A Origem das Espécies
Capitulo IV
A seleção natural ou a persistência do mais apto
-A seleção natural; comparação do seu poder com o poder seletivo do homem; sua influência sobre os caracteres de pouca importância: sua influência em todas as idades e sobre os dois sexos.
-Seleção sexual.
-Circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis à seleção natural, tais como cruza mentos, isolamento, número de indivíduos.
-Ação lenta.
-Extinção causada pela seleção natural.
-Divergência de caracteres nas suas relações com a diversidade dos habitantes de uma região limitada e com a aclimatação.
-Ação da seleção natural sobre os descendentes de um tipo comum resultando da divergência dos caracteres.
-A seleção natural explica o agrupamento de todos os seres organizados; os pro-gessos do organismo; a persistência das formas inferiores; a convergência dos caracteres; a multiplicação indefinida das espécies.
-Resumo.
Que influência tem sobre a variabilidade esta luta pela existência que acabam os de descrever tão abreviadam ente? O princípio da seleção, que vem os tão poderoso entre as m ãos do hom em , aplica-se ao estado selvagem ? Provarem os que se aplica de um a m aneira m uito eficaz. Lem brem os o núm ero infinito de variações ligeiras, de sim ples diferenças individuais, que se apresentam nas nossas produções dom ésticas e, num grau inferior, nas espécies no estado selvagem ; lem brem os tam bém a força das tendências hereditárias. No estado dom éstico, pode dizer-se que todo o organism o inteiro se torna de certa form a plástico. Mas, com o Hooker e Asa Gray o fizeram notar, a variabilidade que observam os entre todas as nossas produções dom ésticas não é obra direta do hom em . O hom em não pode produzir nem im pedir as variações; pode apenas conservar e acum ular as que se lhe apresentam . Expõe, sem intenção, os seres organizados a novas condições de existência e às variações que daí resultam ; ora, m udanças análogas podem e devem m esm o apresentar-se no estado selvagem . Lem bre-se tam bém com o são com plexas, com o são estreitas as relações m útuas de todos os seres organizados uns com os outros e com as condições físicas da vida, e, por conse- 94
qüência, que vantagem pode cada um deles tirar de diversidades de conform ação infinitam ente variadas, sendo dadas as condições de vida diferentes. Há razão para adm irações, quando vem os que variações úteis ao hom em são certam ente produzidas, que outras variações, úteis ao anim al na grande e terrível batalha da vida, se produziram no decorrer de num erosas gerações? Se se adm ite este fato, poderem os duvidar (é preciso lem brar que nascem m ais indivíduos do que aqueles que podem viver) que os indivíduos possuindo um a vantagem qualquer, por m ais ligeira que sej a, tenham probabilidade de viver e de reproduzir-se? Podem os estar certos, por outro lado, que toda a variação, por m enos nociva que sej a ao indivíduo, traz forçosam ente o desaparecim ento deste. Dei o nom e de seleção natural ou de persistência do m ais apto à conservação das diferenças e das variações individuais favoráveis e à elim inação das variações nocivas. As variações insignificantes, isto é, que não são nem úteis nem nocivas ao indivíduo, não são certam ente afetadas pela seleção natural e perm anecem no estado de elem entos variáveis, com o as que podem os observar em certas espécies polim orfas, ou term inando por se fixar, graças à natureza do organism o e às das condições de existência. Muitos escritores têm com preendido m al, ou criticado m al, este term o de seleção natural. Uns têm m esm o im aginado que a seleção natural traz a variabilidade, visto que envolve som ente a conservação das variações acidentalm ente produzidas, quando são vantaj osas ao indivíduo nas condições de existência em que se encontra colocado. Ninguém protesta contra os agricultores, quando falam dos poderosos efeitos da seleção efetuada pelo hom em ; ora, neste caso, é indispensável que a natureza produza a principio diferenças individuais que o hom em escolhe para um fim determ inado. Outros têm pretendido que o term o seleção envolve um a escolha consciente da parte dos anim ais que se m odificam , e tem -se m esm o argum entado que não possuindo as plantas qualquer vontade, a seleção natural não lhe é aplicável. No sentido literal da palavra, não há dúvida que o term o seleção natural é um term o errôneo; m as, quem tem criticado os quím icos, por que se servem do term o afinidade eletiva falando dos diferentes elem entos? Contudo, não pode dizer-se, estritam ente falando, que o ácido escolhesse a base com
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a qual se com bina de preferência. Diz-se que falo da seleção natural com o de um a potência ativa ou divina; m as quem critica um autor quando fala da atração ou gravitação, com o regendo o m ovim ento dos planetas? Todos sabem o que significam , o que querem exprim ir estas expressões m etafóricas necessárias à clareza da discussão. É tam bém m uito difícil evitar personificar o nom e natureza; m as, por natureza, entendo som ente a ação com binada e os resultados com plexos de um grande núm ero de leis naturais; e, por leis, a série de fatos que tem os reconhecido. No fim de algum tem po ser-nos-ão fam iliares estes term os e esquecerem os estas críticas inúteis. Com preenderem os m elhor a aplicação da lei da seleção natural tom ando para exem plo um país subm etido a quaisquer ligeiras alterações físicas, um a alteração clim atérica, por exem plo. O núm ero proporcional dos seus habitantes m uda quase im ediatam ente tam bém , e é provável que algum as espécies se extingam . Podem os concluir do que tem os visto relativam ente às relações com plexas e últim as que ligam entre si os habitantes de cada país, que toda a alteração na proporção num érica dos indivíduos de um a espécie afeta seriam ente todas as outras espécies, sem falar na influência exercida pelas m odificações do clim a. Se este país está aberto, novas form as aí penetram certam ente, e esta em igração tende ainda a alterar as relações m útuas de seus antigos habitantes. Lem brem o-nos, a este respeito, qual tem sido sem pre a influência da introdução de um a só árvore ou de um m am ífero num país. Mas se se trata de um a ilha, ou de um país rodeado de barreiras intransitáveis, na qual, por conseqüência, novas form as m ais bem adaptadas às m odificações do clim a não podem penetrar facilm ente, encontra-se então, na econom ia da natureza, qualquer lugar que seria m ais bem preenchido se alguns dos habitantes originais se m odificassem de um a m aneira ou de outra, pois que, se o país estava aberto, estes lugares seriam ocupados pelos em igrantes. Neste caso, ligeiras m odificações, favoráveis em qualquer grau que sej a aos indivíduos de um a espécie, adaptando-as m elhor a novas condições am bientes, tenderiam a perpetuar-se, e a seleção natural teria assim m ateriais disponíveis para com eçar a sua obra de aperfeiçoam ento.
Tem os boas razões para acreditar, com o o dem onstram os no prim eiro capí- 96
tulo, que as alterações das condições de existência tendem a aum entar a faculdade à variabilidade. Nos casos que acabam os de citar, tendo m udado as condições de existência, o terreno é então favorável à seleção natural, porque oferece m ais probabilidades para a produção de variações vantaj osas, sem as quais a seleção natural nada pode. É necessário j am ais esquecer, que no term o variação, com preendo as sim ples diferenças individuais. O hom em pode produzir grandes alterações nos seus anim ais dom ésticos e nas suas plantas cultivadas, acum ulando as diferenças individuais num a dada direção; a seleção natural pode obter os m esm os resultados, m as m uito m ais facilm ente, porque a sua ação pode prolongar-se por um lapso de tem po m ais considerável. Além disso, não acredito que sej am necessárias grandes m udanças físicas, tais com o m udanças clim atéricas, ou que um país estej a particularm ente isolado e ao abrigo da im igração, para que os lugares livres se tornem produtivos e que a seleção natural os faça ocupar m elhorando alguns dos organism os variáveis. Com efeito, com o todos os habitantes de cada país lutam com arm as quase iguais, basta um a m odificação m uito ligeira na conform ação ou nos hábitos de um a espécie para dar-lhe superioridade sobre as dem ais. Outras m odificações da m esm a natureza poderão aum entar ainda esta superioridade, por tão longo tem po quanto a espécie se encontrar nas m esm as condições de existência e gozar dos m esm os m eios para se nutrir e defender. Não se poderia citar país algum cuj os habitantes indígenas estej am atualm ente tão perfeitam ente adaptados uns aos outros, tão absolutam ente em relação com as condições físicas que os rodeiam , que não haj a lugar para qualquer aperfeiçoam ento; porque, em todos os países, as espécies nativas têm sido tão com pletam ente vencidas pelas espécies aclim atadas, que têm deixado algum as destas estranhas tom ar definitivam ente posse do solo. Ora, tendo as espécies estranhas vencido assim , em cada país, algum as espécies indígenas, pode concluir-se que estas últim as poderiam m odificar-se com vantagem , de form a a m elhor resistir às invasoras.
Desde que o hom em pode obter e certam ente obteve grandes resultados por m eios m etódicos e inconscientes de seleção, onde pára a ação da seleção natural? O hom em pode apenas agir sobre os caracteres exteriores e visíveis. A
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natureza, se m e perm item personificar com este nom e a conservação natural ou a persistência do m ais apto, não se ocupa de m odo algum das aparências, a não ser que a aparência tenha qualquer utilidade para os seres vivos. A natureza pode atuar sobre todos os órgãos interiores, sobre a m enor diferença de organização, sobre todo o m ecanism o vital. O hom em tem apenas um fim : escolher para vantagem de si próprio; a natureza, ao contrário, escolhe para vantagem do próprio ser. Dá pleno exercício aos caracteres que escolhe, o que im plica o fato único da sua seleção. O hom em reúne num m esm o país as espécies provindas de m uitos clim as diferentes; exercita raram ente de um a form a especial e conveniente os caracteres que escolheu; dá a m esm a atenção aos pom bos de bico longo e aos pom bos de bico curto; não exercita de m aneira diferente o quadrúpede de longas patas e o de patas curtas; expõe às m esm as influências clim atéricas os carneiros de lã com prida e os de lã curta. Não perm ite aos m achos m ais vigorosos lutar pela posse das fêm eas. Não destrói rigorosam ente todos os indivíduos inferiores; protege, ao contrário, cada um deles, tanto quanto pode, durante todas as estações. Muitas vezes com eça a seleção escolhendo algum as form as sem im onstruosas, ou, pelo m enos, prendendo-se a qualquer m odificação assaz aparente para atrair a sua atenção ou para lhe ser im ediatam ente útil. No estado de natureza, ao contrário, a m enor diferença de conform ação ou de constituição pode bastar para fazer pender a balança na luta pela existência e perpetuar-se assim . Os desej os e os esforços do hom em são tão vários! A sua vida é tão curta! Com o devem ser tam bém im perfeitos os resultados que ele obtém quando os com para àqueles que a natureza pode acum ular durante longos períodos geológicos! Podem os nós adm irar-nos então que os caracteres das produções da natureza sej am m uito m ais nítidos do que os das raças dom ésticas do hom em ? Que de extraordinário pode haver em que estas produções naturais sej am infinitam ente m elhor adaptadas às condições com plexas da existência, e que tragam contudo o selo de um a obra m uito m ais com pleta?
Pode dizer-se, m etaforicam ente, que a seleção natural procura, a cada instante e em todo o m undo, as variações m ais ligeiras; repele as que são nocivas, conserva e acum ula as que são úteis; trabalha em silêncio, insensivelm ente, por
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toda a parte e sem pre, desde que a ocasião se apresente para m elhorar todos os seres organizados relativam ente às suas condições de existência orgânicas e inorgânicas. Estas transform ações lentas e progressivas escapam -nos até que, no decorrer das idades, a m ão do tem po as tenha m arcado com o seu sinete e então dam os tão pouca conta dos longos períodos geológicos decorridos, que nos contentam os em dizer que as form as viventes são hoj e diferentes do que foram outrora. Para que m odificações im portantes se produzam num a espécie, é necessário que um a variedade, um a vez form ada, apresente de novo, depois de longos séculos talvez, diferenças individuais entregando à natureza útil aquelas que se têm apresentado de princípio; é necessário, por outra parte, que estas diferenças se conservem e se renovem ainda. Diferenças individuais da m esm a natureza se reproduzem constantem ente; é então quase certo que as coisas se passam deste m odo. Mas, em sum a, só podem os afirm ar este fato assegurando-nos se esta hipótese concorda com os fenôm enos gerais da natureza e os explica. Por outro lado, a crença geral de que a som a de variações, possíveis é um a quantidade estritam ente lim itada, é tam bém um a sim ples asserção hipotética. Posto que a seleção natural só possa atuar com vantagem para cada ser vivo, não é m enos verdade que caracteres e conform ações, que estam os dispostos a considerar com o tendo um a im portância m uito secundária, podem ser o obj eto da sua ação. Quando vem os os insetos que se nutrem de folhas revestir quase sem pre um a cor verde, os que se nutrem da casca um a cor cinzenta, o ptarmigar dos Alpes tornar-se branco no Inverno, e o galo m ontês apresentar as penas cor de urze, não devem os nós acreditar que as cores que revestem certas aves e certos insetos lhes são úteis para livrá-los do perigo? O galo m ontês m ultiplicar-se-ia desm esuradam ente se não fosse destruído em algum as das fases da sua existência; e sabe-se que as aves de rapina lhe fazem um a caça ativa; os falcões, dotados de um a vista sutil, apercebem a sua presa de tão longe, que, em certas partes do continente, não se cultivam os pom bos brancos porque estão expostos a grandes perigos. A seleção natural podia então desem penhar o seu papel dando a cada espécie de galo m ontês um a cor apropriada ao país que habita, conservando e
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perpetuando esta cor desde que é adquirida. Não seria necessário tam pouco pensar que a destruição acidental de um anim al, que tem um a cor particular, possa apenas produzir pequenos efeitos sobre um a raça. Devem os lem brar-nos, com efeito, quanto é essencial num rebanho de carneiros brancos destruir os cordeiros que tenham a m enor m ancha preta. Já vim os que a cor dos porcos que, na Virgínia, se nutrem de certas raízes é para eles um a causa de vida ou m orte. Nas plantas, consideram os botânicos a penugem do fruto e a cor do m esocarpo com o caracteres m uito insignificantes; contudo, um excelente horticultor, Dowing, referenos que nos Estados Unidos os frutos com pele lisa sofrem m uito m ais os ataques de um inseto, o curcúlio, do que os que são cobertos de pêlos; que as am eixas verm elhas são m uito m ais suj eitas a certas doenças que as am eixas am arelas; e que um a outra doença ataca m ais facilm ente os pêssegos de m esocarpo am arelo do que os pêssegos de m esocarpo de outra cor. Se estas ligeiras diferenças, apesar do auxílio da arte, decidem da sorte das variedades cultivadas, estas m esm as diferenças devem evidentem ente, no estado de natureza, ser suficientes para decidir quem prevalecerá, se um a árvore produzindo frutos com a pele lisa ou com a pele peluda, com o m esocarpo verm elho ou com o m esocarpo am arelo; porque, neste estado, as árvores têm de lutar com outras árvores e com um a série de inim igos. Quando estudam os os num erosos pequenos pontos de diferença que existem entre as espécies e que, na nossa ignorância, nos parecem insignificantes, não devem os esquecer que o clim a, a alim entação, etc., têm , sem dúvida, produzido alguns efeitos diretos. É necessário não esquecer tam pouco que, em virtude das leis da correlação, quando um a parte varia e a seleção natural acum ula as variações, se originam , por vezes, outras m odificações de natureza m ais inesperada. Vem os que certas variações que, no estado dom éstico, aparecem num período determ inado da vida, tendem a reaparecer nos descendentes em igual período. Poderiam citar-se, com o exem plos, a form a, o talhe e o sabor dos grãos de m uitas variedades dos nossos legum es e das nossas plantas agrícolas; as variações do bicho-da-seda no estado de larva e de crisálida; os ovos das aves do- 100
m ésticas e a cor da penugem dos filhos; os cornos dos nossos carneiros e de outros anim ais na idade adulta. Ora, no estado de natureza, a seleção natural pode atuar sobre certos seres organizados e m odificá-los em qualquer idade que sej a pela acum ulação de variações proveitosas a esta idade e por transm issão hereditária na idade correspondente. Se é vantaj oso a um a planta que as suas sem entes sej am m ais facilm ente dissem inadas pelo vento, é tão fácil à seleção natural produzir este aperfeiçoam ento com o é fácil ao agricultor, pela seleção m etódica, aum entar e m elhorar a penugem contida nas cascas dos seus algodoeiros. A seleção natural pode m odificar a larva de um inseto de form a a adaptá-la a circunstâncias com pletam ente diferentes daquelas em que deverá viver o inseto adulto. Estas m odificações poderão m esm o afetar, em virtude da correlação, a conform ação do adulto. Mas, inversam ente, m odificações na conform ação do adulto podem afetar a conform ação da larva. Em todos os casos, a seleção natural não produz m odificações nocivas ao inseto, porque então a espécie se extinguiria. A seleção natural pode m odificar a conform ação do filho relativam ente aos pais e a dos pais relativam ente aos filhos. Entre os anim ais que vivem em sociedade, transform a a conform ação de cada indivíduo de m odo tal que possa tornar-se útil à com unidade, com a condição, todavia, de a com unidade aproveitar com a alteração. Mas o que a seleção natural não saberia fazer, era m odificar a estrutura de um a espécie sem lhe procurar qualquer vantagem própria e unicam ente em benefício de um a outra espécie. Ora, posto que as obras sobre história natural apresentem , por vezes, sem elhantes fatos, não encontrei um único que possa resistir ao exam e. A seleção natural pode m odificar profundam ente um a conform ação que som ente fosse m uito útil um a vez durante a vida de um anim al, se é im portante para ele. Tais são, por exem plo, as grandes m andíbulas, que possuem certos insetos e que em pregam exclusivam ente para abrir os casulos, ou a extrem idade córnea do bico das avezinhas que as auxilia a quebrar o ovo, para sair. Afirm a-se que, entre as m elhores espécies de pom bos cam balhotas de bico curto, m orrem no ovo m ais filhotes do que os que podem sair; tam bém os am adores vigiam o m om ento da eclosão para auxiliar os filhotes se disso tiverem necessidade. Ora, se a natureza queria produzir um pom bo de bico m uito curto para vantagem desta
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ave, a m odificação seria m uito lenta e a seleção m ais rigorosa se faria no ovo, e sobreviveriam som ente aqueles que tivessem o bico bastante duro, porque todos os de bico fraco m orreriam inevitavelm ente; ou, m elhor ainda, a seleção natural agiria para produzir cascas m ais delgadas, partindo-se m ais facilm ente, porque a espessura da casca está suj eita à variabilidade com o todas as outras estruturas. É talvez bom fazer lem brar aqui que deve haver, para todos os seres, grandes destruições acidentais que têm pouca ou nenhum a influência sobre a ação da seleção natural. Por exem plo, m uitos ovos ou sem entes são destruídos cada ano; ora, a seleção natural só pode m odificá-los tanto quanto eles variem de m aneira a escaparem aos ataques dos inim igos. Contudo, m uitos destes ovos ou destas sem entes poderiam , se não fossem destruídos, produzir indivíduos m elhor adaptados às condições am bientes do que alguns daqueles que têm sobrevivido. Além disso, um grande núm ero de anim ais ou de plantas adultas, quer sej am ou não os m elhores adaptados às condições am bientes, devem anualm ente perecer, em razão de causas acidentais, que não seriam de form a algum a m itigadas por alterações de conform ação ou constituição vantaj osa à espécie sobre todas as outras relações. Mas, por m ais considerável que sej a esta destruição dos adultos, pouco im porta, suposto que o núm ero dos indivíduos que sobrevivem num a região qualquer fique bastante considerável - pouco im porta, ainda, que a destruição dos ovos ou das sem entes sej a tão grande que só a centésim a ou m esm o a m ilésim a parte se desenvolva - não é m enos verdade que os indivíduos m ais aptos, entre os que sobrevivem , supondo que se produzem neles variações num a direção proveitosa, tendem a m ultiplicar-se em m aior núm ero que os indivíduos m enos aptos. A seleção natural não podia, sem dúvida, exercer a sua ação em certas direções vantaj osas, se o núm ero dos indivíduos se encontrasse consideravelm ente dim inuído pelas causas que acabam os de indicar, e este caso tem -se produzido m uitas vezes; m as isto não é um a obj eção valiosa contra a sua eficácia em outras épocas e em outras circunstâncias. Estam os longe de poder supor, com efeito, que m uitas espécies sej am subm etidas a m odificações e m elhoram entos na m esm a época e no m esm o país.
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SELEÇÃO SEXUAL
No estado dom éstico, certas particularidades aparecem algum as vezes em um dos sexos e tornam -se hereditárias nesse sexo. O m esm o se efetua no estado de natureza. É então possível que a seleção natural m odifique os dois sexos relativam ente aos hábitos diferentes da existência, com o algum as vezes sucede, ou que um sexo se m odifique relativam ente ao outro sexo, o que acontece freqüentem ente. Isto m e leva a dizer algum as palavras a respeito do que denom inei sele-ção sexual. Esta form a de seleção não depende da luta pela existência com outros seres organizados, ou com as condições am bientes, m as da luta entre os indivíduos de um sexo, ordinariam ente os m achos, para assegurar a posse do outro sexo. Esta luta não term ina pela m orte do vencido, m as pela falta ou pela pequena quantidade de descendentes. A seleção sexual é, pois, m enos rigorosa que a seleção natural. Ordinariam ente, os m achos m ais vigorosos, isto é, os que são m ais aptos a ocupar o seu lugar na natureza, deixam um m aior núm ero de descendentes. Mas, em m uitos casos, a vitória não depende tanto do vigor geral do indivíduo com o da posse de arm as especiais que se encontram apenas no m acho. Um veado desprovido de pontas, ou um galo desprovido de esporões, teriam poucas probabilidades de deixar num erosos descendentes. A seleção sexual, perm itindo sem pre aos vencedores reproduzir-se, pode dar sem dúvida a estes um a coragem indom ável, esporões m ais longos, um a asa m ais forte para quebrar a pata do concorrente, quase da m esm a m aneira que o brutal criador de galos de com bate pode m elhorar a raça pela escolha rigorosa dos seus m ais belos adultos. Eu não saberia dizer até onde se estende esta lei da guerra na escala da natureza. Dizem que os aligátores m achos se batem , rugem , giram em círculo, com o fazem os índios nas suas danças guerreiras, para apoderar-se das fêm eas; vêem -se os salm ões m achos bater-se durante dias inteiros; os besouros m achos trazem algum as vezes o sinal das feridas que lhes fizeram as largas m andíbulas de outros m achos; M. Fabre, este observador inim itável, viu m uitas vezes certos insetos him enópteros m achos baterem -se pela posse de um a fêm ea que parecia ficar espectadora indiferente ao com bate, e que, em seguida, partia com o vencedor. A guerra é talvez
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m ais terrível ainda entre os m achos dos anim ais polígam os, porque estes últim os parecem providos de arm as especiais. Os anim ais carnívoros m achos parecem j á
bem arm ados, e, contudo, a seleção natural pode dar-lhes ainda novos m eios de defesa, tais com o a j uba do leão e a queixada de ganchos do salm ão m acho, porque o escudo pode ser tão im portante com o a lança do ponto de vista da vitória. Entre as aves, esta luta reveste, freqüentem ente, um caráter m ais pacífico. Todos aqueles que têm estudado este assunto, verificam um a ardente rivalidade entre os m achos de m uitas espécies para atrair as fêm eas com seus cantos. Os m elros de rocha da Guiana, as aves-do-paraíso, e m uitas outras ainda, reúnem -se em bandos; os m achos apresentam -se sucessivam ente; m ostram com o m aior cuidado, com o m aior efeito possível, a sua m agnífica plum agem , tom am as m ais extraordinárias atitudes diante das fêm eas, sim ples espectadoras, que term inam por escolher o com panheiro m ais agradável. Quem tem estudado com interesse as aves em cativeiro, sabe que, estas m esm o, são m uito susceptíveis de preferências e de antipatias individuais; assim , sir R. Heron observou que todas as fêm eas do seu viveiro am avam em especial um certo pavão penachado. É-m e im possível entrar aqui em todas as particularidades que seriam necessárias; m as, se o hom em chega a dar, em pouco tem po, a elegância do porte e a beleza da plum agem aos nossos galos Bantão, segundo o tipo ideal que concebem os para esta espécie, não vej o razão para que as aves fêm eas não possam obter um resultado sem elhante escolhendo, durante m ilhares de gerações, os m achos que lhes pareçam m ais belos, ou aqueles cuj a voz sej a m ais m elodiosa. Podem explicar-se, em parte, pela ação da seleção sexual algum as leis bem conhecidas relativas à plum agem das aves m achos e fêm eas com parada à plum agem dos filhos, por variações que se apresentam em diferentes idades e transm itidas sej a som ente aos m achos, sej a aos dois sexos, ou na idade correspondente; m as o espaço falta-nos para desenvolver este assunto. Creio que, todas as vezes que os m achos e as fêm eas de qualquer anim al têm os m esm os hábitos gerais de existência, m as que diferem do ponto de vista da conform ação, da cor ou da ornam entação, estas diferenças são devidas principalm ente à seleção sexual; isto é, que certos m achos têm tido, durante um a série ininterrupta de gerações, algum as ligeiras vantagens sobre outros
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m achos, provindo quer de suas arm as, quer de seus m eios de defesa, quer da sua beleza ou dos seus atrativos, vantagens que transm itiram exclusivam ente à sua posteridade m asculina. Eu não queria, contudo, atribuir a esta causa todas as diferenças sexuais; vem os, com efeito, entre os anim ais dom ésticos, produzirem -se entre os m achos particularidades que parecem não ter sido aum entadas pela seleção do hom em . O tufo de pêlos sobre o papo do peru selvagem não lhe seria de vantagem algum a, e até é duvidoso que possa servir-lhe de ornam entação aos olhos da fêm ea; se m esm o este tufo de pêlos tivesse aparecido no estado dom éstico, teríam o-lo considerado com o um a m onstruosidade.
EXEMPLOS DA AÇÃO DA SELEÇÃO NATURAL OU DA PERSISTÊNCIA DO MAIS
APTO
A fim de bem fazer com preender de que m odo atua, segundo m e parece, a seleção natural, peço perm issão para dar um ou dois exem plos im aginários. Suponham os um lobo que se nutrisse de diferentes anim ais, apoderando-se de uns pela astúcia, de outros pela força, de outros, enfim , pela agilidade. Suponham os ainda que a sua presa m ais rápida, o gam o por exem plo, tinha aum entado em núm ero após algum as alterações sobrevindas no país, ou que os outros anim ais, de que se nutre ordinariam ente, tinham dim inuído durante a estação do ano em que o lobo está m ais apertado pela fom e. Nestas circunstâncias, os lobos m ais ágeis e m ais velozes têm m ais probabilidades de sobreviver do que os outros; persistem então, contanto que conservem , todavia, bastante força para vencer a sua presa e tornarem -se senhores dela, nesta época do ano ou em qualquer outra, quando são forçados a apoderar-se de outros anim ais para se nutrir. Não vej o m ais razão para duvidar deste resultado do que da possibilidade, para o hom em , de aum entar a ligeireza dos seus galgos por um a seleção diligente e m etódica, ou por esta espécie de seleção inconsciente que provém de cada pessoa se esforçar por possuir os m elhores cães sem ter o m enor pensam ento em m odificar a raça. Posso acrescentar que, segundo M. Pierce, duas variedades de lobos habitam as m ontanhas de Catskill, nos Estados Unidos: um a destas variedades, que lem bra
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um pouco a form a do galgo, nutre-se principalm ente de gam os; a outra, m ais pesada, as pernas m ais curtas, ataca m ais freqüentem ente os rebanhos. É necessário observar que, no exem plo citado acim a, falo dos lobos m ais velozes tom ados individualm ente, e não de um a variação m anifestam ente pronunciada que se perpetuasse. Nas edições precedentes desta obra, podia acreditarse que eu apresentava esta últim a alternativa com o se fosse m uitas vezes produzida. Eu com preendia a extrem a im portância das diferenças individuais, e isto m e conduzia a discutir porm enorizadam ente os resultados da seleção inconsciente feita pelo hom em , seleção que depende da conservação dos indivíduos m ais ou m enos superiores e da destruição dos indivíduos inferiores. Com preendia tam bém que, no estado de natureza, a conservação de um desvio acidental de estrutura, tal com o um a m onstruosidade, deve ser um sucesso m uito raro, e que, se este desvio se conserva a princípio, deve tender a desaparecer im ediatam ente, em seguida aos cruzam entos com indivíduos com uns. Todavia, depois de ter lido um excelente artigo da North British Review (1867), com preendi m elhor ainda o quanto é raro que variações isoladas, quer sej am ligeiras quer fortem ente acentuadas, possam perpetuar-se. O autor deste artigo tom a para exem plo um casal de anim ais que produzam durante a vida duzentos filhos, dos quais, em razão de diferentes causas de destruição, dois unicam ente, em m édia, sobrevivem para propagar a espécie. Pode dizer-se, prim eiram ente, que é um valor pequeníssim o para a m aior parte dos anim ais elevados na escala, m as que não há exagero para os organism os inferiores. O escritor dem onstra em seguida que, se nasce um único indivíduo que varia de form a a ter m ais duas probabilidades de vida do que todos os outros, teria, ainda assim , m uito pouca probabilidade de persistir. Supondo que se reproduzisse e que m etade dos filhos herdassem a variação favorável, os filhos, se se deve acreditar no autor, teriam apenas um a leve probabilidade a m ais para sobreviver e se reproduzirem , e esta probabilidade dim inuiria em cada geração sucessiva. Não se pode, creio eu, por em dúvida a exatidão destas observações. Suponham os, com efeito, que um a ave qualquer pode procurar os alim entos m ais facilm ente tendo o bico recurvo; suponham os ainda que um a ave desta espécie nasce com o bico dem asiado curvo, e que, por conseqüência, vive facilm en- 106
te; não é m enos verdade que haveria poucas probabilidades deste único indivíduo perpetuar a espécie com exclusão da form a ordinária. Mas, se é preciso j ulgar pelo que se passa nos anim ais no estado de dom esticidade, não se pode duvidar tam pouco que, se se escolheu, durante m uitas gerações, um grande núm ero de indivíduos tendo o bico m ais ou m enos recurvado, e se se destruiu um m aior núm ero ainda de indivíduos tendo o bico o m ais direito possível, os prim eiros não se m ultiplicam facilm ente.
Todavia, é necessário não esquecer que certas variações perfeitam ente acentuadas, que ninguém pensaria em classificar com o sim ples diferenças individuais, se apresentam m uitas vezes, porquanto condições análogas atuam sobre organism os análogos; as nossas produções dom ésticas oferecem -nos, num erosos exem plos deste fato. Neste caso, se o indivíduo que variou não transm ite exatam ente aos filhos os seus caracteres novam ente adquiridos, m enos lhes transm ite por m uito tem po, contanto que as condições fiquem as m esm as, um a grande tendência a variar da m esm a form a. Não se pode duvidar tam pouco que a tendência para variar na m esm a direção tenha sido outrora tão poderosa, que todos os indivíduos da m esm a espécie se m odificassem da m esm a m aneira, sem o auxílio de qualquer espécie de seleção. Poderiam , em todos os casos, citar-se m uitos exem plos de um terço, de um quinto ou m esm o de um décim o dos indivíduos que foram afetados desta form a. Assim , Graba j ulga que, nas ilhas de Feroé, pouco m ais ou m enos um quinto de Guillem ots se com põe de um a variedade tão bem definida, que se classificou outrora com o um a espécie distinta, com o nom e de Uria lacry m ans. Sendo isto assim , se a variação é vantaj osa ao anim al, a form a m odificada deve suplantar bem depressa a form a original, em virtude da sobrevivência do m ais apto.
Terei de voltar aos efeitos dos cruzam entos do ponto de vista da elim inação das variações de toda a espécie; algum as vezes posso fazer observar aqui que a m aior parte dos anim ais e das plantas tendem a conservar o m esm o habitat se não o afastam sem razão; poderia citar, com o exem plo, as próprias aves de arribação, que, quase sem pre, voltam a habitar a m esm a localidade. Por conseqüência, toda a variedade de form ação nova seria ordinariam ente local no princípio, o
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que parece, aliás, ser regra geral para as variedades no estado da natureza; de tal m odo que os indivíduos m odificados de m aneira análoga devem form ar em breve um pequeno grupo e tender a reproduzir-se facilm ente. Se a nova variedade é
bem sucedida na luta pela existência, propaga-se lentam ente em torno de um ponto central; luta constantem ente com os indivíduos que não tenham sofrido alteração algum a, aum entando sem pre o círculo da sua ação, e acabando por vencêlos. Não seria inútil citar um outro exem plo um pouco m ais com plicado da ação da seleção natural. Certas plantas segregam um líquido açucarado, aparentem ente com o fim de elim inar da seiva algum as substâncias nocivas. Esta secreção efetua-se, quase sem pre, com o auxílio de glândulas colocadas na base das estípulas entre algum as legum inosas, e na página inferior das folhas do loureiro com um . Os insetos procuram avidam ente este líquido, posto que se encontre sem pre em pequena quantidade; m as a sua visita não constitui vantagem algum a para a planta. Ora, suponham os que um certo núm ero de plantas de um a espécie qualquer segregam este líquido ou este néctar no interior das flores. Os insetos em busca do néctar cobrem -se de pólen e transportam -no de um a flor para outra. As flores de dois indivíduos distintos da m esm a espécie cruzam -se por este fato; ora, o cruzam ento, com o seria fácil dem onstrá-lo, produz plantas vigorosas, que têm a m aior probabilidade de viver e de perpetuar-se. As plantas que produziram as flores em glândulas m aiores, e que, por conseqüência, segregaram m ais líquido, seriam m aior núm ero de vezes visitadas pelos insetos e cruzar-se-iam m ais vezes tam bém ; por isso, acabariam , no decorrer do tem po, por suplantar todas as outras e form ar um a variedade local. As flores cuj os estam es e pistilos estivessem situados, em relação ao tam anho e hábitos dos insetos que os procuram , de m aneira a favorecer, de qualquer form a, o transporte do pólen, seriam igualm ente superiores. Poderíam os escolher para exem plo insetos que visitam as flores em busca do pólen no lugar da secreção açucarada; tendo o pólen por único obj eto a fecundação, parece, à prim eira vista, que a sua destruição seria um a verdadeira perda para a planta. Contudo, se os insetos que se nutrissem de pólen transportassem de flor em flor um pouco desta substância, prim eiro acidentalm ente, depois habitualm en- 108
te, e que os cruzam entos fossem o resultado destes transportes, a planta teria ainda a lucrar, posto que nove décim os do pólen fossem destruídos. Resultaria então que os indivíduos que possuíssem as antenas m ais grossas e a m aior quantidade de pólen, tinham m ais probabilidades de perpetuar a espécie. Quando um a planta, após desenvolvim entos sucessivos, é cada vez m ais procurada pelos insetos, estes, operando inconscientem ente, levam regularm ente o pólen de flor em flor; m uitos exem plos adm iráveis m e perm itiriam provar que este fato se apresenta todos os dias. Citarei apenas um único, porque m e servirá
ao m esm o tem po para dem onstrar com o pode efetuar-se gradualm ente a separação dos sexos entre as plantas. Certos azevinhos têm apenas flores m asculinas, providas de um pistilo rudim entar e de quatro estam es que produzem um a pequena quantidade de pólen; outros têm apenas flores fem ininas, com um pistilo m uito desenvolvido e quatro estam es com anteras não desenvolvidas, nas quais se não descobriria um único grão de pólen. Tendo observado um a árvore fem inina à distância de 60 m etros de um a árvore m asculina, coloquei no m icroscópio os estigm as de vinte flores colhidas de diversos ram os. Em todos, sem exceção, notei a presença de alguns grãos de pólen, e em alguns um a profusão. O pólen não tinha podido ser transportado pelo vento, que, desde alguns dias, soprava num a direção contrária. O tem po estava frio, tem pestuoso, e por conseqüência pouco favorável às visitas das abelhas; contudo, todas as flores que exam inei tinham sido fecundadas por abelhas que voavam de árvore em árvore, em busca de néctar. Voltem os à nossa dem onstração: desde que a planta se torna assaz atraente para os insetos para que o pólen sej a transportado regularm ente de flor em flor, um a outra série de fatos com eça a produzir-se. Nenhum naturalista põe em dúvida as vantagens do que se cham a a divisão fisiológica do trabalho. Pode concluir-se daí que seria proveitoso para as plantas produzir unicam ente estam es em um a flor ou em um arbusto com pleto, e unicam ente pistilos em outra flor ou em outro arbusto. Entre as plantas cultivadas e colocadas por isso em novas condições de existência, um as vezes os órgãos m asculinos e outras vezes os órgãos fem ininos tornam -se m ais ou m enos im potentes. Ora, se nós supom os que isto se pode produzir, em qualquer grau que sej a, no estado de natureza, estando o pólen j á regularm ente
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transportado de flor em flor e sendo útil a com pleta separação dos sexos do ponto de vista da divisão do trabalho, os indivíduos em que esta tendência cresça progressivam ente são cada vez m ais favorecidos e escolhidos, até que enfim a com pleta separação dos sexos se efetue. Seria preciso dem asiado espaço para dem onstrar com o, pelo dim orfism o, ou por outros m eios, certam ente hoj e nação, se efetua atualm ente a separação dos sexos entre as plantas de diversas espécies. Mas posso j untar, que, segundo Asa Gray, algum as espécies de azevinhos, na Am érica Setentrional, se encontram exatam ente num a posição interm ediária, ou, para em pregar a sua expressão, são m ais ou m enos dioicam ente poligâm icas. Exam inem os agora os insetos que se nutrem de néctar. Podem os supor que a planta, de que vim os aum entar as secreções lentam ente em seguida a um a seleção contínua, é um a planta com um , e que certos insetos procuram em grande parte o seu néctar para a alim entação. Poderia provar, por num erosos exem plos, quanto as abelhas são econôm icas do tem po; lem brarei unicam ente as incisões que costum am fazer na base de certas flores para colher o néctar, quando com um pouco m ais de dificuldade poderiam entrar pelo vértice da corola. Recordando estes fatos, pode facilm ente acreditar-se que, em certas circunstâncias, diferenças individuais na curvatura ou no com prim ento da trom ba, etc., ainda que dem asiado insignificantes para que possam os apreciá-las, podem ser proveitosas às abelhas ou a qualquer outro inseto, de form a tal que certos indivíduos estariam em estado de procurar m ais facilm ente a sua nutrição do que quaisquer outros; as sociedades a que pertencessem desenvolver-se-iam por conseqüência m ais depressa, e produziriam m ais enxam es herdando as m esm as particularidades. Os tubos das corolas do trevo verm elho com um e o trevo encarnado (Trifolium pratense e T. incarnatum), não pareciam , à prim eira vista, diferir no com prim ento; contudo, a abelha dom éstica colhe facilm ente o néctar do trevo encarnado, m as não do trevo com um verm elho, que é apenas procurado pelos zangões; de m aneira tal que cam pos com pletos de trevo verm elho em vão oferecem à abelha um a abundante colheita de precioso néctar. É certo que a abelha gosta em extrem o deste néctar; eu m esm o vi freqüentem ente, m as som ente no Outono, m uitas abelhas sugar as flores por aberturas que os zangões tinham praticado na base do tubo. A diferença
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do com prim ento das corolas nas duas espécies de trevo deve ser insignificante; todavia, é o bastante para decidir as abelhas a procurarem um a flor m ais depressa do que outra. Afirm a-se, além disso, que as abelhas procuram as flores do trevo verm elho da segunda colheita, que são um pouco m enores. Não sei se esta asserção tem fundam ento; tam bém não sei se um a outra asserção, recentem ente publicada, tem m ais fundam ento, isto é, que a abelha da Ligúria, que se considera ordinariam ente com o um a sim ples variedade da abelha dom éstica com um , e que se cruza m uitas vezes com ela, pode atingir e sugar o néctar do trevo verm elho. Com o quer que sej a, seria m uito vantaj oso para a abelha dom éstica, num país onde abunda esta espécie de trevo, ter um a trom ba um Pouco m ais com prida ou diferentem ente construída. Por outro lado, com o a fecundidade desta espécie de trevo depende absolutam ente da procura dos zangões, seria m uito vantaj oso para a planta, se os zangões se tornassem raros num país, ter um a corola m ais curta ou m ais profundam ente dividida, para que a abelha pudesse sugar as flores. Pode com preender-se assim com o se faz que um a flor e um inseto possam lentam ente, quer sim ultaneam ente, quer um após outro, m odificar-se e adaptar-se m utuam ente da m aneira m ais perfeita, pela conservação contínua de todos os indivíduos que apresentam ligeiros desvios de estrutura para um e para outro. Sei bem que esta doutrina da seleção natural, baseada sobre exem plos análogos àqueles que acabo de citar, pode levantar as obj eções que a princípio se tinham oposto às m agníficas hipóteses de sir Charles Ly ell, quando quis explicar as transform ações geológicas pela ação das causas atuais. Contudo, hoj e raram ente se procura j ulgar insignificantes as causas que vem os ainda nação atualm ente, quando se em pregam para explicar a escavação dos m ais profundos vales ou a form ação de longas linhas de dunas interiores. A seleção natural opera apenas pela conservação e acum ulação de pequenas m odificações hereditárias de que cada um a é proveitosa ao indivíduo conservado; ora, da m esm a form a que a geologia m oderna, quando se trata de explicar a escavação de um profundo vale, renuncia a invocar a hipótese de um a só grande vaga diluviana, da m esm a form a a seleção natural tende a fazer desaparecer a crença na criação contínua de novos seres organizados, ou nas grandes e inopinadas m odificações da sua estrutura.
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CRUZAMENTO DOS INDIVÍDUOS
Devo perm itir-m e aqui um a curta digressão. Quando se trata de anim ais e plantas tendo os sexos separados, é evidente que a participação de dois indivíduos é sem pre necessária para cada fecundação (à exceção, contudo, dos casos tão curiosos e tão pouco conhecidos de partenogênese); m as a existência desta lei está longe de ser igualm ente evidente nos herm afroditas. Há, entretanto, algum a razão para acreditar que, entre todos os herm afroditas, dois indivíduos cooperam , j á acidentalm ente, j á habitualm ente, para a reprodução da espécie. Esta idéia foi sugerida, há j á m uito tem po, m as de um a form a bastante duvidosa, por Sprengel, por Knight e por Kõlreuter. Verem os, em breve, a im portância desta sugestão; m as serei obrigado a tratar aqui este assunto em m uito poucas palavras, se bem que tenha à m inha disposição os m ateriais necessários para um a profunda discussão. Todos os vertebrados, todos os insetos e alguns outros grupos consideráveis de anim ais copulam -se para cada fecundação. As investigações m odernas têm dim inuído m uito o núm ero dos supostos herm afroditas, e, entre os verdadeiros herm afroditas, há m uitos que se copulam , isto é, que dois indivíduos se unem regularm ente para a reprodução da espécie; ora, é este o único ponto que nos interessa. Todavia, há m uitos herm afroditas que, certam ente, se não copulam habitualm ente, e a grande m aioria das plantas encontra-se neste caso. Que razão pode haver, pois, para supor que, m esm o neste caso, dois indivíduos concorrem para o ato reprodutor? E com o m e é im possível entrar aqui nestas particularidades, devo contentar-m e com algum as considerações gerais. Em prim eiro lugar, colhi um núm ero considerável de fatos. Fiz m esm o um grande núm ero de experiências provando, de acordo com a opinião quase universal dos tratadores, que, nos anim ais e nas plantas, um cruzam ento entre variedades diferentes ou entre indivíduos da m esm a variedade, m as de um a outra casta, torna a posteridade que nasce m ais vigorosa e m ais fecunda; e que, por outra parte, as reproduções entre próxim os parentes dim inuem este vigor e esta fecundidade. Estes fatos tão num erosos bastam para provar que é um a lei geral da natureza
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tendendo a que nenhum ser organizado se fecunda a si m esm o durante um ilim itado núm ero de gerações, e que um cruzam ento com um outro indivíduo é indispensável de tem pos a tem pos, posto que talvez com longos intervalos. Esta hipótese perm ite-nos, creio eu, explicar grandes séries de fatos, tais com o o seguinte, inexplicável de outra m aneira. Todos os horticultores que se ocupam de cruzam entos, sabem quanto a exposição à um idade torna difícil a fecundação de um a flor; e, contudo, que m ultidão de flores têm as anteras e os estigm as com pletam ente expostos às intem péries do ar! Adm itindo que um cruzam ento acidental é indispensável, ainda que as anteras e o pistilo da planta estej am tão próxim os que a fecundação de um para outro sej a quase inevitável, esta livre exposição, por desvantaj osa que sej a, pode ter por fim perm itir livrem ente a entrada do pólen proveniente de outro indivíduo. Por outra parte, m uitas flores, com o as da grande fam ília das Papilionáceas ou Legum inosas, têm os órgãos sexuais com pletam ente fechados; m as estas flores oferecem quase invariavelm ente belas e curiosas adaptações em relação com as visitas dos insetos. As visitas das abelhas são tão precisas a m uitas flores da fam ília das Papilionáceas, que a fecundidade destas últim as dim inui m uito se se im pedem estas visitas. Ora, é apenas possível que os insetos voem de flor em flor sem levar o pólen de um a à outra, para grande vantagem da planta. Os insetos atuam , neste caso, com o o pincel de que nos servim os e que basta, para assegurar a fecundação, passear sobre as anteras de um a flor e sobre os estigm as de um a outra. Mas não seria preciso supor que as abelhas produzam assim um a m ultidão de híbridas entre as espécies distintas; porque, se se coloca no m esm o estigm a pólen próprio à planta e o de um a outra espécie, o prim eiro anula com pletam ente, assim com o dem onstrou Gärtner, a influência do pólen estranho.
Quando os estam es de um a flor se lançam de im proviso para o pistilo, ou se m ovem lentam ente um após outro, parece que é unicam ente para m elhor assegurar a fecundação de um a flor por si m esm a; sem dúvida, esta adaptação é útil com este fim . Mas a intervenção dos insetos é m uitas vezes necessária para determ inar os estam es a m overem -se, com o o dem onstrou Kõlreuter para a bérberis. Neste gênero, onde tudo parece disposto para assegurar a fecundação da flor por
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si própria, sabe-se que, se se plantam um a perto da outra form as ou variedades m uito próxim as, é quase im possível criar plantas de raça pura, pois se cruzam naturalm ente. Em num erosos outros casos, com o poderia dem onstrá-lo pelas averiguações de Sprengel e de outros naturalistas assim com o pelas m inhas próprias observações, bem longe de que nada há que contribua para favorecer a fecundação de um a planta por si m esm a, observam -se adaptações especiais que im pedem absolutam ente o estigm a de receber o pólen dos seus próprios estam es. Na Lobelia fulgens, por exem plo, há um sistem a, tão adm irável com o com pleto, por m eio do qual as anteras de cada flor deixam escapar os num erosos grânulos de pólen antes que o estigm a da m esm a flor estej a apto a recebê-los. Ora, com o no m eu j ardim pelo m enos os insetos nunca visitam esta flor, resulta daí que j am ais produz sem entes, posto que tenha obtido um a grande quantidade colocando eu m esm o o pólen de um a flor no estigm a de outra. Um a outra espécie de Lobelia, visitada pelas abelhas, produziu, no m eu j ardim , abundantes sem entes. Em m uitos outros casos, ainda que nenhum obstáculo m ecânico especial im peça o estigm a de receber o pólen da m esm a flor, todavia, com o Sprengel e m ais recentem ente Hildebrando e outros o dem onstraram , e com o eu m esm o posso confirm á-lo, as anteras rebentam antes que o estigm a estej a apto a ser fecundado, ou então, ao contrário, é o estigm a que chega à m aturação antes do pólen, de tal m aneira que estas pretendidas plantas dicogâm icas têm na realidade sexos separados e devem cruzar-se habitualm ente. Há m esm o plantas reciprocam ente dim orfas e trim orfas a que j á tem os feito alusão. Com o estes fatos são extraordinários! Com o é
estranho que o pólen e o estigm a da m esm a flor, ainda que colocados um ao pé
do outro com o fim de assegurar a fecundação da flor por si m esm a, sej am , em tantos casos, reciprocam ente inúteis um ao outro! Com o é fácil explicar estes fatos, que se tornam então tão sim ples, na hipótese de que um cruzam ento acidental com um indivíduo distinto é vantaj oso ou indispensável. Se se deixam produzir sem entes a m uitas variedades de couves, rabanetes, cebolas e algum as outras plantas colocadas um as perto das outras, tenho observado que a grande m aioria das novas plantas provenientes destas sem entes são m estiças. Assim , tratei duzentas e trinta e três novas couves provenientes de