A Montanha Mágica
Capitulo VI
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Nisso interveio Hans Castorp, perguntando o que se devia pensar, nesse caso, de Plotino, o qual expressara a vergonha que sentia de seu corpo, e de Voltaire, que em nome da razão se revoltara contra o escandaloso terremoto de Lisboa. Absurdo? Aquilo também era absurdo, mas refletindo bem podia-se chegar à opinião de que no absurdo se revelava a honestidade do espírito, e a absurda hostilidade da arte gótica contra a natureza era, em última análise, tão honesta quanto a atitude de Plotino e de Voltaire, já que nela se expressava igual emancipação do fado e do fato, e
o mesmo orgulho indócil que se recusava a abdicar diante do poder estúpido que representava a natureza...
Naphta soltou uma risada, que lembrou muito o mencionado prato rachado e terminou num acesso de tosse. Settembrini disse com distinção:
– O senhor prejudica o nosso anfitrião mostrando tanto espírito, e dessa forma demonstra a sua falta de gratidão pelos excelentes doces. Será que o senhor tem queda para a gratidão? Refiro-me àquele tipo de gratidão que consiste em fazermos um bom uso dos presentes que recebemos...
Ao ver que Hans Castorp ficou envergonhado, o italiano acrescentou com a maior amabilidade:
– O senhor é conhecido como maganão, meu caro engenheiro. Seu jeito de zombar amistosamente da verdade em absoluto não me faz desesperar do amor que tem a ela. O senhor sabe muito bem que somente pode ser qualificada de honesta aquela sublevação do espírito contra a natureza, que visa à dignidade e à beleza do homem, e não a outra que tem, senão por finalidade, pelo menos por conseqüência, o seu aviltamento e a sua humilhação. O senhor tampouco ignora quantas atrocidades desumanas, quanta intolerância sanguinária produziu a época à qual aquele artefato que se acha atrás de mim deve a sua existência. Basta que eu lhe chame à memória esse tipo horroroso do juiz de hereges, por exemplo a sinistra figura de um Conrado de Marburgo, e o infame furor dos sacerdotes contra tudo quanto se opusesse à tirania do sobrenatural. O senhor está longe de reconhecer a espada e a fogueira como instrumentos do amor aos homens...
–... a cujo serviço – interrompeu-o Naphta – trabalhou a máquina por meio da qual a Convenção expurgou o mundo de maus cidadãos. Todos os castigos da Igreja, inclusive a fogueira, inclusive também a excomunhão, foram impostos para salvar as almas da pena eterna, o que não se pode dizer do entusiasmo exterminador dos jacobinos. Permito-me observar que toda justiça penal e capital que não brote da fé no além é uma sandice bestial. E quanto ao aviltamento do homem, sua história coincide exatamente com a do espírito burguês. O Renascimento, a Época das Luzes, as ciências naturais e a economia política do século XIX não se esqueceram de ensinar nada, absolutamente nada, que fosse próprio para favorecer esse aviltamento, começando pela nova astronomia, em virtude da qual o centro do universo, o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputavam a posse da criatura por ambos almejada, foi transformado num insignificante planetazinho, e que pôs um fim provisório à grandiosa posição do homem no cosmo, sobre a qual se fundava a astrologia.
– Provisório?
Quando Settembrini fez essa pergunta, ameaçadoramente, havia na sua expressão qualquer coisa de um inquisidor ou juiz de hereges que espera que a pessoa interrogada se comprometa com palavras abertamente criminosas.
– Com efeito. Para algumas centenas de anos – confirmou Naphta friamente. – Se não nos enganam todos os sinais, estamos na iminência de uma reabilitação da escolástica, também nesse ponto. O processo já se acha em pleno andamento. Copérnico será derrotado por Ptolomeu. A teoria heliocêntrica encontra cada vez maior oposição espiritual, e as empresas inspiradas por essa resistência provavelmente surtirão êxito. A ciência sentirá a necessidade filosófica de restituir à Terra todas as honras que o dogma eclesiástico lhe queria reservar.
– Mas como? Oposição espiritual? Necessidade filosófica? Surtir êxito? Que sorte de voluntarismo manifesta-se em tudo isso? E onde fica a pesquisa incondicional? E o conhecimento puro? Onde fica a verdade, senhor, que anda intimamente ligada à liberdade, e cujos mártires, longe de insultarem a Terra; como acha o senhor, permanecerão o eterno adorno deste astro?
O Sr. Settembrini tinha uma maneira vigorosa de interrogar. Estava sentado, muito ereto, e deixava cair sobre o pequeno Naphta as suas palavras honestas. Pelo fim levantou a voz poderosamente, manifestando assim a mais absoluta certeza de que a resposta do seu adversário
só poderia consistir num silêncio consternado. Enquanto falava, segurava entre os dedos um pedacinho de bolo. Depois, porém, depositou-o no prato, pois ao cabo de todas essas perguntas não tinha vontade de trincá-lo.
Naphta retrucou com uma calma desagradável:
– Meu amigo, não existe conhecimento puro. É indiscutível a legitimidade da concepção eclesiástica da ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: “Creio para que possa conhecer”. A fé é o órgão do conhecimento, e o intelecto é secundário. A sua ciência incondicional não passa de um mito. Há sempre uma fé, um conceito do mundo, uma idéia, numa palavra: uma vontade, e cabe à razão explicá-la e comprová-la. Em todos os casos, chega-se ao “Quod erat demonstrandum”. A simples idéia da prova contém, psicologicamente considerada, um elemento muito voluntarista. Os grandes escolásticos dos séculos XII e XIII eram unânimes na convicção de que na filosofia não podia ser verdade o que era falso perante a teologia. Deixemos de lado a teologia, se o senhor assim o quiser; mas uma humanidade que não reconhecesse que nas ciências naturais não pode ser verdade o que é falso perante a filosofia não seria humanidade.
A argumentação do Santo Ofício ante Galileu rezava que sua tese era filosoficamente absurda.
Não pode haver argumentação mais incisiva.
– Ora, ora! Os argumentos do nosso pobre e grande Galileu mostraram-se mais sólidos.
Não, professore, falemos seriamente! Diante destes dois jovens atentos responda-me à seguinte pergunta: acredita o senhor em uma verdade, na verdade objetiva, científica, que a lei suprema de toda moralidade nos manda procurar, e cujos triunfos sobre a autoridade formam a gloriosa história do espírito humano?
Hans Castorp e Joachim voltaram os seus rostos de Settembrini para Naphta, o primeiro mais rapidamente do que o segundo.
– Tal triunfo – replicou Naphta – não é possível, porque a autoridade é o próprio homem, seu interesse, sua dignidade, sua salvação, e entre ela e a verdade não pode existir nenhum antagonismo. Elas coincidem.
– A verdade seria, por conseguinte...
– Verdadeiro é o que convém ao homem. Nele se acha resumida toda a natureza; em toda a natureza, apenas ele foi criado, e toda a natureza foi feita só para ele. Ele representa a medida das coisas, e sua salvação é o critério da verdade. Um conhecimento teórico que carecesse da relação prática com a idéia da salvação do homem seria de tal maneira desprovido de interesse que deveríamos negar-lhe todo valor como verdade e não poderíamos admiti-lo. Os séculos cristãos achavam-se completamente de acordo a respeito da irrelevância das ciências naturais para o homem. Lactâncio, a quem Constantino, o Grande, escolheu como preceptor de seus filhos, perguntou com toda a franqueza que classe de bem-aventurança obteria por conhecer o lugar onde nasce o Nilo, ou por saber os disparates que os físicos dizem com referência ao céu. Será que o senhor pode refutá-lo? Se a filosofia platônica foi preferida a qualquer outra, é porque não se preocupava com o conhecimento da natureza e sim com o conhecimento de Deus. Posso lhes garantir que a humanidade está a ponto de reencontrar o caminho que leva a esse ponto de vista, e de perceber que a tarefa da ciência verdadeira não é correr atrás de conhecimentos ímpios, mas eliminar, por princípio, o que é nocivo ou apenas irrelevante sob o prisma da idéia; numa palavra: cabe-lhe dar provas de instinto, comedimento e capacidade de escolher. É pueril pensar que a Igreja tenha defendido as trevas contra a luz. Ela teve três vezes razão ao proscrever a busca incondicional do conhecimento das coisas, isto é, uma busca que despreze tomar em consideração o elemento espiritual, o objetivo da conquista da salvação. E o que mergulhou o homem nas trevas e o enterrará cada vez mais são precisamente as ciências naturais, incondicionais e afilosóficas.
– O senhor acaba de ensinar um pragmatismo – retrucou Settembrini – que basta transportar para o plano político para lhe pôr em evidência o caráter pernicioso. É bom, é verdadeiro, é justo o que convém ao Estado. Sua salvação, sua dignidade, seu poder representam
o critério ético. Muito bem! Isso abre as portas a qualquer crime, e a verdade humana, a justiça individual, a democracia que se arranjem...
– Sugiro o emprego de um pouquinho de lógica – tornou Naphta. – Ou Ptolomeu e a escolástica têm razão, e o mundo é finito quanto ao tempo e ao espaço. Nesse caso, a divindade é transcendental; a oposição entre Deus e o mundo existe, e também o homem é um ser dualista: o problema de sua alma consiste no antagonismo entre o físico e o metafísico, e tudo quanto é social fica à distância, desempenhando papel secundário. Essa é a única forma de individualismo que julgo conseqüente. Ou então os seus astrônomos renascentistas encontraram a verdade, e o cosmo é infinito. Então não há mundo transcendental, não há dualismo. O além acha-se absorvido pelo aquém; desaparece a oposição entre Deus e a natureza; e como nesse caso a personalidade do homem, em vez de ser o campo de batalha de dois princípios inimigos, é harmoniosa e una, o conflito que se trava no interior do homem baseia-se exclusivamente naquele dos interesses individuais e coletivos. A finalidade do Estado torna-se, à boa maneira pagã, a lei moral. Ou um ou outro.
– Protesto! – gritou Settembrini, enquanto o seu braço teso estendia ao anfitrião a xícara de chá. – Protesto contra a insinuação de que o Estado moderno signifique a servidão diabólica do indivíduo! Protesto pela terceira vez contra aquela alternativa vexatória entre o prussianismo e a reação gótica diante da qual o senhor nos quer colocar! A democracia não tem outro sentido a não ser o de um corretivo individualista de toda forma de absolutismo do Estado. A verdade e a justiça são as jóias da coroa da ética individual, e no caso de um conflito com os interesses estatais talvez até assumam a aparência de potências inimigas do Estado, posto que, em realidade, visem ao seu bem superior, ao bem supra terreno. O Renascimento como origem da idolatria do Estado! Que lógica mais bastarda! As conquistas – emprego essa palavra no sentido literal! –, as conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu caro senhor, chamam-se personalidade, direitos do homem, liberdade!
Os ouvintes soltaram a respiração que haviam contido durante a grande réplica do Sr.
Settembrini. Hans Castorp não pôde deixar de bater, embora discretamente, na borda da mesa com a palma da mão. – Magnífico! – murmurou entre dentes, e também Joachim mostrou-se altamente impressionado, conquanto o prussianismo houvesse sido mencionado em sentido desfavorável. A seguir, porém, ambos se voltaram para o interlocutor que acabava de ser rechaçado. Hans Castorp o fez com tamanha impaciência, que fincou o cotovelo na mesa e o queixo no punho mais ou menos na posição de quem desenha um porquinho, e fitou o Sr.
Naphta de muito perto e com imensa atenção.
Este se achava sentado calmamente, como que afiado, apoiando as mãos magras sobre os joelhos.
– Tentei introduzir um pouco de lógica na nossa discussão – disse ele – e sua resposta baseia-se em sentimentos elevados. Que o Renascimento tenha dado à luz tudo aquilo que se chama liberalismo, individualismo, humanismo burguês é um fato que eu conhecia mais ou menos bem. Mas o seu “sentido literal” deixa-me inteiramente frio. A idade “conquistadora”, heróica, dos seus ideais há muito que passou; esses ideais estão mortos ou agonizantes, e aqueles que lhes darão o golpe de misericórdia já se acham próximos. Se não me engano, o senhor se arvora em revolucionário. Mas, se acredita que o resultado das revoluções vindouras será a liberdade, iludiu-se redondamente. O princípio da liberdade cumpriu o seu destino e chegou a ser antiquado nos últimos quinhentos anos. Uma pedagogia que ainda hoje pretende ser a filha do racionalismo e vê os seus meios formativos na crítica, na libertação e no culto do eu, na destruição de formas de vida determinadas de um modo absoluto – tal pedagogia pode obter ainda hoje passageiros triunfos retóricos, porém o seu caráter atrasado é óbvio para os espíritos avisados. Todas as organizações verdadeiramente educadoras souberam sempre o que em realidade deve ser o último objetivo da pedagogia: a autoridade absoluta, a obrigação de ferro, a disciplina, o sacrifício, a renúncia a si próprio, o domínio da personalidade. Em última análise,
desconhece e não ama a juventude quem pensa que ela sente prazer diante da liberdade. O que ela aprecia mais é a obediência.
Joachim empertigou-se. Hans Castorp corou. O Sr. Settembrini torcia nervosamente o belo bigode.
– Não, senhor! – prosseguiu Naphta. – O segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. Do que ela necessita, o que deseja, o que criará é – o terror.
Abafara a voz ao pronunciar esta última palavra. Não se movera. Apenas as lentes dos seus óculos haviam relampejado rapidamente. Os ouvintes tinham estremecido, todos os três, também Settembrini, que imediatamente se dominou e tornou a sorrir.
– E posso informar-me – indagou – quem ou o que (como vê, limito-me a interrogar e nem sei como formular a pergunta), quem ou o que o senhor imagina como portador desse –
custa-me repetir a palavra – desse terror?
Naphta continuou imóvel, afiado e relampejante.
– Estou às ordens – disse. – Penso não me enganar quando pressuponho que estamos de acordo com respeito ao estado primitivo ideal do homem, à sua liberdade de governo e de poder, à sua relação filial e imediata com Deus, na qual não havia nada de domínio e de serviço, nada de lei e de castigo, nada de injustiça, de união carnal, de diferenças de classe, de trabalho e de propriedade, mas exclusivamente igualdade, fraternidade, perfeição moral.
– Muito bem. Concordo com isso – declarou Settembrini. – Concordo, exceção feita do ponto da união carnal, que evidentemente deve ter existido sempre, uma vez que o homem é um vertebrado muitíssimo desenvolvido, em nada diferente de outros seres...
– Como quiser. Verifico que em princípio somos da mesma opinião, no que se refere ao estado primordial, paradisíaco, isento de lei e ligado imediatamente a Deus, esse estado que se perdeu em virtude do pecado original. Creio que poderemos trilhar lado a lado mais um pedaço do caminho; reduziremos então o Estado a um contrato social que, levando em conta o pecado, foi estabelecido como proteção contra a injustiça, e veremos nisso a origem do poder soberano...
– Benissimo! – exclamou Settembrini. – O contrato social! Aí temos o Século das Luzes, ali temos Rousseau. Eu nunca teria pensado...
– Permita-me. Neste ponto separam-se os nossos caminhos. Do fato de que toda potência e todo governo pertenciam primitivamente ao povo, e que este transmitiu o seu direito de legislação e a totalidade de seu poder ao Estado, ao príncipe, deduz a sua escola, antes de mais nada, que o povo tem o direito de se rebelar contra a realeza. Nós, porém...
“Nós?”, pensou Hans Castorp, cheio de curiosidade “Quem é nós? Não devo esquecer de perguntar a Settembrini a quem se refere este ‘nós’.”
– Nós, porém – continuou Naphta —, talvez não sejamos menos revolucionários do que o senhor. Nós sempre concluímos desse fato, em primeiro lugar, a supremacia da Igreja sobre o Estado secular. Pois, se a origem não-divina do Estado não estivesse escrita na sua testa, bastaria recordar precisamente o fato histórico de ele derivar da vontade do povo e não, como a Igreja, de uma fundação de Deus, para demonstrar que ele é, se não uma obra do mal, pela menos um produto da emergência e da imperfeição pecaminosa.
– O Estado, senhor...
– Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. “Acima de tudo o amor à pátria e o infinito desejo de glória!” Esta frase é de Virgílio. Corrija-a o senhor pelo acréscimo de um pouco de individualismo liberal e surge a democracia. Mas isso não modifica em princípio a sua relação para com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antigüidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda clareza o iminente capitalismo do Estado secular. “O dinheiro será o imperador” é uma profecia do século XI. Nega o senhor que ela já se cumpriu integralmente e que dessa forma se realizou a diabolização total da nossa vida?
– Meu amigo! O senhor continua com a palavra. Estou impaciente por saber quem é o Grande Desconhecido, o portador do terror.
– Curiosidade muito ousada na boca do representante de uma classe social que é portadora daquela liberdade que arruinou o mundo! Posso a rigor dispensar a sua réplica, porque não ignoro a ideologia política da burguesia. O seu objetivo é o império democrático, a apoteose com que o princípio do Estado nacional eleva-se a si próprio a Estado universal. O imperador desse império? Conhecemo-lo. A sua utopia é horrorosa, e todavia neste ponto voltamos, de certo modo, a estar de acordo. Pois a sua república universal capitalista tem qualquer coisa de transcendental. Com efeito, o Estado universal é a transcendência do Estado secular, e acreditamos ambos em que à perfeição da fase primitiva da humanidade corresponde uma fase final perfeita, situada à distância no horizonte. Desde os dias de Gregório Magno, fundador da Cidade de Deus, a Igreja considerou-se incumbida de reconduzir os homens ao governo de Deus.
O papa pretende a soberania não para si próprio; sua ditadura delegada era um meio e um caminho para alcançar a meta da salvação, uma forma de transição do Estado pagão ao reino celeste. O senhor falou, diante destes seus discípulos, dos atos sanguinários da Igreja e da sua intolerância vingadora, e mostrou-se sumamente tolo ao fazê-lo. Pois o zelo religioso naturalmente não pode ser pacifista, e o próprio Gregório disse: “Maldito seja o homem que impede a sua espada de derramar sangue!” Já sabemos que o poder é mau. Mas o dualismo do bem e do mal, do aquém e do além, do espírito e da potência, deve ser – para que chegue o reino
– passageiramente substituído por um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. É isso o que chamo a necessidade do terror.
– O portador? Quem será o portador?
– O senhor me pergunta ainda? Será que à sua mentalidade manchesteriana escapou a existência de uma doutrina sociológica que representa a vitória do homem sobre o economismo, e cujos princípios e objetivos coincidem inteiramente com os do Estado cristão de Deus? Os padres da Igreja qualificavam o “meu” e o “teu” de palavras funestas e chamavam à propriedade privada usurpação e roubo. Condenavam a posse de bens por ser a terra, segundo o direito natural e divino, comum a todos os homens, produzindo os seus frutos para o uso geral.
Ensinavam que somente a cobiça, uma conseqüência do pecado original, defendia os direitos de posse e criara a propriedade particular. Eram bastante humanos, bastante hostis ao comércio para considerar a atividade econômica em geral um perigo para a salvação da alma, isto é, para a humanidade. Odiavam o dinheiro e os negócios, e a riqueza capitalista era para eles o combustível das chamas do inferno. A lei econômica fundamental, a saber, que o preço resulta da relação entre a oferta e a procura, foi desprezada de todo o coração por eles, que reprovavam o aproveitamento de circunstâncias favoráveis como exploração cínica da miséria do próximo.
Existia contudo, aos seus olhos, uma exploração mais nefanda ainda: a do tempo, a monstruosidade de se fazer pagar um prêmio pelo simples transcurso do tempo, esse prêmio que são os juros, e de se abusar dessa forma, para vantagem de uns e para prejuízo de outros, de uma instituição divina e geral, o tempo.
– Benissimo! – exclamou Hans Castorp, deixando-se levar, pelo seu entusiasmo, a empregar a fórmula de aprovação do Sr. Settembrini. – O tempo... Uma instituição divina e geral... Isto é sumamente importante!
– Sim, senhor – prosseguiu Naphta. – Esses espíritos realmente humanos julgavam asquerosa a idéia de um aumento automático do dinheiro. Incluíam no conceito da usura qualquer especulação ou anatocismo e declaravam que todos os ricos ora eram ladrões ora herdeiros de ladrões. Iam ainda mais longe. Partilhavam a opinião de São Tomás de Aquino, segundo a qual o comércio em si, o mero negócio comercial, a compra e venda no intuito de obter um lucro, mas sem transformação nem melhoramento da mercadoria, representava uma profissão ignominiosa. Não eram propensos a apreciar muito o próprio trabalho, pois ele é apenas um assunto ético e não religioso, e se realiza a serviço da vida e não de Deus. E desde que não se tratava de outra coisa senão da vida e da economia, exigiam que uma atividade produtiva
formasse a condição de toda vantagem econômica e a medida da respeitabilidade. Honrosos pareciam-lhes o agricultor e o artífice, mas não o mercador e o industrial. Queriam eles que a produção se acomodasse às necessidades e abominavam a produção em massa. Bem, depois de séculos de soterramento ressurgem todos esses princípios e padrões econômicos no movimento moderno do comunismo. A semelhança é completa, até no significado da reivindicação da soberania, que pleiteia, contra a camada internacional de comerciantes e especuladores, o trabalho internacional, o proletariado do mundo, que hoje em dia opõe a humanidade e os critérios da Cidade de Deus à depravação burguês-capitalista. A ditadura do proletariado, essa exigência de salvação política e econômica dos nossos tempos, não tem o sentido de um domínio pelo domínio e por toda a eternidade, mas sim o de uma ab-rogação temporária do conflito entre o espírito e o poder sob o signo da cruz, o sentido de se triunfar sobre o mundo dominando-o, o sentido da transição e da transcendência, o sentido do Reino. O proletariado retomou a obra de Gregório; sente arder no seu íntimo o zelo piedoso do grande papa e, como ele, tampouco poderá impedir as suas mãos do derramamento de sangue. Sua incumbência é espalhar o terror para a salvação do mundo e para a conquista do objetivo da redenção, que é a relação filial com Deus, sem a interferência do Estado e das classes.
Foi essa a sutil exposição de Naphta. Fez-se silêncio no pequeno grupo. Os jovens olhavam o Sr. Settembrini, como se fosse ele quem devesse reagir dessa ou daquela forma.
– É pasmoso – disse o italiano. – Francamente, confesso que estou emocionado. Eu não teria esperado por essa. Roma locuta. E como falou! Diante dos nossos olhos executou um salto mortal hierático, e a contradição que porventura houvesse nesse adjetivo foi “ab-rogada temporariamente”. Sim, senhor! Repito: é pasmoso! O senhor admite a possibilidade de objeções, meu caro professor? Falo de objeções feitas exclusivamente sobre o fundamento da lógica. O
senhor acaba de esforçar-se por nos fazer compreender um individualismo cristão, baseado na dualidade de Deus e do mundo e por demonstrar a sua primazia sobre toda mobilidade determinada pela política. Poucos minutos depois levou o socialismo até a ditadura e o terror.
Como consegue o senhor reconciliar essas duas coisas?
– As contradições – replicou Naphta – podem reconciliar-se. Somente o meio-termo, e a mediocridade são irreconciliáveis. Como já me permiti observar, o seu individualismo é deficiente, é apenas um compromisso. Corrige a sua ética paga por meio de um pouco de cristianismo, um pouco de direito do indivíduo e um pouco de pretensa liberdade. Isso é tudo.
Um individualismo, porém, que parte da importância cósmica, da importância astrológica da alma individual, um individualismo não social, mas religioso, que concebe a humanidade não como o antagonismo entre o eu e a sociedade, mas como o conflito entre o eu e Deus, entre a carne e o espírito – tal individualismo genuíno se harmoniza muito bem com a comunidade mais intensamente coercitiva...
– É anônimo e coletivo – disse Hans Castorp.
Settembrini mirou-o com os olhos arregalados.
– Cale-se, engenheiro! – ordenou com uma severidade que se devia atribuir ao seu nervosismo e à tensão do seu espírito. – Instrua-se, mas deixe de externar suas opiniões!... Recebi uma resposta – prosseguiu, voltando-se novamente para Naphta. – Ela pouco me consola, mas, ao menos, é uma resposta. Encaremos todas as conseqüências que provêm dela... Com a indústria, o comunismo cristão rejeita a técnica, a máquina, o progresso. Com aquilo que o senhor qualificou de camada de comerciantes, com o dinheiro e os negócios lucrativos, que a Antigüidade colocava muito acima da agricultura e do artesanato, reprova a liberdade. É evidente, salta aos olhos que dessa forma – tal como aconteceu na Idade Média – todas as relações particulares e públicas ficam presas ao solo. E o mesmo se dá – custa-me dizê-lo – com a personalidade. Se o solo é o único que alimenta, é também o único que pode outorgar a liberdade. Artífices e camponeses, por mais alto que seja o conceito de que gozam, se não possuem terras, são servos de quem as possuí. Com efeito, até uma fase muito adiantada da Idade Média, as grandes massas, inclusive nas cidades, compunham se de servos. No curso da nossa
palestra, o senhor mencionou de vez em quando a dignidade humana. Não obstante, defende uma moral econômica à qual são inerentes a servidão e o aviltamento da personalidade do homem.
– Sobre a dignidade e o aviltamento – disse Naphta – pode-se discutir. Por enquanto, eu ficaria muito satisfeito se essa associação o fizesse ver na liberdade menos um belo gesto do que um problema. O senhor observa que a moral econômica cristã, com toda a sua beleza e mentalidade humana, cria servos. Eu oponho a isso que a causa da liberdade ou das cidades, como se poderia dizer de uma forma mais concreta —, que essa causa, por elevada e ética que seja, acha-se historicamente ligada à mais desumana degeneração da moral econômica, a todas as atrocidades do espírito moderno de comerciantes e especuladores, à dominação diabólica do dinheiro e dos negócios.
– Faço questão de que o senhor não se esquive por meio de antinomias e de ambigüidades, mas professe clara e inequivocamente ser partidário da mais negra das reações.
– O primeiro passo em direção à verdadeira liberdade e humanidade seria abandonar esse medo covarde da idéia de reação.
– Agora basta! – disse o Sr. Settembrini numa voz levemente trêmula, enquanto afastava de si a xícara e o prato, que já estavam vazios. Levantou-se do sofá forrado de seda. – Por hoje chega, é suficiente para um só dia, segundo me parece. Professor, obrigado pelo saboroso lanche e pela conversa sumamente espirituosa. Os deveres do regime reclamam os meus amigos do Berghof, e eu gostaria, antes de irem, de mostrar-lhes o meu cubículo lá em cima. Vamos, cavalheiros! Addio, padre!
Desta vez até chamou Naphta de “padre”. Hans Castorp, com as sobrancelhas franzidas, tomou nota do apelido. Os primos deixaram que Settembrini organizasse a partida, dispondo deles e nem sequer perguntando se Naphta queria ou não unir-se a eles. Os jovens despediram-se também, agradecendo, e foram convidados a voltar em breve. Acompanharam o italiano, Hans Castorp levando emprestada a obra De misria humanae conditionis, um volume cartonado, em precário estado de conservação. Lukacek, com a sua barba, melancólica, continuava sentado à mesa, trabalhando no vestido com mangas, destinado àquela velha, quando passaram pela sua porta, para ganhar a íngreme escada que conduzia à água-furtada. No fundo não se tratava de mais um andar, senão simplesmente do vão do sótão, com o madeiramento despido abaixo das telhas e com a atmosfera estival de um depósito, cheirando a madeira quente. Mas o sótão abrigava dois compartimentos que o capitalista republicano habitava. Serviam de gabinete de estudo e de dormitório ao colaborador beletrista da Sociologia dos males. Mostrou-se alegremente aos jovens amigos. Qualificou a habitação de isolada e íntima, a fim de lhes sugerir os epítetos adequados de que poderiam servir-se para elogiá-la, o que de fato fizeram unanimemente. Era encantadora – acharam ambos —, tão isolada e tão íntima, exatamente como dissera o Sr.
Settembrini. Lançaram um olhar ao pequeno dormitório, onde, à frente do estreito leito, se estendia um pequeno tapete de retalhos, e depois voltaram ao gabinete de trabalho, mobiliado de modo não menos despojado, mas que mostrava, ao mesmo tempo, uma ordem um tanto espalhafatosa e até fria. Cadeiras toscas e antiquadas em número de quatro, com assentos de palha, achavam-se colocadas simetricamente dos lados das portas, e também o sofá estava encostado à parede, de modo que o centro da peça pertencia somente a uma solitária mesa redonda, coberta com uma toalha verde, na qual se via, para fins de adorno ou de refresco, uma sóbria garrafa de água com um copo enfiado sobre o gargalo. Livros encadernados e brochuras encontravam-se apoiados obliquamente uns nos outros sobre uma pequena estante, e junto à janelinha erguia-se sobre pernas altas uma papeleira leve, diante da qual havia um pedacinho de feltro espesso, de tamanho apenas suficiente para que se pudesse ficar de pé em cima dele.
Durante um momento, Hans Castorp, a título de experiência, pôs-se no lugar onde o Sr.
Settembrini costumava trabalhar, estudando, para fins enciclopédicos, as belas-letras sob o ponto de vista do sofrimento humano. Fincando os cotovelos na tábua inclinada, o jovem declarou que ali se podia viver de um modo isolado e íntimo. Nessa mesma posição – opinou – devia o pai de
Lodovico, com seu nariz fino e comprido, ter ficado diante da sua escrivaninha, em Pádua. E
Hans Castorp inteirou-se de que realmente essa era a papeleira do saudoso sábio; também as cadeiras de palhinha, a mesa e a própria garrafa de água haviam pertencido a ele. E mais ainda: as cadeiras provinham do avô, o carbonário; haviam feito parte da mobília do seu escritório em Milão. Isso era impressionante. A fisionomia das cadeiras tomava aos olhos dos jovens ares de insubmissão política. Joachim levantou-se daquela em que se instalara inocentemente, com as pernas cruzadas, e olhou-a desconfiado, sem voltar a sentar-se. Hans Castorp, porém, de pé diante da papeleira de Settembrini-pai, pensava no filho que agora trabalhava nela, associando a política do avô e o humanismo do genitor, com o fim de criar obras beletrísticas. Pouco depois saíram todos os três. O escritor ofereceu-se a acompanhar os primos pelo caminho de regresso.
Caminharam um bom pedaço sem falar, mas o seu silêncio estava relacionado com Naphta, e Hans Castorp não tinha pressa. Estava certo de que o Sr. Settembrini não deixaria de mencionar o vizinho, e que só os acompanhara na intenção de fazê-lo. Não se enganou. Depois de um suspiro dado para tomar impulso, o italiano começou dizendo:
– Senhores, eu desejaria adverti-los.
Como Settembrini fizesse uma pausa, Hans Castorp indagou com fingida surpresa: –
Contra o quê? – Poderia ter perguntado: “Contra quem?” Mas preferiu a forma impessoal, para documentar a extensão da sua inocência, ainda que o próprio Joachim soubesse muito bem de que se tratava.
– Contra a personalidade que acabamos de visitar – respondeu Settembrini – e que eu tive de apresentar-lhes contra a minha vontade. Os senhores sabem que isso aconteceu por mero acaso e não houve jeito de evitá-lo. Mas a responsabilidade me cabe e pesa sobre mim penosamente. É minha obrigação expor à juventude, da qual os senhores fazem parte, os perigos espirituais que acarreta o contato com esse homem. Devo pedir-lhes que mantenham em limites seguros as relações com ele. Sua forma é lógica, mas sua natureza é confusão.
Hans Castorp replicou que, realmente, não se sentia à vontade com Naphta. Suas palavras deixavam-no às vezes com uma sensação esquisita. Podia-se pensar em alguns momentos que ele pretendia afirmar seriamente que o Sol girava em torno da Terra. Mas, como poderiam eles, os primos, ter imaginado que fosse inconveniente travar relações sociais com um amigo do Sr.
Settembrini? Não acabava ele próprio de dizer que haviam conhecido Naphta por seu intermédio? Tinham-no encontrado em sua companhia; o homem passeava com ele, que tomava o chá na sua casa, assim sem cerimônia, e tudo isso demonstrava, afinal...
– Sem dúvida, meu caro engenheiro, sem dúvida! – a voz do Sr. Settembrini soava suave, resignada, e contudo levemente trêmula. – São objeções que se impõem, e por isso o senhor tem razão de fazê-las. Muito bem, estou disposto a defender-me. Vivo sob o mesmo teto com esse senhor. Freqüentes encontros são inevitáveis. Uma palavra traz a outra. A gente trava conhecimento. O Sr. Naphta é homem inteligente, o que é coisa rara. Tem um temperamento discursivo, assim como eu. Que me condene quem quiser, mas aproveito a oportunidade de cruzar as lanças da idéia com um adversário de qualidade até certo ponto igual. Não tenho mais ninguém, nem perto nem longe... Numa palavra, não nego que o visito e que ele me visita.
Também passeamos juntos. E discutimos. Discutimos encarniçadamente, quase todos os dias.
Mas confesso que a oposição e a hostilidade da sua maneira de pensar representa para mim precisamente um atrativo a mais para me encontrar com ele. Tenho necessidade do atrito. As convicções não vivem, a não ser que tenham ocasião de lutar, e eu, por minha parte, tenho sólidas convicções. Mas como poderiam os senhores afirmar o mesmo das suas próprias pessoas?
O senhor, tenente, ou o senhor, engenheiro? Não estão armados para se defender contra miragens intelectuais. Correm o perigo de que essas sutilezas meio fanáticas, meio maliciosas, lhes prejudiquem o espírito e a alma.
Hans Castorp admitiu tudo isso. Seu primo e ele próprio eram, provavelmente, naturezas um tanto expostas. A velha história dos filhos enfermiços da vida; claro! Mas a ela podia-se opor Petrarca com a sua divisa, que o Sr. Settembrini conhecia. Em todo caso era digno de ser ouvido
o que Naphta explanava. Que não fossem injustos: aquilo que ele dissera sobre o tempo comunista, por cujo transcurso ninguém deveria receber um prêmio, era mesmo notável. E
também eram muito interessantes as suas idéias sobre a pedagogia, coisas que ele, Hans Castorp, nunca teria chegado a saber sem Naphta...
Settembrini cerrou os lábios, e Hans Castorp apressou-se a acrescentar que, naturalmente, ele se abstinha de tomar partido e de formar uma opinião. Simplesmente achara dignos de serem ouvidos os argumentos de Naphta sobre os desejos da juventude. – Explique-me o senhor uma coisa – continuou. – Esse Sr. Naphta (digo “esse senhor” para indicar que não simpatizo com ele irrestritamente; pelo contrário, observo com relação a ele uma rigorosa reserva mental...)
– E o senhor faz muito bem! – exclamou Settembrini, cheio de gratidão.
– ...ele acaba de dizer horrores contra o dinheiro, a alma do Estado, segundo se expressava, e contra a propriedade particular, que tachava de roubo; numa palavra, atacou a riqueza capitalista, da qual, se não me engano, afirmou que era o combustível das chamas do inferno. Parece-me que se serviu dessa expressão. Em altos brados elogiou a condenação medieval do anatocismo. E apesar de tudo isso ele próprio faz... O senhor me desculpe, mas ele deve... É uma verdadeira surpresa quando se entra na casa dele. Toda aquela seda...
– Pois é – sorriu Settembrini. – A tendência dos seus gostos é característica.
– ...e os belos móveis antigos – prosseguiu Hans Castorp nas suas reminiscências —, a Pietà do século XIV... o lustre veneziano... o criadinho de libré... e bolo de chocolate em abundância... É preciso que ele pessoalmente...
– O Sr. Naphta, pela sua pessoa – explicou Settembrini —, é tão pouco capitalista quanto eu.
– Mas... – perguntou Hans Castorp. – As suas palavras escondem um “mas”, Sr.
Settembrini.
– Bem, essa gente não deixa nenhum dos seus na miséria.
– Quem é “essa gente”?
– Aqueles padres.
– Padres? Que padres?
– Ora, engenheiro, eu falo dos jesuítas.
Fez-se um momento de silêncio. Os primos mostraram sinais da mais viva consternação.
Hans Castorp exclamou:
– Não é possível!... Cruzes! O homem é um jesuíta?
– O senhor adivinhou – respondeu o Sr. Settembrini cerimoniosamente.
– Não, nunca na vida teria eu... Como poderia pensar? É por isso que o senhor o chamou de “padre”.
– Foi um pequeno excesso de cortesia – tornou Settembrini. – O Sr. Naphta não é padre.
Se por enquanto ainda não atingiu esse grau, a culpa é da enfermidade. Mas ele passou pelo noviciado e fez os primeiros votos. A doença forçou-o a interromper os estudos teológicos.
Depois, teve ainda alguns anos de serviço como prefeito num instituto da ordem, isto é, como preceptor ou mentor de jovens alunos. Isso vinha ao encontro das suas inclinações pedagógicas.
E aqui pode continuar a satisfazê-las, ensinando latim no Fredericianum. Vive em Davos faz cinco anos. Não se pode dizer ao certo quando será capaz de partir, se é que um dia o será. Mas Naphta pertence à ordem, e mesmo que os laços que o ligam a ela fossem mais frouxos, nunca lhe faltaria nada. Eu já expliquei aos senhores que ele, pessoalmente, é pobre, quer dizer, não possui bens. Claro, é a regra! A ordem, por sua vez, dispõe de imensas riquezas e cuida dos seus, como os senhores podem ver.
– Barba...ridade! – murmurou Hans Castorp. – E eu nem sabia ou pensava que uma coisa dessas pudesse existir realmente! Um jesuíta! Sim, senhor!... Mas diga-me mais uma coisa: se ele está bem provido e amparado por aquela gente, por que cargas d'água vive então...
Absolutamente não quero criticar a sua habitação, Sr. Settembrini O senhor está muito bem instalado na casa de Lukacek, de um modo agradavelmente isolado e sobretudo tão íntimo... Mas
sou de opinião que esse Naphta, uma vez que anda tão cheio da nota, para usar esse termo vulgar... Por que não aluga uma moradia mais vistosa, com uma entrada elegante e peças grandes, numa casa distinta? Há mesmo qualquer coisa de misterioso e aventureiro nesse jeito de morar num quartinho desses, com todas aquelas sedas...
Settembrini deu de ombros.
– Devem ser razões de tato e de gosto que determinaram a escolha – disse então. – Acho que sua consciência anticapitalista se sente melhor quando ele habita o quarto de homem pobre e compensa isso pela maneira como o habita. Talvez haja também questões de discrição metidas nisso. Não se deve ostentar a todo mundo que se é abastecido pelo Diabo. Adota-se uma fachada pouco impressionante, atrás da qual se dá livre curso ao gosto sacerdotal pela seda...
– É esquisito! – disse Hans Castorp. – É completamente novo e emocionante para mim, como confesso com toda a franqueza. Não, de fato estamos muito gratos, Sr. Settembrini, porque nos apresentou esse homem. Creia-me que freqüentemente voltaremos a visitá-lo. Isso ficou combinado. Relações assim ampliam o horizonte de maneira inesperada e permitem olhar para um mundo cuja existência a gente absolutamente ignorava. Um autêntico jesuíta! Quando digo
“autêntico” estou dando margem àquilo que me preocupa, e que não posso deixar de observar.
Eu pergunto: é ele realmente um jesuíta como os outros? Sei muito bem que o senhor pensa que não pode haver norma, quando se trata de pessoas que o Diabo abastece. Mas o que eu gostaria de saber é outra coisa, que se pode resumir na pergunta: “É ele autêntico como jesuíta?” É isso que me interessa. Naphta acaba de dizer uma porção de coisas – o senhor sabe a que me refiro – sobre o comunismo moderno e o zelo piedoso do proletariado, que não deve impedir as suas mãos de derramarem sangue. Numa palavra, ele disse coisas que não quero comentar; comparado com esse homem, o seu avô, com sua lança do cidadão, era um cordeirinho inocente; não me leve a mal essa expressão! E ele pode fazer isso? Tem a aprovação dos seus superiores? É compatível com a doutrina romana, uma vez que dizem que a ordem intriga o mundo inteiro em prol dela?
Não é tudo isso – como se diz? – herético, anormal, incorreto? Essas idéias me ocorrem a respeito de Naphta, e eu gostaria muito de saber o que o senhor pensa.
Settembrini sorriu.
– É muito simples. O Sr. Naphta é, realmente e antes de mais nada, um jesuíta genuíno e completo. Mas em segundo lugar é um homem de espírito – do contrário eu não procuraria a companhia dele – e como tal empenha-se em encontrar novas combinações, adaptações e associações, ainda em busca de variações modernas. Os senhores me viram surpreendido diante das suas teorias. Comigo, ele nunca se revelara até esse ponto. Servi-me do estímulo que a presença dos senhores evidentemente exercia sobre ele para provocá-lo, a fim de que dissesse, em certo sentido, a última palavra. E essa palavra foi bastante excêntrica e bastante monstruosa...
– Sim... E por que não chegou a ser padre? Acho que ele tem a idade necessária.
– Eu já lhe disse que a doença o impediu, temporariamente...
– Hum... Mas, se Naphta é em primeiro lugar um jesuíta, e em segundo, um homem de espírito que anda em busca de combinações, não acredita o senhor que esse outro elemento, o acessório, provém da enfermidade?
– Que quer dizer com isso?
– Olhe, Sr. Settembrini, parece-me o seguinte: ele tem uma mancha úmida que o impede de ser padre. Mas aquelas suas combinações também o teriam impedido, e sob esse aspecto pode-se dizer que as combinações e a mancha úmida pertencem à mesma categoria. Ele é, à sua maneira, uma espécie de filho enfermiço da vida, um joli jésuite com uma petite tache humide.
Haviam chegado ao sanatório. No terraço em frente ao edifício detiveram-se ainda um instante, antes de se separarem. Formaram um pequeno grupo, enquanto outros pensionistas, que andavam ociosos nas proximidades do portão, observavam a sua palestra. O Sr. Settembrini disse:
– Mais uma vez, meus jovens amigos, advirto-os. Não posso proibir-lhes a continuação das relações uma vez estabelecidas, desde que se sintam impelidos pela curiosidade. Mas criem
em torno do coração e do cérebro uma couraça de desconfiança. Nunca deixem de opor uma resistência crítica. Eu definirei esse homem numa única palavra: é um voluptuoso.
Os primos fizeram uma careta. A seguir perguntou Hans Castorp:
– Um quê? Ora veja! Mas ele pertence a uma ordem. Pelo que sei, existem ali alguns votos que devem ser feitos, e além disso Naphta é tão minguado e tão débil...
– O senhor fala muito ingenuamente, engenheiro – retrucou o Sr. Settembrini. – Aquilo nada tem que ver com a debilidade, e quanto aos votos há certas reservas. Porém, eu falei num sentido mais lato e mais espiritual, na esperança de encontrar alguma compreensão da sua parte.
Lembra-se ainda do dia em que o visitei no seu quarto – já faz muito, muitíssimo tempo –, o senhor passava pelo período de acamamento obrigatório, logo depois da sua admissão como paciente...
– Como não! O senhor entrou na hora do crepúsculo e acendeu a luz. Recordo-me como se fosse hoje...
– Bem, naquele dia o curso da palestra, como graças a Deus acontece freqüentemente, levou-nos a certos assuntos elevados. Creio que falamos até da vida e da morte, da natureza digna da morte, contanto que seja uma condição e um complemento da vida, e do caráter de bicho-papão que ela assume quando o espírito comete o pavoroso erro de isolá-la como princípio.
Senhores – prosseguiu o Sr. Settembrini, aproximando-se muito dos dois jovens e estendendo-lhes o polegar e o dedo médio da mão esquerda à maneira de uma forquilha, como para apanhar-lhes a atenção, enquanto erguia o indicador da direita em sinal de admoestação... –, gravem na sua memória que o espírito é soberano, que sua vontade é livre, que determina o mundo moral.
Porém, se dualisticamente isola a morte, esta se converte, real e virtualmente, graças à vontade do espírito, numa potência própria, oposta à vida, num princípio antagônico, na grande sedução; e seu império é o da voluptuosidade. Os senhores perguntam: “Por que da voluptuosidade?” E eu respondo: porque a morte dissolve e redime, porque traz a redenção, mas não a redenção do mal, e sim a redenção pelo mal. Dissolve a ética e a moralidade, redime da disciplina e da moderação, liberta para a volúpia. Se os advirto contra o homem que os senhores, malgrado meu, conheceram por meu intermédio, se os exorto a que blindem os corações com a tríplice couraça da crítica, no contato e nas discussões com ele, é porque todos os seus pensamentos têm caráter voluptuoso, pois estão colocados sob a proteção da morte, que é uma potência sumamente licenciosa, como eu já lhe disse, engenheiro, naquela ocasião – lembro-me bem da expressão que usei; sempre guardo na memória as expressões precisas e incisivas que tive oportunidade de formular –, é uma potência dirigida contra a civilização, o progresso, o trabalho e a vida. E o mais nobre dever do educador é pôr as almas dos jovens ao abrigo das suas emanações mefíticas.
Seria impossível falar de forma mais clara e mais elegante do que o Sr. Settembrini acabava de fazer. Hans Castorp e Joachim Ziemssen agradeceram-lhe todos os conselhos, despediram-se e subiram até o portal do Berghof, ao passo que o Sr. Settembrini regressava à sua papeleira de humanista, um andar acima da cela forrada de seda do Sr. Naphta.
A visita dos primos à casa de Naphta, que acabamos de descrever, foi a primeira que lhe fizeram. Seguiram-se a ela duas ou três outras, uma até na ausência do Sr. Settembrini, e todas elas forneciam ao jovem Hans Castorp material para as suas reflexões, quando se deixava estar no seu retiro florido de azul e “reinava”, enquanto pairava ante seus olhos interiores aquela forma sublime que se chama Homo Dei.
Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante
Dessa forma veio o mês de agosto e, logo no seu princípio, o primeiro aniversário da chegada do nosso herói. Felizmente, a data passou despercebida. Ainda bem que foi assim. Hans Castorp pressentira-a com certo mal-estar. E isso era a regra ali em cima. Ninguém gostava do dia da chegada. Os veteranos e mesmo os pensionistas com apenas um ano de permanência não costumavam comemorá-lo. Se bem que normalmente se aproveitasse qualquer pretexto para
festividades e bebedeiras alegres, se bem que o número dos acentos gerais e importantes que marcavam o ritmo e a pulsação do ano fosse aumentado por muitíssimos outros de natureza privada e irregular, se bem que aniversários natalícios, exames médicos, iminências de partidas, quer autorizadas, quer “em falso”, dessem motivos para comezainas no restaurante e para festins regados a champanha, essa data habitualmente era relegada ao silêncio. Os pensionistas passavam por cima dela ou esqueciam-na realmente. Em todo caso, podiam-se fiar em que os outros tampouco a recordariam com muita precisão. Sem dúvida, era costume prestar atenção às subdivisões do tempo; observava-se o calendário, a sucessão, a volta de determinado dia. Mas medir e contar aquele tempo que para uma certa pessoa se associava ao espaço ali de cima – isto é, o tempo particular e individual – cabia a principiantes e a pacientes de curto prazo; os mais traquejados preferiam a imensidão, a eternidade despercebida, o dia que era sempre o mesmo, e cada um tinha suficiente delicadeza para supor nos demais o desejo que ele próprio alimentava.
Dizer a um enfermo: “Hoje faz três anos que o senhor está aqui”, seria julgado inábil e brutal.
Era coisa que não acontecia. A própria Srª. Stöhr, por maiores que fossem os seus defeitos, demonstrava nesse ponto bastante tato e polidez, de maneira que nunca cometeria tamanha gafe.