A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 7 de 13 · parte 5/5

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A Montanha Mágica

Capitulo VI

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Sua enfermidade, o estado febril de seu corpo, estavam ligados, inegavelmente, a uma crassa ignorância. Havia só poucos dias, ela falara à mesa da “afetação” dos ápices dos seus pulmões, e durante uma conversa sobre assuntos históricos, declarara que as datas dos grandes feitos da história eram para ela uma espécie de “anel de Polícrates”, deixando estupefatos os comensais.

Era, porém, inimaginável que fosse recordar, em fevereiro, ao jovem Ziemssen a data do seu jubileu, ainda que talvez se lembrasse dela; pois a sua infortunada cabeça estava naturalmente cheia de datas e coisas inúteis, e a Srª. Stöhr gostava de fazer as contas dos outros. Mas a tradição impedia-a de falar.

E o mesmo se deu no aniversário da chegada de Hans Castorp. No curso da refeição, a desgraçada procurara uma vez piscar-lhe o olho de modo significativo; mas como a fisionomia do jovem não desse nenhum sinal de compreensão, apressara-se a bater em retirada. Também Joachim deixará de manifestar-se, e todavia não esquecera a data em que fora à estação de Davos-Dorf para receber o primo visitante. Mas Joachim, por natureza pouco inclinado a conversar –

muito menos do que Hans Castorp se mostrava ali em cima, sem falar de certos humanistas e disputadores da sua roda —, Joachim exibia nos últimos tempos uma taciturnidade singular e surpreendente. Só se expressava em monossílabos, embora o seu semblante revelasse um violento trabalho interior. Era evidente que a estação de Davos-Dorf despertava nele outras idéias que não as de chegada e de recepção... Mantinha intensa correspondência com a planície.

Dentro dele, decisões iam amadurecendo. Os preparativos que fazia aproximavam-se do fim.

O mês de julho fora quente e cheio de sol. Mas com o princípio do novo mês irrompeu uma onda de mau tempo, com uma umidade brumosa e com chuvas mescladas de neve, seguidas de uma nevada incontestável. Esse tempo estendeu-se, interrompido por alguns esplêndidos dias de verão, além dos fins de agosto, até pleno setembro. No começo, os quartos continuavam conservando o calor do período estival precedente; registravam-se dez graus no seu interior, o que passava por temperatura agradável. Mas aos poucos aumentava o frio, e o aspecto da neve que caía sobre o vale causou viva satisfação, porque só ele – a queda de temperatura não teria bastado – decidiu a “administração” a acender o aquecimento central, em primeiro lugar na sala de refeições e depois também nos quartos; e quem, após ter cumprido o dever do repouso, se desembaraçasse dos seus dois cobertores e, abandonando a sacada, entrasse no aposento, podia tocar com as mãos úmidas e enregeladas os radiadores reanimados, cuja emanação seca intensificava o ardor das faces.

Era isso o inverno? Os sentidos dificilmente se esquivavam a essa impressão, e todos lamentavam “terem sido roubados do verão”, posto que eles mesmos, ajudados por circunstâncias artificiais e naturais, por um pródigo consumo de tempo, o tivessem escamoteado a si próprios. A razão argumentava que ainda viriam uns belos dias de outono, talvez até toda uma série deles, e de tamanho esplendor cálido que não seria excessiva honra atribuir-lhes o nome de verão – uma vez que se fizesse abstração da órbita do sol já menos oblíqua e do fato de anoitecer mais cedo. Mas o efeito que a paisagem hibernal exercia sobre a alma era mais forte do que esse tipo de consolo.. Os enfermos colocavam-se junto à porta cerrada da loggia e contemplavam com repugnância o torvelinho que se abatia lá fora. Pelo menos era essa a atitude de Joachim, que disse numa voz oprimida:

– Será que aquilo vai recomeçar agora?

Hans Castorp respondeu do fundo do quarto:

– Seria um pouco prematuro. Só pode ser passageiro, apesar da aparência terrivelmente definitiva. Se o inverno consiste na escuridão, na neve, no frio e nos radiadores quentes, temos outra vez inverno; não há como negar. E quando considero que o inverno apenas acaba de terminar e mal passou o degelo – em todo caso nos parece que recém-saímos da primavera; não acha também? –, bem, então tomo um susto, francamente! Essas idéias são perigosas para o nosso otimismo. Vou lhe explicar por quê. Quero dizer que o mundo normalmente está organizado de maneira a corresponder às necessidades do homem e a estimular-lhe a alegria de viver; isso se deve admitir. Não vou ao ponto de dizer que a ordem natural das coisas, por exemplo, o tamanho da Terra, o tempo que ela precisa para dar uma volta em torno de si mesma e em torno do Sol, o ciclo das estações, o ritmo cósmico, se o quer chamar assim – que tudo isso obedeça às nossas necessidades; tal afirmação seria muito pretensiosa e simplista; seria pura ideologia, como dizem os filósofos. Mas o caso é que as nossas necessidades e os fatos básicos e gerais da natureza estão, graças a Deus, de acordo uns com os outros. Digo: “Graças a Deus!”

porque aí temos realmente um motivo para dar graças a Ele. Na planície, quando vem o verão ou o inverno, já passou tanto tempo desde o verão ou o inverno anterior, que a estação que chega nos é outra vez nova e bem-vinda, e disso deriva a alegria de viver. Mas aqui em cima essa ordem e esse acordo têm sido perturbados, primeiro porque no fundo não há verdadeiras estações, como você mesmo me disse certa vez, mas somente dias de inverno e dias de verão pêle-mêle, numa completa mixórdia, e segundo porque aquilo que decorre para nós aqui não é tempo, de maneira que o inverno, quando chega, não é novo, mas sim o mesmo que o passado. Daí se explica o mau humor com que você está olhando pela janela.

– Muito obrigado – disse Joachim. – E agora que você me explicou o fato, parece-me tão satisfeito que até se conforma com a coisa em si, apesar de que ela... Não senhor! – exclamou Joachim. – Basta! Isso é uma porcaria! Tudo é uma enorme e nojenta porcaria! E se você, pela sua conta... Eu... – A passo apressado saiu do quarto, fechando furiosamente a porta atrás de si e, se não enganavam todos os sinais, havia lágrimas nos seus belos e brandos olhos.

O outro ficou atrás, consternado. Não tomara muito a sério certas decisões do primo, enquanto este se limitara a ameaças feitas em altos brados. Agora, porém, que alguma força operava silenciosamente no interior de Joachim e o primo se comportava como acabava de fazer, Hans Castorp aterrorizou-se, porque compreendia que esse militar era bastante homem para passar a agir. E o jovem ficou pálido de medo, medo que sentia por ambos, pelo outro e por si próprio. “Fort possible qu'il aille mourir”, pensou, e como isso indubitavelmente fosse uma sabedoria de terceira mão, mesclou-se com ela ainda a tortura de uma velha e jamais tranqüilizadora suspeita, enquanto continuava a cismar: “Será possível que ele me vá deixar sozinho aqui em cima, a mim que somente subi para visitá-lo?” E daí chegou a acrescentar: “Mas isso seria maluco e horroroso, a tal ponto que sinto como meu rosto se gela e meu coração lateja desordenadamente. Pois se eu ficar sozinho nestas alturas – e é isso o que farei, se ele partir; que o acompanhe absolutamente não entra em questão! —, nesse caso (agora o meu coração parou por completo!), nesse caso é para sempre, é para todos os tempos, porque eu sozinho nunca na vida reencontrarei o caminho que conduz à planície...”

Tais foram as temerosas reflexões de Hans Castorp. Aquela mesma tarde devia trazer-lhe certeza sobre o curso do porvir. Joachim declarou as suas intenções. Foram lançados os dados.

Caiu o golpe decisivo.

Depois do chá desceram ao bem-iluminado subterrâneo para apresentar-se ao exame mensal. Era em princípios de setembro. Ao entrarem na atmosfera seca do consultório encontraram o Dr. Krokowski sentado no seu lugar diante da escrivaninha, ao passo que o conselheiro, com as faces muito azuladas, e com os braços cruzados, encostava-se à parede. Com o estetoscópio, que segurava numa das mãos, ia dando leves golpes no seu ombro. Bocejou em direção ao teto. – Bom dia, meus filhos – disse em voz fatigada. No decorrer da cena que se seguiu, continuou manifestando uma disposição bastante lânguida, cheia de melancolia e de renúncia geral. Provavelmente acabava de fumar. Mas tivera também alguns desgostos autênticos, dos quais os primos já tinham ouvido falar, incidentes de sanatório, de um gênero suficientemente conhecido. Tratava-se de uma jovem, de nome Ammy Nölting, que se internara no Berghof pela primeira vez no outono do ano retrasado e recebera alta nove meses depois, em agosto; mas já em setembro reaparecera, porque não “se sentira bem” em casa; em fevereiro, fora novamente mandada para a planície, com pulmões onde já não se percebia o menor ruído estranho; mas em meados de julho voltara a ocupar o seu lugar à mesa da Srª. Iltis. Haviam surpreendido a dita Ammy, à uma hora da madrugada, em companhia de um enfermo chamado Polypraxios, o mesmo grego que na noite do carnaval causara sensação pela elegância das suas pernas, um jovem químico, cujo pai possuía uma fábrica de tintas no Pireu. Polypraxios fora apanhado no quarto de Ammy, por uma amiga loucamente enciumada, que ali chegara pelo mesmo caminho que ele, isto é, pelas sacadas, e, dilacerada de mágoa e de raiva diante do quadro que se lhe oferecera, fizera uma gritaria medonha, alarmando todo mundo e dando origem a um escândalo extraordinário. Behrens vira-se obrigado a despedir os três, o ateniense, a Nölting e a amiga, que, de tanta paixão, não se importara com a própria honra. Acabava de discutir o chocante assunto com o assistente a cuja clientela particular haviam pertencido tanto Ammy como a amiga. Ainda durante o exame dos primos prosseguiu preocupando-se com o caso, num tom sombrio e resignado; era um perito tão consumado na arte da auscultação que sabia explorar o interior de um enfermo enquanto falava de outra coisa, e ainda ditava ao assistente os fenômenos verificados.

– Pois é, gentlemen, sempre essa maldita libido! – disse. – Claro que os senhores se divertem com a história. Pouco se lhes dá... Vesicular... Mas um diretor de sanatório fica com nojo dessas coisas; podem... Maciez... podem me acreditar. Que culpa tenho eu de que a tísica ande freqüentemente acompanhada de extrema concupiscência? Respiração levemente rude... Não fui eu quem arranjou o mundo dessa maneira. Mas antes que a gente se dê conta disso, acha-se no papel de um dono de rendez-vous. Diminuição do murmúrio, abaixo da axila esquerda... Temos a análise, proporcionamos oportunidades para desabafarem. Que adianta? Quanto mais se abrem esses piratas, mais assanhados se tornam. Eu recomendo as matemáticas... Aqui melhorou; desapareceram os roncos... A ocupação com as matemáticas, digo eu, é o melhor remédio que existe contra a lascívia. O Promotor Paravant, que muito sofria da tentação, meteu-se a estudá-las. Anda às voltas com a quadratura do círculo e sente-se bastante aliviado. Mas a maioria é por demais estúpida e preguiçosa para isso; quê Deus lhes perdoe!... Vesicular... Olhe, eu sei perfeitamente que a mocidade aqui em cima facilmente toma um mau caminho e se deprava por completo. Antigamente fiz algumas tentativas de intervir nesses casos de devassidão. Mas aconteceu que qualquer irmão ou noivo me perguntava à queima-roupa o que eu tinha com isso.

Desde então limito-me a ser um simples médico e nada mais. Ligeiro estertor à direita, na parte superior...

Estava terminado o exame de Joachim. O Dr. Behrens enfiou o estetoscópio no bolso do avental e esfregou os olhos com a manzorra esquerda, como costumava fazer, quando “se ausentava” ou se sentia melancólico. Quase maquinalmente, entre bocejos mal-humorados, recitou a sua lição:

– Pois então, Ziemssen, ânimo! É verdade que nem tudo corre exatamente como o exige o manual de fisiologia. Aqui e ali anda ainda encrencado, e o senhor, por enquanto não liquidou a sua conta com Gaffky. Pelo contrário, comparado com a última vez, até subiu um grau na escala.

Desta vez são seis. Mas não chore por causa disso! Quando chegou aqui, estava mais doente do que hoje; isso lhe dou por escrito. E se o senhor ficar conosco ainda uns cinco ou seis menses...

Não acha que menses soa melhor do que meses? Eu tenciono só dizer menses, daqui em diante...

– Senhor conselheiro... – começou Joachim. Estava de pé, com o torso desnudo, numa atitude tesa. Tinha o peito saliente, os calcanhares unidos e as mesmas manchas terrosas no rosto que tivera em certa ocasião, quando Hans Castorp pela primeira vez notara que esse era o modo como empalidecia a tez bronzeada.

– Se o senhor – prosseguiu Behrens, sem se importar com a interrupção – continuar aqui cumprindo religiosamente os deveres do regime, durante meio ano, pouco mais ou menos, será um homem curado e poderá tomar Constantinopla de assalto. Terá bastante fortaleza para conquistar todas as fortalezas que quiser...

Deus sabe quantos trocadilhos o médico, na sua disposição sombria, ainda teria feito, não o tivessem desconcertado o aspecto imperturbável de Joachim e a sua manifesta intenção de falar, e de falar corajosamente.

– Senhor conselheiro – disse o jovem –, eu lhe queria dar parte de que resolvi viajar.

– Ora veja! Quer tornar-se viajante? Eu pensava que o senhor, uma vez curado, pretendia ingressar nas fileiras.

– Não, senhor conselheiro, tenho de partir imediatamente, daqui a uns oito dias.

– Escute! Será que o entendo bem? O senhor quer ir-se, quer pôr-se em fuga? Sabe que isso se chama deserção?

– Não, senhor conselheiro, eu não o considero assim. Preciso apresentar-me ao meu regimento.

– Mesmo que eu lhe diga que dentro de meio ano sem falta poderei autorizá-lo a partir, mas antes desse prazo, não?

Joachim ia assumindo atitude cada vez mais militar. Recolhendo o ventre, disse laconicamente, em voz sufocada:

– Faz mais de um ano e meio que estou aqui, senhor conselheiro. Não posso esperar mais tempo. No começo, o senhor me disse: “Três meses”. Depois, o meu tratamento foi sucessivamente prolongado por outros três ou seis meses, e ainda não estou curado.

– A culpa é minha?

– Não, senhor conselheiro. Mas eu não posso esperar mais tempo. Não me é possível aguardar aqui a cura completa, a não ser que eu queira perder o momento oportuno. Tenho de partir logo. Necessito ainda de algum tempo para me equipar e para tomar diversas providências...

– A sua família concorda com o seu procedimento?

– Minha mãe está de acordo. Já ficou tudo combinado. A 1.° de outubro entrarei no Regimento 76, como aspirante.

– Enfrentando todos os riscos? – perguntou Behrens, fixando nele os olhos injetados...

– Sim, senhor conselheiro – respondeu Joachim, com os lábios trêmulos.

– Hum! Está bem, Ziemssen – disse o conselheiro, mudando de expressão. Relaxando a sua posição, cedeu em toda a linha. – Está bem, Ziemssen. Mexa-se! Parta! Deus o acompanhe! Já vejo que o senhor sabe o que quer. Uma coisa é certa, que as conseqüências são da sua conta e não da minha, desde o momento em que o senhor toma a si a responsabilidade. Ajuda-te, e ajudar-te-ei. O senhor parte por sua conta e risco; eu não garanto nada. Mas, afinal, tudo pode sair bem. O senhor escolheu uma profissão que se exerce ao ar livre. É perfeitamente possível que se dê bem com ela e consiga triunfar.

– Sim, senhor conselheiro.

– E esse jovem da classe dos civis? Será que o senhor deseja participar da romaria?

Essa pergunta dirigia-se a Hans Castorp. Achava-se este ali, tão pálido como há um ano atrás, quando daquele exame do qual resultará o seu internamento; quedava-se no mesmo lugar

de então; e novamente se viam com absoluta nitidez as batidas do seu coração, que pulsava à flor da pele.

– Para mim depende tudo da sua opinião, senhor conselheiro – respondeu.

– Da minha opinião? Bem! – E puxando-o pelo braço, Behrens aproximou-o de si.

Auscultou. Percutiu. Não ditou nada. A coisa foi rápida. Quando terminou, disse:

– O senhor pode partir.

Hans Castorp balbuciou:

– Quer dizer... Mas como? Estou curado?

– Sim, o senhor está curado. Daquele lugar à esquerda, em cima, já não vale a pena falar.

Sua temperatura não pode ter relação com ele. Não sei dizer de onde ela vem. Acho que não tem grande importância. Quanto a mim, o senhor pode partir.

– Mas, senhor conselheiro... Permita-me a pergunta... O senhor está falando sério?

– Se eu falo sério? Mas como? Que idéia é essa? Eu queria saber o que o senhor pensa de mim. Por quem me toma? Por um dono de rendez-vous?

Era uma explosão de cólera. O azul das faces do médico intensificara-se, assumindo um tom violeta, devido à congestão ardente. A crispação unilateral do lábio, sob o bigodinho, acentuara-se violentamente, a ponto de descobrir os amarelados dentes de cima. Avançando como um touro a cabeça com os olhos saltados, lacrimosos e estriados de sangue, berrou:

– Não admito isso! Antes de tudo fique sabendo que não sou dono de nada! Sou um funcionário desta empresa! Sou médico! Sou exclusivamente médico; o senhor me compreende?

Não sou alcoviteiro, não sou nenhum Signor Amoroso da Via Toledo, na bela Nápoles; entendeu-me bem? Sou um servidor da humanidade sofredora! E se os senhores tiverem formado uma opinião diferente a respeito da minha pessoa, podem ambos ir às favas ou ao diabo ou águas abaixo, conforme a sua livre escolha! Boa viagem!

A passos longos e apressados saiu pela porta que dava para a ante-sala do gabinete de radiografia, e fechou-a estrondosamente atrás de si.

Os primos olharam para o Dr. Krokowski em busca de um conselho. Mas este enterrou o nariz na papelada, que o absorvia por completo. Vestiram-se às pressas. Enquanto subiam pela escada, disse Hans Castorp:

– Foi terrível, aquilo. Você já o viu assim em outra ocasião?

– Assim, nunca. São aqueles seus ataques de loucura cesárea. A única coisa que se pode fazer é agüentá-los sem perder a linha. Claro que ele estava nervoso por causa da história de Polypraxios e da Nölting. Mas você viu... – continuou Joachim, e era visível que o prazer de ter lutado com êxito lhe enchia o coração e lhe oprimia o peito – você viu como ele cedeu terreno e capitulou, quando percebeu que eu não estava brincando? Basta que a gente se mostre enérgico e não se deixe atemorizar. Agora recebi uma espécie de autorização... O próprio Behrens disse que, provavelmente, conseguirei triunfar... Daqui a oito dias partiremos... Em três semanas, já me apresentarei ao meu regimento – terminou, corrigindo-se a si próprio e limitando à sua própria pessoa esses projetos que lhe faziam a voz vibrar de alegria.

Hans Castorp permaneceu calado. Não comentou a “autorização” de Joachim, nem tampouco a sua própria, da qual igualmente poderia ter falado. Preparou-se para o repouso.

Introduziu o termômetro na boca. Com umas poucas manobras velozes e precisas, cheias de arte aperfeiçoada, envolveu-se nos seus dois cobertores de lã de camelo, em conformidade com aquela prática sagrada da qual ninguém tinha idéia na planície. Depois, deixou-se ficar estendido, imóvel, transformado num rolo simétrico, sobre a excelente espreguiçadeira, no meio da umidade fria da tarde de princípios de outono.

As nuvens carregadas de chuva deslizavam muito baixo. A bandeira do estabelecimento achava-se arriada. Restos de neve encontravam-se nos galhos molhados do abeto. Do alpendre do andar térreo, donde, fazia mais de um ano, ressoara pela primeira vez a voz do Sr. Albin, o murmúrio de conversas abafadas subia até os ouvidos do jovem que cumpria o seu serviço, enquanto seus dedos e seu rosto rapidamente se tornavam frios, úmidos e enregelados. Hans Castorp estava acostumado a isso e aceitava com gratidão o estilo de vida ali de cima, que havia muito era para ele o único imaginável e lhe outorgava a bênção de ficar deitado ao abrigo de tudo e de poder entregar-se a toda sorte de pensamentos.

Era coisa resolvida. Joachim partiria. Radamanto dera-lhe alta – não rite, não como curado, mas em todo caso dera-lhe alta, com uma meia aprovação, em virtude da sua atitude firme. O primo viajaria no trem de bitola estreita, desceria à “baixada”, até Landquart, até Romanshorn, para depois transpor o vasto e profundo lago, sobre o qual cavalgara o cavaleiro da lenda; e finalmente, regressaria, atravessando a Alemanha inteira. Viveria lá embaixo, no ambiente da planície, rodeado de pessoas que ignoravam por completo como se devia viver, que nada sabiam do termômetro, nem da arte de se envolver nos cobertores, do saco de peles, dos três passeios cotidianos, de... Era difícil, difícil esgotar tudo quanto desconheciam lá embaixo. Mas a idéia de que Joachim, depois de ter passado mais de um ano e meio ali em cima, viveria doravante entre os ignorantões – essa idéia que só dizia respeito a Joachim, e apenas vaga, hipoteticamente, a ele, Hans Castorp, perturbou-o de tal forma que fechou os olhos e fez com a mão um gesto de defesa. – Impossível, impossível! – murmurou.

Uma vez que era impossível, continuaria ele a viver ali em cima sozinho, sem Joachim?

Sim. Por quanto tempo? Até que Behrens lhe desse alta como curado, e isso seriamente, não como acabava de fazê-lo. Mas, em primeiro lugar era esse momento de tal forma indeterminado, que para fixá-lo só se podia repetir aquele gesto vago que Joachim esboçara em certa ocasião; e, em segundo lugar, era duvidoso que o impossível de agora se tornasse mais possível no futuro. O

contrário parecia mais provável. Era preciso reconhecer lealmente que nesse momento em que o impossível talvez ainda não fosse tão impossível como o seria mais tarde, uma mão estava sendo estendida para segurá-lo; pelo fato da partida “em falso” de Joachim, eram-lhe oferecidos um bastão e um guia para conduzi-lo à planície, para onde ele, pela sua própria força, jamais encontraria o caminho. A pedagogia humanística, se ficasse sabendo dessa oportunidade, quanto não o exortaria a que agarrasse o bastão e aceitasse o guia! Ora, o Sr. Settembrini representava coisas e potências interessantes, sem dúvida, mas não exclusivas e absolutas; e o mesmo ocorria com Joachim. O primo era militar. Partia, quase na hora do projetado regresso de Marusja, a moça dos seios opulentos, que, como sabemos, devia voltar a 1.° de outubro. Ao civil Hans Castorp, porém, a partida afigurava-se impossível precisamente porque ele tinha de esperar por Clávdia Chauchat, de cuja volta, por enquanto, nem sequer se falava. “Eu não o considero assim”, dissera o primo, quando Radamanto usara o termo “deserção”, que, com referência a Joachim, evidentemente não passava de um disparate e de um exagero do médico agastado. Mas ao civil apresentavam-se as coisas sob um aspecto diferente. No seu caso – ah, indubitavelmente era assim, e fora na intenção de desenvolver essa idéia decisiva do complexo dos seus sentimentos que se estendera na espreguiçadeira, apesar do frio úmido – no seu caso seria mesmo desertar se ele aproveitasse a ocasião e partisse mais ou menos “em falso” para a planície; fugiria então das responsabilidades que se desdobravam diante dele, devido à visão daquela forma sublime que se chamava Homo Dei; desatenderia os deveres que lhe impunha o seu “reino”, deveres laboriosos e excitantes, que ultrapassavam as suas forças inatas e todavia o enchiam de uma felicidade aventurosa, quando se consagrava a eles no seu compartimento de sacada ou naquele lugar florido de azul.

Hans Castorp tirou o termômetro da boca, com tamanha violência como só lhe acontecera numa única ocasião: quando o usara pela primeira vez, logo depois de ter adquirido da Superiora o delgado instrumento. Examinou-o com a mesma curiosidade de então. O mercúrio subira consideravelmente. Mostrava 37,8 – quase 9.

O jovem jogou para longe os cobertores, levantou-se de um salto, deu alguns passos rápidos através do quarto, em direção à porta do corredor. Depois voltou à cadeira. Achando-se novamente na posição horizontal, chamou em voz baixa a Joachim e informou-se da temperatura do primo.

– Não tirei – respondeu este.

– Bem, eu tenho tempus – disse Hans Castorp, servindo-se da expressão da Srª. Stöhr.

Joachim, atrás da divisão de vidro, permaneceu silencioso.

Mais tarde nada disse tampouco, nem nesse dia nem nos seguintes. Não fez perguntas a respeito dos projetos e das decisões de Hans Castorp, que, dada a brevidade do prazo, tinham de se revelar naturalmente, por atos ou pela ausência de atos. E foi a segunda alternativa que se deu.

Hans Castorp parecia ter aderido ao quietismo, segundo o qual agir significava ofender a Deus, que se reserva o privilégio de fazê-lo. Em todo caso limitara-se sua atividade, nesses últimos dias, a uma visita a Behrens, da qual Joachim sabia, e cujo resultado lhe era fácil imaginar. O primo havia declarado que se permitia recordar as numerosas advertências antigas que o conselheiro lhe fizera no sentido de que esperasse a cura completa, para que não tivesse necessidade de voltar, e atribuir-lhes maior importância do que às palavras veementes, pronunciadas num minuto de exaspero. Tinha 37,8 e não se podia considerar como formalmente autorizado a partir. A não ser que aquilo que o conselheiro proferira naquela ocasião devesse ser interpretado como uma expulsão – medida que ele, Hans Castorp, não achava merecer –, desejava comunicar a sua decisão, à qual chegara pelo caminho do raciocínio calmo e em desacordo consciente com Joachim: permaneceria por enquanto ali e aguardaria sua desintoxicação total. A isso, o médico respondera aproximadamente: “Muito bem” e “Vamos pôr uma pedra no que se passou!” e “Isso é falar razoavelmente. Eu vi logo que o senhor tem mais talento para ser um bom paciente do que aquele desertor, aquele ferrabrás”. E outras coisas nesse gênero.

Fora esse, segundo as conjeturas mais ou menos exatas de Joachim, o curso da entrevista.

Por isso não disse nada. Apenas verificou em silêncio que Hans Castorp não imitava as medidas que ele mesmo tomava para preparar a viagem. Por outro lado, o bom Joachim andava mais que atarefado com os seus próprios problemas. Realmente não lhe era possível preocupar-se com a sorte e o futuro domicílio do primo. Uma tempestade agitava-lhe o peito, como facilmente se pode compreender. Ainda bem que tinha deixado de tomar a temperatura pretendendo que o termômetro se quebrara, caindo no chão; se a houvesse tomado, teria talvez obtido resultados perturbadores, sobreexcitado como estava, possuído de alegria e de impaciência, que ora lhe abrasavam as faces com um ardor sombrio, ora as faziam empalidecer. Já não era capaz de permanecer deitado. Durante todo o dia, Hans Castorp ouvia-o percorrer o aposento a passos largos, e eram precisamente as horas, quatro vezes por dia, em que no Berghof predominava a posição horizontal... Um ano e meio! E agora voltaria à planície, estaria em casa, apresentar-se-ia realmente ao regimento, se bem que para isso tivesse apenas meia autorização. Não era brinquedo, absolutamente! Hans Castorp tinha plena compreensão dos sentimentos do primo que ali caminhava, irrequieto. Dezoito meses, todo o ciclo de um ano e mais a metade de outro –

Joachim passara-os nessas alturas, criando raízes profundas nesse solo, seguindo os trilhos do regime que aqui vigorava, desse plano inalterável da vida de sanatório, que observara durante sete vezes setenta dias, em todas as estações – e agora regressaria aos seus, viveria no “estrangeiro”, entre os ignorantes! Quantas dificuldades de aclimatação não o esperariam lá embaixo? E seria de admirar que não somente houvesse alegria na grande excitação de Joachim, senão também um quê de angústia, de mágoa causada pela despedida de tantas coisas muitíssimo costumeiras? Sem falar de Marusja...

Mas a alegria preponderava. O coração e a boca do bom Joachim estavam transbordantes dela. Ocupava-se só de si próprio, desinteressando-se do futuro do primo. Dizia que tudo seria novo e viçoso – a vida, ele mesmo, o tempo, cada dia, cada hora. Voltaria a desfrutar um tempo valioso, anos de juventude que decorreriam lentamente e pesariam na balança. Falava da mãe, a tia de Hans Castorp, que tinha os mesmos olhos meigos e negros de Joachim; da mãe que não vira durante todo esse tempo passado nas montanhas, porque ela, esperando a volta do filho, do mesmo modo que este, de mês em mês, de semestre em semestre, nunca se resolvera a visitá-lo.

Falava, com um sorriso entusiástico, do juramento à bandeira que prestaria dentro em breve: a cerimônia solene era realizada em presença da bandeira, e jurava-se sobre o próprio estandarte. –

Não diga! – admirou-se Hans Castorp. – Seriamente? Sobre um pau e um pedaço de pano?

– Sim, senhor. E na artilharia juram sobre o canhão, simbolicamente.

– Que costumes românticos! – observou o civil. – Costumes que merecem a qualificação de sentimentais e fanáticos.

A isso, Joachim limitou-se a sacudir a cabeça, cheio de orgulho e de felicidade.

Absorvia-se nos preparativos. Pagou a última conta na “administração”. Dias antes do prazo que se fixara a si mesmo, começou a arrumar as malas. Emalou as roupas de verão e as de inverno. Mandou o criado costurar dentro de uma capa de aniagem o saco de peles e os cobertores de lã de camelo; talvez lhe pudessem ser úteis por ocasião das grandes manobras. Pôs-se a dizer “adeus” a todo mundo. Fez uma visita de despedida a Naphta e Settembrini – sozinho, pois o primo não o acompanhou, dessa vez, nem tampouco perguntou pelo que o italiano observara quanto à partida iminente de Joachim e à “não-partida” de Hans Castorp. Para este, pouco importava saber se Settembrini dissera “Vejam só!” ou “Sim, sim, sim!”, ou talvez um e outro, ou se ainda acrescentara “Poveretto!”

Chegou então a véspera da viagem, o dia em que Joachim percorreu pela última vez todas as fases do programa diário, cada refeição, cada repouso, cada passeio, e também se despediu dos médicos e da Superiora. E surgiu a própria manhã do dia da partida. Com os olhos ardentes e as mãos frias, Joachim apareceu na hora do café. Não dormira a noite toda. Mal engoliu um bocado, e quando a anã anunciou que a bagagem já se achava amarrada no carro, levantou-se de um pulo, a fim de dizer adeus aos companheiros de mesa. A Srª. Stöhr verteu lágrimas, durante a despedida, as lágrimas fáceis e insípidas peculiares às pessoas incultas; mas, por trás das costas de Joachim, fez à professora uma careta, encolhendo os ombros e meneando a mão espalmada para manifestar, de uma forma sumamente ordinária, as suas dúvidas quanto à propriedade da partida do jovem e ao seu futuro bem-estar. Hans Castorp reparou nesse gesto, enquanto, já de pé, esvaziava a sua xícara, para seguir o primo. Restava ainda distribuir as gorjetas e retribuir, no vestíbulo, os cumprimentos oficiais de um emissário da “administração”. Como sempre, alguns pensionistas estavam presentes para assistir ao bota-fora: a Srª. Iltis, com o “esterilete”, a Levi, a moça da pele de marfim, o excêntrico Professor Popov, em companhia da noiva. Abanaram os lenços, quando o coche, refreado nas rodas traseiras, desceu pela rampa. Joachim recebera um ramalhete de rosas. Usava chapéu, ao contrário de Hans Castorp.

A manhã era magnífica, o primeiro dia de sol depois de muitos nublados. O Schiahorn, as Grüne Türme, o cimo do Dorfberg, destacavam-se do azul como símbolos inabaláveis, e os olhos de Joachim repousavam sobre eles. – É mesmo uma lástima – observou Hans Castorp – que o tempo tenha melhorado tanto, precisamente no momento da partida. Parece que há nisso uma certa maldade, uma vez que a impressão final desfavorável facilita a separação. – Ao que Joachim replicou que não precisava de nada que lhe tornasse a separação mais fácil, e que esse tempo era ótimo para o seu preparo militar. Assim se daria muito bem lá embaixo. Afora essas poucas palavras, não falaram muito. Dada a situação de cada um deles em particular e a que existia entre eles, realmente não sobrava assunto para grandes conversas. Além disso, o porteiro coxo achava-se sentado à sua frente, ao lado do cocheiro.

Eretos, sacudidos sobre o estofamento duro do carro, haviam deixado atrás o regato e os trilhos de bitola estreita. Seguiram então a estrada espaçadamente ladeada de habitações e paralela ao leito da via-férrea. Finalmente, pararam na praça pedregosa, em frente à estação de Davos-Dorf, que não era muito mais que um telheiro. Hans Castorp assustou-se ao reconhecer tudo isso. Desde a sua chegada, que se realizara de tardezinha, fazia mais de treze meses, não voltara a ver a estação. – Foi aqui que cheguei – constatou desnecessariamente, e Joachim limitou-se a responder: – Pois é... – enquanto pagava o cocheiro.

O enérgico porteiro coxo dedicou-se à compra da passagem e ao despacho das bagagens.

Os primos achavam-se lado a lado sobre a plataforma, diante do trenzinho, junto do pequeno compartimento forrado de cinzento, onde Joachim pusera o sobretudo, o cobertor de viagem enrolado e as rosas, para reservar o seu lugar. – Bem, agora pode ir prestar o seu romântico juramento – disse Hans Castorp, e Joachim tornou: – Sem falta! – E que mais? Encarregou o

outro de transmitir as últimas saudações, lembranças aos de baixo, lembranças aos de cima.

Depois, Hans Castorp limitou-se a desenhar com a bengala no asfalto. Quando soou o sinal prevenindo os passageiros da iminência da partida, sobressaltou-se. Olhou Joachim, e este o olhou por sua vez. Apertaram-se as mãos. Hans Castorp esboçou um sorriso indeciso, ao passo que os olhos do primo mostravam-se sérios, tristes e insistentes. – Hans! – disse então... Grande Deus! Onde, em todo o vasto mundo, já se viu uma coisa tão chocante? Joachim acabava de tratar Hans Castorp pelo primeiro nome, não por “você” ou “rapaz”, como sempre havia feito; desconsiderando todos os seus princípios de rigidez e de reserva, abandonando-se a uma exuberância escandalosa, pronunciara o nome de batismo do primo. – Hans – repetiu, enquanto lhe apertava a mão com uma pressa angustiada. Hans Castorp notou que a nuca de Joachim, exausto pela insônia, pelo nervosismo da viagem e pelo abalo da despedida, tremia como fazia a sua própria, quando estava “reinando”. – Hans – disse Joachim, instantemente —, não deixe de seguir-me em breve! – Com isso saltou para o estribo. Fechou-se a porta. Ouviu-se um apito. Os carros entrechocaram-se. A pequena locomotiva pôs-se em movimento. O trem estava partindo.

O viajante abanou o chapéu pela janela. O outro, que ficava atrás, respondeu com a mão. Com o coração profundamente emocionado permaneceu ainda por muito tempo ali, sozinho. Depois, regressou devagar pelo caminho que Joachim, havia mais de um ano, lhe tinha mostrado.

Assalto rechaçado

A roda girava. O ponteiro ia avançando. Já terminara a época do salepo e da aqüilégia; o cravo silvestre desaparecera também. As estrelas azuis da genciana, bem como os pálidos e venenosos lírios verdes, tornavam a apontar na grama úmida. Por cima dos bosques pairava uma aura avermelhada. O equinócio de outono acabava de transcorrer. O Dia de Finados achava-se próximo, e para os mais treinados consumidores do tempo, também o domingo do Advento, o dia mais curto do ano, e a festa do Natal. Por enquanto, porém, desfiava-se ainda uma série de belos dias de outubro, dias da espécie daquele em que os primos haviam ido ver os quadros do conselheiro.

Desde a partida de Joachim, Hans Castorp não mais tomava as refeições à mesa da Srª.

Stöhr, a mesma que o Dr. Blumenkohl abandonara para morrer, e onde Marusja procurara abafar no lencinho perfumado de flor de laranjeira a sua maljustificada hilaridade. Agora achavam-se ali pensionistas novos, pessoas completamente desconhecidas. O nosso amigo, porém, entrado no terceiro mês do segundo ano da sua estadia, recebera da “administração” um outro lugar, numa mesa vizinha, mais próxima da porta que dava para o avarandado, colocada perpendicularmente entre a antiga e a dos “russos distintos”, numa palavra: a mesa de Settembrini. Sim, novamente lhe coubera a ponta, em frente ao lugar do médico, que em cada uma das sete mesas ficava reservado ao uso esporádico do conselheiro ou do seu assistente.

Na outra extremidade, à esquerda do assento do médico-presidente, tronejava sobre diversas almofadas aquele mexicano corcunda, o fotógrafo diletante, cuja expressão, em virtude de seu isolamento lingüístico, se assemelhava à de um surdo. A seu lado ficava a solteirona da Transilvânia, que como já deplorara Settembrini, pretendia interessar o mundo inteiro pelo seu cunhado, se bem que ninguém soubesse nada desse homem nem quisesse saber. Tendo atrás da nuca uma bengala de punho de prata, que também lhe prestava serviços durante os passeios regulamentares, via-se essa criatura, a certas horas do dia, junto da platibanda da sua sacada, empenhada em alargar o peito chato como uma bandeja por meio de exercícios respiratórios.

Defronte a ela achava-se um tcheco, que chamavam Sr. Wenzel, já que ninguém era capaz de pronunciar o seu nome de família. Settembrini, em seu tempo, fizera às vezes tentativas no sentido de articular a exótica seqüência de consoantes de que se compunha esse nome; claro que não o fizera numa intenção séria, senão para demonstrar graciosamente a impotência da sua nobre língua de latino em face daquele amontoado selvagem de sons. Esse homem, embora fosse redondo como uma bola e se distinguisse por uma voracidade sensacional mesmo entre os pensionistas, afirmava, desde havia quatro anos, que estava fadado a morrer. Durante as reuniões noturnas, tocava de vez em quando, num bandolim enfeitado de fitas, as canções da sua terra, ou contava historietas das suas plantações de beterrabas, onde trabalhavam exclusivamente lindas pequenas. Mais perto de Hans Castorp, a ambos os lados da mesa, encontravam-se os Magnus, o cervejeiro de Halle e a sua esposa. Uma atmosfera de melancolia pairava em torno desse casal, porque ambos estavam perdendo substâncias essenciais para o metabolismo: o homem, açúcar, e a mulher, proteínas. A disposição de alma, sobretudo da pálida Srª. Magnus, parecia desprovida do menor traço de esperança. A vacuidade do espírito desprendia-se dela como um bafio de adega, e de forma ainda mais pura do que a inculta Srª. Stöhr representava ela a combinação de enfermidade e estupidez, de que Hans Castorp se escandalizara espiritualmente, sendo por isso repreendido pelo Sr. Settembrini. O Sr. Magnus revelava maior viveza e loquacidade, embora só daquele gênero que outrora originara as explosões da impaciência literária de Settembrini. Além disso, era colérico e freqüentemente tinha atritos com o Sr. Wenzel por motivos políticos e outros. Exasperavam-no as aspirações nacionalistas do tcheco, e ainda mais o fato de ele ser partidário do antialcoolismo e pôr em dúvida a moralidade da profissão de cervejeiro. Em oposição a isso, o Sr. Magnus, com o rosto rubro, defendia a perfeição higiênica da bebida à qual os seus interesses se achavam tão intimamente ligados. Em tais ocasiões, o Sr. Settembrini costumava fazer, humoristicamente, o papel de pacificador. Hans Castorp, no lugar dele, sentia-se menos hábil e não dispunha de suficiente autoridade para substituir o italiano.

O jovem não mantinha relações pessoais senão com dois dos seus comensais: o primeiro era A. C. Ferge, de Petersburgo, seu vizinho da esquerda, o sofredor bonachão que, sob as brenhas do bigode ruivo, sabia falar ora da fabricação de galochas ora de regiões longínquas, do círculo polar, das neves eternas do cabo Norte, e de vez em quando acompanhava Hans Castorp num dos passeios regulamentares. O segundo, porém, que se unia a eles cada vez que se oferecia uma oportunidade, e tinha o seu lugar na outra extremidade da mesa, em frente ao mexicano corcunda, era o homem de Mannheim, aquele moço de cabelos ralos e dentes defeituosos; chamava-se Wehsal, Ferdinand Wehsal, comerciante, e era o mesmo cujos olhares haviam ficado presos, com um desejo melancólico, à graciosa pessoa de Mme. Chauchat; desde o carnaval procurava obter a amizade de Hans Castorp.

Fazia-o com obstinação e humildade, com um servilismo suplicante que tinha, aos olhos de Hans Castorp, qualquer coisa de horroroso e repulsivo, porque compreendia o seu sentido complicado; mesmo assim, o jovem esforçava-se por acolhê-lo humanamente. Com uma expressão calma – pois sabia que o menor franzimento do cenho deixaria o rapaz pusilânime encolhido e sobressaltado – tolerava as maneiras subservientes de Wehsal, que aproveitava todas as ocasiões para inclinar-se diante dele e para bajulá-lo; permitia até que o outro, durante os passeios, lhe carregasse o sobretudo, função de que Wehsal se desempenhava com certo fervor; suportava a própria conversa escusa do homem de Mannheim. Wehsal tinha a mania de ventilar problemas como este: era ou não era razoável declarar o seu amor a uma mulher que se amava, mas que manifestamente não correspondia? Que achava da declaração de amor sem esperança?

Ele, da sua parte, atribuía-lhe extraordinário valor; segundo a sua opinião, encerrava ela uma felicidade indizível. O ato da confissão, embora despertando repulsa e acarretando grandes vexames, garantia contudo por um instante o pleno contato amoroso com o objeto do desejo, que era forçado a receber a confidencia e a entrar na esfera da própria paixão. Mesmo que tudo terminasse nesse ponto, a perda eterna não representaria um preço excessivo pela volúpia desesperada de um único momento. O desabafo era um ato violento, e quanto maior a repugnância que se lhe opusesse, mais gozo proporcionaria... A essa altura, uma lua que anuviou a fisionomia de Hans Castorp fez com que Wehsal retrocedesse. Para dizer a verdade, tinha ela a sua origem na presença do jovial Sr. Ferge, o qual, como afirmava com freqüência, ficava totalmente alheio a quaisquer assuntos elevados e complexos, e não na austeridade puritana do nosso herói. Como sempre nos empenhamos em apresentá-lo nem melhor nem pior do que era, não omitimos o seguinte fato: certa noite, quando estava a sós com Hans Castorp, o pobre

Wehsal, em palavras incolores, insistiu com ele para que lhe confiasse, por amor de Deus, alguns pormenores daqueles acontecimentos e daquelas experiências da noite de carnaval, que se haviam realizado depois do fim do baile; Hans Castorp atendeu a esse pedido com tranqüilidade benevolente, sem que – ao contrário do que o leitor talvez acredite – esse diálogo tivesse cunho leviano ou vil. Temos todavia razões fortes para manter afastados dessa cena tanto o leitor como nós próprios, e limitamo-nos a acrescentar que a partir do referido dia Wehsal carregava com redobrado ardor o casacão do condescendente Hans Castorp.

Já falamos bastante a respeito dos comensais de Hans Castorp. O lugar à sua direita estava vazio. Não fora ocupado senão passageiramente durante alguns dias, por um visitante. Um parente viera de visita da planície, um emissário, como se poderia dizer – numa palavra: tratava-se de James Tienappel, tio de Hans.

Era fantástico ver de repente como vizinho de mesa um representante e enviado da pátria, um homem que ainda trazia fresca no tecido inglês do terno a atmosfera do antigo, do submerso, da vida passada, do mundo dos vivos que existia lá embaixo. Mas era forçoso que isso acontecesse. Havia muito que Hans Castorp contara com tal ofensiva da planície e mesmo previra com exatidão a personalidade que seria incumbida do reconhecimento; o que, aliás, não fora muito difícil, já que Peter, o navegante, mal entrava em questão, e quanto ao tio-avô Tienappel era coisa sabida que nem dez cavalos o arrastariam a essas regiões, cuja pressão atmosférica lhe seria sumamente perigosa. Não, tinha de ser James o encarregado de investigar, em nome da família, a situação do parente extraviado. Hans Castorp esperara mesmo que ele chegasse antes. Desde que Joachim regressara sozinho e pusera a família a par do estado das coisas ali de cima, o assalto era iminente, mais do que iminente. Dessa forma, Hans Castorp não se surpreendeu nem um pouquinho, quando, duas semanas exatas depois da partida do primo, o porteiro lhe entregou um telegrama. Abriu-o, cheio de pressentimentos, e ficou sabendo da próxima chegada de James Tienappel. Este teria de resolver alguns assuntos pendentes na Suíça e aproveitaria a ocasião para fazer uma excursão até as alturas de Hans. Chegaria daí a dois dias.

– Bem! – pensou Hans Castorp. – Ótimo! – pensou, e acrescentou intimamente qualquer coisa parecida com “Corno quiser!” – Ah, se você tivesse idéia – disse, falando, nos seus pensamentos, com o parente que se aproximava. Numa palavra, inteirou-se da notícia com a mais completa calma. Transmitiu-a ao Dr. Behrens e à “administração”. Mandou reservar um quarto; o de Joachim estava ainda disponível. Dois dias após, à hora da sua própria chegada, isto é, pelas oito horas, já depois do escurecer, entrou no mesmo veículo mal-estofado em que havia pouco acompanhara Joachim, e encaminhou-se à estação de Davos-Dorf, para receber o emissário da planície que vinha endireitar a situação.

Com a tez rubicunda, sem chapéu nem sobretudo, achava-se à beira da plataforma quando o trenzinho entrou na estação. Pela janela do compartimento convidou o tio a descer tranqüilamente, porque já chegara ao seu lugar de destino. O Cônsul Tienappel – era vice-cônsul e substituía dignamente o pai também nesse cargo honorário – apareceu friorento, envolto no seu casaco de inverno. (Com efeito, a noite de outubro estava bastante fria, e pouco faltava para que pudesse ser qualificada de gélida; de madrugada certamente faria uma temperatura abaixo de zero.) Desembarcou, ali Clemente surpreendido, o que manifestou à maneira um tanto preciosa, ultracivilizada, peculiar aos cavalheiros distintos do norte da Alemanha. Cumprimentou o sobrinho-quase-primo, expressando, com enfáticos elogios, a satisfação que experimentava ao encontrá-lo com tão bom aspecto. Verificou que o porteiro coxo o dispensava de preocupar-se com a bagagem. Saiu da estação e galgou, em companhia de Hans Castorp, o alto e duro assento do coche. Sob o céu abundantemente estrelado puseram-se a caminho, e Hans Castorp, com a cabeça deitada para trás, explicou ao tio-primo as paragens celestes, circunscrevendo com palavras e gestos esta ou aquela constelação cintilante, e chamando os planetas pelos nomes.

Enquanto isso, o outro, prestando maior atenção à pessoa do seu companheiro do que ao cosmo, dizia de si para si que era talvez admissível e não rematada loucura falar das estrelas, precisamente nesse momento, nesse lugar, e sem mais aquela, mas que existiam outros assuntos mais urgentes.