A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 8 de 17

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A Origem das Espécies

diferentes variedades que nasceram j unto um…

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diferentes variedades que nasceram j unto um as das outras, e, destas duzentas e trinta e três plantas, apenas setenta e oito eram de raça pura, e ainda algum as destas últim as eram ligeiram ente alteradas. Contudo, o pistilo de cada flor, na couve, é não som ente cercado de seis estam es, m as ainda pelos de num erosas outras flores que se encontram na m esm a planta; além disso, o pólen de cada flor chega facilm ente ao estigm a, sem que sej a necessário a intervenção dos insetos; observei, com efeito, que as plantas protegidas com cuidado contra as visitas dos insetos produzem um núm ero com pleto de silíquas. Com o sucede, pois, que um tão grande núm ero de plantas novas sej am m estiças? Isto deve provir de que o pólen de um a variedade distinta é dotado de um poder fecundante m ais ativo do que o pólen da própria flor, e que isto faz parte da lei geral em virtude da qual o cruzam ento de indivíduos distintos da m esm a espécie é vantaj oso à planta. Quando, ao contrário, espécies distintas se cruzam , o efeito é inverso, porque o próprio pólen de um a planta excede quase sem pre em poder fecundante um pólen estranho; nós voltarem os, dem ais, a este assunto num capítulo subseqüente. Poder-se-ia fazer esta obj eção que, em um a grande árvore, coberta de inum eráveis flores, é quase im possível que o pólen sej a transportado de árvore em árvore, e que apenas poderia ser de flor em flor sobre a m esm a árvore; ora, som ente se podem considerar num sentido m uito lim itado as flores da m esm a árvore com o indivíduos distintos. Creio que esta obj eção tem um certo valor, m as a natureza proveu a isto suficientem ente dando às árvores um a grande tendência a produzir flores de sexos separados. Ora, quando os sexos são separados, ainda que a m esm a árvore possa produzir flores m asculinas e flores fem ininas, é preciso que o pólen sej a regularm ente transportado de um a flor a outra, e além disso este transporte oferece um a probabilidade para que o pólen passe acidentalm ente de um a árvore para outra. Tenho verificado que, nas nossas regiões, as árvores pertencentes a todas as ordens têm os sexos m uitas m ais vezes separados do que todas as outras plantas. A m eu pedido, o Dr. Hooker teve a am abilidade de form ar a lista das árvores da Nova Zelândia, e o Dr. Asa Gray a das árvores dos Estados Unidos: os resultados foram tais com o eu os tinha previsto. Por outra parte, o Dr. Hooker inform ou-m e que esta regra se não aplica à Austrália; m as, se a m aior par- 115

te das árvores australianas são dicogâm icas, o m esm o efeito se produz com o se tivessem flores com sexos separados. Tenho feito algum as referências às árvores apenas para cham ar a atenção sobre este ponto.

Exam inem os resum idam ente o que se passa entre os anim ais. Muitas espécies terrestres são herm afroditas, tais são, por exem plo, os m oluscos terrestres e as m inhocas; todos, entretanto, se copulam . Até ao presente, não encontrei ainda um só anim al terrestre que pudesse fecundar-se a si m esm o. Este fato singular, que contrasta tão vivam ente com o que se passa com as plantas terrestres, explica-se facilm ente pela hipótese da necessidade de um cruzam ento acidental; porque, em razão da natureza do elem ento fecundante, não há, no anim al terrestre, m eios análogos à ação dos insetos e do vento sobre as plantas, que possam produzir um cruzam ento acidental sem a cooperação de dois indivíduos. Entre os anim ais aquáticos, há, pelo contrário, m uitos herm afroditas que se fecundam a si m esm os, m as aqui as correntes oferecem um m eio fácil de cruzam entos acidentais. Depois de num erosos estudos, feitos conj untam ente com um a das m ais altas e m ais com petentes autoridades, o professor Huxley, foi-m e im possível descobrir, nos anim ais aquáticos, e até m esm o nas plantas, um só herm afrodita no qual os órgãos reprodutores fossem tão perfeitam ente internos, que todo o acesso fosse absolutam ente fechado à influência acidental de um outro indivíduo, de m odo a tornar todo o cruzam ento im possível. Durante m uito tem po m e pareceu que os Cirrípedes fariam exceção a esta regra; m as, graças a um feliz acaso, pude provar que dois indivíduos, am bos herm afroditas e capazes de se fecundar a si m esm os, se cruzam contudo algum as vezes.

A m aior parte dos naturalistas deve estar im pressionada, com o por um a estranha anom alia, pelo fato de, nos anim ais e nas plantas, entre as espécies de um a m esm a fam ília e tam bém de um m esm o gênero, serem uns herm afroditas e outros unissexuados, posto que sej am m uito sem elhantes em todos os outros pontos da sua organização. Contudo, se se acha que todos os herm afroditas se cruzam de tem pos a tem pos, a diferença que existe entre eles e as espécies unissexuadas é m uito insignificante, pelo m enos com relação às funções. Estas diferentes considerações e um grande núm ero de fatos especiais que

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pude recolher, m as que a falta de espaço m e im pede de citar aqui, parecem provar que o cruzam ento acidental entre indivíduos distintos, nos anim ais e nas plantas, constitui um a lei senão universal, pelo m enos m uito geral na natureza.

CIRCUNSTÂNCIAS FAVORÁVEIS A PRODUÇÃO DE NOVAS FORMAS PELA SELE-ÇÃO NATURAL

É este um assunto extrem am ente com plicado. Um a grande variabilidade - e, sob este term o, se com preendem sem pre as diferenças individuais - é evidentem ente favorável à ação da seleção natural. A m ultiplicidade de indivíduos, oferecendo m ais probabilidades de variações vantaj osas num tem po dado, com pensa um a variabilidade m enor em cada indivíduo tom ado pessoalm ente, e é este, creio eu, um elem ento im portante de sucesso. Posto que a natureza aplique longos períodos ao trabalho da seleção natural, não seria necessário acreditar, contudo, que esta delonga sej a indefinida. Com efeito, todos os seres organizados lutam por se apoderar dos lugares vagos na econom ia da natureza; por conseqüência, se um a espécie, sej a qual for, se não m odifica nem se aperfeiçoa tão depressa com o os seus concorrentes, deve ser exterm inada. Adem ais, a seleção natural não pode agir sem que alguns descendentes herdem variações vantaj osas. A tendência à

regressão ao tipo dos antepassados pode m uitas vezes em baraçar ou im pedir a ação da seleção natural; m as, por outro lado, com o esta tendência não im pede o hom em de criar, pela seleção, num erosas raças dom ésticas, porque prevaleceria ela contra a obra da seleção natural?

Quando se procede com um a seleção m etódica, o tratador escolhe certos indivíduos para atingir um fim determ inado; se perm ite a todos os indivíduos cruzarem -se livrem ente, é certo que falhará. Quando, porém , m uitos tratadores, sem a intenção de m odificar um a raça, têm um tipo com um de perfeição, e que todos tentam procurar e fazer reproduzir os indivíduos m ais perfeitos, esta seleção inconsciente traz lenta, m as seguram ente, grandes progressos, adm itindo m esm o que se separem os indivíduos m ais particularm ente belos. Dá-se o m esm o no estado livre; porque, num a região restrita, em que a econom ia geral

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apresenta algum as lacunas, todos os indivíduos que variam num a certa direção determ inada, ainda que em graus diferentes, tendem a persistir. Se, ao contrário, a região é considerável, os diversos distritos apresentam certam ente condições diferentes de existência; ora, se um a espécie é subm etida a m odificações nestes diversos distritos, as novas variedades form adas cruzam -se nos confins de cada um deles. Verem os, todavia, no sexto capítulo desta obra, que as variedades interm ediárias, habitando distritos interm ediários, são ordinariam ente elim inadas, num lapso de tem po m ais ou m enos considerável, por um a das variedades vizinhas. O cruzam ento afeta principalm ente os anim ais que se copulam para cada fecundação, que vagueiam m uito, e se não m ultiplicam num a proporção rápida. Assim , nos anim ais desta natureza, aves, por exem plo, as variedades devem ordinariam ente ser lim itadas em regiões separadas um as das outras; é isto o que acontece quase sem pre. Nos organism os herm afroditas que se não cruzam a não ser acidentalm ente, da m esm a form a com o nos anim ais que se copulam para cada fecundação, m as que pouco vagueiam , e se m ultiplicam rapidam ente, um a nova variedade aperfeiçoada pode form ar-se depressa em um lugar qualquer, pode aí sustentar-se e espalhar-se depois de tal m aneira que os indivíduos da nova variedade se cruzem principalm ente uns com os outros. É em virtude deste princípio que os horticultores preferem conservar sem pre sem entes recolhidas sobre m aciços consideráveis de plantas, porque evitam assim as probabilidades de cruzam ento.

Não seria preciso acreditar tam pouco que os cruzam entos fáceis possam em baraçar a ação da seleção natural nos anim ais que se reproduzem lentam ente e se copulam para cada fecundação. Eu poderia citar fatos num erosos provando que, num m esm o país, duas variedades de um a m esm a espécie de anim ais podem ficar por m uito tem po distintas, quer freqüentem ordinariam ente regiões diferentes, quer a estação da cópula não sej a a m esm a para cada um deles, quer enfim os indivíduos de cada variedade prefiram copular-se entre si. O cruzam ento representa um papel im portante na natureza; graças a ele os tipos ficam puros e uniform es na m esm a espécie ou na m esm a variedade. A sua ação é m ais eficaz nos anim ais que se copulam para cada fecundação; m as, aca- 118

bam os de ver que todos os anim ais e todas as plantas se cruzam de tem pos a tem pos. Logo que os cruzam entos não tenham lugar senão com longos intervalos, os indivíduos que daí provêm , com parados aos que resultam da fecundação da planta ou do anim al por si m esm o, são m uito m ais vigorosos e m uito m ais fecundos; e têm , por conseguinte, m ais probabilidades de sobreviver e propagar a sua espécie. Por m uito raros que sej am certos cruzam entos, a sua influência deve, depois de um longo período, exercer um poderoso efeito sobre os progressos da espécie. Quanto aos seres organizados colocados tão baixo na escala, que se não propagam sexualm ente, se não copulam , e nos quais os cruzam entos são im possíveis, a uniform idade dos caracteres só pode conservar-se entre eles, ficando colocados nas m esm as condições de existência, em virtude do princípio da hereditariedade, e devido à seleção natural, cuj a ação traz a destruição dos indivíduos que se afastam do tipo ordinário. Se as condições de existência chegam a m udar, se a form a sofre m odificações, a seleção natural, conservando variações vantaj osas análogas, pode dar som ente aos descendentes m odificados a uniform idade dos caracteres.

O isolam ento goza tam bém de um papel im portante na m odificação das espécies pela seleção natural. Num a região fechada, isolada e pouco extensa, as condições orgânicas e inorgânicas da existência são quase sem pre uniform es, de tal m odo que a seleção natural tende a m odificar da m esm a m aneira todos os indivíduos variáveis da m esm a espécie. Dem ais, o cruzam ento com os habitantes dos distritos vizinhos acha-se im pedido. Moritz Wagner publicou ultim am ente, sobre este assunto, um a m em ória m uito interessante; dem onstrou que o isolam ento, im pedindo os cruzam entos entre as variedades novam ente form adas, tem provavelm ente um efeito m ais considerável que eu m esm o não supunha. Mas, pelas razões que j á indiquei, não posso, de form a algum a, adotar a opinião deste naturalista, quando sustenta que a em igração e o isolam ento são os elem entos necessários à form ação de novas espécies. O isolam ento goza tam bém um papel m uito im portante depois de um a alteração física das condições de existência, tal, por exem plo, com o m odificações de clim a, agitação do solo, etc., porque im pede a em igração de organism os m elhor adaptados a estas novas condições de existên- 119

cia; encontram -se assim , na econom ia natural da região, novos lugares vagos, que serão preenchidos, em virtude disso, por m odificações dos antigos habitantes. Enfim , o isolam ento assegura a um a nova variedade todo o tem po que lhe é necessário para se aperfeiçoar lentam ente, e é este algum as vezes um ponto im portante. Contudo, se a região isolada é m uito pequena, ou porque sej a cercada de barreiras, ou porque as condições físicas sej am todas particulares, o núm ero total dos seus habitantes será tam bém m uito pouco considerável, o que retarda a ação da seleção natural, no ponto de vista da seleção de novas espécies, porque as probabilidades da aparição de variedades vantaj osas são dim inutas. A própria duração do tem po nada pode por si m esm a, nem pró nem contra a seleção natural. Enuncio esta regra porque se tem sustentado sem razão que eu ligava ao elem ento do tem po um papel preponderante na transform ação das espécies, com o se todas as form as da vida devessem necessariam ente sofrer m odificações em virtude de algum as leis inatas. A duração do tem po é som ente im portante-e nisto não exageraríam os esta im portância-porque apresenta m ais probabilidade para a aparição de variações vantaj osas e lhes perm ite, depois que fazem o obj eto da seleção, acum ular-se e fixar-se. A duração do tem po contribui tam bém para aum entar a ação direta das condições físicas da vida na sua relação com a constituição de cada organism o.

Se interrogam os a natureza para lhe pedir a prova das regras que acabam os de form ular, e se considerarm os um a pequena região isolada, sej a qual for, um a ilha oceânica, por exem plo, posto que o núm ero das espécies que a habitam sej a bastante reduzido, com o verem os no capítulo sobre a distribuição geográfica-todavia a m aior parte destas espécies são endêm icas, isto é, foram produzidas neste lugar, e em m ais parte nenhum a do m undo. Pareceria então, à prim eira vista, que um a ilha oceânica era m uito favorável à produção de novas espécies. Mas estam os m uito expostos a enganarm o-nos, porque, para determ inar se um a pequena região isolada tem sido m ais favorável do que um a grande região aberta com o um continente, ou reciprocam ente, à produção de novas form as orgânicas, seria preciso poder estabelecer um a com paração entre tem pos iguais, o que nos é

im possível fazer.

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O isolam ento contribui poderosam ente, sem dúvida, para a produção de novas espécies; contudo, estou disposto a acreditar que um a vasta região aberta é m ais favorável ainda, quando se trata da produção de espécies capazes de se perpetuar durante longos períodos e adquirir um a grande extensão. Um a vasta região aberta oferece não som ente m ais probabilidades para que variações vantaj osas façam a sua aparição em razão do grande núm ero de indivíduos da m esm a espécie que a habitam , m as tam bém em razão de que as condições de vida são m uito m ais com plexas por causa da m ultiplicidade das espécies j á existentes. Ora, se algum a destas num erosas espécies se m odifica e se aperfeiçoa, outras devem aperfeiçoar-se tam bém na m esm a proporção, senão desapareceriam fatalm ente. Dem ais, cada nova form a, desde que está m uito aperfeiçoada, pode espalhar-se num a região aberta e contínua, e encontra-se assim em concorrência com m uitas outras form as. As grandes regiões, ainda que hoj e contínuas, por certo que j á foram , em virtude de antigas oscilações de nível, anteriorm ente fracionadas, de tal form a que os bons efeitos do isolam ento puderam produzir-se tam bém num a certa m edida. Em resum o, concluo que, posto que as pequenas regiões isoladas sej am , sob quaisquer relações, m uito favoráveis à produção de novas espécies, as grandes regiões devem , contudo, favorecer as m odificações m ais rápidas, e, além disso, o que é m ais im portante, as novas form as produzidas nas grandes regiões, tendo j á ganho a vitória sobre num erosos concorrentes, são as que tom am a extensão m ais rápida e que produzem um m aior núm ero de variedades e espécies novas. São estas que desem penham o papel m ais im portante na história constantem ente variável do m undo organizado. Este princípio aj uda-nos a com preender, talvez, alguns fatos a que terem os de voltar no capítulo sobre a distribuição geográfica; por exem plo, o fato de as produções do pequeno continente australiano desaparecerem atualm ente diante das do grande continente euro-asiático. Por isso que tam bém as produções continentais se aclim atam por toda a parte e em tão grande núm ero nas ilhas. Num a pequena ilha, a luta pela existência deve ser m enos ardente, e, por conseguinte, as m odificações e extinções m enos im portantes. Isto nos explica por que a flora da Madeira, assim com o o faz notar Oswald Hecr, se parece, até certo ponto, à

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flora extinta da época terciária da Europa. A totalidade da superfície de todas as bacias de água doce ocupa som ente um a pequena extensão com parativam ente com a das terras e dos m ares. Portanto, a concorrência, nas produções de água doce, deve ser m enos viva que em qualquer outra parte; as novas form as devem produzir-se m ais lentam ente, as antigas form as extinguir-se m ais lentam ente ainda. Ora, é na água doce que encontram os sete gêneros de peixes ganóides, restos de um a ordem outrora preponderante; é igualm ente na água doce que encontram os algum as das form as m ais anorm ais que se conhecem no m undo, o Ornitorrinco e a Lepidossereia, por exem plo, que, com o certos anim ais fósseis, constituem , até certo ponto, um a transição entre as ordens hoj e profundam ente separadas na escala da natureza. Poderiam cham ar-se estas form as anorm ais verdadeiros fósseis viventes; se se conservaram até à época atual, é porque têm habitado um a região isolada e têm estado expostas a um a concorrência m enos variada e, por conseqüência, m enos viva.

Se m e fosse preciso resum ir em algum as palavras as condições vantaj osas ou não à produção de novas espécies pela seleção natural, tanto, todavia, quanto um problem a tão com plexo o perm ite, chegaria a concluir que, para as produções terrestres, um grande continente, que sofreu num erosas oscilações de nível, deve ser o m ais favorável à produção de num erosos novos seres organizados, capazes de se perpetuarem durante m uito tem po e tom ar um a grande extensão. Enquanto a região existiu na form a de continente, os habitantes deviam ser num erosos em espécies e em indivíduos, e, por isso, subm etidos a um a ardente concorrência. Quando, após os abaixam entos, o continente se subdividiu em num erosas grandes ilhas separadas, cada um a destas ilhas deve ainda conter m uitos indivíduos da m esm a espécie, de tal sorte que os cruzam entos deviam ter cessado entre as variedades em breve tornadas próprias de cada ilha. Depois das alterações físicas, de qualquer natureza, toda a em igração deve ter cessado, de m aneira que os antigos habitantes m odificados devem ter ocupado todos os novos lugares na econom ia natural de cada ilha; enfim , o lapso de tem po decorrido perm itiu às variedades, que habitavam cada ilha, m odificar-se com pletam ente e aperfeiçoar-se. Quando, após os elevam entos, as ilhas se transform aram de novo num continen- 122

te, um a luta m uito viva deve ter recom eçado; as variedades m ais favorecidas ou m ais aperfeiçoadas puderam então estender-se; as form as m enos aperfeiçoadas foram exterm inadas, e o continente restaurado m udou de aspecto com respeito ao núm ero relativo dos habitantes. Aí, enfim , abre-se um novo cam po à seleção natural, que tende a aperfeiçoar ainda m ais os habitantes e a produzir novas espécies. Adm ito com pletam ente que a seleção natural atue de ordinário com extrem a lentidão. Não pode m esm o atuar a não ser quando haj a, na econom ia natural de um a região, lugares vagos, que seriam m elhor preenchidos se alguns dos habitantes sofressem certas m odificações. Estas lacunas apenas se produzem quase sem pre após m udanças físicas, que quase sem pre se efetuam m uito lentam ente, e com a condição de alguns obstáculos se oporem à em igração de form as m elhor adaptadas. Contudo, à m edida que alguns dos antigos habitantes se m odificam , as relações m útuas de quase todos os outros se alteram . Isto é o bastante para criar lacunas que form as m elhor adaptadas podem preencher; m as é esta um a operação que se faz m uito lentam ente. Posto que m uitos indivíduos da m esm a espécie diferem um pouco entre si, é preciso em alguns casos, decorrer m uito tem po antes que se produzam variações vantaj osas nas diferentes partes da organização; dem ais, o livre cruzam ento atrasa m uitas vezes consideravelm ente os resultados que poderiam obter-se. Não faltará quem m e obj ete que estas diversas causas são m ais que suficientes para neutralizar a influência da seleção natural. Não o creio. Adm ito, contudo, que a seleção natural atua apenas m uito lentam ente, com longos intervalos, e tam bém som ente sobre alguns habitantes de um a m esm a região. Creio, além disso, que estes resultados lentos e interm itentes concordam ainda com o que nos ensina a geologia sobre o desenvolvim ento progressivo dos habitantes do m undo.

Por m ais lenta que sej a a m archa da seleção natural, se o hom em , com os seus lim itados m eios, consegue realizar tantos progressos aplicando a seleção artificial, não posso perceber lim ite algum na som a de alterações, assim com o na beleza e com plexidade das adaptações de todos os seres organizados nas suas relações m útuas e com as condições físicas de existência que pode, no decurso das idades, realizar a força seletiva da natureza.

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A SELEÇÃO NATURAL TRAZ CERTAS EXTINÇÕES

Direi algum as palavras sobre este assunto, porque se relaciona de perto com a seleção natural, reservando-m e para o tratar m ais com pletam ente no capítulo relativo à geologia. A seleção natural atua unicam ente por m eio da conservação das variações úteis a certos respeitos, variações que persistem em razão desta m esm a utilidade. Devido à progressão geom étrica da m ultiplicação de todos os seres organizados, cada região contém j á tantos habitantes quantos pode nutrir; resulta daí que, à m edida que as form as favorecidas aum entam em núm ero, as form as m enos favorecidas dim inuem e tornam -se raras. A geologia ensina-nos que a raridade é o precursor da extinção. É fácil de com preender que um a form a qualquer, tendo apenas alguns representantes, tem grandes probabilidades para desaparecer com pletam ente, quer em razão de alterações consideráveis na natureza das estações, quer por causa do aum ento tem porário do núm ero dos inim igos. Podem os, além disso, avançar m ais ainda; com efeito, podem os afirm ar que as form as m ais antigas devem desaparecer à m edida que as novas form as se produzem , a não ser que adm itam os que o núm ero de form as específicas aum ente indefinidam ente. Ora, a geologia dem onstra-nos claram ente que o núm ero de form as específicas não aum enta indefinidam ente, e nós tentarem os dem onstrar em breve com o sucede que o núm ero de espécies se não tornou infinito sobre o Globo.

Vim os que as espécies que com preendem o m aior núm ero de indivíduos têm m ais probabilidades de produzir, num tem po dado, variações favoráveis. Os fatos citados no segundo capítulo fornecem -nos a prova, porque dem onstram que são as espécies com uns, espalhadas ou dom inantes, com o lhes cham am os, que apresentam o m aior núm ero de variedades. Resulta daí que as espécies raras se m odificam ou se aperfeiçoam m enos rapidam ente num tem po dado; por conseqüência, são vencidas, na luta pela existência, pelos descendentes m odificados ou aperfeiçoados das espécies com uns.

Creio que estas diferentes considerações nos conduzem a um a conclusão

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inevitável; à m edida que novas espécies se form am no decorrer dos tem pos devido à ação da seleção natural, outras espécies se tornam cada vez m ais raras e term inam por extinguir-se. As que sofrem m ais, são naturalm ente as que se encontram im ediatam ente em concorrência com as espécies que se m odificam e se aperfeiçoam . Ora, vim os, no capítulo que trata da luta pela existência, que são as form as m ais próxim as - as variedades da m esm a espécie e as espécies do m esm o gênero ou de gêneros próxim os – que, em razão da sua estrutura, constituição e hábitos análogos, lutam de ordinário m ais vigorosam ente entre si; por conseguinte, cada variedade ou cada espécie nova, enquanto se form a, deve lutar ordinariam ente com m ais energia com os seus parentes m ais próxim os e acabar por destruí-los. Podem os observar, além disso, um a m esm a m archa de exterm ínio nas produções dom ésticas, em razão da seleção operada pelo hom em . Poderiam citar-se m uitos exem plos curiosos para provar com que rapidez novas raças de gado, carneiros e outros anim ais, ou novas variedades de flores tom am o lugar de raças m ais antigas e m enos aperfeiçoadas. A história ensina-nos que, no Yorkshire, os antigos gados negros foram substituídos por gados de longos chifres, e que estes últim os desapareceram ante os gados de curtos chifres (cito as próprias expressões de um escritor agrícola), com o se tivessem sido levados pela peste.

DIVERG ÊNCIA DOS CARACTERES

O princípio que designo por este term o tem um a alta im portância, e perm ite, creio eu, explicar m uitos fatos consideráveis. Em prim eiro lugar, as variedades, m esm o quando sej am m uitíssim o pronunciadas, e ainda que tenham , sob quaisquer relações, os caracteres de espécies - o que está provado pelas dificuldades que se experim entam , em m uitos casos, para as classificar -diferem , contudo, m uito m enos um as das outras do que as espécies verdadeiras e distintas. Todavia, j ulgo que as variedades são espécies em via de form ação, ou são, com o eu lhes tenho cham ado, espécies nascentes. Com o sucede então que um a leve diferença entre as variedades se am plifique a ponto de tornar-se a grande diferença que observam os entre as espécies? A m aior parte das inúm eras espécies que

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existem na natureza, e que apresentam diferenças m uito pronunciadas, prova-nos que o fato é ordinário; ora, as variedades, origem suposta de espécies futuras m uito definidas, apresentam ligeiras diferenças e a custo indicadas. O acaso, poderíam os dizer, chegaria a fazer com que um a variedade diferisse, por quaisquer m otivos, dos seus descendentes; os descendentes desta variedade poderiam , por seu turno, diferir dos ascendentes pelos m esm os m otivos, m as de form a m ais acentuada; isto, contudo, não bastaria para explicar as grandes diferenças que existem habitualm ente entre as espécies do m esm o gênero. Com o é m eu costum e, procurei entre as nossas produções dom ésticas a explicação deste fato. Ora, observam os nelas qualquer coisa análoga. Adm itir-seá, sem dúvida, que a produção de raças tam bém diferentes, com o são os anim ais de curtos chifres e os anim ais de Hereford, o cavalo de corrida e o cavalo de tiro, as diferentes raças de pom bos, etc., não puderam j am ais efetuar-se pela sim ples acum ulação, devida ao acaso, de variações análogas durante num erosas gerações sucessivas. Na prática, um am ador observa, por exem plo, um pom bo que tem um bico m ais curto do que o usual; um outro am ador observa um pom bo que tem o bico com prido; é em virtude deste axiom a que os am adores não adm item um tipo m édio, m as preferem os extrem os, com eçam am bos (e é o que aconteceu com as sub-raças do pom bo Cam balhota) a procurar e a fazer reproduzir aves que têm um bico m ais ou m enos longo ou um bico m ais ou m enos curto. Podem os supor ainda que num antigo período da história, os habitantes de um a nação ou de um distrito tiveram necessidade de cavalos ligeiros, enquanto que os de outro distrito tiveram necessidade de cavalos m ais pesados e m ais fortes. As prim eiras diferenças deviam ser certam ente m uito pequenas, m as, no decorrer dos tem pos, em conseqüência da seleção contínua de cavalos rápidos num caso e de cavalos vigorosos noutro, as diferenças deviam ter-se acentuado, e não se chegou à form ação de duas sub-raças. Enfim , após séculos, estas duas sub-raças converteram -se em duas raças distintas e fixas. À m edida que as diferenças se acentuavam , os anim ais inferiores tendo caracteres interm ediários, isto é, os que não eram nem m uito rápidos nem m uito fortes, nunca deviam ter sido em pregados na reprodução, tendendo assim a desaparecer. Vem os pois aqui, nas produções do

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hom em , a ação do que se pode cham ar « o princípio da divergência» ; em virtude deste princípio, as diferenças, pouco apreciáveis no com eço, aum entam continuam ente, e as raÇas tendem a desviar-se cada vez m ais um as das outras e da origem com um . Mas com o, dir-se-á, pode aplicar-se na natureza um princípio análogo?

Creio que pode aplicar-se e se aplica da form a m ais eficaz (m as devo confessar que m e foi necessário m uito tem po para com preender com o), em razão desta sim ples circunstância de que quanto m ais os descendentes de um a espécie qualquer se tornarem diferentes em relação à estrutura, constituição e hábitos, tanto m ais estarão no caso de se apoderarem de lugares num erosos e m uito diferentes na econom ia da natureza, e por conseqüência aum entar em núm ero. Podem os claram ente distinguir este fato entre os anim ais que têm hábitos sim ples. Tom em os, por exem plo, um quadrúpede carnívoro e adm itam os que o núm ero destes anim ais atingiu, há m uito tem po, o m áxim o do que pode nutrir um país qualquer. Se a tendência natural deste quadrúpede a m ultiplicar-se continua a atuar, e as condições atuais do país que habita não sofreram m odificação algum a, só pode chegar a crescer em núm ero com a condição de os seus descendentes variáveis se apoderarem de lugares presentem ente ocupados por outros anim ais: uns, por exem plo, tornando-se capazes de se alim entarem de novas espécies de presas m ortas ou vivas; outros, habitando novas estações, subindo às árvores, tornando-se aquáticos; outros, enfim , talvez, tornando-se m enos carnívoros. Quanto m ais os descendentes deste anim al carnívoro se m odificam relativam ente aos hábitos e estrutura, tanto m ais podem ocupar lugares na natureza. O que se aplica a um anim al, aplica-se a todos os outros e em todos os tem pos, com a condição, contudo, de serem susceptíveis de variações, porque de outra form a a seleção natural nada pode. O m esm o sucede com as plantas. Prova-se pela experiência que, se se sem eia num canteiro um a só espécie de gram íneas, e num canteiro sem elhante m uitos gêneros distintos de gram íneas, criam -se neste segundo canteiro m ais plantas e recolhe-se um peso m ais considerável de ervas secas que no prim eiro. Esta m esm a lei aplica-se tam bém quando se sem eia, em espaços sem elhantes, quer um a só variedade de trigo, quer m uitas variedades m isturadas.

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Por conseqüência, se um a espécie qualquer de gram íneas varia e se se escolhessem continuam ente variedades que diferissem entre si da m esm a m aneira, ainda que num grau pouco considerável, com o o fazem aliás as espécies distintas e os gêneros das gram íneas, um m aior núm ero de plantas individuais desta espécie, incluídos os descendentes m odificados, conseguiriam viver no m esm o terreno. Ora, sabem os que cada espécie e cada variedade de gram íneas espalha sobre o solo anualm ente sem entes inúm eras, e que cada um a delas, poderia dizer-se, em prega todos os esforços para aum entar em núm ero. Por isso, no decurso de m uitos m ilhares de gerações, as variedades m ais distintas de um a espécie qualquer de gram íneas teriam a m aior probabilidade de vencer, aum entar em núm ero e suplantar assim as variedades m enos distintas; ora, quando as variedades se tornam m uito distintas um as das outras, consideram -se com o espécies. Muitas circunstâncias naturais nos dem onstram a veracidade do princípio, que um a grande diversidade de estrutura pode sustentar a m aior som a de vida. Observam os sem pre um a grande diversidade entre os habitantes de um a pequena região, sobretudo se esta região está livrem ente aberta à em igração, onde, por conseguinte, a luta entre indivíduos deve ser m uito viva. Observei, por exem plo, que um a relva, tendo um a superfície de 3 pés por 4, colocada, há m uitos anos, absolutam ente nas m esm as condições, contém 20 espécies de plantas pertencentes a 18 gêneros e a 8 ordens, o que prova quanto estas plantas diferiam um as das outras. O m esm o acontece com as plantas e com os insetos que habitam pequenas ilhotas uniform es, ou então pequenos lagos de água doce. Os rendeiros acharam que obtinham m elhores colheitas estabelecendo um a rotação de plantas pertencentes às ordens m ais diferentes; ora, a natureza segue o que poderia cham ar-se um a « rotação sim ultânea» . A m aior parte dos anim ais e das plantas que vivem perto de um pequeno terreno, qualquer que ele sej a, poderiam viver neste terreno, supondo, contudo, que a sua natureza não oferece particularidade algum a extraordinária; poder-se-ia m esm o dizer que em pregam todos os esforços para aí se sustentar, m as vê-se que, quando a luta se torna m uito viva, as vantagens que resultam da diversidade de estrutura assim com o as diferenças de hábito e de constituição que são disso a conseqüência, fazem que os habitantes que

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se aproxim am de m ais perto pertençam em regra geral ao que cham am os gêneros e ordens diferentes.

A aclim atação das plantas nos países estranhos, produzida por interm édio do hom em , fornece um a nova prova do m esm o princípio. Deveria atender-se a que todas as plantas que chegaram a aclim atar-se num país qualquer foram ordinariam ente m uito próxim as das plantas indígenas; não se pensa ordinariam ente, com efeito, que estas últim as foram criadas especialm ente para o país que habitam e adaptadas às suas condições? Poder-se-ia tam bém atender, talvez, a que as plantas aclim atadas pertenciam a quaisquer grupos m ais especialm ente adaptados a certos pontos da sua nova pátria. Ora, o caso é m uito diferente, e Alphonse Candolle fez observar com razão, na sua grande e adm irável obra, que as floras, em seguida à sua aclim atação, aum entam m uito m ais em novos gêneros que em novas espécies, proporcionalm ente ao núm ero de gêneros e de espécies indígenas. Para dar um só exem plo, na últim a edição do Manual da Flora da parte Setentrional dos Estados Unidos, pelo Dr. Asa Gray, o autor indica 260 plantas aclim atadas, que pertencem a 162 gêneros. Isto basta para provar que estas plantas aclim atadas têm um a natureza m uito diversa. Elas diferem , além disso, extraordinariam ente das plantas indígenas; porque, nestes 162 gêneros aclim atados, não há m enos de 100 que não sej am indígenas dos Estados Unidos; um a adição proporcional considerável foi então feita aos gêneros que habitam hoj e este país. Se considerarm os a natureza das plantas ou dos anim ais que, num país qualquer, têm lutado com vantagem com os habitantes indígenas e são assim aclim atados, podem os fazer um a idéia da form a com o os habitantes indígenas deveriam m odificar-se para prevalecer sobre os seus com patriotas. Podem os, pelo m enos, concluir que a diversidade de estrutura, chegada a ponto de constituir novas diferenças genéricas, lhes seria de um grande proveito. As vantagens da diversidade de estrutura entre os habitantes da m esm a região são análogas, num a palavra, às que apresenta a divisão fisiológica do trabalho nos órgãos do m esm o indivíduo, assunto tão adm iravelm ente elucidado por Milne Edwards. Nenhum fisiólogo põe em dúvida que um estôm ago construído para digerir som ente m atérias vegetais, ou som ente m atérias anim ais, tire destas

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substâncias a m aior som a de nutrição. Da m esm a form a, na econom ia geral de um país qualquer, quanto m ais as plantas e os anim ais oferecerem diversidades nítidas apropriando-as a diferentes m odos de existência, tanto m ais considerável é

o núm ero de indivíduos capazes de habitar este país. Um grupo de anim ais cuj o organism o apresenta poucas diferenças pode dificilm ente lutar com um grupo cuj as diferenças são m ais acentuadas. Poderia duvidar-se, por exem plo, que os m arsupiais australianos, divididos em grupos que diferissem m uito pouco uns dos outros, e que representam frouxam ente, com o M. Waterhouse e alguns outros o fizeram notar os nossos carnívoros, os nossos rum inantes e os nossos roedores, pudessem lutar com êxito contra estas ordens tão bem desenvolvidas. Entre os m am íferos australianos podem os então observar a diversificação das espécies num estado incom pleto de desenvolvim ento.

EFEITOS PROVÁVEIS DA AÇÃO DA SELEÇÃO NATURAL, EM SEG UIDA A DIVER-G ÊNCIA DOS CARACTERES E A EXTINÇÃO, SOBRE OS DESCENDENTES DE UM