A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 9 de 17 · parte 1/3

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A Origem das Espécies

Antepassado Comum

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Depois da discussão que precede, ainda que resum ida sej a, podem os concluir que os descendentes m odificados de um a espécie qualquer se desenvolvam tanto m elhor quanto a sua estrutura é m ais diversificada e podem assim apoderarse de lugares ocupados por outros seres. Exam inem os agora com o estas vantagens resultantes da divergência dos caracteres tendem a atuar, quando se com binam com a seleção natural e com a extinção. O diagram a atrás m encionado pode auxiliar-nos a com preender este assunto bastante com plicado. Suponham os que as letras A a L representem as espécies de um gênero rico no país que habita; suponham os, além disso, que estas espécies se assem elham , em graus desiguais, com o acontece ordinariam ente na natureza; é isto que indicam , no diagram a, as distâncias desiguais que separam as letras. Disse um gênero rico, porque, com o vim os no segundo capítulo, m ais espécies variam em m édia num gênero rico do que num gênero pobre, e que as espécies variáveis dos gêneros ricos apresentam um m aior núm ero de variedades. Vim os tam bém que as espécies m ais com uns e as m ais espalhadas variam m ais

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do que as espécies raras cuj o habitat é restrito. Suponham os que A representa um a espécie variável com um m uito espalhada, pertencendo a um gênero rico no seu próprio país. As linhas pontuadas divergentes, de com prim ento desigual, partindo de A, podem representar os seus descendentes variáveis. Supõe-se que as variações são m uito pequenas e da m ais diversa natureza; que não aparecem sim ultaneam ente, m as m uitas vezes após longos intervalos de tem po, e que não persistem tam bém durante períodos iguais. Só as variações vantaj osas persistem , ou, por outros term os, fazem o obj eto da seleção natural. É então que se m anifesta a im portância do princípio das vantagens que resultam da divergência dos caracteres; porque este princípio determ ina ordinariam ente as variações m ais divergentes e m ais diversas (representadas por linhas pontuadas exteriores), que a seleção natural fixa e acum ula. Quando um a linha pontuada atinge um a das linhas horizontais e o ponto de contato é indicado por um a letra m inúscula, acom panhada de um núm ero, supõe-se que se acum ulou um a quantidade suficiente de variações para form ar um a variedade bem definida, isto é, tal com o se j ulgaria dever indicar num a obra sobre a zoologia sistem ática.

Cada um dos intervalos entre as linhas horizontais do diagram a podem representar m il gerações ou m ais. Suponham os que após m il gerações a espécie A produziu duas variedades bem definidas, isto é, a1 e m. Estas duas variedades encontram -se geralm ente colocadas em condições análogas àquelas que determ inaram variações nos seus antepassados, tanto quanto a variabilidade sej a por si m esm o hereditária; por conseqüência, tendem tam bém a variar, e ordinariam ente do m esm o m odo que os seus antepassados. Adem ais, estas duas variedades, sendo apenas form as levem ente m odificadas, tendem a herdar vantagens que tornaram o seu protótipo A m ais num eroso do que a m aior parte dos outros habitantes do m esm o país; participam tam bém das vantagens m ais gerais que tornaram o gênero a que pertencem os seus antepassados um gênero rico no seu próprio país. Ora, todas estas circunstâncias são favoráveis à produção de novas variedades. Se estas duas variedades são variáveis, as suas variações m ais divergentes persistirão ordinariam ente durante as m il gerações seguintes. Após este inter- 131

valo, pode supor-se que a variedade a1 produziu a variedade a2, a qual, graças ao princípio da divergência, difere m ais de A do que a variedade a1. Pode-se supor tam bém que a variedade m 1 produziu, no fim do m esm o lapso de tem po, duas variedades: m 2 e s2, diferindo um a da outra, e diferindo m ais ainda da origem com um A. Poderíam os continuar a seguir estas variedades passo a passo durante um período qualquer. Algum as variedades, após cada série de m il gerações, terão produzido um a só variedade, m as sem pre m ais m odificada; outras produzirão duas ou três variedades; outras, enfim , nada produzirão. Assim , as variedades, ou os descendentes m odificados da origem com um A, aum entam ordinariam ente em núm ero, revestindo caracteres cada vez m ais divergentes. O diagram a representa esta série até à décim a m ilésim a geração, e, sob form a sim ples e resum ida, até à décim a m ilésim a quarta.

Não pretendo dizer, claro está, que esta série sej a tão regular com o o é no diagram a, posto que tenha sido representada de form a bastante irregular; não pretendo dizer tam bém que estes progressos sej am incessantes; é m uito m ais provável, pelo contrário, que cada form a persista sem alteração durante longos períodos, pois que é de novo subm etida a m odificações. Não pretendo dizer tam pouco que as variedades m ais divergentes persistam sem pre; um a form a m édia pode persistir durante m uito tem po e pode, ou não, produzir m ais do que um descendente m odificado. A seleção natural, com efeito, atua sem pre em razão dos lugares vagos, ou daqueles que não estão perfeitam ente ocupados por outros seres, e isto envolve relações infinitam ente com plexas. Mas, em regra geral, quanto m ais os descendentes de um a espécie qualquer se m odificam com relação à conform ação, tanto m ais probabilidades têm de se apoderar dos lugares e tanto m ais a sua descendência m odificada tende a aum entar. No nosso diagram a, a linha de descendência é interrom pida em intervalos regulares por letras m inúsculas com núm eros, indicando as form as sucessivas que se tornaram suficientem ente distintas para que se reconheçam com o variedades; diga-se de passagem que estes pontos são im aginários e que poderiam ter-se colocado não im porta aonde, deixando intervalos assaz longos para perm itir a acum ulação de um a som a considerável de variações divergentes.

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Com o todos os descendentes m odificados de um a espécie com um e m uito espalhada, pertencendo a um gênero rico, tendem a participar das vantagens que deram ao antepassado a preponderância na luta pela existência, m ultiplicam -se ordinariam ente em núm ero, ao m esm o tem po em que os seus caracteres se tornam m ais divergentes; este fato é representado no diagram a por diferentes ram os divergentes que partem de A. Os descendentes m odificados dos ram os m ais recentes e m ais aperfeiçoados tendem a tom ar o lugar dos ram os m ais antigos e m enos aperfeiçoados, e por isso a elim iná-los; os ram os inferiores do diagram a, que não chegam até às linhas horizontais superiores, indicam este fato. Em qualquer caso, sem dúvida, as m odificações produzem -se num a só linha de descendência, e o núm ero de descendentes m odificados não aum enta, posto que a som a das m odificações divergentes tenha aum entado. Este caso seria representado no diagram a se todas as linhas partindo de A fossem levantadas, à exceção das que partissem de a1 até a10. O cavalo de corrida inglês, e o cão de caça inglês evidentem ente divergem lentam ente da sua origem prim itiva da form a que acabam os de indicar, sem que algum deles produzisse ram os ou novas raças. Suponham os que, após dez m il gerações, a espécie “A” tenha produzido três form as: a10, f10 e m10, que, divergindo em caracteres durante gerações sucessivas, chegaram a diferir grandem ente, m as talvez desigualm ente um as das outras e da origem com um .

Se supuserm os que a som a das alterações entre cada linha horizontal do diagram a é excessivam ente pequena, estas três form as serão apenas variedades bem definidas; m as tem os som ente que supor um m aior núm ero de gerações, ou um a m odificação um pouco m ais considerável em cada grau, para converter estas três form as em espécies duvidosas, ou em espécies bem definidas. O diagram a indica pois os graus por m eio dos quais as pequenas diferenças, separando as variedades, se acum ulam a ponto de form ar as grandes diferenças que separam as espécies. Continuando a m esm a m archa durante um m aior núm ero de gerações, o que indica o diagram a sob um a form a condensada e sim plificada, obtem os oito espécies, a14 a m14, descendentes todas de A. É assim , creio eu, que as espécies se m ultiplicam e que os gêneros se form am .

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É provável que, num gênero rico, m ais de um a espécie deva variar. Supus, no diagram a, que um a segunda espécie produziu, por um a m archa análoga, após dez m il gerações, quer duas variedades bem definidas, w10 e z16, quer duas espécies, segundo a som a de alterações que representam as linhas horizontais. Depois de catorze m il gerações, supõe-se que seis novas espécies, n14 a z14 foram produzidas. Num gênero qualquer, as espécies que j á diferem m uito um as das outras tendem ordinariam ente a produzir o m aior núm ero de descendentes m odificados, porque são eles que têm m ais probabilidades de se apoderar de novos lugares e m uito diferentes na econom ia da natureza. Tam bém escolhi no diagram a a espécie extrem a A e um a outra espécie quase extrem a I, com o as que têm variado m uito, e que têm produzido novas variedades e novas espécies. As outras nove espécies do nosso gênero prim itivo, indicadas pelas letras m aiúsculas, podem continuar, durante períodos m ais ou m enos longos, a transm itir aos descendentes os caracteres não m odificados; isto é indicado no diagram a por linhas pontuadas que se prolongam m ais ou m enos longe. Mas, durante a m archa das m odificações, representadas no diagram a, um outro dos nossos princípios, o da extinção, deve ter gozado um papel im portante. Com o, em cada país bem provido de habitantes, a seleção natural atua necessariam ente, dando a um a form a, que faz o obj eto da sua ação, algum as vantagens sobre outras form as na luta pela existência, produz-se um a tendência constante entre os descendentes aperfeiçoados de um a espécie qualquer para suplantar e exterm inar os seus predecessores e a sua origem prim itiva. É preciso lem brar, com efeito, que a luta m ais viva se produz ordinariam ente entre as form as que estão m ais próxim as um as das outras, em relação aos hábitos, constituição e estrutura. Por conseqüência, todas as form as interm ediárias entre a form a m ais antiga e a form a m ais m oderna, isto é, entre as form as m ais ou m enos aperfeiçoadas da m esm a espécie, assim com o a espécie origem própria, tendem ordinariam ente a extinguir-se. É provavelm ente da m esm a m aneira para m uitas das linhas colaterais com pletas, vencidas por form as m ais recentes e m ais aperfeiçoadas. Se, contudo, o descendente m odificado de um a espécie penetra em qualquer região distinta, ou se adapta rapidam ente a qualquer região absolutam ente nova, não se

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encontra em concorrência com o tipo prim itivo e am bos podem continuar a existir. Se se supuser, pois, que o nosso diagram a representa um a som a considerável de m odificações, a espécie A e todas as prim eiras variedades que produziu, terão sido elim inadas e espalhadas por oito novas espécies, a14 a m 14; e a espécie I por seis novas espécies, n14 a z14.

Mas podem os ir m ais longe ainda. Supusem os que as espécies prim itivas do gênero de que nos ocupam os se assem elham entre si m as em graus desiguais; é o que se apresenta m uitas vezes na natureza. A espécie A está então m ais próxim a das espécies B, C, D do que das outras espécies, e a espécie I está m ais próxim a das espécies G, H, K, L do que das prim eiras. Supusem os tam bém que estas duas espécies, A e I são m uito com uns e m uito espalhadas, de tal m aneira que deviam , no princípio, possuir algum as vantagens sobre a m aior parte das outras espécies pertencentes ao m esm o gênero. As espécies representativas, em núm ero de catorze para a décim a quarta geração, têm provavelm ente herdado algum as destas vantagens; e são, além disso, m odificadas, aperfeiçoadas de diversas m aneiras, em cada geração sucessiva, de form a a m elhor adaptar-se aos num erosos lugares vagos na econom ia natural do país que habitam . É

pois m uito provável que tenham exterm inado, para substituí-los, não som ente os representantes não m odificados das origens m ães A e I, m as tam bém algum as espécies prim itivas m ais próxim as destas origens. Por conseqüência, devem ficar na décim a quarta geração m uito poucos descendentes das espécies prim itivas. Podem os supor que um a espécie som ente, a espécie F, sobre as duas espécies E

e F, as m enos próxim as das duas espécies prim itivas A e I, pode ter tido descendentes até esta últim a geração. Assim com o o indica o nosso diagram a, as onze espécies prim itivas são daqui em diante representadas por quinze espécies. Em razão da tendência divergente da seleção natural, o valor da diferença dos caracteres entre as espécies a14 e z14 deve ser m uito m ais considerável que a diferença que existia entre os indivíduos m ais distintos das onze espécies prim itivas. Dem ais, as novas espécies estão aliadas entre si de um a m aneira m uito diferente. Nos oito descendentes de A, os indicados pelas letras a14, q14 e p14, são m uito próxim os porque são ram os

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recentes de a10; b14 e f14, tendo divergido num período m uito m ais antigo de a3, são, até certo ponto, distintos destas três prim eiras espécies; e enfim o14, e14 e m 14 são m uito próxim as um as das outras; m as, com o divergem de A no com eço m esm o desta série de m odificações, estas espécies devem ser bastante diferentes das outras cinco, para constituir sem dúvida um subgênero ou um gênero distinto. Os seis descendentes de I form am dois subgêneros ou dois gêneros distintos. Mas com o a espécie prim itiva I diferia m uito de A, porque se encontrava quase na outra extrem idade do gênero prim itivo, as seis espécies descendentes de I, devido apenas à hereditariedade, devem diferir consideravelm ente das oito espécies descendentes de A; dem ais, supusem os que os dois grupos têm continuado a divergir em direções diferentes. As espécies interm ediárias, e é isto um a consideração m uito im portante, que ligam as espécies originais A e I, foram todas extintas, à exceção de F, única que deixou descendentes. Portanto, as seis novas espécies descendentes de I, e as oito espécies descendentes de A, deverão ser classificadas com o gêneros m uito distintos, ou m esm o com o subfam ílias distintas. É assim , creio eu, que dois ou m uitos gêneros derivam , após m odificações, de duas ou de m uitas espécies de um m esm o gênero. Estas duas ou m uitas espécies origens derivam tam bém , por seu turno, de qualquer espécie de um gênero anterior. Isto está indicado, no nosso diagram a, por linhas pontuadas colocadas por baixo das letras m aiúsculas, linhas convergindo em grupo para um só ponto. Este ponto representa um a espécie, o suposto predecessor dos nossos subgêneros e dos nossos gêneros. É útil parar um instante a considerar o caráter da nova espécie F14, que, tem o-lo suposto, não divergiu m uito, m as conservou a form a de F, quer com algum as pequenas m odificações, quer sem qualquer alteração. As afinidades desta espécie com as outras catorze novas espécies devem ser necessariam ente m uito curiosas. Derivada de um a form a situada pouco m ais ou m enos a igual distância entre as espécies origens A e I, que supom os extintas e desconhecidas, deve apresentar, até certo ponto, um caráter interm ediário entre o dos dois grupos descendentes da m esm a espécie. Mas, com o o caráter destes dois grupos é continuam ente desviado do tipo origem , a nova espécie F14 não constitui

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um interm ediário im ediato entre eles; constitui, contudo, um interm ediário entre os tipos dos dois grupos. Ora, cada naturalista pode lem brar, sem dúvida, casos análogos. Supusem os, até ao presente, que cada linha horizontal do diagram a representava m il gerações; m as cada um a poderia representar um m ilhão de gerações, ou m esm o m ais; cada um a poderia m esm o representar um a das cam adas sucessivas da crosta terrestre, na qual se encontram os fósseis. Tornarem os a insistir neste ponto, no nosso capítulo sobre a geologia, e verem os então, creio eu, que o diagram a lança algum a luz sobre as afinidades dos seres extintos. Estes seres, posto que pertençam ordinariam ente às m esm as ordens, às m esm as fam ílias ou aos m esm os gêneros que os que existem hoj e, apresentam m uitas vezes contudo, num a certa m edida, caracteres interm ediários entre os grupos atuais; podem os com preender isto tanto m elhor que as espécies existentes viviam em diferentes épocas afastadas, quando as linhas de descendência tinham divergido m enos. Não vej o razão algum a que obrigue a lim itar apenas à form ação dos gêneros a série de m odificações que acabam os de indicar. Se supuserm os que, no diagram a, a som a das alterações representada por cada grupo sucessivo de linhas pontuadas divergentes é m uito grande, as form as a14 a p14, b14 e f14, o14 a m 14

form arão três gêneros m uito distintos. Terem os tam bém dois gêneros m uito distintos descendendo de I e diferindo m uito consideravelm ente dos descendentes de “A”. Estes dois grupos de gêneros form arão assim duas fam ílias ou duas ordens distintas, segundo a som a das m odificações divergentes que se supõe representada pelo diagram a. Ora, as duas novas fam ílias ou as duas novas ordens, descendem de duas espécies pertencendo a um m esm o gênero prim itivo, e pode supor-se que estas espécies descendem de form as ainda m ais antigas e m ais desconhecidas. Tem os visto que, em cada país, são as espécies pertencentes aos gêneros m ais ricos que apresentam as m ais das vezes variedades ou espécies nascentes. Poder-se-ia parar aqui; com efeito, a seleção natural atuando som ente sobre os indivíduos ou sobre as form as que, devido a certas qualidades, sobrepuj am as outras na luta pela existência, exerce principalm ente a sua ação sobre os que pos- 137

possuem j á certas vantagens; ora, a extensão de um grupo qualquer prova que as espécies que o com põem herdaram algum as qualidades possuídas por um antepassado com um . Tam bém a luta para a produção de descendentes novos e m odificados se estabelece principalm ente entre os grupos m ais ricos que tentam m ultiplicar-se. Um grupo num eroso prevalece sobre um outro grupo considerável, reduzindo-o em núm ero e dim inuindo assim as suas probabilidades de variação e aperfeiçoam ento. Num m esm o grupo considerável, os subgrupos m ais recentes e m ais aperfeiçoados, aum entando sem cessar, apoderando-se a cada instante de novos lugares na econom ia da natureza, tendem constantem ente tam bém a suplantar e destruir os subgrupos m ais antigos e m enos aperfeiçoados. Enfim , os grupos e os subgrupos pouco num erosos e vencidos acabam por desaparecer. Se lançarm os os olhos para o futuro, podem os predizer que os grupos de seres organizados que são hoj e ricos e dom inantes, que não estão ainda rom pidos, isto é, que não sofreram ainda a m enor extinção, devem continuar a aum entar em núm ero durante longos períodos. Mas que grupos acabarão por prevalecer? É o que ninguém pode prever, porque sabem os que m uitos grupos, outrora desenvolvidíssim os, são hoj e extintos. Se nos ocuparm os de um futuro ainda m ais rem oto, predirem os que, por causa do aum ento contínuo e regular dos m aiores grupos, um conj unto de pequenos grupos deve desaparecer com pletam ente sem deixar descendentes m odificados, e que, por conseguinte, m uito poucas espécies vivendo num a época qualquer devem ter descendentes depois de um lapso de tem po considerável. Terei de voltar a este ponto no capítulo sobre a classificação; m as posso aj untar que, segundo a nossa teoria, poucas espécies m uito antigas devem ter representantes na época atual; ora, com o todos os descendentes da m esm a espécie form am um a classe, é fácil de com preender com o sucede que haj a tão poucas classes em cada divisão principal dos reinos anim al e vegetal. Posto que poucas das m ais antigas espécies tenham deixado descendentes m odificados, todavia, em antigos períodos geológicos, a Terra pode ter sido quase tão povoada com o é hoj e de espécies pertencendo a m uitos gêneros, fam ílias, ordens e classes.

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DO PROG RESSO POSSIVEL DA ORG ANIZAÇÃO

A seleção natural atua exclusivam ente no m eio da conservação e acum ulação das variações que são úteis a cada indivíduo nas condições orgânicas e inorgânicas em que pode encontrar-se colocado em todos os períodos da vida. Cada ser, e é este o ponto final do progresso, tende a aperfeiçoar-se cada vez m ais relativam ente a estas condições. Este aperfeiçoam ento conduz inevitavelm ente ao progresso gradual da organização do m aior núm ero de seres vivos em todo o m undo. Mas referim o-nos aqui a um assunto m uito com plicado, porque os naturalistas ainda não definiram , de um a form a satisfatória para todos, o que deve com preender-se por « um progresso de organização» . Para os vertebrados, tratase claram ente de um progresso intelectual e de um a conform ação que se aproxim e da do hom em . Poder-se-ia pensar que a som a das alterações que se produzem nas diferentes partes e nos diferentes órgãos, por m eio de desenvolvim entos sucessivos desde o em brião até à m aternidade, basta com o term o de com paração; m as há casos, certos crustáceos parasitas por exem plo, nos quais m uitas partes da conform ação se tornam m enos perfeitas, de tal form a que o anim al adulto não é certam ente superior à larva. O critério de Von Baer parece o m ais geralm ente aplicável e o m elhor, isto é, a extensão da diferenciação das partes do m esm o ser e a especialização destas partes para diferentes funções, ao que j untarei: no estado adulto; ou, com o o diria Milne Edwards, o aperfeiçoam ento da divisão do trabalho fisiológico. Mas com preendem os bem depressa que obscuridade existe neste assunto, se estudarm os, por exem plo, os peixes. Com efeito, certos naturalistas consideram com o os m ais elevados na escala os que, com o o tubarão, se aproxim am m ais dos anfíbios, enquanto que outros naturalistas consideram com o m ais elevados os peixes ósseos ou teleósteos, porque são realm ente m ais pisciform es e diferem m ais das outras classes dos vertebrados. A obscuridade do assunto fere-nos m ais ainda se estudarm os as plantas, para as quais, bem entendido, o critério da inteligência não existe; em verdade, alguns botânicos dispõem entre as plantas m ais elevadas aquelas que apresentam em cada flor, no estado com pleto de desenvolvim ento, todos os órgãos, tais com o: sépalas, péta- 139

las, estam es e pistilos, enquanto que outros botânicos, provavelm ente com m ais razão, concedem o prim eiro grau às plantas cuj os diversos órgãos são m uito m odificados e em núm ero reduzido. Se adotam os, com o critério de um a alta organização, a som a das diferenciações e de especializações dos diversos órgãos em cada indivíduo adulto, o que com preende o aperfeiçoam ento intelectual do cérebro, a seleção natural conduz claram ente a esse fim . Todos os fisiólogos, com efeito, adm item que a especialização dos órgãos é um a vantagem para o indivíduo, no sentido de que, neste estado, os órgãos executam m elhor as suas funções; por conseqüência, a acum ulação das variações tendentes à especialização, entra na alçada da seleção natural. Por outro lado, se se pensar que todos os seres organizados tendem a m ultiplicarse rapidam ente e a apoderar-se de todos os lugares desocupados, ou pouco ocupados na econom ia da natureza, é fácil com preender que é m uito possível que a seleção natural prepare gradualm ente um indivíduo para um a situação na qual m uitos órgãos lhe serão supérfluos e inúteis; neste caso, haveria um a retrogradação real na escala da organização. Discutirem os com m ais proficiência, no capítulo sobre a sucessão geológica, a questão de saber se, em regra geral, a organização tem feito progressos seguros desde os períodos geológicos m ais rem otos até

nossos dias.

Mas, poder-se-á dizer, se todos os seres organizados tendem a elevar-se na escala, com o sucede que um a m ultidão de form as inferiores exista ainda no m undo? Com o sucede que haj a, em cada grande classe, form as m uito m ais desenvolvidas do que algum as outras? Porque é que as form as m ais aperfeiçoadas não têm por toda a parte suplantado e exterm inado as form as inferiores? Lam arck, que acreditava em um a tendência inata e fatal de todos os seres organizados para a perfeição, parece ter pressentido tam bém esta dificuldade, que o levou a supor que as form as sim ples e novas são constantem ente produzidas pela geração espontânea. A ciência não provou ainda o bom fundam ento desta doutrina, posto que possa, além disso, revelar-no-lo no futuro. Pela nossa teoria, a existência persistente dos organism os inferiores não oferece dificuldade algum a; com efeito, a seleção natural, ou a persistência do m ais apto, não obriga necessariam ente a um

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desenvolvim ento progressivo, apodera-se unicam ente das variações que se apresentam e que são úteis a cada indivíduo nas relações com plexas da sua existência. E, poderia dizer-se, que vantagem haveria, tanto quanto o podem os avaliar, para um anim álculo infusório, para um verm e intestinal, ou m esm o para um a m inhoca em adquirir um a organização superior? Se esta vantagem não existe, a seleção natural m elhora apenas m uito pouco estas form as, e deixa-as, durante períodos infinitos, nas suas condições inferiores atuais. Ora, a geologia ensina-nos que algum as form as m uito inferiores, com o os infusórios e os rizópodes, conservam o seu estado atual desde um período im enso. Mas seria m uito tem erário supor que a m aior parte das num erosas form as inferiores existentes hoj e não fizeram progresso algum desde a aparição da vida sobre a Terra; com efeito, todos os naturalistas que dissecaram alguns destes seres, e estão de acordo em colocá-los na m ais baixa escala, devem ter-se im pressionado pela sua organização tão adm irável e tão bela.

As m esm as observações se podem aplicar tam bém , se exam inarm os os m esm os graus de organização, em cada um dos grandes grupos; por exem plo, a coexistência dos m am íferos e dos peixes com os vertebrados, a do hom em e do ornitorrinco com os m am íferos, a do tubarão e do branquióstom o (Am phioxus) com os peixes. Este últim o peixe, pela extrem a sim plicidade da sua conform ação, aproxim a-se m uito dos invertebrados. Mas os m am íferos e os peixes não entram em luta uns com os outros; os progressos de toda a classe dos m am íferos ou de certos indivíduos desta classe, adm itindo m esm o que estes progressos os conduzem à perfeição, não os levariam a tom ar o lugar dos peixes. Os fisiólogos crêem que, para adquirir toda a atividade de que é suscetível, o cérebro deve ser banhado de sangue quente, o que exige um a respiração aérea. Os m am íferos de sangue quente encontram -se pois colocados num a posição m uito desvantaj osa quando habitam na água; com efeito, são obrigados a subir continuam ente à superfície para respirar. Nos peixes, os m em bros da fam ília do tubarão não tendem a suplantar o branquióstoino, porque este últim o, segundo Fritz Müller, tem por único com panheiro e único concorrente, sobre as costas arenosas e estéreis do Brasil Meridional, um anelídeo anorm al. As três ordens inferiores de m am íferos, isto é,

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os m arsupiais, os desdentados e os roedores, habitam , na Am érica Meridional, a m esm a região de num erosas espécies de m acacos, e, provavelm ente, im portam se m uito pouco uns com os outros. Posto que a organização possa, em sum a, ter progredido, e progrida ainda em todo o m undo, haverá contudo sem pre m uitos graus de perfeição; de fato, o aperfeiçoam ento de m uitas classes inteiras, ou de certos indivíduos de cada classe, não conduz necessariam ente à extinção dos grupos com que se não encontra em concorrência ativa. Em alguns casos, com o em breve verem os, os organism os inferiores parecem ter persistido até à época atual, porque habitam regiões restritas e fechadas, onde estão subm etidos a um a concorrência m enos ativa, e onde o seu pequeno núm ero retarda a produção de variações favoráveis.

Enfim , creio que m uitos organism os inferiores existem ainda no m undo em razão de causas diversas. Casos há em que variações, ou diferenças individuais de um a natureza vantaj osa, j am ais se apresentam , e, por conseqüência, a seleção natural não pode nem atuar nem acum ulá-las. Em caso algum , provavelm ente, decorreu tem po suficiente para perm itir todo o desenvolvim ento possível. Em alguns casos, houve, decerto, o que nós devem os designar por retrogradação de organização. Mas a causa principal reside neste fato de, sendo dadas condições de existência m uito sim ples, um a alta organização tornar-se inútil, talvez m esm o desvantaj osa, porque sendo de um a natureza m ais delicada, degeneraria m ais facilm ente, e seria m ais facilm ente destruída.

Pergunta-se com o, quando da prim eira aparição da vida, quando todos os seres organizados, podem os crer, apresentaram um a conform ação m ais sim ples, puderam produzir-se os prim eiros graus do progresso ou da diferenciação das partes. M. Herbert Spencer responderia provavelm ente que, desde que um organism o unicelular sim ples se torna, pelo crescim ento ou pela divisão, um com posto de m uitas células, ou se está fixo a algum as superfícies de apoio, a lei que estabeleceu entra nação e exprim e assim esta lei: « As unidades hom ólogas de toda a força diferenciam -se à m edida que as suas relações com as forças incidentes são diversas» . Mas, com o não conhecem os fato algum que nos possa servir de ponto de com paração, toda a especulação sobre este assunto seria quase inútil. É, con- 142

tudo, um erro supor que não tenha havido luta pela existência, e, por conseguinte, seleção natural, até que m uitas form as fossem produzidas; podem produzir-se variações vantaj osas num a única espécie, habitando um a estação isolada, e toda a m assa dos indivíduos pode tam bém , por conseqüência, m odificar-se, e produzirem -se duas form as distintas. Mas, com o j á lem brei no fim da introdução, ninguém deve esquecer-se de que ficam ainda tantos pontos inexplicados sobre a origem das espécies, se m editarm os na profunda ignorância em que estam os sobre as relações m útuas dos habitantes do m undo na nossa época, e m uito m ais ainda durante períodos afastados.

CONVERG ÊNCIA DOS CARACTERES

M. H. C. Watson j ulga que atribuo dem asiada im portância à divergência dos caracteres (de que m e parece, além disso, adm itir a im portância) e que o que pode cham ar-se a sua convergência deve igualm ente desem penhar qualquer papel. Se duas espécies, pertencendo a dois gêneros distintos, ainda que próxim os, têm produzido um grande núm ero de form as novas e divergentes, é com preensível que estas form as possam aproxim ar-se bastante um as das outras para que devam colocar-se todas as classes no m esm o gênero; por isso, os descendentes de dois gêneros distintos convergiriam em um só. Mas, na m aior parte dos casos, seria m uito tem erário atribuir à convergência um a analogia íntim a e geral de conform ação entre os descendentes m odificados de form as m uito distintas. As forças m oleculares determ inam som ente a form a de um cristal; e não é para surpreender que substâncias diferentes possam m uitas vezes revestir a m esm a form a. Mas devem os nos lem brar que, entre os seres organizados, a form a de cada um deles depende de um a infinidade de relações com plexas; as variações que se m anifestam , devidas a causas m uito inexplicáveis para que se possam analisar - a natureza das variações que têm persistido ou feito o obj eto da seleção natural, as quais dependem das condições físicas am bientes, e, em alto grau ainda, dos organism os circunvizinhos com os quais cada indivíduo entra em concorrência - e, enfim , a hereditariedade (elem ento flutuante em si) de inum eráveis antepassados cuj as

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form as foram determ inadas por m eio de relações igualm ente com plexas. Seria inacreditável que os descendentes de dois organism os que, na origem , diferiam de um a m aneira pronunciada, tivessem j am ais convergido depois suficientem ente para que a sua organização total se aproxim e da identidade. Se assim fosse, encontraríam os a m esm a form a, independentem ente de toda a conexão genésica, nas form ações geológicas m uito separadas; ora, o estudo dos fatos observados opõe-se a um a sem elhante conseqüência.

M. Watson obj eta tam bém que a ação contínua da seleção natural, acom panhada da divergência dos caracteres, tenderia à produção de um núm ero infinito de form as específicas. Parece provável, no que diz respeito pelo m enos às condições físicas, que um núm ero suficiente de espécies se adaptaria em breve a todas as diferenças de calor, de um idade, etc., por m ais consideráveis que sej am estas diferenças; m as adm ito com pletam ente que as relações recíprocas de seres organizados são m ais im portantes. Ora, à m edida que o núm ero das espécies cresce num país qualquer, as condições orgânicas da vida devem tornar-se cada vez m ais com plexas. Portanto, não parece haver, à prim eira vista, lim ite algum à

quantidade de diferenças de estrutura vantaj osas e, por conseqüência tam bém , ao núm ero de espécies que poderiam ser produzidas. Não sabem os m esm o se as regiões m ais ricas possuem o m áxim o de form as específicas: no cabo da Boa Esperança, na Austrália, onde vive j á um núm ero tão adm irável de espécies, m uitas plantas européias se aclim ataram . Mas a geologia dem onstra-nos que, depois de um a época m uito antiga do período terciário, o núm ero das espécies de conchas e, desde o m eado deste m esm o período, o núm ero de espécies de m am íferos não aum entou m uito, adm itindo m esm o que tenham aum entado um pouco. Qual é então o obstáculo que se opõe a um aum ento indefinido do núm ero das espécies? A quantidade de indivíduos (não quero dizer o núm ero de form as específicas) podendo viver num a região deve ter um lim ite, porque esta quantidade depende em grande parte das condições exteriores; logo, se m uitas espécies habitam um a m esm a região, cada um a destas espécies, quase todas certam ente, devem ser representadas por um pequeno núm ero de indivíduos apenas; dem ais, estas espécies são suj eitas a desaparecer em razão de alterações acidentais provenientes

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da natureza das estações, ou do núm ero dos seus inim igos. Em tais casos, o exterm ínio é rápido, quando pelo contrário a produção de novas espécies é sem pre m uito lenta. Suponham os, com o caso extrem o, que havia em Inglaterra tantas espécies quantos indivíduos: o prim eiro Inverno rigoroso, ou um Verão m uito seco, causaria o exterm ínio de m ilhares de espécies. As espécies raras (e cada espécie tornar-se-ia rara se o núm ero de espécies de um país crescesse indefinidam ente), oferecem , explicam os j á em virtude de que princípio, poucas variações vantaj osas num tem po dado; por conseqüência, a produção de novas form as específicas seria consideravelm ente dem orada. Quando um a espécie se torna rara, os cruzam entos consangüíneos contribuem para adiantar a sua extinção; alguns autores pensaram que conviria, em grande parte, atribuir a este fato o desaparecim ento do uro na Lituânia, do veado na Córsega e do urso na Noruega, etc. Enfim , e estou disposto a acreditar que é isto o elem ento m ais im portante, um a espécie dom inante, tendo j á vencido m uitos concorrentes no seu próprio habitat, tende a estenderse e a suplantar m uitos outros. Alphonse de Candolle dem onstrou que as espécies que se espalham m uito tendem ordinariam ente a espalhar-se cada vez m ais; por isso, estas espécies tendem a suplantar e a exterm inar m uitas espécies em m uitas regiões e atrasar assim o aum ento desordenado das form as específicas sobre o Globo.

O Dr. Hooker dem onstrou recentem ente que na extrem idade sudeste da Austrália, que parecia ter sido invadida por num erosos indivíduos vindos de diferentes partes do Globo, as diferentes espécies australianas indígenas dim inuíram consideravelm ente em núm ero. Não pretendo determ inar que valor convém atribuir a estas diversas considerações; m as estas diferentes causas reunidas devem lim itar em cada país a tendência para um aum ento indefinido do núm ero de form as específicas.

RESUMO DO CAPÍTULO

Se, no m eio das condições inconstantes da existência, os seres organizados apresentam diferenças individuais, em quase todas as partes da sua estrutu- 145

ra, e este ponto não é contestável; se se produz, entre as espécies, em razão da progressão geom étrica do aum ento dos indivíduos, um a encarniçada luta pela existência num a certa idade, num a certa estação, ou durante um período qualquer da vida, e este ponto não é certam ente contestável; tendo, então, em conta a infinita com plexidade das relações m útuas de todos os seres organizados e das suas relações com as condições da sua existência, o que causa um a diversidade infinita e considerável de estruturas, de constituições e de hábitos, seria deveras extraordinário que se não produzissem j am ais variações úteis à prosperidade de cada indivíduo, da m esm a form a com o se produzem tantas variações úteis ao hom em . Mas, se as variações úteis a um ser organizado qualquer se apresentam algum as vezes, seguram ente os indivíduos que disso são o obj eto têm a m elhor probabilidade de vencer na luta pela existência; pois, em virtude do princípio tão poderoso da hereditariedade, estes indivíduos tendem a deixar os descendentes tendo o m esm o caráter que eles. Dei o nom e de seleção natural a este princípio de conservação ou de persistência do m ais apto. Este princípio conduz ao aperfeiçoam ento de cada criatura relativam ente às condições orgânicas e inorgânicas da sua existência; e, por conseguinte, na m aior parte dos casos, ao que podem os considerar com o um progresso de organização. Todavia, as form as sim ples e inferiores persistem m uito tem po quando são bem adaptadas às condições pouco com plexas da sua existência. Em virtude do princípio da hereditariedade dos caracteres nas idades correspondentes, a seleção natural pode atuar sobre o ovo, sobre a sem ente ou sobre o novo indivíduo, e m odificá-los tão facilm ente com o pode m odificar o adulto. Entre um grande núm ero de anim ais, a seleção sexual vem no auxílio da seleção ordinária, assegurando aos m achos m ais vigorosos e m elhor adaptados o m aior núm ero de descendentes. A seleção sexual desenvolve tam bém nos m achos caracteres que lhes são úteis nas suas rivalidades ou nas suas lutas com outros m achos, caracteres que podem transm itir-se som ente a um sexo ou aos dois, seguindo a form a de hereditariedade predom inante na espécie. A seleção natural tem gozado realm ente este papel? Tem realm ente adaptado as form as diversas da vida às suas condições e às suas estações diferentes?

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É exam inando os fatos expostos nos capítulos seguintes que nós os poderem os j ulgar. Mas j á vim os com o a seleção natural determ ina a extinção; ora, a história e a geologia dem onstram -nos claram ente qual o papel que a extinção tem gozado na história zoológica do m undo. A seleção natural conduz tam bém à divergência dos caracteres; porque, quanto m ais os seres organizados diferem uns dos outros sob a relação da estrutura, dos hábitos e da constituição, tanto m ais a m esm a região pode alim entar um grande núm ero; tem os tido a prova disso estudando os habitantes de um a pequena região e as produções aclim atadas. Por conseqüência, durante a m odificação dos descendentes de um a espécie qualquer, durante a luta incessante de todas as espécies para crescer em núm ero, quanto m ais diferentes se tornam estes descendentes, tanto m ais probabilidades têm de ser bem sucedidos na luta pela existência. Tam bém , as pequenas diferenças que distinguem as variedades de um a m esm a espécie tendem regularm ente a aum entar até

que se tornem iguais às grandes diferenças que existem entre as espécies de um m esm o gênero, ou m esm o entre os gêneros distintos.

Vim os que são as espécies com uns m uito espalhadas e tendo um habitat considerável, e que, adem ais, pertencem aos gêneros m ais ricos de cada classe, que variam m ais, e que estas espécies tendem a transm itir aos descendentes m odificados esta superioridade que lhes assegura hoj e o dom ínio no próprio país. A seleção natural, com o acabam os de fazer observar, conduz à divergência dos caracteres e à extinção com pleta das form as interm ediárias e m enos aperfeiçoadas. Partindo destes princípios, pode explicar-se a natureza das afinidades e as distinções ordinariam ente bem definidas entre os inum eráveis seres organizados de cada classe à superfície do Globo. Um fato verdadeiram ente adm irável e que nós dem asiado desconhecem os, porque estam os talvez m uito fam iliarizados com ele, é que todos se encontram reunidos por grupos subordinados a outros grupos da m esm a form a que observam os em todos, isto é, que as variedades da m esm a espécie m ais próxim as um as das outras, e as espécies do m esm o gênero, m enos estreitam ente e m ais desigualm ente aliadas, form am seções e subgêneros; que as espécies de gêneros distintos ainda m uito m enos próxim os e, enfim , que os gêneros m ais ou m enos sem elhantes form am subfam ílias, fam ílias, ordens, classes e

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subclasses. Os diversos grupos subordinados de um a classe qualquer não podem ser dispostos em um a única linha, m as parecem agrupar-se em volta de certos pontos, e estes em volta de outros e assim seguidam ente em círculos quase infinitos. Se as espécies fossem criadas independentem ente um as das outras, não poderia explicar-se este m odo de classificação; explica-se facilm ente, pelo contrário, pela hereditariedade, e pela ação com plexa da seleção natural, produzindo a extinção e a divergência dos caracteres, assim com o o dem onstra o nosso diagram a. Têm -se representado algum as vezes sob a figura de um a grande árvore as afinidades de todos os seres da m esm a classe, e creio que esta im agem é assaz j usta sob m uitas relações. Os ram os e os gom os representam as espécies existentes; os ram os produzidos durante os anos precedentes representam a longa sucessão das espécies extintas. A cada período de crescim ento, todas as ram ificações tendem a estender os ram os por toda a parte, a exceder e destruir as ram ificações e os ram os circunvizinhos, da m esm a form a que as espécies e os grupos de espécies têm , em todos os tem pos, vencido outras espécies na grande luta pela existência. As bifurcações do tronco, divididas em grossos ram os, e estes em ram os m enos grossos e m ais num erosos, tinham outrora, quando a árvore era nova, apenas pequenas ram ificações com rebentos; ora, esta relação entre os velhos rebentos e os novos no m eio dos ram os ram ificados representa bem a classificação de todas as espécies extintas e vivas em grupos subordinados a outros grupos. Sobre as num erosas ram ificações que prosperavam quando a árvore era apenas um arbusto, duas ou três unicam ente, transform adas hoj e em grossos ram os, têm sobrevivido, e sustentam as ram ificações subseqüentes; da m esm a m aneira, sobre as num erosas espécies que viviam durante os períodos geológicos afastados desde longo tem po, m uito poucas deixaram descendentes vivos e m odificados. Desde o prim eiro crescim ento da árvore, m ais de um ram o deve ter perecido e caído; ora, estes ram os caídos, de grossura diferente, podem representar as ordens, as fam ílias e os gêneros inteiros, que não têm representantes vivos e que apenas conhecem os no estado fóssil. Da m esm a form a que vem os de onde aonde sobre a árvore um ram o delicado, abandonado, que surgiu de qualquer bifurcação inferior, e, em conseqüência de felizes circunstâncias, está ainda vivo, e

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atinge o cum e da árvore, da m esm a form a encontram os acidentalm ente algum anim al, com o o ornitorrinco ou a lepidossercia, que, pelas suas afinidades, liga, sob quaisquer relações, duas grandes artérias da organização, e que deve provavelm ente a um a situação isolada ter escapado a um a concorrência fatal. Da m esm a form a que os gom os produzem novos gom os, e que estes, se são vigorosos, form am ram os que elim inaram de todos os lados os ram os m ais fracos, da m esm a form a creio eu que a geração atua igualm ente para a grande árvore da vida, cuj os ram os m ortos e quebrados são sepultados nas cam adas da crosta terrestre, enquanto que as suas m agníficas ram ificações, sem pre vivas e renovadas incessantem ente, cobrem a superfície.

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CAPITULO V

Leis da Variação

-Efeito da mudança das condições.

-Uso e não uso das partes combinadas com a seleção natural; órgãos do vôo e da vista.

-Aclimatação.

-Variações correlativas.

-Compensação e economia de crescimento.

-Falsas correlações.

-Os organismos inferiores múltiplos e rudimentares são variáveis.

-As partes desenvolvidas de maneira extraordinária são muito variáveis; os carac-teres específicos são mais variáveis que os caracteres genéricos; os caracteres sexuais secundários são muito variáveis.

-As espécies do mesmo gênero variam de uma maneira análoga.

-Regresso a caracteres de há muito perdidos.

-Resumo.

EFEITO DA MUDANÇA DAS CONDIÇÕES

Tenho, até ao presente, falado de variações - tão com uns e tão diversas nos seres organizados reduzidos ao estado dom éstico, e, num grau m enor, naqueles que se encontram no estado selvagem - com o se elas fossem devidas ao acaso. É, sem contradita, um a expressão m uito incorreta; talvez, contudo, tenha vantagem porque serve para dem onstrar a nossa ignorância absoluta sobre as causas de cada variação particular. Alguns sábios j ulgam que um a das funções do sistem a reprodutor consiste tanto em produzir diferenças individuais, ou pequenos desvios de estrutura, com o em produzir descendentes sem elhantes aos pais. Mas o fato de as variações e de as m onstruosidades se apresentarem em m aior núm ero no estado dom éstico que no estado natural, o fato de as espécies tendo um habitat m uito extenso serem m ais variáveis que as que têm um habitat restrito, autorizam -nos a concluir que a variabilidade deve ter, de ordinário, qualquer relação com as condições de existência às quais cada espécie foi subm etida durante algum as gerações sucessivas. Tentei dem onstrar, no prim eiro capítulo, que as m udanças de condições atuam de duas m aneiras: diretam ente, sobre a organiza- 150

ção inteira, ou sobre certas partes unicam ente do organism o; indiretam ente, por m eio do sistem a reprodutor. Em todo o caso, há dois fatores: a natureza do organism o, que é a m ais im portante, e a natureza das condições am bientes. A ação direta da m udança das condições conduz a resultados definidos ou indefinidos. Neste últim o caso, o organism o parece tornar-se plástico, e encontram o-nos em presença de um a grande variabilidade incerta. No prim eiro caso, a natureza do organism o é tal que cede facilm ente, quando se subm ete a certas condições e todos, ou quase todos os indivíduos, se m odificam da m esm a m aneira. É m uito difícil determ inar até que ponto a alteração das condições, tal, por exem plo, com o a alteração do clim a, da alim entação, etc., atua de um a m aneira definida. Há razão para acreditar que, no decorrer do tem po, os efeitos destas alterações são tão consideráveis que se podem estabelecer pela prova direta. Todavia, podem os concluir, sem receio de errar, que se não podem atribuir unicam ente a um a tal causa atuante as adaptações de estrutura, tão num erosas e tão com plexas, que observam os na natureza entre os diferentes seres organizados. Nos casos seguintes, as condições am bientes parecem ter produzido um ligeiro efeito definido: E. Forbes afirm a que os m ariscos, na extrem idade m eridional do seu habitat, revestem , quando vivem nas águas pouco profundas, cores m uito m ais brilhantes que os m ariscos da m esm a espécie, que vivem m ais ao norte e a um a grande profundidade; m as esta lei não se aplica certam ente sem pre. M. Gould observou que as aves da m esm a espécie são m ais brilhantem ente coloridas, quando vivem num país em que o céu é sem pre puro, do que quando habitam j unto das costas ou nas ilhas; Wollaston assegura que a residência j unto das costas afeta a cor dos insetos. Moquin Tandon dá um a lista de plantas de que as folhas se tornam carnudas, quando crescem j unto do m ar, posto que isto se não produza em qualquer outro lugar. Estes organism os, levem ente variáveis, são Interessantes, no sentido de apresentarem caracteres análogos aos que possuem as espécies expostas a condições sem elhantes.

Continuar: parte 2 de 3