A Origem das Espécies
ficação de hábitos, constantes ou acidentais, que…
ficação de hábitos, constantes ou acidentais, que se observam num a m esm a espécie. Não precisaria de nada m enos que de um a longa lista de fatos sem elhantes para m inorar a dificuldade que apresenta a solução de casos análogos aos do m orcego.
Tom em os a fam ília dos esquilos; observam os nela um a gradação insensível, desde os anim ais cuj a cauda é apenas ligeiram ente achatada, e outros, assim com o o faz observar sir J. Richardson, cuj a parte posterior do corpo é apenas ligeiram ente dilatada, com a pele dos flancos um pouco desenvolvida, até aos que se cham am os Esquilos volantes. Estes últim os têm os m em bros e m esm o a raiz da cauda unidos por um a larga m em brana que lhes serve de pára-quedas e lhes perm ite transpor, cortando o ar, grandes distâncias de um a árvore a outra. Não podem os duvidar que cada um a destas conform ações não sej a útil a cada espécie de esquilo no seu habitat, ora perm itindo-lhe escapar às aves ou aos anim ais carniceiros e procurar m ais rapidam ente a nutrição, ora sobretudo dim inuindo o perigo das quedas. Mas não resulta daqui que a conform ação de cada esquilo sej a absolutam ente a m elhor que se pode conceber em todas as condições naturais. Suponham os, por exem plo, que o clim a e a vegetação vêm a m udar, que tenha havido em igração de outros roedores ou de outros anim ais ferozes, ou que antigas espécies destas últim as se m odificaram , a analogia conduz-nos a crer que os esquilos, ou alguns pelo m enos, dim inuiriam em núm ero ou desapareceriam , a não ser que se não m odificassem e se não aperfeiçoassem para evitar esta nova dificuldade da sua existência. Não vej o pois dificuldade algum a, sobretudo nas condições de existência em via de alteração, à conservação contínua de indivíduos tendo a m em brana dos flancos sem pre m ais desenvolvida, sendo útil toda a m odificação, m ultiplicando-se cada um a até que, graças à ação acum uladora da seleção natural, um perfeito esquilo volante sej a produzido. Considerem os de m om ento o Galeopiteco ou lém ur volante, que classificavam outrora entre os m orcegos, m as que se coloca hoj e entre os insetívoros. Este anim al tem um a m em brana lateral m uito larga, que parte do ângulo do m axilar e se estende até à cauda, envolvendo os m em bros e os dedos alongados; esta m em brana é provida de um m úsculo extensor. Posto que
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qualquer indivíduo adaptado a deslizar no ar não ligue atualm ente o galeopiteco aos outros insetívoros, pode, contudo, supor-se que estes fuzis existiram outrora e que cada um deles se desenvolveu da m esm a form a que os esquilos volantes m enos perfeitos, apresentando cada grau de conform ação um a certa utilidade para o seu possuidor. Não vej o tam pouco dificuldade insuperável para acreditar, além disso, que os dedos e o antebraço do galeopiteco, ligados pela m em brana, possam ser consideravelm ente alongados pela seleção natural, m odificações que, no ponto de vista dos órgãos do vôo, converteriam este anim al num m orcego. Vem os talvez, entre certos m orcegos, cuj a m em brana da asa se estende do vértice da espádua à cauda, cobrindo as patas posteriores, os vestígios de um aparelho prim itivam ente adaptado a deslizar no ar, m ais do que ao vôo propriam ente dito.
Se um a dezena de gêneros tivesse desaparecido, quem ousaria suspeitar que existiram aves cuj as asas lhes serviam apenas de pás para bater a água, com o o ganso de asas curtas (Micropterus d’Eyton); de barbatanas na água e de patas anteriores na terra com o no pingüim ; de velas no avestruz, e de algum uso funcional no aptérix? Contudo, a conform ação de cada um a destas aves é-lhes excelente nas condições de existência em que se encontra colocada, porque cada um a deve lutar para viver, m as não é necessariam ente a m elhor que se possa conceber em todas as condições possíveis. Não precisaria concluir das observações que precedem que algum dos graus de conform ação de asas que aqui são indicadas, e que todas talvez resultem da falta do uso, deve indicar a m archa natural segundo a qual as aves term inaram por adquirir a perfeição do vôo; m as estas observações servem pelo m enos para dem onstrar a diversidade possível nos m eios de transição. Se se tiver em consideração que certos m em bros das classes aquáticas, com o os crustáceos e os m oluscos, são adaptados à vida terrestre; que existem aves e m am íferos volantes, insetos volantes de todos os tipos im agináveis; que houve antigam ente répteis volantes, não repugna conceber que os peixes volantes, que podem atualm ente lançar-se no ar e percorrer distâncias consideráveis elevando-se e sustentando-se por m eio das suas barbatanas trem entes, tivessem
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podido m odificar-se de m aneira a tornar-se anim ais perfeitam ente alados. Se assim fosse, quem im aginaria que, num estado de transição anterior, estes anim ais habitavam o Oceano e se serviam de seus órgãos de vôo nascentes, tanto com o o podem os saber, com o único fim de escapar à voracidade dos outros peixes?
Quando vem os um a conform ação absolutam ente perfeita e apropriada a um hábito particular, tal com o a adaptação das asas da ave para o vôo, é preciso que nos lem brem os que os anim ais apresentando as prim eiras conform ações graduais e transitórias deviam raram ente sobreviver até à nossa época, porque teriam de desaparecer diante dos seus sucessores que a seleção natural tornou gradualm ente m ais perfeitos. Podem os concluir, além disso, que os estados transitórios entre as conform ações apropriadas a hábitos de existência m uito diferentes deviam raram ente, num antigo período, desenvolver-se em grande núm ero e em m uitas form as subordinadas. Assim , para tornar ao nosso exem plo im aginário do peixe volante, não parece provável que os peixes capazes de se elevar até ao verdadeiro vôo revestissem m uitas form as diferentes, aptas a apanhar, de diversas m aneiras, presas de diversa natureza sobre a terra e sobre a água, antes que os órgãos do vôo tivessem atingido um grau de perfeição assaz elevado para lhes assegurar, na luta pela existência, um a vantagem decisiva sobre outros anim ais. A probabilidade de descobrir, no estado fóssil, as espécies representantes das diferentes transições de conform ação, é pois m enor, porque existiram em m enor núm ero que as espécies tendo um a conform ação com pletam ente desenvolvida. Citarei de m om ento dois ou três exem plos de diversificações e de m udanças de hábitos entre indivíduos de um a m esm a espécie. Num e noutro caso, a seleção natural poderia facilm ente adaptar a conform ação do anim al aos seus hábitos m odificados ou exclusivam ente a um deles som ente. Contudo, é difícil determ inar (isto, porém , im porta-nos pouco), se os hábitos se transform am ordinariam ente prim eiro, m odificando-se a conform ação em seguida, ou se ligeiras m odificações de conform ação trazem um a m udança de hábitos; é provável que estas duas m odificações se apresentem algum as vezes sim ultaneam ente. Com o exem plo de alterações de hábitos, basta assinalar num erosos insetos britânicos que se nutrem hoj e de plantas exóticas, ou exclusivam ente de substâncias artificiais. Po- 195
der-se-iam citar inum eráveis casos de m odificações de hábitos; algum as vezes observei, na Am érica Meridional, um papa-m oscas (Saurophagus sulphuratus) pousar em um ponto, depois arrem essar-se para um outro, com o o faria um gavião; depois, noutros m om entos, ficar im óvel à beira da água para aí se precipitar à
procura de peixe, com o o faria um gavião-pescador. Pode ver-se no nosso país o grande m elharuco (Parus m aior) trepar aos ram os com o um pica-pau; algum as vezes, com o a pega-parda, m ata as avezinhas dando-lhes golpes na cabeça, com o tive ocasião de observar, e m ais freqüentem ente ainda ouvi m artelar as sem entes do teixo sobre um ram o e quebrá-las com o o faria a citela. Hearne viu, na Am érica do Norte, o urso negro nadar durante horas, a grande goela aberta, e apanhar assim os insetos na água, da m esm a form a com o o faria um a baleia. Com o vem os algum as vezes indivíduos ter hábitos diferentes dos próprios da sua espécie e às outras espécies do m esm o gênero, pareceria que estes indivíduos deviam tornar acidentalm ente a ponto de partida de novas espécies, tendo hábitos anorm ais, e cuj a conform ação se afastaria m ais ou m enos da origem tipo. A natureza oferece casos sem elhantes. Pode citar-se um caso de adaptação m ais adm irável do que aquele da conform ação do picanço, para subir aos troncos das árvores e para apanhar os insetos nas fendas da cortiça? Há, contudo, na Am érica Setentrional picanços que se nutrem quase exclusivam ente de frutos, e outros que, devido às asas alongadas, podem caçar os insetos no vôo. Nas planícies do Prata, onde não rebenta um a única árvore, encontra-se um a espécie de picanço (Colaptes campestris) tendo dois dedos adiante e dois atrás, a língua longa e afilada, as penas caudais pontiagudas, bastante rígidas para sustentar a ave na posição vertical, m as não inteiram ente rígidas com o nos verdadeiros picanços, e um forte bico direito, que todavia não é tão direito nem tão forte com o o dos verdadeiros picanços, m as que é contudo bastante sólido para furar a m adeira. O Colaptes é, pois, quase um picanço em todas as partes essenciais da sua conform ação. Mesm o os caracteres insignificantes, tais com o a coloração, o som rouco da voz, o vôo ondulado, m ostram claram ente a sua próxim a sem elhança com o picanço com um ; posso, porém , afirm ar, depois das m inhas próprias observações, que confirm am aliás as de Azara, observador tão desvelado e tão exato, que, em certos
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distritos consideráveis, o Colaptes não sobe às árvores e faz o ninho nos buracos que cava na terra. Contudo, com o o verificou Hudson, este m esm o picanço, em outros distritos, freqüenta as árvores e cava buracos no tronco para aí fazer o ninho. Com o outro exem plo de hábitos variados deste gênero, posso j untar que de Saussurre descreveu um Colaptes do México que cava buracos na m adeira dura para aí depositar um a provisão de glandes.
O alcatraz é um a das aves m arinhas m ais aéreas que se conhecem ; todavia, nas baías tranqüilas da Terra do Fogo, poder-se-ia certam ente tom ar o Pufli-nuria Brrardi por um colim bo ou um pingüim , para observar os seus hábitos gerais, a sua facilidade extraordinária para m ergulhar, a sua m aneira de nadar e de voar, quando se pode decidir a fazê-lo; contudo, esta ave é essencialm ente um alcatraz, m as algum as partes da sua organização foram profundam ente m odificadas para as adaptar aos novos hábitos, enquanto que a conform ação do picanço do Prata é
apenas m uito pouco m odificada. As observações m ais m inuciosas, feitas sobre o cadáver de um a calhandra-m arinha (m elro da água), j am ais deixariam suspeitar os seus hábitos aquáticos; contudo, esta ave, que pertence à fam ília dos m elros, encontra apenas a sua subsistência m ergulhando, e serve-se das asas debaixo da água e prende com as patas as pedras do fundo. Todos os m em bros da grande ordem dos him enópteros são terrestres, à exceção do gênero proctotrupes, de que sir John Lubbock descobriu os hábitos aquáticos. Este inseto entra m uitas vezes na água aj udando-se não com as patas, m as com as asas e pode aí ficar quatro horas sem tornar à superfície; não parece, todavia, apresentar m odificação algum a de conform ação em relação com os seus hábitos anorm ais. Aqueles que crêem que cada ser foi criado tal com o é hoj e devem sentir por vezes um a certa adm iração quando encontram um anim al que tem hábitos e conform ação que não concordam , Os pés palm ados do ganso e do pato são claram ente conform ados para a natação. Há, contudo, nas regiões elevadas gansos com pés palm ados, que j am ais se aproxim am da água; só Audubon viu a fragata cuj os quatro dedos são palm ados, colocar-se sobre a superfície do Oceano. Por outra parte, os colim bos e as gaivotas, aves em inentem ente aquáticas, têm com o palm ouras apenas um a ligeira m em brana prendendo os dedos. Não parece evi-197
dente que os longos dedos desprovidos de m em branas das pernaltas são feitos para andar nos pântanos e sobre os vegetais flutuantes? A gaivota-m arreco e o codornizão pertencem a esta ordem ; contudo, a prim eira destas aves é quase tão aquática com o a gaivota, e a segunda tam bém quase terrestre com o a codorniz ou a perdiz. Nestes casos, e poderiam citar-se m uitos outros, os hábitos sofrem alteração sem que a conform ação sej a m odificada de m aneira correspondente. Poderse-ia dizer que o pé palm ado do ganso das altas regiões se tornou quase rudim entar quanto às suas funções, m as não quanto à conform ação. Na fragata, um a forte chanfradura da m em brana interdigital indica um princípio de alteração na conform ação. Quem acredita nos atos num erosos e separados da criação, pode dizer que, nos casos desta natureza, aprouve ao Criador substituir um indivíduo pertencendo a um tipo por um outro pertencendo a um outro tipo, o que m e parece ser o enunciado do m esm o fato num a form a aperfeiçoada. Quem , pelo contrário, crê na luta pela existência ou no princípio da seleção natural, reconhece que cada ser organizado tenta constantem ente m ultiplicar-se em núm ero; sabe-se, além disso, que se um ser varia por pouco que sej a nos hábitos e na conform ação, e obtém assim um a vantagem sobre qualquer outro habitante da m esm a localidade, se apodera do lugar deste últim o, por m ais diferente que sej a do que ele ocupava prim eiram ente. Tam bém se não experim enta surpresa algum a vendo gansos e fragatas com os pés palm ados, posto que estas aves habitam a terra e se coloquem raram ente sobre a água; codornizões de dedos alongados vivendo nos prados em lugar de viver nas lagoas; picanços habitando lugares desprovidos de árvores; e, enfim , m elros ou him enópteros m ergulhadores e alcatrazes tendo os costum es dos pingüins.
ÓRG ÃOS MUITO PERFEITOS E MUITO COMPLEXOS
Parece absurdo ou im possível, eu o reconheço, supor que a seleção natural pudesse form ar a visão com todas as inim itáveis disposições que perm itam aj ustar o foco a diversas distâncias, adm itir um a quantidade variável de luz e corrigir as
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aberrações esféricas e crom áticas. Quando se afirm ou pela prim eira vez que o Sol é im óvel e que a Terra gira em torno dele, o senso com um da hum anidade declarou falsa a doutrina; m as sabe-se que o velho ditado: Vox populi, vox Dei, não se adm ite em m atéria cientifica. A razão diz-nos que se, com o é certam ente o caso, se pode dem onstrar que existem num erosas gradações entre um olho sim ples e im perfeito e um olho com plexo e perfeito, sendo cada um a destas gradações vantaj osa ao ser que a possui; que se, além disso, o olho varia algum as vezes e que estas variações são transm issíveis por hereditariedade, o que é igualm ente o caso; que se, enfim , estas variações são úteis a um anim al nas condições variáveis da sua existência, a dificuldade de adm itir que um olho com plexo e perfeito possa ser produzido pela seleção natural, posto que insuperável para a nossa im aginação, em nada contradiz a nossa teoria. Não tem os m ais de nos ocupar em saber com o um nervo pôde tornar-se sensível à ação da luz, com o não tem os de nos ocupar a procurar a origem da vida dele; todavia, com o existem certos organism os inferiores sensíveis à luz, se bem que se não possa descobrir entre eles vestígio algum de nervação, não parece im possível que certos elem entos do sarcode, de que são form ados em grande parte, possam agregar-se e desenvolver-se em nervos dotados desta sensibilidade especial. É exclusivam ente na linha direta dos ascendentes que devem os procurar as gradações que têm trazido os aperfeiçoam entos de um órgão num a espécie qualquer. Mas isto é quase im possível, e som os forçados a dirigir-nos a outras espécies e a outros gêneros do m esm o grupo, isto é, aos descendentes colaterais da m esm a origem , a fim de ver quais são as gradações possíveis nestes casos em que, por casualidade, algum as destas gradações fossem transm itidas com poucas m odificações. Além disso, o estado de um m esm o órgão em classes diferentes pode incidentalm ente lançar algum a luz sobre os graus que o levaram à
perfeição.
O órgão m ais sim ples a que se possa dar o nom e de olho, consiste em um nervo óptico, cercado de células pigm entares, e coberto de um a m em brana transparente, m as sem lente nem qualquer outro corpo refringente. Podem os, dem ais, segundo M. Jourdain, descer m ais baixo ainda e encontrarm os então grupos de
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células pigm entares parecendo representar o órgão da vista, m as estas células são desprovidas de nervos e repousam sim plesm ente sobre tecidos sarcódicos. órgãos tão singelos, incapazes de qualquer visão distinta, podem servir apenas para distinguir a luz da obscuridade. Em algum as artérias, determ inadas pequenas depressões na cam ada de pigm ento que cerca o nervo são, segundo o autor que acabam os de citar, cheias de m atérias gelatinosas transparentes, com postas de um a superfície convexa sem elhando a córnea dos anim ais superiores. M. Jourdain supõe que esta superfície, sem poder determ inar a form ação de um a im agem , serve para concentrar os raios lum inosos e tornar a percepção m ais fácil. Esta sim ples concentração da luz constitui o prim eiro passo, e até m ais im portante, para a constituição de um olho verdadeiro, suscetível de form ar im agens; basta então, com efeito, aj ustar a extrem idade nua do nervo óptico que, em alguns anim ais inferiores, é profundam ente escondido no corpo e que, em alguns outros, se encontra m ais perto da superfície, a um a distância determ inada do aparelho de concentração, para que a im agem se form e sobre esta extrem idade. Na grande classe dos articulados, encontram os, com o ponto de partida, um nervo óptico sim plesm ente coberto de um pigm ento; este últim o form a algum as vezes um a espécie de pupila, m as não há aí nem lente nem vestígio de aparelho óptico. Sabe-se atualm ente que as num erosas facetas que, pela sua reunião, constituam a córnea dos grandes olhos com postos dos insetos, são verdadeiras lentes, e que os cones interiores encerram filam entos nervosos m uito singularm ente m odificados. Estes órgãos, contudo, são tão diversificados nos articulados, que Müller havia estabelecido três classes principais de olhos com postos, com preendendo sete subdivisões e um a quarta classe de olhos sim ples agregados. Se refletirm os em todos estes fatos, m uito pouco destrinçados aqui, relativos à im ensa variedade de conform ação que se nota nos olhos dos anim ais inferiores; se lem brarm os quanto as form as atualm ente vivas são pouco num erosas com parativam ente às que são extintas, j á não é difícil adm itir que a seleção natural pudesse transform ar um aparelho sim ples, consistindo num nervo óptico recoberto de um pigm ento e com posto de um a m em brana transparente, em um instrum ento óptico tão perfeito com o o possuído por qualquer indivíduo que sej a da
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classe dos articulados.
Quem adm itir este ponto não pode hesitar em ir m ais longe, e se encontra, depois de ter lido este volum e, que a teoria da descendência, com as m odificações que traz a seleção natural, explica um grande núm ero de fatos de outra m aneira inexplicáveis, deve adm itir que a seleção natural pôde produzir um a conform ação tão perfeita com o o olho de um a águia, ainda que, neste caso, não conheçam os os diversos estados de transição. Tem -se obj etado que, para que o olho possa m odificar-se por com pleto, ficando um instrum ento perfeito, é preciso que sej a a sede de m uitas alterações sim ultâneas, fato que se considera com o irrealizável pela seleção natural. Mas, com o tentei dem onstrá-lo na m inha obra sobre as variações dos anim ais dom ésticos, não é necessário supor que as m odificações são sim ultâneas, contanto que sej am m uito ligeiras e m uito graduais. Diferentes form as de m odificações podem tam bém tender para um m esm o fim geral; assim , com o o fez notar M. Wallace, « se um a lente tem um foco m uito curto ou m uito longo, esta diferença pode corrigir-se, quer por um a m odificação da curva, quer por um a m odificação da densidade; se a curva é irregular e os raios não convergem para um m esm o ponto, todo o m elhoram ento na regularidade da curva constitui um progresso. Assim , nem a contração da íris, nem os m ovim entos m usculares do olho são essenciais à visão; são unicam ente progressos que podem j untar-se e aperfeiçoar-se em todas as épocas da construção do aparelho» . Na m ais alta divisão do reino anim al, a dos vertebrados, podem os partir de um olho m uito sim ples, que consiste, no branquióstom o, apenas num pequeno saco transparente provido de um nervo e cheio de pigm ento, m as desprovido de qualquer outro aparelho. Nos peixes e nos répteis, com o o faz notar Owen, « a série das gradações das estruturas dióptricas é considerável» . Um fato significativo, é que m esm o no hom em , segundo Virchow, que tem um a tão grande autoridade, a m agnífica lente cristalina se form a no em brião por um a acum ulação de células epiteliais aloj adas num a ruga da pele que afeta a form a de um saco; o corpo vítreo é form ado por um tecido em brionário subcutâneo. Contudo, para se chegar a um a j usta concepção relativam ente à form ação do olho com todos os seus m aravilhosos caracteres, que não são todavia ainda absolutam ente perfeitos, é preciso que a razão vença a im agi- 201
nação; ora, eu próprio m uito tenho sentido quanto isto é difícil, para ficar adm irado de outros que hesitam em levar tão longe o princípio da seleção natural. A com paração entre o olho e o telescópio apresenta-se naturalm ente ao espírito. Sabem os que este últim o instrum ento foi aperfeiçoado pelos esforços contínuos e prolongados das m ais altas inteligências hum anas, e concluím os daí
naturalm ente que o olho se form ou por um processo análogo. Será esta conclusão presunçosa? Tem os o direito de supor que o Criador põe em j ogo forças inteligentes análogas às do hom em ? Se quiserm os com parar o olho a um instrum ento óptico, devem os im aginar um a cam ada espessa de um tecido transparente, em bebido de líquido, em contato com um nervo sensível à luz; devem os supor tam bém que as diferentes partes desta cam ada m udam constantem ente e lentam ente de densidade, de form a a separar-se em zonas, tendo um a espessura e um a densidade diferentes, desigualm ente distantes entre si e m udando gradualm ente de form a à superfície. Devem os supor, além disso, que um a força representada pela seleção natural, ou a persistência do m ais apto, está constantem ente espiando todas as ligeiras m odificações que afetem cam adas transparentes, para conservar todas as que, em diversas circunstâncias, em todos os sentidos e em todos os graus, tendem a perm itir a perfeição de um a im agem m ais distinta. Devem os supor que cada novo estado do instrum ento se m ultiplica por m ilhões, para se conservar até que se produza um m elhor que substitua e anule os precedentes. Nos corpos vivos, a variação causa as ligeiras m odificações, a reprodução m ultiplicaas quase ao infinito, e a seleção natural apodera-se de cada m elhoram ento com um a segurança infalível.
Adm itam os, enfim , que esta m archa se continua durante m ilhões de anos e se aplica durante cada um a m ilhões de indivíduos; poderem os nós adm itir então que se possa ter form ado assim um instrum ento óptico vivo, tão superior a um aparelho de vidro com o as obras do Criador são superiores às do hom em ?
MODOS DE TRANSIÇÕES
Se se chegasse a dem onstrar que existe um órgão com plexo que se não
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possa form ar por um a série de num erosas m odificações graduais e ligeiras, a m inha teoria não poderia certam ente defender-se. Mas não posso encontrar caso algum sem elhante. Sem dúvida, existem m uitos órgãos dos quais não conhecem os as transições sucessivas, sobretudo se exam inarm os as espécies m uito isoladas que, segundo a m inha teoria, foram expostas a um a grande extinção. Ou então, ainda, se tom arm os um órgão com um a todos os m em bros de um a classe, porque, neste últim o caso, este órgão deve ter surgido num a época rem ota desde a qual os num erosos m em bros desta classe se desenvolveram ; ora, para descobrir as prim eiras transições que sofreu este órgão, ser-nos-ia preciso exam inar as form as m uito antigas j á de há m uito extintas.
Não devem os concluir a im possibilidade da produção de um órgão por um a série gradual de transições de um a natureza qualquer a não ser com extrem a circunspeção. Poder-se-iam citar, nos anim ais inferiores, num erosos exem plos de um m esm o órgão exercendo ao m esm o tem po funções absolutam ente distintas. Assim , na larva da libelinha e no caboz (Cobites) o canal digestivo respira, digere e excreta. A hidra pode ser voltada de dentro para fora, e então a sua superfície exterior digere e o estôm ago respira. Em casos sem elhantes, a seleção natural poderia, se daí resultasse qualquer vantagem , especializar para um a única função todo ou parte de um órgão que até aí tivesse desem penhado duas funções, e m odificar tam bém consideravelm ente a sua natureza por graus insensíveis. Conhecem -se m uitas plantas que produzem regularm ente, ao m esm o tem po, flores diferentem ente constituídas; ora, se estas plantas não produzissem m ais que flores de um a única form a, um a m udança considerável se efetuaria no caráter da espécie com um a grande rapidez com parativa. Contudo, é provável que as duas espécies de flores produzidas pela m esm a planta sej am , no princípio, diferenciadas um a da outra por transições insensíveis que se podem ainda observar em alguns casos. Dois órgãos distintos, ou o m esm o órgão sob duas form as diferentes, podem desem penhar sim ultaneam ente a m esm a função no m esm o indivíduo, o que constitui um m odo m uito im portante de transição. Tom em os um exem plo: há peixes que respiram por guelras o ar dissolvido na água, e que podem , ao m esm o tem po, absorver o ar livre pela bexiga natatória, estando este últim o órgão cindido
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em divisões fortem ente vasculares e m unido de um canal pneum ático para a introdução do ar. Tom em os um outro exem plo no reino vegetal; as plantas sobem de três m aneiras diferentes, contornando-se em espirais, segurando-se a um suporte por gavinhas, ou ainda pela em issão de radículas aéreas. Estes três m odos observam -se ordinariam ente em grupos distintos, m as há algum as espécies em que se encontram dois destes m odos, ou m esm o os três com binados no m esm o indivíduo. Em casos sem elhantes um dos dois órgãos poderia facilm ente m odificar-se e aperfeiçoar-se de form a a desem penhar a função por si só; então, o outro órgão, depois de ter auxiliado o prim eiro no decurso do seu aperfeiçoam ento, poderia, por seu turno, m odificar-se para desem penhar um a função distinta, ou atrofiar-se com pletam ente.
O exem plo da bexiga natatória nos peixes é excelente, visto que nos dem onstra claram ente o fato im portante de um órgão prim itivam ente construído num ponto distinto, isto é, para fazer flutuar o anim al, poder converter-se em um órgão tendo um a função m uito diferente, isto é, a respiração. A bexiga natatória funciona tam bém , em certos peixes, com o um acessório do órgão do ouvido. Todos os fisiólogos adm item que pela conform ação e pela posição, a bexiga natatória é hom óloga ou idealm ente sem elhante aos pulm ões dos vertebrados superiores; estáse pois perfeitam ente seguro não adm itir que a bexiga natatória foi realm ente convertida em pulm ão, isto é, em um órgão exclusivam ente destinado à respiração. Pode concluir-se do que precede que todos os vertebrados providos de pulm ões descendem por geração ordinária de algum antigo protótipo desconhecido, que possuía um aparelho flutuador ou, por outra, um a bexiga natatória. Podem os assim , e é um a conclusão que tiro da interessante descrição que Owen fez destas partes, com preender o fato estranho de que tudo o que bebem os e que com em os deve passar adiante do orifício da traquéia, com risco de cair nos pulm ões, apesar do notável aparelho que perm ite a oclusão da glote. Nos vertebrados superiores, as guelras desaparecem com pletam ente; contudo, no em brião as fendas laterais do pescoço e a espécie de botoeira feita pelas artérias indicam ainda a posição prim itiva. Mas pode conceber-se que a seleção natural tenha podido adaptar as guelras, atualm ente desaparecidas por com pleto, em algum as fun- 204
ções m uito diferentes; Landois, por exem plo, dem onstrou que as asas dos insetos tiveram por origem a traquéia; é pois m uito provável que, nesta grande classe, os órgãos que serviam outrora à respiração se encontrem transform ados em órgãos servindo para o vôo.
É tão im portante ter bem presente no espírito a probabilidade da transform ação de um a função em outra, quando se consideram as transições dos órgãos, que citarei um outro exem plo. Nota-se nos cirrípedes pedunculados duas pregas m em branosas, que cham ei freios ovígeros e que, com o auxílio de um a secreção viscosa, servem para reter os ovos no saco até que sej am nascidos. Os cirrípedes não têm guelras, toda a superfície do corpo, do saco e dos freios serve para a respiração. Os cirrípedes sésseis ou balanídeos, por outra parte, não possuem freios ovígeros, os ovos ficam livres inteiram ente na concha bem fechada; m as, num a posição correspondendo à que ocupam os freios, têm m em branas m uito extensas, com m uitas pregas, com unicando livrem ente com as lacunas circulatórias do saco e do corpo, e que todos os naturalistas têm considerado com o guelras. Ora, creio que não pode contestar-se que os freios ovígeros num a fam ília são estritam ente hom ólogos com as guelras de um a outra fam ília, porque se notam todas as gradações entre os dois aparelhos. Não deve pois duvidar-se que as duas pequenas rugas m em branosas que prim itivam ente serviam de freios ovígeros, auxiliando a respiração, foram gradualm ente transform adas em guelras pela seleção natural, por um sim ples aum ento de tam anho e pela atrofia das glândulas glutiníferas. Se todos os cirrípedes pedunculados que têm experim entado um a extinção m uito m ais considerável que os cirrípedes sésseis tivessem desaparecido com pletam ente, quem poderia j am ais im aginar que as guelras desta últim a fam ília eram prim itivam ente órgãos destinados a im pedir que os ovos não fossem arrastados para fora do saco?
O professor Cope e alguns outros naturalistas dos Estados Unidos insistiram , recentem ente, sobre um outro m odo possível de transição, consistindo num a aceleração ou atraso trazido à época da reprodução. Sabe-se atualm ente que alguns anim ais estão aptos a reproduzir-se num a idade m uito precoce, antes m esm o de terem adquirido os seus caracteres com pletos; ora, se esta faculdade che- 205
gasse a tom ar num a espécie um desenvolvim ento considerável, é provável que o estado adulto destes anim ais se perderia cedo ou tarde; neste caso, o caráter da espécie tenderia a m odificar-se e a deteriorar-se consideravelm ente, sobretudo se a larva diferisse m uito da form a adulta. Sabe-se ainda que há um núm ero bastante grande de anim ais que, depois de terem atingido a idade adulta, continuam a m udar de caráter durante quase toda a vida. Nos m am íferos, por exem plo, a idade m odifica algum as vezes m uito a form a do crânio, fato de que o Dr. Murie observou exem plos adm iráveis nas focas. Todos sabem que a com plicação das ram ificações dos cornos do veado aum enta m uito com a idade, e que as penas de algum as aves se desenvolvem m uito quando envelhecem . O professor Cope afirm a que os dentes de certos lagartos sofrem grandes m odificações de form a quando avançam em idade; Fritz Müller observou que os crustáceos, depois de atingirem a idade adulta, podem revestir caracteres novos, afetando não som ente partes insignificantes, m as m esm o partes m uito im portantes. Em todos estes casos-e são num erosos - se a idade da reprodução fosse retardada, o caráter da espécie m odificar-se-ía pelo m enos no estado adulto; é
m esm o provável que as fases anteriores e precoces do desenvolvim ento fossem , em alguns casos, precipitadas e finalm ente perdidas. Não posso em itir a opinião de que algum as espécies tenham sido várias vezes, ou não tenham sido m esm o m odificadas por este m odo de transição com parativam ente sucedâneo; m as, se o caso é apresentado, é provável que as diferenÇas entre os novos e os adultos e entre os adultos e os velhos fossem prim itivam ente adquiridas por graus insensíveis.
DIFICULDADES ESPECIAIS DA TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL
Apesar de que só com extrem a reserva devíam os adm itir a im possibilidade da form ação de um órgão por um a série de transições insensíveis, apresentam -se, contudo, alguns casos seriam ente difíceis.
Um dos m ais sérios é o dos insetos neutros, cuj a conform ação é m uitas vezes diferente por com pleto da dos m achos ou das fêm eas fecundas; tratarei este
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assunto no próxim o capítulo. Os órgãos elétricos dos peixes oferecem ainda grandes dificuldades, porque é im possível conceber por que fases sucessivas estes m aravilhosos aparelhos puderam desenvolver-se. Além de que, não há lugar para surpresas, pois não sabem os m esm o para que servem . No gim nonoto e no torpedo constituem esses órgãos, sem dúvida, um poderoso agente de defesa e talvez um m eio de agarrar a presa; além disso, na raia, que possui na cauda um órgão análogo, m anifesta-se pouca eletricidade, m esm o quando o anim al está m uito irritado, assim com o o observou Matteucci; m anifesta-se m esm o tão pouco, que a custo se pode supor neste órgão as funções que acabam os de indicar. Dem ais, com o o dem onstrou o Dr. R. Mac Donnell, a raia, além do órgão pré-citado, possui um outro j unto da cabeça; não se sabe se este últim o órgão é elétrico, m as parece ser absolutam ente análogo à bateria elétrica do torpedo. Adm ite-se geralm ente que existe um a estreita analogia entre estes órgãos e o m úsculo ordinário, tanto na estrutura íntim a e na distribuição dos nervos, com o na ação que exercem sobre eles diversos reagentes. É preciso, sobretudo, observar que um a descarga elétrica acom panha as contrações m usculares, e, com o afirm a o Dr. Radcliffe, « no estado de repouso o aparelho elétrico do torpedo parece ser a sede de um a descarga m uito sem elhante à que se efetua nos m úsculos e nos nervos no estado de inação, e o choque produzido pela descarga súbita do aparelho do torpedo não seria de form a algum a um a força de natureza particular, m as sim plesm ente um a outra form a da descarga que acom panha a ação dos m úsculos e do nervo m otor» . Não podem os atualm ente ir m ais longe com a explicação; m as, com o nada sabem os relativam ente aos hábitos e conform ação dos antepassados dos peixes elétricos existentes, seria extrem am ente tem erário afirm ar a im possibilidade de estes órgãos poderem desenvolver-se gradualm ente em virtude de transições vantaj osas. Um a dificuldade m uito m ais séria ainda parece em baraçar-nos quando se trata destes órgãos; encontram -se, com efeito, num a dúzia de espécies de peixes, dos quais alguns são m uito alongados pelas suas afinidades. Quando um m esm o órgão se encontra em m uitos indivíduos da m esm a classe, sobretudo nos indivíduos tendo hábitos de vida m uito diferentes, podem os ordinariam ente atribuir este órgão a um antepassado com um que o transm itisse
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por hereditariedade aos descendentes; podem os, além disso, atribuir a sua falta, em alguns indivíduos da m esm a classe, a um desaparecim ento provindo do não uso ou da ação da seleção natural. De tal m aneira que, se os órgãos provinham por hereditariedade de algum rem oto antepassado, poderíam os atender a que todos os peixes elétricos seriam m uito particularm ente aliados uns aos outros; m as tal não é certam ente o caso. Dem ais, a geologia não nos perm ite pensar que a m aior parte dos peixes possuíam outrora órgãos elétricos que os descendentes m odificados hoj e perderam . Todavia, se estudarm os este assunto de m ais perto, com preendem os que os órgãos elétricos ocupam diferentes partes do corpo de alguns peixes que os possuem ; que a conform ação destes órgãos difere com relação ao arranj o das placas, e, segundo Pacini, com relação aos m eios em pregados para excitar a eletricidade, e, enfim , que estes órgãos estão providos de nervos vindos de diferentes partes do corpo, e talvez esta a diferença m ais im portante de todas. Não se podem , pois, considerar estes órgãos elétricos com o hom ólogos, quando m uito podem considerar-se com o análogos com relação à função. Não há, pois, razão algum a para supor que provenham por hereditariedade de um antepassado com um ; se se adm itisse, com efeito, esta com unhão de origem , estes órgãos deveriam assem elhar-se exatam ente a todos os respeitos. Assim se desvanece a dificuldade inerente ao fato de um órgão, aparentem ente o m esm o, se encontrar em algum as espécies afastadas um as das outras; fica-nos, contudo, para explicar esta outra dificuldade, m enor certam ente, m as considerável ainda: por que série de transições passaram estes órgãos em cada grupo separado de peixes?
Os órgãos lum inosos que se encontram em alguns insetos pertencendo a fam ílias m uito diferentes e que estão situados em diversas partes do corpo, oferecem , no nosso estado de ignorância atual, um a dificuldade absolutam ente igual à
dos órgãos elétricos. Poder-se-iam citar outros casos análogos; nas plantas, por exem plo, a disposição curiosa por m eio da qual um a m assa de pólen sustentada por um pedúnculo com um a glândula adesiva, é evidentem ente a m esm a nas orquídeas e nas asclépias - gêneros afastados tanto quanto possível das plantas com flores; -m as, aqui ainda, as partes não são hom ólogas. Em todos os casos
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em que os seres, m uito afastados entre si na escala da organização, são providos de órgãos particulares e análogos, nota-se que, posto que o aspecto geral e a função destes órgãos possam ser os m esm os, podem , contudo, discernir-se sem pre entre eles algum as diferenças fundam entais. Por exem plo, os olhos dos cefalópodes e dos vertebrados parecem absolutam ente sem elhantes; ora, nos grupos tão afastados uns dos outros, nenhum a parte desta sem elhança pode ser atribuída à
transm issão por hereditariedade de um caráter possuído por um antepassado com um . M. Mivart apresentou este caso com o oferecendo um a dificuldade especial, m as é-m e im possível descobrir o valor do seu argum ento. Um órgão destinado à
visão deve com por-se de tecidos transparentes e conter um a lente qualquer para perm itir a form ação de um a im agem no fundo de um a câm ara escura. Além desta sem elhança superficial, não há analogia algum a real entre os olhos dos chocos e os dos vertebrados; contudo, podem convencer-se, consultando a adm irável m em ória de Hensen a respeito dos olhos dos cefalópodes. É-m e im possível entrar aqui em particularidades; posso, contudo, indicar alguns pontos de diferença. O
cristalino, nas sibas m elhor organizadas, com põe-se de duas partes colocadas um a atrás da outra e form a com o que duas lentes que, j untam ente, têm um a conform ação e um a disposição m uito diversas das dos vertebrados. A retina é com pletam ente dessem elhante; apresenta, com efeito, um a inversão real dos elem entos constitutivos e as m em branas form ando os invólucros do olho contêm um grande gânglio nervoso. As relações dos m úsculos são tão diferentes quanto é
possível e é o m esm o para outros pontos. Daqui resulta um a grande dificuldade em apreciar até que ponto convém em pregar os m esm os term os na descrição dos olhos dos cefalópodes e dos vertebrados. Pode, diga-se de passagem , negar-se que, em cada um destes casos, o olho pudesse desenvolver-se pela seleção natural com ligeiras variações sucessivas; m as, se se adm ite para um , este sistem a é
evidentem ente possível para outro, e pode-se, aceite este m odo de form ação, deduzir por antecipação as diferenças fundam entais existindo na estrutura dos órgãos visuais dos dois grupos. Da m esm a form a que dois hom ens fazem algum as vezes a m esm a invenção, independentem ente um do outro, da m esm a form a tam bém parece que nos casos pré-citados, a seleção natural, atuando pelo bem
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de cada ser e aproveitando todas as variações favoráveis, produz órgãos análogos, pelo m enos no que diz respeito à função, em seres organizados distintos que nada devem de analogia de conform ação que neles se nota à herança de um antepassado com um . Fritz Müller seguiu com m uito cuidado um a argum entação quase análoga para tirar as conclusões indicadas neste volum e. Várias fam ílias de crustáceos com preendem algum as espécies providas de um aparelho respiratório que lhes perm ite viver fora da água. Em duas destas fam ílias m uito próxim as, que foram m ais particularm ente estudadas por Müller, as espécies parecem -se, por todos os caracteres im portantes, a saber: os órgãos dos sentidos, o sistem a circulatório, a posição dos tufos do pelo que forram os seus estôm agos com plexos, enfim , toda a estrutura das guelras que lhes perm ite respirar na água, até aos ganchos m icroscópicos que servem para as lim par. Poder-se-ia pois esperar que, em algum as espécies das duas fam ílias que vivem em terra, os aparelhos igualm ente im portantes da respiração aérea fossem sem elhantes; m as porque m otivo se encontra diferente este aparelho, destinado nestas espécies a um m esm o fim especial, enquanto os outros órgãos im portantes são m uito sem elhantes ou m esm o idênticos?
Fritz Müller sustenta que esta sem elhança em tantos pontos de conform ação deve, segundo a teoria que defendo, explicar-se por um a transm issão hereditária que vai até um antepassado com um . Mas com o a grande m aioria das espécies que pertencem às duas fam ílias pré-citadas, da m esm a m aneira que todos os outros crustáceos, têm hábitos aquáticos, é extrem am ente im provável que o antepassado com um fosse provido de um aparelho adaptado à respiração aérea. Müller foi assim levado a exam inar com cuidado este aparelho respiratório nas espécies que dele são providas; viu que este aparelho difere, em cada um a delas, em m uitas relações im portantes, com o, por exem plo, a posição dos orifícios, o m odo de abrir e fechar, e algum as particularidades acessórias. Ora, não se explicam estas diferenças, nem m esm o poderia esperar-se encontrá-las, na hipótese de certas espécies pertencendo a fam ílias distintas serem pouco a pouco adaptadas a viver cada vez m ais fora da água e a respirar o ar livre. Estas espécies, com efeito, pertencendo a fam ílias diversas, deveriam diferir até certo ponto; ora, a sua
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variabilidade não devia ser exatam ente a m esm a, em virtude do princípio de que a natureza de cada variação depende de dois fatores, isto é, da natureza do organism o e das condições am bientes. A seleção natural, por conseqüência, deveria atuar sobre elem entos ou variações de natureza diferente, a fim de chegar a um m esm o resultado funcional, e as conform ações assim adquiridas devem necessariam ente diferir. Na hipótese de criações independentes, este caso fica ininteligível com pletam ente. A série de raciocínios que precedem , parece ter tido um a grande influência para determ inar Fritz a adotar as idéias que tenho desenvolvido na presente obra. Um outro zoólogo distinto, o falecido professor Claparède, chegou ao m esm o resultado raciocinando da m esm a form a. Dem onstra que certos ácaros parasitas, pertencendo a subfam ílias e a fam ílias distintas, são providos de órgãos que lhes servem para se segurar aos pêlos. Estes órgãos devem desenvolver-se de um a m aneira independente e não podem ser transm itidos por um antepassado com um ; nos diversos grupos, estes órgãos são form ados por um a m odificação das patas anteriores, das patas posteriores, das m andíbulas ou lábios, e dos apêndices da face inferior da parte posterior do corpo. Nos diferentes exem plos que acabam os de discutir, vim os que, nos seres m ais ou m enos afastados uns dos outros, um m esm o fim é atingido e um a m esm a função desem penhada por órgãos assaz sem elhantes na aparência, m as que o não são na realidade. Dem ais, é regra geral na natureza, que o m esm o fim sej a atingido pelos m eios m ais diversos, m esm o nos seres que têm entre si estreitas afinidades. Que diferença de construção não há, com efeito, entre a asa em plum ada de um a ave e a asa m em branosa do m orcego; e, m ais ainda, entre as quatro asas da borboleta, as duas asas da m osca, as duas asas e os dois élitros de um coleóptero? As conchas bivalves são construídas para abrir e fechar; m as que variedade de m odelos se notam na conform ação da charneira, desde a longa série de dentes que se encaixam regularm ente uns nos outros na núcula, até ao sim ples ligam ento da am êij oa? A dissem inação das sem entes dos vegetais é favorecida pela pequenez, pela conversão das cápsulas num ligeiro invólucro em form a de balão, pela situação ao centro de um a polpa carnuda com posta das m ais diver- 211
sas partes, tornada nutritiva, revestida de vistosas cores de m aneira a cham ar a atenção das aves que as devoram , pela presença de ganchos, de arpéus de várias form as, de barbas denteladas, por m eio dos quais aderem aos pelos dos anim ais; pela existência de asas e de tufos tão variados pela form a com o elegantes pela estrutura, que fazem o brinquedo da m enor corrente de ar. A realização do m esm o fim pelos m eios m ais diversos é tão im portante, que citarei ainda um exem plo. Alguns autores sustentam que, se os seres organizados foram talhados de tantas m aneiras diferentes, é por sim ples am or da variedade, com o os brinquedos num bazar; m as um a tal idéia da natureza é inadm issível. Nas plantas que têm os sexos separados assim com o naquelas que, se bem que herm afroditas, não podem fazer cair espontaneam ente o pólen sobre os estigm as, é necessário um concurso acessório para que a fecundação sej a possível. Num as, o pólen em grânulos m uito leves e não aderentes é levado pelo vento, e lançado assim sobre o estigm a por m ero acaso; é o m odo m ais sim ples que se pode conceber. Há um outro bem diferente, ainda que sej a igualm ente sim ples: consiste em que um a flor sim étrica segrega algum as gotas de néctar procurado pelos insetos, que, introduzindo-se na corola para o recolher, transportam o pólen das anteras aos estigm as.
Partindo deste estado tão sim ples, encontram os um núm ero infinito de com binações tendo todas um m esm o fim , realizado de um a m aneira análoga, m as arrastando m odificações em todas as partes da flor. Logo que o néctar está arm azenado em receptáculos afetando as form as m ais diversas, os estam es e os pistilos são tam bém m odificados de diferentes m aneiras, algum as vezes são dispostos em laços, outras vezes tam bém são suscetíveis de m ovim entos determ inados por irritabilidade e elasticidade. Partindo daí, poderem os passar em revista quantidades inum eráveis de conform ações para chegar, enfim , a um caso extraordinário de adaptação que o Dr. Crüger recentem ente descreveu nos coriandros. Um a parte do lábio inferior (labelluin) desta orquídea é escavado de m aneira a form ar um a grande tina onde caem continuam ente gotas de água quase pura segregada por duas pontas colocadas por cim a; logo que a tina está sem i-cheia, a água escoa-se por um canal lateral. A base do labellum que se encontra por cim a da tina é por si
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m esm a escavada e form a um a espécie do aposento provido de duas entradas laterais; neste aposento encontram -se excrescências carnudas m uito curiosas. O
hom em m ais engenhoso não poderá im aginar para que servem todos estes aparelhos se não for testem unha do que se passa. O Dr. Cruger notou que m uitos zangões visitam as flores desta orquídea não para sugar o néctar, m as para roer as saliências carnudas que encerra a câm ara colocada por cim a da tina; fazendo isto, os zangões lançam -se freqüentem ente uns aos outros na água, banham as asas e, não podendo fugir, são obrigados a passar pelo canal lateral que serve de despej o do tanque. O Dr. Cruger viu um a procissão contínua de zangões saindo assim do seu banho involuntário. A passagem é estreita e coberta pela coluna de tal m aneira que o inseto, abrindo aí um cam inho, roça a princípio o dorso contra o estigm a viscoso e em seguida contra as glândulas igualm ente viscosas das m assas de pólen. Estas aderem ao dorso do prim eiro zangão que atravessou a passagem e este as leva. O Dr. Crüger enviou-m e em álcool um a flor contendo um zangão m orto antes que se desem baraçasse com pletam ente da passagem e no dorso do qual se vê um a m assa de pólen. Quando o zangão assim carregado de pólen foge para outra flor ou torna um a segunda vez à m esm a e que, im pelido por seus cam aradas, cai na água e torna a sair pela passagem , a m assa de pólen que leva sobre o lado acha-se necessariam ente em contato com o estigm a viscoso, adere-lhe e a flor assim é fecundada. Com preendem os então a utilidade de todas as partes da flor, das pontas segregando a água, da tina sem i-cheia que im pede os zangões de fugir e os força a introduzir-se no canal para sair e por isso m esm o a roçar-se contra o pólen e contra o estigm a igualm ente viscosos. A flor de um a outra orquídea m uito próxim a, o Cataseturiz, tem um a construção igualm ente engenhosa, que corresponde ao m esm o fim , posto que sej a m uito diferente. Os zangões visitam esta flor com o a do coriandro para lhe roer o label um ; tocam pois, inevitavelm ente um a longa peça afilada, sensível, que cham ei antena. Esta, desde que lhe tocam , faz vibrar um a certa m em brana que se rom pe im ediatam ente; esta ruptura faz m over um a m ola que proj eta o pólen com a rapidez de um a flecha na direção do inseto ao dorso do qual adere pela extrem i-213
dade viscosa. O pólen da flor m asculina (porque, nesta orquídea, os sexos são separados) é assim transportado à flor fem inina, onde se encontra em contato com o estigm a, bastante viscoso para quebrar certos fios elásticos; o estigm a retém o pólen e é assim fecundado. Pode perguntar-se com o, nestes casos precedentes e num a série de outros, se chegam a explicar todos estes graus de com plicação e estes m eios tão diversos para obter o m esm o resultado. Pode responder-se, sem dúvida algum a, que, com o j á o fizem os notar, quando duas form as que diferem entre si em certo grau com eçam a variar, a sua variabilidade não é idêntica e, por conseqüência, os resultados obtidos pela seleção natural, ainda que tendam para o m esm o fim geral, não devem tam bém ser idênticos. É preciso lem brar igualm ente que todos os organism os m uito desenvolvidos sofreram num erosas m odificações; ora, com o cada conform ação m odificada tende a transm itir-se por hereditariedade, é raro que um a m odificação desapareça com pletam ente sem ter sofrido novas alterações. Daqui resulta que a conform ação das diferentes partes de um a espécie, para qualquer uso que estas partes sirvam além disso, representa a som a de num erosas alterações hereditárias que a espécie tem sucessivam ente experim entado, para adaptar-se a novos hábitos e a novas condições de existência. Enfim , ainda que, em m uitos casos, sej a m uito difícil fazer m esm o a m enor conj ectura sobre as transições sucessivas que trouxeram os órgãos ao estado natural, estou contudo adm irado, pensando quanto é m ínim a a proporção entre as form as vivas e conhecidas e as que são extintas e desconhecidas, de que sej a tão raro encontrar um órgão de que se não possam indicar alguns estados de transição. É certam ente verdadeiro que se vêem raram ente aparecer num indivíduo novos órgãos que parecem ter sido criados com um fim especial; é m esm o o que dem onstra o velho axiom a de história natural de que se tem exagerado um pouco a significação: Natura non facit saltum . A m aior parte dos naturalistas experim entados adm item a verdade deste adágio; ou, para em pregar as expressões de Mine Edwards, a natureza é pródiga em variedades, m as avara em inovações. Para que haverá, na hipótese das criações, tantas variedades e tão poucas novidades reais? Porque é que todas as partes, todos os órgãos de tantos seres independen- 214
tes, criadas, com o se supõe, separadam ente para ocupar um lugar distinto na natureza, estiveram tão ordinariam ente ligadas um as às outras por um a série de gradações? Porque não teria passado a natureza sim ultaneam ente de um a conform ação para outra? A teoria da seleção natural faz-nos com preender claram ente porque não sucede assim ; a seleção natural, com efeito, atua apenas aproveitando leves variações sucessivas, não pode pois j am ais dar saltos bruscos e consideráveis, só pode avançar por graus insignificantes, lentos e seguros.
AÇÃO DA SELEÇÃO NATURAL SOBRE OS ÓRG ÃOS POUCO IMPORTANTES NA APARÊNCIA
A seleção natural atuando som ente pela vida e pela m orte, pela persistência do m ais apto e pela elim inação dos indivíduos m enos aperfeiçoados, experim entei algum as vezes grandes dificuldades para m e explicar a origem ou a form ação de partes pouco im portantes; as dificuldades são tão grandes, neste caso, com o quando se trata dos órgãos m ais perfeitos e m ais com plexos, porém são de um a natureza diferente.
Em prim eiro lugar, a nossa ignorância é tão grande relativam ente ao conj unto da econom ia orgânica de um ser qualquer, para que possam os dizer quais são as m odificações im portantes e quais as m odificações sem valor. Num capítulo precedente, indiquei alguns caracteres insignificantes, tais com o a lanugem dos frutos ou a cor do pericarpo, a cor da pele e dos pêlos dos quadrúpedes, sobre os quais, em razão da sua relação com as diferenças constitucionais, ou em razão de determ inarem os ataques de certos insetos, a seleção natural pôde certam ente exercer qualquer ação. A cauda da girafa assem elha-se a um caça-m oscas artificial; parece então inacreditável que este órgão pudesse ser adaptado ao uso atual por um a série de ligeiras m odificações que seriam m elhor apropriadas a um fim tão insignificante com o o de caçar m oscas. Devem os refletir, contudo, antes de qualquer afirm ação positiva m esm o neste caso, porque sabem os que a existência e a distribuição do gado silvestre e de outros anim ais na Am érica Meridional dependem absolutam ente da sua aptidão para resistir aos ataques dos insetos; de
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m aneira que os indivíduos que têm m eios de se defender destes pequenos inim igos podem ocupar novas pastagens e assegurar-se assim de grandes proveitos. Não é porque, com raras exceções, os grandes m am íferos possam ser realm ente destruídos pelas m oscas, m as são de tal m aneira cansados e enfraquecidos pelos ataques incessantes, que estão m ais expostos às doenças e m enos em estado de procurar a nutrição em tem po de carestia, ou escapar aos anim ais ferozes. Os órgãos hoj e insignificantes têm tido provavelm ente, em alguns casos, um a alta im portância para um rem oto antepassado. Depois de se aperfeiçoarem lentam ente em qualquer período anterior, estes órgãos transm item -se às espécies existentes quase no m esm o estado, apesar de lhes servirem hoj e de m uito pouco; não quer isto dizer que a seleção natural arrastasse todo o desvio im profícuo à
conform ação delas. Poder-se-ia talvez explicar a presença habitual da cauda e os num erosos usos para que serve este órgão em tantos anim ais terrestres cuj os pulm ões ou bexigas natatórias m odificadas revelam a origem aquática, pelo papel im portante que desem penha a cauda, com o órgão de locom oção em todos os anim ais aquáticos. Um a cauda bem desenvolvida estando form ada num anim al aquático, pode ser em seguida m odificada para diversos usos, com o apanham oscas, com o órgão preênsil, com o m eio de se voltar, no cão por exem plo, ainda que, nesta últim a relação, a im portância da cauda deve ser m uito dim inuta, visto que a lebre, que quase não tem cauda, se volta ainda m ais rapidam ente que o cão.
Em segundo lugar, podem os facilm ente enganar-nos atribuindo im portância a certos caracteres e j ulgando que são devidos à ação da seleção natural. Não devem os perder de vista os efeitos que podem produzir a ação definida das m udanças nas condições de existência - as pretendidas variações espontâneas que parecem depender, num fraco grau, da natureza das condições am bientes - a tendência ao regresso aos caracteres desde há m uito perdidos - as leis com plexas do crescim ento, tais com o a correlação, a com pensação, a pressão que um a parte pode exercer sobre outra, etc. - e, enfim , a seleção sexual, que determ ina m uitas vezes a form ação de caracteres úteis a um dos sexos e em seguida a sua transm issão m ais ou m enos com pleta ao outro sexo para o qual não têm utilidade al- 216
gum a. Todavia, as conform ações assim produzidas indiretam ente, ainda que sem vantagens para a espécie, podem , depois, tornar-se úteis à sua descendência m odificada que se encontra em novas condições vitais ou que adquiriu outros hábitos. Se não houvesse picanços verdes e não soubéssem os que há m uitas espécies de picanços de cor negra e m alhada, teríam os provavelm ente pensado que a cor verde do picanço é um a adm irável adaptação, destinada a dissim ular aos seus inim igos esta ave tão em inentem ente florestal. Teríam os, por conseqüência, ligado m uita im portância a este caráter e teríam o-lo atribuído à seleção natural; ora, esta cor é devida provavelm ente à seleção sexual. Um a palm eira trepadora do arquipélago m alaio eleva-se ao longo das árvores m ais altas por m eio de ganchos adm iravelm ente construídos e dispostos na extrem idade dos ram os. Este aparelho presta, sem dúvida, os m aiores serviços a esta planta; m as, com o podem os reconhecer ganchos quase sem elhantes em m uitas árvores que não são trepadoras e estes ganchos, se é necessário j ulgar pela distribuição das espécies espinhosas da África e da Am érica Meridional, devem servir de defesa às árvores contra os anim ais, da m esm a form a os ganchos da palm eira podem ter sido desenvolvidos na origem com o fim defensivo, para se aperfeiçoarem depois e ser utilizados pela planta quando sofreu novas m odificações e se tornou trepadora. Considera-se ordinariam ente a pele nua que cobre a cabeça do abutre com o um a adaptação direta que lhe perm ite escavar incessantem ente nas carnes em putrefação; o fato é possível, m as esta desnudação poderia ser devida tam bém à ação direta da m atéria pútrida. É necessário, contudo, não avançar por este terreno a não ser com um a extrem a prudência, porque sabe-se que o peru m acho tem a cabeça desnudada, e a sua nutrição é m uito diferente. Sustenta-se que as suturas do crânio, nos pequenos m am íferos, são adm iráveis adaptações que auxiliam o ato da parturição; não é duvidoso que elas facilitam este ato, e m esm o são indispensáveis. Mas, com o as suturas existem tam bém no crânio das avezinhas e dos pequenos répteis, que têm apenas de sair de um ovo quebrado, podem os concluir que esta conform ação é um a conseqüência das leis do crescim ento e que foi depois utilizada na parturição dos anim ais superiores.
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A nossa ignorância é profunda relativam ente às causas das ligeiras variações ou das diferenças individuais; nada seria m elhor para nos fazer com preender as diferenças que existem entre as raças dos anim ais dom ésticos nos diferentes países, e, m ais particularm ente, nos países pouco civilizados onde tem havido apenas pouca seleção m etódica. Os anim ais dom ésticos dos selvagens, nos diferentes países, têm m uitas vezes de prover à própria subsistência, e estão, até certo ponto, expostos à ação da seleção natural; ora, os indivíduos que têm constituições ligeiram ente diferentes, poderiam prosperar m ais em clim as diversos. No gado silvestre, a susceptibilidade aos ataques das m oscas está em relação com a cor: o m esm o sucede com a ação venenosa de certas plantas, de tal m aneira que a própria coloração se acha assim subm etida à ação da seleção natural. Alguns observadores estão convencidos que a um idade do clim a afeta o crescim ento dos pêlos e que existe certa relação entre os pêlos e os chifres. As raças das m ontanhas diferem sem pre das raças das planícies; um a região m ontanhosa deve exercer provavelm ente determ inada influência sobre os m em bros posteriores porque têm um trabalho m ais rude a desem penhar, e talvez m esm o tam bém sobre a form a da bacia; por conseqüência, em virtude da lei das variações hom ólogas, os m em bros anteriores e a cabeça devem provavelm ente ser afetados tam bém . A form a da bacia poderia tam bém afetar, pela pressão, a form a de algum as partes do anim alzinho no seio da m ãe. A influência das altas regiões na respiração tende, com o tem os boa razão para acreditar, a aum entar a capacidade do peito e a determ inar, por correlação, outras alterações. A falta de exercício j unta a um a abundante nutrição tem provavelm ente, sobre todo o organism o, efeitos ainda m ais im portantes; é isto, sem dúvida, com o H. von Nathusius acaba de dem onstrar recentem ente, no seu excelente tratado, a causa principal das grandes m odificações que sofreram as raças porcinas. Mas som os dem asiado ignorantes para poder discutir a im portância relativa das causas conhecidas e desconhecidas da variação; tenho feito, pois, as notas que precedem unicam ente para dem onstrar que, se nos é im possível avaliar as diferenças características das raças dom ésticas, ainda que se adm ita geralm ente que estas raças derivam diretam ente da m esm a origem ou de um m uito pequeno núm ero de origens, não deveríam os insistir m uito
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sobre a nossa ignorância quanto às causas precisas das ligeiras diferenças que existem entre as verdadeiras espécies.
ATÉ Q UE PONTO É VERDADEIRA A DOUTRINA UTILITÁRIA; COMO SE ADQ UIRE A BELEZA
As observações precedentes levam -m e a dizer algum as palavras sobre o protesto que fizeram alguns naturalistas contra a doutrina utilitária, após a qual cada particularidade de conform ação se produziu para vantagem do seu possuidor. Sustentam que m uitas conform ações foram criadas por sim ples am or da beleza, para encantar os olhos do hom em ou os do Criador (este últim o ponto, contudo, está fora da discussão científica), ou por m ero am or da variedade, ponto que j á discutim os. Se estas doutrinas fossem fundadas, seriam absolutam ente fatais à
m inha teoria. Adm ito com pletam ente que m uitas conform ações j á não têm hoj e utilidade absoluta para o seu possuidor, e, talvez nunca fossem úteis aos seus antepassados; m as isto não prova que estas conform ações tenham tido unicam ente por causa a beleza e a variedade. Sem dúvida algum a, a ação definida da m udança das condições e as diversas causas de m odificações que indicam os têm produzido em conj unto um efeito provavelm ente m uito grande, independentem ente das vantagens assim adquiridas. Mas, e é esta um a consideração ainda m ais im portante, a m aior parte do organism o de cada criatura vivente é-lhe transm itido por herança; por conseguinte, ainda que decerto cada indivíduo sej a perfeitam ente apropriado ao lugar que ocupa na natureza, m uitas conform ações não têm hoj e relação bem direta e bem íntim a com as suas novas condições de existência. Assim , é difícil acreditar que os pés palm ados do ganso que habita as regiões elevadas, ou os da fragata, tenham um a utilidade m uito especial para estas aves; não podem os acreditar que os ossos sim ilares que se encontram no braço do m acaco, na perna anterior do cavalo, na asa do m orcego e na palheta da foca tenham utilidade especial para estes anim ais. Podem os pois, com toda a segurança, atribuir estas conform ações à hereditariedade. Mas, sem dúvida algum a, os pés palm ados foram tam bém úteis ao antepassado do ganso terrestre e da fragata, que são hoj e
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na m aior parte aves aquáticas. Podem os acreditar tam bém que o antepassado da foca não tinha um a palheta, m as um pé com cinco dedos, próprio para prender ou para m archar; podem os talvez acreditar, além disso, que os diversos ossos que entram na constituição dos m em bros do m acaco, do cavalo e do m orcego foram prim itivam ente desenvolvidos em virtude do princípio da utilidade, e que provieram provavelm ente da redução de ossos m ais num erosos que se encontravam na barbatana de algum antepassado rem oto, parecendo um peixe, antepassado de toda a classe. É a custo possível determ inar que parte é necessário atribuir às diferentes causas de alterações, tais com o a ação definida das condições am bientes, as pretendidas variações espontâneas e as leis com plexas do crescim ento; m as, depois de ter feito estas im portantes reservas, podem os concluir que toda a m inúcia de conform ação em cada ser vivo é ainda hoj e, ou foi outrora, direta ou indiretam ente útil ao seu possuidor.Quanto à opinião de que os seres organizados receberam a beleza para agradar ao hom em -opinião subversiva de toda a m inha teoria - farei, contudo, prim eiram ente notar que o sentido do belo depende evidentem ente da natureza do espírito, independentem ente de toda a qualidade real no obj eto adm irado, e que a Mela do belo não é inata ou inalterável. A prova desta asserção, é que os hom ens de diferentes raças adm iram , nas m ulheres, um tipo de beleza absolutam ente diferente. Se os belos obj etos fossem apenas criados para agradar ao hom em , seria necessário dem onstrar que havia m enos beleza sobre a Terra antes que o hom em tivesse aparecido em cena. As adm iráveis volutas e os cones da época cocênia, os am onitas tão elegantem ente esculpidos, do período secundário, foram criados para que o hom em pudesse, após m ilhares de séculos m ais tarde, adm irá-los nos seus m useus? Há poucos obj etos tão adm iráveis com o os delicados invólucros siliciosos das diatom áceas; foram , pois, criados para que o hom em possa exam iná-los e adm irá-los servindo-se dos m ais fortes aum entos do m icroscópio? Neste últim o caso, com o em m uitos outros, a beleza depende por com pleto da sim etria de crescim ento. Colocam -se as flores no núm ero das m ais belas produções da natureza; m as tornaram -se brilhantes, e, por conseqüência, belas, para fazer contraste com as folhas verdes, de form a que os insetos possam distingui-las facilm ente. Cheguei a esta conclusão, porque encon- 220
trei, com o regra invariável, que as flores fecundadas pelo vento, não têm j am ais um a corola revestida de brilhantes cores. Diversas plantas produzem ordinariam ente duas espécies de flores: um as abertas e com cores brilhantes de form a a atrair os insetos, outras fechadas, incolores, privadas de néctar, e que os insetos nunca visitam . Podíam os concluir que, se os insetos se não tivessem desenvolvido à superfície da terra, as nossas plantas não estariam cobertas de flores adm iráveis e apenas teriam produzido as tristes flores que vem os nos pinheiros, nos carvalhos, nas nogueiras, nos freixos, nas gram íneas, nos espinafres, nas urtigas, que são todas fecundadas pela ação do vento. O m esm o raciocínio pode aplicarse aos frutos; todos adm item que um m orango ou um a cerej a bem m adura é tão agradável à vista com o ao paladar; que os frutos vivam ente coloridos do psilo e as bagas escarlates do azevinho são adm iráveis obj etos. Mas esta beleza não tem outro fim que não sej a atrair as aves e os insetos, para que devorando os frutos dissem inem as sem entes; observei, com efeito, e não há exceção a esta regra, que as sem entes são sem pre assim dissem inadas quando são envolvidas de um fruto qualquer (isto é, quando estão encerradas num a m assa carnuda) com a condição de que este fruto tenha um a coloração brilhante ou que sej a m uito aparente porque é branco ou negro.
Adem ais, adm ito de bom grado que um grande núm ero de anim ais m achos, tais com o todas as nossas aves m ais m agníficas, alguns répteis, alguns m am íferos, e um a série de borboletas adm iravelm ente coloridas, adquiriram a beleza pela sua própria beleza; m as obteve-se este resultado pela seleção sexual, isto é, porque as fêm eas escolheram continuam ente os m ais belos m achos; este em belezam ento não teve, pois, por obj eto o ser agradável ao hom em . Poder-se-iam fazer as m esm as referências relativam ente ao canto das aves. Lícito nos é concluir, de tudo o que precede, que um a grande parte do reino anim al possui pouco m ais ou m enos o m esm o gosto para as belas cores e para a m úsica. Quando a fêm ea é
tão brilhantem ente colorida com o o m acho, o que é raro nas aves e nas borboletas, isto parece resultar de que as cores adquiridas pela seleção sexual foram transm itidas aos dois sexos em lugar de ser som ente aos m achos. Com o é que o sentim ento da beleza, na form a m ais sim ples, isto é, a sensação de prazer particu- 221
lar que inspiram certas cores, certas form as e certos sons, foi prim itivam ente desenvolvido no hom em e nos anim ais inferiores? É um ponto m uito obscuro. Encontram o-nos, além disso, nas m esm as dificuldades se quiserm os explicar com o certos sabores e certos perfum es nos im pressionam adm iravelm ente, enquanto que outros nos causam um a aversão geral. Em todos estes casos, o hábito parece ter desem penhado um certo papel; m as estas sensações devem ter algum as causas fundam entais na constituição do sistem a nervoso de cada espécie. A seleção natural não pode, de m aneira algum a, produzir m odificações num a espécie com o fim exclusivo de assegurar um a vantagem a um a outra espécie, ainda que, na natureza, um a espécie procura incessantem ente tirar vantagem ou aproveitar-se da conform ação das outras. Mas a seleção natural pode m uitas vezes produzir - e nós tem os num erosas provas de que ela o faz -conform ações diretam ente prej udiciais a outros anim ais, tais com o os ganchos da víbora e o ovopositor do icnêum on, que lhe perm ite depositar os ovos no corpo de outros insetos vivos. Se se conseguisse provar que um a parte qualquer da conform ação de um a dada espécie foi form ada com o fim exclusivo de procurar certas vantagens a outra espécie, seria a ruína da m inha teoria; estas partes, com efeito, não poderiam ser produzidas pela seleção natural. Ora, posto que nas obras sobre a história natural se citem num erosos exem plos para este efeito, não pude encontrar um único que m e parecesse ter algum valor. Adm ite-se que a cobra cascavel está arm ada de ganchos venenosos para a sua própria defesa e para destruir a sua presa: m as alguns escritores supõem ao m esm o tem po em que esta serpente está
provida de um aparelho sonoro que, advertindo a sua presa, lhe causa um prej uízo. Acreditaria isto de tão bom grado com o que o gato recurva a extrem idade da cauda, quando se prepara para saltar, com o único fim de advertir o rato que desej a apanhar. A explicação m ais provável é que a serpente cascavel agita o aparelho sonoro, com o a cobra enche o papo, a víbora se tum efaz, no m om ento em que em ite o silvo tão duro e tão violento, com o fim de assustar as aves e os anim ais selvagens que atacam m esm o as espécies m ais venenosas. As serpentes, num a palavra, operam em virtude da m esm a causa que faz a galinha erriçar as penas e estender as asas quando um cão se aproxim a dos pintainhos. Mas falta-m e o es- 222
paço para entrar em m ais m inudências sobre os num erosos m eios que em pregam os anim ais para tentar intim idar os seus inim igos.
A seleção natural não pode determ inar num indivíduo um a conform ação que lhe sej a m ais nociva do que útil, porque som ente pode atuar por e para seu bem . Com o Paley o fez notar, órgão algum se form a com o fim de causar um a dor ou um prej uízo ao seu possuidor. Se se estabelece j ustam ente a balança do bem e do m al causados por cada parte, aperceber-se-á que por fim cada um a delas é
vantaj osa. Se, no decorrer dos tem pos, nas condições de novas existências, um a parte qualquer se torna nociva, m odifica-se; se assim não for, o ser extingue-se, com o tantos m ilhões de outros seres se extinguiram antes dele. A seleção natural tende som ente a tornar cada ser organizado tão perfeito, ou um pouco m ais perfeito, que os outros habitantes do m esm o país com os quais se encontra em concorrência. É isto, sem refutação, o cúm ulo da perfeição que se pode produzir no estado de natureza. As produções indígenas da Nova Zelândia, por exem plo, são perfeitas se as com pararm os entre si, m as cedem hoj e o terreno e desaparecem rapidam ente ante as legiões invasoras de plantas e de anim ais im portados da Europa. A seleção natural não produz a perfeição absoluta; tanto quanto o podem os j ulgar, além de que não é no estado da natureza que nós encontram os estes altos graus. Segundo Müller, a correlação para a aberração da luz não é perfeita, m esm o no m ais perfeito de todos os órgãos, o olho hum ano. Helm holtz, de que ninguém pode contestar o critério, depois de ter descrito nos term os m ais entusiastas o m aravilhoso poder do olho hum ano, j unta estas singulares palavras: « O que tem os descoberto de inexato e de im perfeito na m áquina óptica e na produção da im agem sobre a retina não é nada com parativam ente com as fantasias que encontram os no dom ínio da sensação. Pareceria que a natureza tivera prazer em acum ular as contradições para tirar todo o fundam ento à
teoria de um a harm onia pré-existente entre os m undos interiores e exteriores» . Se a nossa razão nos leva a adm irar com entusiasm o um a série de disposições inim itáveis da natureza, esta m esm a razão nos diz, apesar de que nos podem os enganar facilm ente nestes dois casos, que algum as outras disposições são m enos perfeitas. Podem os nós, por exem plo, considerar com o perfeito o aguilhão da abelha,
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que ela não pode, sob pena de perder as vísceras, retirar da ferida que faz a certos inim igos, porque este aguilhão é dentado, disposição que causa necessariam ente a m orte do inseto?
Se considerarm os o aguilhão da abelha com o tendo existido em qualquer rem oto antepassado em estado de instrum ento perfurante e dentado, com o se encontra em tantos m em bros da m esm a ordem de insetos; que, depois, este instrum ento sej a m odificado sem se aperfeiçoar para preencher o seu fim atual, e que o veneno, que ele segrega, prim itivam ente adaptado a algum outro uso, tal com o a produção de galhas, tenha tam bém aum entado de poder, podem os talvez com preender com o sucede que o em prego do aguilhão cause tantas vezes a m orte do inseto. Com efeito, se a aptidão a picar é útil à com unidade, ela reúne todos os elem entos necessários para expor-se à seleção natural, apesar de causar a m orte a alguns dos seus m em bros. Adm iram os o surpreendente poder do olfato que perm ite aos m achos de um grande núm ero de insetos encontrar a sua fêm ea, m as podem os nós adm irar nas abelhas a produção de tantos m ilhares de m achos que, à exceção de um único, são com pletam ente inúteis à com unidade e que term inam por ser trucidados pelos irm ãos industriosos e estéreis? Por m ais repugnância que tenham os para o fazer, deveríam os adm irar a selvagem aversão instintiva que possui a abelha-m estra para destruir, desde o nascim ento, as novas m estras, suas filhas, ou ela própria a m orrer no com bate; não é duvidoso, com efeito, que atua para bem da com unidade e que, ante o inexorável princípio da seleção natural, pouco im porta o am or ou o ódio m aternal, posto que este últim o sentim ento sej a felizm ente de excessiva raridade. Adm iram os as com binações tão diversas, tão engenhosas, que asseguram a fecundação das orquídeas e de m uitas outras plantas pela intervenção dos insetos; m as podem os nós considerar com o igualm ente perfeita a produção, nos nossos pinheiros, de espessas nuvens de pólen, de m aneira a que algum as sem entes possam som ente cair por acaso sobre os óvulos?
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RESUMO: A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL COMPREENDE A LEI DA