A mulher do viajante no tempo
Véspera de Natal, Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Passa um anúncio do Pizza Hut e Alicia tira o som.
— Ééé... Clare?
— Oi.
— Henry já esteve aqui antes?
Ih.
— Não, acho que não, por quê?
Ela muda de posição meio nervosa e olha para o outro lado por um segundo.
— Você vai pensar que sou louca.
— O quê?
— Olha, aconteceu uma coisa esquisita comigo. Há muito tempo, quando eu tinha uns 12 anos. Devia estar estudando, mas aí lembrei que não tinha nenhuma blusa limpa para uma audição ou algo assim. A Etta e todo mundo tinham saído, e o Mark devia ficar cuidando de mim, mas estava no quarto fumando narguilé ou sei lá o quê... Bom, aí fui lá embaixo na lavanderia procurar minha camisa e ouvi um barulho que parecia uma porta batendo com o vento, sabe? Tipo a porta do lado sul do porão, que dá para o quarto das bicicletas. Então achei que fosse Peter, certo? Eu estava parada na porta da lavanderia, meio que escutando, e aí a porta do quarto das bicicletas abre. Clare, você não vai acreditar, tinha um sujeito pelado olhando para mim que era a cara do Henry.
Meu riso soa falso.
— Ah, qualé.
Alicia ri.
— Viu, eu sabia que você ia achar isso uma loucura. Mas, juro, aconteceu mesmo. Então o cara só pareceu um pouco surpreso, sabe? E eu ali, parada de queixo caído e imaginando se esse cara pelado ia me estuprar ou sei lá, mas ele só me olha e diz “Ah, oi, Alicia.” Depois entra na Sala de Leitura e bate a porta.
— Hein?
— Então eu subo correndo e esmurro a porta do Mark. Ele diz para eu me mandar, mas finalmente consigo que ele abra. Ele está tão chapado que custa um pouco a entender o que digo. Aí, claro, não acredita em mim, mas afinal consigo que ele desça e bata na porta da Sala de Leitura. Nós dois
estamos com muito medo. É tipo Nancy Drew8, sabe, quando a gente pensa “Essas meninas são mesmo burras, deviam simplesmente chamar a polícia”. Como nada acontece, o Mark abre a porta e não tem ninguém. Ele fica furioso comigo por inventar isso. Então a gente acha que o homem subiu, e ficamos na cozinha sentados ao lado do telefone com o facão da Nell em cima da bancada.
— Como você nunca me contou isso?
— É que eu me senti meio idiota quando vocês chegaram em casa. E sabia que o papai ia dar muita importância para algo que realmente não foi nada... Mas também não teve graça, e eu não estava a fim de falar no assunto. — Alicia ri. — Perguntei a vovó uma vez se tinha fantasma na casa, mas ela disse não que ela soubesse.
— E o cara, ou o fantasma, era parecido com o Henry?
— Era! Juro, Clare, quase morri quando vocês entraram e eu vi o Henry, quer dizer, ele é o cara! Até a voz é igual. Bom, o que eu vi no porão tinha cabelo mais curto, e era mais velho, talvez já quarentão...
— Mas se aquele cara tivesse quarenta, e isso foi há cinco anos... Henry só tem 28, então teria 23 naquela época, Alicia.
— Ah, tá. Mas, Clare, é muito esquisito... Ele tem irmão?
— Não. O pai não é muito parecido com ele.
— Talvez fosse, sabe, projeção astral ou alguma coisa assim.
— Viagem no tempo — sugiro, sorrindo.
— Ah, tá bom... Meu Deus, que esquisito. — A tela de tevê fica preta por um momento, então estamos de volta com Donna em sua moita de hortênsias e Jimmy Stewart rondando com o roupão dela pendurado no braço. Está implicando com ela, dizendo que vai vender ingressos para vê-la. Que cafajeste, penso, e logo fico vermelha ao lembrar de coisas piores que rolaram com Henry envolvendo roupas e nudez. Mas aí vem um carro e Jimmy Stewart joga o roupão para Donna. “Seu pai teve um ataque cardíaco!”, diz alguém no carro, e lá vai ele mal olhando para trás, enquanto Donna Reed fica sozinha na moita. Fico com os olhos cheios d’água. — Nossa, Clare, tudo bem, ele vai voltar. — Alicia me lembra. Sorrio, e nos acomodamos para ver o sr. Potter provocando o pobre Jimmy Stewart a largar a faculdade e tocar uma instituição financeira fadada ao fracasso. — Filho da mãe — diz Alicia.
— Filho da mãe — concordo.
HENRY: Quando deixamos a noite gelada e entramos no calor iluminado da igreja, sinto um frio na barriga. Nunca havia ido a uma missa católica. A última vez que assisti a algum tipo de cerimônia religiosa foi o funeral de mamãe. Seguro o braço de Clare como um cego enquanto ela me guia pelo corredor central, e encontramos um banco vazio. Clare e sua família estão ajoelhados no estrado estofado. Eu me sento como Clare me disse para fazer. Chegamos cedo. Alicia desapareceu, e Nell está sentada atrás de nós com o marido e o filho, que está de licença da Marinha. Dulcie está sentada ao lado de uma contemporânea sua. Clare, Mark, Sharon e Philip estão ajoelhados lado a lado em atitudes variadas: Clare inibida, Mark pouco se importando, Sharon calma e concentrada, Philip exausto. A igreja está repleta de bicos-de-papagaio. Cheira a cera e casacos molhados. Há um presépio elaborado com Maria e José e companhia à direita do altar. As pessoas vão chegando, escolhendo um lugar, cumprimentando umas às outras. Clare desliza para o assento ao meu lado, seguida por Mark e Philip; Sharon continua ajoelhada mais um pouco. Logo estamos todos sentados em silêncio lado a lado, esperando. Um homem de terno sobe ao palco — altar ou lá o que seja — e testa os microfones que estão acoplados aos pequenos púlpitos de leitura, depois torna a desaparecer pelo fundo. Agora há muito mais gente, a igreja está lotada. Alicia, outras duas mulheres e um homem aparecem à esquerda do palco, trazendo seus instrumentos. A loura toca violino, e a baixinha de cabelo castanho é responsável pela viola; o homem, que é tão idoso que anda curvado e arrastando os pés, também toca violino. Estão todos de preto. Eles se sentam em suas cadeiras dobráveis, acendem a luz em cima do apoio das partituras, folheiam as páginas, tocam várias cordas e se entreolham, procurando um consenso. As pessoas de repente fazem silêncio e neste silêncio ouve-se uma nota longa, lenta e grave que enche a igreja. Uma nota que não para e não tem ligação com nenhuma música conhecida, apenas existe no ar. Alicia maneja o arco o mais lentamente possível, e parece que o som que produz vem do nada, que nasce na minha cabeça e ressoa pelo meu crânio como dedos afagando meu cérebro. Aí, para. O silêncio que se segue é breve, porém total. Então todos os quatro músicos entram em ação. Após a simplicidade daquela única nota, a música deles é dissonante, moderna e gritante. Penso que é algo de Bartok, mas aí distingo o que ouço e me dou conta de que tocam Noite Feliz. Não entendo por que soa tão esquisito até ver a violinista loura chutar a cadeira de Alicia e, após algum tempo, a música entra em foco. Clare me dá uma olhada e sorri. Todo mundo na igreja relaxa. Noite Feliz dá lugar a um hino que não reconheço. Todo mundo se levanta. As pessoas olham para o fundo da igreja, e o padre entra pela nave central com um grande séquito de garotinhos e alguns homens de terno. Eles marcham solenemente para a frente da igreja e tomam suas posições. A música para bruscamente. Ah, não, penso, e agora? Clare pega minha mão, e estamos ali, no meio do povo. Se Deus existe, então, Deus, deixe-me apenas ficar aqui em silêncio discretamente, aqui e agora, aqui e agora.
CLARE: Henry parece prestes a desmaiar. Meu Deus, por favor, não o deixe desaparecer agora. O padre Compton nos dá as boas-vindas com aquela sua voz de locutor de rádio. Meto a mão no bolso do casaco de Henry, enfio os dedos por um furo no fundo, acho seu pau e aperto. Ele pula como se tivesse recebido um choque elétrico. “O senhor esteja convosco”, diz o padre Compton. “E contigo também”, respondemos serenamente. A mesma coisa, tudo a mesma coisa. E, no entanto, cá estamos nós finalmente, para qualquer um ver. Sinto os olhos de Helen atravessando as minhas costas. Ruth está sentada cinco bancos atrás de nós, com o irmão e os pais. Nancy, Laura, Mary Christina, Patty, Dave e Chris, e até Jason Everleigh; parece que todos os meus colegas de escola estão aqui hoje. Olho para Henry, que está alheio a tudo isso. Está suando. Olha para mim, ergue uma sobrancelha. A missa prossegue. As leituras, Senhor, tende piedade de nós, A paz esteja convosco. Ficamos todos de pé para o evangelho de Lucas, Capítulo 2. Todo mundo no Império Romano viajando para suas cidades natais para pagar seus impostos, José e Maria, que estava grávida, o nascimento, milagroso, humilde. As faixas envolvendo o menino, a manjedoura. Isso nunca fez o menor sentido para mim, mas a beleza da imagem é inegável. Os pastores que estavam nos campos. O anjo: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo... Henry balança a perna de um jeito que me distrai. Está com os olhos fechados e mordendo o lábio. Multidões de anjos. O padre Compton entoa, “Mas Maria conservava todas essas palavras, meditando-as no coração”. “Amém”, dizemos, e nos sentamos para o sermão. Henry chega para mim e sussurra.
— Onde é o banheiro?
— Por aquela porta — digo, apontando para a porta por onde entraram Alicia, Frank e as outras.
— Como chego lá?
— Vá até o fundo da igreja e pegue a nave lateral.
— Se eu não voltar...
— Você tem que voltar. — Quando o Padre Compton diz “Nesta noite mais feliz de todas...”, Henry se levanta e se afasta rapidamente. Os olhos do padre o acompanham enquanto ele vai até o fundo, dá a volta e se encaminha para a porta. Observo quando Henry sai pela porta, que bate quando ele passa.
HENRY: Estou no que parece ser a galeria de uma escola primária. Não entre em pânico, digo a mim mesmo. Ninguém pode te ver. Esconda-se em algum lugar. Olho em volta, feito um louco, e há uma porta: MENINOS. Ao abrir, entro num banheiro masculino em miniatura, com cerâmica marrom e a louça pequena e baixinha, radiador que ruge e deixa mais forte o cheiro de sabão líquido. Abro a janela alguns centímetros e meto a cabeça acima da fresta. Há árvores sempre-verdes bloqueando qualquer chance de visão. O ar frio traz cheiro de pinheiro. Depois de alguns minutos, me sinto menos fraco. Deito no chão, encolhido, joelhos no queixo. Cá estou eu. Inteiro. Agora. Aqui neste chão de cerâmica marrom. Parece que é pedir muito ter continuidade. Claro, se Deus existe, ele quer que a gente seja bom, e é justo que ninguém precise de incentivos para ser bom. Mas se Clare é tão boa e até acredita em Deus, por que Ele decidiu que ela passasse vergonha na frente daquela gente toda... Abro os olhos. Toda a pequenina louça do banheiro brilha com uma aura que reflete as cores do arco-íris, uma aura que fica azul-celeste, verde e roxa. Estou resignado que vou partir, agora não tem como parar, estou tremendo.
— Não! — mas fui.
CLARE: O padre termina o sermão, que é sobre a paz mundial, e papai se inclina através de Sharon e Mark para sussurrar:
— Seu amigo está passando mal?
— Sim — sussurro de volta —, está com dor de cabeça, e às vezes isso deixa o Henry enjoado.
— Devo ir ver se posso ajudar?
— Não! Ele vai ficar bom. — Parece que papai não se convenceu, mas fica em seu banco. O padre está abençoando a hóstia. Tento conter meu desejo de sair correndo e ir eu mesma procurar Henry. Os primeiros bancos levantam para comungar. Alicia está tocando a suíte número 2 para violoncelo de Bach. É triste e linda. Volte, Henry. Volte.
HENRY: Estou ajoelhado na sala de meu apartamento em Chicago. Está escuro. Levanto trôpego e bato com o cotovelo na estante. “Porra!” É incrível. Nem consigo passar um dia inteiro com a família de Clare e fui sugado e cuspido na porra do meu apartamento feito uma bola de fliperama...
— Ei. — Viro e lá estou eu, quase dormindo sentado no sofá-cama.
— Que dia é hoje? — pergunto.
— 28 de dezembro de 1991. — Daqui a quatro dias.
Sento na cama.
— Não estou aguentando.
— Relaxe. Você vai voltar daqui a uns minutos. Ninguém vai notar. Você vai ficar perfeitamente bem durante o resto da visita.
— É?
— É. Pare de choramingar — diz meu eu, imitando perfeitamente o papai. Quero dar um soco nele, mas isso não iria levar a nada. Há um fundo musical tocando baixinho.
— Isso é Bach?
— Hein? Ah, sim, está na sua cabeça. É Alicia.
— Que esquisito. Ah! — corro até o banheiro e quase consigo chegar.
CLARE: As últimas pessoas estão comungando quando Henry entra pela porta, meio pálido, mas andando. Vai até o fundo, sobe a nave e se espreme para sentar no banco ao meu lado. “A missa terminou, ide em paz”, diz o padre Compton. “Amém”, respondemos. Os coroinhas se reúnem como peixes de um cardume em volta do padre e seguem alegremente pela nave. Todos nós saímos em fila atrás deles. Ouço Sharon perguntar a Henry se ele está bem, mas não ouço sua resposta porque Helen e Ruth nos interceptaram e estou apresentando Henry.
Helen dá um sorrisinho.
— Mas já nos conhecemos!
Henry me olha assustado. Balanço a cabeça negativamente para Helen, que mostra um sorriso falso.
— Talvez não — diz. — Prazer em te conhecer... Henry. — Ruth timidamente estende a mão a Henry. Ele pega sua mão um instante e diz — Olá, Ruth — antes de eu apresentar Ruth a ele, para minha surpresa. Até onde eu vejo, porém, ela não reconheceu Henry. Laura se junta a nós quando Alicia vem vindo, esbarrando nas pessoas com a caixa do violoncelo.
— Passem lá em casa amanhã — convida Laura. — Meus pais viajam para as Bahamas às quatro. — Todas concordamos com entusiasmo; todos os anos os pais de Laura vão para algum lugar tropical assim que os presentes acabam de ser abertos, e nós chegamos em bando assim que o carro deles vai embora. A gente se despede com um coro de “Feliz Natal!”. Quando passamos pela porta lateral da igreja e chegamos ao estacionamento, Alicia diz:
— Ih, eu sabia! — Há muita neve em toda parte, o mundo foi refeito branco. Fico parada olhando as árvores e os carros e, do outro lado da rua, para a direção do lago onde as águas batem, invisíveis, na praia embaixo da igreja no promontório. Henry fica comigo, esperando. Mark diz:
— Vamos, Clare — e vou.
HENRY: São mais ou menos 1h30 da manhã quando entramos na Meadowlark House. Durante toda a viagem de volta para casa, Philip ficou repreendendo Alicia pelo “erro” no início de Noite Feliz, e ela ficou quieta, olhando pela janela para as casas e árvores escuras. Todo mundo sobe para seus quartos após dizer “Feliz Natal” mais umas cinquenta vezes a não ser Alicia e Clare, que somem numa sala no fim do corredor do primeiro andar. Fico imaginando o que vou fazer até seguir as duas, num impulso.
— ...o maior babaca — está dizendo Alicia quando meto a cabeça pela porta. A sala é dominada por uma enorme mesa de bilhar que está iluminada pelo clarão intenso da lâmpada suspensa sobre ela. Clare junta as bolas enquanto Alicia anda de um lado para o outro no escuro junto ao limite da luz.
— Bom, se você deliberadamente tenta enfurecer o papai e ele se enfurece, não vejo por que fica tão perturbada — diz Clare.
— Ele é muito convencido — diz Alicia, socando o ar com as duas mãos. Tusso. As duas pulam e em seguida Clare diz:
— Ah, Henry, graças a Deus, achei que você fosse o papai.
— Quer jogar? — Alicia me pergunta.
— Não, vou só olhar.
Sento em um banco alto ao lado da mesa.
Clare entrega um taco a Alicia. Alicia passa giz nele e dá a primeira tacada, com força. Duas bolas listradas caem em caçapas de canto. Alicia mata mais duas antes de errar, por pouco, uma tabela.
— Ih — diz Clare. — Estou enrascada. — Clare mata uma lisa fácil, a bola 2, que estava na boca de uma caçapa de canto. Na tacada seguinte, manda a branca junto com a 3 para a caçapa. Alicia pesca as duas bolas e prepara a tacada. Acaba com as listradas sem nenhuma cerimônia.
— Bola 8, caçapa lateral — canta Alicia, e dito e feito.
— Ai — suspira Clare. — Tem certeza de que não quer jogar? — Ela me oferece seu taco.
— Vamos, Henry — diz Alicia. — Ei, algum de vocês quer beber alguma coisa?
— Não — diz Clare.
— O que tem? — pergunto. Alicia acende uma luz e surge um belo bar antigo no fim da sala. Alicia e eu nos agachamos atrás dele, e eis que ali há quase tudo o que posso imaginar em termos de bebida alcoólica. Alicia prepara para ela uma cuba-libre. Hesito diante de tanta fartura, mas finalmente me sirvo um uísque puro. Clare afinal decide tomar alguma coisa, e quando está esvaziando a forminha de gelo dentro de um copo para o seu Kahlua, a porta abre e todos gelamos.
É Mark.
— Cadê a Sharon? — pergunta Clare.
— Tranca essa porta — ordena Alicia.
Ele se vira, tranca a porta e vai para trás do bar.
— A Sharon está dormindo — diz, tirando uma Heineken do frigobar. Abre a garrafa e vai calmamente até a mesa. — Quem está jogando?
— Alicia e Henry — diz Clare.
— Hum. Ele foi avisado?
— Cale a boca, Mark — diz Alicia.
— Ela é o Jackie Gleason disfarçada — Mark me assegura.
Viro-me para Alicia.
— Deixe o jogo começar. — Clare torna a arrumar as bolas. Alicia dá a primeira tacada. O uísque afiou meus reflexos, e tudo está nítido e claro. As bolas explodem como fogos de artifício e fazem um novo desenho na mesa. A 13 vacila na boca de uma caçapa e cai.
— Listradas de novo — diz Alicia. Ela encaçapa a 15, a 12 e a 9 antes que uma sinuca a obrigue a tentar uma tabela impossível.
Clare está parada exatamente onde começa a luz, de modo que seu rosto está na sombra, mas seu corpo sai flutuando do escuro, com os braços cruzados no peito. Volto a atenção para a mesa. Já faz algum tempo que não jogo. Mato a 2, a 3 e a 6 facilmente, depois procuro alguma outra jogada para fazer. A 1 está bem na boca da caçapa de canto do outro lado da mesa, e mando a bola branca na 7, que derruba a 1. Mato a 4 numa caçapa lateral com uma tabela e coloco a 5 no canto do fundo com um golpe de sorte. Foi puro acaso, mas Alicia assobia de qualquer maneira. A 7 cai sem problema.
— A 8 no canto — indico com o taco, e lá entra ela.
— Ah, essa foi linda — diz Alicia. — Faz de novo — Clare está sorrindo no escuro.
— Não é o seu adversário habitual — diz Mark a Alicia.
— Estou muito cansada para me concentrar. E muito danada.
— Por causa do papai?
— É.
— Bom, se você o cutuca, ele cutuca de volta.
A expressão de Alicia azeda.
— Errar é humano.
— Por um minuto parecia Terry Riley — digo a Alicia.
Ela sorri.
— Era Terry Riley. Era de Salomé.
Clare ri.
— Como Salomé foi parar em Noite Feliz?
— É que eu achei que João Batista fosse uma ligação suficiente, e se você baixar uma oitava naquela parte do primeiro violino, fica bem bom, sabe, lá, lá, lá, LÁ...
— Mas você não pode culpar o papai por ter ficado furioso — diz Mark. — Ele sabe que você não tocaria algo daquela forma por acaso.
Preparo outra dose.
— O que o Frank disse? — pergunta Clare.
— Ah, ele gostou. Ficou tentando imaginar como fazer uma peça nova com aquilo, sabe, tipo Noite Feliz encontra Stravinsky. Pô, o Frank tem 87 anos, não se importa se eu faço besteira desde que ele se divirta. Mas a Arabella e a Ashley ficaram bastante nervosas com aquilo.
— Bom, não é muito profissional — diz Mark.
— Quem está ligando? É só a St. Basil, sabia? — Alicia me olha. — O que acha?
Hesito.
— Eu não ligo muito — digo finalmente. — Mas se meu pai ouvisse você fazer isso, ficaria muito zangado.
— É mesmo? Por quê?
— Ele tem essa ideia de que toda música deve ser tratada com respeito mesmo sendo uma que ele não goste muito. Quer dizer, ele não gosta de Tchaikovsky nem de Strauss, mas toca os dois com muita seriedade. Por isso ele é ótimo; toca toda música como se tivesse paixão por ela.
— Ah. — Alicia vai para trás do bar, prepara mais uma bebida para ela e reflete. — É, você tem sorte de ter um ótimo pai que gosta de alguma coisa além de dinheiro.
Estou atrás de Clare, correndo os dedos por sua espinha no escuro. Ela põe a mão atrás das costas e eu a seguro.
— Acho que você não diria isso se conhecesse minha família. Além do mais, seu pai dá a impressão de gostar muito de você.
— Não — ela balança a cabeça. — Ele só quer que eu seja perfeita na frente dos amigos dele. Não gosta nada. — Alicia junta as bolas para colocar em posição. — Quem quer jogar?
— Eu jogo — diz Mark. — Henry?
— Claro. — Mark e eu passamos giz em nossos tacos e nos encaramos através da mesa.
Dou a partida. A 4 e a 15 morrem.
— Lisas — canto, vendo a 2 perto da quina. Encaçapo a 2, depois erro a 3 completamente. Estou ficando cansado, e minha coordenação sente os efeitos do uísque. Mark joga com determinação mas sem estilo, e mata a 10 e a 11. Avançamos firmes e fortes, e em pouco tempo já matei todas as lisas. A 13 de Mark está na boca de uma caçapa de quina.
— Bola 8 — digo apontando para ela.
— Você sabe que perde se matar a bola de Mark — diz Alicia.
— Tudo bem — respondo. Lanço a branca lentamente pela mesa. Ela beija a bola 8 com amor e manda de mansinho em direção à 13, aí a 8 parece quase desviar da 13, como se estivesse sobre trilhos, e cai direitinho na caçapa. Clare ri, mas então a 13 vacila e cai.
— Ah, bem — digo. — O que o diabo dá o diabo leva.
— Boa partida — diz Mark.
— Nossa, onde aprendeu a jogar assim? — pergunta Alicia.
— Foi uma das coisas que aprendi na faculdade. — Junto com beber, inglês, poesia alemã e drogas. Guardamos os tacos e pegamos os copos e as garrafas.
— Em que se formou? — Mark destranca a porta e vamos juntos pelo corredor para a cozinha.
— Literatura inglesa.
— Como não foi música? — Alicia equilibra seu copo e o de Clare numa mão só ao abrir a porta da sala de jantar.
Rio.
— Você não iria acreditar em como sou pouco musical. Meus pais tinham certeza de que levaram para casa a criança errada do hospital.
— Deve ter sido um saco — diz Mark. — Pelo menos papai não pressiona você para ser advogada — diz ele a Alicia. Entramos na cozinha e Clare acende a luz.
— Também não pressiona você — retruca ela. — Você adora ser advogado.
— É, é o que quero dizer. Ele não obriga nenhum de nós a fazer o que não quer.
— Foi um saco? — Alicia me pergunta. — Eu ficaria encantada com isso.
— Bom, antes de minha mãe morrer, era tudo ótimo. Depois disso, tudo foi terrível. Se eu fosse um prodígio do violino, talvez... Sei lá. — Olho para Clare e dou de ombros. — De qualquer forma, papai e eu não nos damos bem. De jeito nenhum.
— Como assim?
Clare diz:
— Hora de dormir. — Ela quer dizer: já chega. Alicia está esperando uma resposta.
Viro o rosto para ela.
— Já viu uma foto da minha mãe? — Ela faz que sim com a cabeça. — Eu pareço com ela.
— E daí? — Alicia passa água nos copos. Clare seca um por um.
— E daí que ele não aguenta olhar para mim. Quer dizer, essa é só uma razão entre muitas.
— Mas...
— Alicia... — Clare tenta, mas Alicia é insistente.
— Mas ele é seu pai.
Sorrio.
— As coisas que você faz para irritar o seu pai são café pequeno comparadas ao que meu pai e eu já fizemos um com o outro.
— Por exemplo?
— Por exemplo, as muitas vezes que ele trancou a porta do nosso apartamento me deixando na rua, não importando o tempo lá fora. Como a vez em que joguei as chaves do carro dele no rio. Esse tipo de coisa.
— Por que fez isso?
— Eu não queria que ele destruísse o carro, e ele estava bêbado.
Alicia, Mark e Clare olham todos para mim e balançam a cabeça afirmativamente. Eles compreendem perfeitamente.
— Hora de dormir — diz Alicia, e todos saímos da cozinha e vamos para nossos quartos sem dizer mais nada, a não ser “Boa noite”.
CLARE: São 3h14, segundo meu despertador e estou prestes a me aquecer na cama fria quando a porta abre e Henry entra muito de mansinho. Puxo as cobertas para trás e ele pula na cama. A cama range enquanto nos acomodamos.
— Oi — sussurro.
— Oi — Henry sussurra em resposta.
— Isso não é uma boa ideia.
— Estava muito frio no meu quarto.
— Ah. — Henry toca em meu rosto, e tenho que conter um grito. Os dedos dele estão gelados. Esfrego seus dedos entre as mãos. Henry se afunda mais nos lençóis. Encosto nele, tentando me aquecer de novo.
— Está de meia? — pergunta ele baixinho.
— Estou. — Ele estica o braço e puxa as meias dos meus pés. Após alguns minutos, muitos rangidos e Shhs!, ficamos ambos nus.
— Aonde você foi, quando saiu da igreja?
— Ao meu apartamento. Por uns cinco minutos, a quatro dias de hoje.
— Por quê?
— Cansado. Tenso, acho eu.
— Não, por que lá?
— Sei lá. Uma espécie de mecanismo padrão. Os controladores de tráfego aéreo das viagens no tempo acharam que eu ficaria bem lá, talvez. — Henry enfia a mão em meu cabelo.
Está clareando lá fora.
— Feliz Natal — sussurro. Henry não responde, e fico acordada em seus braços pensando em multidões de anjos, ouvindo sua respiração moderada e meditando com o coração.
HENRY: Bem cedinho de manhã, levanto para dar uma mijada e, enquanto estou no banheiro de Clare urinando sonolento à luz da lâmpada noturna da Fada Sininho, ouço uma voz de menina dizer: “Clare?”. Antes que eu perceba de onde vem essa voz, uma porta que eu achava ser armário abre e me vejo pelado parado na frente de Alicia.
— Ah — ela sussurra enquanto pego uma toalha tarde demais e me cubro.
— Ah, oi, Alicia — sussurro, e ambos damos um sorriso amarelo. Ela entra em seu quarto e some tão bruscamente como chegou.
CLARE: Estou cochilando, ouvindo a casa despertar. Nell está na cozinha, cantando e batendo as panelas. Alguém passa pela minha porta no corredor. Olho e vejo que Henry está dormindo profundamente, e de repente me dou conta de que tenho que fazê-lo sair daqui sem ninguém ver.
Escapo dos braços de Henry e dos cobertores e saio da cama com cuidado. Pego minha camisola do chão e, quando estou enfiando pela cabeça, Etta diz:
— Clare! Levante, é Natal! — e mete a cabeça pela porta. Ouço Alicia chamar Etta e, quando acabo de passar a camisola pela cabeça, vejo Etta se afastar para responder a Alicia. Ao me virar para a cama, Henry não está mais lá. Chuto para debaixo da cama as calças de seu pijama que estavam caídas no tapete. Etta entra em meu quarto com seu roupão amarelo e as tranças sobre os ombros. Digo “Feliz Natal”, e ela me conta uma coisa sobre mamãe, mas não consigo ouvir direito porque imagino Henry surgindo na frente de Etta.
— Clare? — Etta está me olhando preocupada.
— Hein? Ah, desculpe. Acho que ainda estou dormindo.
— Tem café lá embaixo. — Etta está fazendo a cama. Parece intrigada.
— Eu faço isso, Etta. Pode descer. — Etta vai para o outro lado da cama. Mamãe mete a cabeça pela porta. Está bonita e serena após a tempestade de ontem à noite.
— Feliz Natal, querida.
Vou até ela para dar um beijo de leve no rosto.
— Feliz Natal, mamãe. — É muito difícil continuar furiosa com ela quando aparece assim normal, como minha linda mãezinha.
— Etta, quer descer comigo? — pergunta mamãe. Etta afofa os travesseiros com as mãos e as marcas de nossas cabeças somem. Ela me olha, levanta as sobrancelhas, mas não diz nada.
— Etta?
— Já vou... — Etta sai depressa atrás de mamãe. Fecho a porta e me encosto nela depois que as duas vão embora, justo a tempo de ver Henry sair rolando de baixo da cama. Ele se levanta e começa a vestir o pijama. Tranco a porta.
— Onde você estava? — sussurro.
— Embaixo da cama — Henry sussurra em resposta, como se fosse óbvio.
— O tempo todo?
— Sim. — Não sei por que, acho isso muito engraçado, e começo a rir. Henry tapa a minha boca com a mão, e começamos a chacoalhar de tanto rir, em silêncio.
HENRY: O dia de Natal é estranhamente calmo após o mar agitado de ontem. Todos nos reunimos em torno da árvore, inibidos dentro de nossos roupões e chinelos, e presentes são abertos com exclamações. Após efusivos agradecimentos de todos os lados, tomamos café. Há uma pausa e então temos o almoço de Natal, com grandes elogios para Nell e as lagostas. Todo mundo sorri, com boa educação e elegância. Somos um modelo de família feliz, um comercial para a burguesia. Somos tudo o que sempre desejei todos os dias de Natal quando estava no restaurante Luck Wok com papai e o sr. e a sra. Kim tentando fingir que me divertia enquanto todos os adultos observavam aflitos. Mas há uma tensão visível mesmo enquanto descansamos, bem alimentados, na sala depois do almoço, assistindo ao futebol americano na televisão, lendo os livros que nos demos ou tentando operar os presentes que exigem baterias e/ou montagem. É como se um cessar-fogo tivesse sido assinado em alguma das salas mais remotas da casa, e agora as partes estivessem se esforçando para respeitá-lo, pelo menos até amanhã, pelo menos até que chegue um novo carregamento de munição. Estamos todos representando, fingindo estar relaxados, encarnando a mãe, o pai, as irmãs, o irmão, o namorado, a noiva ideais. Então é um alívio quando Clare consulta o relógio, sai do sofá e diz:
— Vamos, está na hora de ir para a casa da Laura.
CLARE: A festa da Laura está a todo o vapor quando chegamos. Henry está tenso e pálido e parte para as bebidas alcoólicas tão logo tiramos nossos casacos. Ainda estou com sono do vinho que tomamos no almoço, e faço não com a cabeça quando ele me pergunta o que quero. Ele me traz uma Coca e segura uma cerveja como se dependesse dela para ficar em pé.
— Em hipótese alguma, me deixe sozinho para eu me virar — exige Henry, olhando por cima do meu ombro, e antes de eu ter tido tempo sequer de virar a cabeça, Helen está em cima da gente. Por um momento, há um silêncio constrangido.
— Então, Henry — diz Helen —, ouvimos dizer que você é bibliotecário. Mas não tem cara de bibliotecário.
— Na verdade, sou modelo de cuecas da Calvin Klein. A profissão de bibliotecário é só fachada.
Eu nunca havia visto Helen perplexa antes. Seria bom se eu tivesse uma câmera. Ela se recupera depressa, porém, olha Henry de alto a baixo e sorri.
— Tudo bem, Clare, pode ficar com ele — diz.
— Que alívio — digo a ela. — Perdi o recibo. — Laura, Ruth e Nancy vêm em nossa direção, decididas a nos interrogar: como nos conhecemos, o que Henry faz, em que faculdade estudou, blá-blá-blá. Nunca imaginei que minha aparição pública com Henry fosse ao mesmo tempo tão angustiante e tão chata. Volto a prestar atenção justamente quando Nancy diz:
— É muito esquisito o seu nome ser Henry.
— Ah? — diz Henry. — Por quê?
Nancy fala da noite em que dormimos na casa da Mary Christina, quando o jogo do copo disse que eu ia me casar com alguém chamado Henry. Ele parece impressionado.
— É mesmo? — Henry me pergunta.
— Hum, é. — De repente fico apertada para fazer pipi. — Com licença — digo, saindo do grupo e fingindo não ver a cara de súplica de Henry. Helen está no meu pé quando subo correndo. Tenho que fechar a porta do banheiro na cara dela para impedir que entre comigo.
— Abra, Clare — diz ela, girando a maçaneta da porta. Com toda a calma, faço pipi, lavo as mãos, passo batom. — Clare — resmunga Helen. — Vou lá embaixo contar ao seu namorado todas as coisas horríveis que você já fez na vida se não abrir essa porta imed... — Abro a porta e Helen quase cai para dentro do banheiro.
— Muito bem, Clare Abshire — diz Helen ameaçadora. Ela fecha a porta. Fico sentada na borda da banheira enquanto ela se encosta na pia, mais alto do que eu, de cima de seu salto alto. — Desembucha. O que está realmente acontecendo com você e esse Henry? Você só fica aí contando um montão de mentiras. Não conheceu esse cara há três meses, já conhece há anos! Qual é o grande segredo?
Não sei bem como começar. Devo contar a verdade a Helen? Não. Por que não? Até onde sei, Helen só viu Henry uma vez, e ele não tinha uma cara tão diferente assim da que tem agora. Adoro Helen. Ela é forte, maluca, difícil de enganar. Mas sei que não acreditaria em mim se eu dissesse: viagem no tempo, Helen. É preciso ver para crer.
— Tudo bem — digo, ficando esperta. — Sim, já conheço o Henry há muito tempo.
— Quanto?
— Desde os seis anos.
Os olhos de Helen se arregalam como os de um personagem de desenho animado. Rio.
— Ora... como pode... bem... há quanto tempo namora com ele?
— Sei lá. Quer dizer, houve uma época em que as coisas estavam mais ou menos perto de acontecer, mas ainda não havia nada exatamente rolando, sabe. Ou seja, Henry tinha posto na cabeça que não iria mexer com uma garotinha, então eu fiquei desesperadamente fissurada nele...
— Mas... como a gente nunca soube dele? Não vejo por que tanto mistério. Você podia ter me contado.
— Bom, você meio que sabia. — Essa foi péssima, eu sei.
Helen parece magoada.
— Não é a mesma coisa que você me contar.
— Eu sei. Sinto muito.
— Ora. Então qual é o lance?
— É que ele é oito anos mais velho que eu.
— E daí?
— Daí que quando eu tinha 12 anos e ele tinha vinte, era um problema. — Sem falar em quando eu tinha seis e ele quarenta.
— Continuo sem entender. Quer dizer, dá para entender você não querer que seus pais soubessem que brincava de Lolita com esse Humbert Humbert, mas não compreendo por que não podia contar pra gente. A gente teria dado o maior apoio. Quer dizer, passamos esse tempo todo com pena de você, preocupadas com você, e imaginando por que você era tão freira... — Helen balança a cabeça. — E lá estava você, trepando com Mário, o Bibliotecário, o tempo todo...
Não consigo evitar ficar vermelha.
— Eu não estava trepando com ele o tempo todo.
— Ah, qualé.
— Verdade! Esperamos até eu ter 18 anos. Fizemos no dia do meu aniversário.
— Mesmo assim, Clare — começa Helen, mas alguém bate com força na porta do banheiro, e uma voz de homem pergunta:
— Vocês estão quase acabando aí, garotas?
— Fica para os próximos capítulos — Helen sussurra para mim quando saímos do banheiro, recebendo os aplausos dos cinco sujeitos esperando em fila no corredor.
Encontro Henry na cozinha, ouvindo pacientemente um dos inacreditáveis amigos jogadores de Laura que não para de falar sobre futebol. A sua namorada loura de nariz pequeno me vê e arrasta o cara para pegar mais uma bebida.
Henry diz:
— Olhe, Clare... Punks mirins! — Olho para quem ele está apontando: Jodie, a irmã de 14 anos de Laura, e seu namorado Bobby Hardgrove. Bobby tem o cabelo verde com um corte moicano e o típico uniforme punk
– camiseta rasgada cheia de alfinetes. Jodie tenta ficar igual a Lydia Lunch, 9 mas em vez disso fica parecendo um guaxinim que dormiu de pelo molhado. Eles estão mais para uma festa de Halloween do que uma de Natal. Parecem deslocados e estão na defensiva. Mas Henry se entusiasma.
— Uau. Que idade eles têm, uns 12?
— Catorze.
— Vamos ver, tirando 14 de 91, eles... caramba, eles nasceram em 1977. Me sinto um velho. Preciso de mais uma bebida. — Laura passa pela cozinha com uma bandeja de coquetéis de gelatina. Henry pega dois e engole um atrás do outro, depois faz uma careta. — Eca. Que horror. — Rio. — O que acha que eles ouvem? — diz Henry.
— Sei lá. Por que você não vai perguntar a eles?
Henry fica assustado.
— Ah, não dá. Iria assustá-los.
— Acho que é você que está assustado com eles.
— Bom, vai ver que você tem razão. Eles parecem tão tenros, jovens e verdes, feito brotos de ervilha ou coisa assim.
— Você já se vestiu desse jeito?
Henry ri com sarcasmo.
— O que é que você acha? Claro que não. Essa criançada está imitando o punk inglês. Eu sou punk americano. Não, em geral eu andava mais num
estilo Richard Hell.10
— Por que não vai falar com eles? Eles parecem solitários.
— Você tem que vir nos apresentar e ficar de mão dada comigo. — Atravessamos a cozinha com cautela, como Lévi-Strauss se aproximando de um par de canibais. Jodie e Bobby parecem dois cervos que não sabem se fogem ou lutam, do tipo que se vê em documentários sobre o mundo animal.
— Ééé... oi, Jodie, Bobby.
— Oi, Clare — diz Jodie. Conheço Jodie desde que ela nasceu, mas, de repente, ela fica tímida. Acho que o traje neopunk deve ser ideia de Bobby.
— Vocês estavam com uma cara meio chateada, então eu trouxe o Henry aqui para conhecer vocês. Ele... ele gosta das suas roupas.
— Oi — diz Henry, muito envergonhado. — Eu só estava curioso, quer dizer, me perguntando o que é que vocês ouvem.
— Ouvem? — repete Bobby.
— É, de música. De que tipo de música vocês gostam?
Bobby se anima.
— Bom, dos Sex Pistols — diz e faz uma pausa.
— Claro — diz Henry, concordando com a cabeça. — Do Clash?
— É. E, ééé... do Nirvana...
— O Nirvana é bom — diz Henry.
— Do Blondie? — diz Jodie, como se sua resposta pudesse estar errada.
— Eu gosto do Blondie — digo. — E o Henry gosta da Deborah Harry.
— Ramones? — diz Henry. Eles fazem que sim com a cabeça ao mesmo tempo. — E a Patti Smith? — a cara de Jodie e Bobby fica inexpressiva.
— Iggy Pop?
Bobby faz que não com a cabeça.
— Pearl Jam — sugere.
Intervenho.
— Aqui não tem uma rádio que seja muito boa — digo a Henry. — Não tem como eles descobrirem essas coisas.
— Ah — diz Henry. Faz uma pausa. — Olha, vocês querem que eu anote algumas coisas para vocês? Para ouvirem? — Jodie dá de ombros. Bobby faz que sim com a cabeça, com uma cara séria e empolgada. Cato papel e caneta na bolsa. Henry senta à mesa da cozinha, e Bobby senta à sua frente. — Tudo bem — diz Henry. — Você tem que voltar aos anos 60, ok? Começa com o Velvet Underground, em Nova York. Aí, aqui em Detroit, tem o MC5 e Iggy Pop e os Stooges. Depois, voltando a Nova York, tinha New York Dolls, Heartbreakers...
— Tom Petty? — diz Jodie. — A gente já ouviu falar.
— Ahn, não, essa era uma banda totalmente diferente — diz Henry. — Quase todos eles morreram nos anos 80.
— Desastre de avião? — pergunta Bobby.
— Heroína — corrige Henry. — De qualquer forma, tinha o Television, e Richard Hell e os Voidoids, e a Patti Smith.
— Talking Heads — acrescento.
— Hmm. Sei lá. Você acha que eles são mesmo punks?
— Eles estavam lá.
— Tudo bem. — Henry os inclui na lista. — Talking Heads. Aí a gente vai para a Inglaterra...
— Pensei que o punk tivesse começado em Londres — diz Bobby.
— Não. Claro — diz Henry empurrando a cadeira para trás —, algumas pessoas, inclusive eu, acham que o punk é só a manifestação mais recente disso, desse espírito, desse sentimento, sabe, de que as coisas estão tão erradas que o único jeito é ficar repetindo foda-se bem alto até alguém parar a gente.
— Sim — diz Bobby tranquilamente, o cara brilhando com um fervor quase religioso embaixo do cabelo espetado. — Sim.
— Você está corrompendo um menor — digo a Henry.
— Ah, ele iria chegar lá de qualquer maneira sem mim, não?
— Ando tentando, mas aqui não é fácil.
— Deu para perceber — diz Henry. Ele está aumentando a lista. Olho por cima de seu ombro. Sex Pistols, Clash, Gang of Four, Buzzcocks, Dead Kennedys, X, Mekons, Raincoats, Dead Boys, New Order, Smiths, Lora Logic, Au Pairs, Big Black, PiL, Pixies, Breeders, Sonic Youth...
— Henry, eles não vão conseguir arranjar nada disso aqui. — Ele faz que sim com a cabeça, e anota o telefone e o endereço do Vintage Vinyl no pé da página.
— Você tem toca-discos, certo?
— Meus pais têm — diz Bobby. Henry trava.
— Do que você gosta de verdade? — pergunto a Jodie.
Tenho a impressão de que ela ficou fora da conversa durante o ritual de camaradagem masculina entre Henry e Bobby.
— Prince — ela admite.
Henry e eu deixamos escapar um grande U-hu! Começo a cantar 1999 o mais alto que posso, Henry dá um pulo da cadeira e estamos os dois rebolando pela cozinha. Laura ouve e corre para pôr o disco propriamente dito e assim, do nada, a festa faz jus ao nome.
HENRY: Estamos voltando para a casa dos pais de Clare da festa de Laura. Clare diz:
— Você está muito calado.
— Eu estava pensando naqueles garotos. Os punks mirins.
— Ah, sim. Pensando o quê?
— Eu estava imaginando o que fez aquele garoto...
— Bobby.
— ...Bobby, voltar para trás, se amarrar numa música que foi feita no ano em que ele nasceu...
— Bom, eu gostava mesmo dos Beatles — ressalta Clare. — Eles se separaram um ano antes de eu nascer.
— Pois é, como é que é isso? Você tinha que ficar de quatro pelo Depeche Mode ou o Sting, alguém assim. O Bobby e a namorada deviam ouvir Cure se querem se fantasiar. Mas, em vez disso, eles caíram nesse movimento, o punk, de que não sabem nada...
— Tenho certeza de que é principalmente para irritar os pais. A Laura estava me contando que o pai dela não deixa a Jodie sair de casa vestida daquele jeito. Ela põe tudo na mochila e muda de roupa no banheiro da escola — diz Clare.
— Mas era isso o que todo mundo fazia, naquela época. Quer dizer, tem a ver com afirmação do individualismo, eu entendo isso, mas por que eles estão afirmando o individualismo de 1977? Eles deviam estar usando flanela xadrez.
— Por que você liga para isso? — diz Clare.
— Isso me deprime. Serve para lembrar que o momento a que eu pertencia já era e, além do mais, foi esquecido. Nenhuma dessas músicas toca no rádio, não entendo por quê. É como se isso nunca tivesse acontecido. Por isso fico empolgado quando vejo a molecada se fingindo de punks, porque não quero que isso tudo simplesmente desapareça.
— Bom — diz Clare —, você sempre pode voltar para trás. A maioria das pessoas é colada no presente; já você consegue voltar ao passado várias vezes.
Penso sobre isso.
— Isso só é triste, Clare. Mesmo quando consigo fazer alguma coisa legal, como, digamos, ir a um show que perdi da primeira vez, talvez de uma banda que se desfez ou de alguém que morreu, é triste assistir porque sei o que vai acontecer.
— Mas como isso é diferente do resto da sua vida?
— Não é.
Clare entra na estrada particular que leva a sua casa.
— Henry?
— Sim?
— Se você pudesse parar, agora... se pudesse não viajar mais no tempo, e não houvesse nenhuma consequência, você pararia?
— Se eu pudesse parar agora e ainda assim conhecer você?
— Você já me conheceu.
— Sim. Eu pararia. — Olho para Clare, difícil de ver no carro escuro.
— Seria engraçado — diz ela. — Eu teria essas lembranças todas que você nunca conseguiria ter. Seria como... bem, é como estar com uma pessoa com amnésia. Ando com essa sensação desde que chegamos aqui.
Rio.
— Então, no futuro, você vai me ver participando de cada lembrança sua, até eu ter o conjunto completo de todas elas. Complete já a sua coleção!
Ela sorri.
— Acho que sim. — Clare estaciona na entrada de veículos em frente à casa. — Lar doce lar.
Mais tarde, subimos furtivamente para nossos quartos separados. Visto meu pijama, escovo os dentes e vou sorrateiro para o quarto de Clare. Dessa vez me lembro de trancar a porta. Quando estamos quentinhos na cama estreita, ela sussurra:
— Eu não queria que você perdesse.
— Perdesse o quê?
— Tudo o que aconteceu quando eu era criança. É que, até agora, tudo só aconteceu pela metade, porque você ainda não está presente. Então, quando acontecer com você, aí é real.
— Eu estou a caminho.
Vou correndo a mão pela barriga dela e descendo entre suas pernas. Clare grita.
— Shhh.
— Sua mão está gelada.
— Desculpe.
Trepamos com cuidado, silenciosamente. Quando finalmente gozo, é tão intenso que fico com uma dor de cabeça horrível e, por um minuto, temo desaparecer, mas não desapareço. Em vez disso, fico nos braços de Clare, vesgo de dor. Clare ronca como um bichinho, mas para mim os roncos parecem tratores passando sobre minha cabeça. Quero a minha cama, na minha casa. Lar doce lar. Não há lugar como a nossa casa. Take me home, country roads. Lar é onde está o coração. Mas meu coração está aqui. Então devo estar em casa. Clare suspira, vira a cabeça e fica quieta. Ei, querida, cheguei. Cheguei em casa.
CLARE: Está uma manhã clara e fria. Já tomamos o café. O carro está carregado. Mark e Sharon já foram para o aeroporto de Kalamazoo com papai. Henry está no hall se despedindo de Alicia; corro até o quarto de mamãe lá em cima.
— Ah, já é tão tarde assim? — pergunta ela quando me vê de casaco e botas. — Pensei que fossem ficar para o almoço. — Mamãe está sentada na escrivaninha dela, que vive repleta de papéis cobertos com sua letra extravagante.
— Em que você está trabalhando? — Seja lá o que for, está cheio de palavras riscadas e rabiscos.
Mamãe vira o papel para baixo. Ela é muito misteriosa em relação ao que escreve.
— Nada. É um poema sobre o jardim debaixo de neve. Não está fluindo nada bem. — Mamãe se levanta, vai até a janela. — Engraçado como os poemas nunca são tão bonitos quanto o jardim de verdade. Os meus, pelo menos.
De fato não posso comentar isso porque mamãe nunca me deixou ler um poema dela, então digo:
— Bom, o jardim está lindo — e ela faz um gesto dispensando o elogio. Eles nada significam para mamãe, ela não acredita em elogio. Só críticas conseguem animar seu rosto e chamar sua atenção. Se eu dissesse algo depreciativo, ela se lembraria sempre. Há uma pausa constrangedora. Percebo que ela está esperando que eu saia para poder voltar a escrever.
— Tchau, mamãe. — digo. Beijo seu rosto frio e dou no pé.
HENRY: Já estamos viajando há mais ou menos uma hora. Por muitos quilômetros, havia pinheiros ladeando a estrada; agora a terra é plana, cheia de cercas de arame farpado. Nenhum de nós fala já tem algum tempo. Quando reparo nisso, o silêncio é estranho, então digo alguma coisa.
— Não foi tão ruim assim. — Minha voz está alegre demais, alta demais no carro pequeno. Clare não responde, e olho para ela. Ela está chorando; as lágrimas descem pelo rosto enquanto ela dirige, fingindo não chorar. Nunca vi Clare chorar antes, e alguma coisa no jeito impassível com que chora silenciosamente me dá nos nervos. — Clare? Clare, você podia... podia encostar o carro um minutinho? — Sem olhar para mim, ela diminui e vai para o acostamento, onde para. Estamos em algum ponto de Indiana. O céu está azul e há muitos corvos no campo à beira da estrada. Clare encosta a cabeça no volante e respira fundo, com dificuldade.
— Clare. — Ela está de rosto virado quando falo. — Clare, sinto muito. Foi... eu fiz alguma cagada? O que aconteceu? Eu...
— Não é você — diz ela escondida pelos cabelos. Passamos minutos sentados assim.
— Então o que houve? — Clare faz que não com a cabeça, e eu fico olhando para ela. Finalmente arranjo coragem para tocar nela. Afago sua cabeça e sinto os ossos do pescoço e da espinha debaixo da onda de cabelo reluzente. Ela vira e dou um abraço desajeitado através dos bancos separados. Clare começa a chorar muito, sacudindo os ombros.
Depois fica quieta e aí diz:
— Desgraçada da mamãe.
Mais tarde, estamos parados num engarrafamento na Via Expressa Dan Ryan, ouvindo Irma Thomas.
— Henry? Isso foi... você se importou muito?
— Com o quê? — pergunto, pensando no choro de Clare.
Mas ela diz:
— Minha família? Eles... eles pareciam...?
— Eles foram ótimos, Clare. Gostei muito deles. Especialmente da Alicia.
— Às vezes simplesmente tenho vontade de jogar todos eles no lago Michigan e ver afundar.
— Hmm, sei como é. Ei, acho que seu pai e seu irmão já me viram antes. E a Alicia disse uma coisa muito estranha quando a gente estava indo embora.
— Eu vi você com o papai e o Mark uma vez. E a Alicia com certeza te viu no porão um dia quando tinha 12 anos.
— Isso vai dar problema?
— Não, porque a explicação é estranha demais para alguém acreditar. — Nós dois rimos, e a tensão que veio no carro conosco até Chicago desaparece. O tráfego começa a acelerar. Logo Clare para em frente ao meu prédio. Pego minha mochila na mala e olho Clare indo embora, descendo a Dearborn, e sinto um aperto na garganta. Horas depois, identifico o que estou sentindo como solidão, e o Natal termina oficialmente por mais um ano.
6 “Sonho com um Natal branco”, primeiro verso da canção “White Christmas”, de 1940, composta por Irving Berlin e celebrizada na voz de Bing Crosby. (N. da T.)
7 Citação à primeira estrofe do poema “To His Coy Mistress”, de Andrew Marvell. (N. da T.)
8 Personagem de uma série infantojuvenil de mistério. (N. da T.)
9 Cantora importante do cenário punk de Nova York dos anos 70 e 80. (N. da T.)
10 Pioneiro do punk americano, vocalista da banda Richard Hell & The Voidoids. (N. da T.)
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