A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 15 de 17 · parte 1/3

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A Origem das Espécies

Quando se considera a distribuição dos seres…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Quando se considera a distribuição dos seres organizados na superfície do Globo, o prim eiro fato considerável com que se é im pressionado é que nem as diferenças clim atéricas nem as outras condições físicas explicam suficientem ente as sem elhanças ou dessem elhanças dos habitantes das diversas regiões. Quase todos os naturalistas que recentem ente têm estudado este assunto chegaram à

m esm a conclusão. Bastaria exam inar a Am érica para dem onstrar a verdade; todos os sábios concordam , com efeito, em reconhecer que, à exceção da parte setentrional tem perada e da zona que cerca o pólo, a distinção da Terra em antigo e novo m undo constitui um a das divisões fundam entais da distribuição geográfica. Contudo, se percorrerm os o vasto continente am ericano, desde as partes centrais dos Estados Unidos até à sua extrem idade m eridional, encontram os as m ais diferentes condições: regiões úm idas, desertos áridos, m ontanhas elevadas, planícies cobertas de ervas, florestas, pântanos, lagos e grandes rios, e quase todas as tem peraturas. Não há por assim dizer, no velho m undo, um clim a ou um a condição que não tenha seu equivalente no novo m undo - pelo m enos nos lim ites do que pode ser necessário a um a m esm a espécie. Podem , sem dúvida, indicar-se no velho m undo algum as regiões m ais quentes que qualquer das do novo m undo, m as estas regiões não são povoadas por um a fauna diferente da das regiões vizinhas; é m uito raro, com efeito, encontrar um grupo de organism os confinado num estreito lugar que apenas apresenta ligeiras diferenças nas suas condições particulares. Apesar deste paralelism o geral entre as condições físicas respectivas do

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velho e do novo m undo, que im ensa diferença não há nas suas produções vivas!

Se com pararm os, no hem isfério austral, grandes extensões na Austrália, na África austral e no oeste da Am érica do Sul, entre os graus 251 e 351 de latitude, encontram os aí pontos m uito sem elhantes por todas as suas condições; não seria, contudo, possível encontrar três faunas e três floras j am ais dessem elhantes. Se, por outra parte, com pararm os as produções da Am érica Meridional, ao sul do grau 35

de latitude, com as produções ao norte do grau 25, produções que se encontram , por conseguinte, separadas por um espaço de dez graus de latitude, e subm etidas a condições m uito diferentes, são incom paravelm ente m ais vizinhas um as das outras do que das produções australianas ou africanas vivendo num clim a quase idêntico. Poderiam notar-se fatos análogos entre os habitantes do m ar. Um segundo fato im portante que nos fere, neste relance geral, é que todas as barreiras ou todos os obstáculos que se opõem a um a livre em igração estão estreitam ente em relação com as diferenças que existem entre as produções de diversas regiões. É o que nos dem onstra a grande diferença que se nota em quase todas as produções terrestres do velho e do novo m undo, excetuando as partes setentrionais onde quase se j untam os dois continentes, e onde, num clim a pouco diferente, pode ter havido em igração das form as habitando as partes tem peradas do norte, com o se observa atualm ente para as produções estritam ente árticas. O

m esm o fato é apreciável na diferença que apresentam , na m esm a latitude, os habitantes da Austrália, da África e da Am érica do Sul, países tão isolados uns dos outros quanto possível. O m esm o se dá em todos os continentes; porque encontram os m uitas vezes produções diferentes sobre os lados opostos de grandes cadeias de m ontanhas elevadas e contínuas, de vastos desertos e m uitas vezes m esm o de grandes rios. Contudo, com o as cadeias de m ontanhas, desertos, etc., não são tam bém infranqueáveis e não têm provavelm ente existido desde tanto tem po com o os oceanos que separam os continentes, as diferenças que tais barreiras produzem no conj unto do m undo organizado são bem m enos distintivas que as que caracterizam as produções de continentes separados. Se estudarm os os m ares, verificam os que a m esm a lei se aplica ainda. Os habitantes dos m ares da costa oriental e da costa ocidental da Am érica Meridional

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são m uito distintos, e há poucos peixes, m oluscos e crustáceos que sej am com uns a uns e outros; m as o Dr. Gunther dem onstrou recentem ente que, nas m argens opostas do istm o de Panam á, cerca de 30 a 100% dos peixes são com uns aos dois m ares; é isto um fato que levou alguns naturalistas a j ulgar que o istm o não existiu outrora. A oeste das costas da Am érica estende-se um oceano vasto e aberto, sem um a ilha que possa servir de refúgio ou repouso aos em igrantes; é

esta um a outra espécie de barreira, além da qual encontram os, nas ilhas orientais do Pacífico, um a outra fauna com pletam ente distinta, de m odo que tem os aqui três faunas m arinhas, estendendo-se de norte a sul, num espaço considerável e em linhas paralelas pouco afastadas entre si e em clim as correspondentes; m as, separadas que sej am por barreiras insuperáveis, isto é, por terras contínuas ou por m ares abertos e profundos, são quase totalm ente distintas. Se continuarm os sem pre a avançar para oeste, além das ilhas orientais da região tropical do Pacífico, não encontram os barreiras infranqueáveis, m as ilhas em grande núm ero podendo servir de lugares de interrupção ou costas contínuas, até que, depois de ter atravessado um hem isfério inteiro, chegam os às costas da África; ora, em toda esta vasta extensão, não encontram os fauna m arinha bem definida e bem distinta. Se bem que um pequeno núm ero de anim ais m arinhos são com uns às três faunas da Am érica Oriental, da Am érica Ocidental e ilhas orientais do Pacífico, de que acabo de indicar aproxim adam ente os lim ites, m uitos peixes se estendem , porém , desde o oceano Pacífico ao oceano Indico, e m uitas conchas são com uns às ilhas orientais do oceano Pacífico e às costas orientais da África, duas regiões situadas em m eridianos quase opostos.

Um terceiro grande fato principal, quase incluso, além disso, nos dois precedentes, é a afinidade que existe entre as produções de um m esm o continente ou de um m esm o m ar, posto que as próprias espécies sej am algum as vezes distintas em seus diversos pontos e nas suas estações diferentes. É isto um a lei geral, e de que cada continente oferece exem plos notáveis. Não obstante, o naturalista viaj ando do norte ao sul, por exem plo, não deixa j am ais de ser ferido pela m aneira com o grupos sucessivos de seres especificam ente distintos ainda que em estreita relação uns com os outros, se substituem m utuam ente. Vêem -se aves

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análogas: o seu canto é quase sem elhante; os ninhos são construídos quase de igual m odo; os ovos são quase da m esm a cor, e contudo são espécies diferentes. As planícies vizinhas do estreito de Magalhães são habitadas por um a espécie de avestruz (Rhea), e as planícies do Prata, situadas m ais ao norte, por um a espécie diferente do m esm o gênero; m as não se encontram aí nem o verdadeiro avestruz nem o casuar, que vivem nas m esm as latitudes na África e na Austrália. Nessas m esm as planícies do Prata encontra-se o aguti e a lebre brasílica, que têm quase os m esm os hábitos que as nossas lebres e os nossos coelhos, e que pertencem à

m esm a ordem dos roedores, m as que apresentam evidentem ente na sua estrutura um tipo com pletam ente am ericano. Nos cum es elevados das cordilheiras, encontram os um a espécie de lebre alpestre; nas águas nem encontram os o castor nem o rato alm iscareiro, m as o coandu e o capivara, roedores que têm o tipo sulam ericano. Poderíam os citar um a aluvião de exem plos análogos. Se exam inarm os as ilhas da costa am ericana, por diferentes que sej am do continente pela sua natureza geológica, os seus habitantes são essencialm ente am ericanos, se bem que possam todos pertencer a espécies particulares. Podem os subir aos períodos rem otos e, assim com o vim os no capítulo precedente, encontrarem os ainda que são os tipos am ericanos que dom inam nos m ares am ericanos e no continente am ericano. Estes fatos m ostram a existência de qualquer laço íntim o e profundo que prevalece no tem po e no espaço, nas m esm as extensões de terra e de m ar, independentem ente das condições físicas. Necessário seria que o naturalista fosse m uito indiferente para não tentar procurar que laço seria este. Este laço é m uito sim plesm ente a hereditariedade, esta causa que, só por si, tanto quanto nós o sabem os de um a m aneira positiva, tende a produzir organism os com pletam ente sem elhantes entre si, ou, com o se vê nos casos das variedades, quase sem elhantes. A dessem elhança dos habitantes de diversas regiões pode ser atribuída a m odificações devidas à variação e à seleção natural e provavelm ente tam bém , m as em grau m enor, à ação direta de condições físicas diferentes. Os graus de dessem elhança dependem de que as em igrações de form as organizadas dom inantes foram m ais ou m enos eficazm ente im pedidas em épocas m ais ou m enos afastadas; da natureza e do núm ero dos prim eiros im igrantes, e da

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ação que os habitantes puderam exercer uns sobre os outros, no ponto de vista da conservação de diferentes m odificações; sendo as relações que têm entre si os diversos organism os na luta pela existência, com o j á m uitas vezes indiquei, as m ais im portantes de todas. É assim que as barreiras, pondo obstáculo às m igrações, gozam um papel tão im portante com o o tem po, quando se trata de lentas m odificações pela seleção natural. As espécies m uito espalhadas, com preendendo num erosos indivíduos, que j á triunfaram de m uitos concorrentes nos seus vastos habitats, são tam bém as que têm m ais probabilidades de ocupar lugares novos, quando se espalham em novas regiões. Subm etidas na nova pátria a novas condições, devem freqüentem ente sofrer m odificações e aperfeiçoam entos ulteriores; daqui resulta que devem alcançar novas vitórias e produzir grupos de descendentes m odificados. Este princípio de hereditariedade com m odificações perm ite-nos com preender com o seções de gêneros, gêneros inteiros e m esm o fam ílias inteiras, se encontram lim itados nas m esm as regiões, caso tão freqüente e tão com um .

Assim com o fiz notar no capítulo precedente, poderia apenas provar-se que existe um a lei de desenvolvim ento indispensável. A variabilidade de cada espécie é um a propriedade independente de que a seleção natural se apossa tanto quanto é útil ao indivíduo na luta com plexa pela existência; a som a das m odificações nas espécies diferentes não deve, pois, de form a algum a ser uniform e. Se um certo núm ero de espécies, depois de ter estado longo tem po em concorrência um as com as outras no seu antigo habitat em igram para um a região nova que, m ais tarde, se encontraria isolada, ficariam pouco suj eitas a m odificações, porque nem a m igração nem o isolam ento podem nada por si só. Estas causas atuam som ente levando os organism os a ter novas relações entre si, e, num grau m enor, com as condições físicas am bientes. Da m esm a m aneira com o vim os, no capítulo anterior, que algum as form as conservaram quase os m esm os caracteres desde um a época geológica prodigiosam ente longínqua, igualm ente certas espécies são dissem inadas em espaços im ensos, sem se m odificarem m uito, ou m esm o sem terem experim entado qualquer alteração. Partindo destes princípios, é evidente que as diferentes espécies do m esm o

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gênero, se bem que habitando os m ais afastados pontos do Globo, devem ter a m esm a origem , pois que derivam de um m esm o ascendente. Com respeito às espécies que experim entaram poucas m odificações durante períodos geológicos inteiros, não há grande dificuldade em adm itir que em igraram da m esm a região; porque, durante as im ensas alterações geográficas e clim atéricas que sobrevieram desde os antigos tem pos, todas as em igrações, por consideráveis que tenham sido, foram possíveis. Mas, em m uitos outros casos em que tem os razões para pensar que as espécies de um gênero são produzidas em épocas relativam ente recentes, esta questão apresenta grandes dificuldades. É evidente que os indivíduos pertencendo à m esm a espécie, posto que habitando de ordinário regiões afastadas e separadas, devem provir de um só ponto, onde tenham existido os pais; porque, assim com o tem os j á explicado, seria inadm issível que indivíduos absolutam ente idênticos pudessem ter sido produzidos por pais especificam ente distintos.

CENTROS ÚNICOS DE CRIAÇÃO

Eis-nos assim levados a exam inar um a questão que tem levantado tantas discussões entre os naturalistas. Trata-se de saber se as espécies foram criadas em um ou m uitos pontos da superfície terrestre. Há sem dúvida casos em que é

extrem am ente difícil com preender com o a m esm a espécie pôde transm itir-se de um ponto único até às diversas regiões afastadas e isoladas onde hoj e as encontram os. Não obstante, parece tão natural que cada espécie fosse produzida no princípio num a região única, que esta hipótese cativa facilm ente o espírito. Quem a rej eita, repele a verdadeira causa da geração ordinária com em igrações subseqüentes e invoca a intervenção de um m ilagre. É universalm ente adm itido que, na m aior parte dos casos, a região habitada por um a espécie é contínua; e que, quando um a planta ou um anim al habita dois pontos tão afastados ou separados por obstáculos de natureza tal, que a em igração se torna m uito difícil, considerase o fato com o excepcional e extraordinário. A im possibilidade de em igrar através de um vasto m ar é m ais evidente para os m am íferos terrestres do que para todos

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os outros seres organizados; tam bém não encontram os exem plo inexplicável da existência de um m esm o m am ífero habitando pontos afastados do Globo. O geólogo não se em baraça por ver que a Inglaterra possui os m esm os quadrúpedes que o resto da Europa, porque é evidente que as duas regiões foram outrora unidas. Mas, se as m esm as espécies podem ser Produzidas em dois pontos separados, porque não encontram os um só m am ífero com um à Europa e à Austrália ou à

Am érica do Sul? As condições de existência são tão com pletam ente as m esm as, que um grande núm ero de plantas e de anim ais euroPeus se adaptam à Austrália e à Am érica, e algum as plantas indígenas são absolutam ente idênticas nestes pontos tão afastados do hem isfério boreal e do hem isfério austral. Sei que m e pode responder que os m am íferos não têm podido em igrar, enquanto que certas plantas, graças à diversidade dos seus m eios de dissem inação, puderam ser transportadas passo a passo através de espaços im ensos. A influência considerável das variadas barreiras é apenas com preensível tanto quanto a grande m aioria das espécies foi produzida de um lado, e não pôde passar ao lado oposto. Algum as fam ílias, m uitas subfam ílias, um grande núm ero de gêneros, estão lim itados num a região única, e m uitos naturalistas observaram que os gêneros m ais naturais, isto é, aqueles de que as espécies se aproxim am m ais entre si, são geralm ente próprios a um a só região assaz restrita, ou, se têm um a vasta extensão, esta extensão é contínua. Não seria um a estranha anom alia que, descendo um grau abaixo na série, isto é, até aos indivíduos da m esm a espécie, prevalecesse um a regra com pletam ente oposta, e que estes não tivessem , pelo m enos na origem , sido lim itados em qualquer região única?

Parece-m e, pois, m uito m ais provável, com o de resto a m uitos outros naturalistas, que a espécie se produziu num só país, de onde em seguida se espalhou tão longe quanto lhe perm itiram os m eios de em igração e de subsistência, tanto nas condições da vida passada com o nas condições da vida atual. Apresentam se, sem dúvida, m uitos casos em que é im possível explicar a passagem de um a m esm a espécie de um ponto a outro, m as as alterações geográficas e clim atéricas que se realizaram certam ente desde as épocas geológicas recentes, devem ter rom pido a continuidade da distribuição prim itiva de m uitas espécies. Estam os,

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pois, reduzidos a apreciar se as exceções na continuidade de distribuição são bastante num erosas e bastante graves para nos fazer renunciar à hipótese, apoiada por tantas considerações gerais, de cada espécie ser produzida num ponto, e partindo daí se espalhou para tão longe quanto é possível. Seria fastidioso discutir todos os casos excepcionais em que a m esm a espécie vive atualm ente em pontos isolados e afastados, e adem ais não teria eu a pretensão de encontrar um a explicação com pleta. Todavia, após algum as considerações prelim inares, discutirei alguns dos exem plos m ais nítidos, tais com o a existência da m esm a espécie nos cum es de m ontanhas m uito afastadas e sobre pontos m uito distantes das regiões árticas e antárticas; em segundo lugar (no capítulo seguinte), a notável extensão das form as aquáticas de água doce; e, em terceiro lugar, a existência das m esm as espécies terrestres nas ilhas e nos continentes m ais vizinhos, se bem que por vezes separados por m uitas centenas de m ilhas de m ar. Se a existência da m esm a espécie em pontos distantes e isolados da superfície do Globo pode, num grande núm ero de casos, explicar-se pela hipótese de cada espécie ter em igrado do seu centro de produção, então, considerando a nossa ignorância no que é concernente, tanto às alterações clim atéricas e geográficas que se realizaram outrora, com o aos m eios acidentais de transporte que puderam concorrer para esta dissem inação, creio eu que a hipótese de um berço único é incontestavelm ente a m ais natural. A discussão deste assunto perm itir-nos-á ao m esm o tem po estudar um ponto igualm ente m uito im portante para nós, isto é, se as diversas espécies do m esm o gênero que, segundo a m inha teoria, devem todas derivar de um a origem com um , podem ter em igrado do país por estar habitado m odificando-se durante a sua em igração. Se se pode dem onstrar que, quando a m aior parte das espécies habitando um a região são diferentes das de outra região, estando, contudo, m uito vizinhas, houve outrora em igrações prováveis de um a destas regiões para outra, estes fatos confirm arão a m inha teoria, porque se podem explicar facilm ente pela hipótese da descendência com m odificações. Um a ilha vulcânica, por exem plo, form ada por levantam ento a algum as centenas de m ilhas de um continente, receberá provavelm ente, em curto prazo, um pequeno núm ero de colonos, de que os

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descendentes, ainda que m odificados, estarão, contudo, em íntim a relação de hereditariedade com os habitantes do continente. Sem elhantes casos são com uns, e, assim com o verem os m ais tarde, são com pletam ente inexplicáveis na hipótese das criações independentes. Esta opinião sobre as relações que existem entre as espécies de duas regiões aproxim a-se m uito da em itida por M. Wallace, que concluiu que « cada espécie, na sua origem , coincide pelo tem po e pelo lugar com outra espécie preexistente e de perto aliada» . Sabe-se atualm ente que M. Wallace atribui esta coincidência à descendência com m odificações. A questão da unidade ou pluralidade dos centros de criação difere de um a outra questão que, contudo, se aproxim a m uito: todos os indivíduos de um a espécie derivam de um só par, ou de um só herm afrodita, ou, com o adm item alguns autores, de m uitos indivíduos sim ultaneam ente criados? A respeito dos seres organizados que j am ais se cruzam , adm itindo que os haj a, cada espécie deve descender de um a sucessão de variedades m odificadas, que são m utuam ente suplantadas, m as sem j am ais se m isturarem com outros indivíduos ou outras variedades da m esm a espécie; de m aneira que a cada fase sucessiva da m odificação todos os indivíduos da m esm a variedade derivam de um só Par. Mas, na m aioria dos casos, para todos os organism os que se em parelham habitualm ente para cada fecundação, ou que se cruzam por vezes, os indivíduos de um a m esm a espécie, habitando a m esm a região, m antêm -se quase uniform es em seguida aos seus cruzam entos constantes, de m odo que um grande núm ero de indivíduos m odificando-se sim ultaneam ente, caracterizando o conj unto das m odificações um a fase dada, não será devido à descendência de um a origem única. Para bem fazer com preender o que eu penso: os nossos cavalos de corrida diferem de todas as outras raças, m as não devem a sua diferença e superioridade à descendência de um só par, m as aos cuidados incessantes produzidos pela seleção e ao treinam ento de um grande núm ero de indivíduos durante cada geração. Antes de discutir as três classes de fatos que escolhi com o apresentando as m aiores dificuldades que se podem levantar contra a teoria dos « centros únicos de criação» , devo dizer algum as palavras sobre os m eios de dispersão.

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MEIOS DE DISPERSÃO

Sir C. Ly ell e outros autores trataram adm iravelm ente esta questão; lim itarm e-ei, pois, a reunir aqui os fatos m ais im portantes. As alterações clim atéricas devem ter exercido poderosa influência sobre as em igrações; um a região, infranqueável hoj e, pode ter sido um grande cam inho de em igração, quando o seu clim a era diferente do que é hoj e. Terei, pois, dem ais a m ais, de discutir este lado da questão com todas as suas m inúcias. As m udanças do nível do solo deviam tam bém representar um papel im portante; um istm o estreito separa hoj e duas faunas m arinhas; quando se subm ergir ou tenha j á sido subm erso, as duas faunas m isturar-se-ão, ou terão sido j á m isturadas. Onde hoj e existe m ar, terras teriam podido outrora ligar ilhas ou os continentes, e perm itir às produções terrestres passar de um as para outras. Nenhum geólogo contesta as grandes alterações de nível que se têm produzido durante o período atual, alterações de que os organism os vivos têm sido contem porâneos. Eduardo Forbes insistiu no fato de todas as ilhas do Atlântico deverem ter sido, em época recente, ligadas à Europa ou à África, da m esm a form a com o a Europa estava ligada à Am érica. Outros sábios têm igualm ente lançado pontes hipotéticas sobre todos os oceanos, e ligado quase todas as ilhas a um continente. Se pudesse prestar-se inteira confiança nos argum entos de Forbes, necessário seria adm itir que todas as ilhas foram recentem ente ligadas a um continente. Esta hipótese corta o nó górdio da dispersão de um a m esm a espécie para os pontos m ais distantes, e rem ove m uitas dificuldades; m as, tanto quanto o posso j ulgar, não creio que estej am os autorizados a adm itir que houvesse alterações geográficas tão extraordinárias nos lim ites do período das espécies existentes. Parece-m e que tem os num erosas provas de grandes oscilações do nível da terra e do m ar, m as não alterações bastante consideráveis na posição e na extensão dos nossos continentes para nos dar o direito de adm itir que, num a época recente, todos tenham sido ligados entre si assim com o às diversas ilhas oceânicas. Adm ito de boa vontade a existência anterior de m uitas ilhas, atualm ente subm ersas, que podiam ter servido de estâncias, de lugares de repouso, às plantas e aos anim ais durante as suas em igrações. Nos m ares em que se produz

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o coral, estas ilhas subm ergidas são ainda m arcadas hoj e pelos anéis de coral ou atóis que as encim am . Quando se adm itir com pletam ente, com o se fará um dia, que cada espécie saiu de um berço único, e que por fim acabem os por conhecer qualquer coisa de m ais preciso sobre os m eios de dispersão dos seres organizados, poderem os especular com m ais certeza sobre a antiga extensão das terras. Mas não penso em que j am ais se chegue a provar que, durante o período recente, a m aior parte dos nossos continentes, hoj e com pletam ente separados, tenham sido reunidos de um a m aneira contínua ou quase contínua uns aos outros, assim com o com as grandes ilhas oceânicas. Muitos fatos relativos à distribuição geográfica, tais com o, por exem plo, a grande diferença das faunas m arinhas sobre as costas opostas de quase todos os continentes; as estreitas relações que ligam os habitantes atuais às form as terciárias de m uitos continentes e m esm o de m uitos oceanos; o grau de afinidade que se observa entre os m am íferos que habitam as ilhas e os do continente m ais próxim o, afinidade que é em parte determ inada, com o verem os m ais adiante, pela profundidade do m ar que os separa; todos estes fatos e alguns outros análogos m e parecem opor-se a que se adm ita que revoluções geográficas tão consideráveis com o o exigiriam as opiniões sustentadas por Forbes e seus partidários fossem produzidas num a época recente. As proporções relativas e a natureza dos habitantes das ilhas oceânicas m e parecem igualm ente opor-se à hipótese de que estas foram outrora ligadas com os continentes. A constituição quase universalm ente vulcânica destas ilhas não é favorável à idéia de elas representarem restos de continentes subm ersos; porque, se fossem prim itivam ente cadeias de m ontanhas continentais, algum as pelo m enos seriam , com o outras são, form adas de granito, de xistos m etam órficos de antigas rochas fossilíferas ou outras análogas, em lugar de serem em pastam entos de m atérias vulcânicas. Devo agora dizer algum as palavras sobre o que se tem cham ado m eios acidentais de dispersão, m eios que m elhor se cham ariam ocasionais; falarei aqui apenas das plantas. Diz-se, nas obras de botânica, que determ inada planta se presta m al a um a grande dissem inação; m as pode dizer@se que se ignora quase absolutam ente se tal ou tal planta pode atravessar o m ar com m ais ou m enos facilidade. Não se sabia m esm o, antes de algum as experiências que em preendi sobre

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este ponto com o concurso de M. Berkeley, durante quanto tem po as sem entes podem resistir à ação nociva da água do m ar. Verifiquei, com grande surpresa m inha, que, de oitenta e sete espécies, sessenta e quatro germ inaram após um a im ersão de vinte e oito dias, e algum as resistiram m esm o depois de um a im ersão de cento e trinta e sete dias. É bom notar que certas ordens se m ostram m uito m enos aptas que outras a resistir a esta prova; nove legum inosas, com exceção de um a só, resistiram m al à ação da água salgada; sete espécies pertencendo às duas ordens associadas, hidrofiláceas e polem oniáceas, foram todas destruídas por um m ês de im ersão. Para m ais com odidade, experim entei principalm ente com os pequenos grãos despoj ados do fruto, ou da cápsula; ora, com o todas foram ao fundo ao fim de poucos dias, não teriam podido atravessar grandes braços de m ar quer fossem ou não danificadas pela água salgada. Experim entei em seguida com alguns frutos e algum as cápsulas, etc., de m aiores dim ensões; alguns flutuaram por m uito tem po. Sabe-se que a m adeira verde flutua m uito m enos tem po que a m adeira seca.

Pensei que as inundações devem m uitas vezes arrastar para o m ar plantas ou ram os secos carregados de cápsulas e de frutos. Esta idéia conduziu-m e a fazer secar hastes e ram os de noventa e quatro plantas tendo frutos m aduros, e colocá-los em seguida em água do m ar. A m aior parte foi prontam ente ao fundo, m as algum as que, verdes, só flutuavam pouco tem po, resistiram bastante depois de secas; assim , as avelãs verdes m ergulharam rapidam ente; secas, porém , flutuaram durante noventa dias, e germ inaram depois de ter sido postas em terra; um a planta de espargo tendo bagas m aduras flutua vinte e três dias; depois de seca, flutua oitenta e cinco dias, e as sem entes germ inam em seguida. As sem entes m aduras do Helosciadium , que iam ao fundo no fim de dois dias, flutuaram durante m ais de noventa dias depois de secas, e germ inaram em seguida. Ao todo, de noventa e quatro plantas secas, dezoito flutuaram durante m ais de vinte e oito dias, e algum as passaram este term o. Disto resulta que 64/87 das sem entes que subm eti à experiência germ inaram após um a im ersão de vinte e oito dias, e que 18/94 das plantas com frutos m aduros (nem todas pertenciam às m esm as espécies da experiência precedente) flutuaram , após dessecação, m ais de vinte e oito

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dias. Podem os, pois, concluir, tanto pelo m enos quanto é perm itido tirar um a conclusão de um tão pequeno núm ero de fatos, que as sem entes de 14/100 das plantas de um país qualquer podem ser arrastadas durante vinte e oito dias pelas correntes m arítim as sem perder a faculdade de germ inar. Segundo o Atlas físico de Johnston, a velocidade m édia das diversas correntes do Atlântico é de 53 km aproxim adam ente por dia; algum as atingem m esm o a velocidade de 96,5 km por dia; por esta m édia, os 14/100 das sem entes das plantas de um país poderiam , pois, ser transportadas através de um braço de m ar com a largura de 1487 km até um outro país, e germ inar, se, depois de ter alcançado a m argem , o vento as levasse para um lugar favorável ao seu desenvolvim ento. M. Martens em preendeu subseqüentem ente experiências sem elhantes às m inhas, m as em m elhores condições; colocou, com efeito, as sem entes num a caixa m ergulhada no próprio m ar, de m odo que se encontraram alternadam ente subm etidas à ação do ar e da água, com o plantas realm ente flutuantes. Experim entou com noventa e oito sem entes na m aior parte diferentes das m inhas; m as escolheu grandes frutos e sem entes de plantas vivendo nas costas, circunstância de natureza a aum entar o com prim ento m édio da sua flutuação e resistência à

ação nociva da água salgada. Por outra parte, não secou previam ente as plantas que sustentavam o fruto; fato que, com o tem os visto, teria perm itido a algum as flutuar ainda m ais tem po. O resultado obtido foi que 18/98 destas sem entes flutuaram durante quarenta e dois dias e germ inaram em seguida. Creio, contudo, que plantas expostas às vagas não devem flutuar tanto tem po com o as que, com o nestas experiências, estão ao abrigo de um a violenta agitação. Seria, pois, m ais seguro adm itir que as sem entes de cerca de 10/100 das plantas de um a flora podem , depois da dessecação, flutuar através de um braço de m ar da largura de 1450 km pouco m ais ou m enos, e germ inar em seguida.

O fato dos frutos m aiores serem aptos a flutuar m ais tem po que os pequenos é interessante, porque não há outro m eio de dispersão para as plantas de grandes frutos e de grandes sem entes; dem ais, assim com o o dem onstrou Afonso de Candolle, estas plantas têm geralm ente um a extensão lim itada.

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As sem entes podem ser ocasionalm ente transportadas de um a outra m aneira. As correntes lançam m adeira sobre as costas da m aior parte das ilhas, m esm o naquelas que se encontram em m eio dos m ais vastos m ares; os naturais das ilhas de coral do Pacífico não podem obter as pedras com que confeccionam as ferram entas senão tom ando as que se encontram presas nas raízes das árvores flutuantes; estas pedras pertencem ao rei, que daí tira grandes proventos. Observei que, quando pedras de form a irregular são apanhadas nas raízes das árvores, pequenas parcelas de terra enchem m uitas vezes os interstícios que podem encontrar-se entre elas e a m adeira, e são m uito bem protegidas para que a água não possa tirá-las durante a m ais longa travessia. Vi germ inar três dicotiledôneas contidas num a parcela de terra assim apertada nas raízes de um carvalho que tinha cerca de cinqüenta anos; posso garantir a exatidão desta observação. Poderia tam bém dem onstrar que os cadáveres de aves, flutuando no m ar, nem sem pre são im ediatam ente devorados; ora, um grande núm ero de sem entes podem conservar por m uito tem po a sua vitalidade no papo das aves que flutuam ; assim , as ervilhas e as ervilhacas são m ortas por alguns dias de im ersão em água salgada, m as, com grande surpresa m inha, algum as destas sem entes, tom adas do papo de um pom bo que tinha flutuado em água salgada durante trinta dias, germ inaram quase todas.

As aves vivas não podem deixar de ser agentes m uito eficazes para o transporte de sem entes. Poderia citar um grande núm ero de fatos que provam que as aves de diversas espécies são freqüentem ente arrastadas pelas tem pestades a im ensas distâncias no m ar. Podem os com toda a segurança adm itir que, nestas circunstâncias, devem atingir um a velocidade de vôo cerca de 56 km por hora; e alguns autores avaliam -na em m uito m ais ainda. Não creio que as sem entes alim entares possam atravessar intactas o intestino da ave, m as os caroços dos frutos passam sem alteração, através dos órgãos digestivos do próprio peru. Recolhi em dois m eses, no m eu j ardim , doze espécies de sem entes tom adas no excrem ento de pequenas aves; estas sem entes pareciam intactas, e algum as germ inaram . Mas eis um fato m ais im portante. O papo das aves não segrega suco gástrico e não exerce ação algum a nociva sobre a germ inação das sem entes, assim

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com o o verifiquei com num erosos ensaios. Ora, quando um a ave encontrou e absorveu grande quantidade de alim ento, está reconhecido que são necessárias de doze a dezoito horas para que todos os grãos tenham passado na m oela. Um a ave pode, neste intervalo, ser conduzida por um a tem pestade a um a distância de 800 km , e com o as aves de rapina procuram aves fatigadas, o conteúdo do papo dilacerado pode ser assim disperso. Certos falcões e certos m ochos engolem a presa inteira, e, após um intervalo de doze a vinte horas, vom itam pequenos novelos nos quais, com o resulta das experiências feitas por Zoological Gardens, há

sem entes aptas a germ inar. Algum as sem entes de aveia, de trigo, de m ilho m iúdo, de linho, de cânham o, de trevo e de beterraba germ inaram depois de um a dem ora de doze a vinte e quatro horas no estôm ago de diversas aves de rapina; duas sem entes de beterraba germ inaram tendo um a dem ora de sessenta e duas horas em iguais condições. Os peixes de água doce engolem sem entes de m uitas plantas terrestres e aquáticas; ora, as aves que devoram m uitas vezes os peixes, tornam -se assim os agentes do transporte de sem entes. Introduzi um a quantidade de sem entes no estôm ago de peixes m ortos que fazia em seguida devorar por águias pescadoras, por cegonhas e por pelicanos; após um intervalo de m uitas horas, estas aves vom itavam os grãos em novelos, ou os lançavam nos excrem entos, e m uitos germ inaram perfeitam ente; há todavia sem entes que não resistem a este tratam ento.

Os gafanhotos são por vezes transportados a grandes distâncias das costas; eu m esm o capturei um a 595 km da costa de África, e têm -se recolhido a distâncias m uito m aiores.

O reverendo R. T. Lowe inform ou sir C. Ly ell que em Novem bro de 1844

nuvens de gafanhotos invadiram a ilha da Madeira. Eram em quantidades inúm eras, tão cerradas com o os flocos nas grandes nevadas, e estendiam -se no ar a tão grande distância que se podiam ver com o telescópio. Durante dois ou três dias descreveram lentam ente nos ares um a im ensa elipse tendo 5 a 6 km de diâm etro, e à tarde desceram sobre as árvores m ais elevadas que ficaram logo cobertas. Desapareceram em seguida tão subitam ente com o tinham vindo e não m ais reapareceram na ilha. Os lavradores de certas partes do Natal j ulgam , sem provas

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bem seguras contudo, que as sem entes nocivas são introduzidas nos seus prados pelos excrem entos que aí deixam as im ensas nuvens de gafanhotos que m uitas vezes invadem o país. M. Weale enviou-m e, para experim entar este fato, um pacote de excrem ento seco proveniente destes insetos, e encontrei, com o auxílio do m icroscópio, m uitas sem entes que m e deram sete gram íneas pertencendo a duas espécies e a dois gêneros. Um a invasão de gafanhotos, com o a que houve na Madeira, poderia, pois, facilm ente introduzir m uitas plantas variadas num a ilha situada m uito longe do continente.

Posto que o bico e as patas das aves sej am geralm ente próprias, aderelhes por vezes um pouco de terra; obtive, num a ocasião, cerca de 4 gram as, e noutra 1,4 gram as de terra argilosa na pata de um a perdiz; nesta terra, encontrava-se um a pedra do tam anho de um a sem ente de cânham o. Eis aqui um exem plo m arcante: um am igo enviou-m e a pata de um a galinhola da qual salientei um fragm ento de terra seca pesando 58 centigram as som ente, m as que continha um a sem ente de Juncus bufonius, que germ inou e floriu. M. Swoy sland, de Brighton, que, há quarenta anos, estuda com m uito cuidado as nossas aves de arribação, inform a-m e que tendo m uitas vezes apanhado arvéloas (Motacillac), taram bolas e papa-figos (Saxicolac), à sua chegada, antes m esm o que tenham pousado nas nossas costas, tem notado bastantes vezes que trazem nas patas pequenas parcelas de terra seca. Poderiam citar-se m uitos fatos que m ostram com o o solo é

por toda a parte carregado de sem entes. O professor Newton, por exem plo, enviou-m e um a pata de perdiz (Caceabis rufa) tornada, devido a um a ferida, incapaz de voar, e à qual aderiu um a bola de terra endurecida que pesava aproxim adam ente 200 gram as. Esta terra, que foi guardada três anos, foi em seguida esm agada, regada e colocada num copo de vidro; não continha m enos de oitenta e duas plantas, consistindo em doze m onocotiledôneas, com preendendo a aveia com um , e pelo m enos um a espécie de erva; e setenta dicotiledôneas, que a j ulgar pelas folhas novas, pertenciam a três espécies distintas pelo m enos. Tais fatos autorizam -nos a concluir que as num erosas aves que são anualm ente arrastadas pelas tem pestades a distâncias consideráveis no m ar, assim com o as que em igram cada ano, os m ilhões de codornizes que atravessam o Me- 429

diterrâneo, por exem plo, devem ocasionalm ente transportar algum as sem entes escondidas na lam a que lhes adere ao bico e às patas. Mas breve voltarei a este assunto.

Sabe-se que os gelos flutuantes são m uitas vezes carregados de pedras e de terra, e que m esm o se têm encontrado toj os, ossos e o ninho de um a ave terrestre; não seria lícito duvidar-se pois, que não possam algum as vezes, assim com o o sugere Ly el , transportar sem entes de um ponto para outro das regiões árticas e antárticas. Durante o período glaciário, este m eio de dissem inação pode estender-se aos nossos países atualm ente tem perados. Nos Açores, o núm ero considerável das plantas européias, em com paração das que crescem nas outras ilhas do Atlântico m ais próxim as do continente, e os seus caracteres algum tanto setentrionais para a latitude em que vivem , com o o frisou M. H. C. Watson, levam m e a crer que estas ilhas deviam ter sido povoadas em parte por sem entes conduzidas pelos gelos durante a época glaciária. A m eu pedido, sir C. Ly ell escreveu a M. Hartung a perguntar-lhe se tinha observado blocos erráticos nestas ilhas, e este respondeu que vira com efeito grandes fragm entos de granito e de outras rochas que se não encontravam no arquipélago. Podem os, pois, concluir que os gelos flutuantes depositaram outrora as suas cargas de pedra sobre as costas destas ilhas oceânicas, e que, por conseqüência, é m uito possível que tivessem conduzido tam bém sem entes de plantas setentrionais.

Se se pensa que estes diversos m odos de transporte, assim com o outros que, sem dúvida algum a, estão ainda por descobrir, têm atuado constantem ente desde m ilhares e m ilhares de anos, seria verdadeiram ente m aravilhoso que um grande núm ero de plantas não fossem transportadas a grandes distâncias. Qualificam -se estes m eios de transporte com o term o pouco correto de acidentais; com efeito, as correntes m arítim as, assim com o a direção dos ventos dom inantes, não são acidentais. É necessário observar que há poucos m odos de transporte aptos a levar grãos a distâncias m uito consideráveis, porque as sem entes não conservam a sua vitalidade quando são subm etidas durante um tem po m uito prolongado à

ação da água salgada, e não podem ficar m uito tem po no papo ou no intestino das aves. Estes m eios podem , todavia, bastar para os transportes ocasionais através

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de um braço de m ar de algum as centenas de km , ou de ilha para ilha, ou de um continente para um a ilha vizinha, m as não de um continente para outro m uito afastado. A sua intervenção não deve, pois, trazer a m istura de floras de continentes m uito distantes, e estas floras devem ter ficado distintas com o o são hoj e, com efeito. As correntes, em virtude da sua direção, não transportarão j am ais sem entes da Am érica do Norte para a Inglaterra, se bem que as possam conduzir e conduzem , em verdade, das Antilhas até às nossas costas de oeste, onde, se não estavam j á danificadas pela sua longa perm anência na água salgada, não poderiam , além disso, suportar o nosso clim a. Todos os anos, um a ou duas aves terrestres são lançadas pelo vento, através de todo o Atlântico, desde a Am érica do Norte até às nossas costas ocidentais da Irlanda e da Inglaterra; m as estes raros viaj antes só poderiam transportar sem entes que encerrasse a lam a aderente às patas e ao bico, circunstância que pode ser unicam ente m uito acidental. Mesm o no caso em que ela se apresentasse, a probabilidade de que esta sem ente caísse em solo favorável, e chegasse à m aturação, seria m uito fraca. Seria não obstante um erro grave concluir que um a ilha m uito povoada, com o a Grã-Bretanha, não tenha, tanto com o se sabe, e o que é além disso bastante difícil de provar, recebido durante os últim os séculos, por um ou outros destes m odos ocasionais de transporte, im igrantes da Europa ou de outros continentes, com o um a ilha pobrem ente povoada, posto que m ais afastada da terra firm e, não pudesse receber, por m eios sem elhantes, colonos vindos de outras partes. É possível que, em cem espécies de anim ais ou de sem entes transportadas a um a ilha, m esm o pobre em habitantes, se encontrasse um a bem adaptada à nova pátria para aí se neutralizar; isto, porém , não seria, a m eu ver, um argum ento valioso contra o que se pode ter efetuado por m eios ocasionais de transporte no decorrer tão longo das épocas geológicas, durante o lento levantam ento de um a ilha e antes que fosse suficientem ente povoada. Num terreno ainda estéril, que nem inseto nem ave destruidora habita, um a sem ente, um a vez chegada, germ inaria e sobreviveria provavelm ente, com a condição todavia de o clim a lhe não ser absolutam ente contrário.

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DISPERSÃO DURANTE O PERÍODO G LACIÁRIO

A identidade de m uitas plantas e anim ais que vivem nos cum es das cadeias de m ontanhas, separadas por planícies de centenas de m ilhas, nas quais as espécies alpinas não poderiam existir, é um dos casos m ais m arcantes de espécies idênticas viverem em pontos m uito afastados, sem que se possa adm itir a possibilidade da sua m igração de um a outro destes pontos. É realm ente um fato notável ver tantas plantas da m esm a espécie viver nos nevados vértices dos Alpes e dos Pirineus, ao m esm o tem po que no extrem o norte da Europa; m as m ais extraordinário é ainda que as plantas das m ontanhas Brancas, nos Estados Unidos, sej am todas sem elhantes às do Lavrador e quase sem elhantes, com o nos ensina Asa Gray, às das m ontanhas m ais elevadas da Europa. Já, em 1747, a observação dos fatos deste gênero levou Gm elin a concluir que houve criação independente de um a m esm a espécie em m uitos pontos diferentes; e talvez seria necessário ficar nesta hipótese, se os estudos de Agassiz e de outros não tivessem cham ado cuidadosa atenção para o período glaciário, que, com o acabam os de ver, forneceu um a explicação m uito sim ples desta ordem de fatos. Tem os as provas m ais variadas, orgânicas e inorgânicas, de que, num período geológico recente, a Europa Central e a Am érica do Norte sofreram um clim a ártico. As ruínas de um a casa consum ida pelo fogo não frisam m ais claram ente a catástrofe que a destruiu do que as m ontanhas da Escócia e do País de Gales, com os seus flancos trabalhados, as suas superfícies polidas e os seus blocos erráticos, testem unham a presença das geleiras que ultim am ente ainda ocupavam os vales. O clim a da Europa tem m udado tão consideravelm ente que, no norte da Itália, os côm oros gigantescos deixados pelas antigas geleiras estão atualm ente cobertos de vinhas e m ilharais. Num a grande parte dos Estados Unidos, blocos erráticos e rochas estriadas revelam claram ente a existência passada de um período de frio. Vam os indicar, em poucas palavras, a influência que exerceu outrora a existência de um clim a glacial na distribuição dos habitantes da Europa, segundo a adm irável análise feita por E. Forbes. Para m elhor com preender as m odificações

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causadas por este clim a, supusem os a aparição de um novo período glaciário com eçando lentam ente, depois desaparecendo, com o se devia ter produzido outrora. À m edida que o frio aum enta, as zonas m ais m eridionais tornam -se m ais próprias para receber os habitantes do Norte; estes dirigem -se para aí e substituem as form as das regiões tem peradas que lá se encontravam prim eiram ente. Estas últim as, por seu turno e pela m esm a razão, descem cada vez m ais para o Sul, salvo se forem im pedidas por algum obstáculo, caso em que m orrem . Cobrindo-se as m ontanhas de neves e de gelo, as form as alpinas descem para as planícies, e, quando o frio tiver atingido o seu m áxim o, um a fauna e um a flora árticas ocuparão toda a Europa Central até aos Alpes e Pirineus, estendendo-se m esm o até Espanha. As partes atualm ente tem peradas dos Estados Unidos seriam igualm ente povoadas de plantas e anim ais árticos, que seriam quase idênticas às da Europa; porque os habitantes atuais da zona glacial que, por toda a parte, teriam em igrado para o sul, são notavelm ente uniform es em volta do pólo. Na volta do calor, as form as árticas retirar-se-ão para o norte, seguidas na retirada pelas produções das regiões m ais tem peradas. À m edida que a neve deixar o sopé das m ontanhas, as form as árticas apoderar-se-ão deste terreno livre, e subirão sem pre cada vez m ais pelos flancos à m edida que, aum entando o calor, a neve se funda a um a m aior altura, enquanto que as outras continuarão a subir para o norte. Por conseguinte, quando o calor voltar por com pleto, as m esm as espécies que tiverem vivido precedentem ente nas planícies da Europa e da Am érica do Norte encontrar-se-ão tanto nas regiões árticas do antigo e do novo m undo, com o nos vértices de m ontanhas m uito afastadas entre si.

Continuar: parte 2 de 3