A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 12 de 17 · parte 1/4

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A Origem das Espécies

Frederico Cuvier, e m uitos dos velhos…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Frederico Cuvier, e m uitos dos velhos m etafísicos, com pararam o instinto ao hábito, com paração que, a m eu ver, dá um a noção exata do estado m ental que preside à execução de um ato instintivo, m as que nada indica quanto à sua origem . Quantos atos habituais executam os de um a form a inconsciente, m esm o m uitas vezes contrariam ente à nossa vontade? A vontade ou a razão pode contudo m odificar estes atos. Os hábitos associam -se facilm ente com outros, assim com o com certas horas e certos estados do corpo; um a vez adquiridos, ficam m uitas vezes constantes durante a vida. Poderiam ainda indicar-se outras sem elhanças entre os hábitos e o instinto. Da m esm a form a que se recita de cor e sem pensar um poem a conhecido, igualm ente um a ação instintiva segue um a outra com o por um a espécie de ritm o; se se interrom pe qualquer pessoa que canta ou recita de cor, é necessário ordinariam ente voltar atrás para retom ar o fio habitual do pensam ento. Pierre Huber observou o m esm o fato num bicho-da-seda que construía um casulo m uito com plicado; quando um bicho-da-seda levou o seu casulo até ao sexto andar, e se coloca num casulo construído unicam ente até ao terceiro andar, acaba sim plesm ente o quarto, quinto e sexto andares da construção. Mas se se retira o bicho-da-seda de um casulo acabado até ao terceiro andar, por exem plo, e se o coloca num outro term inado até ao sexto, de m aneira que a m aior parte do seu trabalho estej a j á feito, em lugar de tirar partido disso, encontra-se em baraçado e, para o term inar, parece obrigado a partir do terceiro andar onde tinha parado, e esforça-se assim por com pletar um a obra j á feita. Se supuserm os que um ato habitual se torna hereditário - o que m uitas vezes acontece - a sem elhança do que era prim itivam ente um hábito com o que é

atualm ente um instinto é tal que se não poderia distingui-los um do outro. Se Mozart, em vez de tocar cravo na idade de três anos com m uito pouca prática, tivesse tocado um a ária sem tê-la praticado, poder-se-ia dizer que ele tocava realm ente por instinto. Mas seria um grave erro acreditar que a m aior parte dos instintos foram adquiridos por hábito num a geração, e transm itidos em seguida por hereditariedade nas gerações seguintes. Pode claram ente dem onstrar-se que Os instintos m ais m arcantes que Conhecem os, os das abelhas e os de m uitas form igas, por exem plo, não podem ter sido adquiridos pelo hábito. Todos adm itirão que os ins- 275

tintos são, no que se refere ao bem -estar de cada espécie nas suas condições atuais de existência, tão im portantes com o a conform ação física. Ora, é pelo m enos possível que, em m eios diferentes, ligeiras m odificações do instinto possam ser vantaj osas a um a espécie. Disto resulta que, se se pode dem onstrar que os instintos variam tão pouco quanto se queira, não há dificuldade algum a em adm itir que a seleção natural possa conservar e acum ular constantem ente as variações do instinto, tanto quanto elas são proveitosas aos indivíduos. Tal é, parece-m e, a origem dos instintos m ais m aravilhosos e m ais com plicados. Tem -se j ulgado serem os instintos com o m odificações físicas do corpo, que, determ inadas e aum entadas pelo hábito e pelo uso, podem dim inuir e desaparecer pela falta do uso. Quanto aos efeitos do hábito, atribuo-lhes, na m aior parte dos casos, um a im portância m enor que aos da seleção natural do que poderíam os cham ar as variações espontâneas do instinto - isto é, das variações produzidas por as m esm as causas desconhecidas que determ inam ligeiros desvios na conform ação física. A seleção natural não pode produzir qualquer instinto com plexo de outro m odo que não sej a pela acum ulação lenta e gradual de num erosas variações ligeiras e, contudo, vantaj osas. Deverem os, pois, com o para a conform ação física, encontrar na natureza, não graus transitórios por si m esm os que têm tendido ao instinto com plexo atual - graus que só poderiam encontrar-se nos predecessores diretos de cada espécie - m as alguns vestígios destes estados transitórios nas linhas colaterais de descendência; pelo m enos deveríam os poder dem onstrar a possibilidade de transições desta espécie; ora, é com efeito o que podem os fazer. É som ente, convém não esquecer, na Europa e na Am érica do Norte que os instintos dos anim ais foram um tanto observados; não tem os, dem ais, qualquer ensinam ento sobre os instintos das espécies extintas; fiquei pois m uito adm irado em ver que podem os tão freqüentem ente ainda descobrir transições entre os m ais sim ples instintos e os m ais com plicados. Os instintos podem encontrar-se m odificados pelo fato de um a m esm a espécie ter instintos diversos em diversos períodos da existência durante diferentes estações, ou segundo as condições em que se encontra colocada, etc; em tal caso, a seleção natural pode conservar um ou outro destes instintos. Encontram -se, com efeito, na natureza, exem plos de diver- 276

sidade de instintos na m esm a espécie.

Além disso, da m esm a form a que para a conform ação física, e segundo a m inha teoria, o instinto próprio a cada espécie é útil a essa espécie, e não tem sido dado j am ais, tanto com o poderíam os j ulgar, a um a espécie para a superioridade exclusiva de outras espécies. Entre os exem plos que conheço de um anim al que executa um ato com o fim único aparente de este ato aproveitar a outro anim al, um dos m ais singulares é o dos pulgões, que cedem voluntariam ente às form igas o líquido açucarado que segregam . Foi Huber que prim eiro observou esta particularidade, e os fatos seguintes provam que este abandono é m uito voluntário. Depois de ter tirado todas as form igas que cercavam um a dezena de pulgões colocados num a planta de Rum ex, im pedi durante algum as horas a aproxim ação de novas form igas. Ao fim deste tem po, convencido de que os pulgões tinham necessidade de excretar, exam inei-os à lupa, em seguida procurei com um cabelo acariciá-los e irritá-los com o fazem as form igas com as antenas, sem que qualquer deles excretasse fosse o que fosse. Deixei depois chegar um a form iga, que, na precipitação dos seus m ovim entos, parecia consciente em ter feito um precioso trabalho; com eçou logo a palpar sucessivam ente com as antenas o abdôm en dos diferentes pulgões; cada um destes, a este contato, levantava im ediatam ente o abdôm en e excretava um a gota lím pida de líquido açucarado que a form iga absorvia com avidez. Os pulgões m ais novos faziam o m esm o; o ato era, pois, instintivo, e não o resultado da experiência. Os pulgões, segundo as observações de Huber, não m anifestam certam ente qualquer antipatia pelas form igas, e, se estas faltassem , acabariam por em itir a secreção sem o seu concurso. Mas, o líquido sendo m uito viscoso, é provável que sej a vantaj oso para os pulgões o serem desem baraçados dele, e por isso o não segreguem para sim ples vantagem das form igas. Posto que não tenham os prova algum a que indique que o anim al executa qualquer ato para o bem particular de um outro anim al, cada um , contudo, esforça-se por aproveitar os instintos de outrem do m esm o m odo que cada um tenta aproveitar-se da m ais fraca conform ação física das outras espécies. Igualm ente ainda, não se podem considerar certos instintos com o absolutam ente Perfeitos; m as não nos ocuparem os aqui, por serem disPensáveis, de m aiores m inúcias sobre este

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Ponto e outros análogos.

Um certo grau de variação nos instintos no estado de natureza, e a sua transm issão Por hereditariedade, são indispensáveis à ação da seleção natural; deveria apresentar, pois, o m aior núm ero de exem plos, m as o espaço falta-m e. Devo contentar-m e em afirm ar que os instintos variam com certeza; assim , o instinto em igrador varia quanto à direção e quanto

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à intensidade e pode m esm o perder-se totalm ente. Os ninhos das aves variam com o lugar em que são construídos e com a natureza e tem peratura do país habitado, m as as m ais das vezes variam devido a causas que nos são com pletam ente desconhecidas. Audubon indicou alguns casos m uito notáveis de diferenças entre os ninhos da m esm a espécie habitando o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Se o instinto é variável, porque não em prega a abelha qualquer outro m aterial de construção quando lhe falta a cera? E que substância poderia ela em pregar? Estou convencido que as abelhas poderiam m oldar e utilizar a cera endurecida com verm elhão ou am olecida com gorduras. Andrew Knight observou que as suas abelhas, em vez de recolherem penosam ente própoles, utilizavam um a m assa de cera e terebintina de que tinha coberto as árvores descortiçadas. Provou-se recentem ente que as abelhas, em lugar de procurarem o pólen nas flores, se servem voluntariam ente de um a substância m uito diferente, a cevadinha. O tem or de um inim igo particular é certam ente um a faculdade instintiva, com o se pode observar nas avezinhas ainda no ninho, posto que a experiência e a vista do m esm o receio nos outros anim ais tendam a aum entar este instinto. Tenho dem onstrado, além disso, que os diversos anim ais habitando as ilhas desertas som ente adquirem pouco a pouco o tem or pelo hom em ; podem os observar este fato na própria Inglaterra, onde todas as grandes aves são m uito m ais selvagens que as pequenas, porque as prim eiras foram sem pre m uito m ais perseguidas. É esta, certam ente, a verdadeira explicação de tal fato; pois que, nas ilhas desabitadas, as grandes aves não são m ais tim oratas que as pequenas; e a pega, que é tão desconfiada em Inglaterra, não o é na Noruega, nem o é m ais do que a gralha m antelada no Egito. Poderiam citar-se num erosos fatos com provando que as faculdades m entais dos anim ais da m esm a espécie variam m uito no estado de natureza. Têm -se igualm ente exem plos de hábitos estranhos que se apresentam ocasionalm ente nos anim ais selvagens, e que, se fossem vantaj osos para a espécie, poderiam , devido à seleção natural, dar origem a novos instintos. Sinto que estas afirm ações gerais, não apoiadas pelas descrições dos próprios fatos, façam pouca im pressão no es- 279

pírito do leitor; devo contentar-m e, no entanto, em repetir que de tudo quanto digo possuo provas absolutas.

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AS MUDANÇAS DE HÁBITOS OU DE INSTINTO TRANSMITEM-SE POR

HEREDITARIEDADE NOS ANIMAIS DOMÉSTICOS

O exam e rápido de alguns casos observados nos anim ais dom ésticos perm itirnos-á estabelecer a possibilidade ou m esm o a probabilidade de transm issão por hereditariedade das variações do instinto no estado de natureza. Poderem os apreciar, ao m esm o tem po, o papel que o hábito e a seleção das variações cham adas espontâneas têm gozado nas m odificações que sofreram as aptidões m entais dos nossos anim ais dom ésticos. Sabe-se o quanto variam a este respeito. Certos gatos, por exem plo, atacam naturalm ente as ratazanas, outros lançam -se sobre os ratos, e estes caracteres são hereditários. Um gato, segundo M. Saint-John, espreitava sem pre a capoeira, outro a repartição das lebres e dos coelhos; um terceiro caçava nos terrenos pantanosos e apanhava quase todas as noites algum a narcej a. Poderia citar-se um grande núm ero de casos curiosos e autênticos indicando diversas m odalidades de caráter e de gosto, assim com o hábitos exóticos, em relação com certas disposições de tem po ou de lugar, e tornados hereditários. Mas exam inem os as diferentes raças de cães. Sabe-se que os cachorros perdigueiros fazem a espera auxiliando os outros cães, logo pela prim eira vez que se levam à caça; eu m esm o tenho observado um exem plo bem m arcante. A faculdade de trazer a caça à m ão é tam bém hereditária em certo grau, assim com o a tendência no cão de pastor para correr em torno do rebanho e não ao encontro dos carneiros. Não vej o em que estes atos, que os cachorros sem experiência executam todos da m esm a form a, evidentem ente com m uito prazer e sem com preender o fim -porque o cachorro de presa sabe tanto quando prende que aj uda o dono com o a borboleta branca sabe a razão por que põe os ovos num a folha de couve - não vej o, digo eu, em que estes atos difiram essencialm ente dos verdadeiros ins- 280

tintos. Se virm os um pequeno lobo, não adestrado, parar e ficar im óvel com o um a estátua, desde que descobre a sua presa, depois avançar lentam ente com passo m uito particular; se virm os um a outra espécie de lobo andar correndo em torno de um rebanho de gam os, de m odo a conduzi-los para um ponto determ inado, considerarem os, sem dúvida algum a, estes atos com o instintivos. Os instintos dom ésticos, com o pode cham ar-se-lhes, são certam ente m enos estáveis que os instintos naturais; têm , com efeito, sofrido a influência de um a seleção bem m enos rigorosa, têm sido transm itidos durante um período bem m ais curto, e em condições am bientes bem m enos fixas.

Os cruzam entos entre diversas raças de cães provam até que ponto os instintos, os hábitos e o caráter adquiridos na dom esticidade são hereditários e que singular m istura daí resulta. Assim , sabe-se que o cruzam ento com um buldogue tem influído, durante m uitas gerações, na coragem e tenacidade do galgo; o cruzam ento com um galgo com unica a um a fam ília inteira de cães de pastor a tendência a caçar a lebre. Os instintos dom ésticos subm etidos assim à prova do cruzam ento assem elham -se aos instintos naturais, que se confundem tam bém de um a m aneira curiosa, e persistem durante m uito tem po na linha de descendência; Le Roy, por exem plo, fala de um cão que tinha um lobo por bisavô; notava-se nele um traço apenas do seu parentesco selvagem ; não vinha em linha reta para j unto do dono quando este o cham ava.

Tem -se dito m uitas vezes que os instintos dom ésticos são apenas disposições tornadas hereditárias em seguida a hábitos im postos e m uito tem po sustentados; isto, porém , não é exato. Ninguém pensou j am ais, e provavelm ente ninguém j am ais alcançou ensinar a um pom bo a dar um a cam balhota, ato que tenho visto executar a filhotes que nunca viram um pom bo cam balhota. Podem os acreditar que um indivíduo tenha sido dotado de um a tendência a tom ar este estranho hábito e que, pela seleção contínua dos m elhores cam balhotas em cada geração sucessiva, esta tendência se desenvolvesse para chegar ao ponto em que se encontra hoj e. Os cam balhotas das cercanias de Glasgow, pelo que m e diz M. Brent, chegaram a não poder elevar-se 18 polegadas acim a do solo sem fazer a cam balhota. Pode por-se em dúvida que se tenha j am ais pensado em dirigir os cães a

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fazer a espera, se um desses anim ais não houvesse m ostrado naturalm ente um a tendência a fazê-lo; sabe-se que esta tendência se apresenta naturalm ente, e eu tive m esm o ocasião de a observar num coelheiro de raça pura. O ato de fazer a espera é provavelm ente um sim ples exagero de curta duração que faz o anim al que se arrasta para se lançar sobre a presa. Manifestada a tendência à espera pela prim eira vez, a seleção m etódica, j unta aos efeitos hereditários de um a adestração severa em cada geração sucessiva, devia com pletar rapidam ente este trabalho; a seleção inconsciente concorre, além disso, sem pre para este resultado, porque, sem se preocupar de outra m aneira do aperfeiçoam ento da raça, cada um trata naturalm ente de procurar os cães que m elhor caçam e que, por conseguinte, m elhor fazem um a espera. O hábito pode, por outra parte, ter bastado em alguns casos; Poucos anim ais são m ais difíceis de aprisionar do que os láparos selvagens; pelo contrário, nenhum se aprisiona m ais facilm ente que o láparo dom éstico; ora, com o eu não posso supor que a facilidade em aprisionar os láparos dom ésticos tenha feito o obj eto de um a seleção especial, é Pois necessário atribuir a m aior parte desta transform ação hereditária de um estado selvagem excessivo ao extrem o oposto, ao hábito e ao cativeiro prolongado.

Os instintos naturais perdem -se no estado dom éstico. Certas raças de galinhas, por exem plo, perderam o hábito de chocar os ovos e recusam -se m esm o a fazê-lo. Estam os tão fam iliarizados com os nossos anim ais dom ésticos que não vem os até que ponto as suas faculdades m entais se m odificam , e isto de um a form a perm anente. Não se pode duvidar que a afeição para o hom em não sej a tornada instintiva no cão. Os lobos, os chacais, as raposas, e as diversas espécies felinas, m esm o aprisionadas, são sem pre inclinadas a atacar as galinhas, os carneiros e os porcos; esta tendência é incurável nos cães que foram im portados m uito novos de países com o a Austrália e a Terra da Fogo, onde os selvagens não possuem qualquer destas espécies de anim ais dom ésticos. Além disso, é raríssim o que estej am os obrigados a ensinar os nossos cães, m esm o m uito novos, a não atacar os carneiros, os porcos e as aves dom ésticas. Não é duvidoso que isto possa algum as vezes acontecer, m as corrigem -se, e se eles continuam , destroem -se; de tal m aneira que o hábito assim com o um a certa seleção concorreram 282

para civilizar os nossos cães por hereditariedade. Dem ais, o hábito fez perder inteiram ente aos pintainhos este terror do cão e do gato, que era sem dúvida algum a prim itivam ente instintivo neles; o capitão Hutton diz-m e, com efeito, que os franguinhos de origem igual, o Gallus bankiva, quando m esm o chocados na Índia por um a galinha dom éstica, são, contudo, de um a selvaj aria extrem a. O m esm o acontece com os faisõezinhos criados na Inglaterra por um a galinha dom éstica. Não é porque os frangos tenham perdido todo o tem or, m as unicam ente o m edo dos cães e dos gatos; porque, se a galinha dá o sinal de perigo, eles deixam -na logo (os novos perus principalm ente), e vão procurar um refúgio nos alpendres vizinhos; circunstância cuj o fim evidente é perm itir à m ãe voar, com o se vê em m uitas aves terrestres selvagens. Este instinto, conservado pelos frangos, é além disso inútil no estado dom éstico; a galinha, por falta de uso, tem perdido toda a aptidão do vôo.

Podem os concluir que os anim ais reduzidos à dom esticidade perderam certos instintos naturais e adquiriram outros, tanto pelo hábito com o pela seleção e acum ulação que fez o hom em durante gerações sucessivas, de diversas disposições especiais e m entais que apareceram , contudo, sob a influência de causas que, na nossa ignorância, cham am os acidentais. Em alguns casos, sim plesm ente bastam hábitos forçados para provocar m odificações m entais tornadas hereditárias; noutros, estes hábitos não entraram para nada no resultado, devido aos efeitos da seleção, tanto m etódica com o inconsciente; m as é provável que, na m aior parte dos casos, as duas causas tenham atuado sim ultaneam ente.

INSTINTOS ESPECIAIS

É estudando alguns casos particulares que chegarem os a com preender com o, no estado de natureza, a seleção pôde m odificar os instintos. Não apresentarei aqui m ais que três: o instinto que possui o cuco de por os ovos no ninho das outras aves, o instinto que certas form igas possuem em procurar escravas, e a faculdade que a abelha tem de construir suas células. Todos os naturalistas concordam com razão em considerar estes dois últim os instintos com o os m ais m ara- 283

vilhosos que se conhecem .

Instinto do cuco. –Alguns naturalistas supõem que a causa im ediata do instinto do cuco é que a fêm ea não põe os ovos senão com intervalos de dois ou três dias; de m odo que, se tivesse de construir o ninho e chocar por si os ovos destes, os prim eiros ficariam algum tem po abandonados, ou então haveria no ninho ovos e aves de diferentes idades. Neste caso, a duração da postura e da incubação seria m uito longa, e a ave, em igrando cedo, teria o m acho provavelm ente de prover às necessidades dos prim eiros filhos nascidos. Mas o cuco am ericano encontra-se nestas condições, porque esta ave faz o ninho, e aí se observam ao m esm o tem po avezinhas e ovos que não estão nascidos. Tem -se ora afirm ado ora negado o fato de o cuco am ericano por ocasionalm ente os ovos nos ninhos de outras aves; m as eu sei pelo Dr. Merrell, de Iowa, que encontrou um a vez no Illinois, no ninho de um gaio (Garrulus cristatus), um pequeno cuco e um pequeno gaio; am bos tinham j á bastantes penas para que se pudesse reconhecê-los facilm ente e sem receio de enganos. Poderia citar tam bém num erosos casos de aves de espécies m uito diversas que põem algum as vezes os ovos nos ninhos de outras aves. Ora, suponham os que o predecessor do cuco da Europa tinha tido os hábitos da espécie am ericana, e que tinha por vezes posto um ovo num ninho estranho. Se este hábito pudesse, quer perm itindo-lhe em igrar m ais cedo, quer por qualquer outra causa, ser vantaj oso à ave adulta, ou que o instinto enganado de um a outra espécie houvesse assegurado ao pequeno cuco m elhores cuidados, e m aior vigor do que se tivesse sido cuidado por sua própria m ãe, obrigada a ocupar-se ao m esm o tem po dos seus ovos e dos filhos tendo todos um a idade diferente, teria resultado vantagem tanto para a ave adulta com o para a nova ave. A analogia conduz-nos a acreditar que os filhos assim tratados podem herdar o hábito acidental e anorm al da m ãe, fazer a postura dos ovos noutros ninhos, e assim cuidar m elhor da sua prole. Julgo que este hábito, por m uito tem po continuado, term inou por tornar bizarro o instinto do cuco. Adolfo Müller verificou recentem ente, que o cuco põe por vezes os ovos no solo nu, choca-os, e nutre os filhos; este fato estranho e raro parece, evidentem ente, ser um caso de regressão ao instinto prim itivo de nidificação, de há m uito perdido.

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Tem -se obj etado que eu não observava no cuco outros instintos correlativos e outras adaptações de estrutura de m odo a considerá-lo com o estando em coordenação necessária. Não tendo, até ao presente, nenhum fato para nos guiar, toda a especulação a respeito de um instinto conhecido som ente num a única espécie seria inútil. Os instintos do cuco europeu e do cuco am ericano não parasita eram , até m uito recentem ente, os únicos conhecidos; m as atualm ente tem os, graças às observações de M. Ram say, algum as m inúcias sobre três espécies australianas, que fazem a postura igualm ente nos ninhos de outras aves. Três pontos principais há a considerar no instinto do cuco: - em prim eiro lugar, que, com raras exceções, o cuco não põe m ais que um ovo num ninho, de m aneira que o filho, grande e voraz, que deve nascer, receba um a nutrição abundante; - em segundo lugar, que os ovos são notavelm ente pequenos, quase com o os da calhandra, ave bem m ais pequena que o cuco. O cuco am ericano não parasita põe os ovos do tam anho norm al; podem os, pois, concluir que estas pequenas dim ensões do ovo são um verdadeiro caso de adaptação; - em terceiro lugar, pouco depois do nascim ento, o novo cuco tem o instinto, a força e um a conform ação do dorso que lhe perm item expulsar do ninho seus irm ãos, que m orrem de fom e e de frio. Tem -se até sustentado que este fato era um a sábia e benfazej a disposição, que, assegurando assim um a nutrição abundante ao novo cuco, provocava a m orte dos seus irm ãos antes que tivessem adquirido m uita sensibilidade. Passem os às espécies australianas. Estas aves não põem geralm ente m ais que um ovo no m esm o ninho; não é raro, contudo, encontrarem -se dois ou m esm o três num ninho. Os ovos do cuco bronzeado variam m uito de tam anho: têm oito a dez linhas de com prim ento. Ora, se houvesse vantagem em esta espécie por ovos ainda m ais pequenos, quer para enganar as outras aves, quer m ais provavelm ente para que sej am chocados m ais rapidam ente (porque se assegura que há um a certa relação entre a grandeza do ovo e a duração da incubação), facílim o é adm itir-se que teria podido form ar-se um a raça ou espécie de que os ovos fossem ainda m ais pequenos, porque estes ovos teriam m ais probabilidades em se sair bem . M. Ram say notou que dois cucos australianos, quando põem num ninho aberto, escolhem de preferência os que contenham j á ovos da m esm a cor dos seus. Há

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tam bém , na espécie européia, um a tendência para um instinto sem elhante, m as dela se afasta m uita vez, porque se encontram ovos escuros e cinzentos em m eio de ovos de um azul-esverdeado brilhante da toutinegra. Se o nosso cuco fizesse invariavelm ente prova do instinto em questão, tê-lo-ia certam ente j untado a todos os que devia, com o se pretende, necessariam ente adquirir em conj unto. A cor dos ovos do cuco bronzeado australiano, segundo M. Ram say, varia extraordinariam ente; de m odo que tanto a este respeito, com o pelo tam anho, a seleção natural teria certam ente podido escolher e fixar toda a variação vantaj osa. O novo cuco europeu expulsa ordinariam ente do ninho, três dias depois do nascim ento, os filhos dos seus pais adotivos. Com o é ainda m uito fraco nesta idade, M. Goúld estava outrora disposto a acreditar que os pais se encarregam por si m esm o de expulsar os próprios filhos. Mas devia m udar de opinião sobre tal assunto, porque observou um novo cuco, ainda cego, e tendo a custo força para levantar a cabeça, a cam inho de expulsar do ninho os seus irm ãos adotivos. O observador colocou um a destas pequenas aves no ninho e o cuco lançou-o fora. Com o se terá produzido este estranho e odioso instinto? Se é m uito im portante o novo cuco, e é provavelm ente o caso, receber, depois do nascim ento, a m aior nutrição possível, não vej o grande dificuldade em adm itir que, durante num erosas gerações sucessivas, tenha gradualm ente adquirido o desej o cego, a força e a conform ação m ais própria para expulsar os com panheiros; com efeito, os novos cucos dotados deste hábito e desta conform ação estão m ais seguros de vencer. Pode ser que o prim eiro passo para a aquisição deste instinto tenha sido apenas um a disposição turbulenta do novo cuco num a idade um pouco m ais avançada; em seguida, este hábito desenvolveu-se e transm itiu-se por hereditariedade a um a idade m ais tenra. Isto não m e parece m ais difícil de adm itir que o instinto que têm as avezinhas ainda no ovo de quebrar a casca que as envolve, ou a produção, nas pequenas serpentes, com o o fez notar Owen, de um dente tem porário, colocado na m axila superior, que lhes perm ite abrir passagem através do invólucro coriáceo do ovo. Se cada parte do corpo é suscetível de variações individuais em toda a idade, e estas variações tendem a tornar-se hereditárias na idade correspondente, fatos que não sofrem contestação, os instintos e a conform ação podem m odificar- 286

se lentam ente, tanto nos ovos com o nos adultos. São estas duas proposições a base da teoria da seleção natural e que devem subsistir ou cair com ela. Algum as espécies do gênero Molothrus, gênero m uito distinto de aves am ericanas, vizinhas dos nossos estorninhos, têm hábitos parasitas sem elhantes aos do cuco; estas espécies apresentam gradações interessantes na perfeição dos seus instintos. M. Hudson, excelente observador, verificou que os Molothrus badi-us dos dois sexos não só vivem algum as vezes em bandos na prom iscuidade m ais absoluta, m as ainda se copulam com freqüência. Tanto constroem ninho próprio, com o se aproveitam do de outra ave, lançando fora a ninhada que tem , e pondo aí os seus ovos, ou constroem bizarram ente no vértice um ninho para seu uso. Chocam de ordinário os ovos e tratam os filhos; m as M. Hudson diz que de ocasião são provavelm ente parasitas, porque observou filhos desta espécie acom panhando aves adultas de outra espécie, e gritando para que estas lhes dessem alim entos. Os hábitos parasitas de um a outra espécie de Molothrus, o Molot-hrus bonariensis, são m uito m ais desenvolvidos, sem serem , contudo, perfeitos. Este, tanto quanto se pode saber, faz a postura invariavelm ente nos ninhos estranhos. Fato curioso, m uitos se reúnem algum as vezes para com eçar a construção de um ninho irregular e m al acondicionado, colocado em situações singularm ente m al escolhidas, sobre as folhas de um grande cardo por exem plo. Todavia, tanto quanto M. Hudson pôde assegurá-lo, não acabam j am ais o ninho. Põem quase sem pre tantos ovos - quinze a vinte - no m esm o ninho estranho, que só um pequeno núm ero deles se pode chocar. Têm m ais o hábito extraordinário de quebrar às bicadas os ovos que encontram nos ninhos estranhos, sem poupar m esm o os da própria espécie. As fêm eas põem tam bém m uitos ovos no solo, que são encontrados perdidos. Um a terceira espécie, o Molothrus pecoris da Am érica do Norte, adquiriu tão perfeitos instintos com o os do cuco, em não por m ais que um ovo em ninho estranho, o que assegura o cuidado certo pela nova ave. H. Hudson, que é

um grande adversário da evolução foi, contudo, tão ferido pela im perfeição dos instintos do Molothrus bonariensis, que pergunta, citando as m inhas palavras: “É

necessário considerar estes hábitos, não com o instintos criados de todas as peças, de que está dotado o anim al, m as com o fracas conseqüências de um a lei ge- 287

ral, a saber: a transição?”

Diferentes aves, com o j á o fizem os notar, põem acidentalm ente os ovos nos ninhos de outras aves. Este proceder não é m uito raro nos galináceos e explica o instinto singular que se observa no avestruz. Muitos avestruzes fêm eas reúnem -se para fazer a postura a princípio num ninho, depois noutro, ovos que são em seguida chocados pelos m achos.-Este instinto provém talvez de que as fêm eas põem um grande núm ero de ovos, m as, com o o cuco, com dois ou três dias de intervalo. No avestruz am ericano, todavia, com o no Molothrus bonariensis, o instinto não chegou ainda a um alto grau de perfeição, porque o avestruz dispersa os ovos aqui e ali em grande núm ero na planície, a ponto tal que, durante um dia de caça, cheguei a j untar vinte ovos perdidos e desperdiçados. Há abelhas parasitas que põem regularm ente os ovos nos ninhos de outras abelhas. Este caso é ainda m ais curioso do que o do cuco; porque, nestas abelhas, a conform ação assim com o o instinto m odificaram -se para se colocarem em relação com os hábitos parasitas; não possuem , com efeito, o aparelho coletor de pólen que lhes seria indispensável se tivessem de obter e preparar os alim entos dos filhos. Algum as espécies de esfégidas (insetos que sem elham as vespas) vivem com o parasitas de outras espécies. M. Fabre publicou recentem ente observações que nos autorizam a crer que, posto que o Tachytes nigra perfure ordinariam ente a própria toca e a encha de insetos paralisados destinados a nutrir as larvas, torna-se parasita todas as vezes que encontre um a toca j á feita e aprovisionada por um a outra vespa e se apodera dela. Neste caso, com o no do Molothrus e do cuco, não vej o dificuldade algum a em que a seleção natural possa tornar perm anente um hábito acidental, se é vantaj oso para a espécie e se daí não resulta a extinção do inseto de que tom ou traiçoeiram ente o ninho e as provisões.

Instinto escravagista das formigas. – Este notável instinto foi a princípio descoberto na Formica (Polyergues) rufescens por Pierre Huber, talvez observador m ais hábil ainda que o seu ilustre pai. Estas form igas dependem tão absolutam ente das suas escravas, que, sem o seu auxílio, a espécie se extinguiria certam ente no espaço de um ano. Os m achos e as fêm eas fecundas não trabalham ; as obreiras ou

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fêm eas estéreis, m uito enérgicas e m uito coraj osas quando se trata de capturar escravas, não fazem m ais obra algum a. São incapazes de construir o ninho ou de nutrir as larvas. Quando o velho ninho se encontra insuficiente e as form igas o devem deixar, são as escravas que decidem em igrar; transportam elas m esm as as suas senhoras entre as próprias m andíbulas. Estas últim as são com pletam ente im potentes; Huber encerrou um as trinta sem escravas, m as absolutam ente providas de alim entos da sua predileção, além disto larvas e ninfas para as estim ular ao trabalho; ficaram inativas, e, não podendo nutrir-se por si, a m aior parte m orreu de fom e. Huber introduziu depois em m eio delas um a só escrava (Formica fusca), que logo com eçou o seu trabalho, salvou as sobreviventes dando-lhes alim entos, construiu algum as células, cuidou das larvas, e pôs tudo em ordem . Pode conceber-se algum a coisa m ais extraordinária que estes fatos bem verificados? Se não conhecêssem os outra espécie de form igas dotada de instinto escravagista, seria inútil especular sobre a origem e o aperfeiçoam ento de um instinto tão m aravilhoso. Pierre Huber foi ainda o prim eiro a observar que um a outra espécie, a For-mica sanguinea, se utiliza tam bém de escravas. Esta espécie, que se encontra nas partes m eridionais da Inglaterra, fez o obj eto dos estudos de M. F. Sm ith, do British Museum , ao qual devo num erosos ensinam entos sobre este e outros assuntos. Cheio de confiança nas afirm ações de Huber e M. Sm ith, não encetei todavia o estudo desta questão sem disposições cépticas bem escusadas, pois que se tratava de verificar a realidade de um instinto tão extraordinário. Entrarei, Pois, em algum as m inúcias sobre as observações que pude fazer a tal respeito. Abri catorze form igueiros de Formica sanguinea nos quais encontrei sem pre algum as escravas pertencentes à espécie formica fusca. Os m achos e as fêm eas fecundas desta ultim a espécie encontram -se apenas nos próprios form igueiros, m as nunca nos da Formica sanguinea. As escravas são negras e m enores do que as soberanas, que são verm elhas; o contraste é pois m arcante. Quando se desarranj a ligeiram ente o ninho, as escravas saem ordinariam ente e m ostram , assim com o as próprias soberanas, um a viva agitação em defender o form igueiro; se a perturbação é m uito grande e se as larvas e as ninfas estão expostas, as escravas traba- 289

lham energicam ente e aj udam as soberanas, levando-as e colocando-as em lugar seguro;é, pois, evidente que as form igas escravas se conhecem perfeitam ente entre si. Durante três anos sucessivos, em Junho e Julho, observei, horas inteiras, m uitos form igueiros nos condados de Surrey e de Sussex, e não vi j am ais um a só

form iga escrava entrar ou sair. Com o, nesta época, as escravas são m uito pouco num erosas, pensei que podia ser o contrário quando fossem m ais abundantes; m as M. Sm ith, que observou esses form igueiros em diferentes horas durante os m eses de Maio, Junho e Agosto, nos condados de Surrey e Ham pshire, afirm a-m e que, m esm o em agosto, quando o núm ero de escravas é m uito considerável, não viu igualm ente que um a sequer saísse ou entrasse. Considera-as, pois, com o escravas rigorosam ente dom ésticas. Além disso, vêem -se as soberanas trazer constantem ente ao form igueiro m ateriais de construção e provisões de toda a espécie. Em 1860, no m ês de Julho, descobri, contudo, um a com unidade possuindo um núm ero inusitado de escravas, e notei algum as que deixavam o ninho em com panhia das suas senhoras para se dirigirem com elas para um grande pinheiro escocês, à distância aproxim adam ente de 25 m etros, de que fizeram todas a ascensão, provavelm ente em busca de pulgões ou de cucos. Segundo Huber, que teve num erosas ocasiões de as observar na Suíça, as escravas trabalham habitualm ente com as soberanas na construção do form igueiro, m as são elas que, de m anhã, abrem as portas e que as fecham à noite; afirm a que o seu principal papel é

procurar os pulgões. Esta diferença nos hábitos ordinários das soberanas e das escravas nos dois países, provém , provavelm ente, de que na Suíça as escravas são capturadas em m aior núm ero que na Inglaterra.

Tive um dia a boa fortuna de assistir a um a em igração da Formica sangui-nea de um ninho para outro; era um espetáculo interessantíssim o ver as form igas soberanas trazer com o m aior cuidado as suas escravas entre as m andíbulas, em lugar de se fazerem transportar por elas com o no caso da Formica rufescens. Um outro dia, a presença no m esm o ponto de um a vintena de form igas escravagistas que não andavam evidentem ente em busca de alim entos, atraiu a m inha atenção. Aproxim aram -se de um a colônia independente da espécie que fornece as escravas, Formica fusca, e foram vigorosam ente repelidas por estas últim as, que se

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agarravam algum as vezes em grupos de três às patas das assaltantes. As Formi-ca sanguinea m atavam sem piedade as suas pequenas adversárias e levavam os cadáveres para o ninho, que se encontrava a uns trinta m etros de distância; m as não puderam apoderar-se das ninfas para as tornarem escravas. Desterrei então, num outro form igueiro, algum as ninfas da Formica fusca, e coloquei-as no chão j unto do lugar do com bate; foram logo agarradas e levadas pelas assaltantes, que j ulgaram provavelm ente ter alcançado a vitória na últim a pelej a. Coloquei ao m esm o tem po, no m esm o ponto, algum as ninfas de um a outra espécie, a Formica flava, com algum as parcelas do próprio ninho, às quais estavam ligadas algum as dessas pequenas form igas am arelas que são, por vezes, posto que raram ente, segundo M. Sm ith, reduzidas à escravidão. Ainda que m uito pequena, esta espécie é coraj osa, e vi que atacava as outras form igas com grande denodo. Tendo um a vez, com grande surpresa m inha, encontrado um a colônia independente de Formica flava, ao abrigo de um a pedra colocada sob um form igueiro de Formica sanguinea, espécie escravagista, desarranj ei acidentalm ente os dois ninhos; as duas espécies encontraram -se em presença e vi as pequenas form igas precipitarem -se com um a coragem espantosa sobre as suas grandes vizinhas. Ora, eu estava com interesse de saber se as Formica sanguinea distinguiam as ninfas da Formica fusca, que é a espécie de que elas fazem habitualm ente as suas escravas, das da pequena e feroz Formica flava, que elas só raram ente escravizam ; pude verificar que as reconhecem im ediatam ente. Vim os, com efeito, que se precipitavam sobre as ninfas da Formica fusca para as apanhar de m om ento, enquanto que pareciam terrificadas encontrando ninfas e m esm o terra proveniente de ninho da Formica flava, e apressavam -se em por-se a salvo. Contudo, ao fim de um quarto de hora, quando as pequenas form igas am arelas tinham desaparecido, as outras recuperaram coragem e voltaram a procurar as ninfas. Um a tarde que eu exam inava um a outra colônia de Formica sanguinea, vi um grande núm ero de indivíduos desta espécie que reconquistavam o ninho, trazendo cadáveres de Formica fusca (prova de que não era um a em igração) e um a quantidade de ninfas. Observei um a longa fila de form igas carregadas de despoj os, vindo, à distância de 40 m etros, detrás de um a m oita de onde vi sair um a últi- 291

m a Formica sanguinea, trazendo um a ninfa. Não pude encontrar, debaixo do espesso m ato, o ninho devastado; devia, contudo, estar m uito próxim o, porque vi duas ou três Formica fusca extrem am ente agitadas, um a sobretudo que, pendurada im óvel de um ram o de urze, tendo entre as m andíbulas um a ninfa da sua espécie, parecia a im agem do desespero gem endo pelo dom icílio desfeito. Tais são os fatos, que, de resto, não exigiam qualquer confirm ação da m inha parte, sobre este notável instinto que as form igas têm de reduzir as suas congêneres à escravidão. O contraste entre os hábitos instintivos da Formica sangui-nea e os da Formica rufescens do continente é digno de nota. Esta últim a não constrói ninho, não decide m esm o as suas em igrações, não procura os alim entos nem para si, nem para os filhos, e não pode m esm o nutrir-se; está absolutam ente debaixo da dependência das suas num erosas escravas. A Formica sanguinea, pelo contrário, tem m uito m enos escravas, e, no com eço do estio, tem m uito poucas; são as soberanas que decidem do m om ento e do lugar onde o novo ninho deve ser construído, e, quando em igram , são elas que transportam as escravas. Tanto na Suíça com o na Inglaterra, as escravas parecem exclusivam ente destinadas a sustentar as larvas; só as soberanas em preendem expedições para procurar as escravas. Na Suíça, escravas e soberanas trabalham conj untam ente, tanto para procurar os m ateriais do ninho com o para o edificar; um as e outras, m as sobretudo as escravas, vão em procura de pulgões para os m ugir, se pode em pregar-se esta expressão, e todas recolhem assim os alim entos necessários à

com unidade. Na Inglaterra, as soberanas só deixam o ninho para procurar os m ateriais de construção e os alim entos indispensáveis para si, para as suas escravas e para as larvas; os serviços que lhes prestam as escravas são, pois, m enos im portantes neste país do que na Suíça.

Não pretendo fazer conj ecturas sobre a origem deste instinto da Formica sanguinea. Mas, assim com o tenho observado, as form igas não escravagistas sustentam algum as vezes no seu ninho ninfas de outras espécies dissem inadas na vizinhança, e é possível que as ninfas, arm azenadas no principio para servir de alim entos, tenham podido desenvolver-se; é possível tam bém que estas form igas estranhas tratadas sem intenção, obedecendo aos instintos próprios, tenham de-292

sem penhado funções de que são capazes. Se a sua presença é considerada útil à

espécie que as capturou - se se torna m ais vantaj oso para ela procurar obreiras do que procriá-las - a seleção natural pôde desenvolver o hábito de recolher as ninfas prim itivam ente destinadas a servir de nutrição, e tê-las tom ado perm anentem ente com o fim m uito diferente de fazer delas suas escravas. Um tal instinto um a vez adquirido, ainda m esm o num grau m uito m enos pronunciado do que na Formica sanguinea da Inglaterra - à qual, com o tem os visto, as escravas prestam m uito m enos serviços do que prestam à m esm a espécie na Suíça - a seleção natural pôde acrescentar e m odificar este instinto, com a condição, contudo, de que cada m odificação tenha sido vantaj osa à espécie, e produzir, enfim , um a form iga tam bém com pletam ente colocada na dependência das suas escravas com o é a Formica rufescens.

Instinto da construção das células nas abelhas. –Não tenho intenção de entrar aqui em m inúcias m uito circunstanciadas; contentar-m e-ei em resum ir as conclusões a que cheguei sobre o assunto. Quem pode exam inar esta delicada construção do raio de cera, tão perfeitam ente adaptada ao seu fim , sem experim entar um sentim ento de adm iração entusiasta? Os m atem áticos ensinam -nos que as abelhas têm resolvido praticam ente um problem a dos m ais abstratos, o de dar às células, servindo-se do m ínim o do precioso elem ento de construção, a cera, precisam ente a form a capaz de conter o m aior volum e de m el. Um hábil artífice, provido de ferram entas próprias, teria m ais dificuldade em construir células em cera idênticas às que executa um enxam e de abelhas trabalhando num cortiço obscuro. Que se lhes concedam todos os instintos, parece incom preensível que as abelhas possam traçar os ângulos e os planos necessários e tom ar conta da exatidão do seu trabalho. A dificuldade não é, contudo, tão grande com o parece à prim eira vista, e pode-se, creio eu, dem onstrar que esta m agnífica obra é o sim ples resultado de um pequeno núm ero de instintos m uito sim ples. É a M. Waterhouse que devo ter estudado este assunto; ele dem onstrou que a form a da célula está intim am ente ligada à presença das células contíguas; podem , assim o j ulgo, considerar-se as idéias que vou expor com o um a sim ples

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m odificação da sua teoria. Exam inem os o grande princípio das transições graduais, e vej am os se a natureza nos não m ostra o processo que em prega. Na extrem idade de um a série pouco extensa, encontram os os zangões que se servem dos seus velhos casulos para depositar o m el, aj untando-lhes por vezes tubos curtos de cera, substância com a qual m oldam igualm ente por vezes células separadas, m uito irregularm ente arredondadas. Na outra extrem idade da série, encontram os as células da abelha, construídas em duas ordens; cada um a destas células, com o sabem os, tem a form a de um prism a hexagonal com as bases de seus seis lados talhadas em bisel de m aneira a aj ustar-se sobre um a pirâm ide invertida form ada por três rom bos. Estes rom bos apresentam certos ângulos determ inados e três faces, que form am a base piram idal de cada célula situada sobre um dos lados do raio de m el, fazem igualm ente parte das bases de três células contíguas pertencendo ao lado oposto do raio. Entre as células tão perfeitas da abelha, e a célula em inentem ente sim ples do zangão, acham -se, com o grau interm ediário, as células da Melípona dom éstica do México, que foram cuidadosam ente desenhadas e descritas por Pierre Huber. A m elípona form a assim um grau interm ediário entre a abelha e o zangão, m as m ais aproxim ada deste últim o. Constitui um raio de cera quase regular, com posto de células cilíndricas, nas quais se faz a incubação dos filhos, e j unta a estas algum as grandes células de cera, destinadas a receber o m el. Estas últim as são quase esféricas, de grandeza um pouco igual e agregadas em um a m assa irregular. Mas o ponto essencial a considerar é que as células são sem pre colocadas entre si a um a distância tal que se interceptariam m utuam ente, se as esferas que constituem fossem com pletas, o que não se realiza, construindo o inseto divisões de cera perfeitam ente direitas e planas sobre as linhas em que as esferas acabadas tenderiam a interceptar-se. Cada célula é, pois, exteriorm ente com posta de um a porção esférica e, interiorm ente, de duas, três ou m ais superfícies planas, segundo a célula é por si m esm a contígua a duas, três ou m ais células. Quando um a célula repousa sobre três outras, o que, vista a igualdade das suas dim ensões, sucede m uitas vezes e m esm o necessariam ente, as três superfícies planas são reunidas em um a pirâm ide que, com o o fez notar Huber, parece ser um a grosseira im itação das bases piram idais de três faces da

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célula da abelha. Com o naquela, as três superfícies planas da célula fazem , pois, necessariam ente parte da construção de três células adj acentes. É evidente que, por este m odo de construção, a m elípona econom iza cera, e, o que é m ais im portante, trabalho; porque as paredes planas que separam duas células adj acentes não são duplas, m as têm a m esm a espessura que as porções esféricas externas, fazendo tudo parte de duas células ao m esm o tem po.

Continuar: parte 2 de 4