A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 4 de 17

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A Origem das Espécies

4 A relação da viagem de M.…

4 A relação da viagem de M. Darwin foi recentem ente publicada em francês com o titulo de: « Viagem de um naturalista à volta da Terra» , 1 vol. in-8.º, Paris, Reinwald.

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A m em ória que faz o obj eto do presente volum e é necessariam ente im perfeita. Ser-m e-á im possível referir-m e a todas as autoridades a quem atribuo certos fatos, m as espero que o leitor confiará na m inha exatidão. Alguns erros poderão passar, sem dúvida, no m eu trabalho, posto que eu tenha tido o m áxim o cuidado em apoiar-m e som ente em trabalhos de prim eira ordem . Dem ais, eu deveria lim itar-m e a indicar as conclusões gerais a que cheguei, citando apenas alguns exem plos, que, j ulgo eu, bastariam na m aior parte dos casos. Ninguém , m elhor do que eu, com preende a necessidade de publicar m ais tarde m inuciosam ente todos os fatos que servem de base às m inhas conclusões; será este o obj eto de um a outra obra. Isto é tanto m ais necessário quanto, sobre quase todos os pontos, podem invocar-se fatos, que, à prim eira vista, parecem tender para conclusões absolutam ente contrárias àquelas que defendo. Ora, não se pode chegar a um resultado satisfatório a não ser pelo exam e dos dois lados da questão e pela discussão dos fatos e dos argum entos; é isto coisa im possível nesta obra. Lam ento m uito que a falta de espaço m e im peça de reconhecer o auxílio generoso que m e prestaram m uitos naturalistas, dos quais alguns m e são pessoalm ente desconhecidos. Não posso, contudo, deixar passar esta ocasião sem exprim ir o m eu profundo reconhecim ento ao Dr. Hooker, que, durante estes quinze últim os anos, pôs à m inha inteira disposição os seus tesouros de ciência e o seu excelente critério. Com preende-se facilm ente que o naturalista que se entrega ao estudo da origem das espécies e que observa as afinidades m útuas dos seres organizados, as suas relações em briológicas, a sua distribuição geográfica, a sua sucessão geológica e outros fatos análogos, chegue à conclusão de que as espécies não foram criadas independentem ente um as das outras, m as que, com o as variedades, derivam de outras espécies. Todavia, adm itindo m esm o que esta conclusão sej a bem estabelecida, seria pouco satisfatória até que se pudesse provar com o as inum eráveis espécies, habitando a Terra, foram m odificadas de m aneira a adquirir esta perfeição de form a e co-adaptação que excita por tão j usto título a nossa adm iração. Os naturalistas assinalam , com o únicas causas possíveis às variações, as condições exteriores, tais com o o clim a, a alim entação, etc. Pode isto ser verdade, num sentido m uito lim itado, com o nós verem os m ais tarde; m as

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seria absurdo atribuir a sim ples causas exteriores a conform ação do picanço5, por exem plo, de que as patas, a cauda, o bico e a língua estão adm iravelm ente adaptadas para ir agarrar os insetos debaixo da casca das árvores. Seria igualm ente absurdo explicar a conform ação do visco e as suas relações com m uitos seres organizados distintos pelos únicos efeitos das condições exteriores, do hábito, ou da vontade da própria planta, quando se pensa que este parasita tira a sua nutrição de certas árvores, que produzem grãos que certas aves devem transportar, e que dá flores unissexuadas, o que necessita a intervenção de certos insetos para conduzir o pólen de um a flor a outra.

É, pois, da m ais alta im portância elucidar quais são os m eios de m odificação e de co-adaptação. A princípio, pareceu-m e provável que o exam e atento dos anim ais dom ésticos e das plantas cultivadas devia oferecer o cam po m ais propício a estudos que explicassem este obscuro problem a. Não m e enganei; reconheci logo, com efeito, que os nossos conhecim entos, por m ais im perfeitos que sej am sobre as variações no estado dom éstico, nos fornecem sem pre a explicação m ais sim ples e m enos suj eita a erro. Sej a-m e pois perm itido j untar que, na m inha convicção, estes estudos têm a m áxim a im portância e que são ordinariam ente m uito desprezados pelos naturalistas.

Estas considerações levam -m e a consagrar o prim eiro capítulo desta obra ao estudo das variações no estado dom éstico. Aí verem os que m uitas das m odificações hereditárias são pelo m enos possíveis; e, o que é igualm ente im portante, ou m esm o m ais im portante ainda, verem os que influência o hom em exerce acum ulando, por seleção, ligeiras variações sucessivas. Estudarei em seguida a variabilidade das espécies no estado selvagem , m as ver-m e-ei naturalm ente forçado a tratar este assunto a largos traços; não se poderia, com efeito, tratá-lo com pletam ente a não ser citando longa série de fatos. Em todo o caso, discutirem os ainda assim quais são as circunstâncias m ais favoráveis à variação. No capítulo seguinte considerarem os a luta pela existência entre os seres organizados em todo o