorgara; a seguir acrescentava as peculiaridades características. Por fim mostrou tudo ao honrado Joachim, que ficou surpreso.
À noite, Hans Castorp contemplava os astros. Apossara-se dele o interesse pelo transcurso do ano, posto que já tivesse assistido na terra a mais de vinte voltas em torno do sol, sem nunca se importar com essas coisas. Se nós mesmos involuntariamente nos servimos de termos como “equinócio da primavera”, fizemo-lo em conformidade com a maneira de pensar do nosso herói, levando em conta as suas ocupações presentes. Pois dessa espécie eram os termini que nos últimos tempos ele gostava de empregar, novamente pasmando o primo pelos seus conhecimentos especializados.
– Agora o Sol se acha a ponto de entrar no signo de Câncer – disse, por exemplo, durante um passeio. – Você sabia disso? É o primeiro signo de verão do zodíaco; compreende? Depois, o Sol passará por Leão e por Virgem, em direção ao ponto do outono, um dos pontos equinociais, aonde chegará em fins de setembro, quando a sua posição voltará a coincidir com o equador do céu, como ocorreu recentemente em março, com a entrada do Sol no signo de Áries.
– Isso me escapou – respondeu Joachim, um tanto carrancudo. – Que sabedoria é essa?
Signo de Áries? Zodíaco?
– Sim, senhor, o zodíaco, o círculo dos signos. As velhíssimas constelações: Escorpião, Sagitário, Capricórnio, etc. Não é possível não se interessar por isso. Há doze signos, como até você deve saber. Três para cada estação, os ascendentes e os descendentes, a órbita das constelações que o Sol perfaz. Acho isso grandioso! Imagine que os encontraram pintados no teto de um templo egípcio; era até um templo de Afrodite, nas proximidades de Tebas. Os caldeus também os conheciam; os caldeus, sabe? Aquele velho povo de magos, de origem árabe e semítica, sumamente versado em astrologia e em profecias. Também eles já estudaram o cinturão celeste, por onde se movimentam os planetas, e subdividiram-no nesses doze signos, os dodecatemoria, tais como nos foram transmitidos. É notável! Isso é a humanidade!
– Agora você já diz “humanidade”, como Settembrini.
– Sim, como ele, ou talvez de modo um pouco diferente. A gente deve aceitá-la assim como ela é, e de qualquer maneira trata-se de uma coisa impressionante. Penso nos caldeus com grande simpatia, quando fico deitado, olhando os planetas que eles também já conheciam.
Verdade é que não conheciam todos. Urano foi descoberto só recentemente, por meio do telescópio, faz cento e vinte anos.
– Recentemente?
– Pois, sim, é o que chamo “recentemente”, em comparação com os três mil anos decorridos desde a época deles. Mas quando estou na minha cadeira, contemplando os planetas, esses três mil anos, por sua vez, transformam-se em “recentemente”, e eu me recordo intimamente dos caldeus, que também os viram e pensaram à sua maneira a respeito deles. E isso é a humanidade.
– Muito bem. Você está revolvendo idéias grandiosas no seu cérebro.
– Você diz “grandiosas” e eu as chamo “íntimas”. Depende do ponto de vista... Mas, quando o Sol entrar no signo de Libra, daqui a três meses, aproximadamente, os dias voltarão a ser mais curtos, de forma que o dia e a noite serão iguais. E mais tarde continuarão diminuindo, até a época do Natal, como você sabe. Mas não se esqueça de que os dias aumentarão novamente, enquanto o Sol passar pelos signos de inverno, Capricórnio, Aquário, Peixes, pois o ponto da primavera torna então a aproximar-se, como já o fez três mil vezes desde os tempos dos caldeus, e os dias prosseguirão aumentando, até daqui a um ano, quando chegar de novo o princípio do verão.
– Claro!
– Nada de claro! Em realidade, isso não passa de uma ilusão. Durante o inverno, aumentam os dias, e quando chega o mais longo, em 21 de junho, com o início do verão, já começa a descida, voltam a diminuir, enquanto nos encaminhamos para o inverno. Isso lhe pareceu “claro”, mas quem faz abstração dessa tal “clareza” passa por momentos de angústia e pavor e sente necessidade de agarrar-se em qualquer coisa firme. É como se algum espírito brincalhão tivesse disposto o mundo de tal forma que ao princípio do inverno começasse em
realidade a primavera, e ao início do verão, o outono... Você tem a impressão de que lhe pregam uma peça, de que o fazem girar, mostrando-lhe a perspectiva de um ponto onde se dará meia-volta. Falar-se em voltas, quando se anda num círculo! Ora, o círculo consta de um sem-número de pontos em que se muda de direção. As voltas não podem ser medidas. Não há rumo que persista, e a eternidade não é uma linha reta, mas um carrossel.
– Pare com isso!
– Festejos de solstício! – exclamou Hans Castorp. – Solstício de verão! Fogueiras acesas nas montanhas e cirandas dançadas de mãos dadas ao redor das labaredas erguidas! Nunca vi isso, mas ouvi dizer que é assim que fazem os homens primitivos, quando celebram a primeira noite de verão, com a qual se inicia o outono, essa hora meridiana e esse ponto culminante do ano, donde, então, parte a descida. Dançam, giram e exultam. De que exultam, na sua primitividade?
Você é capaz de compreendê-los? Por que sentem essa alegria desenfreada? Será porque o caminho começa a descer, em direção às trevas, ou talvez porque subiram até esse momento e agora se acham em cima, no ponto da inflexão inevitável, que é a noite da plenitude do verão, o apogeu, mesclado de depressão e altivez? Chamo as coisas pelo seu nome, com as palavras que me ocorrem. É uma presunção melancólica ou uma melancolia presumida o que faz os homens primitivos exultar e dançar em torno das chamas. Agem assim por puro desespero, se você me permite essa expressão, em homenagem ao círculo falaz e à eternidade sem rumo duradouro, na qual tudo se repete.
– Não permito nada – resmungou Joachim. – Por favor, não me meta nessa história! São assuntos meio estrambólicos esses com que você se ocupa à noite, durante o repouso.
– Pois é. Não quero negar que você emprega o seu tempo de um modo mais vantajoso, quando estuda a sua gramática russa. Em breve dominará perfeitamente esse idioma. Olhe, rapaz, isso será muito útil para você, se um dia houver uma guerra, o que queira Deus não aconteça!
– Queira Deus não aconteça? Você fala como um civil. A guerra é necessária. Sem guerras, o mundo apodreceria dentro de pouco tempo, como disse Moltke.
– Bem, parece que ele tem tendência para isso – replicou Hans Castorp. Estava a ponto de falar novamente dos caldeus, que também haviam feito guerras e conquistado a Babilônia, se bem que fossem semitas e quase judeus. Mas, nesse momento, os primos repararam em dois senhores que, caminhando à sua frente, tinham sido interrompidos na sua conversa pelo som da voz de Hans Castorp e se voltavam para olhá-los.
Passou-se isso na rua principal, entre a estância balneária e o Hotel Belvedere, durante o caminho de regresso à “aldeia”. O vale estendia-se engalanado, num vestido de cores suaves, claras e alegres. O ar era delicioso. Uma sinfonia de prazenteiros aromas de flores campestres enchia a atmosfera pura, seca, impregnada de um sol luzidio.
Reconheceram Lodovico Settembrini, ao lado de um desconhecido. Parecia, porém, que o italiano, por sua vez, não os avistara ou não desejava encontrar-se com eles, pois desviou rapidamente o olhar e, gesticulando, absorveu-se na palestra com o companheiro; até se esforçou por avançar mais depressa. Mas, quando os primos, passando à direita dele, o saudaram com uma mesura humorística, fingiu surpresa enorme e extremamente agradável, exclamando “Sapristi!” e
“Vejam só!”. No entanto, procurou dessa vez retardar o passo, para que os primos pudessem passar e distanciar-se, o que eles não compreenderam, ou melhor: não notaram, porque não viram nenhuma razão para isso. Sinceramente satisfeitos pelo reencontro depois de uma longa separação, detiveram-se a seu lado e apertaram-lhe a mão, informando-se sobre o seu estado de saúde e olhando, numa expectativa cortês, para o companheiro dele. Assim o forçaram a fazer o que, evidentemente, preferia evitar, mas o que se afigurava aos jovens a coisa mais natural e mais indicada do mundo, isto é, apresentá-los ao estranho. Fê-lo, finalmente, com uns gestos amáveis e com palavras joviais, quando o grupo já estava a ponto de se pôr em movimento, de maneira que os apertos de mão cruzaram-se diante do seu peito.
O desconhecido, que tinha aproximadamente a idade de Settembrini, era, como ficaram sabendo, o vizinho dele, o outro inquilino do alfaiate Lukacek. Segundo entenderam os jovens,
chamava-se Naphta. Era um homem pequeno, magro, escanhoado e de uma fealdade tão chocante que quase merecia ser qualificada de corrosiva; causou espanto aos primos. Tudo nele parecia cortante: o nariz adunco que dominava o rosto, a boca de lábios, finos e comprimidos, as grossas lentes dos óculos de aros leves, atrás dos quais apontavam os olhos de um cinzento claro, até mesmo o silêncio que o homem guardava, e que fazia supor que também a sua maneira de falar seria incisiva e lógica. Não usava chapéu, como era costume ali, e andava sem sobretudo; suas roupas eram, aliás, muito bem-feitas: um terno de flanela azul-escura com listras brancas, de corte elegante, não exageradamente moderno, como verificaram os relances críticos e mundanos dos primos, que se encontraram com um olhar do pequeno Sr. Naphta, igualmente examinador, mas mais rápido e mais penetrante, que lhes deslizou pelos corpos. Não soubesse Lodovico Settembrini usar com tanta graça e dignidade o paletó hirsuto e as calças de tecido xadrez, sua pessoa teria destoado desfavoravelmente da aparência distinta dos seus companheiros. Tal não se dava, porém, de maneira alguma, porque as calças tinham sido passadas havia pouco, de modo que à primeira vista pareciam quase novas – obra de seu senhorio, como supuseram os primos.
Se o feioso Naphta, pela qualidade e pela elegância mundana das suas roupas, achava-se mais próximo dos primos do que de seu vizinho, aproximavam-no deste e distanciavam-no dos jovens não somente a sua idade mais avançada, como também outra coisa que facilmente se deduzia da tez dos quatro homens: a dos primos era avermelhada e trigueira pelo efeito do sol, ao passo que a de Settembrini e de Naphta era pálida. No decorrer do inverno, o bronze do rosto de Joachim assumira um matiz ainda mais escuro, e o semblante de Hans Castorp luzia, rosado, sob a cabeleira loura. A ação dos raios, entretanto, não exercera efeito algum sobre a palidez latina do Sr. Settembrini, que formava um conjunto nobre com o bigode negro. E a pele do seu companheiro, embora de cabelos louros – eram de um louro cinzento, metálico e desbotado, e ele usava-os penteados para trás, alisados, desnudando a testa fugidia –, mostrava igualmente o tom baço e esbranquiçado das raças morenas. Dois dos quatro levavam bengala: Hans Castorp e Settembrini; Joachim não a apreciava, por razões militares, e Naphta, depois de apresentado, voltara imediatamente ajuntar as mãos atrás das costas. Eram mãos pequenas e delicadas, tais quais os pés, em harmonia com a sua estrutura. O fato de ele estar constipado e o modo débil, ineficaz como tossia, não causavam espécie.
Aquele ligeiro quê de perplexidade ou de agastamento que Settembrini mostrara ao ver os jovens foi vencido por ele com grande elegância. O italiano exibiu um humor radiante e acompanhou a apresentação de toda sorte de chistes. Designou, por exemplo, o Sr. Naphta como princeps scholasticorum. Afirmou que a alegria “campeava magnificamente na sala do seu peito”, como dizia Aretino; e isso era devido à primavera, a primavera que lhe enchia o coração. Os senhores sabiam – continuou – que ele tinha muita coisa que objetar ao mundo dali de cima e que já desabafara freqüentemente. Mas, glória a essa primavera alpina, que pelo menos passageiramente o reconciliava com todos os horrores dessa esfera! Nela não havia nada de tudo quanto a primavera da planície tinha de perturbador e de excitante. Nada de efervescência nas profundidades, nada de brumas carregadas de eletricidade! Só clareza, secura, aprazimento e graça austera! Isso harmonizava com seu gosto, era superbe.
Os quatro andavam numa fila irregular, lado a lado, onde o caminho o permitia; mas quando se encontravam com outros transeuntes, Settembrini, que formava a ala direita, tinha de descer da calçada, e às vezes se interrompia por um instante o alinhamento, porque um ou outro dentre eles ficava atrás ou dava um passo para o lado ora Hans Castorp, que caminhava entre o humanista e Joachim, ora Naphta, na extremidade esquerda. Naphta soltou uma breve risada, com voz sobre a qual o resfriado exercia um efeito de surdina, e que ao falar recordava o som de um prato rachado em que se bate com o nó do dedo. Apontando com a cabeça para o italiano, disse com um sotaque arrastado:
– Ouçam só o voltairiano, o racionalista. Elogia a natureza, porque mesmo nas condições mais fecundas ela não nos perturba com brumas místicas, mas conserva uma secura clássica.
Como se diz umidade em latim?
– O humor – exclamou Settembrini por cima do ombro esquerdo –, o humor na concepção que o nosso professor tem da natureza, consiste no seguinte: à maneira de Santa Catarina de Siena, ele pensa nas chagas de Cristo, ao ver prímulas vermelhas.
Naphta retrucou:
– Isto seria antes engenhoso do que humorístico. Mas, pelo menos assim se confere espírito à natureza, e ela carece dele.
– A natureza – tornou Settembrini, em voz abafada, já não falando por cima do ombro, senão em direção ao chão – absolutamente não necessita de espírito. Ela própria é espírito.
– O senhor não se aborrece com o seu monismo?
– Ah, então confessa que é por amor à distração que o senhor divide o mundo em dois campos adversários e separa Deus e a natureza?
– Acho interessante que o senhor fale de amor à distração para designar aquilo que tenho em mente, quando digo “paixão” e “espírito”.
– Imaginem que o mesmo homem que usa palavras tão retumbantes para necessidades tão frívolas, às vezes me censura a retórica.
– O senhor insiste em afirmar que o espírito significa frivolidade. Mas ele não tem culpa de ser dualista por natureza. O dualismo, a antítese, é o princípio motor, o princípio passional, dialético e espirituoso. Ver o mundo dividido em dois campos adversários isto é espírito. Todo monismo é fastidioso. Solet Aristoteles quaerere pugnam.
– Aristóteles? Aristóteles transferiu a realidade das idéias gerais para dentro dos indivíduos. Isso é panteísmo.
– Errado! Se o senhor concede caráter substancial aos indivíduos, se procura distanciar do geral a essência das coisas e dar a ela um lugar no fenômeno individual como os bons aristotélicos Tomás e Boaventura então dissolve toda união entre o mundo e a idéia suprema; ele ficará fora do divino, e Deus é transcendental. Isto, meu senhor, é Idade Média clássica.
– Idade Média clássica! Acho deliciosa essa combinação de palavras.
– O senhor me desculpe, mas admito o conceito do clássico onde ele cabe, que dizer: cada vez que uma idéia alcança o seu ponto culminante. A Antiguidade nem sempre era clássica.
Verifico no senhor uma antipatia contra... o movimento livre das categorias, contra o absoluto.
Também não quer o espírito absoluto. O que quer é que o espírito seja sinônimo de progresso democrático.
– Espero que estejamos de acordo quanto à convicção de que o espírito, por mais absoluto que seja, nunca deve tornar-se o advogado da reação.
– Ele é, porém, sempre o advogado da liberdade.
– Por que disse “porém”? A liberdade é a lei do amor humano, e não o niilismo e a maldade.
– Que evidentemente lhe causam medo.
Settembrini levantou a mão acima da cabeça. A discussão ficou em suspenso. Os olhos de Joachim passaram, perplexos, de um para outro interlocutor, ao passo que Hans Castorp, com as sobrancelhas alçadas, cravava o olhar no chão. Naphta falara de um modo cortante e apodítico, se bem que fosse ele quem se empenhara em prol da liberdade mais ampla. A sua maneira de contradizer, com os lábios crispados, e de comprimir imediatamente depois a boca, era sobremodo desagradável. Settembrini ora lhe resistira com respostas joviais, ora pronunciara as suas réplicas com um belo fervor, por exemplo quando exigira a unidade de certas concepções básicas. Agora, enquanto Naphta permanecia calado, começou o italiano a dar aos primos explicações a respeito da existência desse desconhecido, compreendendo a necessidade de alguns esclarecimentos que eles deviam experimentar depois de toda aquela disputa com Naphta. Este o deixou falar sem ligar importância ao assunto. O Sr. Naphta – explicou Settembrini, realçando, à maneira italiana, com a maior ênfase, a situação da pessoa por ele apresentada – era professor de línguas antigas nos últimos anos dos cursos do Fredericianum. Fazia cinco anos que seu estado de saúde o obrigara a morar ali e a convencer-se de que ele necessitava de uma permanência
muito prolongada. Por isso abandonara o sanatório e estabelecera-se numa residência particular, justamente na casa do alfaiate Lukacek. O ensino secundário do lugar fora bastante inteligente para assegurar-se o concurso desse exímio latinista, ex-aluno de um seminário, como Settembrini se expressava um tanto vagamente. E o Sr. Naphta conferia grande brilho a esse estabelecimento... Numa palavra, o humanista elogiava muito o feioso Naphta, posto que este acabasse de travar com ele uma espécie de contenda abstrata e que essa discussão rixenta estivesse a ponto de reiniciar-se.
Com efeito, Settembrini passou nesse momento a dar ao Sr. Naphta explicações acerca dos primos. Nisso lembrou-se de que já antes lhe falara a respeito deles. Aquele era, pois, o jovem engenheiro “das três semanas”, no qual o Dr. Behrens encontrara um lugar úmido – disse ele – e ali se achava a esperança da organização do exército prussiano, o Tenente Ziemssen. Falou então da impaciência de Joachim e dos seus projetos de partida, acrescentando que, indubitavelmente, se julgaria mal o engenheiro se não se lhe atribuísse o mesmo desejo ardente de voltar ao seu trabalho. Naphta fez uma careta e disse:
– Os senhores têm um patrono eloqüente. Longe de mim pôr em dúvida a fidelidade da interpretação que ele acaba de dar aos seus pensamentos e desejos. Trabalho, sempre o trabalho!
Esperem um pouco, logo começará a me tratar de inimigo da humanidade, “inimicus humanae naturae”, se eu me atrever a evocar tempos em que aquela clarinada não teria produzido o costumeiro efeito. Houve épocas em que o oposto do seu ideal era infinitamente mais estimado.
Bernardo de Clairvaux, por exemplo, ensinava uma hierarquia da perfeição bem diferente daquela com que sonha o Sr. Lodovico. Querem conhecê-la? A categoria mais baixa achava-se no
“moinho”; a segunda, no “campo”, e a terceira, a mais louvável – tape os ouvidos, Settembrini! –
no “leito do repouso”. O moinho é o símbolo da vida terrena, e me parece bem escolhido como tal. O campo designa a alma do homem leigo, que é amanhada pelo sacerdote e pelo diretor espiritual. Essa categoria já é mais digna. No leito, porém...
– Basta! Já sabemos disso! – gritou Settembrini. – meus senhores, agora ele vai lhes explicar as finalidades e o uso da cama.
– Eu ignorava que o senhor era tão inocente, Sr. Lodovico. Quem viu como pisca o olho às moças... Onde está a sua ingenuidade pagã? A cama é o lugar da coabitação do amante com a amada, e como símbolo significa o isolamento contemplativo do mundo e da criatura, para os efeitos da união com Deus.
– Arre! Andate, andate! – exclamou o italiano, quase chorando. Todos se riram. Mas Settembrini acrescentou com gravidade:
– Ah, não, senhor! Eu sou europeu, sou do Ocidente. A sua hierarquia é puramente oriental. O Oriente abomina toda espécie de atividade. Lao-tsé ensina que o ócio é mais proveitoso do que qualquer outra coisa existente entre o céu e a terra. Se todos os homens cessassem de agir, haveria na terra a mais perfeita calma e felicidade. É essa a união de que fala o senhor.
– Não diga! E a mística ocidental? E o quietismo que conta com Fénelon entre os seus adeptos e doutrina que toda ação representa um erro, já que a veleidade de ser ativo ofende a Deus, o único que deve agir? Cito as proposições de Molinos. Tenho a impressão de que a possibilidade espiritual de encontrar a salvação no repouso se acha universalmente difundida entre os homens.
Nesse ponto, Hans Castorp interveio. Com a coragem que confere a singeleza, intrometeu-se na discussão, dizendo, enquanto seus olhos fitavam o vazio:
– Contemplação, isolamento. Essas coisas têm o seu valor. Tudo isso soa razoável. Nós, aqui em cima, vivemos num isolamento bastante intenso, indiscutivelmente. A cinco mil pés de altura, achamo-nos deitados nas nossas espreguiçadeiras extraordinariamente cômodas; os nossos olhares abaixam-se sobre o mundo e as criaturas, e então nos ocorre toda espécie de idéias. A dizer verdade, e pensando bem, a cama, ou melhor, a espreguiçadeira me fez progredir bastante
nos últimos dez meses e me proporcionou mais idéias do que o moinho, na planície, no curso de todos os anos passados. Isso não se pode negar.
Settembrini encarou-o com os olhos negros onde assomava um brilho melancólico. –
Engenheiro! – disse em voz opressa. – Engenheiro! – E pegando Hans Castorp pelo braço reteve-o um momento, como se quisesse falar com ele em particular, nas costas dos outros.
– Quantas vezes não lhe disse que uma pessoa deve saber quem é e pensar do modo que lhe convém? Não obstante todas as proposições, cabem ao homem ocidental a razão, a análise, a ação e o progresso, não a cama onde se espreguiça o monge.
Naphta, que ouvira as palavras do italiano, disse, voltando-se para trás:
– O monge! Aos monges deve-se a cultura do solo europeu. Graças a eles, a Alemanha, a França e a Itália deixaram de estar cobertas de mato virgem e de pântanos e nos fornecem trigo, frutas e vinho. Os monges, meu caro senhor, trabalharam, e trabalharam bastante...
– Ebbè, pois então!
– Perdão! O trabalho do religioso não tinha a sua finalidade em si, quer dizer, não era nenhum narcótico, nem tampouco se empenhava em fazer progredir o mundo ou em obter vantagens comerciais. Era um exercício puramente ascético, uma parte de disciplina expiatória, um meio para conseguir a salvação. Proporcionava uma proteção contra a carne e servia para exterminar a sensualidade. Seu caráter – permita que eu saliente isso – absolutamente não era social. Era o mais imaculado egoísmo religioso.