A Origem das Espécies
6 De la Variation des Animaux et…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
6 De la Variation des Animaux et des Plantes à l’État Domestique. Paris, Reinwald.
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sobre um grande núm ero de indivíduos, todos se m odificavam provavelm ente da m esm a m aneira. Fatos tais com o as excrescências extraordinárias e com plicadas, conseqüência invariável do depósito de um a gota m icroscópica de veneno fornecida pelo cínipe7, provam -nos que m odificações singulares podem , entre as plantas, resultar de um a alteração quím ica na natureza da seiva. A m udança das condições produz m uito m ais vezes um a variabilidade indefinida do que definida, e a prim eira goza provavelm ente de um papel m uito m ais im portante que a segunda na form ação das nossas raças dom ésticas. Esta variabilidade indefinida traduz-se por inúm eras pequenas particularidades que se não podem atribuir, em virtude da hereditariedade, nem ao pai, nem à m ãe, nem a outro parente afastado. Diferenças consideráveis aparecem m esm o por vezes nos filhos da m esm a ninhada, ou em plantas nascidas de grãos provenientes da m esm a cápsula. A longos intervalos, vêem -se surgir desvios de form ação fortem ente pronunciados para m erecer a qualificação de m onstruosidades; estes desvios afetam alguns indivíduos, em m eio de m ilhões de outros nascidos no m esm o país e alim entados quase da m esm a m aneira; todavia, não pode estabelecer-se um a linha absoluta de lim ite entre as m onstruosidades e as sim ples variações. Podem considerar-se com o efeitos indefinidos das condições de existência, sobre cada organism o individualm ente, todas estas alterações de conform ação, quer sej am pouco, quer m uito pronunciadas, que se m anifestam num grande núm ero de indivíduos vivendo em conj unto. Poderiam com parar-se estes efeitos indefinidos aos efeitos de um resfriam ento, que afeta diferentes pessoas de m odos indefinidos, segundo o seu estado de saúde ou a sua constituição, traduzindo-se nuns por bronquite, noutros por coriza, neste pelo reum atism o, naquele pela inflam ação de diversos órgãos.
Passem os agora ao que eu cham ei ação indireta da alteração das condições de existência, isto é, as alterações provenientes de m odificações que afetem o sistem a reprodutor. Duas causas principais nos autorizam a adm itir a existência destas variações: a extrem a sensibilidade do sistem a reprodutor para toda a alte 7 casta de m oscas que constituiu a quarta praga bíblica do Egito
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ração nas condições exteriores; a grande analogia, provada por Kölreuter e outros naturalistas, entre a variabilidade resultante do cruzam ento de espécies distintas e a que se pode observar nas plantas e nos anim ais criados em condições novas ou artificiais. Um grande núm ero de fatos testem unham a excessiva sensibilidade do sistem a reprodutor para esta alteração, m esm o insignificante, nas condições am bientes. Nada m ais fácil que dom esticar um anim al; nada, porém , m ais difícil que levá-lo a reproduzir-se no cativeiro, m esm o que a união dos dois sexos se efetue facilm ente. Quantos anim ais se não reproduzem , posto que deixados quase em liberdade no seu país natal! Atribui-se ordinariam ente este fato, ainda que sem razão, a um a corrupção dos instintos. Muitas plantas cultivadas rebentam com todo o vigor, e, contudo, produzem raram ente grãos, ou até nada produzem . Tem se descoberto, em alguns casos, que um a alteração insignificante, um pouco de água a m ais ou a m enos por exem plo, num a época particular do crescim ento, arrasta ou não na planta a produção de grãos. Não posso entrar aqui nas m inúcias dos fatos que recolhi e publiquei noutra parte a respeito deste curioso assunto; todavia, para m ostrar com o são singulares as leis que regem a reprodução dos anim ais cativos, posso verificar que os anim ais carnívoros, m esm o os provenientes dos países tropicais, se reproduzem com bastante facilidade nos nossos países, salvo, contudo, os anim ais pertencentes à fam ília dos plantígrados; assim com o tam bém posso notar que as aves carnívoras não põem quase sem pre ovos fecundos. Muitas plantas exóticas produzem apenas um pólen sem valor com o o das híbridas m ais estéreis. Vem os, pois, de um lado, anim ais e plantas reduzidas ao estado dom éstico reproduzirem -se facilm ente no estado de cativeiro, posto que sej am m uitas vezes raquíticas e doentes; e por outro lado, indivíduos, tirados m uito novos às suas florestas e suportando perfeitam ente o cativeiro, adm iravelm ente dom esticados, na força da idade, e sadios (eu poderia citar num erosos exem plos), de que o sistem a reprodutor, sendo seriam ente com prom etido por causas desconhecidas, cessou de funcionar. Em presença destas duas ordens de fatos, é para estranhar que o sistem a reprodutor atue tão irregularm ente quando funciona no cativeiro, e que os descendentes sej am um pouco diferentes dos pais? Posso acrescentar que, da m esm a form a que certos anim ais se reproduzem facilm ente
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nas condições m enos naturais (por exem plo, os coelhos e os furões encerrados em gaiolas), o que prova que o seu sistem a reprodutor não foi afetado pelo cativeiro; assim , tam bém , certos anim ais e certas plantas suportam a dom esticidade ou a cultura sem variar m uito.
Alguns naturalistas sustentam que todas as variações estão ligadas ao ato da reprodução sexual; é certam ente um erro. Citei, com efeito, noutra obra, um a extensa lista de plantas que os j ardineiros cham am plantas loucas, isto é, plantas nas quais se vê surgir de repente um rebento apresentando qualquer caráter novo, e por vezes diferente por com pleto dos outros rebentos da m esm a planta. Estas variações dos gom os, se pode em pregar-se esta expressão, podem propagar-se por seu turno por enxerto ou m ergulhia, etc, ou algum as vezes m esm o por sem enteira. Tais variações se reproduzem raras vezes no estado selvagem ; são, porém , bastante freqüentes nas plantas cultivadas. Podem os concluir, pois, que a natureza do organism o desem penha o papel principal na produção da form a particular de cada variação, e que a natureza das condições lhe está subordinada; com efeito, vem os m uitas vezes na m esm a árvore, subm etida a condições uniform es, um só gom o, entre m ilhares de outros produzidos anualm ente, apresentar de im proviso caracteres novos; vem os, dem ais, renovos pertencendo a árvores distintas, colocadas em condições diferentes, produzirem quase a m esm a variedade rebentos de pessegueiros, por exem plo, produzirem pêssegos verm elhos, e rebentos de roseira com um produzirem rosas de m usgo. A natureza das condições não tem , pois, talvez m ais im portância neste caso do que a natureza da faísca, com unicando o fogo a um a m assa de com bustível, para determ inar a natureza da cham a.
EFEITOS DOS HÁBITOS E DO USO OU NÃO USO DAS PARTES; VARIAÇÃO POR
CORRELAÇÃO; HEREDITARIEDADE
A m udança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderia citar-se, por exem plo, a época da floração das plantas transportadas de um clim a para outro.
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Nos anim ais, o uso ou não uso das partes tem um a influência m ais considerável ainda. Assim , proporcionalm ente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam m enos e os ossos da coxa pesam m ais no canário dom éstico que no canário selvagem . Ora, pode incontestavelm ente atribuir-se esta alteração a que o canário dom éstico voa m enos e m archa m ais que o canário selvagem . Podem os ainda citar, com o um dos efeitos do uso das partes, o desenvolvim ento considerável, transm issível por hereditariedade, das m am as das vacas e das cabras nos países em que há o hábito de ordenhar estes anim ais, com parativam ente ao estado desses órgãos nos outros países. Todos os anim ais dom ésticos têm , em alguns países, as orelhas pendentes; atribui-se esta particularidade ao fato de estes anim ais, tendo m enos causas de alarm e, acabarem por se não servir dos m úsculos da orelha, e esta opinião parece bem fundada. A variabilidade está subm etida a m uitas leis; conhecem -se im perfeitam ente algum as, que em breve discutirei. Desej o ocupar-m e som ente aqui da variação por correlação. Alterações im portantes que se produzem no em brião, ou na larva, trazem quase sem pre alterações análogas no anim al adulto. Nas m onstruosidades, os efeitos de correlação entre as partes com pletam ente distintas são m uito curiosos; Isidore Geoffroy de Saint-Hilaire cita exem plos num erosos na sua grande obra sobre este assunto. Os tratadores adm item que, quando os m em bros são com pridos, a cabeça o é tam bém quase sem pre.
Alguns casos de correlação são extrem am ente singulares: assim , os gatos com pletam ente brancos, e que têm os olhos azuis, são ordinariam ente surdos; todavia, M. Talt provou recentem ente que o fato é lim itado aos m achos. Certas cores e certas particularidades constitucionais vão ordinariam ente em conj unto; eu poderia citar m uitos exem plos notáveis a este respeito nos anim ais e nas plantas. Segundo um grande núm ero de fatos recolhidos por Heusinger, parece que certas plantas incom odam os carneiros e os porcos brancos, enquanto que os indivíduos de cor carregada delas se nutrem im punem ente. O professor Wy m an com unicoum e recentem ente um a excelente prova do que digo. Perguntou a alguns lavradores da Virgínia a razão por que só tinham porcos de cor negra; e eles responderam que os porcos com iam a raiz do lachnanthes, que cora os ossos de rosa e
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que lhes faz cair os cascos; isto produz-se em todas as variedades, exceto na variedade negra. Um deles aj untou: « Escolhem os, para os tratar, todos os indivíduos negros de um a ninhada, porque são os únicos que têm condições para viver» . Os cães desprovidos de pêlos têm a dentição im perfeita; diz-se que os anim ais de pelo longo e áspero são predispostos a ter os cornos longos e num erosos; os pom bos de patas em plum adas têm m em branas entre os dedos anteriores; os pom bos de bico curto têm os pés pequenos; os pom bos de bico longo têm os pés grandes. Resulta, pois, que o hom em , continuando sem pre a escolher, e, por conseguinte, a desenvolver um a particularidade qualquer, m odifica, sem intenção, outras partes do organism o, em virtude das leis m isteriosas da correlação. As leis diversas, absolutam ente ignoradas ou im perfeitam ente com preendidas, que regem a variação, têm efeitos extrem am ente com plexos. É interessante estudar os diferentes tratados, relativos a algum as das nossas plantas cultivadas de há m uito, tais com o o j acinto, a batata, ou m esm o a dália, etc.; é realm ente para adm irar ver por que inúm eros pontos de conform ação e de constituição as variedades e subvariedades diferem ligeiram ente entre si. A sua organização parece tornar-se plástica por com pleto e afastar-se ligeiram ente da do tipo original. Toda a variação não hereditária é sem interesse para nós, m as o núm ero e a diversidade dos desvios de conform ação transm issíveis por hereditariedade, quer sej am insignificantes, quer tenham um a im portância fisiológica considerável, são quase infinitos. A m elhor obra e m ais com pleta que tem os sobre o assunto é a do Dr. Prosper Lucas. Nenhum tratador pôs em dúvida a grande energia das tendências hereditárias; todos têm por axiom a fundam ental que o sem elhante produz o sem elhante, e apenas alguns teóricos põem em dúvida o valor deste princípio. Quando um a divisão de estrutura se reproduz m uitas vezes, quando a procuram os no pai e no filho, é m uito difícil dizer se este desvio provém ou não de algum a coisa que atuou tanto num com o noutro. Mas, por outra parte, quando entre indivíduos, evidentem ente expostos às m esm as condições, qualquer desvio m uito raro, devido a algum concurso extraordinário de circunstâncias, aparece num só indivíduo, em m eio de m ilhões de outros que não são afetados, e vem os aparecer este desvio no descendente, a sim ples teoria das probabilidades força-nos quase a
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atribuir esta aparição à hereditariedade. Quem não tem ouvido falar dos casos de albinism o, de pele espinhosa, de pele felpuda, etc, hereditários em m uitos m em bros de um a m esm a fam ília? Ora, se os desvios raros e extraordinários podem realm ente transm itir-se por hereditariedade, com m ais forte razão se pode sustentar que desvios m enos extraordinários e m ais com uns podem igualm ente transm itir-se. A m elhor m aneira de resum ir a questão seria talvez considerar que, em regra geral, todo o caráter, qualquer que sej a, se transm ite por hereditariedade e que a não transm issão é exceção.
As leis que regulam a hereditariedade são pela m aior parte desconhecidas. Qual a razão porque, por exem plo, um a m esm a particularidade, aparecendo em diversos indivíduos da m esm a espécie ou espécies diferentes, se transm ite algum as vezes e outras se não transm ite por hereditariedade? Porque é que certos caracteres do avô ou da avó, ou de antepassados m ais distantes, reaparecem no indivíduo? Porque é que um a particularidade se transm ite m uitas vezes de um sexo, quer aos dois sexos, quer a um só, m as m ais com um ente a um só, ainda que não exclusivam ente ao sexo sem elhante? As particularidades que aparecem nos m achos das nossas espécies dom ésticas transm item -se m uitas vezes, quer exclusivam ente, quer num grau m uito m ais considerável no m acho só; ora, é isto um fato que tem extraordinária im portância para nós. Um a regra m uito m ais im portante e que sofre, creio eu, poucas exceções, é que em qualquer período da vida que um a particularidade apareça de princípio, tende a reaparecer nos descendentes num a idade correspondente, algum as vezes m esm o, um pouco m ais cedo. Em m uitos casos, não pode ser de outra m aneira; com efeito, as particularidades hereditárias que apresentam os cornos do grande touro só podem m anifestar-se nos seus descendentes na idade adulta pouco m ais ou m enos; as particularidades que apresentam os bichos-da-seda não aparecem tam bém a não ser na idade correspondente em que o bicho existe sob a form a de larva ou crisálida. Mas as doenças hereditárias e alguns outros fatos levam -m e a crer que esta regra é suscetível de m aior extensão; com efeito, ainda que não haj a razão aparente para que um a particularidade reapareça num a idade determ inada, tende contudo a representar-se no descendente da m esm a idade que o antepassado. Esta regra parece-m e ter
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um alto valor para explicar as leis da em briologia. As presentes notas só se aplicam , naturalm ente, à prim eira aparição da particularidade, e não à causa prim ária que pode ter atuado sobre os óvulos ou sobre o elem ento m acho; assim , no descendente de um a vaca desarm ada e de um touro de longos cornos, o desenvolvim ento dos m esm os, posto que se m anifeste som ente m uito tarde, é evidentem ente devido à influência do elem ento m acho. Visto que aludi ao regresso dos caracteres prim itivos, posso agora tratar de um a observação feita m uitas vezes pelos naturalistas; isto é, que as nossas variedades dom ésticas, voltando à vida selvagem , retom am gradualm ente, m as invariavelm ente, os caracteres do tipo original. Tem -se concluído deste fato que se não pode tirar do estudo das raças dom ésticas qualquer dedução aplicável ao conhecim ento das espécies selvagens. Em vão procuro descobrir em que fatos decisivos se pode apoiar esta asserção tão freqüentem ente e tão ardilosam ente renovada; seria m uito difícil, com efeito, provar-lhe a exatidão, porque podem os afirm ar, sem receio de nos enganarm os, que a m aior parte das nossas variedades dom ésticas, as m ais fortem ente caracterizadas, não poderiam viver no estado selvagem . Em m uitos casos, não sabem os m esm o qual é a sua origem prim itiva; énos, pois, quase im possível dizer se o regresso a esta origem é m ais ou m enos perfeito. Além disso, seria indispensável, para im pedir os efeitos do cruzam ento, que um a única variedade fosse posta em liberdade. Contudo, com o é certo que as nossas variedades podem acidentalm ente regressar ao tipo ancestral por alguns dos seus caracteres, parece-m e bastante provável que, se conseguíssem os chegar a aclim atar, ou m esm o a cultivar durante m uitas gerações, as diferentes raças de couve, por exem plo, num solo m uito pobre (neste caso, todavia, seria necessário atribuir qualquer influência à ação definida da pobreza do solo), voltariam , m ais ou m enos com pletam ente, ao tipo selvagem prim itivo. Que a experiência desse resultado ou não, isso pouca im portância tem do ponto de vista da nossa argum entação. porque as condições de existência seriam com pletam ente m odificadas pela própria experiência. Se pudesse dem onstrar-se que as nossas variedades dom ésticas apresentam um a grande tendência ao regresso, isto é, se pudesse estabelecer-se que tendem a perder os caracteres adquiridos, quando m esm o fi- 28
quem subm etidas às m esm as condições e sej am m antidas em núm ero considerável, de m aneira tal que os cruzam entos pudessem parar, confundindo-os, os pequenos desvios de conform ação, reconheço eu, neste caso, que não poderíam os concluir das variedades dom ésticas para as espécies. Mas esta m aneira de ver não encontra prova algum a em seu favor. Afirm ar que não poderíam os perpetuar os nossos cavalos de tiro e os cavalos de corrida, o nosso boi de longos e de curtos cornos, as nossas aves de capoeira de raças diversas, os nossos legum es, durante um núm ero infinito de gerações, seria contrário ao que nos ensina a experiência de todos os dias.
CARACTERES DAS VARIEDADES DOMÉSTICAS; DIFICULDADE DE DISTING UIR
ENTRE AS VARIEDADES E AS ESPÉCIES; ORIG EM DAS VARIEDADES DOMÉSTI-CAS ATRIBUIDA A UMA OU A MUITAS ESPÉCIES
Quando exam inam os as variedades hereditárias ou as raças dos nossos anim ais dom ésticos e plantas cultivadas e as com param os às espécies m uito próxim as, notam os ordinariam ente, com o j á dissem os, em cada raça dom éstica, caracteres m enos uniform es que nas espécies verdadeiras. As raças dom ésticas apresentam freqüentem ente um caráter um tanto m onstruoso; entendo por isso que, posto que diferentes um as das outras e das espécies vizinhas do m esm o gênero por alguns leves caracteres, diferem m uitas vezes em alto grau por um ponto especial, quer as com parem os um as às outras, quer sobretudo as com parem os à
espécie selvagem de que m ais se aproxim am . Além disto (e salvo a fecundidade perfeita das variedades cruzadas entre si, assunto que discutirem os m ais tarde), as raças dom ésticas da m esm a espécie diferem entre si da m esm a m aneira que as espécies vizinhas do m esm o gênero no estado selvagem ; m as as diferenças, na m aior parte dos casos, são m enos consideráveis. É necessário adm itir que este ponto está provado, porque j ulgadores com petentes salientam que as raças dom ésticas de m uitos anim ais e de m uitas plantas derivam de espécies originais distintas, enquanto que outros, não m enos com petentes, as consideram apenas com o sim ples variedades. Ora, se existisse um a distinção bem nítida entre as raças dom ésticas e as espécies, esta dúvida não se apresentaria tão freqüentem ente.
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Tem -se repetido m uitas vezes que as raças dom ésticas não diferem um as das outras por caracteres de valor genérico. Pode dem onstrar-se que esta asserção não é exata; todavia, os naturalistas têm opiniões m uito diferentes quanto ao que constitui um caráter genérico, e, por conseguinte, todas as apreciações atuais sobre este ponto são puram ente em píricas. Quando eu explicar a origem do gênero natural, ver-se-á que não devem os de m odo algum esperar encontrar nas raças dom ésticas diferenças de ordem genérica.
Estam os reduzidos a hipóteses desde que tentam os avaliar o valor das diferenças de conform ação que separam as nossas raças dom ésticas m ais vizinhas; não sabem os, com efeito, se elas derivam de um a ou m uitas espécies m ães. Seria, portanto, um ponto m uito interessante a elucidar. Se, por exem plo, pudesse provar-se que o Galgo, o Sabuj o, o Caçador, o Espanhol e o Buldogue, anim ais cuj a raça, com o sabem os, se propaga tão puram ente, derivam todos de um a m esm a espécie, eStávam os evidentem ente autorizados a duvidar da im utabilidade de grande núm ero de espécies selvagens estreitam ente ligadas, a das raposas por exem plo, que habitam as diversas partes do globo. Não creio, com o verem os em breve, que a som a das diferenças, que constatam os entre as nossas diversas raças de cães, se tenha produzido inteiram ente no estado de dom esticidade; j ulgo, ao contrário, que um a parte destas diferenças provém da descendência de espécies distintas. Apesar das raças m uito características de algum as outras espécies dom ésticas, há fortes presunções, ou m esm o provas absolutas de que descendem todas de um a origem selvagem com um .
Tem -se pretendido m uitas vezes que, para os reduzir à dom esticidade, o hom em escolheu anim ais e plantas que apresentam um a tendência inerente excepcional à variação, e que possuíam a faculdade de suportar os m ais diferentes clim as. Não contesto que estas aptidões tenham aum entado m uito o valor da m aior parte dos nossos produtos dom ésticos; m as com o poderia um selvagem saber, quando aprisionou um anim al, se esse anim al era suscetível de variar nas gerações futuras e suportar as m udanças de clim a? Acaso a fraca variabilidade do j um ento e do pato, a pouca disposição da rena para o calor ou do cam elo para o frio, im pediram a sua dom esticação?
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Estou convencido de que, se se tom assem no estado selvagem anim ais e plantas em núm ero igual ao dos nossos produtos dom ésticos e pertencendo a um grande núm ero de classes e países, e se se fizessem reproduzir no estado dom éstico, durante um núm ero igual de gerações, variariam em m édia tanto com o têm variado as espécies m ães das nossas raças dom ésticas atuais. É im possível decidir, com respeito à m aior parte das nossas plantas há
m ais tem po cultivadas e dos anim ais reduzidos há longos séculos à dom esticidade, se derivam de um a ou m ais espécies selvagens. O argum ento principal daqueles que crêem na origem m últipla dos anim ais dom ésticos repousa sobre o fato de encontrarm os, desde os tem pos m ais rem otos, nos m onum entos do Egito e nas habitações lacustres da Suíça, um a grande diversidade de raças. Muitas delas têm um a sem elhança m arcante, ou são m esm o idênticas com as que existem hoj e. Mas isto só faz recuar a origem da civilização, e prova que os anim ais foram reduzidos à dom esticidade num período m uito anterior ao que j ulgam os presentem ente. Os habitantes das cidades lacustres da Suíça cultivavam m uitas espécies de trigo e de aveia, as ervilhas e as papoulas para daí extraírem óleo e o cânham o; possuíam m uitos anim ais dom ésticos e estavam em relações com erciais com as outras nações. Tudo isto prova, claram ente, com o Heer o fez notar, que tinham progredido consideravelm ente; isto, porém , im plica tam bém um longo período antecedente de civilização m enos avançada, durante o qual os anim ais dom ésticos, tratados em diferentes regiões, puderam , variando, dar origem a raças distintas. Depois da descoberta dos instrum entos de sílex nas cam adas superficiais de m uitas partes do m undo, todos os geólogos acreditaram que o hom em bárbaro existiu num período extraordinariam ente afastado, e sabem os hoj e que não há tribo, por m ais bárbara que sej a, que não tenha dom esticado o cão.
A origem da m aior parte dos anim ais dom ésticos ficará duvidosa para sem pre. Mas devo acrescentar que, depois de laboriosam ente haver recolhido todos os fatos conhecidos relativos aos cães dom ésticos de todo o m undo, fui levado a concluir que m uitas espécies selvagens de canídeos deviam ter sido aprisionadas, e que o seu sangue corre m ais ou m enos m isturado nas veias das nossas raças dom ésticas naturais. Não pude chegar a nenhum a conclusão precisa relativam en- 31
te aos carneiros e às cabras. Após os fatos que M. Bly th m e com unicou sobre os hábitos, voz, constituição e form ação do touro de bossa indiano, é quase certo que ele descende de um a origem prim itiva diferente da que produziu o nosso touro europeu. Alguns críticos com petentes crêem que este últim o deriva de duas ou três origens selvagens, sem pretender afirm ar que tais origens sej am ou não consideradas com o espécies. Esta conclusão, bem com o a distinção específica que existe entre o touro de bossa e o boi ordinário, foi quase definitivam ente estabelecida pelos adm iráveis estudos do professor Rütim ey er. Quanto aos cavalos, hesito em crer, por m otivos que não posso desenvolver aqui, e dem ais contrários à opinião de m uitos sábios, que todas as raças derivam de um a só espécie. Tenho tratado quase todas as raças inglesas das nossas aves de capoeira, tenho-as cruzado, tenho-lhe estudado o esqueleto, e cheguei à conclusão que provêm todas de um a espécie selvagem índica, o Gallus bankiva; é tam bém a opinião de M. Bly th e de outros naturalistas que estudaram esta ave na índia. Quanto aos patos e aos coelhos, de que algum as raças diferem consideravelm ente entre si, é evidente que derivam todas do pato com um selvagem e do coelho selvagem . Alguns autores têm levado ao extrem o a doutrina de as nossas raças dom ésticas derivarem de m uitas origens selvagens. Julgam que toda a raça que se reproduz puram ente, por ligeiros que sej am os seus caracteres distintivos, teve o seu protótipo selvagem . Sendo assim , deveriam existir pelo m enos um a vintena de espécies de touros selvagens, outras tantas de carneiros, e m uitas espécies de cabras da Europa, das quais m uitas na Grã-Bretanha som ente. Um autor sustenta que deviam existir na Grã-Bretanha onze espécies de carneiros selvagens que lhe eram próprios! Quando nos lem brarm os que este país não possui hoj e um m am ífero que lhe sej a particular, que a França tem apenas alguns, m uito poucos, que sej am distintos dos da Alem anha, e que o m esm o se dá na Hungria e na Espanha, etc., m as que cada um destes países possui m uitas espécies particulares de touros, de carneiros, etc., é necessário então adm itir que um grande núm ero de raças dom ésticas tiveram origem na Europa, porque de onde poderiam elas vir? E o m esm o se dá na Índia. É certo que as variações hereditárias desem penharam um papel im portante na form ação das raças tão num erosas de cães dom ésticos para
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os quais adm ito, contudo, m uitas origens distintas. Quem poderia acreditar, com efeito, que m uitos anim ais assem elhando-se ao Galgo italiano, ao Rafeiro8, ao Buldogue, ao Fraldiqueiro9 e ao Espanhol de Blenheim , tipos tão diferentes dos tipos dos canídeos selvagens, tivessem existido no estado prim itivo? Tem -se afirm ado m uitas vezes, sem prova segura, que todas as nossas raças de cães provêm do cruzam ento de um pequeno núm ero de espécies prim itivas. Mas,apenas se obtêm , pelo cruzam ento, form as interm ediárias entre aos pais; ora, se querem os explicar assim a existência das nossas diferentes raças dom ésticas, necessário se torna adm itir a existência anterior das form as m ais extrem as, tais com o o Galgo italiano, o Rafeiro, o Buldogue, etc., no estado selvagem . De resto, tem -se exagerado m uito a possibilidade de form ar raças distintas pelo cruzam ento. Está
provado que pode m odificar-se um a raça pelos cruzam entos acidentais, adm itindo, todavia, que se escolhem cuidadosam ente os indivíduos que representam o tipo desej ado: m as seria m uito difícil obter um a raça interm édia entre duas raças com pletam ente distintas. Sir J. Sebright tentou num erosas experiências com este fim , m as não pôde obter resultado algum . Os produtos do prim eiro cruzam ento entre duas raças puras são bastante uniform es, algum as vezes m esm o perfeitam ente idênticos, com o tenho constatado nos pom bos. Nada parece, pois, m ais sim ples; quando, porém , se cruzam estes m estiços entre si durante m uitas gerações, não m ais se obtêm dois produtos sem elhantes e as dificuldades de operação tornam -se m anifestas.
RAÇAS DO POMBO DOMÉSTICO, SUAS DIFERENÇAS E SUA ORIG EM
Persuadido que vale sem pre m ais estudar um grupo especial, decidi-m e, após m adura reflexão, pelos pom bos dom ésticos. Tenho tratado todas as raças que pude obter por com pra ou por outra m aneira; além disso, têm -m e sido envia 8 diz-se de ou cão de casta que serve para guardar gado
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das peles provenientes de quase todas as partes do m undo; estou principalm ente agradecido por estas rem essas ao honorário W. Elliot, que m e fez aperceber de especím enes da Índia, e ao honorário C. Murray, que m e expediu exem plares da Pérsia. Em todas as línguas se têm publicado tratados sobre pom bos; algum as destas obras são m uito im portantes, pois que ascendem à m ais rem ota antiguidade. Associei-m e a m uitos criadores im portantes e faço parte dos dois “Pigeonsclubs” de Londres. A diversidade das raças de pom bos é verdadeiram ente adm irável. Se se com para o Correio inglês com o Cam balhota de face curta, fica-se im pressionado pela enorm e diferença do bico, condizendo com diferenças correspondentes no crânio. O Correio, e m ais particularm ente o m acho, apresenta um desenvolvim ento pronunciado da m em brana carunculosa da cabeça, acom panhado de grande alongam ento das pálpebras, de largos orifícios nasais e grande abertura do bico. O bico do Cam balhota de face curta parece-se com o de um pardal; o Cam balhota ordinário possui o hábito singular de elevar-se a grande altura desordenadam ente, e depois fazer no ar um a cam balhota com pleta. O Runt (pom bo-galinha rom ano) é um a ave grande, de bico longo e m aciço e grandes pés; algum as sub-raças têm longo pescoço, outras longas asas e longa cauda. O
Barbado está aliado ao pom bo-correio; m as o bico, em lugar de ser longo, é largo e m uito curto. O Pom bo de papo tem corpo, asas e patas alongadas; o enorm e papo, que tum efaz com orgulho, dá-lhe um aspecto bizarro e côm ico. O pom bogravata tem o bico curto e cônico, e um a ordem de penas riçadas sobre o peito; tem o hábito de dilatar ligeiram ente a parte superior do esôfago. O Cabeleira tem as penas de tal m aneira erriçadas na parte dorsal do pescoço, que form am um a espécie de capucho; proporcionalm ente ao tam anho, tem as penas das asas e do pescoço m uito alongadas.
O Trom beta, ou Pom bo tam bor, e o Pom bo que ri, fazem ouvir, assim com o indica o seu nom e, um arrulho m uito diferente do das outras raças. O Pom bo de leque tem trinta ou m esm o quarenta penas na cauda, em vez de doze ou catorze, núm ero norm al em todos os m em bros da fam ília dos pom bos; tem estas penas tão ostentadas e tão erriçadas, que, nas aves de raça pura, a cabeça e a cauda se
9 diz-se de ou cão que gosta de estar no conchego do colo das m ulheres
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tocam ; m as a glândula oleífera é com pletam ente atrofiada. Poderíam os ainda indicar algum as outras raças m enos distintas. O desenvolvim ento dos ossos da face difere enorm em ente, tanto pelo com prim ento com o pela largura e curvatura, no esqueleto das diferentes raças. A form a, assim com o as dim ensões do m axilar inferior variam de um a m aneira m uito acentuada.
O núm ero das vértebras caudais e das vértebras sagradas varia tam bém da m esm a form a que o núm ero de costelas e das apófises, assim com o a sua largura relativa. A form a e a grandeza das aberturas do esterno, o grau de divergência e as dim ensões dos ram os da forquilha, são igualm ente m uito variados. A largura proporcional da abertura do bico; o com prim ento relativo das pálpebras; as dim ensões do orifício das narinas e as da língua, que não estão sem pre em correlação absolutam ente exata com o com prim ento do bico; o desenvolvim ento do papo e da parte superior do esôfago; o desenvolvim ento ou atrofia da glândula oleífera; o núm ero de penas prim árias da asa e da cauda; o com prim ento relativo das asas e da cauda, quer entre si, quer com relação ao corpo; o com prim ento relativo da perna e do pé; o núm ero de escam as dos dedos; o desenvolvim ento da m em brana interdigital são outras tantas partes essencialm ente variáveis. A época em que as aves novas adquirem a plum agem perfeita, bem com o a natureza da plum agem de que os filhotes são revestidos na sua eclosão, variam tam bém ; e igualm ente a form a e tam anho dos ovos. O vôo e, em certas raças, a voz e os instintos, apresentam diversidades notáveis. Enfim , em certas variedades, os m achos e as fêm eas chegam a diferir algum tanto uns dos outros. Poder-se-ia facilm ente reunir um a vintena de pom bos tais que, se se m ostrassem a um ornitólogo, e se lhe dissessem que eram aves selvagens, ele os classificaria certam ente com o outras tantas espécies distintas. Não creio m esm o que qualquer ornitólogo consentisse em colocar num m esm o gênero o Correio inglês, o Cam balhota de face curta, o Runt, o Barbado, o Pom bo de papo e o Pom bo de leque; ele o faria tanto m enos que se lhe poderiam m ostrar, por cada um a destas raças, m uitas subvariedades de descendência pura, isto é, de espécies, com o lhes cham aria certam ente.
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Por considerável que sej a a diferença que se observa entre as diversas raças de pom bos, estou com pletam ente da opinião com um dos naturalistas que os fazem descendentes do Pom bo torcaz (Colum bia livia), com preendendo debaixo deste term o m uitas raças geográficas, ou subespécies, que só diferem um as das outras por pontos insignificantes. Exporei sucintam ente m uitas das razões que m e levam a adotar esta opinião, porque são, até certo ponto, aplicáveis a outros casos. Se as nossas diversas raças de pom bos não são variedades, se, num a palavra, não derivam do Torcaz, devem derivar de sete ou oito tipos originais pelo m enos, porque seria im possível produzir as nossas raças dom ésticas atuais por cruzam entos recíprocos de um núm ero m enor. Com o, por exem plo, produzir um Pom bo de papo cruzando duas raças, a não ser que um a das raças ascendentes possua o enorm e papo característico? Os supostos tipos originais devem todos ter sido habitantes dos rochedos com o o Torcaz, isto é, espécies que não se em poleiram nem fazem ninhos voluntariam ente sobre as árvores. Mas, além da Colum bia livia e as suas subespécies geográficas, som ente se conhecem duas ou três outras espécies de pom bos dos rochedos e não apresentam qualquer dos caracteres próprios às raças dom ésticas. As espécies prim itivas devem , pois, ou existir ainda nos países em que têm sido originariam ente reduzidas à dom esticidade, e neste caso escapavam à atenção dos ornitólogos, o que atendendo ao talhe, aos hábitos e ao notável caráter, parece im possível; ou foram extintas no estado selvagem . É, porém , difícil exterm inar aves que fazem ninho à beira dos precipícios e dotadas de vôo poderoso. Dem ais o Torcaz com um , que tem os m esm os hábitos que as raças dom ésticas, não foi exterm inado nem nas pequenas ilhas que cercam a Grã-Bretanha, nem nas costas do Mediterrâneo. Seria pois fazer um a falsa suposição adm itir a extinção de um tão grande núm ero de espécies tendo os m esm os costum es que o Torcaz. Além disso, as raças dom ésticas, de que tem os falado m ais acim a, foram transportadas para todas as partes do m undo; algum as, por conseguinte, devem ter sido levadas ao seu país de origem ; nenhum a, contudo, voltou ao estado selvagem , ainda que o pom bo com um , que não é outro senão o Torcaz sob form a m uito pouco m odificada, se tenha tornado selvagem em m uitos lugares. Enfim , a experiência prova-nos bem o quanto é difícil obrigar um anim al
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selvagem a reproduzir-se regularm ente em cativeiro; todavia, adm itindo a origem m últipla dos nossos pom bos, necessário se torna tam bém adm itir que sete ou oito espécies pelo m enos foram aprisionadas pelo hom em num estado sem i-selvagem para as tornar perfeitam ente fecundas no estado de cativas. Há um outro argum ento que m e parece ter um grande valor e que pode aplicar-se a m uitos outros casos: é que as raças de que tem os falado, posto que sem elhando-se de um a m aneira geral ao Torcaz selvagem pela constituição, hábitos, voz, cor e pela m aior parte da sua conform ação, diferenciam -se dele, todavia, por m uitos outros pontos. Debalde se procuraria, em toda a grande fam ília das Colum bídeas, um bico sem elhante ao do Correio inglês, ao do Cam balhota de face curta ou ao do Barbado; penas erriçadas análogas às do Cabeleira; papo com parado ao do Pom bo de papo; penas caudais com paráveis às do pom bo-pavão. Seria necessário, pois, adm itir, não só que hom ens sem i-selvagens aprisionaram com pletam ente m uitas espécies, com o ainda, por acaso ou intencionalm ente, escolheram as espécies m ais extraordinárias e m ais anorm ais; era necessário adm itir ainda que todas estas espécies se extinguiram em seguida ou ficaram desconhecidas. Um tal concurso de circunstâncias é im provável no m ais alto grau. Merecem m enção alguns fatos relativos à cor dos pom bos.
O Torcaz é azul-ardósia com os flancos brancos; na subespécie índica, a Colum bia interm edia de Strickland, os flancos são azulados; a cauda apresenta um a orla carregada term inal e as penas dos lados são exteriorm ente lim itadas de branco na base; as asas têm duas barras negras. Em algum as raças sem idom ésticas, bem com o em algum as absolutam ente selvagens, as asas, além das duas orlas negras, são pontilhadas de negro. Estes diversos sinais não se encontram reunidos em qualquer outra espécie da fam ília. Ora, todos os sinais que acabam os de indicar são por vezes e perfeitam ente desenvolvidos até ao bordo branco das penas exteriores da cauda, nas aves de raça pura pertencendo a todas as nossas raças dom ésticas. Além disso, quando se cruzam os pom bos, pertencentes a duas ou m ais raças distintas, não oferecendo nem a coloração azul, nem qualquer dos sinais que acabam os de expor, os produtos destes cruzam entos m ostram -se m uito dispostos a adquirir rapidam ente estes caracteres. Lim itar-m e-ei a citar um exem plo que entre tantos outros observei. Cruzei alguns pom bos-pavões brancos
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xem plo que entre tantos outros observei. Cruzei alguns pom bos-pavões brancos da raça m ais pura com alguns Barbados negros - as variedades azuis do Barbado são tão raras que não conheço um só exem plar em Inglaterra -: as aves que obtive eram negras, cinzentas e m anchadas. Cruzei igualm ente um Barbado com um pom bo Spot, que é um a ave branca com a cauda verm elha e um a m ancha verm elha no alto da cabeça, e que se reproduz fielm ente; obtive m estiços acinzentados e m anchados. Cruzei então um dos m estiços barbado-pavão com um m estiço barbado-spot, e obtive um a ave de um tão belo azul com o nenhum pom bo de raça selvagem , tendo os flancos brancos, possuindo a dupla orla negra das asas e as penas externas da cauda orladas de negro e lim itadas de branco! Se todas as raças de pom bos dom ésticos derivam do Torcaz, estes fatos explicam -se facilm ente pelo princípio bem conhecido da reversão aos caracteres dos antepassados; m as se se contesta esta origem , é necessário forçosam ente adm itir um a das duas hipóteses seguintes, hipóteses o m ais im prováveis possível: ou todos os diversos tipos originais eram coloridos e m arcados com o o Torcaz, posto que nenhum a outra espécie existente apresente estes m esm os caracteres, de m odo que, em cada raça separada, exista um a tendência à reversão de cores e características; ou então cada raça, m esm o a m ais pura, foi cruzada com o Torcaz num intervalo de um a dezena ou ainda m ais de um a vintena de gerações -digo um a vintena de gerações, porque não se conhece exem plo algum de produtos de um cruzam ento que tenham voltado a um antepassado de sangue estranho afastado deles por um núm ero de gerações m ais considerável. - Num a raça que foi cruzada apenas um a vez, a tendência à reversão a um destes caracteres devidos a este cruzam ento dim inui naturalm ente, contendo cada geração sucessiva um a quantidade sem pre m enor de sangue estranho. Mas, quando não tem havido cruzam ento e existe num a raça a tendência a regressar a um caráter perdido durante m uitas gerações, esta tendência, depois do que fica dito, pode transm itir-se sem enfraquecim ento durante um núm ero indefinido de gerações. Os autores que têm escrito sobre a hereditariedade têm , m uitas vezes, confundido estes dois casos assaz distintos da reversão.
Enfim , assim com o pude constatar pelas observações que tenho feito ex- 38
pressam ente sobre as m ais distintas raças, os híbridos ou m estiços provenientes de todas as raças dom ésticas do pom bo são perfeitam ente fecundos. Ora é difícil, senão im possível, citar um caso bem estabelecido tendente a provar que os descendentes híbridos provindos de duas espécies de anim ais nitidam ente distintos são com pletam ente fecundos. Alguns autores j ulgam que um a dom esticidade por m uito tem po prolongada dim inui esta grande tendência à esterilidade. A história do cão e a de alguns outros anim ais dom ésticos torna esta opinião m uito provável, se se aplicar às espécies estreitam ente aliadas; m as parece-m e em extrem o tem erário generalizar esta hipótese até supor que espécies prim itivam ente tão distintas, com o são hoj e os Correios, os Cam balhotas, os Papudos e os Pavões tenham podido produzir descendentes perfeitam ente fecundos inter se. Estas diferentes razões, que sem pre é bom recapitular, isto é, a im probabilidade de outrora o hom em ter reduzido ao estado dom éstico sete ou oito espécies de pom bos, e sobretudo fazê-los reproduzir neste estado livrem ente; o fato de serem desconhecidas por toda a parte estas supostas espécies no estado selvagem , e de as espécies dom ésticas se não tornarem selvagens em parte algum a; o fato de estas espécies apresentarem certos caracteres m uito anorm ais, com parandoas com todas as outras espécies de colum bídeas, posto que se assem elhem ao Torcaz sob quase todos os aspectos; o fato de a cor azul e os diferentes estigm as negros reaparecerem em todas as raças, quer se conservem puras, quer se cruzem ; enfim , o fato de os m estiços serem perfeitam ente fecundos - este com plexo de razões leva-nos a concluir que todas as nossas raças dom ésticas derivam do Torcaz ou Colum bia livia e das suas subespécies geográficas. Juntarei, em apoio desta opinião: prim eiro, que o Colum bia tivia ou Torcaz se m ostra, na Europa e na Índia, suscetível de um a dom esticidade fácil, e que há