A Origem das Espécies
Unidade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
DE TIPO E DAS CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA
Consagram os este capítulo à discussão de algum as das dificuldades que apresenta a nossa teoria e das obj eções que se podem levantar contra ela. Muitas são sérias, m as creio que discutindo-as proj etam os algum a luz sobre certos fatos que a teoria das criações independentes deixa na obscuridade m ais profunda. Tem os visto que, durante um período dado, as espécies não são infinitam ente variáveis, e que não são ligadas um as às outras por um a série de gradações interm ediárias; em parte, porque a m archa da seleção natural é sem pre lenta e, durante um tem po dado, atua apenas sobre algum as form as; em parte, porque a seleção natural envolve necessariam ente a elim inação constante e a extinção das form as interm ediadas anteriores. As espécies m ais próxim as, habitando hoj e um a superfície contínua, deviam m uitas vezes form ar-se, ainda que esta superfície não fosse contínua e que as condições exteriores de existência não se confundissem insensivelm ente em todas as suas partes. Quando duas variedades aparecessem em dois distritos de um a superfície contínua, form a-se algum as vezes um a variedade interm ediária adaptada a um a zona interm ediária; m as, em virtude de causas que tem os indicado, a variedade interm ediária é ordinariam ente m enos num erosa que as duas form as que liga; por conseqüência, estas duas últim as, no decorrer de novas m odificações favorecidas pelo núm ero considerável de indivíduos que contêm , têm grandes vantagens sobre a variedade interm ediária m enos num erosa e tendem ordinariam ente a elim iná-la e a exterm iná-la.
Vim os, neste capítulo, que é necessário usar da m aior prudência antes de concluir a im possibilidade de um a m udança gradual dos m ais diferentes hábitos de existência; antes de concluir, por exem plo, que a seleção natural não pôde transform ar em m orcego um anim al que, prim itivam ente, só estava apto a pairar deslizando no ar.
Vim os que um a espécie pode m udar os hábitos se está colocada em novas condições de existência ou pode ter hábitos diversos, por vezes m uito diferentes
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dos dos seus m ais próxim os congêneres. Se tiverm os o cuidado de lem brar que cada ser organizado se esforça por viver em toda a parte onde pode, podem os com preender, em virtude do princípio que acabam os de exprim ir, com o sucede que haj a patos terrestres de pés palm ados, picanços não vivendo sobre as árvores, m elros que m ergulham na água e os alcatrazes que têm os hábitos dos pingüins. O pensam ento de que a seleção natural pôde form ar um órgão tão perfeito com o o olho, parece de natureza a fazer recuar o m ais audaz; não há, contudo, im possibilidade algum a lógica para que a seleção natural, sendo dadas condições de vida diferentes, tenha conduzido a um grau de perfeição considerável um órgão, sej a qual for, que passou por um a longa série de com plicações m uito vantaj osas ao seu possuidor. Nos casos em que não conhecem os os estados interm ediários ou de transição, é necessário não concluir prontam ente que nunca existiram , porque as m etam orfoses de m uitos órgãos provam que alterações adm iráveis de função são pelo m enos im possíveis. Por exem plo, é provável que um a bexiga natatória se transform asse em pulm ões. Um m esm o órgão, que sim ultaneam ente exerceu funções m uito diversas, e depois se especializou no todo ou em parte para um a única função, ou dois órgãos distintos tendo ao m esm o tem po desem penhado a m esm a função, indo um m elhorando enquanto que o outro lhe vinha em auxílio, são circunstâncias que deviam m uitas vezes facilitar a transição. Vim os que os órgãos que servem para o m esm o fim e parecem idênticos, puderam form ar-se separadam ente, e de m odo independente, em duas form as m uito afastadas um a da outra na escala orgânica. Contudo, se se exam inam estes órgãos com cuidado, podem quase sem pre descobrir-se neles diferenças essenciais de conform ação, o que é a conseqüência do princípio da seleção natural. Dem ais, a regra geral na natureza é chegar aos m esm os fins por um a diversidade infinita de conform ações e isto deriva naturalm ente tam bém do m esm o grande princípio.
Em m uitos casos, som os dem asiado ignorantes para poder afirm ar que um a parte ou um órgão tem assaz pouca im portância para a prosperidade de um a espécie, para que a seleção natural não possa, por lentas acum ulações, trazer
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m odificações na sua estrutura. Em m uitos outros casos as m odificações são provavelm ente o resultado direto das leis da variação ou do crescim ento, independente de todas as vantagens adquiridas. Mas Podem os afirm ar que estas próprias conform ações foram m ais tarde postas à prova e m odificadas de novo para bem da espécie, colocada em novas condições de existência. Podem os crer tam bém que um a parte tendo tido outrora um a alta im portância é m uitas vezes conservada; a cauda, por exem plo, de um anim al aquático existe ainda nos descendentes terrestres, se bem que esta parte tenha atualm ente um a im portância tão pequena, que, no seu estado atual, não poderia ser produzida pela seleção natural. A seleção natural nada pode produzir num a espécie, com um fim exclusivam ente vantaj oso ou nocivo a um a outra espécie, se bem que possa trazer a produção de partes, de órgãos ou excreções m uito úteis e m esm o indispensáveis, ou m uito nocivas a outras espécies; m as, em todos os casos, estas produções são ao m esm o tem po vantaj osas para o indivíduo que as possui. Num país bem povoado, a seleção natural atuando principalm ente pela concorrência dos habitantes, só pode determ inar o grau de perfeição relativam ente aos tipos do país. Tam bém os habitantes de um a região m ais pequena desaparecem geralm ente diante dos de um a região m aior. Nesta últim a, com efeito, há m ais indivíduos tendo form as diversas, a concorrência é m ais ativa e, por conseguinte, o tipo de perfeição é m ais elevado. A seleção natural não produz necessariam ente a perfeição absoluta, estado que, tanto quanto o podem os j ulgar, não podem os conseguir encontrar em parte algum a. A teoria da seleção natural perm ite-nos com preender claram ente o valor com pleto do antigo axiom a: Natura non facit saltum . Este axiom a, se for aplicado som ente aos habitantes atuais do Globo, não é rigorosam ente exato, m as torna-se estritam ente verdadeiro quando se considera o conj unto de todos os seres organizados conhecidos ou desconhecidos de todos os tem pos. Adm ite-se geralm ente que a form ação de todos os seres organizados repousa sobre duas grandes leis; a unidade de tipo e as condições de existência. Entende-se por unidade de tipo esta concordância fundam ental que caracteriza a conform ação de todos os seres organizados de um a m esm a classe e que é por
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com pleto independente dos seus hábitos e do m odo de viver. Na m inha teoria, a unidade de tipo explica-se pela unidade de descendência. As condições de existência, ponto sobre que o ilustre Cuvier tantas vezes tem insistido, fazem parte do princípio da seleção natural. Esta, com efeito, atua, sej a adaptando atualm ente as partes variáveis de cada ser às suas condições vitais orgânicas ou inorgânicas, sej a tendo-as adaptado a estas condições durante longos períodos decorridos. Estas adaptações têm sido, em certos casos, provocadas pelo aum ento do uso ou do não uso das partes, ou afetadas pela ação direta dos m eios, e, sem exceções, têm sido subordinadas às diversas leis do crescim ento e da variação. Por conseqüência, a lei das condições de existência é de fato a lei superior, pois que com preende, pela hereditariedade das variações e das adaptações anteriores, a da unidade de tipo.
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CAPITULO VII
Contestações Diversas Feitas à Teoria da Seleção Natural
-Longevidade.
-As modificações não são necessariamente simultâneas.-As modificações não prestam na aparência serviço algum direto.
-Desenvolvimento progressivo.
-Constância maior dos caracteres tendo a menor importância funcional.
-Pretendida Incompetência da seleção natural para explicar as primeiras fases de conformações úteis.
-Causas que se opõem à aquisição de estruturas úteis no meio da seleção natu-ral.
-Graus de conformação com alteração de funções
-Órgãos muito diferentes nos membros de uma mesma classe, provindo por de-senvolvimento de uma única e mesma origem.
-Razões para não acreditar nas modificações consideráveis e súbitas.
Consagrarei este capítulo ao exam e das diversas obj eções que se opõem ao m eu m odo de pensar, o que poderá esclarecer algum as discussões anteriores; m as seria inútil exam iná-las todas, porque, no núm ero, m uitas provêm de autores que se não deram ao cuidado de com preender o assunto. Assim , um distinto naturalista alem ão afirm a que a parte m ais fraca da m inha teoria reside no fato de eu considerar todos os seres organizados com o im perfeitos. Ora, o que eu disse realm ente, é que eles não são tão perfeitos com o poderiam ser, relativam ente às condições de existência; o que prova isto, é que num erosas form as indígenas têm , em algum as partes do m undo, cedido o lugar a intrusos estranhos. Mas, os seres organizados, adm itindo m esm o que num a época dada tenham sido perfeitam ente adaptados às suas condições de existência, só podem , quando estas m udam , conservar as m esm as relações de adaptação com a condição de se transform ar; ninguém pode tam bém contestar que as condições físicas de todos os países, assim com o o núm ero e as form as dos habitantes, têm sofrido m odificações consideráveis. Um crítico sustentou recentem ente, fazendo pom pa de um a grande exatidão m atem ática, que a longevidade é um a grande vantagem para todas as espécies, de m aneira que aquele que crê na seleção natural « deve dispor a sua árvore
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genealógica» de m aneira que todos os descendentes tenham um a longevidade m aior que os seus antepassados! O nosso crítico não conceberia com o um a planta bianual, ou um a form a anim al inferior, pudessem penetrar num clim a frio e perecer aí cada Inverno; e, contudo, em razão de vantagens adquiridas pela seleção natural, sobreviver de ano para ano pelas suas sem entes ou pelos seus ovos? M. E. Ray Lankester discutiu recentem ente este assunto, e concluiu, pelo m enos enquanto a com plexidade excessiva da questão lhe perm ite j ulgar, que a longevidade está ordinariam ente em relação com o grau que ocupa cada espécie na escala da organização, e tam bém com a som a de despesa que ocasionam tanto a reprodução com o a atividade geral. Ora, estas condições devem provavelm ente ter sido largam ente determ inadas pela seleção natural.
Conclui-se daqui que nem as plantas nem os anim ais conhecidos no Egito têm experim entado alterações há três ou quatro m il anos, e o m esm o sucede provavelm ente com todos os das diversas partes do Globo. Mas, assim com o o fez notar M. G. H. Lewes, este m odo de argum entação prova bem , por que as antigas raças dom ésticas figuradas sobre os m onum entos egípcios, ou que nos chegaram em balsam adas, se parecem m uito às atuais raças vivas, e são m esm o idênticas a elas; contudo, todos os naturalistas adm item que estas raças foram produzidas pelas m odificações dos tipos prim itivos. Os num erosos anim ais que não se m odificaram após o com eço do período glaciário, apresentariam um argum ento incom paravelm ente m ais forte, porque têm sido expostos a grandes m udanças de clim a e têm em igrado para grandes distâncias; ao passo que, tanto quanto o podem os saber, as condições de existência são hoj e exatam ente as m esm as no Egito que eram há alguns m ilhares de anos. O fato de poucas ou nenhum as m odificações se produzirem depois do período glaciário teria algum valor contra os que crêem num a lei inata e necessária de desenvolvim ento; m as é im potente contra a doutrina da seleção natural, ou da persistência do m ais apto, porque esta im plica a conservação de todas as variações e de todas as diferenças individuais e vantaj osas que surj am , o que som ente pode acontecer em circunstâncias favoráveis. Bronn, o célebre paleontólogo, term inando a tradução alem ã da presente obra, pergunta com o, sendo dado o princípio da seleção natural, pode um a varie- 230
dade viver lado a lado com a espécie m ãe? Se as duas form as tom am hábitos diferentes ou se são adaptadas a novas condições de existência, podem viver j untam ente; porque se excluirm os, de um a parte, as espécies polim orfas nas quais a variabilidade pode ser de um a natureza m uito especial, e, por outra parte, as variações sim plesm ente tem porárias tais com o o talhe, o albinism o, etc, as variedades perm anentes habitam em geral, o que eu pude verificar, estações distintas, tais com o as regiões elevadas ou baixas, secas ou úm idas. Além disso, no caso de anim ais essencialm ente errantes e cruzando-se livrem ente, as variedades parecem ser geralm ente confinadas em regiões distintas. Bronn insiste tam bém no fato de as espécies distintas j am ais diferirem por caracteres isolados, m as sob m uitas relações; pergunta com o sucede que num erosos pontos do organism o tenham sido sem pre m odificados sim ultaneam ente pela variação e pela seleção natural. Mas nada obriga a supor que todas as partes de um indivíduo sej am m odificadas sim ultaneam ente. As m odificações m ais m arcantes, adaptadas de um a m aneira perfeita a um dado uso, podem ser, com o o havem os notado precedentem ente, o resultado das variações sucessivas, ligeiras, aparecendo num a parte, depois noutra; m as, com o se transm item todas em conj unto, parecem -nos ser sim ultaneam ente desenvolvidas. De resto, a m elhor refutação a fazer a esta obj eção é fornecida pelas raças dom ésticas que têm sido m odificadas principalm ente com um fim especial, por m eio da seleção natural operada pelo hom em . Vede o cavalo de tiro e o cavalo de corrida, ou o galgo e o cão de fila. Toda a sua estrutura e m esm o os seus caracteres intelectuais foram m odificados; m as, se pudéssem os delinear cada grau sucessivo da sua transform ação-o que podem os fazer para aqueles que não vão m uito além no passado-verificaríam os m elhoram entos e m odificações ligeiras, afetando tanto um a parte com o outra, m as nunca alterações consideráveis e sim ultâneas. Mesm o quando o hom em aplicou a seleção apenas a um único caráter - de que as plantas cultivadas oferecem os m elhores exem plos - encontra-se invariavelm ente que se um ponto especial, quer sej a a flor, o fruto ou a folhagem , sofre grandes alterações, quase todas as outras partes têm sido a sede de m odificações. Podem atribuir-se estas m odificações em parte ao princípio da correlação do crescim ento, e em parte ao que se
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cham a a variação espontânea.
Um a obj eção m ais séria feita por M. Bronn, e recentem ente por M. Broca, é
que m uitos caracteres parecem não prestar serviço algum aos seus possuidores, e não podem , por conseqüência, ter dado lugar à seleção natural. Bronn cita o alongam ento das orelhas e da cauda nas diferentes espécies de lebres e de ratos, os com plicados sulcos do esm alte dentário existindo em m uitos anim ais, e um a m ultidão de casos análogos. No ponto de vista dos vegetais, este assunto foi discutido por Nageli num a adm irável m em ória. Adm ite um a ação im portante da seleção natural, m as insiste sobre o fato de as fam ílias de plantas diferirem sobretudo pelos caracteres m orfológicos, que parecem não ter im portância algum a para a prosperidade da espécie. Adm ite, por conseguinte, um a tendência inata a um desenvolvim ento progressivo e m ais com pleto. Indica a disposição das células nos tecidos, e das folhas sobre o eixo, com o casos onde a seleção natural não pôde exercer ação algum a. Podem tam bém acrescentar-se as divisões num éricas das partes da flor, a posição dos óvulos, a form a da sem ente, quando não favorece a sua dissem inação, etc.
Esta obj eção é séria. Todavia, é necessário em prim eiro lugar, m ostrar-se m uita prudência quando se trata de determ inar quais são atualm ente, ou quais podem ter sido no passado as conform ações vantaj osas a cada espécie. Em segundo lugar, é necessário pensar que quando um a parte se m odifica, outras se m odificam tam bém , em razão de causas que a custo se entrevêem , tais com o o aum ento ou a dim inuição do excesso de nutrição de um a parte, a pressão recíproca, a influência do desenvolvim ento de um órgão precoce sobre outro que se não form a a não ser m ais tarde, etc. Há ainda outras causas que não com preendem os, que provocam casos m isteriosos e num erosos de correlação. Para abreviar, podem agrupar-se j untam ente estas influências debaixo desta expressão: leis do crescim ento. Em terceiro lugar, tem os de tom ar em conta a ação direta e definida de alterações nas condições de existência, e tam bém do que se cham am variações espontâneas, nas quais a natureza dos m eios parece ter apenas um a influência insignificante. As variações dos rebentos, tais com o a aparição de um a rosa de m usgo num a roseira com um , ou de um pêssego liso m im pessegueiro ordiná- 232
rio, oferecem bons exem plos de variações espontâneas; m as, nestes casos, se refletirm os no poder da gota infinitesim al de veneno que produz o desenvolvim ento de galhas com plexas, não poderíam os estar bem certos de que as variações indicadas não são efeito de qualquer alteração local na natureza da seiva, resultando de algum a m odificação dos m eios. Toda a diferença individual ligeira assim com o as variações m ais pronunciadas, que surgissem acidentalm ente, devem ter um a causa; ora, é quase certo que se esta causa desconhecida atuasse de um a form a persistente, todos os indivíduos da espécie seriam sem elhantem ente m odificados. Nas edições anteriores desta obra, não tenho, isto parece agora provável, atribuído bastante valor à freqüência e à im portância das m odificações devidas à
variabilidade espontânea. Mas é im possível atribuir a esta causa as inum eráveis conform ações perfeitam ente adaptadas aos hábitos vitais de cada espécie. Jam ais posso acreditar nisto com o não posso explicar por este m eio a form a perfeita do cavalo de corrida ou do galgo, adaptação que m aravilhava do m esm o m odo os antigos naturalistas, quando o princípio da seleção pelo hom em não era ainda bem com preendido.
Pode ser útil citar alguns exem plos em auxílio de algum as notas que precedem . No que diz respeito à inutilidade suposta de diversas partes e de diferentes órgãos, é apenas necessário lem brar que existem , m esm o nos anim ais m ais elevados e m elhor conhecidos, conform ações bastante desenvolvidas para que ninguém ponha em dúvida a sua im portância; todavia, o seu uso foi reconhecido por com pleto apenas recentem ente. Bronn cita o com prim ento das orelhas e da cauda, em m uitas espécies de ratos, com o exem plos, insignificantes é verdade, de diferença de conform ações sem uso especial; ora, notarei que o Dr. Schöbl verifica, nas orelhas externas do rato com um , um desenvolvim ento extraordinário dos nervos, de tal m aneira que as orelhas servem provavelm ente de órgãos tácteis; o com prim ento das orelhas não é pois sem im portância. Verem os em breve que, em algum as espécies, a cauda constitui um órgão preênsil m uito útil; o seu com prim ento deve pois contribuir para exercer um a influência sobre o seu uso. A propósito das plantas, lim ito-m e, seguindo a m em ória de Nageli, às notas
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seguintes; adm ite-se, penso eu, que as flores das orquídeas apresentam um a série de conform ações curiosas, que se teriam considerado, há alguns anos, com o sim ples diferenças m orfológicas sem função especial. Ora, sabe-se hoj e que têm um a im portância enorm e para a fecundação da espécie por m eio dos insetos, e que foram adquiridas provavelm ente pela ação da seleção natural. Quem , até há
m uito pouco tem po im aginaria que, nas plantas dim orfas e trim orfas, os com prim entos diferentes dos estam es e dos pistilos, assim com o a sua disposição, podiam ter algum a utilidade? Sabem os hoj e que a têm e considerável. Em certos grupos com pletos de plantas, os óvulos são eretos, em outros são inclinados; ora, num m esm o ovário de certas plantas, um óvulo ocupa a prim eira posição, e um segundo a segunda. Estas posições parecem a Princípio puram ente m orfológicas, ou sem significação fisiológica; m as o Dr. Hooker diz-m e que, no m esm o ovário, há som ente fecundaÇão dos óvulos superiores, em alguns casos, e dos óvulos inferiores em outros; supõe que o fato depende provavelm ente da direção que os tubos polínicos tom am penetrando no ovário. A posição dos óvulos, se assim for, m esm o quando um é ereto e o outro inclinado no m esm o ovário, resultaria da seleção de todo o ligeiro desvio na sua posição, favorável à
fecundação e à produção das sem entes.
Há plantas pertencendo a ordens distintas, que produzem habitualm ente flores de duas espécies - um as abertas, conform ação com um , outras fechadas e im perfeitas. Estas duas espécies de flores diferem de um a m aneira extraordinária; podem , contudo, passar gradualm ente de um a à outra na m esm a planta. As flores abertas ordinárias, podendo entrecruzar-se, estão seguras de certos benefícios resultantes desta circunstância. As flores fechadas e incom pletas têm algum as vezes um a alta im portância, que se traduz pela produção de um a grande quantidade de sem entes e um a dissipação de pólen excessivam ente pequena. Com o acabam os de dizer, a conform ação de duas espécies de flores difere m uito. Nas flores im perfeitas, as pétalas consistem quase sem pre apenas em sim ples rudim entos, e os grãos de pólen são reduzidos em diâm etro. Na Ononis colum nac cinco dos estam es alternantes são rudim entares, estado que se observa tam bém em três estam es de algum as espécies de Viola, enquanto que as outras duas, a- 234
pesar da sua pequenez, conservam as funções próprias. Entre trinta flores fechadas de um a violeta Indiana (cuj o nom e m e é desconhecido, não tendo as plantas produzido j am ais em m inha casa flores com pletas), em seis, encontram -se as sépalas, em vez de o núm ero norm al de cinco, reduzidas apenas a três. Em um a secção dos Malpighiaceae, as flores fechadas, segundo A. de Jussieu, são ainda m ais m odificadas, porque os cinco estam es colocados em face das sépalas são todos atrofiados, sendo um sexto estam e, situado diante de um a pétala, o único desenvolvido. Este estam e não existe nas flores ordinárias das espécies nas quais o estilete está atrofiado e os ovários reduzidos a dois ou três. Hoj e, posto que a seleção natural possa ter im pedido o desabrocham ento de algum as flores, e reduzido a quantidade de pólen tornado assim supérfluo quando está encerrado no invólucro floral, é provável que tenha contribuído apenas m uito pouco para as m odificações especiais pré-citadas, m as que estas m odificações resultem das leis do crescim ento, com preendendo a inatividade funcional de certas partes durante os progressos da dim inuição do pólen e da oclusão das flores. É tão im portante apreciar bem os efeitos das leis do crescim ento, que creio necessário citar alguns exem plos de um outro gênero: assim , as diferenças que provocam , na m esm a parte ou no m esm o órgão, diferenças de situação relativa na m esm a planta. No castanheiro de Espanha e em certos pinheiros, segundo Schacht, os ângulos de divergência das folhas diferem conform e os ram os que os sustentam são horizontais ou verticais. Na arruda com um e em , algum as outras plantas, um a flor, ordinariam ente a flor central ou a flor term inal, abre-se prim eiro, e apresenta cinco sépalas e pétalas, e cinco divisões no ovário; enquanto que todas as outras flores são tetrâm eras. Na Adoxa ingIesa, a flor m ais elevada tem ordinariam ente dois lóbulos no cálice, e os outros grupos são tetrâm eros; enquanto que as flores que a cercam têm três lóbulos no cálice, e os outros órgãos são pentâm eros. Em m uitas com postas e um belíferas (e outras plantas), as corolas das flores colocadas nas circunferências são m uito m ais desenvolvidas que as das flores colocadas no centro; o que parece algum as vezes ligado à atrofia dos órgãos reprodutores. Um fato m ais curioso, j á indicado, é que se podem notar diferenças na form a, na cor e nos outros caracteres das sem entes da periferia e das do centro.
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Nos Cartham us e outras com postas, as sem entes centrais trazem som ente um tufo; nos Hy oseris, a m esm a flor produz três sem entes de form as diversas. Em certas um belíferas, segundo Tausch, as sem entes exteriores são ortospérm icas, e a sem ente central coelospérm ica; caráter que de Candolle considerava, em outras espécies, com o tendo um a im portância sistem ática m uito grande. O professor Braun m enciona um gênero de fum ariáceas no qual as flores têm , na parte inferior da espiga, pequenas avelãs ovais, aos lados, contendo um a sem ente; e na porÇão superior, silíquas lanecoladas, bivalves, contendo duas sem entes. A seleção natural, tanto quanto o podem os j ulgar, não pôde desem penhar papel algum , ou tem desem penhado apenas um papel insignificante, nestes diversos casos, à exceção do desenvolvim ento com pleto dos florões da periferia, que são úteis para tornar a planta vistosa e para atrair os insetos. Todas estas m odificações resultam da situação relativa e da ação recíproca dos órgãos; ora, não se pode por em dúvida que, se todas as flores e todas as folhas da m esm a planta tivessem sido subm etidas às m esm as condições externas e internas, com o são as flores e as folhas em certas posições, seriam todas m odificadas da m esm a form a. Observam os, em m uitos outros casos, m odificações de estrutura, consideradas pelos botânicos com o tendo a m ais alta im portância, que afetam som ente algum as flores da planta, ou que se m anifestam em plantas distintas, cruzando j untam ente nas m esm as condições. Estas variações, não tendo aparência algum a de utilidade para a planta, não podem ter sofrido a influência da seleção natural. A causa é-nos inteiram ente desconhecida; não podem os m esm o atribuí-las, com o as da últim a classe, a um a ação pouco afastada, tal com o a posição relativa. Eis alguns exem plos. É tão freqüente observar na m esm a planta flores tetrâm eras, pentâm eras, etc., que não tenho necessidade de m e dem orar neste ponto; m as com o as variações num éricas são com parativam ente raras quando os próprios órgãos são em pequeno núm ero, posso acrescentar que, segundo de Candolle, as flores do Papaver bracteatum possuem duas sépalas e quatro pétalas (tipo com um na papoila), ou três sépalas e seis pétalas. A form a com o estas últim as são dobradas no botão é um caráter m orfológico m uito constante na m aior parte dos grupos; m as o professor Asa Gray nota que, em algum as espécies de Mim ulus, a
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prefloração é quase tão freqüentem ente a das rinantídeas com o a das antirrinídeas, à últim a das quais pertence o gênero atrás m encionado. Augusto SaintHilaire indica os casos seguintes: o gênero Zanthoxy lon pertence a um a divisão das rutáceas de um só ovário; encontra-se, contudo, em algum as espécies, m uitas flores na m esm a planta e m esm o em um a única panícula, tendo quer um , quer dois ovários. No Helianthem um , a cápsula foi descrita com o unilocular ou triIocular; na Helianthem um m utabile, « um a lâm ina m ais ou m enos larga se estende entre o pericarpo e placenta» . Nas flores da Saponária officinalis, o Dr. Masters observou casos de placentações livres tanto m arginais com o centrais. Saint-Hilaire encontrou no lim ite extrem o m eridional da região que ocupa a Gom phia oleaeform is, duas form as de que não pôs a princípio em dúvida a especialidade distinta; m as encontrando-as ulteriorm ente no m esm o arbusto, teve de aj untar: « Eis aqui, pois, num m esm o indivíduo, septos e um estilete que se prendem ora a um eixo vertical ora a um a ginobase» .
Vem os, pelo que precede, que se pode atribuir, independentem ente da seleção natural, às leis do crescim ento e à ação recíproca das partes, um grande núm ero de m odificações m orfológicas nas plantas. Mas pode dizer-se que, nos casos em que estas variações são tão fortem ente pronunciadas, tem os ante nós plantas tendentes a um estado de desenvolvim ento m ais elevado, segundo a doutrina de Nãgeb, que crê num a tendência inata para a perfeição ou para um aperfeiçoam ento progressivo? Pelo contrário, o sim ples fato de as partes em questão diferirem e variarem m uito num a planta qualquer, não deve levar-nos a concluir que estas m odificações têm m uito pouca im portância para ela, ainda que possam tê-la m uito considerável para nós no que respeita às nossas classificações? Não se poderia dizer que a aquisição de um a parte inútil faz subir um organism o na escala natural; porque, no caso das flores fechadas e im perfeitas que descrevem os m ais acim a, se se invoca um princípio novo, este será de natureza retrógrada m ais que progressiva; ora, o m esm o deve suceder em m uitos anim ais parasitas e degenerados. Ignoram os a causa determ inante das m odificações pré-citadas; m as se esta causa desconhecida devia atuar uniform em ente durante um lapso de tem po m uito longo, podíam os pensar que os resultados seriam quase uniform es; nes- 237
te caso, todos os indivíduos da espécie seriam m odificados da m esm a form a. Não tendo os caracteres pré-citados im portância algum a para a prosperidade da espécie, a seleção natural não devia nem acum ular nem aum entar as ligeiras variações acidentais. Um a conform ação que se desenvolveu por um a seleção durante longo tem po, torna-se ordinariam ente variável, quando cessa a utilidade que tinha para a espécie, com o vem os pelos órgãos rudim entares, cessando a seleção natural nesse m om ento de atuar sobre estes órgãos. Mas, quando as m odificações sem im portância para a prosperidade da espécie têm sido produzidas pela natureza do organism o e das condições, podem transm itir-se, e parecem algum as vezes ter sido transm itidas quase no m esm o estado a um a num erosa descendência, além disso diversam ente m odificada. Não pode ter sido m uito im portante para a m aior parte dos m am íferos, das aves ou dos répteis, ser cobertos de pêlos, de penas ou escam as, e contudo os pêlos são transm itidos à quase totalidade dos m am íferos, as penas a todas as aves e as escam as a todos os verdadeiros répteis. Um a conform ação, qualquer que possa ser, com um a num erosas form as vizinhas, foi considerada por nós com o tendo um a grande im portância sistem ática, e é, por conseqüência, m uitas vezes avaliada com o tendo um a im portância vital essencial para a espécie. Estou pois disposto a acreditar que as diferenças m orfológicas que consideram os com o im portantes -tais com o a disposição das folhas, as divisões da flor ou do ovário, a posição dos óvulos, etc. - têm m uitas vezes aparecido na origem com o variações flutuantes, tornando-se constantes m ais cedo ou m ais tarde, em razão da natureza do organism o e das condições am bientes, assim com o pelo cruzam ento de indivíduos distintos, m as não em virtude da seleção natural. A ação da seleção não pode, com efeito, ter regulado nem acum ulado as ligeiras variações dos caracteres m orfológicos que não afetam de m odo algum a prosperidade da espécie. Chegam os assim a este singular resultado, que tendo os caracteres a m aior im portância para o sistem atista, têm apenas im portância m uito leve, no ponto de vista vital, para a espécie; m as esta proposição está longe de ser tão paradoxal com o pode parecer à prim eira vista, assim com o verem os m ais adiante tratando do princípio genético da classificação. Posto que não tenham os prova algum a certa da existência de um a propensão ina- 238
ta dos seres organizados para um desenvolvim ento progressivo, este progresso resulta necessariam ente da ação contínua da seleção natural, com o procurei dem onstrá-lo no quarto capítulo. A m elhor definição que j am ais se tenha dado da elevação a um grau m ais superior dos tipos da organização, repousa sobre o grau de especialização ou diferenciação que os órgãos têm atingido; ora, esta divisão do trabalho parece ser o fim para que tende a seleção natural, porque as partes ou órgão estão neste caso dispostos a desem penhar por si m esm os as diversas funções de um a m aneira sem pre m ais eficaz.
M. Saint-George Mivart, zoólogo distinto, reuniu recentem ente todas as obj eções suscitadas por m im e por outros contra a teoria da seleção natural, tal com o lhe tem sido apresentada por M. Wallace e por m im , apresentando-as com m uita arte e poder. Assim agrupadas, têm um aspecto form idável; ora, com o não entrava no plano de M. Mivart verificar os fatos e as diversas considerações contrárias às suas conclusões, é necessário que o leitor faça grandes esforços de raciocínio e de m em ória, se quer pesar com cuidado todos os argum entos pró e contra. Na discussão de casos especiais, M. Mivart despreza os efeitos do aum ento ou da dim inuição do uso das partes, de que sustentei sem pre a alta im portância, e que tratei m ais largam ente, creio eu, que qualquer outro autor, na obra Da Variação no Estado Dom éstico. Afirm a m uitas vezes que nada atribuo à variação, fora da seleção natural, enquanto que, na obra citada, colhi um núm ero de casos bem dem onstrados e bem estabelecidos de variações, núm ero bem m ais considerável do que aquele que se poderia encontrar em qualquer obra que eu conheça. A m inha opinião pode não m erecer confiança, m as, depois de ter lido a obra de M. Mivart com a m aior atenção, depois de ter com parado o conteúdo de cada um a das suas partes com o que tenho afirm ado sobre os m esm os pontos, fiquei m ais convencido do que nunca que cheguei a conclusões geralm ente verdadeiras, todavia com esta reserva, que, num assunto tão com plicado, estas conclusões podem ainda apresentar m uitos erros parciais. Todas as obj eções de M. Mivart foram ou serão exam inadas no presente volum e. O novo ponto que parece ter im pressionado m uitos leitores é « que a seleção natural é insuficiente para explicar as fases prim eiras ou nascentes das con- 239
form ações úteis» . Este assunto está em conexão íntim a com o da gradação dos caracteres, m uitas vezes acom panhada de um a alteração de funções - a conversão de um a bexiga natatória em pulm ões, por exem plo - fatos que discutim os no capítulo precedente em dois pontos de vista diferentes. Quero, todavia, exam inar tão m inuciosam ente quanto possível m uitos casos avançados por M. Mivart, escolhendo os m ais m arcantes; a falta de lugar im pede-m e, contudo, de os considerar a todos.
A alta estatura da girafa, o com prim ento do pescoço, dos m em bros anteriores, da cabeça e da língua, tornam -na um anim al adm iravelm ente adaptado para se alim entar dos ram os elevados das árvores. Pode assim encontrar alim entos colocados fora do alcance dos outros ungulados habitando o m esm o país; o que deve, em tem po de falta, alcançar-lhe grandes vantagens. O exem plo do gado niata da Am érica Meridional prova-nos, com efeito, que um a pequena diferença basta para determ inar, nos m om entos de carência, um a diferença m uito im portante no ponto de vista da conservação da vida de um anim al. Este gado com e erva com o os outros, m as a proj eção da sua m andíbula inferior im pede-o, durante as secas freqüentes, de com er os ram os das árvores, as canas, etc., às quais as raças ordinárias de bois e de cavalos são, durante este período, obrigados a recorrer. Os niatas m orrem então se os seus proprietários os não alim entarem . Antes de voltar às obj eções de M. Mivart, creio dever explicar, um a vez ainda, com o a seleção natural atua em todos os casos ordinários. O hom em m odificou alguns anim ais, sem se prender necessariam ente com os pontos especiais da conform ação; produziu o cavalo de corrida ou o galgo lebreiro contentando-se em conservar e fazer reproduzir os anim ais m ais rápidos, ou o galo de com bate, consagrando à reprodução os únicos m achos vitoriosos nas lutas. Além disso, para a girafa que nasceu no estado selvagem , os indivíduos m ais elevados e capazes de com er um a polegada ou duas m ais acim a do que os outros, têm m uitas vezes podido ser conservados em tem po de fom e; porque têm de percorrer todo o país à procura de alim entos. Verifica-se em m uitos tratados de história natural dando os extratos de m edidas exatas, que os indivíduos de um a m esm a espécie diferem m uitas vezes ligeiram ente pelos com prim entos relativos das suas
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diversas partes. Estas diferenças proporcionalm ente m uito pequenas, devidas às leis de crescim ento e da variação, não têm a m enor im portância ou a m enor utilidade na m aior parte das espécies. Mas se se têm em conta os hábitos prováveis da girafa nascente, esta últim a observação não pode aplicar-se, porque os indivíduos, tendo um a ou m uitas partes m ais alongadas que de ordinário, devem em geral ser os únicos a sobreviver. O cruzam ento produziu descendentes que herdaram , quer as m esm as particularidades corporais, quer um a tendência a variar na m esm a direção; enquanto que os indivíduos m enos favorecidos sob as m esm as relações devem estar m ais expostos a perecer.
Vem os, pois, que não é necessário separar casais isolados, com o faz o hom em , quando quer m elhorar sistem aticam ente um a raça; a seleção natural preserva e isola assim todos os indivíduos superiores, perm ite-lhes cruzarem -se livrem ente e destrói todos os da ordem inferior. Por esta m archa longam ente continuada, que corresponde exatam ente ao que cham ei a seleção inconsciente que pratica o hom em , com binada sem dúvida em grande proporção com os efeitos hereditários do aum ento do uso das partes, parece-m e quase certo que um quadrúpede ungulado ordinário poderia converter-se em girafa. M. Mivart opõe duas obj eções a esta conclusão. Um a é que o aum ento do volum e do corpo reclam a evidentem ente um aum ento de nutrição; considera então
« com o m uito problem ático que os inconvenientes resultando da insuficiência de nutrição nos tem pos de carestia, não prevaleçam m uito sobre as vantagens» . Mas com o a girafa existe atualm ente em grande núm ero na África Meridional, onde abundam tam bém algum as espécies de antílopes m aiores que o boi, porque duvidarem os, no que diz respeito ao talhe, que não tenham existido outrora gradações interm ediárias, expostas com o hoj e a rigorosas carências? É certo que a possibilidade de atingir um aum ento de nutrição que os outros quadrúpedes ungulados do país deixam intacto, deve constituir algum a vantagem para a girafa em via de form ação e à m edida que se desenvolver. Não devem os j am ais esquecer que o desenvolvim ento do talhe constitui um a proteção contra quase todos os anim ais de presa, à exceção do leão; m esm o em frente deste últim o, o pescoço alongado da girafa-e quanto m ais longo m elhor-desem penha o papel de vigia, segundo a ob- 241
servação de M. Chauncey Wright. Sir S. Baker atribui a esta causa o fato de não haver anim al m ais difícil de caçar do que a girafa. Serve-se tam bém do longo pescoço com o de um a arm a ofensiva ou defensiva, utilizando as contrações rápidas para proj etar com violência a sua cabeça arm ada de cotos de chifres. Ora, a conservação de um a espécie não só pode ser raram ente determ inada por um a vantagem isolada, m as pelo conj unto de diversas vantagens, grandes e pequenas. M. Mivart pergunta então, e é esta a sua segunda obj eção, com o é que, sendo a seleção natural eficaz, e constituindo a aptidão para com er a um a grande altura um a tão grande vantagem , com o é que, digo eu, fora a girafa, e em m enor grau o cam elo, o guanaco e o m acrauquénia, qualquer outro m am ífero de cascos não tenha adquirido um pescoço alongado e um talhe elevado? ou ainda com o é